COMPLEXIDADE MORFOLÓGICA E CUSTOS DE .Alfa, São Paulo, v.62, n.1, p.151-172, 2018 151 COMPLEXIDADE

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    COMPLEXIDADE MORFOLGICA E CUSTOS DE PROCESSAMENTO LEXICAL

    Alina VILLALVA*Carina PINTO**

    RESUMO: Embora muitas palavras sejam formadas por mais de um constituinte morfolgico, nem todas so habitualmente consideradas palavras complexas. No quadro da anlise morfolgica do Portugus, o conceito de palavra complexa divide as palavras formadas por um radical, um constituinte temtico e, eventualmente, um ou dois sufixos de flexo, das palavras formadas por estes mesmos constituintes e ainda os que so trazidos pelos processos de derivao, modificao ou composio. Esta distino redutora porque todas as palavras contm algum grau de complexidade, mas no h instrumentos de anlise que permitam medi-la. Procuraremos contribuir para a discusso da avaliao da complexidade das palavras com base em dados do processamento da leitura. A literatura apresenta diversas descries que mostram que a estrutura morfolgica desempenha um papel importante no processamento visual. Neste trabalho procuraremos encontrar novas evidncias, testando hipteses relacionadas com a composicionalidade das palavras. Usamos os mtodos de priming morfolgico e deciso lexical sobre trs conjuntos de derivados em oso: o primeiro formado por estruturas composicionais, o segundo constitudo por palavras onde ocorre um alomorfe do sufixo e o terceiro contm palavras onde ocorre um alomorfe da forma de base. Os resultados obtidos confirmam que o processamento das palavras derivadas sensvel sua estrutura morfolgica e mostram tambm que as estruturas composicionais envolvem menores custos de processamento. Estas evidncias permitem-nos propor critrios a ter em considerao na avaliao da complexidade das palavras.

    PALAVRAS-CHAVE: Complexidade morfolgica. Processamento visual. Acesso lexical. Derivao.

    Introduo

    As lnguas so sistemas complexos, formados por mdulos complexos que acolhem diversos domnios complexos.3 A complexidade de um desses mdulos, o lxico, deve ser avaliada em trs planos distintos: o primeiro diz respeito ao clculo do

    * Universidade de Lisboa (UL), Faculdade de Letras, Centro de Lingustica, Lisboa - Portugal. Departamento de Lingustica Geral e Romnica. alinavillalva@campus.ul.pt

    ** Universidade de Lisboa (UL), Faculdade de Letras, Centro de Lingustica, Lisboa - Portugal. pintocarinaal@gmail.com3 Veja-se Gong e Coup (2011) para uma descrio da discusso ainda no concluda sobre a relao entre a complexidade

    das lnguas e de outros sistemas complexos. Veja-se tambm a discusso do conceito de complexidade lingustica em Mufwene (2012).

    http://doi.org/10.1590/1981-5794-1804-7

    Esta obra est licenciada com uma Licena Creative Commons Atribuio 4.0 Internacional.

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    ndice de complexidade de cada unidade lexical;1 o segundo diz respeito ao clculo da complexidade das palavras; e o terceiro diz respeito avaliao do grau de complexidade das relaes entre palavras (no domnio das relaes morfolgicas podemos considerar a partilha de um mesmo afixo contra a partilha de afixos concorrentes, por exemplo). Estas trs dimenses so de grande relevncia para a compreenso do processamento de palavras e do acesso lexical.

    O presente trabalho procura contribuir para a discusso da avaliao da complexidade lexical no segundo domnio, olhando para a computao da complexidade de um tipo particular de palavras derivadas (i.e. adjetivos em oso). O nosso objetivo ltimo o de avaliar se um maior custo para o processamento na leitura destas palavras decorre de um maior ndice de complexidade lexical, ou no, mas, para o alcanar, necessrio saber (i) como se podem atribuir ndices de complexidade s palavras e aos seus constituintes e (ii) como se podem medir os custos de processamento.

    A discusso sobre a complexidade das palavras aqui apresentada tomar dados do Portugus Europeu2 para um estudo de caso. A anlise morfolgica baseia-se na caracterizao das unidades lexicais apresentada em Villalva e Silvestre (2015) e na tipologia das estruturas de palavras complexas de Villalva (2000, 2008). No que diz respeito avaliao experimental e ao estudo do processamento, as referncias principais so Taft e Forster (1975), Taft (1979, 1994), Rastle et al. (2000) e Rastle et al. (2004).

    O conceito de complexidade

    O conceito de complexidade surge frequentemente na investigao em diversos domnios do conhecimento, mas nem sempre usado de forma rigorosa, o que pode levar a interpretaes variveis e imprevisveis. O trabalho de Simon (1962) representa, provavelmente, o incio do debate terico nesta rea. O autor defende que a complexidade prpria dos sistemas que assumem uma forma hierrquica: os sistemas complexos so formados por subsistemas, que por sua vez apresentam os seus prprios subsistemas, no havendo limite estabelecido para esta cadeia. Pode, assim, extrair-se que, independentemente do seu contedo especfico, os sistemas hierrquicos so sempre sistemas complexos.

    Sendo as lnguas sistemas hierrquicos, formados por mdulos hierarquizados que acolhem diversos domnios hierarquizados, pode concluir-se que os sistemas lingusticos e todos os seus subsistemas so sistemas complexos. No entanto, a aplicao do conceito de complexidade a cada disciplina do conhecimento suscita questes particulares, e o que se sabe sobre a sua aplicao ao domnio particular da lingustica ainda escasso.

    1 Assume-se aqui, semelhana de Villava e Silvestre (2015), que o lxico contm diversos tipos de unidades lexicais, nomeadamente radicais e afixos, palavras e sequncias de palavras lexicalizadas.

    2 Considerando que a formao de adjetivos em oso no apresenta diferenas significativas nas diversas variedades do Portugus contemporneo, admitimos que os resultados do estudo apresentado no espelhem apenas o quadro do Portugus Europeu.

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    Nos termos de Gong e Coup (2011, p.370), as lnguas podem ser vistas como sistemas complexos adaptativos (em ingls, complex adaptive systems), porque envolvem um nmero significativo de unidades e mdulos geradores de complexidade estrutural a vrios nveis. As lnguas so sistemas complexos adaptativos porque os seus agentes os falantes - tm a capacidade de mudar o prprio sistema (cf. STEELS, 1997, 2000; BECKNER et al., 2009).

    Uma outra reflexo sobre complexidade lingustica enunciada por Bane (2008, p.69) da seguinte forma:

    I. A complexidade lingustica mantm-se constante ao longo do tempo;II. A gramtica de uma dada lngua no mais complexa do que a gramtica de

    qualquer outra lngua.

    Esta hiptese interessante porque permite assumir que a variao lingustica no afeta o grau de complexidade das lnguas, embora possa configur-la de forma distinta. Ainda que a riqueza ou pobreza dos sistemas morfolgicos flexionais seja frequentemente invocada (por exemplo, na correlao com processos sintticos), o que se pode presumir que uma menor complexidade de um subsistema ser compensada por uma maior complexidade de outro subsistema. No entanto, no existe, tanto quanto do nosso conhecimento, forma de medir a riqueza ou, por outras palavras, a complexidade de nenhum dos componentes de qualquer um dos sistemas lingusticos.

    Igualmente interessante o contributo de Mufwene (2012), que descreve o conceito de complexidade no domnio da lingustica, considerando os seguintes aspetos:

    I. a complexidade das unidades (e.g. o tamanho do inventrio fontico) e regras de cada subsistema lingustico, a que d o nome de complexidade bit;

    II. a complexidade interativa, que diz respeito s relaes entre unidades e regras, no seio de cada um dos mdulos, e ainda s relaes entre os diversos mdulos.

    Esta uma reflexo importante porque sugere que a complexidade das unidades distinta da complexidade do modo como estas unidades interagem e estabelece ainda que a complexidade que caracteriza cada subsistema tambm distinta, diferenciando-se igualmente da complexidade que caracteriza o sistema globalmente.

    A conjugao destas posies permite construir uma hiptese de anlise da complexidade lingustica assente no seguinte conjunto de pressupostos:

    1. necessrio eleger um ponto de equilbrio no sistema lingustico, o que pode ser controlado a partir da consistncia da amostra selecionada;

    2. dado que a complexidade das lnguas constante, mas a dos seus subsistemas varivel, importa selecionar para cada anlise apenas um subsistema e analis-lo independentemente;

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    3. considerando que o clculo da complexidade do sistema assenta em dois vetores (o valor intrnseco de cada unidade e o valor da sua interao com outras unidades numa estrutura), deve dirigir-se a anlise para um nico destes domnios.

    Assim, no presente trabalho, mostramos os resultados de um estudo experimental realizado numa amostra homognea de falantes do Portugus Europeu, que considera palavras complexas derivadas por interveno do sufixo oso. Assumimos aqui que os dados do processamento na leitura de palavras podem trazer informaes relevantes para a compreenso da complexidade das estruturas morfolgicas.

    No h muito trabalho feito no domnio da complexidade morfolgica e o que existe diz respeito flexo. O trabalho sobre complexidade morfolgica tem sobretudo sido desenvolvido pelo Surrey Morphology Group,3 no mbito de um projeto realizado entre 2009 e 2015 (cf. Morphological complexity: Typology as a tool for delineating cognitive organization).Tm ainda sido avanadas algumas tentativas de quantificao da complexidade das palavras considerando, por exemplo, a descrio das estruturas lingusticas e a sua funo, a previsibilidade da sequncia das palavras no discurso, as regularidades estruturais das lnguas ou o tamanho do inventrio fontico, entre outras (cf. GONG; COUP, 2011). No entanto, estas medidas so vagas, tornand