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CICATRIZES DA

Cicatrizes da Loucura

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Histórias de pacientes, funcionários, egressos e um “fugitivo” do manicômio da FHEMIG em Barbacena.

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CICATRIZES DAMemórias do manicômio tanto marcaram quanto insistem em silenciar os que viveram no Complexo Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena nos idos da década de 60. O cenário de então já foi equiparado a campos de concentração. Mas o novo modo de funcionamento do hospital, com internações breves que incentivam o convívio familiar, ao lado das residências-terapêuticas, apontam para perspectivas mais autônomas para os doentes mentais, antes tratados como seres sem direitos.

Texto Marcus V. F. LacerdaFotos Janine MoraesIlustração Gabriel BragaDiagramação Fábio Tito

LOUCURAEm Barbacena, marcas da história manicomial

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arco Antônio Oliveira foi in ter-nado aos 16 anos no Hos pital de Oliveira em Be lo Ho rizonte, Minas Gerais. Sem an dar depois

de uma queda, ho je, aos 40 anos, vive no Complexo Hos pitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB), no interior de Minas Gerais, e os funcio ná rios do hos-pital ainda o chamam de “Marquinho”.

Em 1969, os internos do CHPB ti-nham sua humanidade quase extirpa-da. Naquele ano, a superintendência da Fun dação Hospitalar do Estado de Mi-nas Gerais (FHEMIG) constatou que ha via quatro mil internos para dois mil leitos. Chegou a ter cinco mil. Cerca de 70% dos pacientes não tinham proble-mas psiquiátricos. Eram indigentes, bê bados ou arruaceiros levados pela po-lícia, além de filhos ou idosos deixados lá pelas famílias.

Entre cem a 200 pacientes, vítimas de maus tratos, morriam por mês. Os corpos eram cozidos em latões para retirar os esque letos inteiros que eram então vendidos a escolas de medicina. Todas cifras devidamente re gistradas em ca der nos de bro chura.

A cidade de Barbacena fica nas ter-ras que foram dadas a Joaquim Silvério dos Reis pela traição aos inconfidentes mi neiros. Já o manicômio, foi o prêmio a Barbacena na disputa com Belo Ho -rizonte pela a ca pi tal do es tado. A ci-dade abrigaria um hos pital psi qui á tri co nos moldes dos me lhores do país.

Às terças-feiras, o hospital-colônia re cebia novos pacientes vindos de trem des de a Bahia e desembarcados numa

es tação dentro da propriedade. Os sem documentos recebiam como so bre nome o nome do lugar de onde em bar ca ram no trem. Às quintas-feiras, chegaram à gare os poucos egressos que re cebiam alta e tinham regis tro de algum respon-sável. Alheios aos cos tumes externos ao manicômio, mui tos acabavam urinando e defecando nas pró prias roupas, ali na estação du rante a espera do trem. Eram man dados de volta para a instituição de on de mui tos acabaram transformando-se de paci entes em moradores.

Outros fugiam. “O ho mem foge do inferno que rendo viver”, argumenta Jai ro Toledo, que foi diretor do CHPB por 11 anos, sobre o caráter salutar da fu ga. Pe dro Joaquim dos Reis foi um dos

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fugitivos. Foi encon trado em meados de 60 por Antônio Pon ciano, proprietário de terra em Fa ria, povoado próximo a Bar bacena. Ele resolveu dar abrigo e cui da do a Pedro que vive na propriedade des de en tão. Foi criado junto com os filhos de Pon ciano. “Meu mari-do era severo com Pe dro, mas deu muito amor para ele”, lembra Maria Teresi-nha, viúva do tutor.

Levado ao hospital co-lô nia pela polícia, Pedro tem medo de pessoas far-da das. Hoje, vive num cô-modo contíguo à casa de Ponciano. Acha a casa dei-xada para ele pela esposa de Ponciano de-masiado grande.

Pedro pas sa os dias cuidando da horta e do gado, uma vida simples. Sobre sua sa í da

do manicômio, desconversa minei ra mente. Alguns dedos de prosa depois se abre: “Eu fugi. Mas foi na vista dos to ma dor de con-ta!”, confessa sorridente.

Fiúca, seus filhos e seu genroMaria José Morei-

ra co me çou a traba lhar no CHPB em 1960. Era o que cha mavam de “toma-dor-de-conta” e todos a co nhe ciam por Fiúca. “A gente dava ba nho, cor ta va o ca be lo, as unhas”, conta Fiúca na vivacidade dos se us 80 anos. Fa zia de tu-

do. De varrer os pavilhões com vassouras de cipreste a pro curar no mato por broto de goi a ba para con ter os recorren tes sur tos de diarréia dos pa cientes.

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“Eu fugi. Mas foi na vista dos tomador de conta!” - Pedro Joaquim

Pedro foi acolhido por Antônio Ponciano que quando morreu pediu aos filhos: “Cuida dele como se fosse irmão de vocês.” À esquerda, Adelino, interno que fazia empréstimos a funcionários

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Assim como Fiúca, Pedro e Francisca tam bém trabalharam no manicômio. Ao con trá rio do que ocorria quando a mãe en trou, os antigos “tomadores de conta” foram substitu í dos por enfermeiros e pro -fis sionais con cursados. Apro vados, os novos funcionários passavam por um trei namento. “Eu larguei quando chegou no eletrocho-que”, conta Francisca.

Pedro Vitorino fez o curso até o fim. Imo bilizava pacientes maiores que ele e apli cava eletrochoques em pacientes se guin do ordens dos psiquiatras. “Às ve zes eu perguntava pro paci en te ‘você vai se comportar?’. Daí eu não aplica va”, re lembra

Pedro. Não gostava daquela ta re fa. “Era mui ta judiação aquilo.”

Os garfos enferrujados e as camas dei -xadas no almoxarifado, que apareci am ma-gicamente em dia de fiscalização, revoltavam o casal. “Eu vi paciente ten do o dente tira-do com martelo. Que nem faz com ca valo”,

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“Eu fui fazer o treinamen to, mas

larguei quando chegou no eletrochoque” - Francisca, filha de Fiúca

Com os bolsos cheios de comprimidos, Fi úca fi ca va de olho nos in-ternos. No caso de um sur to pe rigo so dava a injeção “en tortadei ra”, um an ti-psicótico que provocava contrações. De pois aplicava um an ti-parkinsoniano, a injeção “desentortadeira”. Fi úca não possuía nenhu ma for mação médica. Ape -nas as diretrizes que lhe foram dadas.

Fiúca conhecia os in ternos pe los no mes, apelidos e manias. “Às ve zes a gente tinha que esticar o plantão porque tinha um que não queria co mer. Só comia se fos se comi-go”, relembra. Fiúca levava pa cientes para aniversários e casamentos de sua família. “Se eles tão lá dentro é porque Deus quis. A gente tem é que cuidar deles.”

Uma das internas que tinha uma relação muito próxima com Fiúca era Se-lita. Um dia, a filha de Fiúca, Francisca realizou um de sejo de Selita, que estava grávida: levou-lhe uma marmita de angu com qui abo. Satisfeita, Se li ta retribui: “Esse ne ném aqui é seu”.

O processo de adoção foi atribulado, mas o bebê aca bou indo para a casa de Fran cisca e Pedro Vitorino, seu marido e ex-ca bo da Aeronáutica. Simo ne, hoje uma mulher de 38 anos, ajuda os pais a pon to de ser da da como “o braço direito da casa”.

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Francisca, Pedro Vitorino, Fiúca, Raimundo e Simone: uma família com uma história intimamente ligada ao CHPB

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relembra Pedro. Tan to ele quanto a mu -lher engajaram-se na luta sindical e no mo vimento an ti ma nicomial. Nas greves, da vam al ta pa ra os pacientes agudos, suspendiam os am bulatórios e impediam as entradas de novos internos.

Reformando o infernoEm 1979, jovens pro fis sionais

coloca ram a questão no III Con gresso Mi neiro de Psiquiatria. O psi quiatra ita liano Ba sa glia, grande no me da luta an timanicomial, esteve no CHPB e com parou o lugar aos campos de con-centração. “A noção de humanização dos antigos di re tores era dar farinha e fumo”, relata o psiquiatra Jai ro Toledo.

Hoje, a função do manicômio não é mais de isolar o doente. As internações, que antes beiravam a eternidade, são limitadas a 30 dias, em casos de cri se. “À medida que os pacientes mais ve lhos morrem ou recebem alta, os lei tos se ex-tinguem”, explica o Dr. Mau ro Bor go, neurologista e atual diretor do hospital. Atualmente a instituição possui pou co mais de 300 internos.

A estrutura atual do CHPB é uma amo s tra da mudança. O Hospital Re gio-nal de Barbacena e o Museu da Lou cura substituem espaços antigos do manicô-mio. E, no atual centro de convivência, os pacientes realizam trabalhos ma-nuais. A terapeuta Lina Ladeira afirma que a in ternação prolongada gera um quadro de demência nos internos, mar-cas que podem ser percebidas nos tra-balhos artísticos de agora: formas igno-tas e sem expressão.

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Atualmente, dentro do hospital tam bém há a réplica de uma casa. Ali, os pa cientes aprendem a levar a vida autonôma que lhes foi privada durante os anos de internação no manicômio. Acender um fogão, cuidar de uma casa, tomar banho sozinho, se alimen-tar, pequenos gestos de resgate. Preparam-se para sair da ins tituição e viver em uma residência-te rapêutica com outros egressos.

Residências-terapêuticas Grimalda de Jesus não queria sair do

manicômio. Escolhida com outras cin co pa-cientes para morar na primeira re si dên cia-terapêutica de Bar bacena, ela se fez de louca - pintou-se exageradamente, despente ou o cabelo e, apesar do calor, vestiu moleton. “Fiquei com medo de ser jogada na rua”, confessa Grimalda, sor rindo. Hoje vive em uma mo radia arrumada e decorada, que di-vide apenas com outra ex-paciente. Efusiva, Grimalda ciceroneia pesquisadoras, carto-mantes e re pórteres que visitam a cidade.

As residências-terapêuticas são casas onde moram ex-internos dos mani cô mios da cidade. “São escolhidos os pa cientes mais dotados de autonomia”, ex plica Le andra Vidal, da coordenação de Saúde Mental da cidade. Barbacena tem 26 das 59 residên-cias-terapêuticas de Minas Ge rais. As casas são muito organizadas. Va silhas com os me-dicamentos de cada mo rador são discrimi-nadas com nome e fo to dos donos.

No mural da residência-terapêutica ficam os telefones úteis e os PTI (Plano Terapêutico In dividual). “O sentido aqui é dar ao mo rador a oportunidade de melhorar na quilo que ele quer melhorar”, conta Le-andra. “O grau de falta de autonomia por

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conta de fazerem tudo para eles no hos-pício era tal que eles não sa biam mais nem co mo apagar a luz.”

Com o auxílio que recebem do pro-grama “De volta para casa”, do Mi-nistério da Saúde, os moradores das residências-te ra pêu ticas se sustentam e fazem planos. Na casa de Maria de Lour des, Raimunda Vieira e Maria Go -mes, as três senhoras mostram, com uma alegria juvenil, fotos de viagens. “A gente só não foi ainda para o Japão”, brin ca Maria de Lourdes.

Mesmo tendo sido agiota no mani-cô mio, Adelino Rodrigues teve que rea-prender a lidar com dinheiro em sua vi-da fora do manicômio. “Eu paguei mi nha pro messa para Nossa Senhora, com prei meus móveis”, conta e mostra o sorriso pontilhado de obturações dou radas.

Em outra residência-terapêutica moram Geraldinho, Ca bo e mais quatro ex-pacientes. Geraldo An tônio da Silva tem 53 anos. “As me ninas não acreditam quando eu falo a i dade”, ga ba-se ele que marca encontros pela in ternet mas aca-ba por deixar as “meninas”, como cos-tuma falar, a ver navios.

Cabo, outro morador, é um ti po taci-turno. Tido como mudo em seu tempo de manicômio, certa vez foi chamado junto com outros internos para ajudar no des carregamento de telhas para a casa de Jairo Toledo. Aos poucos, pas-sou a assinar e a conversar, ainda que só o mí nimo necessário. Perguntado pelo motivo de permanecer mudo durante tantos anos, respondeu sem pestanejar: “Ué, ninguém me perguntava nada!”

Jair Arantes, que vive coma irmã: “Sou presidente do Brasil desde quando eucriei o MinistérioPresidencial”.

À esquerda: Grimalda, Maria Gomes e Lourdes. Moradoras de residências-terapêuticas.

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