CARVALHO, José Murilo de

  • View
    218

  • Download
    0

Embed Size (px)

Text of CARVALHO, José Murilo de

CARVALHO, Jos Murilo de

CARVALHO, Jos Murilo de. Cidadania no Brasil. O longo Caminho. 3 ed. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 2002.CIDADANIA NO BRASILJos Murilo de Carvalho

CIDADANIA NO BRASILO longo caminho

3 ed. Rio de Janeiro2002

SUMRIOINTRODUO: MAPA DA VIAGEM, 7

Captulo I: Primeiros passos (1822-1930) 15O peso do passado (1500-1822) 17

1822: os direitos polticos saem na frente 25

1881: tropeo 38

Direitos civis s na lei 45

Cidados em negativo 64O sentimento nacional 76

Captulo II: Marcha acelerada (1930-1964) 85

1930: Marco divisrio 89Os direitos sociais na dianteira (1930-1945) 110

A vez dos direitos polticos (1945-1964) 126

Confronto e fim da democracia 144

Captulo III: Passo atrs, passo adiante (1964-1985) 155Passo atrs: Nova ditadura (1964-1974) 158

Novamente os direitos sociais 170

Passo adiante: voltam os direitos civis e polticos (1974-1985) 173

Um balano do perodo militar 190

Captulo IV: A cidadania aps a redemocratizao 197

A expanso final dos direitos polticos 200

Direitos sociais sobre ameaa 206

Direitos civis retardatrios 209

Concluso: A cidadania na encruzilhada 219

Sugestes de leitura 231

Introduo: Mapa da viagem

O esforo de reconstruo, melhor dito, de construo da democracia no Brasil ganhou mpeto aps o fim da ditadura militar, em 1985. Uma das marcas desse esforo a voga que assumiu a palavra cidadania. Polticos, jornalistas, intelectuais, lderes sindicais, dirigentes de associaes, simples cidados, todos a adotaram. A cidadania, literalmente, caiu na boca do povo. Mais ainda, ela substituiu o prprio povo na retrica poltica. No se diz mais "o povo quer isto ou aquilo", diz-se "a cidadania quer". Cidadania virou gente. No auge do entusiasmo cvico, chamamos a Constituio de 1988 de Constituio Cidad.

Havia ingenuidade no entusiasmo. Havia a crena de que a democratizao das instituies traria rapidamente a felicidade nacional. Pensava-se que o fato de termos reconquistado o direito de eleger nossos prefeitos, governadores e presidente da Repblica seria garantia de liberdade, de participao, de segurana, de desenvolvimento, de emprego, de justia social. De liberdade, ele foi. A manifestao do pensamento livre, a ao poltica e sindical livre. De participao tambm. O direito do voto nunca foi to difundido. Mas as coisas no caminharam to bem em outras reas. Pelo contrrio. j 15 anos passados desde o fim da ditadura, problemas

7

JOS MURILO DE CARVALHO

centrais de nossa sociedade, como a violncia urbana, o desemprego, o analfabetismo, a m qualidade da educao, a oferta inadequada dos servios de sade e saneamento, e as grandes desigualdades sociais e econmicas ou continuam sem soluo, ou se agravam, ou, quando melhoram, em ritmo muito lento. Em conseqncia, os prprios mecanismos e agentes do sistema democrtico, como as eleies, os partidos, o Congresso, os polticos, se desgastam e perdem a confiana dos cidados.

No h indcios de que a descrena dos cidados tenha gerado saudosismo em relao ao governo militar, do qual a nova gerao nem mesmo se recorda. Nem h indicao de perigo imediato para o sistema democrtico. No entanto, a falta de perspectiva de melhoras importantes a curto prazo, inclusive por motivos que tm a ver com a crescente dependncia do pas em relao ordem econmica internacional, fator inquietante, no apenas pelo sofrimento humano que representa de imediato como, a mdio prazo, pela possvel tentao que pode gerar de solues que signifiquem retrocesso em conquistas j feitas. importante, ento, refletir sobre o problema da cidadania, sobre seu significado, sua evoluo histrica e suas perspectivas. Ser exerccio adequado para o momento da passagem dos 500 anos da conquista dessas terras pelos portugueses.

Inicio a discusso dizendo que o fenmeno da cidadania complexo e historicamente definido. A breve introduo acima j indica sua complexidade. O exerccio de certos direitos, como a liberdade de pensamento e o voto, no gera automaticamente o gozo de outros, como a segurana e o emprego. O exerccio do voto no garante a existncia de governos atentos aos problemas bsicos da populao. Dito de outra maneira: a

8

CIDADANIA NO BRASIL

liberdade e a participao no levam autom:uicamente, ou rapidamente, resoluo de problemas sociais. Isto quer dizer que a cidadania inclui vrias dimenses e que algumas podem estar presentes sem as outras. Uma cidadania plena, que combine liberdade, participao e igualdade para todos, um ideal desenvolvido no Ocidente e talvez inatingvel. Mas ele tem servido de parmetro para o julgamento da qualidade da cidadania em cada pas e em cada momento histrico.

Tornou-se costume desdobrar a cidadania em direitos civis, polticos e sociais. O cidado pleno seria aquele que fosse titular dos trs direitos. Cidados incompletos seriam os que possussem apenas alguns dos direitos. Os que no se beneficiassem de nenhum dos direitos seriam no-cidados. Esclareo os conceitos. Direitos civis so os direitos fundamentais vida, liberdade, propriedade, igualdade perante a lei. Eles se desdobram na garantia de ir e vir, de escolher o trabalho, de manifestar o pensamento, de organizar-se, de ter respeitada a inviolabilidade do lar e da correspondncia, de no ser preso a no ser pela autoridade competente e de acordo com as leis, de no ser condenado sem processo legal regular. So direitos cuja garantia se baseia na existncia de uma justia independente, eficiente, barata e acessvel a todos. So eles que garantem as relaes civilizadas entre as pessoas e a prpria existncia da sociedade civil surgida com o desenvolvimento do capitalismo. Sua pedra de toque a liberdade individual.

possvel haver direitos civis sem direitos polticos. Estes se referem participao do cidado no governo da sociedade. Seu exerccio limitado a parcela da populao e consiste na capacidade de fazer demonstraes polticas, de organizar partidos, de votar, de ser votado. Em geral, quando se fala de direitos polticos, do direito do voto que se est falando. Se

9

JOS MURILO DE CARVALHO

pode haver direitos civis sem direitos polticos, o contrrio no vivel. Sem os direitos civis, sobretudo a liberdade de opinio e organizao, os direitos polticos, sobretudo o voto, podem existir formalmente mas ficam esvaziados de contedo e servem antes para justificar governos do que para representar cidados. Os direitos polticos tm como instituio principal os partidos e um parlamento livre e representativo. So eles que conferem legitimidade organizao poltica da sociedade. Sua essncia a idia de autogoverno.

Finalmente, h os direitos sociais. Se os direitos civis garantem a vida em sociedade, se os direitos polticos garantem a participao no governo da sociedade, os direitos sociais garantem a participao na riqueza coletiva. Eles incluem o direito educao, ao trabalho, ao salrio justo, sade, aposentadoria. A garantia de sua vigncia depende da existncia de uma eficiente mquina administrativa do Poder Executivo. Em tese eles podem existir sem os direitos civis e certamente sem os direitos polticos. Podem mesmo ser usados em substituio aos direitos polticos. Mas, na ausncia de direitos civis e polticos, seu contedo e alcance tendem a ser arbitrrios. Os direitos sociais permitem s sociedades polticamente organizadas reduzir os excessos de desigualdade produzidos pelo capitalismo e garantir um mnimo de bem-estar para todos. A idia central em que se baseiam a da justia social.O autor que desenvolveu a distino entre as vrias dimenses da cidadania, T. A. Marshall, sugeriu tambm que ela, a cidadania, se desenvolveu na Inglaterra com muita lentido. Primeiro vieram os direitos civis, no sculo XVIII. Depois, no sculo XIX, surgiram os direitos polticos. Finalmente, os direitos sociais foram conquistados no sculo XX. Segundo ele, no se trata de seqncia apenas cronolgica: ela tambm

10

CIDADANIA NO BRASIL

lgica. Foi com base no exerccio dos direitos civis, nas liberdades civis, que os ingleses reivindicaram o direito de votar, de participar do governo de seu pas. A participao permitiu a eleio de operrios e a criao do Partido Trabalhista, que foram os responsveis pela introduo dos direitos sociais.

H, no entanto, uma exceo na seqncia de direitos, anotada pelo prprio Marshall. Trata-se da educao popular. Ela definida como direito social mas tem sido historicamente um pr-requisito para a expanso dos outros direitos.

Nos pases em que a cidadania se desenvolveu com mais rapidez, inclusive na Inglaterra, por uma razo ou outra a educao popular foi introduzi da. Foi ela que permitiu s pessoas tomarem conhecimento de seus direitos e se organizarem para lutar por eles. A ausncia de uma populao educada tem sido sempre um dos principais obstculos construo da cidadania civil e poltica.O surgimento seqencial dos direitos sugere que a prpria idia de direitos, e, portanto, a prpria cidadania, um fenmeno histrico. O ponto de chegada, o ideal da cidadania plena, pode ser semelhante, pelo menos na tradio ocidental dentro da qual nos movemos. Mas os caminhos so distintos e nem sempre seguem linha reta. Pode haver tambm desvios e retrocessos, no previstos por Marshall. O percurso ingls foi apenas um entre outros. A Frana, a Alemanha, os Estados Unidos, cada pas seguiu seu prprio caminho. O Brasil no exceo. Aqui no se aplica o modelo ingls. Ele nos serve apenas para comparar por contraste. Para dizer logo, houve no Brasil pelo menos duas diferenas importantes. A primeira refere-se maior nfase em um dos direitos, o social, em relao aos outros. A segunda refere-se alterao na seqncia em que os direitos foram adquiridos:

11

Jos MURILO DE CARVALHO

entre ns o social precedeu os outros. Como havia lgica na seqncia inglesa, uma alter