Clientelismo Dissertacao

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    12-Jul-2015

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<p>Universidade de Braslia Instituto de Cincia Poltica Mestrado em Cincia Poltica</p> <p>Giovana Rocha Veloso</p> <p>Clientelismo uma Instituio Poltica Brasileira</p> <p>Braslia DF 2006</p> <p>2</p> <p>GIOVANA ROCHA VELOSO</p> <p>Clientelismo uma Instituio Poltica Brasileira</p> <p>Dissertao apresentada ao Instituto de Cincia Poltica da Universidade de Braslia, como requisito obteno do ttulo de Mestre em Cincia Poltica.</p> <p>Orientador: Prof Dr. Paulo Kramer</p> <p>Braslia DF 2006</p> <p>3</p> <p>GIOVANA ROCHA VELOSO</p> <p>Clientelismo uma Instituio Poltica BrasileiraDISSERTAO DEFENDIDA E APROVADA EM: BRASLIA DF, 11 /set/ 2006.</p> <p>BANCA EXAMINADORA:</p> <p>1. Prof. Dr. Paulo Kramer (orientador) Assinatura:____________________________ Nota:______________ 2. Prof. Dr. Silvana Krause (membro externo) Assinatura:____________________________ Nota:______________ 3. Prof. Dr. Ricardo Caldas (membro interno) Assinatura:____________________________ Nota:______________ 4. Prof. Dr. Paulo Calmon (suplente) Assinatura:____________________________ Nota: _____________</p> <p>4</p> <p>Agradeo ao Instituto de Cincia Poltica da UnB por ter me dado a oportunidade de realizar o mestrado. Ao professor Paulo Kramer por ter sido o meu orientador. Ao CNPq por ter me financiado com bolsa de estudos. Agradeo ao Grupo de Pesquisa Interinstitucional: Por que Defender a Democracia? das universidades</p> <p>UFG/UCG/UFMT, pelos frutferos dilogos que tive com parte de seus pesquisadores ao longo do mestrado. Agradeo os meus amigos: Thas, Carol, Dumara, Juliana, Priscila, Fabrcia, Leonardo, Cladio, Tnia, Rogrio, Catano, Hugo, Arquimedes, Frederico e minha irm Letcia, por terem me ajudado a tornar minha estada em Braslia mais fcil e prazerosa. Aos meus pais Humberto e Graa pelo imenso apoio em todas as etapas de minha vida. Em especial, agradeo Carmelita Freitas Felcio, que me acompanha deste a graduao, tendo sido minha orientadora neste perodo, por ter lido toda a dissertao, sendo uma leitora atenta e que veio com suas observaes a enriquecer ainda mais o meu texto.</p> <p>5</p> <p> minha amiga e mestre Carmelita, com respeito, admirao e carinho.</p> <p>6</p> <p>Os homens so realmente capazes de estabelecer um bom governo, com base na reflexo e na escolha. Eles no esto para sempre destinados a depender, para suas constituies polticas do ocidente e da fora. Hamilton.</p> <p>7</p> <p>RESUMO</p> <p>O trabalho em questo trata da tentativa de identificar e compreender um dos fatores que comprometem o fortalecimento da democracia no Brasil, o clientelismo. O foco central do texto saber como e se possvel consolidar instituies democrticas em um contexto em que valores conservadores e prticas da poltica tradicional so, ainda, profundamente arraigados. A hiptese que lano a de que o principal fator que garantiu a sobrevivncia do clientelismo no atual perodo democrtico a sua naturalizao no cenrio poltico. Assim, parto da seguinte constatao: o clientelismo uma instituio poltica no Brasil. E, como forma de se compreender a instituio clientelismo, e como esta se formou e se consolidou a partir dos novos marcos legais advindos da retomada da democracia no final da dcada de 1980, analiso o clientelismo sob trs perspectivas. O seu lugar dentro da teoria democrtica, a sua interao com fatores scio-culturais brasileiros que deram estmulos para a perenidade das relaes patronocliente, mesmo em cenrios modernizantes, e em um ltimo aspecto analiso a fora do clientelismo para o ordenamento da arena poltica-legislativa. Desta forma, como meio de verificar empiricamente estas asseres, analiso os deputados federais com mais de quatro mandatos consecutivos. A concluso que as trocas clientelsticas bem sucedidas so uma garantia de sucesso poltico, na medida em que esta capaz de adaptar-se ao novo marco institucional legal e dele tirar proveito para a sua permanncia no jogo poltico. Palavras-chave: democracia, clientelismo, deputados federais.</p> <p>8</p> <p>ABSTRACT</p> <p>The work in subject treats of the attempt of to identify and to understand one of the factors that commit the invigoration of the democracy in Brazil, the clientelism. The central focus of the text is to know as and if it is possible to consolidate democratic institutions in a context in that conservative values and practices of the traditional politics are, still, deeply ingrained. The hypothesis that I throw is that the principal factor that guaranteed the survival of the clientelism in the current democratic period is its naturalization in the political scenery. Like this, I leave of the following verification: the clientelism is a political institution in Brazil. Like this, as form of understanding the institution clientelism, and as this it was formed and consolidated starting from the new marks legal come from the retaking of the democracy in the end of the decade of 1980. I analyze the clientelism under three perspectives: its place inside of the democratic theory, its interaction with Brazilian partner-cultural factors that gave incentives for the everlasting of the relationships patronoclient, even in modernizing sceneries, and in a last aspect I analyze the force of the clientelism for the organization of the politicslegislative arena. This way, as middle of verifying these assertions empirically, I analyze the federal deputies with more than four consecutive mandates. The conclusion is that the changes clientelistics well happened they are a warranty of political success, in the measure in that this is capable to adapt to the new legal institutional mark and of him to remove advantage for his permanence in the political game. Key-words: democracy, clientelism, federal deputies.</p> <p>9 SUMRIO</p> <p>INTRODUO............................................................................................................. 11</p> <p>CAPTULO I CLIENTELISMO E DEMOCRACIA LIMITES E POSSIBILIDADES ................................................................................. 17 1.1 CONCEITUANDO CLIENTELISMO ........................................................................... 21 1. 2 DEMOCRACIA E CLIENTELISMO: POSSVEL A CONVIVNCIA?............................ 27 1.2.1 - Clientelismo e democracia: limites............................................................... 29 1.2.2 Democracia e clientelismo: possvel uma articulao?............................ 33</p> <p>CAPTULO 2 CENRIO POLTICO E INSTITUIES A FORA DA TRADIO......................................................................................... 47 2.1 DESENVOLVIMENTO DEMOCRTICO E INSTITUIES: UMA ABORDAGEM</p> <p>TERICA ....................................................................................................................... 49</p> <p>2.2</p> <p> A IMPORTNCIA DOS VALORES CULTURAIS NA FORMAO DAS INSTITUIES 62</p> <p>2.3 O CENRIO POLTICO E O DESENHO INSTITUCIONAL BRASILEIRO ...................... 71</p> <p>10</p> <p>CAPTULO 3 COMPORTAMENTO POLTICO E INCENTIVOS INSTITUCIONAIS: UM ESTUDO DE CASO ............................... 80 3.1 SISTEMA ELEITORAL: INCENTIVOS FORMAIS E COMPORTAMENTO ESTRATGICO .. 83 3.2 SISTEMA DE INCENTIVOS INTRAMUROS DO CONGRESSO NACIONAL: COOPERAOVERSUS DESERO.</p> <p>...................................................................................................... 89</p> <p>3.3 APRESENTAO DO ESTUDO DE CASO ................................................................. 96 3.4 ATRASO VERSUS MODERNIDADE: RELAO ENTRE DEPUTADOS, PREFEITOS ESOCIEDADE CIVIL ORGANIZADA. ................................................................................... 98</p> <p>3.5 ANTIGIDADE, PARTIDOS POLTICOS E EMENDAS AO ORAMENTO..................... 106 3.5.1 Emendas ao oramento. ............................................................................. 114</p> <p>CONCLUSO............................................................................................................. 121</p> <p>BIBLIOGRAFIA ........................................................................................................ 125</p> <p>ANEXOS...................................................................................................................... 140</p> <p>11</p> <p>INTRODUOA construo da democracia no Brasil passa, substancialmente, pelo amadurecimento e solidificao das instituies democrticas. Assim, considerando-se que as instituies so, as regras do jogo em uma sociedade e que abarca tanto as regras formais quanto as informais, pensar em uma construo da democracia , indubitavelmente, pensar sobre qual signo institucional almeja-se ser influenciado, e influenciar, para que se consiga a materializao da democracia desejada. A necessidade, portanto, de compreender os mecanismos institucionais que engendram o sistema poltico brasileiro o primeiro passo para o vislumbre de como, e em que instncias do-se esta solidificao. A questo levantada, neste trabalho, est em identificar os fatores que comprometem o fortalecimento da democracia no Brasil. Para tanto, entende-se aqui democracia no s no seu sentido stricto, apontado por Schumpeter (1984: 328) em que o mtodo democrtico um sistema institucional, para a tomada de decises polticas, no qual o indivduo adquire o poder de decidir mediante uma luta competitiva pelos votos do eleitor. Todavia, o cenrio brasileiro problemtico, na medida em que se tm pela frente duas grandes tarefas: consolidao das instituies democrticas e ampliao da cidadania que, invariavelmente, consubstancia-se pela dignidade humana. Assim, o sentido de democracia aplicado neste trabalho, mesmo que no esteja explcito em seu decorrer, est intimamente ligado edificao de instituies que possibilitem ao homem transpor o limiar que o separa da sociedade e passe a comp-la, investindo-o de direitos e deveres, tornando-o, enfim, um cidado. Afinal, citando Willy Brandt, preciso ousar mais democracia (BRANDT, apud MARAVALL: 2003,10).</p> <p>12 Desta forma, a pergunta central do trabalho : como possvel (ou se possvel) consolidar instituies democrticas em um contexto em que valores conservadores e prticas da poltica tradicional so ainda profundamente arraigados? E uma segunda pergunta : como a sobrevivncia de arranjos polticos tradicionais em cenrios modernizantes1 no conseguiu solapar de todo este mesmo processo de modernizao das instituies polticas? A hiptese que lano na tentativa de responder estas perguntas de que o principal fator que garantiu a sobrevivncia do clientelismo no atual perodo democrtico a sua aceitao cultural, ou naturalizao, pelos principais atores que atuam no sistema poltico. Assim, para tentar compreender este cenrio parto da seguinte constatao: o clientelismo uma instituio poltica no Brasil e como uma instituio, mesmo que informal, uma das suas principais caractersticas est na capacidade de reduzir as incertezas, geradas por comportamentos imprevisveis, e dada a sua eficincia de dirimir os conflitos, apresenta uma durabilidade relativa. Assim, como forma de se compreender a instituio clientelismo, e como esta se formou e se consolidou a partir dos novos marcos legais advindos da retomada da democracia no final da dcada de 1980, analiso o clientelismo sob trs perspectivas. O seu lugar dentro da teoria democrtica, a sua interao com fatores scio-culturais brasileiros que deram bojo e estmulos para a perenidade das relaes patronocliente, mesmo em cenrios modernizantes, e em um ltimo aspecto analiso a fora do clientelismo para o ordenamento da arena poltica-legislativa.</p> <p>1</p> <p>Neste trabalho a definio de modernidade, mesmo que no esteja explcita em seu decorrer, aproximase da formulao de tipo ideal weberiano de racionalidade burocrtica, em que a impessoalidade e a meritocracia so um dos seus fundamentos.</p> <p>13 Desta forma, no captulo 1 recomponho alguns aspectos da retomada da democracia no Brasil e uma das principais questes discutidas naquele perodo: at que ponto a nova democracia poderia resistir ao peso da histria poltica (que tem tanto um legado populista quanto autoritrio), ou ao peso da poltica tradicional que subverte o sentido democrtico ao utilizar-se do sistema para favorecer e perpetuar uma elite tradicional no governo? E como se questiona Francisco Weffort (1985), se de fato a democracia um sistema de administrao de conflitos, possvel excluir a possibilidade de que a democracia venha a morre dos mesmos conflitos que, em teoria, lhe daria vida? Passado mais de uma dcada aps a retomada da democracia, pode-se afirmar que a sombra de um retorno ao governo autoritrio-militar j no ameaa mais. Todavia, h ainda resqucios, de nossa tradio poltica, que sobrevivem neste novo cenrio institucional, e se de alguma forma este resqucio atravanca a democracia no Brasil, ainda no a enfraqueceu o suficiente para cairmos no segundo mal de nossa histria poltica, o populismo. Diante desta constatao a pergunta que se faz : como e por que a sobrevivncia de arranjos polticos tradicionais em cenrios modernizantes no conseguiu solapar de todo este mesmo processo de modernizao das instituies poltica? Ou ainda, como princpios de liberdade, igualdade e soberania popular, promovidos pela ideologia democrtica, convivem de forma no anacrnica com valores conservadores do arranjo clientelista, que por sua vez se pauta em um canal vertical de poder que tende a promover no a liberdade e a igualdade, mas sim a distino, a hierarquizao e o acesso controlado, por mecanismos no necessariamente meritocrticos, aos recursos de poder? em torno de se buscar respostas para estas perguntas que se desenvolve o captulo 1. No captulo 2, tento buscar explicaes scio-culturais para a aceitao natural na qual se d o arranjo clientelstico no Brasil, que to bem se expressa na frase, que se</p> <p>14 tornou jargo, ele rouba, mas faz. Tomado o clientelismo como resqucio, como um fenmeno social-tradicional, presume-se que este caminhar para o futuro, que continuar. a fora da tradio que molda os comportamentos dos atores envolvidos, limitando o rol de escolhas que estes podero realizar, quando se traduz na resposta sempre pronta: aqui sempre foi assim. Portanto, no segundo captulo abordarei a fora de nossas tradies polticocultural e social que contribuem para dar estmulos sobrevivncia e perenidade ao clientelismo, em um cenrio poltico-institucional modernizante (clientelismo aqui percebido como um arranjo oriundo de nossas prticas polticas tradicionais). Para tanto, retomo algumas asseres a respeito de teorias macrossociais que objetivam explicar o subdesenvolvimento poltico em decorrncia do atraso econmico. Em contraste com esta perspectiva, tomo fatores explicativos microssociais, como a perspectiva dos atores, tomando no s os policy-makers mas tambm considerando o marco institucional e o contexto histrico, cultural e poltico de forma a compreender a naturalizao das trocas clientelistas nos acordos polticos. No captulo 3, para dar maior validade e fora minha argumentao at ento desenvolvida, parto para a sua constatao emprica. Como a literatura sobre este tema aponta, o sucesso destes arranjos e o que garante a sua sobrevivncia a manuteno do acesso controlado aos canais que disponibilizam recurso...</p>