Como Salvar Darfur - au.af. ?· grande número de mulheres e crianças.1 Cerca de 2,7 milhões de pessoas,…

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Como Salvar DarfurAs Analogias Sedutoras e os Limites da Coero com o Uso de Potncia Area no SudoTenCel TimoThy Cullen, uSAF

NO IMPORTA O critrio de avalia-o usado, a crise humanitria em Darfur uma tragdia. Uma rebe-lio inesperada nos remotos estados de Darfur em 2003 compeliu o governo suda-ns em Kartum a iniciar campanha contra-insurgncia brutal, destruindo milhares de vi-larejos e matando seus habitantes, entre eles grande nmero de mulheres e crianas.1 Cerca de 2,7 milhes de pessoas, ainda hoje, deslo-cados de guerra dentro do prprio pas, com outras 250.000 mal subsistindo em campos de refugiados no outro lado da fronteira, em Tchad. Isso em regio de mais de 6 milhes de habitantes.2 Milhares de trabalhadores huma-nitrios arriscam sequestro e agresso de as-saltantes armados, a fim de tratar e alimentar aqueles afetados pelo conflito.3

Embora o nvel de violncia tenha decli-nado drasticamente desde 2004, as investidas aos povoados de Darfur pela milcia janjawiid e foras do governo, continuam. As campanhas na regio foram, em especial, brutais, com o governo usando helicpteros armados e aero-naves de carga Antonov para aterrorizar a popu-lao civil com projteis e bombas tambor repletas de explosivos e fragmentos de metal.4 As atrocidades e tticas do governo sudans receberam considervel ateno da mdia, or-ganizaes humanitrias e uma pletora de ce-lebridades de Hollywood. Entretanto, a comu-nidade internacional continua enfocada em diplomacia e no em aes decisivas.5 Vrios lderes comunitrios em al-Fashir, a capital do Darfur do Norte, apertaram a mo de dezenas de lderes de naes mas, ainda assim, a Orga-nizao das Naes Unidas (ONU) batalha, a fim de providenciar 50% das 26.000 pessoas j autorizadas para manter a paz e prosseguir regio em conflito.6

Os mtodos principais usados pela admi-nistrao Bush para confrontar o presidente do Sudo, Omar Hassan al-Bashir, foram san-es unilaterais e diplomacia dinmica. En-tretanto, o envolvimento americano pode es-calar, devido a eleio de Barack Obama ao poder. Reiterando as palavras do ex-Presidente George W. Bush, o Presidente Obama denomi-nou as aes do governo sudans em Darfur de genocdio, adicionando porm, que os Estados Unidos iriam demarcar uma zona de voo interditado para a regio.7 Os membros da antiga administrao Clinton e assessores de diretrizes de poltica exterior para a cam-panha de Obama equipararam as aes de al-Bashir s do ex-Presidente da Iugoslvia, Slo-bodan Milosevic. A embaixadora dos Estados Unidos na ONU em 2006, Susan Rice, alegou que a recusa de al-Bashir em aceitar o grupo de pessoal escalado para manter a paz, cla-mava pela destruio de sua fora area, com-parando a campanha area proposta vitria em Kosovo de 1999.8

De fato, uma coalizo de pases da OTAN estabeleceram zonas de voo interditado e leva-ram a cabo ataques areos para fins de opera-es humanitrias em Bosnia-Herzegovina e Kosovo. Contudo, ser que se pode fazer uma analogia entre aquele conflito e a presente si-tuao em Darfur? Como as campanhas areas nas antigas repblicas da Iugoslvia orienta-riam a estratgia da nova administrao em Darfur? As guerras, especialmente as mais re-centes, tipicamente dominam a mente dos l-deres polticos.9

O propsito desta anlise examinar as intervenes humanitrias americanas mais recentes, onde zonas de voo interditado facili-taram operaes de manuteno de paz e ex-ploraram como podem duplicar o curso de

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Figura 1. Reimpressa de http://www.un.org/Depts/Cartographic/map/profile/sudan.pdf

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atividades, teorias de sucesso e possveis op-es de diretrizes para Darfur.

Aps breve introduo da histria da crise em Darfur e a funo de analogias, a potn-cia area e coero em intervenes humani-trias, este artigo compara as suposies, si-milaridades e diferenas entre o conflito atual e as trs operaes humanitrias simila-res dos anos 90: a operao Provide Comfort no Iraque Setentrional, Deny Flight em Bosnia-Herzegovina e Allied Force em Kosovo.

As aes de al-Bashir de 2003 a 2004, em-bora no dissimilares s atrocidades perpetra-das por Saddam Hussein e Slobodan Milose-vic, so verdadeiramente horrendas. Contudo, a menos que haja imenso desvio na natureza do conflito sudans e no panorama geopol-tico total, improvvel que uma zona de voo interditado e ataques areos consigam impor justia ou alcanar a reao desejada pela ad-ministrao Obama. Muito pelo contrrio, as aes militares sob as presentes condies, provavelmente aumentaro o nvel de cats-trofe humana de forma drstica na regio e envolvero os Estados Unidos em conflito do qual dificilmente podero sair.

A Crise de DarfurA enorme crise poltica, humanitria e de

segurana em Darfur o resultado complexo de grupos de dissidentes armados provenien-tes das guerras civis de Tchad, a guerra civil entre Muulmanos rabes do Sudo Seten-trional e os Cristos Africanos do Sudo Meri-dional e conflitos localizados acerca de recur-sos em declnio, devido a superpopulao e desertificao. A precipitao do conflito ocorreu em abril de 2003, quando uma aliana de movimentos rebeldes islmicos e tribos africanas levaram a efeito ataques coordena-dos contra uma base area e outros destaca-mentos militares avanados, em Darfur. Os rebeldes explodiram aeronaves de carga e helicpteros do governo, capturando o co-mandante da base e executando 200 prisio-neiros do exrcito sudans, apesar de se have-rem rendido.10 A cronometragem dos ataques foi deliberada e de elevado custo ao governo, predominantemente rabe-Sudans, que ne-

gociava um acordo de diviso de poder com o movimento de liberao no Sudo Meridio-nal, aps duas dcadas de guerra civil.

O movimento africano em Darfur esperava adquirir seu justo quinho da riqueza nacio-nal e segurana, aps dcadas de seca cclica, anos de negligncia pelo governo central e usurpao violenta de solo agrcola pelos anti-gos rebeldes de Tchad e pastores rabes.11

O governo no conseguiu antecipar a ame-aa dos parentes pobres que viviam na regio ocidental do pas. Assim, a represso da revolta foi brutal e imediata. O regime de al-Bashir no podia depender do exrcito sudans para esmagar a insurreio, porque a maioria dos recrutas e oficiais subalternos eram provenien-tes de Darfur.12 Assim, o governo fez um pacto com os bandos armados e tribos rabes da re-gio, outorgando s tribos com rebanhos de camelos, o direito de perseguir as ambies territoriais em Darfur em cmbio da supresso da rebelio.13 De fato, o que aconteceu foi uma campanha de saneamento tnico ou contra-insurgncia barata.14 De 2003 a 2004, a milcia janjawiid, de rotina, cercava e quei-mava os vilarejos rebeldes, aps o bombardeio e metralhagem cerrada dos habitantes, de ae-ronaves sudanesas. Durante o processo de de-socupao dos povoados, os membros das mil-cias violavam jovens e mulheres, matavam o gado, atirando os pequeninos dentro das casas envoltas em chamas.15

As organizaes no-governamentais (ONGs) e a comunidade internacional reagi-ram com horror s atrocidades. Contudo, foi difcil coordenar a reao erupo de violn-cia. Muitos temiam que o conflito iria inter-romper as negociaes de paz da guerra civil no Sul, que j havia matado mais de dois mi-lhes de pessoas durante as duas dcadas ante-riores.16 Os Estados Unidos e os pases da OTAN no podiam investir grande nmero de tropas ou aceitar as baixas e a responsabilidade necessrias para operao combinada na rea, devido as guerras com o Iraque e Afeganisto. Assim, a comunidade internacional perseguiu amplas iniciativas diplomticas para com o re-gime de al-Bashir, de 2004 a 2007.17 Os empre-endimentos maiores incluiram melhor acesso organizaes humanitrias, orquestrando o

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Acordo Compreensivo de Paz [Comprehensive Peace Agreement-CPA] de 2005 entre o Sudo Setentrional e o Meridional, negociando o Acordo de Paz de Darfur [Darfur Peace Agree-ment] de 2006 entre o governo e os partidos dissidentes rebeldes, buscando o indiciamento de lderes por crimes de guerra pelo Tribunal Penal Internacional-TPI [International Criminal Court-ICC] e destacando as poucas e subequi-padas foras da Unio Africana [African Union-AU] juntamente com as foras das Naes Unidas para manter a paz.18 Devido a mera extenso territorial da regio, magnitude do conflito e mltiplos participantes e objetivos, foi difcil colocar em execuo estratgia clara e coerente.

As Similaridades da Crise de Darfur s Analogias

PredominantesO conflito em Darfur problema com o

qual os peritos na rea, legisladores e organi-zaes humanitrias vm se debatendo h muitos anos. difcil compreender e descre-ver o contexto subjacente da crise. Grard Prunier, autor prolfico, historiador e espe-cialista em assuntos da frica Oriental, adverte aos leitores em seu livro sobre Darfur de que ali nada faz sentido.19 medida que o Presi-dente Obama comea a mudar o enfoque, de questes domsticas internacionais, a ad-ministrao tentar fazer sentido. Os coment-rios pblicos dos assessores de diretrizes de poltica exterior sugerem que a administrao usar analogias histricas para facilitar a an-lise do conflito e advogar ao enrgica.20

Infelizmente, existem preconceitos identi-ficveis e sistemticos para com o uso de ana-logias histricas.21 Em muitos casos, as autori-dades competentes deixam de analisar conjeturas essenciais, ocultas em analogias histricas e esto dispostas a entrar em ao e defender as diretrizes mal-orientadas que as administraes poderiam evitar sob inspeo mais cuidadosa.22 As operaes Provide Comfort, Deny Flight e Allied Force so analogias perigosas e irresistveis para a crise em pauta, porque as condi