Cinema, partiCipação estétiCa e imaginação Cinema ...· Cinema, partiCipação estétiCa e imaginação*

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  • Cinema, partiCipao esttiCa e imaginao*

    Cinema, aesthetiC partiCipation and imagination

    Monica Fantin**

    resumo: O texto apresenta alguns entendimentos sobre cinema como arte, dispositivo, indstria e linguagem. Ao situar alguns elementos da participao esttica que o cinema promove, discute-se como os modos de ver modificam-se conforme os diferentes contextos de recepo e como podem repercutir na construo de significados e nos processos de imaginao desencadeados a partir dos filmes. A partir da interface entre cinema e imaginao, o texto individualiza alguns aspectos para pensar a criana nesta relao. Por fim, ao destacar as possibilidades de fruio e imaginao tendo o cinema com mediador, o artigo sinaliza outras formas de mediao e sugere a perspectiva da mdia-educao a fim de potencializar a participao esttica de crianas em um percurso que pode envolver fruio, anlise e produo.

    palavras-chave: Cinema. Imaginao. Crianas. Mediaes educativas.

  • 534 Revista Pedaggica - UNOCHAPEC - Ano -17 - n. 30 vol. 01 - jan./jun. 2013

    MONiCA FANtiN

    abstract: This paper presents some insights about cinema as art, device, industry and language. By situating some elements of the aesthetic participation that the cinema promotes, the discussion is made on how the ways of seeing are modified according to the different contexts of reception and how they can impact on the construction of meanings and imagination processes triggeredfrom the movies. From the interface between cinema and imagination, the text individualizes some ways to think about the child in this relationship. Finally, to highlight the possibilities of enjoyment and imagination understanding the cinema as a mediator, the article indicates other forms of mediation and suggests the perspective of media education in order to enhance the aesthetic interest of children on a path that may involve enjoyment, analysis and production.

    Keywords: Cinema. Imagination. Children. Educational mediations.

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    CiNEmA, PARtiCiPAO EsttiCA E imAgiNAO

    alguns entendimentos sobre o cinema

    Refletir sobre o que cinema condio fundamental para compreendermos a experincia cultural das crianas com os fil-mes. O que o cinema, afinal? arte, entretenimento, cultura? narrativa, linguagem, dispositivo? instrumento, meio ou fim? tudo isso ao mesmo tempo? Quais dessas dimenses so mais im-portantes na perspectiva da educao?

    Para responder a tais perguntas, mesmo percorrendo a histria do cinema construda em mais de cem anos, dificilmente encon-traramos respostas definitivas diante do significativo nmero de teorias explicativas sobre as diversas formas de pensar o cinema, sua estrutura, suas linguagens e seus possveis significados. Ex-plicar a relao filme-espectador implica caracterizar, discutir e avaliar o tipo de experincia que o cinema oferece e dependendo da teoria que se utilize o cinema pode significar coisas diferen-tes: arte, entretenimento, consumo, ideologia, novas percepes, conscincia da realidade, identificaes, poesia, sonho, emoes. Enfim, h diversas formas de participao nas fronteiras da expe-rincia cinematogrfica.

    Se comearmos com a discusso conceitual sobre o que ci-nema, segundo o dicionrio Aurlio: Cinema. 1. Arte de compor e realizar filmes cinematogrficos. 2. Cinematografia. 3. Projeo cinematogrfica. 4. Sala de espetculos onde se projetam filmes cinematogrficos. Nessa definio bsica que referenda lugares comuns sobre o cinema, podemos observa quatro sentidos do termo: arte, tcnica, espao fsico e linguagem.

    No Dicionrio Crtico de Poltica Cultural, quando se fala de cinema est se falando de um modo cultural, um domnio mais

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    MONiCA FANtiN

    amplo que envolve a cultura do cinema e no necessariamente de filmes, que seriam mais delimitados, j que um filme uma pe-lcula montada, sonorizada, com um sentido relativamente fixo e definido, como diz Teixeira Coelho (1999, p. 110). Para ele, a cultu-ra do cinema um universo em expanso que envolve desde aspec-tos da cotidianidade at as sofisticadas teorias e se infiltra por toda parte, desde a memria mais ntima roupa que se usa, enquanto que a cultura flmica se restringe a uns poucos campos, como o da academia, da universidade, dos livros e um ou outro mais.

    Embora a anlise esttica tenha predominado nos estudos so-bre cinema, alguns estudos da sociologia do cinema rompem com essa tradio ao estudar o cinema como entretenimento, narrativa e evento cultural. Turner (1988) apresenta o cinema como uma prtica social inserida no funcionamento da prpria cultura, e chama ateno s suas dimenses de produo, consumo, prazer e significao. Para o autor, hoje se aceita mais facilmente que a fun-o do cinema em nossa cultura v alm da dimenso de objeto esttico; o fato de o cinema popular situar-se numa arena voltada ao prazer do pblico faz com que o prazer por ele proporcionado seja diferente daquele envolvido na literatura ou nas belas-artes.

    Na dimenso da semitica, que particularmente nos interessa para pensar as possveis relaes entre os significados do filme e a imaginao, Metz (2002) analisa a instituio cinematogrfica e distingue os trs tipos de mquina: mquina econmico-produtiva do aparato; mquina psicolgica do espectador e mquina para-textual dos discursos sobre o filme. Ou seja, o estudo do cinema, e no exatamente o fato cinematogrfico, apresenta as trs aborda-gens: a econmica, a psicanaltica e a semitica ou lingustica1. Ao entender o cinema como instituio cinematogrfica, Metz des-taca que este fato sociocultural multidimensional inclui aconteci-

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    CiNEmA, PARtiCiPAO EsttiCA E imAgiNAO

    mentos pr-flmicos (como a infraestrutura econmica, a tecnolo-gia), ps-flmicos (distribuio, exibio e impacto poltico-social do filme) e a-flmicos (arquitetura e decorao da sala de cinema, ritual social de ida ao cinema). O filme, por sua vez, no seria o objeto fsico, mas um discurso localizvel como texto significante que tambm envolve sentido social, cultural e psicolgico (STAM, 2003, p. 130).

    Considerar que os filmes [...] so expresses alegricas do mo-mento de sua produo e, quando revistos, expressam novamente seu tempo no tempo presente de sua exibio. (ALMEIDA, 1999, p. 32) nos aproxima de um entendimento do filme como texto, lin-guagem, lugar de representao, momento de narrao que, com seus mltiplos significados, uma das formas como nossa cultura d sentido a si prpria.

    Dessa forma, cinema como instituio produo, distribuio, consumo, mercado; experincia onrica em que o ambiente es-curo e acolhedor da sala de projeo permite uma recepo se-miconsciente do filme como iluso ou sonho; e um corpo de discursos de diretores, da crtica, do pblico e da teoria sobre o cinema.

    Diante de um termo to polissmico, consideramos o cinema como objeto plural que possui dimenses estticas, cognitivas, sociais e psicolgicas e que envolve produo cultural, prtica so-cial e reflexo terica.

    Se pensarmos o cinema em relao com a linguagem semitica, neste objeto plural encontraremos pelo menos trs dimenses: 1) dimenso contextual, que se refere produo e ao consumo e envolve elementos econmicos, polticos, sociais e psicolgicos, sempre presentes tanto na atividade dos autores como no olhar do pblico na sala de cinema (ou na televiso); 2) dimenso tex-

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    MONiCA FANtiN

    tual, que seria o filme propriamente dito, envolvendo sobretudo elementos semiticos (estrutura e funcionamento), estticos (ex-pressividade) e culturais (produes ideolgicas, representaes histricas, imagens da cultura); e 3) dimenso paratextual, que se refere critica e teoria do cinema e diz respeito s duas primei-ras dimenses.

    Cinema como arte, indstria, dispositivo e linguagem

    Entender o cinema a partir de suas mltiplas determinaes significa entend-lo na complexidade das dimenses que o cons-tituem. Nas primeiras teorias do cinema, ele era definido a partir de suas relaes com as demais artes, absorvendo as artes espa-ciais (arquitetura, escultura e pintura) e as artes temporais (poe-sia, msica e dana). Por volta de 1910, considerar o cinema como arte total implicava recuperar uma sensibilidade perdida com a inveno da imprensa e redimension-la, pois o cinema era consi-derado a nica arte verdadeiramente moderna. Ao mesmo tempo, tericos com Adorno e Horkheimer (1985) previam o naufrgio da arte a partir do cinema, que para eles no sobreviveria vulga-rizao de uma cultura transformada em indstria.

    Hoje, entender o cinema como arte contempornea impli-ca perguntar se em razo de seu estatuto social de arte seria um qualificativo que deveria ser atribudo a uns poucos filmes ou a todos? O que considerado um filme-arte afinal? Obviamente tal pergunta remete ao conceito de autoria, questo fundamental para a cultura moderna que precisa ser problematizada2.

    Nos anos 1960, o estruturalismo e a semiologia comearam a exercer grande influncia nas discusses e teorias sobre o cinema,

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    CiNEmA, PARtiCiPAO EsttiCA E imAgiNAO

    que se preocupava com a maneira em que os filmes eram com-preendidos. Se a poltica dos autores valorizava certos diretores como artistas, para a semiologia todos os diretores so artistas e todos os filmes so arte, simplesmente porque o estatuto social-mente construdo do cinema o da arte. (STAM, 2003, p. 126).

    Os estudos da semitica voltavam sua ateno ao filme eviden-ciando o que nele permite produzir sentido, e isso reduziu a dis-cusso da arte e do belo a uma questo secundria, priorizando