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Complexidade e Análise de Impactos Sociais

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Artigo apresentado durante o EnANPAD 2015, em Belo Horizonte, Brasil.

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    Integrando a complexidade na anlise dos impactos sociais

    Autoria: Artur Neves de Assis, Nrvia Ravena

    Agradecimentos CAPES Coordenao de Aperfeioamento de Pessoal de Nvel Superior pelo apoio recebido para o desenvolvimento deste estudo.

    Resumo: Promover a integrao entre diferentes avaliaes de impacto, especialmente avaliaes de impacto ambiental e de estratgias ambientais, um dos princpios do Social Impact Assement (SIA), sob o patrocnio da International Association for Impact Assessment (IAIA). Contudo, a efetivao deste princpio exige o desenvolvimento de um novo paradigma que reintegre o homem biolgico e o homem social, ou seja, a dimenso antropossocial e a dimenso biofsica, em um nico framework de anlise que possibilite avaliaes, simultaneamente, interpretativas e funcionais. O presente ensaio faz uma busca por esta integrao por intermdio da teoria da complexidade de Morin (2002). Consequentemente, a interveno social passa ser vista como uma interao de adaptao e seleo antropossocial intencional de carter auto-eco-organizacional. Palavras-Chave: Anlise de impactos sociais; SIA; complexidade; ao social; gesto de polticas pblicas. Introduo As consequncias imprevistas decorrentes das aes sociais intencionais ou planejadas (Chapin, 1936; Merton, 1936) h tempos representam um importante problema na formulao e gesto de polticas pblicas. Contudo, seu estudo parece retomar sua relevncia a partir da aprovao do National Environmental Act (NEPA), nos Estados Unidos, em 1970, a qual passa a exigir que as suas agncias federais realizem a anlise dos impactos ambientais previamente s suas aes utilizando abordagens interdisciplinares (Burdje & Vanclay, 1996; Freudenburg, 1986; Vanclay, 2006). Em 1973, o termo social impact assessment foi introduzido para se referir s consequncias na cultura e organizao social local decorrente das aes sociais no ecossistema natural como foi o caso da construo do oleoduto que liga Prudhoe Bay a Valdez, no Alaska, e que afetou os costumes e o modo de vida da tribo Inuit (Burdje & Vanclay, 1996). A partir de ento, o novo campo ou paradigma do Social Impact Assessment (SIA) tem se desenvolvido para aplicar os conhecimentos oriundos, principalmente, da sociologia na tentativa de prever os efeitos sociais decorrentes das alteraes ambientais causadas por projetos de desenvolvimento, sujeitos s legislaes NEPA e Canadian Environmental Assessment and Review Process (EARP).

    O SIA pode ser definido como o processo de avaliar ou estimar antecipadamente os propensos impactos sociais resultantes de polticas pblicas ou projetos de desenvolvimento (Burdje & Vanclay, 1996; Freudenburg, 1986). Ou, segundo Vanclay (2002, p. 484) como o processo de anlise (previso, avaliao e reflexo) e gesto das consequncias intencionais e no intencionais no ambiente humano de intervenes planejadas (polticas, programas, planos e projetos), de modo a criar um ambiente biofsico e humano mais sustentvel. Ou ainda, como o processo de identificar as conseqncias futuras de uma ao, atual ou proposta, em que indivduos, organizaes e sistemas macrossociais esto relacionados (Becker, 2001). Este campo se desenvolveu da necessidade de aplicar conhecimentos da sociologia e outras cincias sociais na previso dos impactos sociais decorrentes das alteraes ambientais como consequncia das aes sociais de projetos de desenvolvimento. Portanto, pode compreender como impacto social

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    qualquer consequncia social ou cultural, decorrente de quaisquer aes pblicas ou privadas, que altere o modo de vida de uma populao humana.

    Epistemologicamente, as aes sociais podem ser classificadas na categoria dos fatos sociais, definida por Durkheim, (1895), nas regras do seu mtodo sociolgico. Por fatos sociais, entende-se os tipos de conduta, crenas, pensamentos e prticas que existem fora das conscincias individuais, e que exercem um certo poder de coero externa (Durkheim, 2007). Dentro da categoria de fatos sociais, as aes sociais so aquelas que buscam conduzir a algum tipo especfico de comportamento ou resultado, e que foram escolhidas dentre outras aes alternativas (Merton, 1936). Geralmente, as aes sociais tm sido consideradas de duas formas (Chapin, 1936): (a) como aes sociais planejadas, ou o esforo intencional organizado para atingir um objetivo social como nos trabalhos dos ativistas sociais e no campo da assistncia social (Khinduka & Coughlin, 1975). E, (b) como as consequncias imprevistas ou no-planejadas decorrentes dos inter-relacionamentos entre os elementos da ao social intencional, que faz parte dos trabalhos da teoria da ao social e, mais recentemente, do SIA (Freudenburg, 1986). Visto que os mtodos mudam medida que a cincia avana (Durkheim, 2007), o presente estudo tem por objetivo, primeiramente, propor uma pequena reforma na proposio segundo a qual os fatos sociais devam ser tratados como coisas, reinterpretando-a com base na teoria da complexidade de Morin (2002), de forma a melhor integrar as dimenses ambientais, culturais e sociais requeridas ao SIA. Por fim, busca-se integrar estas definies re-significadas ao modelo integrado de SIA (Khinduka & Coughlin, 1975; Slootweg, Vanclay, & van Schooten, 2001) para o estudo das consequncias imprevistas das aes intencionais humanas.

    A definio de ao nas perspectivas tradicionais

    Existem ao menos duas abordagens de estudos da ao social e que se sobrepem. A primeira, tradicionalmente trabalhada por ativistas polticos e no campo da assistncia social, trata a ao social como o esforo intencional organizado para atingir um objetivo social comum ou para influenciar os ambientes econmicos e sociais em busca de uma melhor distribuio de status, poder ou recursos (Day, 1962; Hill, 1951; Judson T. Landis, 1947; Khinduka & Coughlin, 1975; Paull, 1971; Willhelm, 1967). A segunda abordagem, tradicionalmente trabalhada pela sociologia e mais relacionada teoria da ao, busca compreender a explicao causal das aes sociais e suas consequncias (Bourdieu, 1977; Coleman, 1986; Habermas, 1984; Morin, 2002; Olson, 1965; Parsons, 1949; Weber, 2002, dentre outros). Neste contexto, o campo da SIA emerge como um campo hbrido da cincia social e como um componente na formulao de polticas pblicas, no intuito de prever as consequncias ou impactos sociais antes da sua ocorrncia (Freudenburg, 1986).

    Para Weber (2002), a ao social existe na medida em que um indivduo ao agir atribui um significado subjetivo ao seu comportamento seja ostensivo ou dissimulado, de omisso ou aquiescncia (ibid, p. 4). E esta social na medida em que o seu significado subjetivo leva em conta o comportamento dos outros e, assim, orientada em seu curso. O outro pode ser uma pessoa conhecida individualmente ou uma pluralidade indefinida ou desconhecida como indivduo. Weber (2002) delimita a ideia de ao social com a ideia de aes no-sociais, as quais podem ser aes individuais orientadas exclusivamente a objetos inanimados, ou aes semelhantes com as de muitas outras pessoas, ou que so influenciadas por um evento externo comum ou a imitao. Assim, a religio no uma ao social pois esta consiste em apenas em contemplao ou orao solitria. Ao passo que uma atividade econmica uma ao social na medida em que o indivduo assume que os outros iro respeitar o atual regime de trocas de bens econmicos.

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    Nesta perspectiva, as as aes sociais podem ser determinadas de quatro formas: (a) racional instrumental, pelas expectativas de comportamento de objetos no ambiente ou de comportamento de outros indivduos que so as condies ou meios para atingir fins racionalmente calculados; (b) valor-racional, pela crena consciente no valor de seu prprio interesse tico, esttico, religioso ou outra forma de comportamento, independentemente das perpectivas de sucesso; (c) afetiva, pelas estados afetivos ou sentimentais do indivduo; (d) tradicional, por hbitos enraizados. Em suma, para Weber (2007), uma ao social aquela pela qual o indivduo desenvolve um significado subjetivo individual seja de forma racional instrumental, valor-racional, afetiva ou tradicional e em relao ao comportamento do outro.

    A definio de ao de Weber influencia fortemente o trabalho de Parsons (1949), em sua teoria da ao social. Esta perspectiva retoma o primeiro princpio durkheiniano (ou, de que os fatos sociais devem ser considerados como coisas) ao observar que as aes resultam sempre em eventos concretos no espao. Desta forma, os fatos sociais podem ser divididos em sua unidade mnima, denominada unidade de ao a qual deve possuir propriedades semelhantes (tais como, na teoria das partculas, na fsica) e que confirmam a existncia ou no de uma ao social. Em suma, uma ao deve envolver, em termos lgicos, os seguintes componentes: (a) um agente ou ator, (b) uma orientao de finalidade ou estado futuro, ou fim, (c) uma situao inicial na qual ao orientada e na qual o ator pode ou no ter controle, (d) e um certo modo de relacionamento entre estes elementos, ou seja, as escolhas dos meios para se chegar aos fins. Esta definio de ao social embora muito sistematizada e influenciada pela fsica, em nada contradiz as definies utilizadas pelo campo da assitncia social. Ou seja, se os fatos sociais devem ser considerados objetivamente (como coisas), porm neste caso, diferentemente das cincias da fsica, estes fenmenos possuem um aspecto subjetivo de extrema relevncia cientfica. Neste ponto, Parsons (1949) diferencia por objetivo tudo o que significa do ponto de vista cientfico do observador da ao, do subjetivo, que reflete apenas o ponto de vista do ator. Consequentemente, por externo no se entende externo ao corpo ou ao ambiente onde o corpo se encontra (como, por exemplo, na biologia), mas externo ao ego ou ao self, como na psicologia, ou seja, das coisas no-concretas que influenciam na deciso do ator. Ressalta-se, neste aspecto, a infuncia de Freud na teoria de

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