Cartografia ttil: mapas e grficos tteis em aulas inclusivas

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    Cartografia ttil: mapas e grficos tteis

    em aulas inclusivas

    Bruno ZucheratoBacharel, Licenciado e Mestrando do Programa de Ps-Graduao em

    Geografia do Instituto de Geocincias e Cincias Exatas UNESP/Rio Claro

    Paula Cristiane Strina JuliaszBacharel e Licenciada em Geografia, Especialista na Pesquisa em Cartografia e Mestranda do Programa de Ps-Graduao em

    Geografia do Instituto de Geocincias e Cincias Exatas UNESP/Rio Claro

    Maria Isabel Castreghini de FreitasProfessor Assistente (Livre-Docente) em Cartografia e Sistemas de Informao Geogrfica do Departamento de Planejamento Territo-

    rial e Geoprocessamento do Instituto de Geocincias e Cincias Exatas UNESP/Rio Claro

    1. Cartografia e incluso do deficiente visual

    Nos tempos atuais, a prtica docente requer profissionais que possam perceber a re-alidade do aluno e, a partir dessa percepo, estruturar os conhecimentos de forma que o processo de ensino-aprendizagem parta da realidade dele. Nessa prtica, o professor atua como mediador entre a realidade e a construo do conhecimento. Isso significa conhecer o mnimo das potencialidades e dificuldades do aluno para, ento, direcionar o ensino de uma maneira que este possa se traduzir como uma prtica efetiva.

    A imerso na realidade do educando, muitas vezes, no uma tarefa simples, quando falamos do ensino especial voltado a indivduos com limitaes visuais, cegos e pessoas com baixa viso. Nesse contexto, a compreenso do que ser cego no acontece quando fechamos nossos olhos, buscando simular a situao da cegueira, mas sim quando buscamos entender como uma pessoa cega concebe o mundo e como interage com ele por meio dos sentidos remanescentes, principalmente o tato e a audio.

    Quando ensinamos Geografia a um cego no podemos simplesmente verbalizar o con-tedo escrito, descrever elementos da paisagem, ou elaborar os mapas em baixo ou alto re-

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    levo. Temos que mergulhar em um mundo onde os conhecimentos so construdos de outra forma.

    Nesse mbito destacamos para o ensino de Geografia a utilizao da cartografia ttil como meio de inserir o aluno deficiente visual no entendimento do contedo escolar, com a utilizao de seus demais sentidos.

    A cartografia ttil consiste em uma rea especfica da cartografia dedicada ao desen-volvimento metodolgico e produo de material didtico, bem como sua aplicao no en-sino de conceitos cartogrficos e geogrficos para alunos com deficincia visual. O material usual corresponde a mapas, maquetes e grficos tteis.

    No projeto que desenvolvemos no Grupo de Cartografia Ttil do CEAPLA/UNESP Rio Claro, nossa maior preocupao foi, alm de organizar um conhecimento a partir da realidade da pessoa com deficincia visual, propor tcnicas simples de construo de maque-tes, mapas e jogos tteis com a utilizao de materiais fceis e acessveis prtica em sala de aula.

    Atualmente, diversas so as polticas pblicas para a incluso de alunos com deficin-cia visual na escola regular. A Declarao de Salamanca, documento que foi elaborado na Conferncia Mundial de Educao Especial que se realizou neste local da Espanha no ano de 1994, fundamenta prticas inclusivas por meio das escolas integradoras, recomendando que todas as crianas, sempre que possvel, devam aprender juntas, independentemente de suas dificuldades e diferenas (UNESCO, 1994).

    Para trabalharmos com o aluno com deficincia visual, necessrio termos um conhe-cimento sobre suas dificuldades e potencialidades e, ento, utilizarmos esse conhecimento para promover uma integrao entre ele e os demais alunos da sala de aula. Dessa maneira, a prtica inclusiva efetivada e ao aluno sem deficincia damos a oportunidade de conhecer o diferente, e aprender com essa diferena. Ao desenvolvermos atividades integradas, mos-tramos aos alunos sem deficincias visuais graves que existem outras maneiras de organizar, perceber e aprender coisas sobre o mundo. Ao aluno com deficincia propiciado o ensino de qualidade, apresentando contedos didticos sob a sua prpria perspectiva. Aos professores apresentamos o desafio do ensino integrado sob diferentes perspectivas, ditas alternativas.

    2. Experincias e possibilidades didticas da Cartografia Ttil

    Em sala de aula, existem muitas possibilidades de fazer uso de material didtico ttil para o ensino de Geografia. As experincias aqui apresentadas tratam do uso de grficos

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    e mapas tteis desenvolvidos em projetos do Grupo de Cartografia Ttil da UNESP Rio Claro, testados e aprimorados em atividades didticas em escolas da regio de Araras e Rio Claro no estado de So Paulo.

    2.1 Grficos Tteis

    Os grficos constituem-se como importantes instrumentos para o ensino. Seu desen-volvimento e utilizao remetem aos estudos realizados por Descartes na elaborao do plano cartesiano, e sua utilizao com aplicaes em Geografia remetem ao gegrafo francs Playfair.

    A utilizao dos grficos pode ser til na medida em que transmite uma relao visual e instantnea de proporo de diferentes quantidades.

    Por exemplo, estabelecer a diferena entre dois e quatro objetos mais fcil quando vi-sualizamos as duas quantidades de objetos. Neste caso, a utilizao de grficos pode auxiliar na compreenso da diferena de proporo, tornando-se uma boa alternativa para o ensino. Mas, se estamos falando de educao especial, no caso educao de alunos cegos e de baixa viso, o ensino dos grficos to importante assim?

    Ora, se na prtica inclusiva o principal objetivo disponibilizar um ensino equivalente a alunos com ou sem deficincias, precisamos ensinar grficos para alunos cegos e com baixa viso devido a sua presena constante em nosso cotidiano, como em notcias de jornal, revis-tas etc. Quando um deficiente visual sabe ler, construir e interpretar um grfico, ele est, na realidade, preparando-se para a vivncia cotidiana.

    Os principais tipos de grfico que encontramos e que so mais utilizados no ensino de Geografia so os histogramas, conhecidos tambm como grfico de barras e o setogramas, conhecidos tambm como grficos de pizza.

    O grfico de histogramas representa a distribuio de frequncia e possibilita uma anlise visual da quantidade dessa distribuio. So utilizados dois eixos perpendiculares, sendo que um deles o eixo X que, geralmente, representa a unidade do fenmeno; o outro eixo o Y que representa a variao do fenmeno apresentado. Esse, por sua vez, pode ser espacial, temporal etc.

    O Histograma foi inventado por Karl Pearson, um matemtico britnico, e se constitui em uma representao grfica especfica para mostrar a distribuio de frequncia em uma srie de dados. Esse tipo de grfico considera colunas justapostas com reas proporcionais s frequncias absolutas e com bases proporcionais aos intervalos das classes (Martinelli, 1998).

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    Uma utilizao adequada de grficos de histogramas pode trazer para as aulas certa dinamicidade e o estabelecimento da construo de um conhecimento mais efetivo do que no uso de tabelas.

    O setograma a representao mais adequada para comparar parcelas com o total. Esse tipo de grfico utiliza como base um crculo de raio qualquer, representativo do total, que ser dividido em setores proporcionais s parcelas. Foi inventado por Playfair em 1805. A construo do setograma simples: o total corresponde a 360, portanto o clculo para cada setor circular ser feito por uma regra de trs (MARTINELLI, 1998).

    O grfico de setogramas muito utilizado em aplicaes cuja soma de todos os valores das classes representadas resultem em porcentagens.

    Podemos perceber que a utilizao dos grficos de setogramas facilita o estabeleci-mento da relao entre as propores representadas. A resposta comparao entre tais propores imediata, permitindo a compreenso do fenmeno.

    Alm de apresentar uma resposta visual, os grficos tteis estabelecem a comunicao por meio do tato, utilizando texturas diferentes para cada classe temtica, viabilizando sua diferenciao por alunos cegos, alm de cores fortes e contrastantes para que os alunos com baixa viso possam estimular seu resduo visual. Para trazer uma melhor dinamicidade construo dos grficos, nossa metodologia consiste em um material desmontvel que per-mite uma utilizao mais ampla e de acordo com as necessidades de ensino.

    Para a elaborao dos grficos tteis aqui apresentados, deve ser montada uma pran-cha, que consiste em uma pea de papelo revestida por feltro, a qual permite a fixao das peas do grfico a ser montado (Vide foto 1). Essa pea deve ser do tamanho de uma folha A4, ou um pouco maior, de forma a permitir o adequado manuseio por parte dos alunos com deficincia visual.

    De acordo com a nossa experincia, os materiais tteis devem ser de um tamanho tal que permitam a manipulao ao alcance das duas mos do aluno na explorao ttil. O professor, ao elaborar esse tipo de material, deve ficar atento s caractersticas de tamanho relativas faixa etria do aluno usurio.

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    Foto 1 Exemplo de prancha de grfico ttil

    Fonte: Elaborao prpria.

    Para as peas do grfico de histogramas, devemos recortar pequenos quadrados com cores e texturas diferenciadas, podendo utilizar peas de E.V.A, papel carto, camura, papel micro ondulado, polionda, entre outros. Os quadrados devem ter um tamanho que o aluno possa manusear com facilidade, no menos do que 2,5 cm (comprimento) x 2,5 cm (largura).

    importante que as peas possuam cores diferenciadas e contrastantes para esti