Cinesioterapia na S­ndrome Dolorosa Miofascial

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A cinesioterapia é essencial no sucesso terapêutico da síndrome dolorosa miofascial (SDM). Consiste na aplicação de procedimentos que visam a melhorar o desempenho muscular e o potencial de força e resistência à fadiga; auxiliar os pacientes a identificar e corrigir as posturas antálgicas e compensatórias; permitir ao corpo realizar suas tarefas cotidianas no ambiente doméstico, de trabalho e na prática desportiva de maneira adequada e com menor risco de sobrecarga ou lesão ao sistema músculo-esquelético.

Text of Cinesioterapia na S­ndrome Dolorosa Miofascial

  • Introduo

    A cinesioterapia essencial no sucesso teraputico da sndromedolorosa miofascial (SDM). Consiste na aplicao de pro-cedimentos que visam a melhorar o desempenho muscu-lar e o potencial de fora e resistncia fadiga; auxiliar ospacientes a identificar e corrigir as posturas antlgicas ecompensatrias; permitir ao corpo realizar suas tarefas co-tidianas no ambiente domstico, de trabalho e na prticadesportiva de maneira adequada e com menor risco desobrecarga ou leso ao sistema msculo-esqueltico.

    A prescrio da cinesioterapia to importante quantoa prescrio de medicamentos, pois quando esta exe-cutada adequadamente, torna-se um agente teraputicomuito eficaz na reabilitao dos pacientes com dor msculo-esqueltica. Os critrios, as adaptaes e as adequaesconstituem os requisitos bsicos para iniciar um pro-grama de cinesioterapia e so determinados a partir deuma avaliao personalizada e modulada em funo dasatividades prprias de cada paciente. Por exemplo, ofuncionamento dos membros superiores de um pedrei-ro distinto de um violinista: a fora, a leveza e a des-treza so distintas, pois preenchem funes diferentes8;isso ocorre com a regio lombar: no pedreiro, maisdinmica, no violinista, mais esttica. Em cada caso hnecessidade de se adotar critrios especficos de avalia-o e conduta, mesmo que a sintomatologia seja simi-lar. Portanto, a cinesioterapia no pode ser comum atodos os pacientes, pois as causas so peculiares.

    Avaliar o corpo como um todo, com a observao analticado indivduo e integrando as caractersticas segmentaresao conjunto das funes corporais, durante a avaliaoesttica e a dinmica, permitir realizar o diagnstico fi-sioterpico e a partir deste estabelecer os objetivos dotratamento e os recursos a serem empregados. Na reali-zao de gestos cotidianos, como vestir-se, pentear-se,mudar de decbito e de posturas, atividades domsticase profissionais, o paciente deve ser avaliado quanto shabilidades em preparar e realizar as tarefas, se as reali-za com uma boa integrao e coordenao dos diversossegmentos do corpo, dentro de um perodo de tempo ade-quado e consumo energtico razovel16. Alm disso, preciso identificar as estruturas que esto comprometi-das, estabelecendo a relao entre as queixas dolorosas,os mecanismos causais e/ou perpetuantes e os achadosdo exame fsico.

    A cinesioterapia estimula o sistema sensrio-motorpara que os pacientes identifiquem os padres habituaisde tenso e, por meio desse reconhecimento no prpriocorpo, consigam resgatar o sinergismo muscular, per-mitindo realizar gestos do cotidiano com eficincia, eco-nomia, fluncia e menor risco de leso10.

    Conceitos Bsicosde Cinesioterapia

    Diversos autores e estudiosos do assunto propuserammtodos que estimulavam esse sistema neuropsicomotor,com os seguintes conceitos bsicos:

    Kabat14 baseou-se nos trabalhos de Sherrington edesenvolveu a facilitao neuromuscular proprioceptiva(FNP). Aplicou as leis da inervao recproca e su-cessivas indues de tcnicas de exerccios teraputicos.Iniciava a contrao de agonistas com relaxamento inibio de antagonistas. Sugeriu que o movimentovoluntrio do msculo podia ser facilitado pela aode outros e assim obtinha a melhora da coordenao,facilitava a estabilizao proximal e o ganho funcio-nal progressivo.

    Moshe Feldenkrais10 fundamentou seu trabalho nasensibilidade cinestsica, explorando o potencial demovimento para que uma nova configurao senso-rial e uma nova organizao neuromotora pudessemser aprendidas. Assim, alterava os padres de movi-mentos defeituosos aumentando a percepo deles.Acreditava que padro motor e sentimento formavamuma s funo, e que a atitude motora que acompa-nha cada sentimento muito especfica e diferenteda outra.

    Brunkow7 recomendava automatizao dos movimentosnormais e co-contraes dos msculos dos membrospara facilitar a estabilizao dos msculos do tronco,s vezes com estimulao de mecanorreceptorescutneos. A instruo era de distal para proximal, oque ativava cadeias musculares inteiras.

    Janda7 afirmava que a atividade reduzida e a fraque-za resultante de alguns msculos podiam decorrer depadres de movimento alterados, regulao motora edesempenho motor alterados. Considerava a progra-

    Cinesioterapia na Sndrome DolorosaMiofascialMaciel Murari Fernandes Cludio Dias Patricio

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    mao nervosa motora central comprometida comouma das pr-condies mais importantes para o desen-volvimento de sndromes de dor crnica. Salientava,tambm, a importncia da restaurao da propriocepo,pois informaes alteradas da periferia resultam eminformaes alteradas provenientes do sistema ner-voso central (SNC).

    Marie Madelene Bziers4 aperfeioou o conceito decoordenao motora segundo um princpio de orga-nizao fundamental do movimento e da forma doorganismo vivo da espcie humana. Descreveu o per-curso do movimento, desde a sua previso genticaat a sua efetivao na relao com o objeto, o espaoe com os outros seres.

    Lily Ehrenfried9 realizou um trabalho de conscienti-zao corporal por meio do movimento, fazendo agirsimultaneamente a respirao, o equilbrio e a tonicidadepara melhorar as funes do indivduo em seu todopsicossomtico. Empreendeu uma reeducao inte-gral do comportamento fsico conhecida como ginsticaholstica, tornando perceptvel sensao o que hde defeituoso nos movimentos e nas atitudes.

    Susanne Klein-Vogelbach7 desenvolveu o conceito decintica funcional baseando-se na observao, anlisee ensino do movimento humano; integrou o uso dabola, utilizando padres complexos de movimentos,estimulando receptores articulares, musculares etendneos.

    Godelieve Denys-Struyf17 desenvolveu um mtodo deleitura da postura, dos gestos e formas do corpo se-gundo uma viso psicocomportamental, por meio daanlise da forma humana na posio ereta, na sua pulsoglobal, evidenciando as diversas maneiras que cadaindivduo encontra para lidar com as imposies dagravidade, em diferentes arranjos e deslocamentos dasmassas corporais. A partir de um comportamento pre-ferencial e repetitivo, ou melhor, com a repetio damesma atitude neuromuscular, o corpo, com o tempo,torna-se portador de certas marcas que, se forem exces-sivas e fixadas, provocaro distrbios funcionais, de-sencadeando o quadro lgico. Conceituou seis cadeiasde tenso miofasciais correspondentes a linhas de tensoao longo do corpo, definidas pelo termo Cadeias Ms-culo-aponevrticas.

    Figura 42.2 (A D) Situaes em que o materialconsultado est fora do alcance adequado.

    A B C

    D

    Figura 42.1 (A C) Exemplos de situaes em que os reflexos ofuscam a viso.

    A B C

    Ofuscamentopor reflexo

    Ofuscamentodireto

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    Vclav Vojta19 adotou uma linha teraputica de dife-renciao da funo muscular nos dois padres delocomoo reflexa (o rastejar reflexo e o rolar refle-xo) que corresponde diferenciao da funo mus-cular da ontognese motora humana ideal. Procurouestimular aferentes sensitivos e motores para obteruma adequada resposta eferente durante a locomo-o reflexa e automtica.

    Todos esses mtodos proporcionam impulsos para osistema nervoso central (SNC) e estimulam neurniosespinhais e do SNC quiescentes ou pouco usados. Osneurnios motores e os neurnios sensoriais vizinhosso sensveis a impulsos provenientes da periferia e podemse adaptar durante o treinamento, contribuindo para arecuperao da funo espontnea das sndromes dolo-rosas msculo-esquelticas7.

    Os gestos cotidianos apresentam, muitas vezes, padresde movimentos prejudiciais ao corpo e por isso tornam-seos grandes responsveis pelo desencadeamento e perpe-tuao do quadro doloroso. Realizar tores com o tron-co dissociado da pelve durante o movimento de pegarobjetos de um lado do corpo e passar para o outro lado;flexionar o tronco sem fletir os joelhos e o quadril; le-vantar da cadeira sem um bom apoio dos ps so algunsexemplos de movimentos inadequados adotados pelosindivduos nas atividades dirias no lar e no trabalho.

    A conquista de um gesto adequado, seja no cotidia-no ou na prtica desportiva, depende de um trabalho decinesioterapia que vise criar referncias sobre a locali-zao de estruturas corporais, tocando-se e percebendoa forma da regio do corpo a ser movimentada, desco-brir como os segmentos se movem, quais msculos en-volvidos e segundo quais padres de movimentao. necessrio reunir os fundamentos de base para o exer-ccio, da mesma forma que antes preciso se posicionarcorretamente no interior de um veculo para depois acion-lo2. Deve-se preparar o corpo antes de us-lo3. Sherrington(1907), nos seus trabalhos de neurofisiologia, concluiuque todo corpo humano se prepara antes de executarcada movimento e que os movimentos servem para in-tegrar os diferentes elementos do corpo5.

    As pessoas fazem os mesmos gestos, mas cada umos faz sua maneira, como escrever, segurar o garfo,andar e subir uma escada, e correspondem s caracte-rsticas pessoais4. Dessa maneira, formam-se hbitos eo corpo tende a assumir as posies e posturas, comotambm a se acomodar s atividades que desempenha.A eficincia de um gesto pode ser medida por trs crit-rios bsicos: se ele alcana sua finalidade, o gasto ener-gtico e sua organizao interna11.

    De acordo com os critrios de investigao que sedetermina o tratamento cinesioteraputico e, por essarazo, os temas a seguir cervicobraquialgia e lombal-gia so exemplos selecionados, com enfoque na fun-o, para se discutir esses critrios neste captulo.

    CervicobraquialgiaA vida moderna estimula e impe que as pessoas pas-sem grande parte do dia sentadas e se isso no for feitoadequadamente possvel haver graves conseqncias sade e qualidade de vida. Segundo Grandjean13, aspessoas que executam funes com computador senta-

    das em estaes de trabalho apresentam uma freqn-cia de cervicalgia e d