Comprometida - Elizabeth Gilbert

  • Published on
    04-Feb-2016

  • View
    33

  • Download
    0

DESCRIPTION

Da mesma autora de comer rezar e amar...

Transcript

  • DADOS DE COPYRIGHT

    Sobre a obra:

    A presente obra disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos parceiros, com oobjetivo de oferecer contedo para uso parcial em pesquisas e estudos acadmicos, bem comoo simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura.

    expressamente proibida e totalmente repudavel a venda, aluguel, ou quaisquer usocomercial do presente contedo

    Sobre ns:

    O Le Livros e seus parceiros disponibilizam contedo de dominio publico e propriedadeintelectual de forma totalmente gratuita, por acreditar que o conhecimento e a educao devemser acessveis e livres a toda e qualquer pessoa. Voc pode encontrar mais obras em nossosite: LeLivros.Net ou em qualquer um dos sites parceiros apresentados neste link.

    Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e no mais lutando pordinheiro e poder, ento nossa sociedade poder enfim evoluir a um novo nvel.

  • Folha de Rosto

  • CrditosCopyright 2010 by Elizabeth Gilbert

    Todos os direitos desta edio reservados EDITORA OBJETIVA LTDA. Rua Cosme Velho, 103

    Rio de Janeiro RJ CEP: 22241-090Tel.: (21) 2199-7824 Fax: (21) 2199-7825www.objetiva.com.br

    Ttulo originalCommitted: a Skeptic Makes Peace with Marriage

    CapaAndrea Vilela de Almeida

    Imagem de capa Mike Kemp / Getty Images

    RevisoRafaella LemosJoana MilliTamara Sender

    Converso para e-bookAbreus System

    CIP-BRASIL. CATALOGAO-NA-FONTESINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ G393cGilbert, Elizabeth Comprometida [recurso eletrnico] : uma histria de amor / Elizabeth Gilbert ; traduo Beatriz Medina. - Rio de Janeiro :Objetiva, 2011. recurso digital Traduo de: Committed : a skeptic makes peace with marriage Formato: ePub Requisitos do sistema: Modo de acesso: 234p. ISBN: 978-85-390-0229-0 (recurso eletrnico) 1. Gilbert, Elizabeth, 1969-. 2. Casamento. 3. Mulheres - Guias de experincia de vida. 4. Livros eletrnicos. I. Ttulo. 11-0690. CDD: 306.8 CDU: 392.3

  • DedicatriaPara J. L. N. o meu coroa

  • Epgrafe

    No h risco maior que o matrimnio.Mas nada mais feliz do que um casamento feliz.

    BENJAMIN DISRAELI, 1870, NUMA CARTA A LOUISE, FILHA DA RAINHA VITRIA, CUMPRIMENTANDO-A PELO NOIVADO

  • Nota ao leitor

    H alguns anos, escrevi um livro chamado Comer, Rezar, Amar que contava a histria da viagemque fiz pelo mundo, sozinha, depois de um divrcio horrvel. Estava com 30 e poucos anosquando o escrevi, e tudo a respeito dele constituiu uma enorme mudana minha comoescritora. Antes de Comer, Rezar, Amar , eu era conhecida nos crculos literrios (se que eraconhecida) como uma mulher que escrevia predominantemente para e sobre homens. Trabalheianos como jornalista em revistas como GQ e Spin, voltadas para o pblico masculino, e usavaessas pginas para examinar a masculinidade de todos os ngulos possveis. Do mesmo modo,os protagonistas dos meus trs primeiros livros (de fico e no fico) eram todospersonagens supermachos: caubis, pescadores de lagostas, caadores, caminhoneiros,sindicalistas do setor de transportes, lenhadores...

    Naquela poca, me diziam que eu escrevia como homem. Acontece que no sei direito oque significa escrever como homem, mas acredito que, em geral, seja elogio. Sem dvida,na poca entendi como elogio. Numa reportagem da GQ, cheguei a me fazer de homem duranteuma semana. Cortei o cabelo, achatei os seios, enfiei na cala uma camisinha cheia de alpistee colei uma mosca debaixo do lbio inferior, tudo na tentativa de viver e compreender, decerta forma, os mistrios sedutores da masculinidade.

    Aqui eu deveria acrescentar que a minha fixao em homens tambm chegava vidaprivada. Muitas vezes isso causou complicaes.

    No; isso sempre causou complicaes.Entre os rolos romnticos e as obsesses profissionais, fiquei to concentrada no tema

    da masculinidade que nunca passei um segundo sequer pensando no tema da feminilidade. Semdvida, nunca passei um segundo sequer pensando na minha feminilidade. Por essa razo, assimcomo por uma indiferena generalizada para com o meu bem-estar, nunca me familiarizeimuito comigo mesma. Assim, quando uma onda enorme de depresso finalmente me atingiupor volta dos 30 anos, no consegui entender nem articular o que estava acontecendo comigo.O meu corpo desmoronou primeiro, depois o casamento e, ento, durante um intervalo terrvele assustador, a minha mente. A dureza masculina no serviu de consolo nessa situao; a nicamaneira de sair do labirinto emocional foi tatear at achar o caminho. Divorciada, infeliz esozinha, deixei tudo para trs e parti para um ano de viagem e introspeco, com a inteno deme examinar com a mesma ateno com que j estudara o arisco caubi americano.

    Ento, por ser escritora, escrevi um livro a respeito.Ento, porque s vezes a vida estranhssima, esse livro se transformou num hipermega

    best-seller internacional e, de repente, depois de uma dcada escrevendo exclusivamentesobre homens e masculinidade, passei a ser chamada de escritora chick-lit. Mais uma vez, nosei direito o que significa chick-lit, mas tenho quase certeza de que nunca foi elogio.

    Seja como for, agora todos me perguntam o tempo todo se eu sabia que isso ia acontecer.

  • Querem saber se, quando escrevi Comer, Rezar, Amar , consegui prever que o livro setransformaria naquilo. No. No havia a mnima possibilidade de prever nem de planejar umareao to avassaladora. Quando escrevi o livro esperava, no mnimo, ser perdoada porescrever memrias. verdade que eu s tinha um punhado de leitores, mas eram leitores leaise sempre gostaram da moa valente que escrevia histrias realistas sobre homens masculinosque faziam coisas masculinas. No previa que esses leitores fossem gostar de uma crnicabastante emocional, em primeira pessoa, sobre a busca de uma mulher divorciada pela curapsicoespiritual. No entanto, esperei que fossem generosos a ponto de entender que preciseiescrever aquele livro por razes pessoais, e talvez todos o deixassem para l e depoispudssemos todos seguir vivendo.

    No foi assim que aconteceu.(E s para ser clara: o livro que voc tem nas mos tambm no uma histria realista

    sobre homens masculinos fazendo coisas masculinas. Nunca diga que no foi avisado!)Outra pergunta que todo mundo me faz o tempo todo hoje em dia como Comer, Rezar, Amar

    mudou a minha vida. Essa difcil de responder, porque o alcance foi imenso. Uma analogiatil da minha infncia: certa vez, quando pequena, os meus pais me levaram ao MuseuAmericano de Histria Natural, em Nova York. Ficamos l juntos no Salo dos Oceanos. Omeu pai apontou para o teto, para o modelo em tamanho natural da grande baleia azul, quependia suspenso sobre a nossa cabea. Ele tentou me fazer entender o tamanho dessa criaturadescomunal, mas eu no conseguia ver a baleia. Veja bem, eu estava bem embaixo e olhavadiretamente para ela l em cima, mas no consegui absorver a baleia. A minha cabea notinha mecanismos para compreender uma coisa to grande. S consegui ver o teto azul e odeslumbre no rosto de todo mundo (era bvio que alguma coisa empolgante estavaacontecendo!), mas no conseguia compreender a baleia propriamente dita.

    s vezes, assim que me sinto com Comer, Rezar, Amar . A trajetria desse livro chegou aum ponto em que eu no conseguia mais absorver as suas dimenses com sanidade, e a desistide tentar e voltei a minha ateno para outros objetivos. Cultivar uma horta ajudou; no hnada melhor do que catar caramujos dos tomateiros para entender melhor as coisas.

    Dito isso, senti uma certa perplexidade ao tentar imaginar se, depois desse fenmeno, euconseguiria voltar a escrever sem constrangimento. No que eu queira fingir saudade daobscuridade literria, mas no passado sempre escrevi os meus livros achando que quaseningum os leria. claro que saber disso quase sempre me deixava deprimida. Entretanto, deum jeito importantssimo, era um conforto: se eu me humilhasse demais, pelo menos nohaveria muitas testemunhas. Seja como for, agora a questo era suprflua: de repente, eu tinhamilhes de leitores esperando o prximo projeto. Como que se consegue escrever um livroque satisfaa milhes de pessoas? Eu no queria bajular, mas tambm no queria desprezar deuma vez s toda essa maioria inteligente e apaixonada de leitores, no depois de tudo o quepassamos juntos.

    Sem saber como agir, agi de qualquer jeito. No decorrer de um ano, escrevi todo o

  • primeiro esboo deste livro aqui 500 pginas , mas, quando terminei, percebi na mesmahora que havia algo errado. A voz no parecia minha. A voz no parecia de ningum. Pareciauma voz maltraduzida sada de um megafone. Deixei o manuscrito de lado para nunca mais servisto e voltei para a horta, para mais um pouco de cavucao, cutucao e ponderaocontemplativa.

    Aqui quero deixar claro que no foi exatamente uma crise, um perodo em que noconseguia imaginar como escrever ou, pelo menos, em que no conseguia imaginar comoescrever com naturalidade. Fora isso, a vida estava muito boa, e eu, to grata pela satisfaopessoal e pelo sucesso profissional que no ia transformar em calamidade esse quebra-cabeaespecfico. Mas no h dvida de que era um quebra-cabea. Cheguei a pensar que a minhacarreira de escritora talvez tivesse acabado. No ser mais escritora no parecia o pior destinodo mundo, se que era mesmo o meu destino, mas, francamente, eu ainda no sabia. S voudizer que tive de passar muito mais horas no canteiro de tomates para destrinchar essa coisa.

    No final, senti um certo alvio quando admiti que no poderia no posso escrever umlivro que satisfaa milhes de leitores. Pelo menos, no de propsito. O fato que no seiescrever por encomenda um best-seller adorado. Se soubesse escrever por encomenda best-sellers adorados, posso garantir que os escreveria o tempo todo, porque desse modo h muitotempo a minha vida seria muito mais fcil e confortvel. Mas no assim que funciona, pelomenos no com escritores como eu. S escrevemos os livros que precisamos escrever, ouconseguimos escrever, e depois temos de libert-los, admitindo que o que vai lhes acontecerdepois no da nossa conta.

    Por um monte de razes pessoais, portanto, o livro que eu precisava escrever eraexatamente este: mais um livro de memrias (com partes scio-histricas como bnus extra!)sobre o meu esforo para fazer as pazes com a instituio complicada do casamento. Nuncapus o assunto em dvida; s que, por algum tempo, tive dificuldade de encontrar a minha voz.Finalmente, descobri que o nico jeito de voltar a escrever era limitar imensamente, pelomenos na minha imaginao, o nmero de pessoas para quem escreveria. Ento, comecei tudo denovo. E no escrevi esta verso de Comprometida para milhes de leitores. Em vez disso,escrevi para exatas 27 leitoras. Para ser bem clara, eis os nomes dessas 27 leitoras: Maude,Carole, Catherine, Ann, Darcey, Deborah, Susan, Sofie, Cree, Cat, Abby, Linda, Bernadette,Jen, Jana, Sheryl, Rayya, Iva, Erica, Nichelle, Sandy, Anne, Patricia, Tara, Laura, Sarah eMargaret.

    Essas 27 mulheres compem o meu crculo pequeno mas importantssimo de amigas,parentas e vizinhas. A idade varia de 20 e poucos a 90 e poucos anos. Uma delas, por acaso, minha av; outra minha enteada. Uma a minha amiga mais antiga; outra, a mais nova. Uma recm-casada; duas, mais ou menos, querem muito se casar; algumas se casaram de novorecentemente; uma, em particular, indizivelmente grata por nunca ter se casado; outra acaboude encerrar uma dcada de relacionamento com uma mulher. Sete so mes; duas (enquantoescrevo) esto grvidas; o resto, por vrias razes e com vrios sentimentos a respeito, no

  • tem filhos. Algumas so donas de casa; outras, profissionais liberais; poucas, benza Deus, sodonas de casa e profissionais. A maioria branca; algumas so negras; duas nasceram noOriente Mdio; uma escandinava; duas so australianas; uma sul-americana; outra, do suldos Estados Unidos. Trs so devotamente religiosas; cinco no tm o mnimo interesse porquestes de divindade; a maioria mostra certa perplexidade espiritual; as outras, de algumjeito, com o passar do tempo, fizeram com Deus os seus acordos particulares. Todas essasmulheres tm um senso de humor acima da mdia. Todas elas, em algum momento da vida,sofreram perdas terrveis.

    Durante muitos anos, durante muitas xcaras de ch e muitos drinques, sentei-me comuma ou outra dessas almas queridas e devaneei em voz alta sobre questes de casamento,intimidade, sexualidade, divrcio, fidelidade, famlia, responsabilidade e autonomia. Estelivro foi construdo sobre as vigas dessas conversas. Enquanto montava as vrias pginasdesta histria, eu me via falando literalmente em voz alta com essas amigas, parentas evizinhas, respondendo perguntas que s vezes tinham dcadas ou fazendo perguntas novas sminhas. Este livro jamais existiria sem a influncia dessas 27 mulheres extraordinrias, e sougratssima a elas pela presena coletiva. Como sempre, foi uma aula e um alvio t-las aqui nasala.

    ELIZABETH GILBERTNova Jersey, 2009

  • CAPTULO UM

    Casamento e surpresasO CASAMENTO UMA AMIZADE RECONHECIDA PELA POLCIA.

    Robert Louis Stevenson

    D

    Em 2006, num fim de tarde de vero, eu me encontrava numa pequena aldeia do norte doVietn, sentada junto ao fogo fuliginoso de uma cozinha com vrias mulheres locais, cujoidioma no sei falar, tentando lhes fazer perguntas sobre casamento.

    J havia vrios meses eu viajava pelo sudeste da sia com um homem que logo setornaria meu marido. Suponho que o nome convencional de um indivduo desses seja noivo,mas nenhum de ns gostava muito dessa palavra e, por isso, no a usvamos. Na verdade,nenhum de ns gostava muito dessa ideia de matrimnio como um todo. O casamento nuncatinha passado pelos nossos planos em comum nem era coisa que quisssemos. Mas aprovidncia interferiu nos nossos planos, e por isso agora perambulvamos ao acaso noVietn, na Tailndia, no Laos, no Camboja e na Indonsia, tomando providncias urgentes eat desesperadas para voltar aos Estados Unidos e nos casar.

    Nessa poca, o homem em questo era meu amante, meu namorado, havia mais de doisanos, e nestas pginas vou cham-lo de Felipe. Felipe um cavalheiro brasileiro gentil eafetuoso, 17 anos mais velho do que eu, que conheci em outra viagem (uma viagem planejadade verdade) que fiz pelo mundo, alguns anos antes, na tentativa de remendar um coraogravemente partido. Perto do fim da viagem, encontrei Felipe, que havia anos morava sozinhoe tranquilo em Bali, cuidando do seu corao partido. O que veio em seguida foi atrao,depois uma lenta corte e, finalmente, para nosso espanto mtuo, amor.

    A nossa resistncia ao casamento na poca nada tinha a ver com ausncia de amor. Aocontrrio, Felipe e eu nos amvamos sem reservas. Fazer todo tipo de promessa de ficarmosjuntos e sermos fiis para sempre nos satisfazia. J tnhamos at jurado fidelidade vitalcia umao outro, embora em particular. O problema que ramos sobreviventes de divrcios difceis,e a experincia nos deixou to feridos que bastava a ideia de um casamento formal comqualquer pessoa, mesmo com pessoas to legais como ns dois para provocar uma sensao

  • pesada de pavor.Em geral, claro que a maioria dos divrcios bem difcil (Rebecca West observou que

    quase sempre, divorciar-se uma ocupao to alegre e til quanto quebrar louas muitovaliosas), e os nossos no foram exceo. Na poderosa Escala Csmica de Ruindade doDivrcio, que vai de um a dez (na qual um igual a uma separao amigvel e dez ...digamos, uma verdadeira pena capital), provavelmente eu daria ao meu a nota 7,5. No houvesuicdios nem homicdios, mas fora isso o rompimento foi um processo dos mais feiospossveis entre duas pessoas bem-educadas. E se arrastou durante mais de dois anos.

    Quanto a Felipe, seu primeiro casamento (com uma profissional liberal australianainteligente) terminara quase uma dcada antes de nos conhecermos em Bali. Na poca, odivrcio se desenrolara bastante bem, mas perder a mulher (e, junto com ela, o acesso casa,aos filhos e a quase duas dcadas de histria) deixara a esse homem bom uma herana detristeza duradoura, com nfase especial no arrependimento, no isolamento e na ansiedadeeconmica.

    Assim, a nossa experincia nos deixara exauridos, perturbados e com firme desconfianadiante das alegrias do sagrado matrimnio. Como todos os que j passaram pelo vale dassombras do divrcio, Felipe e eu tnhamos aprendido em primeira mo a seguinte verdadedesagradvel: toda intimidade traz consigo, escondidos sob a superfcie adorvel do incio, osmecanismos sempre engatilhados da catstrofe total. J tnhamos aprendido que o casamento um terreno no qual muito mais fcil entrar do que sair. Sem as restries da lei, o amante nocasado pode sair do mau relacionamento a qualquer momento. Mas o casado legalmente quequiser escapar do amor infeliz logo descobre que uma parcela significativa do contrato decasamento pertence ao Estado e que, s vezes, demora muito para o Estado lhe dar permissode partir. Portanto, bem possvel ficar preso durante meses e at anos numa unio legal semamor que mais se parece com um prdio em chamas. Um prdio em chamas onde voc, amigo,est algemado a um aquecedor em algum ponto do poro, incapaz de se soltar, enquanto afumaa sobe em nuvens e as vigas vm caindo...

    Desculpe; ser que tudo isso soa pouco entusistico?S exponho esses pensamentos desagradveis para explicar por que Felipe e eu fizemos

    um pacto bastante incomum desde o incio da nossa histria de amor. Juramos, de todo ocorao, nunca, jamais, em nenhuma circunstncia, nos casar. Chegamos at a prometer nuncamisturar as nossas finanas nem o nosso patrimnio terreno, para evitar o possvel pesadelode, mais uma vez, ter de desenterrar a reserva de munio pessoal e explosiva de hipotecas,escrituras, propriedades, contas bancrias, eletrodomsticos e livros favoritos em comum.Depois de feitas essas devidas promessas, avanamos com uma verdadeira sensao de calmanesse companheirismo cuidadosamente dividido. Afinal, assim como o compromisso donoivado d a tantos outros casais uma sensao envolvente de proteo, o nosso voto de nuncanos casar nos cobriu com a segurana emocional necessria para experimentarmos o amormais uma vez. E esse nosso pacto, conscientemente privado de compromisso oficial, parecia

  • milagroso com sua libertao. Foi como se tivssemos encontrado o Caminho Martimo paraas ndias da Intimidade Perfeita, algo que, como escreveu Gabriel Garca Mrquez, lembravao amor, mas sem os problemas do amor.

    E foi isso que passamos a fazer at a primavera de 2006: cuidar da nossa vida, construirjuntos, com irrestrito contentamento, uma vida delicadamente dividida. E poderamoscontinuar a viver assim, felizes para sempre, se no fosse uma interferncia muitssimoinconveniente.

    O Departamento de Segurana Interna dos Estados Unidos se envolveu.

    O problema era que Felipe e eu, embora tivssemos muitas semelhanas e graas, notnhamos a mesma nacionalidade. Ele era um brasileiro com cidadania australiana que, quandonos conhecemos, morava principalmente na Indonsia. Eu era uma americana que, fora asminhas viagens, morava principalmente na costa leste dos Estados Unidos. A princpio, noprevamos nenhum problema na nossa histria de amor sem ptria, embora, em retrospecto,talvez desse para antever as complicaes. Como diz o velho ditado: um peixe e umpassarinho podem at se apaixonar, mas vo morar onde? Achamos que a soluo dessedilema era ns dois sermos viajantes hbeis (eu, um pssaro que sabia mergulhar; Felipe, umpeixe que sabia voar) e, pelo menos durante o nosso primeiro ano juntos, vivemospraticamente no ar, mergulhando e sobrevoando oceanos e continentes para ficarmos juntos.

    Felizmente, a nossa vida profissional facilitou esse sistema livre, leve e solto. Comoescritora, posso levar o meu trabalho comigo para qualquer lugar. Como joalheiro eimportador de pedras preciosas que vendia as suas mercadorias nos Estados Unidos, Felipevivia sempre viajando mesmo. S precisaramos coordenar a nossa locomoo. Assim, eu iapara Bali; ele vinha para os Estados Unidos; amos ambos para o Brasil; voltvamos a nosencontrar em Sydney. Aceitei um emprego temporrio como professora de criao literria naUniversidade do Tennessee e, durante alguns meses esquisitos, moramos juntos no quarto deum velho hotel decadente em Knoxville. (Alis, recomendo esse modo de viver para quemquiser testar o nvel real de compatibilidade num relacionamento novo.)

    Vivamos em ritmo staccato, ao sabor dos acontecimentos, juntos na maior parte do tempo,mas sempre em trnsito, como num estranho programa internacional de proteo atestemunhas. A nossa relao, embora estabilizadora e tranquila no nvel pessoal, era umdesafio logstico constante e, com tantas viagens areas internacionais, absurdamente cara.Tambm provocava abalos psicolgicos. A cada reunio, eu e Felipe tnhamos de aprendertudo de novo um sobre o outro. Havia sempre aquele momento nervoso no aeroporto em queeu ficava l esperando que ele chegasse e me perguntava: Ser que ainda o conheo? Ser que eleainda me conhece? Ento, depois do primeiro ano, comeamos a querer algo mais estvel, e foiFelipe quem deu o grande passo. Abrindo mo da cabana modesta mas adorvel em Bali,mudou-se comigo para uma casinha minscula que eu alugara recentemente nos arredores da

  • Filadlfia.Embora a troca de Bali pelo subrbio da Filadlfia talvez parea uma escolha singular,

    Felipe jurou que se cansara havia muito tempo da vida nos trpicos. Queixava-se de que viverem Bali era fcil demais, porque cada dia era uma rplica agradvel e tediosa da vspera.Insistiu que j sonhava em partir havia tempos, antes mesmo de me conhecer. Agora, paraquem nunca morou no paraso deve ser impossvel entender como algum se entedia com ele(eu mesma acho a ideia meio maluca), mas, com o passar dos anos, Bali, a terra dos sonhos,passou mesmo a ser de uma chatice insuportvel para Felipe. Nunca esquecerei uma dasltimas noites encantadoras que passamos juntos na sua casinha, sentados ao ar livre,descalos, com a pele orvalhada pelo ar quente de novembro, tomando vinho e observando omar de constelaes a cintilar sobre os arrozais. Enquanto o vento perfumado fazia aspalmeiras farfalharem e a msica de uma cerimnia num templo distante flutuava na brisa,Felipe me olhou, suspirou e disse, sem rodeios: No aguento mais essa merda. No vejo ahora de voltar para a Filadlfia.

    Assim, devidamente, levantamos acampamento para a Filadlfia (cidade do amorfraterno, como diz o lema oficial? Dos buracos fraternos, isso sim)! O fato que ns doisgostvamos bastante de l. A casinha alugada ficava perto de minha irm e da famlia dela,cuja proximidade, com o passar dos anos, se tornara vital para eu me sentir feliz, e isso trouxeintimidade. Alm do mais, depois de todos os nossos anos conjuntos de viagem para lugaresdistantes, era bom e at revitalizador morar nos Estados Unidos, pas que, apesar das falhas,ainda era interessante para ns dois: um lugar rpido, multicultural, sempre evoluindo, doido deto contraditrio, desafiador em termos criativos e, basicamente, vivo.

    L na Filadlfia, ento, eu e Felipe montamos o nosso quartel-general e praticamos, comsucesso encorajador, as nossas primeiras sesses reais de domesticidade em comum. Elevendia joias; eu trabalhava em projetos que me obrigavam a ficar num lugar s e pesquisarpara escrever. Ele cozinhava; eu cuidava do gramado; de vez em quando, um de ns ligava oaspirador de p. Funcionvamos bem juntos na mesma casa, dividindo as tarefas dirias sembriga. Passamos a nos sentir ambiciosos, produtivos e otimistas. A vida era boa.

    Mas esses intervalos de estabilidade nunca duravam muito. Devido s restries do vistode Felipe, trs meses era o mximo que podia ficar legalmente nos Estados Unidos; emseguida, tinha de passar algum tempo em outro pas. Assim, l voava ele, e eu ficava sozinhacom os meus livros e vizinhos enquanto ele estava fora. Ento, dali a algumas semanas, elevoltava aos Estados Unidos com outro visto de noventa dias e recomevamos a nossa vidadomstica conjunta. A comprovao da cautela que tnhamos com os compromissos de longoprazo que esses bocados de noventa dias nos pareciam quase perfeitos: era o volume exatode planejamento futuro que dois trmulos sobreviventes de divrcios conseguiam aceitar semse sentir muito ameaados. E s vezes, quando o meu cronograma permitia, eu me unia a elenesses passeios fora do pas para renovar o visto.

    Isso explica por que certo dia voltamos juntos aos Estados Unidos de uma viagem de

  • negcios ao exterior e pousamos devido peculiaridade das passagens baratas e daconexo que tnhamos de fazer no Aeroporto Internacional de Dallas/Fort Worth. Passeiprimeiro pela Imigrao, seguindo rapidamente pela fila dos meus concidados americanosrepatriados. Do outro lado, esperei Felipe, que estava no meio de uma longa fila deestrangeiros. Vi quando se aproximou do funcionrio da Imigrao, que estudou atentamente opassaporte australiano de Felipe, grosso como uma bblia, examinando cada pgina, cadamarcao, cada holograma. Normalmente, no eram to observadores, e fiquei nervosa com otempo que aquilo estava levando. Olhei e aguardei, espera daquele som importantssimo detoda travessia de fronteira bem-sucedida: aquele tump grosso, slido e bibliotecrio docarimbo de boas-vindas do visto de entrada. Mas ele no veio nunca.

    Em vez disso, o funcionrio da Imigrao pegou o telefone e fez uma ligao silenciosa.Momentos depois, um policial com a farda do Departamento de Segurana Interna dos EstadosUnidos chegou e levou o meu amor embora.

    Os homens fardados do aeroporto de Dallas interrogaram Felipe durante seis horas. Duranteseis horas, proibida de v-lo e de fazer perguntas, fiquei sentada ali, na sala de espera daSegurana Interna: um espao inspido, com luz fluorescente, cheio de gente apreensiva domundo inteiro, todos ns igualmente rgidos de medo. Eu nem imaginava o que estavamfazendo com Felipe l dentro nem o que lhe perguntavam. Sabia que ele no tinhadesobedecido a nenhuma lei, mas isso no era to confortador assim. Estvamos nos ltimosanos do governo do presidente George W. Bush: no era um momento tranquilo da histriapara ter o namorado estrangeiro mantido sob a custdia do governo. Tentei me acalmar com afamosa orao da mstica Juliana de Norwich, do sculo XIV (Tudo dar certo, e tudo darcerto, e todo tipo de coisa dar certo), mas no acreditei numa s palavra. Nada estavadando certo. Nenhum tipo de coisa estava dando certo.

    De vez em quando, me levantava da cadeira de plstico e tentava obter mais informaescom o funcionrio da Imigrao atrs do vidro prova de balas. Mas ele ignorava os meusapelos e recitava sempre a mesma resposta: Senhorita, quando tivermos alguma coisa a lhedizer sobre o seu namorado, avisamos. Numa situao dessas, se me permitem, talvez nohaja palavra de som mais fraco do que namorado. A maneira desdenhosa com que o funcionriopronunciava essa palavra mostrava a pouca importncia que dava ao meu relacionamento. Porque diabos um funcionrio do governo deveria dar informaes sobre um mero namorado?Queria me explicar com o funcionrio da imigrao, dizer oua aqui, o homem que vocsesto mantendo a dentro muito mais importante para mim do que voc jamais conseguiriaimaginar. Mas, mesmo no meu estado de aflio, duvido que isso adiantasse alguma coisa.No mnimo, tive medo de forar demais a barra e causar repercusses desagradveis l ondeFelipe estava e, assim, indefesa, me segurei. S agora me ocorre que eu deveria ter dado umjeito de chamar um advogado. Mas no tinha celular, no queria abandonar o posto na sala de

  • espera e no conhecia nenhum advogado em Dallas, e ainda por cima era uma tarde dedomingo: quem eu conseguiria encontrar?

    Finalmente, seis horas depois, veio um guarda e me levou pelos corredores, por umlabirinto de mistrios burocrticos, at uma salinha mal iluminada onde Felipe estava sentadocom o agente da Segurana Interna que o interrogara. Ambos pareciam igualmente cansados,mas s um deles era meu o meu amado, para mim o rosto mais conhecido do mundo. V-lonaquele estado fez o meu peito doer de saudade. Queria toc-lo, mas senti que no seriapermitido e fiquei ali de p.

    Felipe me sorriu com fadiga e disse: Querida, a nossa vida est prestes a ficar muito mais interessante.Antes que eu pudesse responder, o agente do interrogatrio assumiu rapidamente o

    controle da situao e de todas as explicaes: Madame disse , chamamos a senhora aqui para explicar que no permitiremos

    mais que o seu namorado entre nos Estados Unidos. Ele ficar preso at arranjarmos um avioque o leve de volta para a Austrlia, j que tem passaporte australiano. Depois disso, nopoder mais voltar aos Estados Unidos.

    A minha primeira reao foi fsica. Foi como se todo o sangue do meu corpo seevaporasse no mesmo instante e, por um segundo, os olhos se recusaram a entrar em foco.Ento, no momento seguinte, a minha cabea entrou em ao. Repassei acelerada um resumorpido dessa crise grave e sbita. Desde muito antes de nos conhecermos, Felipe ganhava avida nos Estados Unidos e visitava o pas vrias vezes por ano em estadas curtas, importandolegalmente pedras preciosas e joias do Brasil e da Indonsia para vender no mercadoamericano. Os Estados Unidos sempre receberam bem empresrios internacionais como ele,pois trazem para o pas mercadorias, dinheiro e comrcio. Em troca, Felipe prosperou nosEstados Unidos. Pagou os estudos dos filhos (hoje adultos) nas melhores escolas particularesda Austrlia com a renda que havia dcadas obtinha nos Estados Unidos. Os Estados Unidoseram o centro de sua vida profissional, muito embora nunca tivesse morado l atrecentemente. Mas todo o seu estoque ficava ali, todos os seus contatos estavam ali. Se nuncamais pudesse voltar aos Estados Unidos, o seu meio de vida estava efetivamente destrudo.Isso sem falar que eu morava ali nos Estados Unidos e que Felipe queria ficar comigo e que,devido minha famlia e ao meu trabalho, eu sempre quisera continuar estabelecida nos EUA.E Felipe tambm passara a fazer parte da minha famlia. Fora integralmente adotado por meuspais, minha irm, meus amigos, meu mundo. E como continuaramos a viver juntos se ele fossebanido para sempre? O que faramos? (Onde eu e voc dormiremos?, diz a letra de uma lamentosacano de amor dos ndios wintus. Na orla recortada e pendente do cu? Onde eu e voc dormiremos?)

    Com base em qu vo deport-lo? perguntei ao agente da Segurana Interna,tentando soar autoritria.

    Estritamente falando, madame, no uma deportao. Ao contrrio de mim, oagente no precisava soar autoritrio; nele, isso era natural. S estamos lhe recusando a

  • permisso de entrar nos Estados Unidos, com base em que visitou o pas com demasiadafrequncia no ano passado. Ele nunca ultrapassou o tempo permitido nos vistos, mas, comtantas idas e vindas, parece que ele mora com a senhora na Filadlfia durante perodos de trsmeses e depois sai do pas s para voltar logo depois. Isso seria difcil negar, j que eraexatamente o que Felipe vinha fazendo.

    Isso crime? perguntei. No exatamente. No ou no exatamente? No, madame, no crime. por isso que no vamos prend-lo. Mas a concesso de

    vistos de trs meses que o governo dos Estados Unidos oferece aos cidados de pases amigosno foi feita para visitas consecutivas infinitas.

    Mas no sabamos disso disse eu.Nisso, Felipe entrou na conversa. Na verdade, senhor, certa vez um agente da Imigrao de Nova York nos disse que eu

    poderia visitar os Estados Unidos quantas vezes quisesse, desde que nunca ultrapassasse osnoventa dias de validade do visto.

    No sei quem lhe disse isso, mas no verdade. Ouvir o agente dizer isso melembrou de um aviso que Felipe me fizera certa vez sobre a travessia de fronteirasinternacionais: Nunca leve na brincadeira, querida. Lembre-se sempre de que algum dia, porqualquer razo que seja, algum guarda de fronteira do mundo pode decidir que no quer deixarvoc entrar.

    O que o senhor faria agora, se estivesse na nossa situao? perguntei. Essa umatcnica que, com o tempo, aprendi a usar sempre que me vejo num impasse com umfuncionrio indiferente do atendimento ao cliente ou um burocrata aptico. Fazer esse tipo depergunta estimula a pessoa que detm todo o poder a parar um instante e se pr no lugar dequem est impotente. um apelo sutil empatia. s vezes ajuda. Na maioria das vezes, paraser honesta, no adianta nada. Mas ali eu estava disposta a tentar tudo.

    Bom, se o seu namorado pretende voltar aos Estados Unidos, vai precisar arranjar umvisto melhor e mais permanente. Se eu fosse a senhora, tentaria lhe conseguir isso.

    Ento est bem disse eu. Qual a maneira mais rpida de conseguirmos umvisto melhor e mais permanente para ele?

    O agente da Segurana Interna olhou Felipe, depois me olhou, depois olhou Felipe outravez.

    Honestamente? perguntou. Vocs dois precisam se casar.

    Quase deu para ouvir o meu corao afundar. Do outro lado da salinha, consegui sentir ocorao de Felipe se afundar com o meu, numa queda livre total e sincronizada.

    Em retrospecto, parece inacreditvel que essa proposta nos pegasse de surpresa. Cus,

  • ser que eu nunca tinha ouvido falar de casamentos para tirar o green card ? Talvez tambmparea inacreditvel que, dada a natureza urgente das circunstncias, a sugesto do matrimniome causasse angstia em vez de alvio. Quer dizer, pelo menos tnhamos uma opo, no ?Mas a proposta me pegou de surpresa. E doeu. Eu tinha expulsado to completamente a noode casamento da minha psique que ouvir a ideia dita agora em voz alta foi um choque. Fiqueime sentindo arrasada, pega de surpresa, pesada, expulsa de algum aspecto fundamental do meuser, e mais do que tudo, me senti pega. Senti que ambos tnhamos sido pegos. O peixe voador eo pssaro mergulho tinham cado na rede. E a minha ingenuidade, no pela primeira vez navida, confesso, me atingiu na cara como uma toalha molhada: por que fui to boba a ponto de imaginarque conseguiramos levar a vida que queramos para sempre?

    Ningum disse nada por algum tempo at que o agente da Segurana Interna, vendo asnossas caras silenciosas de condenados, perguntou:

    Me desculpem, mas qual o problema dessa ideia?Felipe tirou os culos e esfregou os olhos sinal, como eu sabia por muita experincia,

    de completa exausto. Suspirou e disse: Ah, Tom, Tom, Tom...Eu ainda no percebera que aqueles dois j eram ntimos, mas acho que isso tinha de

    acontecer durante uma sesso de interrogatrio de seis horas. Ainda mais quando ointerrogado Felipe.

    No, srio: qual o problema? perguntou o agente Tom. bvio que vocsdois j moram juntos. bvio que gostam um do outro, que no so casados com maisningum...

    Voc tem de entender, Tom explicou Felipe, se inclinando para a frente e falandocom uma intimidade que ia contra o ambiente oficial , que no passado Liz e eu passamospor divrcios muito ruins mesmo.

    O agente Tom fez um barulhinho, um tipo de Oh... suave e solidrio. Depois, tiroutambm os culos e esfregou os olhos. Instintivamente, dei uma espiada no terceiro dedo damo esquerda. Nenhuma aliana. Pela mo esquerda nua e pela reao pensativa decomiserao cansada, fiz um rpido diagnstico: divorciado.

    Foi a que a conversa ficou surrealista. Ora, vocs podem assinar um contrato pr-nupcial sugeriu o agente Tom. Quer

    dizer, se tm medo de passar outra vez por toda a confuso financeira do divrcio. Mas se soas questes de relacionamento que assustam, talvez fosse boa ideia procurar orientaopsicolgica.

    Ouvi aquilo espantadssima. Um agente do Departamento de Segurana Interna dos Estados Unidosestava nos dando conselhos conjugais? Numa sala de interrogatrio? Nas entranhas do Aeroporto Internacional deDallas/Fort Worth?

    Recuperei a voz e sugeri essa soluo brilhante: Agente Tom, e se eu desse um jeito de contratar Felipe, em vez de me casar com ele?

    No daria para traz-lo para os Estados Unidos como meu funcionrio, em vez de meu

  • marido?Felipe se endireitou na cadeira e exclamou: Querida! Que ideia maravilhosa!O agente Tom nos olhou com uma cara esquisita. Perguntou a Felipe: Honestamente, prefere ter essa mulher como chefe em vez de esposa? Meu Deus, claro!Consegui sentir o agente Tom se segurar quase fisicamente para no perguntar: Que tipo

    de gente maluca vocs so? Mas ele era profissional demais para esse tipo de coisa. Em vezdisso, pigarreou e disse:

    Infelizmente, o que a senhora acaba de propor no legal neste pas.Felipe e eu desmoronamos de novo, novamente com sincronizao total, num silncio

    deprimido.Depois de um bom tempo, falei de novo. Tudo bem disse, derrotada. Vamos acabar com isso. Se eu me casar com Felipe

    agora, aqui mesmo na sua sala, o senhor deixa ele entrar no pas hoje? No haveria umcapelo aqui no aeroporto que pudesse fazer isso?

    H momentos na vida em que o rosto de um homem comum pode assumir um ar de quasedivindade, e foi bem isso que aconteceu. Tom, agente texano da Segurana Interna comdistintivo e tudo, cansado e com barriguinha, sorriu para mim com uma tristeza, uma bondade,uma compaixo luminosa totalmente deslocadas naquela sala estagnada e desumanizadora. Derepente, parecia at um capelo.

    Ah, no... disse, suavemente. Acho que no assim que funciona.Agora, ao recordar tudo isso, claro que percebo que o agente Tom j sabia muito

    melhor do que ns o que nos esperava. Ele sabia muito bem que obter um visto oficial denoivo nos Estados Unidos, ainda mais depois de um incidente de fronteira como aquele, noseria nada fcil. O agente Tom podia prever todas as dificuldades que teramos agora:advogados em trs pases em trs continentes, alis , que teriam de obter todos osdocumentos legais necessrios; os nada-consta exigidos da polcia federal de cada pas ondeFelipe j tivesse morado; as pilhas de cartas pessoais, fotos e outras efemrides que teramosde compilar para provar que a nossa relao era real (inclusive, como louca ironia, provascomo contas bancrias conjuntas, coisas que fazamos um esforo enorme para manterseparadas); impresses digitais; vacinas; radiografias do trax para ver se havia tuberculose;entrevistas nas embaixadas americanas no exterior; documentos do servio militar no Brasil,trinta e cinco anos atrs, que de algum modo teramos de recuperar; o tempo enorme queFelipe teria de passar fora do pas e a quantia imensa que teria de gastar enquanto esseprocesso se desenrolasse; e, pior de tudo, a incerteza horrvel de no saber se todo esseesforo bastaria, ou seja, sem saber se o governo dos Estados Unidos (que, nesse aspecto, secomportava como um pai rgido das antigas) aceitaria algum dia esse homem como maridodessa sua filha natural ciosamente guardada.

  • Assim, o agente Tom j sabia tudo isso, e o fato de ter demonstrado solidariedadeconosco pelo que estvamos prestes a passar foi um toque inesperado de gentileza numasituao aflita daquelas. O fato de que, at esse momento, nunca me imaginei elogiando porescrito um agente do Departamento de Segurana Interna pela ternura pessoal destaca maisainda como toda aquela situao ficara esquisita. Mas devo dizer aqui que o agente Tomtambm nos prestou outro servio gentil. (Isto , antes de algemar Felipe e o levar para apriso do condado de Dallas, depositando-o numa cela cheia de criminosos de verdade parapassar a noite.) O gesto do agente Tom foi o seguinte: ele nos deixou juntos e sozinhos na salade interrogatrio durante dois minutos inteiros, para que pudssemos nos despedir comprivacidade.

    Quando a gente s tem dois minutos para dizer adeus a quem mais ama no mundo e nosabe quando vai ver de novo, como se o esforo de dizer e fazer e combinar tudo ao mesmotempo provocasse um engarrafamento. Ento, nos nossos dois minutos sozinhos na sala deinterrogatrio, fizemos um plano apressado e sem flego. Eu iria para a Filadlfia, memudaria da casa alugada, guardaria tudo num depsito, arranjaria um advogado especializadoem imigrao e poria em andamento o processo jurdico. claro que Felipe iria para acadeia. Depois seria deportado para a Austrlia, ainda que, em termos estritos, no fosselegalmente deportado. (Perdoem-me por usar a palavra deportado em todas as pginasdeste livro, mas ainda no sei direito como dizer de outra maneira que algum foi expulso deum pas.) Como no vivia mais na Austrlia, no tinha casa l nem perspectivas financeiras,Felipe daria um jeito, o mais rpido possvel, de ir morar em algum lugar mais barato nosudeste da sia, provavelmente e eu me encontraria com ele naquele lado do mundo assimque tudo estivesse encaminhado da minha parte. L, esperaramos juntos que esse perodoindefinido de incerteza passasse.

    Enquanto Felipe rabiscava o telefone do seu advogado, dos filhos adultos e dos sciospara que eu pudesse avisar todo mundo da situao, esvaziei a bolsa, procurandofreneticamente o que poderia lhe dar para que tivesse mais conforto na cadeia: chiclete, todo omeu dinheiro, uma garrafa dgua, uma fotografia nossa e o romance que eu estava lendo noavio, com o ttulo muito adequado de O Ato de Amor do Povo.

    Depois, os olhos de Felipe se encheram de lgrimas, e ele disse: Obrigado por entrar na minha vida. Agora no importa o que acontecer, no importa o

    que voc fizer, saiba que me deu os dois anos mais alegres que j tive e que nunca esquecereivoc.

    Percebi num relmpago: meu Deus, o cara acha que vou abandon-lo. A reao dele mesurpreendeu e me comoveu, mas, mais do que tudo, me envergonhou. No passou pela minhacabea, depois que o agente Tom revelara a opo, que agora eu no me casaria com Felipepara salv-lo do exlio; mas parece que passou pela cabea dele que talvez fosse chutado. Eletemia mesmo que eu o abandonasse, deixando-o ao relento, falido e quebrado. Ser que eumerecia essa fama? Ser que eu era conhecida, at mesmo dentro dos limites da nossa pequena

  • histria de amor, como quem pula do barco na primeira dificuldade? Mas os temores deFelipe seriam mesmo infundados, dada a minha histria? Se a nossa situao se invertesse, eujamais duvidaria, nem por um segundo, da solidez da lealdade dele nem da sua disposio desacrificar praticamente tudo por mim. Ser que ele podia ter certeza de que eu seriaigualmente firme?

    Tive de admitir que, se esse estado de coisas acontecesse dez ou quinze anos antes, omais certo seria eu largar o meu parceiro em perigo. Sinto confessar que, na juventude, eupossua um volume bem pequeno de honra, se que possua, e que a minha especialidade erame comportar de maneira leviana e impensada. Mas, hoje, ser uma pessoa de carter importante para mim, e quanto mais envelheo mais importante . Naquele momento, ento e s tinha um momento para ficar sozinha com Felipe , fiz a nica coisa certa ao lado dessehomem que adorava. Prometi a ele, dizendo as palavras no seu ouvido para que percebesse aminha sinceridade, que no o deixaria, que faria o que fosse preciso para ajeitar tudo e que,mesmo que no conseguisse ajeitar tudo nos Estados Unidos, ficaramos juntos de qualquerjeito, em algum lugar do mundo, onde quer que fosse.

    O agente Tom voltou sala.No ltimo instante, Felipe me cochichou: Eu te amo tanto que at me caso com voc. E eu te amo tanto prometi que at me caso com voc.Ento, os bondosos agentes da Segurana Interna nos separaram, algemaram Felipe e o

    levaram embora primeiro para a cadeia, depois para o exlio.

    Naquela noite, quando peguei o avio sozinha de volta nossa vidinha j obsoleta naFiladlfia, pensei com mais sobriedade no que acabara de prometer. Fiquei surpresa aodescobrir que no me sentia chorosa nem apavorada; no sei por qu, mas a situao meparecia grave demais. Em vez disso, o que tive foi uma sensao feroz de concentrao, deque a situao tinha de ser tratada com a mxima seriedade. No espao de apenas poucashoras, a minha vida com Felipe fora totalmente virada de cabea para baixo, como por umagrande esptula csmica. E agora parecia que estvamos noivos. Sem dvida, foi umacerimnia de noivado estranha e apressada. Parecia mais coisa de Kafka do que de JaneAusten. Mas ainda assim era um noivado oficial, porque tinha de ser.

    Ento, timo. Pois que seja. Com certeza eu no seria a primeira mulher na histria daminha famlia a se casar por causa de uma situao grave embora, pelo menos, a minhasituao no envolvesse gravidez acidental. Ainda assim, o remdio era o mesmo: juntar ostrapinhos, e depressa. E era isso o que faramos. Mas a estava o verdadeiro problema, queidentifiquei naquela noite, sozinha no avio de volta a Filadlfia: eu no fazia ideia do que erao casamento.

    J cometera esse erro entrar no casamento sem entender absolutamente nada sobre a

  • instituio uma vez na vida. Na verdade, mergulhara no meu primeiro casamento, com aidade totalmente inacabada de 25 anos, mais ou menos do mesmo modo que um labrador pulana piscina, com exatamente a mesma preparao e capacidade de previso. Com 25 anos, euera to irresponsvel que talvez no devessem me deixar escolher nem a pasta de dente, quemdir o meu prprio futuro, e assim, como se pode imaginar, essa atitude descuidada me saiucarssima. Colhi as consequncias em altssimo grau, seis anos depois, no ambiente sinistro dotribunal, com uma ao de divrcio.

    Ao recordar o dia do meu primeiro casamento, lembro-me do romance Death of a Hero(Morte de um heri), de Richard Aldington, no qual ele diz sobre os seus dois jovens amantesno dia fatdico do casamento deles: Ser possvel tabular as ignorncias, as ignornciasrelevantes, de George Augustus e Isabel quando se prometeram um ao outro at que a morte osseparasse? Eu tambm j fui uma noiva jovem e sonsa, bem parecida com a Isabel deAldington, sobre quem ele escreveu: O que ela no sabia inclua quase toda a gama doconhecimento humano. O enigma descobrir o que ela sabia.

    Mas agora, com a idade muito menos sonsa de 37 anos, no me convencera de sabermuito mais do que antes sobre a realidade do companheirismo institucionalizado. Fracassarano casamento e, portanto, tinha pavor de casamento, mas acho que isso no me transformavaem especialista no assunto; s fazia de mim especialista em fracasso e terror, e esses doiscampos especficos j tm especialistas demais. Mas o destino interferira e me exigia ocasamento, e aprendi com as experincias da vida o bastante para entender que s vezes asintervenes do destino podem ser entendidas como convites para enfrentar e at superar osnossos maiores medos. No preciso ser um grande gnio para admitir que, quando ascircunstncias nos empurram a fazer a nica coisa especfica que mais detestamos e tememos,no mnimo essa pode ser uma oportunidade interessante de crescimento.

    Assim, aos poucos, percebi no avio que me levava embora de Dallas, com o meumundo agora virado do avesso, o meu amor exilado, ns dois efetivamente condenados a noscasar, que talvez eu devesse usar esse perodo para fazer as pazes com a ideia do matrimnioantes de mergulhar nele outra vez. Talvez fosse uma atitude sbia investir algum esforo paradeslindar o mistrio do que na verdade, em nome de Deus e da histria humana, essainstituio confusa, irritante, contraditria mas teimosamente duradoura do casamento.

    E foi o que fiz. Durante os dez meses seguintes, enquanto viajava com Felipe num estadode exlio sem razes e trabalhava como louca para lev-lo de volta aos Estados Unidos paraque nos casssemos em segurana (o agente Tom nos avisou que, se nos casssemos naAustrlia ou em qualquer outro lugar do mundo, isso s irritaria o Departamento de SeguranaInterna e retardaria ainda mais o processo de imigrao), a nica coisa em que pensei, a nicacoisa que li e quase a nica coisa de que falei com algum foi o assunto desconcertante domatrimnio.

    Recrutei a minha irm na Filadlfia (que tem a vantagem de ser historiadora de verdade)para me mandar caixas de livros sobre casamento. Onde quer que eu e Felipe estivssemos, eu

  • me trancava no quarto de hotel para estudar, passando horas sem conta na companhia deeminentes especialistas matrimoniais como Stephanie Coontz e Nancy Cott, escritoras cujonome jamais ouvira mas que se transformaram em heronas e professoras. Para ser honesta,todo esse estudo me transformou numa pssima turista. Durante esses meses de viagem, Felipee eu fomos para muitos lugares lindos e fascinantes, mas acho que nem sempre dei a devidaateno ao que nos cercava. De qualquer maneira, esse perodo de viagens nunca teve mesmoo clima de uma aventura despreocupada. Foi mais uma expulso, uma hgira. Viajar porqueno podemos voltar para casa, porque um de ns no tem permisso oficial para voltar paracasa, nunca ser uma tarefa agradvel.

    Alm disso, a nossa situao financeira era preocupante. Faltava menos de um ano paraComer, Rezar, Amar virar um best-seller lucrativo, mas essa bem-vinda evoluo ainda noacontecera nem prevamos que aconteceria. Agora Felipe estava completamente isolado dasua fonte de renda, de modo que ambos vivamos dos vestgios do contrato do meu ltimolivro e eu no sabia direito quanto tempo isso duraria. Algum tempo, claro, mas no parasempre. Eu comeara a trabalhar recentemente num romance novo, mas a pesquisa e a redaotinham sido interrompidas com a deportao de Felipe. E foi assim que acabamos indo para osudeste da sia, onde, para duas pessoas frugais, vivel viver com trinta dlares por dia. Euno diria exatamente que sofremos durante esse perodo de exlio (cus, estvamos longe deser refugiados polticos famintos), mas foi um modo de vida tenso e esquisitssimo, com atenso e a esquisitice ainda aumentadas pela incerteza do resultado.

    Perambulamos durante quase um ano espera do dia em que Felipe seria chamado para aentrevista no consulado americano de Sydney, na Austrlia. Enquanto isso, despencando depas em pas, parecamos apenas um casal insone tentando encontrar posio mais sossegadapara dormir numa cama estranha e desconfortvel. Durante muitas noites ansiosas, em muitascamas bem estranhas e desconfortveis, eu ficava l deitada no escuro, elaborando os meusconflitos e preconceitos contra o casamento, filtrando todas as informaes que lia,garimpando a histria atrs de concluses reconfortantes.

    Aqui, preciso esclarecer logo que limitei os meus estudos principalmente ao exame docasamento na histria ocidental e que, portanto, este livro vai refletir essa limitao cultural.Qualquer antroplogo ou historiador matrimonial propriamente dito encontrar lacunasimensas na minha narrativa, j que deixei inexplorados continentes inteiros e sculos dehistria humana, sem falar que pulei alguns conceitos nupciais importantssimos (a poligamia apenas um exemplo). Para mim, teria sido agradvel e, sem dvida, educativo mergulharmais fundo no exame de todos os costumes conjugais possveis do planeta, mas eu no tinhatanto tempo assim. S para compreender a natureza complexa do matrimnio nas sociedadesislmicas, por exemplo, eu precisaria de anos de estudo, e a minha urgncia tinha um prazoque impedia contemplao to extensa. Um relgio bem real batia na minha vida: dali a umano, quisesse ou no, preparada ou no, eu teria de me casar. Sendo assim, parecia inevitvelque eu me concentrasse em desvendar a histria do casamento ocidental monogmico para

  • entender melhor as ideias pressupostas que herdara, o formato da narrativa da minha famlia ea minha lista de angstias culturalmente especficas.

    Tinha esperanas de que todo esse estudo mitigasse a minha profunda averso aocasamento. No sabia direito se isso aconteceria, mas, seja como for, no passado a minhaexperincia sempre foi esta: quanto mais aprendia sobre alguma coisa, menos ela meassustava. (Alguns medos s podem ser vencidos, no estilo do duende Rumpelstiltskin, quandose descobre o seu nome secreto e oculto.) Mais do que tudo, o que eu queria mesmo era darum jeito de aceitar o casamento com Felipe quando o grande dia chegasse, em vez de apenasengolir o destino como um comprimido duro e horrvel. Podem me chamar de antiquada, masachei que seria um toque legal me sentir feliz no dia do meu casamento. Feliz e consciente,quero dizer.

    Este livro a histria de como cheguei l.E tudo comea porque toda histria tem de comear em algum lugar nas montanhas

    do norte do Vietn.

  • CAPTULO DOIS

    Casamento e expectativasO HOMEM PODE SER FELIZ COM QUALQUER MULHER DESDE QUE NO A AME.

    Oscar Wilde

    D

    Naquele dia, uma menininha me achou.Felipe e eu tnhamos chegado quela aldeia especfica depois de partir de Hani numa

    viagem noturna, num trem barulhento e sujo da poca sovitica. No consigo lembrar direitopor que fomos a essa cidade especfica, mas acho que alguns jovens mochileirosdinamarqueses a recomendaram. Seja como for, depois da viagem no trem sujo e barulhentoveio uma viagem de nibus longa, suja e barulhenta. Finalmente, o nibus nos largou num lugarabsurdamente bonito que se equilibrava na fronteira com a China: remoto, verdejante eselvagem. Encontramos um hotel e, quando sa sozinha para explorar a cidade e tentar tirar daspernas a rigidez da viagem, a menininha me abordou.

    Tinha 12 anos, soube depois, mas era muito menor do que todas as meninas americanasde 12 anos que j conheci. Era lindssima. A pele era morena e saudvel, o cabelo brilhoso etranado, o corpo compacto, robusto e confiante numa tnica curta de l. Embora fosse vero eos dias estivessem sufocantes, a batata da perna estava envolta em calas justas de l de coresvivas. Os ps batucavam sem parar em sandlias chinesas de plstico. Ela ficara algum tempoperto do hotel eu a avistara quando estvamos fazendo o check-in e agora, quando sasozinha, ela se aproximou a toda.

    Como o seu nome? perguntou. Liz. E o seu? Mai disse ela , e posso escrever para voc saber como . Voc fala um ingls muito bom cumprimentei.Ela deu de ombros. Claro. Pratico muito com os turistas. Tambm falo vietnamita, chins e um pouco de

    japons. O qu? brinquei. Nada de francs?

  • Un peu respondeu ela com olhar manhoso. Depois, perguntou: Liz, de onde voc?

    Dos Estados Unidos respondi. Depois, tentando fazer graa, j que, obviamente,ela era dali mesmo, perguntei: E voc, Mai, de onde ?

    Ela entendeu a piada na mesma hora e respondeu altura. Sou da barriga da minha me disse, fazendo com que eu me apaixonasse por ela

    instantaneamente.Na verdade, Mai era do Vietn, mas percebi depois que ela nunca se dizia vietnamita.

    Ela era hmong: pertencia a uma pequena minoria tnica orgulhosa e isolada (que osantroplogos chamam de povo original) que habita os picos mais elevados das montanhasdo Vietn, da Tailndia, do Laos e da China. Como os curdos, os hmong na verdade nuncapertenceram a nenhum dos pases onde moram. Continuam a ser um dos povos maisabsurdamente independentes do mundo: nmades, contadores de histrias, guerreiros,anticonformistas natos e um flagelo terrvel para todos os pases que j tentaram control-los.

    Para entender como improvvel a continuao da existncia dos hmong neste planeta, preciso imaginar como seria se, por exemplo, os ndios mohawk ainda vivessem no norte doEstado de Nova York exatamente como h sculos, com roupas tradicionais, a sua prprialngua e recusando terminantemente a assimilao. Assim, dar com uma aldeia hmong comoaquela nos primeiros anos do sculo XXI uma maravilha anacrnica. A sua cultura umajanela cada vez mais rara que d para uma verso mais antiga da experincia humana. Tudoisso para dizer que, se voc quiser saber como a sua famlia era h 4 mil anos, provvel quefosse como os hmong.

    Ei, Mai disse eu. Quer ser minha intrprete hoje? Por qu? perguntou ela.Os hmong so famosos por serem diretos, por isso expliquei diretamente: Preciso conversar com algumas mulheres da sua aldeia sobre o casamento. Por qu? perguntou ela outra vez. Porque vou me casar em breve e preciso de conselhos. Voc velha demais para se casar observou Mai gentilmente. Ora, o meu namorado tambm velho respondi. Ele tem 55 anos.Ela me olhou atentamente, soltou um assovio baixo e disse: Ora, que homem de sorte.No sei direito por que Mai decidiu me ajudar naquele dia. Curiosidade? Tdio?

    Esperana de que eu lhe desse uns trocados? (O que fiz, claro.) Mas, fosse qual fosse omotivo, ela concordou. Depois de uma marcha ngreme por uma encosta prxima, logochegamos casa de pedra de Mai, que era minscula, enegrecida de fuligem, iluminadaapenas por algumas janelinhas e aninhada no vale de um dos rios mais lindos que se podeimaginar. Mai me levou l dentro e me apresentou a um grupo de mulheres, todas tecendo,cozinhando ou limpando. De todas as mulheres, foi a av de Mai que, na mesma hora, achei

  • mais interessante. Era a vov mais risonha, feliz, baixinha e desdentada que j vi na vida.Alm disso, ela me achou hilariante. Parecia que tudo em mim lhe provocava gargalhadasdesmedidas. Ela ps um alto chapu hmong na minha cabea, me apontou e riu. Enfiou umbeb hmong minsculo nos meus braos, me apontou e riu. Enrolou-me num tecido hmonglindssimo, me apontou e riu.

    Alis, para mim isso no foi problema nenhum. Aprendi h muito tempo que, quandosomos o gigantesco visitante de fora numa remota cultura estrangeira, faz parte do serviovirar motivo de ridculo. Na verdade, como hspedes bem-educados, o mnimo quepodemos fazer. Logo, mais mulheres, vizinhas e parentes, afluram para a casa. Tambm memostraram os seus tecidos, enfiaram os seus chapus na minha cabea, encheram os meusbraos de bebs, me apontaram e riram.

    Como Mai explicou, a famlia toda, num total de quase uma dzia de pessoas, moravanessa casa de um cmodo s. Todos dormiam juntos no cho. A cozinha ficava de um lado e ofogo de lenha para o inverno, do outro. O arroz e o milho ficavam guardados num depsitoacima da cozinha, enquanto porcos, galinhas e bfalos-asiticos se mantinham por perto otempo todo. S havia um espao privado na casa inteira e no era muito maior do que umarmrio de vassouras. Mais tarde, nas minhas leituras, descobri que era ali que os recm-casados de todas as famlias podiam dormir juntos nos primeiros meses de casamento, parafazer as suas descobertas sexuais em particular. Entretanto, depois dessa experincia inicialde privacidade o jovem casal volta a se unir ao resto da famlia, dormindo no cho com todomundo pelo resto da vida.

    J lhe contei que o meu pai morreu? perguntou Mai enquanto me mostrava tudo. Sinto muito disse eu. Quando foi? Quatro anos atrs. De que ele morreu, Mai? Morreu disse ela, friamente, e foi s. O pai morrera de morte. Era assim que todo

    mundo costumava morrer, acho, antes que soubssemos mais sobre comos e porqus. Quando ele morreu, comemos o bfalo no funeral. Com essa lembrana, o seu rostomostrou uma mistura complicada de emoes: tristeza pela perda do pai, prazer com alembrana de como o bfalo era gostoso.

    A sua me se sente solitria?Mai deu de ombros.Era difcil imaginar solido ali. Assim como era impossvel imaginar, nesse sistema

    domstico apinhado, onde seria possvel encontrar a feliz irm gmea da solido: a privacidade.Mai e sua me moravam em proximidade constante com muita gente. No pela primeira vezem meus anos de viagens me espantei de ver at que ponto, em comparao, a sociedadeamericana contempornea parece isoladora. L de onde venho, encolhemos a noo deunidade familiar at uma coisa to minscula que o mais provvel que ningum, nessesgrandes cls hmong flexveis e abrangentes, a reconhea como famlia. Hoje em dia, quase

  • precisamos de um microscpio eletrnico para estudar a famlia ocidental moderna. O quetemos so duas, talvez trs, algumas vezes quatro pessoas espalhadas num espao gigantesco,cada uma com um espao fsico e psicolgico privativo, cada uma passando boa parte do diacompletamente separada das outras.

    No estou dizendo aqui que, nessa moderna unidade familiar encolhida, tudo necessariamente ruim. Sem dvida a vida e a sade das mulheres melhoram quando se reduz onmero de filhos, e este um golpe retumbante na capacidade de seduo da culturaalvoroada dos cls. Alm disso, os socilogos sabem h muito tempo que a incidncia deincesto e de abuso sexual de crianas aumenta sempre que muitos parentes de idadesdiferentes moram juntos com tanta intimidade. Num grupo to grande, pode ser difcilacompanhar ou defender os indivduos, sem falar da individualidade.

    Mas no h dvida de que algo tambm se perdeu nos nossos lares modernos, fechados eprivadssimos. Observar a interao das mulheres hmong me fez pensar que a evoluo dafamlia ocidental, cada vez menor e mais nuclear, pode ter exercido uma presso especficasobre os casamentos modernos. Na sociedade hmong, por exemplo, os homens e as mulheresno passam tanto tempo juntos. Claro, todo mundo tem marido. Claro, fazemos sexo com essemarido. Claro, nosso destino est unido. Claro, pode at haver amor. Mas, fora isso, a vidados homens e das mulheres separada com bastante firmeza no terreno dividido dos papissexuais. Os homens trabalham e se socializam com outros homens; as mulheres trabalham e sesocializam com outras mulheres. O caso em questo: naquele dia, no se via um nico homemem lugar nenhum perto da casa de Mai. O que quer que os homens estivessem fazendo(trabalhando na roa, bebendo, conversando, jogando), era longe dali, todos juntos, separadosdo universo das mulheres.

    Assim, a mulher hmong no espera, necessariamente, que o marido seja o seu melhoramigo, o confidente mais ntimo, o conselheiro emocional, o par intelectual, o consolo emtempos de tristeza. Em vez disso, elas recebem boa parte desse sustento e apoio emocional deoutras mulheres: irms, tias, mes, avs. A mulher hmong tem muitas vozes na vida, muitasopinies e esteios emocionais o tempo todo sua volta. Em todas as direes, h parentas aoalcance da mo, e as muitas mos femininas tornam leves, ou pelo menos mais leves, os fardospesados da vida.

    Finalmente, depois de trocadas todas as saudaes, ninados todos os bebs e todo o risoatenuado em boa educao, todas nos sentamos. Com Mai como intrprete, comeceiperguntando av se poderia me falar da cerimnia de casamento hmong.

    tudo muito simples, explicou a av com pacincia. Antes do casamento hmongtradicional, exige-se que a famlia do noivo visite a casa da noiva para que as famlias faamum acordo, marquem uma data, elaborem um plano. Nessa ocasio sempre se mata umagalinha, para alegrar os fantasmas da famlia. Quando chega a data do casamento, matam-semuitos porcos. Prepara-se o banquete e os parentes vm de todas as aldeias para festejar. Asduas famlias dividem as despesas. H uma procisso at a mesa do casamento e um parente

  • do noivo sempre leva uma sombrinha.Nesse ponto, interrompi para perguntar o que significava a sombrinha, mas a pergunta

    provocou certa confuso. Confuso, talvez, sobre o que significa a palavra significa. Asombrinha a sombrinha, foi o que me disseram, e levada porque sempre se levamsombrinhas em casamentos. por isso e pronto, e sempre foi assim.

    Assim resolvidas as questes ligadas s sombrinhas, a av continuou explicando otradicional costume conjugal hmong do rapto. um costume antigo, disse ela, embora sejamuito menos praticado hoje em dia do que no passado. Mas ainda existe. As noivas, s vezesconsultadas antes do rapto, s vezes no, so sequestradas pelos noivos em potencial, que aslevam a cavalo at a casa da sua famlia. Tudo estritamente organizado e s permitido emcertas noites do ano, em festas havidas depois de dias de feira especficos. (No se podesimplesmente raptar uma noiva quando d vontade. Existem regras.) A moa raptada tem trsdias para morar na casa do seu captor, com a famlia dele, para decidir se gostaria ou no dese casar com o camarada. Na maioria das vezes, disse a av, o casamento prossegue com oconsentimento da moa. Nas raras ocasies em que no aceita o raptor, a noiva raptada podevoltar para a casa da sua famlia depois de trs dias e a histria toda esquecida. E isso mepareceu bastante sensato, pelo menos no caso dos raptos.

    A nossa conversa ficou estranha, para mim e para todas ns na sala, quando tentei pedir av que me contasse a histria do seu casamento, na esperana de obter dela alguns relatospessoais ou emocionais sobre a experincia do matrimnio. A confuso comeou na mesmahora em que perguntei velha:

    O que a senhora achou do seu marido quando o conheceu?Todas as rugas do rosto formaram uma cara de perplexidade. Supondo que ela, ou Mai,

    talvez, no tivesse entendido direito a pergunta, tentei de novo: Quando percebeu que o seu marido era algum com quem a senhora queria se casar?Novamente, a pergunta foi recebida com espanto bem-educado. A senhora soube que ele era especial na mesma hora? tentei de novo. Ou

    aprendeu a gostar dele com o tempo?Nisso, algumas mulheres da sala comearam a dar risinhos nervosos, como se rissem de

    algum meio maluco parece que foi nisso que me transformei aos olhos delas.Voltei atrs e tentei outro caminho: Quero dizer, quando a senhora conheceu o seu marido?Com isso, a av examinou um pouco a memria, mas no conseguiu me dar nenhuma

    resposta definitiva que no fosse h muito tempo. No parecia mesmo ser uma questoimportante para ela.

    Tudo bem. Onde a senhora conheceu o seu marido? perguntei, tentando simplificaras coisas ao mximo.

    Mais uma vez, a prpria forma da minha curiosidade parecia um mistrio para a av.Mas, educadamente, ela tentou. Nunca conhecera especificamente o marido antes de se casar

  • com ele, foi o que tentou explicar. Claro que j o vira antes. Tem sempre muita gente porperto, sabe. Ela no conseguia mesmo se lembrar. Seja como for, no tinha importncia se elao conhecia ou no quando pequena. Afinal de contas, concluiu, para alegria das outrasmulheres na sala, sem dvida agora ela o conhece.

    Mas quando se apaixonou por ele? perguntei finalmente, queima-roupa.Assim que Mai traduziu a pergunta, todas as mulheres da sala, menos a av, que era

    educada demais, soltaram uma gargalhada, uma exploso espontnea de riso, que tentaramsufocar polidamente atrs das mos.

    Talvez voc ache que isso me assustou. Talvez devesse ter me assustado. Mas persisti, edepois do estrondo de riso fiz uma pergunta que lhes pareceu ainda mais ridcula:

    E, para a senhora, qual o segredo de um casamento feliz? perguntei, muito sria.Com isso, todas realmente se soltaram. At a av gargalhava abertamente. O que era

    bom, certo? Como j determinado, em pases estrangeiros fico sempre muito bem disposta aser motivo de riso para a diverso dos outros. Mas, nesse caso, devo confessar que toda essahilariedade foi meio incmoda, devido ao fato de que no consegui entender a piada. Eu sconseguia entender que era bvio que essas senhoras hmong e eu falvamos lnguas muitssimodiferentes (quero dizer, alm do fato de que ali falvamos literalmente lnguas muitssimodiferentes). Mas o que, em termos especficos, elas viam de to absurdo nas minhasperguntas?

    Nas semanas seguintes, quando recordei essa conversa, fui obrigada a criar uma teoriaminha sobre o que nos tornara, a mim e s minhas anfitris, to estranhas e incompreensveisumas para as outras na questo do casamento. E eis essa minha teoria: nem a av nem asoutras mulheres da sala punham o casamento no centro da sua biografia emocional de um jeitoque, para mim, seria familiar, ainda que remotamente. No mundo ocidental, moderno eindustrializado de onde venho, a pessoa com quem resolvemos nos casar talvez seja arepresentao mais viva da nossa prpria personalidade. O cnjuge se torna o espelho maisbrilhante possvel, que reflete para o mundo o nosso individualismo emocional. Afinal decontas, no existe escolha mais ntima do que a pessoa com quem vamos nos casar; em grandeparte, essa escolha nos diz quem somos. Assim, quando perguntamos a qualquer mulherocidental tpica como conheceu o marido, quando o conheceu e por que se apaixonou por ele, quase certo ouvirmos uma narrativa completa, complexa e profundamente pessoal, que essamulher no s teceu com todo o cuidado em torno da experincia como um todo comodecorou, internalizou e reexaminou atrs de pistas da sua prpria identidade. Alm disso, mais do que provvel que ela conte a histria s claras, mesmo que seja a um estranho. Naverdade, com o tempo descobri que a pergunta Onde voc conheceu o seu marido? um dosmelhores quebra-gelos j inventados para comear uma conversa. Na minha experincia, noimporta nem se o casamento foi feliz ou desastroso: a histria ainda ser contada como setivesse importncia fundamental para o ser emocional daquela mulher, talvez at A histriamais importante do seu ser emocional.

  • Seja quem for essa mulher ocidental moderna, posso garantir que a histria vai tratar deduas pessoas ela e o marido que, como personagens de um filme ou romance, estariamnum tipo qualquer de jornada na vida antes de se conhecer, jornadas essas que se cruzaramnum momento decisivo. (Por exemplo: Naquele vero, eu estava morando em So Franciscoe no tinha a mnima inteno de continuar por l, at que conheci Jim naquela festa.) provvel que a histria tenha suspense e dramaticidade (Ele achou que eu estava namorandoo cara que tinha ido comigo, mas era s o Larry, meu amigo gay!). A histria ter dvidas(Ele no fazia mesmo o meu tipo; em geral, prefiro homens mais intelectuais.). O maisimportante que a histria terminar com a salvao (Agora no consigo imaginar a minhavida sem ele!) ou, se o casamento azedou, com crticas e recriminaes (Como que no vilogo que ele era um bbado mentiroso?). Quaisquer que sejam os detalhes, podemos tercerteza de que a mulher ocidental moderna ter examinado todos os ngulos possveis da suahistria de amor e que, com o passar dos anos, a narrativa foi configurada como um mito picodourado ou embalsamada como conto de amarga advertncia.

    Agora vou dar um salto no escuro e afirmar: parece que as mulheres hmong no fazemisso. Pelo menos, no aquelas mulheres hmong.

    Entenda bem, no sou antroploga e admito que vou muito alm do meu nvelprofissional quando fao alguma conjetura, seja ela qual for, sobre a cultura hmong. A minhaexperincia pessoal com aquelas mulheres se limitou a uma nica tarde de conversa, com umamenina de 12 anos como intrprete, por isso acho muito provvel que eu tenha deixado deperceber algumas nuances dessa sociedade antiga e complexa. Tambm admito que aquelasmulheres podem ter achado as minhas perguntas intrometidas, para no dizer absolutamenteofensivas. Por que contariam a mim, uma bisbilhoteira abelhuda, a sua histria mais ntima? Emesmo que tentassem me transmitir informaes sobre os seus relacionamentos, provvelque algumas mensagens sutis tenham ficado de fora por erros de traduo ou simples falta deentendimento transcultural.

    Mas, dito isso, sou uma pessoa que passou boa parte da vida profissional entrevistandoos outros e confio na minha capacidade de observar e escutar com ateno. Alm disso, comotodos ns, sempre que entro no lar de alguma famlia desconhecida logo percebo a maneiracomo pensam e agem de modo diferente da minha famlia. Digamos, ento, que o meu papelnaquele dia, naquela casa hmong, foi o de um visitante mais observador do que a mdia, queprestava mais ateno do que a mdia s suas anfitris mais expressivas do que a mdia.Nesse papel, e somente nesse papel, sinto bastante confiana para relatar o que no viacontecer naquele dia na casa da av de Mai. No vi um grupo de mulheres reunidas tecendomitos minuciosamente estudados e contos de advertncia sobre o seu casamento. A razo pelaqual acho isso extraordinrio que observei mulheres do mundo inteiro tecer mitosminuciosamente estudados e contos de advertncia sobre o casamento em grupos de todos ostipos e ao mais leve estmulo. Mas as mulheres hmong no pareciam nem remotamenteinteressadas nisso. Tambm no vi aquelas mulheres hmong construrem o personagem do

  • marido como heri ou vilo de alguma vasta e complexa histria pica do eu emocional.No estou dizendo que aquelas mulheres no amam os seus maridos nem que jamais os

    amaram nem que nunca puderam am-los. Seria ridculo inferir isso, porque no mundo inteiro aspessoas se amam e sempre se amaram. O amor romntico uma experincia humana universal.H provas de paixo em todos os cantos deste mundo. Todas as culturas humanas tm canesde amor, feitios de amor, oraes de amor. O corao de todos se parte independentementede todo tipo de barreiras sociais, religiosas, sexuais, etrias e culturais. (Na ndia, s a ttulode informao, 3 de maio o Dia Nacional do Corao Partido. E, em Papua Nova Guin, huma tribo cujos homens escrevem canes de amor lamentosas chamadas namai que contam ahistria trgica de casamentos que nunca aconteceram mas que deveriam ter acontecido.)Certa vez, a minha amiga Kate foi a um concerto de cantores guturais mongis que passarampor Nova York numa rara turn mundial. Embora no conseguisse entender a letra dascanes, ela achou a msica quase insuportvel de to triste. Depois do concerto, Kateprocurou o solista mongol e perguntou:

    As canes falam de qu?Ele respondeu: As nossas canes falam das mesmas coisas que todas as canes do mundo: o amor

    perdido e algum que roubou o seu cavalo mais veloz.Logo, claro que os hmong se apaixonam. claro que sentem preferncia por este em

    vez daquele, tm saudade da pessoa amada que morreu, descobrem que adoraminexplicavelmente o cheiro ou o riso de algum especfico. Mas talvez no acreditem que nadadisso de amor romntico tenha algo a ver com as verdadeiras razes do casamento. Talvez nosuponham que essas duas entidades distintas (amor e casamento) tenham necessariamente dese cruzar, no incio do relacionamento ou, talvez, nunca. Talvez acreditem que o casamento outra coisa totalmente diferente.

    Se essa ideia parece estranha ou maluca, lembre-se de que, no faz muito tempo, todos,na cultura ocidental, tinham esse mesmo tipo de opinio nada romntica sobre o matrimnio. claro que os casamentos arranjados nunca foram uma caracterstica importante da vidaamericana, nem o rapto de noivas, mas no h dvida de que, at bem recentemente, oscasamentos pragmticos foram coisa de rotina em determinados nveis da nossa sociedade. Comcasamento pragmtico, quero dizer qualquer unio em que o interesse da comunidade emgeral est acima do interesse dos dois indivduos envolvidos; esses casamentos foramcaractersticos da sociedade agrria norte-americana, por exemplo, durante muitssimasgeraes.

    Alis, conheo pessoalmente um desses casamentos pragmticos.Quando era pequena, numa cidadezinha de Connecticut, os meus vizinhos prediletos eram

    um casal de cabelos brancos, Arthur e Lillian Webster. Os Webster criavam gado leiteiro epautavam a vida por um conjunto inviolvel de clssicos valores ianques. Eram modestos,frugais, generosos, trabalhadores, religiosos sem exagero e membros socialmente discretos da

  • comunidade, e criaram os trs filhos para serem bons cidados. Tambm eram de umabondade enorme. O sr. Webster me chamava de Cachinhos e me deixava passar horasandando de bicicleta no seu estacionamento bem pavimentado. Quando eu era muito boazinha,s vezes a sra. Webster me deixava brincar com a sua coleo de antigos vidros de remdio.

    Faz alguns anos que a sra. Webster faleceu. Alguns meses depois da sua morte, sa parajantar com o sr. Webster e passamos a falar da sua esposa. Quis saber como tinham seconhecido, como tinham se apaixonado todo o incio romntico da vida em comum dosdois. Com outras palavras, fiz a ele todas as perguntas que acabaria fazendo s mulhereshmong no Vietn, e tive o mesmo tipo de resposta ou falta de resposta. No conseguiarrancar do sr. Webster nenhuma lembrana romntica da origem do seu casamento. Eleconfessou que no conseguia nem se lembrar do momento exato em que conhecera Lillian. Elaestava sempre na cidade, pelo que ele recordava. Sem dvida, no foi amor primeira vista.No houve nenhum momento de emoo, nenhuma fagulha de atrao instantnea. Ele nunca seapaixonara por ela.

    Ento por que se casou com ela? perguntei.Como explicou com o seu tpico jeito ianque, franco e objetivo, o sr. Webster se casou

    porque o irmo mandou que se casasse. Arthur logo assumiria a fazenda da famlia e, portanto,precisava de uma mulher. No se pode administrar uma fazenda direito sem mulher, assimcomo no se pode administrar uma fazenda direito sem trator. Foi uma mensagem nadasentimental, mas a criao de gado leiteiro na Nova Inglaterra no era um assunto sentimental,e Arthur sabia que a ordem do irmo era certa. Assim, o jovem sr. Webster, zeloso eobediente, saiu pelo mundo para arranjar devidamente uma esposa. Ao ouvir a narrativa,ficamos com a sensao de que vrias moas em vez de Lillian poderiam ter ocupado a vagade sra. Webster e que, na poca, isso no faria muita diferena para ningum. Arthursimplesmente se decidiu pela loura que trabalhava no Servio de Cursos de Extenso dauniversidade. Tinha a idade certa. Era simptica. Era saudvel. Era boa. Servia.

    Portanto, claro que o casamento dos Webster no comeou com um amor febril,pessoal e apaixonado, assim como o casamento da av hmong tambm no. Portanto, podemosento supor que essa unio um casamento sem amor. Mas preciso tomar cuidado ao fazersuposies assim. Disso eu sei bem, pelo menos no caso dos Webster.

    No fim da vida da sra. Webster, diagnosticaram a doena de Alzheimer. Durante quaseuma dcada, essa mulher vigorosa definhou de tal maneira que v-la era um sofrimento paratodos na comunidade. O marido, aquele fazendeiro ianque pragmtico, cuidou da mulher emcasa durante todo o tempo que ela levou para morrer. Ele lhe deu banho, a alimentou, abriumo da liberdade para tomar conta dela e aprendeu a suportar as consequncias pavorosas dasua decadncia. Continuou cuidando da mulher mesmo bem depois que ela j nem sabia quemele era, e at bem depois que ela j nem sabia mais quem era ela mesma. Todo domingo, o sr.Webster vestia a mulher com boas roupas, punha-a na cadeira de rodas e a levava ao culto, namesma igreja em que tinham se casado quase sessenta anos antes. Fazia isso porque Lillian

  • sempre amara aquela igreja, e ele sabia que ela apreciaria o gesto caso tivesse conscinciadele. Arthur sentava-se no banco ao lado da esposa, domingo aps domingo, segurando a modela enquanto ela se afastava aos poucos rumo ao esquecimento.

    E se isso no amor, algum vai ter de se sentar comigo e explicar bem direitinho o que amor na verdade.

    Dito isso, tambm temos de tomar cuidado para no supor que todos os casamentosarranjados no decorrer da histria, ou todos os casamentos pragmticos, ou todos oscasamentos que comeam com um rapto, resultaram necessariamente em anos decontentamento. At certo ponto, os Webster tiveram sorte. (Embora tambm se possa suspeitarque investiram muito esforo no casamento.) Mas o que talvez o sr. Webster e o povo hmongtenham em comum a noo de que o ponto emocional onde comea o casamento est longede ser to importante quanto o ponto emocional onde se encontra o casamento mais para o fim,depois de muitos anos de parceria. Alm disso, o mais provvel que eles concordem queno existe, em nenhum lugar do mundo, uma pessoa especial nossa espera que, magicamente,v completar a nossa vida, mas que h muita gente (talvez mesmo na nossa comunidade) comquem possvel selar um vnculo de respeito. Ento possvel passar anos vivendo etrabalhando com essa pessoa, na esperana de que a ternura e a afeio sejam o resultadogradual da unio.

    No final da minha tarde de conversa na casa da famlia de Mai, tive a imagem mais clarapossvel dessa noo quando fiz minscula av hmong uma ltima pergunta, que, mais umavez, ela achou esquisita e diferente.

    O seu homem um bom marido? perguntei.A velha teve de pedir neta que repetisse vrias vezes a pergunta, para ter certeza de

    que ouvira direito: Ele um bom marido? Depois ela me deu uma olhada confusa, como se eutivesse perguntado: Essas pedras das montanhas onde vocs moram so boas pedras?

    A melhor resposta que conseguiu me dar foi: o marido no era nem bom nem mau. Eraapenas um marido. Era do jeito que os maridos so. Enquanto ela falava dele, era como se apalavra marido fosse a descrio de um cargo ou at de uma espcie, muito mais do que umindivduo querido ou frustrante em especial. O papel de marido era bastante simples, j queenvolvia um conjunto de tarefas que o seu homem, obviamente, cumprira em grau satisfatriodurante toda a vida dos dois como a maioria dos maridos das outras mulheres, acrescentou,a menos que se tivesse muito azar e se arranjasse algum realmente imprestvel. A av chegoua ponto de dizer que, no final, no importa tanto com que homem a mulher se casa. Com rarasexcees, os homens so praticamente iguais.

    O que a senhora quer dizer com isso? perguntei. Todos os homens e mulheres so praticamente iguais a maior parte do tempo

    esclareceu ela. Todo mundo sabe que isso verdade. As outras mulheres hmongconcordaram com a cabea.

  • Posso parar aqui um instantinho para fazer uma colocao boba e talvez perfeitamente bvia? tarde demais para eu ser hmong.Pelo amor de Deus, talvez seja at tarde demais para eu ser Webster. Nasci numa famlia

    americana de classe mdia no final do sculo XX. Como incontveis milhes de outraspessoas no mundo contemporneo que nasceram em circunstncias parecidas, fui criada paraacreditar que era especial. Os meus pais (que no foram hippies nem radicais; na verdade,votaram duas vezes em Ronald Reagan) acreditavam simplesmente que os seus filhos tinhamdons e sonhos especficos que os destacavam dos filhos dos outros. A minha euzice semprefoi valorizada e, mais ainda, foi reconhecida como diferente da elazice de minha irm, daeleszice dos meus amigos e da todomundice de todo mundo. Embora, sem dvida, eu notenha sido mimada, os meus pais acreditavam que a minha felicidade pessoal tinha certaimportncia e que eu deveria aprender a configurar a jornada da minha vida de modo a apoiare refletir a minha busca individual de contentamento.

    Devo acrescentar aqui que todos os meus amigos e parentes foram criados com grausvariados dessa mesma crena. Com a possvel exceo das famlias mais conservadoras entrens e das famlias que imigraram mais recentemente entre ns, todo mundo que conhecia tinha,no fundo, esse mesmo respeito inquestionvel, de fundo cultural, pelo indivduo. Seja qual fora religio, seja qual for a classe social e pelo menos de certo modo, todos abraamos omesmo dogma, que eu descreveria como bem recente em termos histricos e muito ocidental, eque pode ser assim resumido: Voc tem importncia.

    No quero dizer nem insinuar que os hmong no acreditam que os seus filhos tenhamimportncia; ao contrrio, nos crculos antropolgicos as famlias que eles constroem sofamosas por serem das mais excepcionais e amorosas do mundo. Mas claro que aquela noera uma sociedade que cultuava o Altar da Escolha Individual. Como nas sociedades maistradicionais, o dogma familiar hmong no pode ser resumido corretamente como Voc temimportncia, mas como O seu papel tem importncia. Afinal, como todos naquela aldeiapareciam saber, na vida h tarefas a cumprir algumas que cabem aos homens, outras quecabem s mulheres e todos devem contribuir com o mximo da sua capacidade. Quemexecuta as suas tarefas razoavelmente bem pode ir dormir noite sabendo que um bomhomem ou uma boa mulher e no precisa esperar muito mais do que isso da vida e dosrelacionamentos.

    Conhecer as mulheres hmong naquele dia, no Vietn, me fez lembrar de um velho ditado:Quem planta expectativas colhe decepes. Nunca ensinaram a minha amiga, a av hmong, aesperar que a tarefa do marido fosse torn-la felicssima. Alis, nunca a ensinaram a esperarque a sua tarefa na terra fosse ser felicssima. Como nunca alimentou essa expectativa, ela nocolheu nenhum desencanto especfico com o casamento. O casamento cumpriu o seu papel,realizou a tarefa social necessria, tornou-se meramente o que era, e isso era bom.

    Ao contrrio, a mim sempre me ensinaram que a busca da felicidade era o meu direito denascena natural (e at nacional). A marca registrada emocional da minha cultura a busca da

  • felicidade. E no qualquer tipo de felicidade, mas sim uma felicidade profunda, at mesmoexorbitante. E o que poderia nos trazer felicidade mais exorbitante do que o amor romntico?Por exemplo, a minha cultura sempre me ensinou que o casamento tem de ser uma estufa frtilna qual o amor romntico possa vicejar com abundncia. Assim, dentro da estufa um tantodilapidada do meu primeiro casamento, plantei canteiros e canteiros de grandes expectativas.Fui uma semeadora extraordinria de expectativas grandiosas, e tudo o que consegui colhercom o meu esforo foi uma safra de frutos amargos.

    Fica a sensao de que, se eu tentasse explicar tudo isso av hmong, ela no faria amnima ideia do que eu estava falando. O mais provvel seria que ela respondesse exatamentecomo uma velha que conheci no sul da Itlia quando lhe confessei que largara o marido porqueo casamento me deixara infeliz.

    Quem feliz? perguntou, despreocupada, a viva italiana, e encerrou a conversapara sempre.

    Veja, no quero me arriscar aqui a romantizar a vida simples e pitoresca dos camponeses.Vou deixar bem claro que no tenho a mnima vontade de trocar de vida com nenhuma dasmulheres que conheci naquela aldeia hmong no Vietn. Bastam as consequncias dentriaspara eu no querer a vida delas. Alm disso, seria grotesco e ofensivo se eu tentasse adotar asua viso de mundo. Na verdade, a marcha inexorvel do progresso industrial indica que omais provvel os hmong adotarem a minha viso de mundo nos prximos anos.

    Na verdade, isso j est acontecendo. Agora que tm contato com mulheres ocidentaismodernas como eu no meio da multido de turistas, as meninas de 12 anos, como a minhaamiga Mai, vivem aqueles primeiros momentos importantssimos de hesitao cultural. Chamoisso de Momento Espere A: aquele instante fundamental em que as meninas das culturastradicionais comeam a pensar no que exatamente as aguarda caso se casem com 13 anos ecomecem a ter filhos logo depois. Comeam a se perguntar se no gostariam de escolher outracoisa ou, alis, se simplesmente no gostariam de escolher. Assim que as meninas dassociedades fechadas comeam a ter essas ideias, tudo explode. Mai, trilngue, esperta eobservadora, j vislumbrara outro conjunto de opes na vida. Logo, logo, comearia a fazeras suas exigncias. Em outras palavras: pode ser tarde demais at para os hmong seremhmong.

    Portanto, no, no me disponho ou talvez nem possa a abrir mo da minha vida deanseios individualistas, todos direitos de nascena da minha modernidade. Como a maioriados seres humanos, depois de me mostrarem opes vou sempre preferir ter escolha na vida:escolhas expressivas, individualistas, inescrutveis e indefensveis, s vezes talvezarriscadas... mas todas minhas. Na verdade, a simples quantidade de escolhas que j meofereceram na vida uma procisso de opes quase embaraosa faria saltarem dacabea os olhos da minha amiga, a av hmong. Em consequncia dessa liberdade pessoal, a

  • minha vida me pertence e se parece comigo a um nvel impensvel nos morros do norte doVietn, mesmo hoje. quase como se eu fosse uma cepa de mulher inteiramente nova (podenos chamar de Homo ilimitatus). E embora ns dessa admirvel nova espcie gozemos depossibilidades vastas e magnficas, com alcance quase infinito, importante lembrar que essasvidas ricas em escolhas tm o potencial de criar um tipo prprio de problema. Somossuscetveis a incertezas emocionais e neuroses provavelmente nada comuns entre os hmong,mas que hoje em dia fogem ao controle entre os meus contemporneos de, digamos, Baltimore.

    O problema, falando simplesmente, que no podemos escolher tudo ao mesmo tempo. Assim,corremos o risco de ficar paralisados pela indeciso, com um pavor terrvel de que cadaescolha esteja errada. (Tenho uma amiga que se recrimina to compulsivamente que o maridobrinca que a autobiografia dela vai se chamar Eu Devia Ter Pedido Lagosta.) As ocasies em querealmente optamos e depois sentimos ter assassinado algum aspecto do nosso ser ao tomaraquela nica deciso concreta so igualmente inquietantes. Quando escolhemos a PortaNmero Trs, tememos matar uma parte diferente da nossa alma, mas igualmente decisiva, ques poderia se manifestar se tivssemos entrado pela Porta Nmero Um ou pela Porta NmeroDois.

    O filsofo Odo Marquard observou na lngua alem uma correlao entre a palavra zwei,que significa dois, e a palavra zweifel, que significa dvida, indicando que dois de tudotrazem nossa vida a possibilidade da incerteza. Agora, imagine uma vida em que, todos osdias, algum enfrenta, no duas nem trs, mas dzias de escolhas, e d para comear aperceber por que o mundo moderno, apesar de todas as suas vantagens, se tornou em altssimograu uma mquina geradora de neurose. Num mundo de possibilidades to abundantes, muitosde ns simplesmente brocham de indeciso. Ou ento a jornada da vida sai dos trilhos vriasvezes, e voltamos para experimentar as portas que deixamos de lado na primeira rodada,desesperados para acertar agora. Ou nos tornamos comparadores compulsivos, sempremedindo a nossa vida em comparao com a dos outros, achando no fundo que deveramos terseguido aquele caminho que eles escolheram.

    claro que a comparao compulsiva s leva a casos debilitantes de Lebensneid, ouinveja da vida, como dizia Nietzsche: a certeza de que algum muito mais sortudo do quens e de que, se tivssemos aquele corpo, aquele marido, aqueles filhos, aquele emprego, tudo seriamais fcil, maravilhoso e feliz. (Um terapeuta amigo meu define esse problema simplesmentecomo a doena que faz todos os meus pacientes solteiros sonharem secretamente em se casare todos os meus pacientes casados sonharem secretamente em ser solteiros.) Como muitodifcil ter certeza, as decises de todos se transformam em acusaes s decises de todos, ecomo no h mais modelo universal do que um bom homem ou uma boa mulher, quasese tem de conquistar uma medalha pessoal de mrito em navegao e orientao emocionalpara achar o caminho pela vida.

    Todas essas escolhas e todo esse anseio podem criar um tipo esquisito de assombraona vida, como se os fantasmas de todas as outras possibilidades no escolhidas ficassem para

  • sempre num mundo de sombras nossa volta, perguntando sem parar: Tem certeza de que eraisso mesmo que voc queria? E essa pergunta corre mais risco de nos perseguir no casamento,exatamente porque o investimento emocional nessa escolha personalssima passou a serimenso.

    Pode acreditar, o casamento ocidental moderno tem muitos pontos positivos em relaoao casamento hmong tradicional (comeando com a falta de raptos), e vou dizer de novo: notrocaria de vida com aquelas mulheres. Elas nunca vo conhecer a extenso da minhaliberdade; jamais tero o meu nvel de instruo; nunca tero a minha sade e a minhaprosperidade; jamais podero examinar tantos aspectos da sua natureza. Mas h uma ddivaimportantssima que a noiva hmong tradicional quase sempre recebe no dia do casamento eque costuma se esquivar da noiva ocidental moderna: o dom da certeza. Em geral, quando sh um caminho frente podemos ter confiana de que o caminho certo. E a noiva cujaexpectativa de felicidade necessariamente pequena talvez esteja mais protegida do risco desofrer uma decepo devastadora pelo caminho.

    Admito que, at hoje, no sei direito como usar essa informao. No consigo me forara adotar como lema oficial Queira menos!. Tambm no consigo imaginar que daria a umamoa s vsperas do casamento o conselho de reduzir as expectativas para ser feliz na vida.Essa ideia vai no sentido contrrio de todos os ensinamentos modernos que absorvi. Tambmj vi essa ttica sair pela culatra. Tive uma amiga da faculdade que estreitou de propsito asopes da vida, como se quisesse se vacinar contra expectativas demasiado ambiciosas.Descartou a carreira e ignorou a seduo das viagens; voltou para a cidade natal e se casoucom o namorado do curso secundrio. Com confiana inabalvel, anunciou que se tornariaapenas esposa e me. A simplicidade desse arranjo lhe pareceu totalmente segura: a certezacomparada s convulses de indeciso de que tantas colegas mais ambiciosas (eu, inclusive)soframos. Mas, doze anos depois, quando o marido a trocou por uma mulher mais jovem, araiva da minha amiga e a sensao de ter sido trada foram as mais ferozes que j vi. Elapraticamente implodiu de ressentimento; no tanto contra o marido, mas contra o universo, quena opinio dela quebrara um trato sagrado feito com ela. Eu pedi to pouco!, no parava dedizer, como se bastassem as exigncias diminutas para proteg-la de decepes. Mas acho queela se enganava; na verdade, pediu muito. Ousara pedir felicidade e ousara esperar que afelicidade viesse do casamento. Isso tanto que impossvel pedir mais.

    Mas agora, s vsperas do segundo casamento, talvez fosse til para mim admitir quetambm peo muitssimo. E peo mesmo. Isso emblemtico de nossa poca. Permitiram-meesperar grandes coisas na vida. Permitiram-me esperar muito mais da experincia de amar eviver do que jamais se permitiu maioria das mulheres da histria. Quanto s questes deintimidade, quero muitas coisas do meu homem, todas ao mesmo tempo. Isso me lembra umahistria que minha irm me contou sobre uma inglesa que visitou os Estados Unidos noinverno de 1919 e que, escandalizada, escreveu numa carta para casa que nesse estranho pasda Amrica havia mesmo gente que vivia com a expectativa de aquecer todas as partes do

  • corpo ao mesmo tempo! A tarde que passei debatendo o casamento com as hmong me fezindagar se eu, nas questes do corao, tambm no me tornei uma pessoa assim umamulher que acredita que o meu amado deveria ser capaz de, num passe de mgica, manteraquecidas todas as partes do meu ser emocional ao mesmo tempo.

    Ns, americanos, costumamos dizer que o casamento trabalho duro. No sei se ashmong entenderiam essa ideia. claro que a vida trabalho duro, e trabalhar trabalho muitoduro; tenho certeza de que concordariam com essas afirmativas. Mas como que o casamentovira trabalho duro? assim: o casamento vira trabalho duro quando despejamos todas asexpectativas de felicidade da vida nas mos de uma mera pessoa. Manter isso funcionando trabalho duro. Uma pesquisa recente feita com moas americanas descobriu que, hoje em dia,as mulheres procuram no marido, mais do que tudo, um homem que as inspire, o que,segundo todos os padres, pedir muito. Como termo de comparao, as moas da mesmaidade entrevistadas na dcada de 1920 tinham mais probabilidade de escolher o parceiro combase em qualidades como decncia e honestidade ou na capacidade de sustentar a famlia.Mas isso no basta mais. Agora queremos ser inspiradas pelos cnjuges! Diariamente! Vai estar altura, querido?

    Mas foi exatamente isso que eu mesma esperei do amor no passado (inspirao, xtasetranscendente) e era isso que agora me preparava para esperar outra vez com Felipe: que, decerta forma, fssemos responsveis por todos os aspectos da alegria e da felicidade um dooutro. Que a descrio do cargo de esposo fosse ser tudo um do outro.

    Pelo menos, sempre pensei assim.E poderia ter continuado a pensar assim alegremente, s que o meu encontro com as

    hmong me tirou do rumo num ponto fundamental: pela primeira vez na vida, me ocorreu quetalvez eu pedisse demais do amor. Ou, pelo menos, talvez eu estivesse pedindo demais docasamento. Talvez estivesse pondo uma carga de expectativa muito mais pesada no cascovelho e decrpito do matrimnio do que essa estranha embarcao era capaz de aguentar.

  • CAPTULO TRS

    Casamento e histriaO PRIMEIRO LAO DA SOCIEDADE O CASAMENTO.

    Ccero

    D

    O que o casamento, afinal, se no um modo de obter o xtase supremo?Para mim, essa pergunta era dificlima de responder, porque o casamento, pelo menos

    como entidade histrica, tem a tendncia de resistir s tentativas de definio em termossimples. Parece que ele no gosta de ficar muito tempo sentado para que algum possa fazerum retrato bem ntido. O casamento muda. Muda com o passar dos sculos do mesmo modoque muda o tempo na Irlanda: sempre, depressa e de forma surpreendente. No d nem paraapostar com segurana na definio mais redutora e simples de que o casamento a uniosagrada de um homem e uma mulher. Em primeiro lugar, nem sempre o casamento foiconsiderado sagrado, nem mesmo na tradio crist. E, para ser honesta, na maior parte dahistria humana o casamento foi geralmente considerado como unio entre um homem e vriasmulheres.

    Mas s vezes o casamento foi visto como unio entre uma mulher e vrios homens (comono sul da ndia, onde vrios irmos podem dividir a mesma noiva). s vezes o casamentotambm foi reconhecido como unio entre dois homens (como na antiga Roma, onde oscasamentos entre homens aristocratas chegaram a ser reconhecidos por lei); ou como unioentre dois irmos (como na Europa medieval, quando havia propriedades valiosas em jogo);ou como unio entre duas crianas (novamente na Europa, combinada por pais que queriamproteger heranas ou por papas que detinham o poder); ou como unio entre no nascidos(idem); ou como unio entre duas pessoas limitadas mesma classe social (mais uma vez naEuropa, onde era comum os camponeses medievais serem proibidos por lei de se casar comos seus superiores para manter na mais perfeita ordem as divises sociais).

    s vezes, o casamento tambm foi considerado uma unio deliberadamente temporria.No Ir revolucionrio moderno, por exemplo, os casais jovens podem pedir ao mul umalicena de casamento especial chamada sigheh: um passe de 24 horas que permite ao casal

  • estar casado s por um dia. Esse passe permite que um homem e uma mulher sejam vistosjuntos em pblico sem problemas e at fazer sexo legalmente, criando uma forma de expressoromntica provisria protegida pelo casamento e sancionada pelo Coro.

    Na China, a definio de casamento j incluiu a unio sagrada entre uma mulher viva eum homem morto. Essa unio era chamada de casamento fantasma. Uma moa de classe altacasava-se com um morto de boa famlia para selar os laos de unio entre dois cls. Aindabem que no havia nenhum contato real de esqueleto com carne viva (era mais um casamentoconceitual, pode-se dizer), mas a ideia ainda soa macabra aos ouvidos modernos. Dito isso,algumas chinesas passaram a ver esse costume como o arranjo social ideal. Durante o sculoXIX, um nmero surpreendente de mulheres da regio de Xangai trabalhava como mercadorasno comrcio da seda, e algumas se tornaram empresrias de enorme sucesso. Na tentativa deconquistar independncia econmica ainda maior, essas mulheres solicitavam casamentosfantasmas em vez de aceitar maridos vivos. No havia caminho melhor para a autonomia deuma ambiciosa empresria jovem do que se casar com um cadver respeitvel. Isso lhe davatodo o status social do casamento sem nenhuma das restries e inconvenincias da condioreal de esposa.

    Mesmo quando o casamento foi definido como unio entre um homem e uma nicamulher, nem sempre os seus propsitos foram o que supomos hoje. Nos primeiros anos dacivilizao ocidental, os homens e mulheres se casavam principalmente com propsitos desegurana fsica. Na poca, antes dos Estados organizados, nos tempos selvagens doCrescente Frtil antes de Cristo, a unidade de trabalho fundamental da sociedade era a famlia.Da famlia vinham todas as necessidades bsicas para o bem-estar social: no scompanheirismo e procriao, mas tambm comida, moradia, educao, orientao religiosa,assistncia mdica e, talvez o mais importante, defesa. O bero da civilizao era um mundobem perigoso. Estar sozinho era ser alvo da morte. Quanto mais parentes, maior a segurana.As pessoas se casavam para expandir o nmero de parentes. Naquela poca, no era apenas ocnjuge que servia de parceiro; era toda a gigantesca famlia extensa, funcionando (como oshmong, pode-se dizer) como uma nica entidade parceira na luta constante pela sobrevivncia.

    Essas famlias extensas se transformaram em tribos, essas tribos em reinos, esses reinosviraram dinastias e essas dinastias lutaram entre si em guerras selvagens de conquista egenocdio. Os primeiros hebreus surgiram exatamente com esse sistema, e por isso que oAntigo Testamento um festival genealgico de dio a estrangeiros, centrado na famlia, cheiode histrias de patriarcas, matriarcas, irmos, irms, herdeiros e outros parentes sortidos. claro que nem sempre essas famlias do Antigo Testamento eram saudveis ou funcionais(vemos irmos matando irmos, irmos vendendo irmos como escravos, filhas seduzindo oprprio pai, cnjuges traindo cnjuge sexualmente), mas a narrativa principal trata sempre doprogresso e das atribulaes da linhagem, e o casamento era fundamental para a perpetuaodessa histria.

    Mas o Novo Testamento ou seja, a chegada de Jesus Cristo invalidou todas essas

  • antigas lealdades familiares num grau que, em termos sociais, foi verdadeiramenterevolucionrio. Em vez de perpetuar a noo tribal de povo eleito contra o mundo, Jesus(que era solteiro, em contraste marcante com os grandes heris patriarcais do VelhoTestamento) ensinou que todos somos eleitos, que todos somos irmos e irms unidos numanica famlia humana. Agora, essa era uma ideia absolutamente radical que no teria a mnimapossibilidade de deslanchar num sistema tribal tradicional. Afinal de contas, no se podeabraar um estranho como se fosse irmo, a menos que se quisesse renunciar ao irmobiolgico de verdade, derrubando assim um cdigo antigo que interligava cada indivduo aosseus parentes de sangue numa obrigao sagrada e o deixava ao mesmo tempo em auto-oposio diante do estrangeiro impuro. Mas era exatamente esse tipo de lealdade feroz ao clque o cristianismo buscava derrubar. Como ensinou Jesus: Se algum vier a mim, e noaborrecer a pai e me, a mulher e filhos, a irmos e irms, e ainda tambm prpria vida, nopode ser meu discpulo (Lucas, 14, 26).

    Mas claro que isso criou um problema. Se vamos desconstruir toda a estrutura socialda famlia humana, o que vai substituir essa estrutura? O plano cristo inicial era incrivelmenteidealista e at absurdamente utpico: criar uma rplica exata do cu aqui na terra. Renunciaao casamento e imita os anjos, ensinava so Joo Damasceno por volta de 730 d.C.,explicando o novo ideal cristo em termos nada incertos. E como imitar os anjos? Reprimindoas compulses humanas, claro. Cortando todos os laos humanos naturais. Mantendo sobcontrole todos os desejos e lealdades, com exceo do desejo de se unir com Deus. Nashostes celestes dos anjos, afinal de contas, no existiam maridos e mulheres, mes e pais,adorao de ancestrais, laos de sangue, vingana de sangue, paixo, inveja, corpo e, maisespecificamente, sexo.

    E esse devia ser o novo paradigma humano, seguindo o modelo do exemplo de Cristo:celibato, companheirismo e pureza absoluta.

    Essa rejeio da sexualidade e do casamento representou um enorme afastamento daforma de pensar do Antigo Testamento. A sociedade hebraica, por sua vez, sempre viu ocasamento como o arranjo social mais digno e moral de todos (na verdade, os sacerdotesjudeus tm obrigao de se casar), e dentro desse lao do matrimnio sempre houve a presunofranca do sexo. claro que o adultrio e a fornicao aleatria eram atividadescriminalizadas na antiga sociedade judaica, mas ningum proibia marido e mulher de fazeremamor nem de terem prazer com isso. O sexo dentro do casamento no era pecado; o sexodentro do casamento era... casamento. Afinal de contas, era com sexo que se faziam bebsjudeus, e como aumentar a tribo sem fazer bebs judeus?

    Mas os primeiros visionrios cristos no estavam interessados em fazer cristos nosentido biolgico (como nenns sados do tero); em vez disso, estavam interessados emconverter cristos no sentido intelectual (como adultos que buscavam a salvao por opoindividual). No era preciso nascer no cristianismo; o cristianismo era escolhido por adultos,por obra e graa do sacramento do batismo. Como haveria sempre mais possveis cristos

  • para converter, no havia necessidade de ningum se sujar gerando novos bebs por meio davil conjuno carnal. E se no havia necessidade de bebs, era sensato e natural que nohouvesse mais necessidade de casamento.

    Lembremos tambm que o cristianismo era uma religio apocalptica, muito mais noincio da sua histria do que hoje. Os primeiros cristos esperavam que o Fim dos Temposchegasse a qualquer momento, talvez at amanh tarde, e no estavam muito interessados eminiciar dinastias futuras. Efetivamente, para essas pessoas o futuro no existia. Com oArmagedon inevitvel e iminente, o cristo convertido recm-batizado s tinha uma tarefa navida: preparar-se para o apocalipse iminente tornando-se to puro quanto humanamentepossvel.

    Casamento = esposa = sexo = pecado = impureza.Portanto, no se case.Assim, hoje, quando falamos de sagrados laos do matrimnio ou da santidade do

    casamento, seria bom lembrar que, durante cerca de dez sculos, o prprio cristianismo novia o casamento como sagrado nem santificado. Sem dvida, o casamento no era modelo parao estado ideal do ser moral. Ao contrrio, os primeiros padres cristos consideravam ocostume do casamento uma questo mundana um tanto repugnante que tinha tudo a ver comsexo, mulheres, impostos e propriedades e absolutamente nada a ver com preocupaes maiselevadas de divindade.

    Assim, quando os conservadores religiosos modernos se sentem saudosos porque ocasamento uma tradio sagrada que remonta a milhares de anos ininterruptos de histria,esto absolutamente certos, mas num nico aspecto: s se estiverem falando do judasmo. Ocristianismo simplesmente no tem essa mesma reverncia histrica profunda e constante paracom o matrimnio. Ultimamente, sim, mas no no comeo. Durante os primeiros mil anos dahistria crist, a Igreja considerou o casamento monogmico um pouquinho menos pior do quea mais deslavada prostituio mas s um pouquinho. So Jernimo chegou a classificar asantidade humana numa escala de um a cem, com virgens recebendo o cem perfeito, vivas evivos recm-celibatrios uns sessenta e os casados, a pontuao surpreendentemente impurade trinta. Era uma escala muito til, mas at o prprio Jernimo admitiu que esse tipo decomparao tinha os seus limites. Estritamente falando, escreveu ele, no era justo sequercomparar virgindade com casamento, porque no se pode comparar duas coisas se uma boae a outra, m.

    Sempre que leio uma frase assim (e d para achar esse tipo de pronunciamento em toda ahistria crist antiga), penso nos meus amigos e parentes que se identificam como cristos eque, apesar de terem se esforado ao mximo para ter uma vida irrepreensvel, ainda assimacabam se divorciando. Com o passar dos anos, observei essas pessoas boas e ticaspraticamente se eviscerarem de tanta culpa, certos de que violaram os preceitos cristos maisantigos e sagrados por no terem mantido os votos conjugais. Eu mesma ca nessa armadilhaquando me divorciei, e nem fui criada numa famlia fundamentalista. (Os meus pais eram, no

  • mximo, cristos moderados, e nenhum parente meu me culpou durante o meu divrcio.) Aindaassim, enquanto o meu casamento desmoronava perdi tantas noites de sono que nem gosto delembrar, remoendo se Deus algum dia me perdoaria por ter largado o meu marido. E, por umbom tempo depois do divrcio, continuei a ser perseguida pela sensao incmoda de que nos fracassara como pecara.

    Essas subcorrentes de vergonha so profundas e no se desfazem da noite para o dia,mas admito que talvez fosse til, naqueles meses de febril tormento moral, saber alguma coisasobre a hostilidade com que o cristianismo realmente viu o casamento durante muitos sculos.Abandonai os vossos ftidos deveres familiares!, instrua um pastor ingls j no sculo XVI,numa condenao raivosa do que hoje chamaramos de valores familiares. Pois sob tudo issojazem grosserias, rosnidos, mordidas, uma horrenda hipocrisia, inveja, maldade, msconjecturas!

    Ou vejamos o prprio So Paulo, que escreveu, na sua famosa carta aos Corntios: Bomseria que o homem no tocasse em mulher. So Paulo acreditava que nunca, jamais, sobnenhuma circunstncia, seria bom para o homem tocar uma mulher, nem mesmo a prpriaesposa. Se tudo fosse como So Paulo queria e como logo admitiu, todos os cristos seriamcelibatrios como ele. (Contudo queria que todos os homens fossem como eu mesmo.) Masele era suficientemente racional para perceber que isso seria pedir demais. Em vez disso, oque ele pedia era que os cristos praticassem o mnimo de casamento que fosse humanamentepossvel. Instruiu os solteiros a nunca se casar e pediu aos vivos ou divorciados que seabstivessem de aceitar no futuro outra parceira. (Que a mulher no se aparte do marido; se,porm, se apartar, que fique sem casar.) Sempre que possvel, Paulo implorava aos cristosque se refreassem, que contivessem os anseios carnais, que levassem vidas solitrias e semsexo, tanto na Terra como no Cu.

    Mas se no puderem se conter, cedeu Paulo finalmente, que se casem, pois melhorcasar do que pecar.

    Talvez seja o mximo de m vontade a que j se chegou na histria humana paradefender o casamento. Mas isso me lembra o acordo que eu e Felipe fizemos recentemente, ouseja, melhor casar do que ser deportado.

    claro que nada disso fez as pessoas pararem de se casar. Com exceo dos mais devotos,uma quantidade inequvoca dos primeiros cristos rejeitou o apelo ao celibato e continuou afazer sexo e a se casar (muitas vezes nessa ordem) sem nenhuma superviso dos padres. Emtodo o mundo ocidental, nos sculos que se seguiram morte de Cristo, os casais selavam asua unio em vrios estilos improvisados (misturando influncias matrimoniais judias, gregas,romanas e franco-germnicas) e depois se registravam nos documentos da aldeia ou da cidadecomo casados. s vezes, o casamento no dava certo e os casais pediam o divrcio nosantigos tribunais europeus, surpreendentemente permissivos. (Por exemplo, no sculo X, as

  • mulheres do Pas de Gales tinham mais direito ao divrcio e ao patrimnio da famlia do queas mulheres dos Estados Unidos puritanos sete sculos depois.) Muitas vezes, essas pessoasse casavam com outras pessoas e mais tarde debatiam quem tinha direito moblia, terra ouaos filhos.

    O matrimnio se tornou uma conveno puramente civil no incio da histria europeiaporque, naquele momento do jogo, adotou uma forma inteiramente nova. Agora que as pessoasmoravam em cidades e aldeias em vez de lutar pela sobrevivncia ao ar livre no deserto, ocasamento no era mais necessrio como estratgia fundamental de segurana pessoal nemcomo ferramenta para a construo do cl tribal. Em vez disso, agora o casamento eraconsiderado uma forma eficientssima de gerenciar a riqueza e a ordem social, exigindo dacomunidade em volta algum tipo de estrutura organizadora.

    Numa poca em que os bancos, leis e governos ainda eram terrivelmente instveis, ocasamento se tornou o acordo comercial mais importante da vida da maioria. (Ainda , diriamalguns. At hoje, pouqussimas pessoas tm poder igual ao do cnjuge de influenciar demaneira to profunda, para melhor ou para pior, a nossa situao financeira.) Mas no hdvida de que, na Idade Mdia, o casamento era o modo mais seguro e tranquilo de passarriqueza, rebanhos, herdeiros ou propriedades de uma gerao a outra. As grandes famliasricas estabilizavam a fortuna por meio do casamento, assim como as grandes empresasmultinacionais de hoje estabilizam a fortuna com fuses e aquisies cuidadosas. (Emessncia, as grandes famlias ricas daquela poca eram grandes empresas multinacionais.) Ascrianas europeias ricas, com ttulos ou heranas, eram como cabeas de gado a seremcomercializadas e manipuladas como aes da bolsa. E ateno, no s as meninas, mas osmeninos tambm. Um menino da elite podia ficar noivo e desfazer o noivado com sete ou oitopossveis esposas at que chegasse puberdade e todas as famlias, com os seus advogados,tomassem a deciso final.

    Mesmo no povo comum, as consideraes econmicas pesavam bastante sobre ambos ossexos. Conseguir um bom cnjuge naquela poca era mais ou menos como entrar numa boauniversidade, conseguir uma bolsa ou arranjar emprego nos Correios: garantia uma certaestabilidade futura. claro que todos tinham as suas afeies pessoais e claro que os paisde corao mais brando tentavam conseguir para os filhos unies emocionalmentesatisfatrias, mas durante a Idade Mdia a maioria dos casamentos era abertamenteoportunista. Apenas um exemplo: uma grande onda de febre matrimonial varreu a Europamedieval logo depois que a Peste Negra matou 75 milhes de pessoas. Para os sobreviventes,abriram-se de repente caminhos nunca vistos para a ascenso social por meio do casamento.Afinal de contas, havia milhares de vivas e vivos novinhos pela Europa, com um volumeconsidervel de propriedades valiosas esperando redistribuio, talvez sem outros herdeirosvivos. Ento, o que se seguiu foi um tipo de corrida do ouro matrimonial, uma ocupao deterras do mais alto nvel. Os registros dos tribunais da poca esto cheios de casos suspeitosde rapazes de 20 anos que se casavam com mulheres idosas. Esses camaradas no eram

  • idiotas. Eles avistaram uma oportunidade a viva e a agarraram.Quando refletimos sobre essa falta de sentimentalismo em relao ao matrimnio, no

    surpreende que os cristos europeus se casassem em particular, dentro de casa, com roupas dodia a dia. Os grandes e romnticos casamentos que hoje consideramos tradicionais spassaram a existir no sculo XIX, quando a rainha Vitria ainda adolescente entrou na igrejacom um vestido branco e vaporoso e lanou a moda que desde ento no caiu. Mas, antesdisso, o dia de um casamento europeu mdio no era muito diferente dos outros dias dasemana. Os casais trocavam votos em cerimnias improvisadas que s duravam algunsinstantes. As testemunhas s eram importantes no dia do casamento para que depois no sediscutisse nos tribunais se o casal consentira ou no em se casar questo fundamentalquando havia dinheiro, terras ou filhos em jogo. A razo para os tribunais se envolverem eraapenas a manuteno de um certo grau de ordem social. Como explicou a historiadora NancyCott, o casamento impunha deveres e concedia privilgios, distribuindo papis eresponsabilidades claros entre os cidados.

    Em grande parte, isso ainda verdadeiro na sociedade ocidental moderna. At hoje,praticamente as nicas coisas a que a lei d ateno no casamento so dinheiro, propriedade efilhos. claro que o padre, o rabino, os vizinhos ou os pais podem ter outras ideias sobre ocasamento, mas aos olhos da lei secular moderna a nica razo para o casamento terimportncia que duas pessoas se uniram e produziram alguma coisa com essa unio (filhos,patrimnio, empresas, dvidas) e todas essas coisas tm de ser administradas para que asociedade civil possa continuar existindo de forma metdica e o governo no se envolva coma confuso que criar bebs abandonados e sustentar ex-cnjuges falidos.

    Quando comecei o processo de divrcio em 2002, por exemplo, a juza no tinha omnimo interesse por mim nem pelo meu ento marido como seres emocionais ou morais. Elano se importava com as queixas sentimentais, o corao partido ou as promessas sagradasque foram ou no descumpridas. Sem dvida, no se importava com a nossa alma mortal. Elas se importava com a escritura da casa e quem ficaria com ela. Ela se importava com osimpostos. Ela se importava com os seis meses que restavam para quitar o carro e quem seriaobrigado a pagar as prestaes. Ela se importava com quem tinha direito aos royalties dosmeus futuros livros. Se tivssemos filhos (que felizmente no tnhamos), a juza se importariamuitssimo com quem seria obrigado a pagar os estudos, a assistncia mdica, a moradia e abab. Portanto, pelo poder a ela concedido pelo Estado de Nova York, ela manteve limpo earrumado o nosso cantinho de sociedade civil. Com isso, aquela juza do ano de 2002remontava a um entendimento medieval do casamento: ou seja, ele uma questo civil esecular, no religiosa nem moral. As suas decises no soariam deslocadas num tribunaleuropeu do sculo X.

    Entretanto, para mim a caracterstica mais espantosa desses antigos casamentos europeus(e divrcios, devo acrescentar) era a sua frouxido. Todos se casavam por razes econmicas epessoais, mas tambm se separavam por razes econmicas e pessoais, e com bastante

  • facilidade, comparado ao que viria em seguida. A sociedade civil da poca parecia entenderque, ainda que o corao humano faa muitas promessas, a cabea pode mudar. E os acordoscomerciais tambm. Na Alemanha medieval, os tribunais chegavam ao ponto de criar doistipos diferentes de casamento legal: o Muntehe, contrato vitalcio e permanente com muitasobrigaes, e o Friedelehe, que pode ser traduzido basicamente como casamento light: ummodo de viver mais informal entre dois adultos em comum acordo, que no levava em contaexigncias de dote nem leis sobre transmisso e podia ser dissolvido por qualquer das partesa qualquer momento.

    Entretanto, no sculo XIII toda essa frouxido estava prestes a mudar, porque a Igrejavoltou a se envolver na questo do matrimnio ou melhor, se envolveu pela primeira vez.Os sonhos utpicos do incio do cristianismo j tinham acabado havia muito tempo. Os padresda Igreja no eram mais monges estudiosos que pretendiam recriar o paraso na Terra, massim poderosos personagens polticos muito decididos a controlar o seu imprio cada vezmaior. Um dos maiores desafios administrativos que a Igreja ento enfrentava era administrara realeza europeia, cujos casamentos e divrcios costumavam criar e romper alianaspolticas de um modo nem sempre agradvel para vrios papas.

    Assim, no ano de 1215, a Igreja assumiu para sempre o controle do casamento, comnovos ditos rgidos sobre o que, a partir de ento, seria um casamento legtimo. Antes de1215, sempre se considerara contrato suficiente aos olhos da lei a promessa feita entre doisadultos de comum acordo, mas agora a Igreja insistia que isso era inaceitvel. O novo dogmadeclarava: Proibimos terminantemente os casamentos clandestinos. (Traduo: Proibimosterminantemente casamentos feitos s nossas costas.) Todo prncipe ou aristocrata que agora ousasse secasar contra a vontade da Igreja poderia de repente ser excomungado, e essas restries foramaos poucos passando tambm para o povo comum. S para aumentar ainda mais o controle, opapa Inocncio III proibiu ento o divrcio sob quaisquer circunstncias, exceto em casos deanulao sancionada pela Igreja, muitas vezes usada como ferramenta para construir oudestruir imprios.

    O casamento, antes uma instituio secular supervisionada pela famlia e por tribunaiscivis, tornou-se ento uma questo rigorosamente religiosa, supervisionada por padrescelibatrios. Alm disso, a nova proibio estrita do divrcio pela Igreja transformou ocasamento numa priso perptua, algo que nunca fora, nem mesmo na antiga sociedadehebraica. E o divrcio permaneceu proibido na Europa at o sculo XVI, quando HenriqueVIII trouxe o costume de volta em grande estilo. Mas, durante cerca de dois sculos e muitomais tempo nos pases que continuaram catlicos depois da Reforma Protestante , os casaisinfelizes no tinham mais como sair legalmente do casamento caso tudo desse errado.

    No final, preciso dizer que essas limitaes tornaram a vida muito mais difcil para asmulheres do que para os homens. Pelo menos, os homens podiam procurar amor e sexo fora docasamento, mas as damas no tinham essa via de escape socialmente tolerada. As mulheres daelite, principalmente, ficavam trancadas em seus votos nupciais, tendo de se virar com o que

  • ou quem lhes impingissem. (Os camponeses podiam escolher e abandonar os cnjuges com umpouco mais de liberdade, mas, nas classes superiores, com tanta riqueza em jogo,simplesmente no havia espao para folgas.) As moas das famlias importantes podiam serdespachadas no meio da adolescncia para pases cuja lngua talvez nem sequer falassem, e ldeixadas para murchar para sempre sob o domnio de algum marido aleatrio. Uma dessasadolescentes inglesas, ao descrever os planos para o iminente casamento arranjado, escreveulamentosa sobre os preparativos dirios para a minha viagem ao Inferno.

    Para aumentar ainda mais o controle da estabilizao e do gerenciamento da riqueza,agora os tribunais de toda a Europa defendiam a srio a noo jurdica chamada naInglaterra de coverture de que a existncia civil individual da mulher se apagaria nomomento em que se casasse. Nesse sistema, a esposa passa a ser efetivamente coberta pelomarido e no tem mais nenhum direito jurdico prprio nem pode possuir propriedadespessoais. A princpio, essa noo jurdica era francesa, mas se espalhou facilmente pelaEuropa e logo se entranhou profundamente na legislao consuetudinria inglesa, a CommonLaw. Ainda no sculo XIX, o juiz britnico Lord William Blackstone defendia no seu tribunala essncia da coverture e insistia que a mulher casada no existia de verdade como entidadejurdica. O prprio ser da mulher, escreveu, suspenso durante o casamento. Por essarazo, Blackstone decidiu que o marido no pode dividir o patrimnio com a esposa nem quequeira, nem mesmo se esse patrimnio, tecnicamente, j foi propriedade da mulher. O homemno pode conceder nada mulher, pois isso pressuporia a sua existncia separada dele etal coisa, claramente, era impossvel.

    Assim, a coverture era mais do que a fuso de dois indivduos numa duplicaofantasmagrica do homem, coisa quase de vodu, na qual os seus poderes dobravam e a esposase evaporava completamente. Combinada severa poltica nova da Igreja contra o divrcio,no sculo XIII o casamento se tornou uma instituio que sepultava e depois apagava asvtimas do sexo feminino, principalmente na nobreza. Mal conseguimos imaginar como deveter sido solitria a vida dessas mulheres depois de serem to completamente erradicadascomo seres humanos. Como que ocupavam os seus dias? Naqueles casamentos paralisantes,como escreveu Balzac sobre essas damas infelizes, o tdio as domina e elas se entregam religio, aos gatos, aos cezinhos ou a outras manias que s so ofensivas a Deus.

    Alis, se h uma palavra que me desperta todos os terrores inerentes que j senti com ainstituio do casamento, coverture. Era exatamente sobre isso que a bailarina Isadora Duncanfalava ao escrever que toda mulher inteligente que l um contrato de casamento e depois oaceita merece sofrer todas as consequncias.

    A minha averso tambm no inteiramente irracional. Na civilizao ocidental, olegado da coverture durou muito mais sculos do que devia, agarrando-se vida nas margensdos antigos livros empoeirados de Direito e sempre ligado a ideias fixas conservadoras sobre

  • o papel adequado da esposa. S em 1975, por exemplo, as mulheres casadas do estadoamericano de Connecticut inclusive a minha prpria me tiveram permisso jurdica defazer emprstimos e abrir conta bancria sem permisso escrita do marido. S em 1984 oEstado de Nova York derrubou um conceito jurdico horrvel chamado exceo do estuproconjugal, que permitia ao homem fazer sexualmente o que quisesse com a esposa, por maisviolento e coercitivo que fosse, j que o corpo dela pertencia a ele j que, de fato, ela eraele.

    H um exemplo especfico do legado da coverture que, dadas as minhas circunstncias, oque mais me atinge. O fato que tive sorte de o governo americano pensar em permitir que eume casasse com Felipe sem me forar a abrir mo da minha nacionalidade no processo. Em1907, o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma lei que determinava que toda americananascida no pas que se casasse com um homem de origem estrangeira teria de abrir mo dacidadania americana no ato do matrimnio e tornar-se automaticamente cidad do pas domarido, quer ela quisesse, quer no. Embora os tribunais admitissem que isso eradesagradvel, durante muitos anos defenderam, no entanto, que era necessrio. Como decidiua Suprema Corte sobre o assunto, permitir a uma americana que mantivesse a nacionalidade nomomento do casamento com um estrangeiro seria a mesma coisa, em essncia, do que permitirque a cidadania da mulher sobrepujasse a do marido. Isso seria sugerir que a mulher possuaalgo que a tornava superior ao marido mesmo nesse pequeno aspecto e, obviamente, comoexplicou um juiz americano, excessivo, j que minava o antigo princpio do contratoconjugal, que existia para fundir sua identidade (do homem e da mulher) e dar predominnciaao marido. ( claro que, estritamente falando, no uma fuso, uma tomada do poder. Masd para entender.)

    Nem preciso dizer que a lei no exigia que o contrrio fosse verdadeiro. Se umamericano nascido nos Estados Unidos se casasse com uma mulher estrangeira, sem dvida omarido manteria a sua cidadania, e a noiva (coberta por ele, afinal de contas) poderia tornar-se cidad americana isto , desde que atendesse s exigncias para a naturalizao oficialde esposas estrangeiras (ou seja, desde que no fosse negra, mulata, membro da raa malaiaou nenhum outro tipo de criatura que os Estados Unidos da Amrica considerassemexpressamente indesejveis).

    Isso nos leva a outro assunto que acho incmodo no legado do matrimnio: o racismoencontrado em todas as leis sobre casamento, mesmo na histria americana recente. Um dospersonagens mais sinistros da saga matrimonial americana foi um camarada chamado PaulPopenoe, produtor de abacates da Califrnia, que abriu uma clnica de eugenia em LosAngeles, na dcada de 1930, chamada Fundao para o Melhoramento Humano. Inspiradopelas tentativas de cultivar abacates melhores, dedicou a clnica ao trabalho de cultivaramericanos melhores (leia-se: mais brancos). Popenoe temia que as mulheres brancas, quetinham comeado recentemente a frequentar a universidade e a retardar o casamento, no semultiplicassem com a velocidade e a quantidade necessrias, enquanto todas as pessoas de

  • cor errada se multiplicavam perigosamente. Ele tambm alimentava temores profundos arespeito do casamento e da procriao dos inaptos, e assim a prioridade da clnica eraesterilizar todos aqueles que Popenoe considerasse indignos de se reproduzir. Se isso pareceangustiosamente familiar, porque os nazistas ficaram impressionados com a obra dePopenoe, que citavam nos seus textos com frequncia. Na verdade, os nazistas levaram longeas suas ideias. Enquanto a Alemanha acabou esterilizando mais de 400 mil pessoas, os estadosamericanos, seguindo os programas de Popenoe, s conseguiram esterilizar cerca de 60 milcidados.

    Tambm arrepiante descobrir que Popenoe usou a sua clnica como base para fundar oprimeiro centro de orientao matrimonial dos Estados Unidos. A inteno desse centro deorientao era encorajar o casamento e a reproduo entre casais aptos (brancos eprotestantes de ascendncia do norte da Europa). Ainda mais arrepiante o fato de quePopenoe, o pai da eugenia americana, tambm criou a famosa coluna Esse casamento podeser salvo? na revista feminina Ladies Home Journal. A sua inteno com a coluna de conselhosera idntica do centro de orientao: manter unidos todos aqueles casais americanos brancospara que pudessem produzir mais bebs americanos brancos.

    Mas a discriminao racial sempre influenciou o casamento nos Estados Unidos. Nosurpreende que os escravos do Sul, antes da Guerra de Secesso, no pudessem se casar. Oargumento contra o casamento dos escravos era simplesmente o seguinte: impossvel. Nasociedade ocidental, considera-se que o casamento um contrato baseado em comum acordo,e um escravo, por definio, no tem comum acordo. Cada passo seu controlado pelo senhore, portanto, ele no pode fazer nenhum contrato com outro ser humano por vontade prpria.Assim, permitir ao escravo que se casasse com consentimento mtuo seria supor que oescravo pudesse fazer at mesmo essa pequena promessa por conta prpria, e isso,obviamente, seria impossvel. Portanto, escravos no podiam se casar. A linha de raciocnio perfeita e esse argumento (e a poltica violenta que o impunha) conseguiu destruir a instituiodo casamento dentro da comunidade afroamericana durante vrias geraes, deixando umaherana deplorvel que aflige a sociedade at hoje.

    Depois h a questo do casamento inter-racial, que at bem recentemente era ilegal nosEstados Unidos. Durante quase toda a histria americana, apaixonar-se por algum da corerrada podia dar cadeia ou coisa pior. Tudo isso mudou em 1967, com um casal da zona ruraldo estado da Virgnia que tinha o potico sobrenome de Loving amoroso. Richard Lovingera branco; a mulher, Mildred, que ele adorava desde os 17 anos, era negra. Quandodecidiram se casar em 1958, as unies inter-raciais ainda eram ilegais na Virgnia, assimcomo em 15 outros estados americanos. Por isso, o jovem casal fez os seus votos conjugaisem Washington, D.C. Mas, quando voltaram para casa depois da lua de mel, foram logopresos pela polcia local, que invadiu o quarto de dormir dos dois no meio da noite e osprendeu. (A polcia tinha esperanas de encontrar o casal praticando sexo, para que tambmpudessem acus-los do crime de intercurso inter-racial, mas no tiveram sorte; os Loving

  • estavam apenas dormindo.) Ainda assim, o fato de terem se casado tornava o casal culpado obastante para ir para a cadeia. Richard e Mildred solicitaram ao tribunal o direito de manter ocasamento realizado em Washington, D.C, mas um juiz estadual da Virgnia anulou os votosconjugais, explicando com boa vontade, na sua deciso, que Deus Todo-Poderoso criou asraas branca, negra, amarela, malaia e vermelha, e colocou-as em continentes separados. Ofato de ter separado as raas mostra que Ele no pretendia que elas se misturassem.

    bom saber.Os Loving se mudaram para Washington quando entenderam que, se algum dia voltassem

    Virgnia, seriam presos. A sua histria poderia ter terminado aqui se no fosse uma carta queMildred escreveu NAACP National Association for the Advancement of Colored People,ou Associao Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor para perguntar se a entidadepoderia ajudar o casal a dar um jeito de voltar para casa, na Virgnia, nem que fosse para umavisita breve. Sabemos que no podemos morar l, escreveu a sra. Loving com humildadearrasadora, mas gostaramos de voltar de vez em quando para visitar parentes e amigos.

    Dois advogados civis da ACLU American Civil Liberties Union, ou Unio Americanade Liberdade Civil assumiram o caso, que, finalmente, em 1967, chegou Suprema Cortedos Estados Unidos, onde os juzes, depois de examinar o processo, pediram vnia unnimepara discordar da ideia de que a lei civil moderna devesse se basear na exegese bblica. (Paraseu eterno crdito, a prpria Igreja Catlica Romana fizera uma declarao pblica haviaapenas alguns meses para exprimir apoio irrestrito ao casamento inter-racial.) A SupremaCorte afirmou a legalidade da unio de Richard e Mildred, por nove votos a zero, com essadeclarao retumbante: A liberdade de casamento foi reconhecida h muito tempo como umdos direitos pessoais vitais e essenciais para a busca ordeira da felicidade dos homenslivres.

    Devo mencionar tambm que, na poca, uma pesquisa mostrou que 70% dos americanosse opuseram com veemncia a essa deciso. Vou repetir: na histria americana recente, sete emcada dez americanos ainda acreditavam que deveria ser crime pessoas de raas diferentes secasarem. Mas, nesse caso, os tribunais estavam moralmente frente da populao em geral.As ltimas barreiras raciais foram removidas do cnone da lei matrimonial americana, e avida continuou, e todo mundo se acostumou com a nova realidade, e a instituio do casamentono desmoronou quando os seus limites foram ajustados e alargados um tiquinho s. E, emboraainda possa haver por a quem acredite que a mistura de raas odiosa, hoje preciso ser umracista luntico e extremamente marginal para defender a srio e publicamente que adultosconscientes de origem tnica diferente devam ser excludos do matrimnio legal. Alm disso,no h um nico poltico nesse pas capaz de vencer eleies para cargos elevados sedefender plataforma to desprezvel.

    Em outras palavras, avanamos.

  • D para ver aonde que estou indo com isso tudo, no d?Ou melhor, d para ver aonde a Histria est indo com isso tudo?Quero dizer o seguinte: voc se surpreenderia se eu aproveitasse alguns minutinhos para

    discutir o assunto do casamento de pessoas do mesmo sexo? Por favor, entenda que sei quemuita gente tem opinio formada e extremada sobre esse tema. No h dvida de que o entoparlamentar James M. Talent, do Missouri, falou por muitos quando disse, em 1996, que umato de arrogncia acreditar que o casamento possa ser infinitamente malevel, que possa serempurrado ou puxado como massa de modelar sem destruir a sua estabilidade essencial e oseu significado para a nossa sociedade.

    Mas o problema desse argumento que a coisa que o casamento mais fez, falando emtermos de histria e definio, foi mudar. No mundo ocidental, o casamento muda a cadasculo, ajustando-se o tempo todo aos novos padres sociais e s novas noes de justia. Naverdade, apenas por causa da maleabilidade da instituio, digna de massa de modelar, queainda existe. Pouqussima gente, inclusive o sr. Talent, posso apostar, aceitaria o casamentonos moldes do sculo XIII. Em outras palavras, o casamento sobrevive exatamente porqueevolui. (Embora eu suponha que esse no seja um argumento muito convincente para quem,provavelmente, tambm no acredita em evoluo.)

    Num esprito de total transparncia, vou deixar claro aqui que apoio o casamento entrepessoas do mesmo sexo. Claro que teria de ser assim; sou exatamente esse tipo de pessoa. Arazo pela qual abordo esse tpico que me irrita profundamente saber que, pelo ato docasamento, tenho acesso a alguns privilgios sociais bsicos que um grande nmero de amigose colegas contribuintes no tm. E me irrita ainda mais saber que, se Felipe e eu, por acaso,fssemos um casal do mesmo sexo, teramos problemas realmente graves depois daqueleincidente no aeroporto de Dallas/Fort Worth. O Departamento de Segurana Interna daria umaolhada no nosso relacionamento e chutaria o meu parceiro para fora do pas para sempre, semnenhuma esperana de futura liberdade condicional por meio do casamento. Assim, estritamente por conta das minhas credenciais heterossexuais que posso assegurar a Felipe umpassaporte americano. Nesses termos, o meu casamento iminente comea a parecer a filiaoa um clube de campo exclusivo, um meio de me oferecer amenidades preciosas negadas aosmeus vizinhos igualmente merecedores. Esse tipo de discriminao nunca vai me cair bem es aumenta a desconfiana natural que eu j sentia pela instituio.

    Ainda assim, hesito em discutir com mais detalhes os aspectos especficos dessedeterminado debate social, no mnimo porque o casamento gay uma questo to candente quequase cedo demais para publicar livros sobre o assunto. Duas semanas antes de eu me sentarpara escrever este pargrafo, o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi legalizado noestado americano de Connecticut. Uma semana depois, foi declarado ilegal no estado daCalifrnia. Enquanto eu relia este pargrafo, alguns meses depois, explodiu a maior confusonos estados de Iowa e Vermont. No demorou muito para New Hampshire se tornar o sexto

  • estado americano a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, e comeo a acreditarque, o que quer que eu declare hoje sobre o casamento gay nos Estados Unidos, provvelque esteja obsoleto na tarde de tera-feira que vem.

    Mas o que posso dizer sobre esse assunto que o casamento legalizado entre pessoas domesmo sexo est chegando aos Estados Unidos. Em boa parte, isso acontece porque ocasamento no legalizado entre pessoas do mesmo sexo j existe. Hoje, casais do mesmo sexoj moram juntos s claras, quer a relao tenha sido sancionada oficialmente pelo Estado, querno. Juntos, os casais do mesmo sexo esto criando filhos, pagando impostos, construindolares, administrando empresas, criando riqueza e at se divorciando. Todos essesrelacionamentos e responsabilidades sociais j existentes tm de ser administrados eorganizados pela lei para manter o bom funcionamento da sociedade civil. ( por isso que,nos Estados Unidos, pela primeira vez, o recenseamento de 2010 vai registrar comocasados os casais do mesmo sexo, para mensurar com clareza a verdadeira situaodemogrfica do pas.) Os tribunais federais acabaro perdendo a pacincia, como aconteceuno caso do casamento inter-racial, e decidiro que muito mais fcil dar acesso aomatrimnio a todos os adultos que o desejem do que resolver a questo de estado em estado,de emenda em emenda, de xerife em xerife, de preconceito pessoal em preconceito pessoal.

    claro que os conservadores sociais talvez ainda acreditem que o casamentohomossexual est errado porque o propsito do matrimnio ter filhos, mas heterossexuaisestreis, sem filhos e ps-menopausa se casam o tempo todo e ningum protesta. (Ocomentarista poltico arquiconservador Pat Buchanan e a esposa no tm filhos, s para servirde exemplo, e ningum sugere que os seus privilgios conjugais tenham de ser revogados porno haver gerao de prognie biolgica.) E quanto noo de que o casamento entre pessoasdo mesmo sexo corrompe a comunidade em geral, ningum ainda foi capaz de provar isso numtribunal. Ao contrrio, centenas de entidades cientficas e sociais desde a AcademiaAmericana de Mdicos de Famlia e a Associao Psicolgica Americana at a Liga de Bem-Estar Infantil da Amrica endossaram publicamente tanto o casamento gay quanto a adoogay.

    Mas o casamento gay est chegando aos Estados Unidos principalmente porque aqui ocasamento uma questo secular e no religiosa. Quase sempre, a objeo ao casamento gay bblica, mas neste pas nenhum compromisso jurdico definido pela interpretao dosversculos da Bblia, pelo menos desde que a Suprema Corte defendeu Richard e MildredLoving. A cerimnia de casamento na igreja bonita, mas no exigida para o casamento serlegal nem configura um casamento legal nos Estados Unidos. Nesse pas, o que configura ocasamento legal aquele papelucho importantssimo que os noivos tm de assinar e registrarjunto ao Estado. A moralidade do casamento pode ficar entre voc e Deus, mas aquelapapelada civil e secular que torna os votos oficiais aqui na Terra. Assim, em ltima anlise,cabe aos tribunais dos Estados Unidos e no s igrejas dos Estados Unidos decidir sobre asregras da lei matrimonial, e nesses tribunais que o debate do casamento entre pessoas do

  • mesmo sexo ser finalmente resolvido.Seja como for, para ser totalmente honesta, acho meio maluco que os conservadores

    sociais combatam isso com tanta veemncia, considerando que uma coisa bastante positivapara a sociedade em geral que o mximo possvel de famlias intactas vivam em situao dematrimnio. E digo isso como algum que admite acho que agora todos concordamos desconfiar do casamento. Mas verdade. O casamento legal, por restringir a promiscuidadesexual e prender as pessoas s suas obrigaes sociais, um elemento essencial de todacomunidade ordeira. No estou convencida de que o casamento seja sempre to maravilhosopara todos os indivduos dentro da relao, mas essa outra questo. No h nenhuma dvida,nem mesmo na minha cabea rebelde, de que o matrimnio estabiliza a ordem social maisampla e costuma ser excelente para os filhos.[1]

    Ento, se eu fosse uma conservadora social ou seja, se eu fosse algum que sepreocupasse profundamente com estabilidade social, prosperidade econmica e monogamiasexual , ia querer que o mximo possvel de casais gays se casasse. Ia querer que o mximopossvel de todo tipo de casal se casasse. Reconheo que os conservadores temem que oshomossexuais destruam e corrompam a instituio do casamento, mas talvez devessem pensarna outra possibilidade de que os casais gays, na verdade, neste momento da histria, estejamem condies de salvar o casamento. Pensem s! O casamento est em declnio por toda parte,em todo o mundo ocidental. Todos esto se casando mais tarde, quando se casam, ouproduzem filhos a contragosto, fora do casamento, ou (como eu) abordam a instituio comoum todo com ambivalncia e at hostilidade. No confiamos mais no casamento, muitos dens, hteros. No o entendemos. No estamos nada convencidos de que precisamos dele.Sentimos que um caso de ame-o ou deixe-o para sempre. E tudo isso deixa o pobrematrimnio a se contorcer com o vento frio da modernidade.

    Mas, bem na hora em que tudo parece perdido para o casamento, bem na hora em que omatrimnio est prestes a se tornar to descartvel, em termos evolutivos, quanto o mindinhodo p e o apndice, bem na hora em que a instituio parece condenada a murchar noesquecimento devido falta generalizada de interesse social, surgem os casais gays pedindopara participar! Na verdade, implorando para participar! Na verdade, lutando com todas asforas para participar de um costume que pode ser extremamente benfico para a sociedadecomo um todo, mas que muitos, como eu, achamos apenas sufocante, antiquado e irrelevante.

    Talvez parea irnico que os homossexuais que, no decorrer dos sculos,transformaram em arte a vida bomia nas margens da sociedade queiram agora, com tantodesespero, fazer parte de uma tradio to convencional. Sem dvida, nem todo mundoentende essa nsia de ser assimilado, nem mesmo dentro da comunidade gay. O cineasta JohnWaters, por exemplo, diz que sempre achou que as nicas vantagens de ser gay eram no terde prestar o servio militar nem ter de se casar. Ainda assim, verdade que muitos casais domesmo sexo querem simplesmente fazer parte da sociedade como cidados totalmenteintegrados, com responsabilidade social, centrados na famlia, pagadores de impostos,

  • torcedores do time dos filhos, servidores da nao e respeitavelmente casados. Ento, por queno lhes dar as boas-vindas? Por que no recrut-los aos montes para que, com asas heroicas,salvem a velha instituio puda e debilitada do matrimnio de um bando de heterossexuaisinteis, apticos e imprestveis como eu?

    De qualquer modo, acontea o que acontecer com o casamento gay, tambm posso assegurarque, algum dia, as futuras geraes acharo ridculo, a ponto de morrer de rir, que tenhamosdebatido esse tpico, do mesmo modo que hoje parece absurdo que antigamente fosseestritamente ilegal um campons ingls se casar com algum que no fosse da sua classe ou umcidado americano branco se casar com algum da raa malaia. E isso nos leva ltimarazo para o casamento gay estar chegando: o casamento no mundo ocidental, nos ltimossculos, vem avanando, lenta mas inexoravelmente, na direo de cada vez mais privacidadepessoal, cada vez mais justia, cada vez mais respeito pelos indivduos envolvidos e cada vezmais liberdade de escolha.

    possvel datar o incio do movimento de liberdade conjugal, por assim dizer, emmeados do sculo XVIII. O mundo mudava, as democracias liberais estavam em ascenso e,em toda a Europa ocidental e nas Amricas, surgiu um imenso impulso social por maisliberdade, mais privacidade, mais oportunidades para os indivduos buscarem a felicidadepessoal sem se curvar aos desejos dos outros. Tanto homens quanto mulheres comearam aexprimir com mais veemncia o desejo de escolher. Queriam escolher os lderes, a religio, odestino e, isso mesmo, escolher at os cnjuges.

    Alm disso, com os avanos da Revoluo Industrial e o aumento da renda pessoal,agora os casais podiam comprar uma casa prpria, em vez de passar a vida inteira morandocom o resto da famlia extensa; no d para superestimar at que ponto essa transformaosocial afetou o casamento. Afinal, junto com todos esses novos lares privados veio... issomesmo, a privacidade. Pensamentos privados e tempo privado, que levaram a desejos privados eideias privadas. Depois de fechadas as portas da casa, a sua vida era sua. Era possvel sersenhor do prprio destino, comandante do navio emocional. Era possvel buscar um parasos seu e encontrar a felicidade no no cu, mas bem aqui, no centro de Pittsburgh, porexemplo, com uma esposa adorvel (que o prprio marido escolheu em pessoa, alis, noporque a opo fosse economicamente vantajosa, nem porque a famlia combinara ocasamento, mas porque gostava do riso dela).

    Um dos meus casais-heris do movimento de liberdade conjugal foi Lillian Harman eEdwin Walker, do grande estado de Kansas, por volta de 1887. Lillian era sufragista e filha deum anarquista famoso; Edwin era jornalista progressista e simpatizante das feministas. Tinhamsido feitos um para o outro. Quando se apaixonaram e decidiram selar o relacionamento, novisitaram sacerdotes nem juzes; em vez disso, fizeram um casamento autonomista, comodiziam. Criaram os seus votos matrimoniais, falando, durante a cerimnia, da privacidadeabsoluta da sua unio e jurando que Edwin no dominaria a esposa de modo nenhum nem ela

  • adotaria o sobrenome dele. Alm disso, Lillian se recusou a jurar lealdade eterna a Edwin,mas afirmou com toda a firmeza que no farei promessas cujo cumprimento possa se tornarimpossvel ou imoral, mas manterei o direito de agir sempre como a minha conscincia e juzoditarem.

    Nem preciso dizer que Lillian e Edwin foram presos por esse insulto s convenes e na noite de npcias, ainda por cima. (O que ser que h nisso de prender gente na cama quesempre assinala uma nova era na histria do casamento?) O casal foi acusado de no respeitarlicenas e cerimnias e um juiz afirmou que a unio entre E. C. Walker e Lillian Harman no casamento e eles merecem toda a punio que lhes foi imposta.

    Mas a porteira j se escancarara, porque o que Lillian e Edwin queriam no era muitodiferente do que os seus contemporneos queriam: a liberdade para formar e dissolver as suasunies, em seus prprios termos, por razes privadas, totalmente livres da interfernciaintrometida da Igreja, da lei ou da famlia. Queriam paridade entre si e justia dentro docasamento. Mas o que mais queriam era liberdade para definir o relacionamento com base nainterpretao pessoal do amor.

    claro que houve resistncia a essas noes radicais. J no incio do sculo XIX,comeamos a ver conservadores sociais caretas e presunosos sugerindo que essa tendncia aum expressivo individualismo no casamento traria o colapso da sociedade. O que essesconservadores previam, especificamente, era que permitir aos casais encontrar os seus paresna vida com base apenas no amor e nos caprichos da afeio pessoal logo levaria a nveisastronmicos de divrcio e a uma srie de lares amargamente desfeitos.

    O que hoje parece ridculo, no ?S que eles estavam quase certos.

    O divrcio, antigamente rarssimo na sociedade ocidental, comeou a aumentar em meadosdo sculo XIX, quase na mesma hora em que todos comearam a escolher os parceiros pormeras razes de amor. E desde ento, conforme o casamento fica ainda menos institucional(baseado nas necessidades da sociedade mais ampla) e ainda mais expressivamenteindividualista (baseado nas necessidades do... indivduo), o nvel de divrcios s faz crescer.

    E isso um tanto arriscado, afinal de contas. Porque a vem o fato mais interessante queaprendi com toda a histria do casamento: em toda parte, em todas as sociedades, no mundointeiro, em todas as pocas, sempre que uma cultura conservadora, de casamentos arranjados, substituda por uma cultura expressiva em que o parceiro escolhido com base no amor, onmero de divrcios comea imediatamente a disparar. Pode escrever. (Agora mesmo,enquanto conversamos, isso est acontecendo na ndia, por exemplo.)

    Uns cinco minutos depois de todos comearem a clamar pelo direito de escolher ocnjuge com base no amor, comearo a clamar pelo direito de se divorciar desse cnjugequando o amor morrer. Alm disso, os tribunais comearo a permitir que as pessoas sedivorciem, com base em que forar um casal que j se amou a permanecer junto agora que se

  • detesta uma forma desumana de crueldade. (Mandem marido e mulher para a servidopenal se desaprovam a sua conduta e querem puni-los, protestou George Bernard Shaw, masno os mandem de volta ao lao perptuo do casamento.) Quando o amor se torna a base dainstituio, os juzes ficam mais solidrios com os cnjuges sofredores, talvez porque tambmsaibam, por experincia prpria, como pode ser doloroso o amor arruinado. Em 1849, umtribunal de Connecticut decidiu que os cnjuges deveriam ter permisso de sair legalmente docasamento no s por razes de agresso, negligncia ou adultrio, mas tambm pela simplesinfelicidade. Toda conduta que destrua permanentemente a felicidade do suplicante,declarou o juiz, anula os propsitos da relao matrimonial.

    Essa foi uma declarao realmente radical. Inferir que o propsito do casamento criar umestado de felicidade nunca fora uma hiptese na histria humana. Pode-se dizer que essanoo levou inevitavelmente ao surgimento dos divrcios expressivos, como diz apesquisadora matrimonial Barbara Whitehead: casos de pessoas que encerram o casamento sporque o amor morreu. Nesses casos, no h nada de errado com o relacionamento. Ningumsurrou nem traiu ningum, mas a sensao da histria de amor mudou e o divrcio se torna aexpresso dessa decepo to ntima.

    Sei exatamente do que Whitehead est falando no caso do divrcio expressivo; a minhasada do primeiro casamento foi exatamente assim. claro que, quando uma situao nosdeixa em verdadeira desgraa, difcil dizer que estamos simplesmente infelizes. Porexemplo, no parece nada simples chorar meses a fio nem sentir que se est enterrada vivana prpria casa. Mas, para ser justa, devo admitir que deixei o meu ex-marido simplesmenteporque a minha vida com ele ficou horrvel, e esse gesto me marcou como uma esposa muitoexpressivamente moderna.

    Assim, com o passar do tempo, essa transformao do casamento, de acordo comercialem sinal de afeio emocional, enfraqueceu bastante a instituio, j que os casamentosbaseados no amor, afinal de contas, so to frgeis quanto o prprio amor. Basta observar aminha relao com Felipe e o fio finssimo que nos mantm juntos. Falando em termossimples, no preciso desse homem por quase nenhuma das razes que levaram as mulheres aprecisar de homens no decorrer dos sculos. No preciso dele para me proteger fisicamente,porque vivo numa das sociedades mais seguras do mundo. No preciso dele para me sustentarfinanceiramente, porque sempre ganhei o meu po. No preciso dele para aumentar o meucrculo de parentesco, porque tenho uma comunidade rica e s minha de amigos, vizinhos eparentes. No preciso dele para me dar a importantssima condio social de mulhercasada, porque a minha cultura respeita as mulheres no casadas. No preciso dele para terfilhos, porque escolhi no ser me; e mesmo que quisesse filhos, a tecnologia e apermissividade da sociedade liberal me permitem ter bebs por outros meios e cri-lossozinha.

    Ento, onde que ficamos? Por que preciso desse homem? S preciso dele porque, poracaso, o adoro, porque a sua companhia me traz alegria e consolo e porque, como me disse o

  • av de um amigo, s vezes a vida dura demais para ficar sozinho, e s vezes a vida boademais para ficar sozinho. O mesmo acontece com Felipe: ele tambm s precisa de mimpela minha companhia. Parece muito, mas no : apenas amor. E o casamento baseado noamor no garante no pode garantir o contrato vitalcio de um casamento baseado no clou no patrimnio. Pela prpria e irritante definio, tudo o que o corao escolhe por razesmisteriosas pode ser desescolhido depois mais uma vez, por razes misteriosas. E oparaso privado em comum pode se transformar depressa num inferno privado e fracassado.

    Alm disso, o caos emocional que acompanha o divrcio costuma ser colossal, o quetorna imenso o risco psicolgico de casar por amor. A pesquisa mais comum usada hoje pelosmdicos para determinar o nvel de estresse dos pacientes um teste criado na dcada de1970 por dois pesquisadores chamados Thomas Holmes e Richard Rahe. A escala de Holmese Rahe pe a morte do cnjuge no ponto mais alto da lista, como o fato mais estressante quea maioria enfrentar na vida. Mas sabe qual o segundo da lista? O divrcio. De acordo comesse estudo, o divrcio provoca ainda mais ansiedade do que a morte de um parenteprximo (at a morte de um filho, devemos supor, pois no h categoria separada para esseevento horroroso) e muito mais estressante do que doena grave, demisso e atpriso. Mas o que achei mais espantoso na escala de Holmes e Rahe que a reconciliaoconjugal tambm tem posio bem alta na lista de fatos causadores de estresse. At mesmoquase se divorciar e depois salvar o casamento na ltima hora pode causar uma devastaoemocional absoluta.

    Assim, quando falamos que o casamento baseado no amor pode levar a um nmero maiorde divrcios, isso no deve ser visto com leviandade. O custo emocional, financeiro e atfsico do amor fracassado pode destruir indivduos e famlias. As pessoas perseguem, ferem ematam ex-cnjuges, e, mesmo quando no se chega ao extremo da violncia fsica, o divrcio uma bola de demolio psicolgica, emocional e econmica como pode confirmar quemj esteve dentro ou perto de um casamento fracassado.

    Parte do que torna to pavorosa a experincia do divrcio a ambivalncia emocional.Para muitos divorciados, pode ser difcil e at impossvel manter-se num estado de puropesar, pura raiva ou puro alvio no que tange aos sentimentos para com o ex-cnjuge. Em vezdisso, as emoes costumam se misturar durante muitos anos num cozido de contradiesdesconfortavelmente cru. assim que acabamos com saudades do ex-marido e ao mesmotempo ficamos magoadas com ele. assim que acabamos nos preocupando com a ex-mulher eao mesmo tempo sentimos por ela uma raiva assassina. uma confuso desmedida. Na maiorparte do tempo, difcil at saber em quem jogar a culpa. Em quase todos os divrcios que jvi, ambos os lados (a menos que um deles fosse um sociopata bvio) eram pelo menos umpouco responsveis pelo colapso do relacionamento. Assim, que personagem somos depoisque o casamento fracassa? Vtima ou vilo? Nem sempre fcil saber. Essas linhas semisturam e se confundem, como se uma fbrica explodisse e os fragmentos de vidro e ao(pedacinhos do corao dele e dela) se fundissem no calor abrasador. Tentar catar alguma

  • coisa no meio de tanta destruio pode nos levar beira da loucura.Isso sem falar no horror especial de ver algum que a gente j amou e defendeu se

    transformar num adversrio agressivo. Certa vez, quando estvamos no meio do divrcio,perguntei minha advogada como ela aguentava aquele servio, como aguentava ver todos osdias casais que j tinham se amado a se dilacerar no tribunal. Ela respondeu: Acho esseservio compensador por uma razo: porque sei uma coisa que voc no sabe. Sei que essa a pior experincia da sua vida, mas sei tambm que um dia voc a deixar para trs e vai sesentir bem. E ajudar algum como voc a atravessar a pior experincia da sua vida muitogratificante.

    Ela estava certa num aspecto (acabamos nos sentindo bem), mas estava muito errada emoutro aspecto (tambm nunca deixamos a experincia inteiramente para trs). Nesse sentido,ns, divorciados, somos parecidos com o Japo do sculo XX: temos uma cultura pr-guerra eoutra ps-guerra, e entre essas duas histrias h um buraco fumegante e gigantesco.

    Farei praticamente tudo para no passar por aquele apocalipse outra vez. Mas admitoque sempre h a possibilidade de outro divrcio, exatamente porque amo Felipe e porque asunies baseadas no amor so laos estranhamente frgeis. Veja bem, no estou desistindo doamor. Ainda acredito nele. Mas talvez seja esse o problema. Talvez o divrcio seja o impostoque pagamos coletivamente, enquanto cultura, por ousarmos acreditar no amor ou, pelomenos, por ligarmos o amor a um contrato social to fundamental quanto o matrimnio.Talvez, afinal de contas, amor e casamento no devam andar juntos como o cavalo e a carroa.Pode ser que o amor e o divrcio que andem juntos... como a carroa e o cavalo.

    Assim, talvez seja essa a questo social que precisamos abordar aqui, muito mais do quequem pode e quem no pode se casar. Do ponto de vista antropolgico, o verdadeiro dilemados relacionamentos modernos : tem de se preparar para o inevitvel quem desejahonestamente uma sociedade em que todos escolham os parceiros com base na afeiopessoal. Haver coraes partidos; haver vidas partidas. Exatamente porque o coraohumano to misterioso (tamanho tecido de paradoxos, como o descreveu lindamente ocientista vitoriano Sir Henry Finck), o amor transforma todos os nossos planos e intenesnum imenso jogo. Talvez a nica diferena entre o primeiro e o segundo casamentos seja que,da segunda vez, pelo menos sabemos que estamos jogando.

    Lembro-me da conversa que tive h muitos anos com uma moa que conheci numa festaeditorial em Nova York, num mau momento da minha vida. A moa, que j conhecia de outrasocasies sociais, me perguntou, por educao, onde estava o meu marido. Revelei que o meumarido no estava comigo naquela noite porque estvamos nos divorciando. A moapronunciou algumas palavras no muito sinceras de solidariedade e depois disse, antes demergulhar no prato de queijos: J sou casada e feliz h oito anos. E nunca vou me divorciar.

    O que responder a um comentrio desses? Parabns por uma realizao que voc ainda norealizou? Agora posso ver que essa moa ainda era meio inocente em relao ao casamento. Aocontrrio da adolescente veneziana mdia do sculo XVI, ela teve sorte de no terem lhe

  • imposto um marido. Mas, por essa mesma razo, exatamente porque escolheu o marido poramor, o seu casamento era mais frgil do que pensava.

    Os votos que fazemos no dia do casamento so um esforo nobre para camuflar essafragilidade, para nos convencer de que, na verdade, o que Deus Todo-poderoso uniu, nenhumhomem pode separar. Mas, infelizmente, no Deus Todo-poderoso que faz aqueles votosnupciais; o homem (nada-poderoso), e o homem sempre pode descumprir um juramento.Mesmo que a minha conhecida da festa editorial tivesse certeza de que jamais abandonaria omarido, a questo no dependia s dela. Ela no era a nica pessoa naquela cama. Todos osamantes, at os mais fiis, so vulnerveis ao abandono contra a vontade. Sei que esse fatosimples verdadeiro porque eu mesma abandonei pessoas que no queriam que eu me fosse efui abandonada por aqueles a quem implorei que ficassem. Sabendo disso tudo, entrarei nomeu segundo casamento com muito mais humildade do que entrei no primeiro. Assim comoFelipe. No que a humildade, sozinha, nos proteja, mas pelo menos dessa vez a teremos.

    Todo mundo j ouviu dizer que o segundo casamento o triunfo da esperana sobre aexperincia, mas no tenho muita certeza de que seja verdade. Parece que o primeirocasamento mais cheio de esperana, inundado de vastas expectativas e otimismo fcil. Achoque o segundo casamento est envolto em outra coisa: talvez um certo respeito por forasmaiores do que ns. Um respeito que talvez at se aproxime do temor.

    Um velho ditado polons avisa: Antes de ir para a guerra, reze uma orao. Antes de irpara o mar, reze duas oraes. Antes de se casar, reze trs.

    Eu, por mim, pretendo rezar o ano todo.

  • CAPTULO QUATRO

    Casamento e paixoTER COM O AMOR (UM POUCO)/ MAIS DE CAUTELA/ DO QUE COM TUDO

    e.e. cummings

    D

    Estvamos em setembro de 2006.Felipe e eu ainda perambulvamos pelo sudeste da sia. O que mais tnhamos era tempo.

    O nosso caso estava totalmente paralisado na Imigrao. Para ser justa, no era s o nosso casoque estava paralisado na Imigrao, mas o de todos os casais que solicitavam vistos de noivonos Estados Unidos. Todo o sistema estava travado, hermeticamente fechado. Para nossoinfortnio coletivo, uma nova lei de imigrao acabara de ser aprovada pelo Congresso, eento todo mundo milhares de casais ficaria em suspenso durante pelo menos mais unsquatro meses de limbo burocrtico. A nova lei determinava que, agora, todo cidadoamericano que quisesse se casar com um estrangeiro teria de ser investigado pelo FBI, quebuscaria indcios de crimes passados cometidos pelo solicitante.

    isso mesmo: agora, todo americano que quisesse se casar com um estrangeiro seriasubmetido a investigao pelo FBI.

    O curioso que essa lei foi aprovada para proteger as mulheres estrangeiras pobresde pases em desenvolvimento, para ser exata de serem levadas para os Estados Unidoscomo noivas de estupradores, assassinos condenados ou agressores conjugais reincidentes.Nos ltimos anos, isso se tornara um problema medonho. Em resumo, os americanos estavamcomprando noivas da ex-Unio Sovitica, da sia e da Amrica do Sul que, depois deremetidas para os Estados Unidos, enfrentavam uma nova vida horrvel como prostitutas ouescravas sexuais e acabavam at assassinadas pelos maridos americanos, que talvez jtivessem ficha na polcia por estupro e homicdio. Assim, essa nova lei passou a existir parafiltrar todos os futuros cnjuges americanos e proteger as noivas estrangeiras do risco de secasar com um possvel monstro.

    Era uma boa lei. Era uma lei justa. Era impossvel no aprovar uma lei assim. O nicoproblema para Felipe e eu foi que essa lei veio numa hora terrivelmente inconveniente, dado

  • que agora o nosso caso levaria pelo menos mais quatro meses para ser examinado enquanto oFBI fazia as devidas investigaes para confirmar que eu no era uma estupradora condenadanem uma assassina em srie de mulheres desafortunadas, apesar do fato de ter exatamente esseperfil.

    De tantos em tantos dias, eu mandava mais um e-mail para o advogado especializado emimigrao l na Filadlfia, pedindo relatrios, prazos, esperana.

    Nenhuma notcia, dizia sempre o advogado. s vezes ele me recordava, para o caso deeu ter esquecido: No faa planos. Nada garantido.

    Assim, enquanto isso tudo se desenrolava (ou melhor, enquanto isso tudo no sedesenrolava), Felipe e eu entramos no Laos. Pegamos um avio do norte da Tailndia at aantiga cidade de Luang Prabang, sobrevoando uma contnua extenso esmeralda de montanhasque se erguiam ngremes e espantosas da selva verdejante, uma atrs da outra, como ondasverdes encapeladas e congeladas. O aeroporto local parecia mais ou menos a agncia doscorreios de uma cidadezinha americana. Pegamos um bicitxi para nos levar para LuangPrabang propriamente dita, que um tesouro de cidade, lindamente situada num delta entre osrios Mekong e Nam Khan. Luang Prabang um lugar belssimo que, de certa forma, conseguiu,no decorrer dos sculos, enfiar quarenta templos budistas numa fatiazinha de terreno. Por essarazo, l se encontram monges budistas por toda parte. A idade deles varia de uns 10 anos (osnovios) a uns 90 (os mestres), e a qualquer momento h literalmente milhares deles vivendoem Luang Prabang. Portanto, a proporo entre monges e mortais comuns de mais ou menoscinco para um.

    Os novios eram os meninos mais bonitos que j vi. Usavam tnicas cor de laranjaberrante e tinham a cabea raspada e a pele dourada. Toda manh, antes de o sol nascer, saamdos templos em longas filas, o prato de esmolas na mo, recolhendo a alimentao diria juntoaos habitantes, que se ajoelhavam na rua para oferecer arroz para os monges comerem. Felipe,j cansado de viajar, descrevia essa cerimnia como uma confuso danada para as cinco damanh, mas eu adorava, e todo dia acordava antes do amanhecer para escapulir at a varandado nosso hotel meio em runas e espiar.

    Fui cativada pelos monges. Para mim, eram uma distrao fascinante. Fixei-mecompletamente neles. Na verdade, fui to cativada pelos monges que, depois de alguns diaspreguiosos sem fazer nada nessa pequena cidade laociana, comecei a espion-los.

    Tudo bem, espionar monges deve ser uma atividade muito m (que Buda me perdoe), mas eradifcil resistir. Eu morria de vontade de saber quem eram aqueles meninos, o que sentiam, oque queriam na vida, mas havia um limite para as informaes que conseguiria s claras.Apesar da barreira da lngua, as mulheres no devem nem olhar os monges, nem mesmo ficarperto deles, muito menos falar com eles. Alm disso, era difcil obter informaes pessoaissobre algum monge especfico, j que todos pareciam iguais. No insulto nem desdm

  • racista dizer que todos eram praticamente iguais; a igualdade a inteno da cabea raspada edas tnicas alaranjadas simples e idnticas. A razo para os mestres budistas criarem essaaparncia uniforme foi ajudar deliberadamente os meninos a reduzir a sensao de si mesmoscomo indivduos e fundi-los num coletivo. Nem eles devem se distinguir uns dos outros.

    Mas ficamos vrias semanas ali em Luang Prabang e, depois de muita vigilncia pelosbecos, passei lentamente a reconhecer monges especficos na multido de tnicas alaranjadase intercambiveis cabeas raspadas. Aos poucos, foi ficando claro que havia todo tipo demonge jovem. Havia os namoradores e ousados, que subiam nos ombros uns dos outros paraespiar por cima do muro do templo e gritar Ol, sra. Lady! quando a gente passava. Havianovios que fumavam escondidos noite, fora dos muros do templo, a brasa do cigarrobrilhando alaranjada como a tnica. Vi um monge adolescente sarado fazendo abdominais eavistei outro com a inesperada tatuagem de uma faca toda enfeitada, digna de um bandido, noombro dourado. Certa noite, fiquei ouvindo um grupo de monges cantar msicas de BobMarley uns para os outros debaixo de uma rvore no jardim do templo, muito depois da horaem que deveriam estar dormindo. Cheguei a ver um grupo de novios mal chegados adolescncia lutando kickboxe uma competio bem humorada que, como as brincadeirasde meninos do mundo todo, corria o risco de ficar realmente violenta a qualquer momento.

    Mas fiquei muito surpresa com um incidente a que assisti certa tarde numa lan housepequena e escura de Luang Prabang onde eu e Felipe passvamos vrias horas por dia paraconferir e-mails e entrar em contato com a famlia e o advogado da Imigrao. Tambm fuimuitas vezes sozinha a essa lan house. Quando Felipe no estava comigo, usava o computadorpara procurar anncios de imveis, procurando casas na rea da Filadlfia. Mais do quenunca, ou talvez at pela primeira vez na vida, eu sentia saudades de casa. Tipo, saudade deum lar. Estava com uma vontade louca de ter uma casa, um endereo, um lugarzinho privado snosso. No via a hora de libertar os meus livros do depsito e arrum-los em ordem alfabticanas estantes. Sonhava em adotar um bichinho de estimao, em fazer comida em casa, em usaros meus sapatos velhos, em morar perto de minha irm e da sua famlia.

    Recentemente, eu ligara para desejar minha sobrinha um feliz oitavo aniversrio, e elachorou no telefone.

    Por que voc no est aqui? perguntou Mimi. Por que no vem para a minha festade aniversrio?

    No posso ir, querida. Estou presa do outro lado do mundo. Ento por que voc no vem amanh?Eu no queria sobrecarregar Felipe com nada disso. A minha saudade de casa s fazia

    com que se sentisse impotente, preso e meio responsvel por nos ter desarraigado at o nortedo Laos. Mas o lar era uma distrao constante para mim. Olhar anncios de imveis sem queFelipe soubesse me dava uma sensao de culpa, como se visitasse sites pornogrficos, masassim mesmo eu continuava. No faa planos, no parava de repetir o advogado, mas eu noconseguia me segurar. Sonhava com planos. Planos e plantas baixas.

  • Assim, certa tarde quente, em Luang Prabang, quando eu estava sentada l sozinha na lanhouse fitando a tela cintilante do computador, admirando a imagem de uma casinha de pedrajunto ao rio Delaware (com um celeirinho que seria fcil transformar em escritrio!), ummonge novio, adolescente e magro, sentou-se de repente diante do computador ao meu lado,balanando de leve o quadril magro na beira de uma cadeira rgida de madeira. Fazia semanasque eu via monges usando computadores nessa lan house, mas ainda no superara a disjunocultural de observar garotos srios de cabea raspada e tnica cor de aafro surfando nainternet. Cheia de curiosidade para saber exatamente o que faziam naqueles computadores, svezes me levantava e perambulava toa pela sala, dando uma olhada nas telas de todo mundoao passar. Em geral, os garotos jogavam videogames, embora s vezes eu os encontrassedigitando laboriosamente em ingls, totalmente absortos no trabalho.

    Entretanto, nesse dia o jovem monge sentou-se bem ao meu lado. Estava to perto quedava para ver os pelos finos nos braos magros de marrom claro. As mquinas ficavam tojuntas umas das outras que tambm podia ver com bastante clareza a tela do seu computador.Dali a pouco, dei uma olhada para ter uma ideia do que ele estava fazendo e percebi que ogaroto lia uma carta de amor. Na verdade, lia um e-mail de amor, que logo percebi vir dealgum chamado Carla, que obviamente no era laociana e escrevia num ingls confortvel ecoloquial. Ento Carla era americana. Ou talvez britnica. Ou australiana. Uma das frases natela do computador do garoto pulou na minha frente: Ainda desejo voc como meu amante.

    E isso me acordou do devaneio. Meu Deus, o que eu estava fazendo? Lendo acorrespondncia particular dos outros? E pior ainda, por cima do ombro? Desviei os olhoscom vergonha de mim mesma. Aquilo no era da minha conta. Voltei a ateno aos annciosde imveis no vale do Delaware. Mas claro que achei meio difcil me concentrar de novo naminha tarefa, porque, venhamos e convenhamos: quem diabos era Carla?

    Para comear, como uma moa ocidental e um monge laociano adolescente seconheceram? Que idade ela teria? E quando escreveu Ainda desejo voc como meu amante,ser que queria dizer Quero voc como meu amante? Ou ser que a relao j se consumara eagora ela acalentava a lembrana da paixo fsica dos dois? Se Carla e o monge tinhamconsumado o caso de amor... ento, como foi? Quando? Ser que Carla foi passar frias emLuang Prabang e comeou a conversar com esse garoto, apesar de mulheres no poderem nemolhar os novios? Ser que ele cantou Ol, sra. Lady para ela, e a partir da tudo acabounum encontro sexual? E agora, o que seria deles? Esse garoto abandonaria os votos e semudaria para a Austrlia? (Ou Gr-Bretanha, Canad ou Memphis?) Carla se mudaria para oLaos? Voltariam a se ver? Ele seria defenestrado se fossem pegos? (Ser que no budismo sefala defenestrar?) Esse caso de amor arruinaria a vida dele? Ou a dela? Ou a de ambos?

    O menino fitava o computador em silncio enlevado, estudando a carta de amor comtamanha concentrao que no tinha a mnima conscincia de mim, sentada bem ali ao seulado, silenciosamente preocupada com o seu futuro. E eu estava preocupada com ele, temendoque tudo aquilo fosse areia demais para o caminhozinho dele, que essa linha de ao s

  • levasse dor de cotovelo.Mais uma vez, ningum pode deter a correnteza do desejo que passa pelo mundo, por

    mais que s vezes seja inadequada. prerrogativa de todo ser humano fazer escolhasridculas, se apaixonar pelos parceiros mais improvveis e se jogar nas calamidades maisprevisveis. Ento, Carla ardia por um monge adolescente e da? Como julg-la por isso?No decorrer da vida, eu mesma no me apaixonara por tantos homens inadequados? E osjovens, bonitos e espirituais no eram os mais atraentes de todos?

    O monge no digitou uma resposta a Carla, pelo menos no naquela tarde. Leu a cartamais algumas vezes, com tanta ateno que era como se estudasse um texto religioso. Depois,ficou muito tempo sentado em silncio, as mos descansando de leve no colo, os olhosfechados como se meditasse. Finalmente, agiu: imprimiu o e-mail. Leu mais uma vez aspalavras de Carla, dessa vez no papel. Dobrou o bilhete com carinho, como se dobrasse umagaivota de origami, e enfiou-o em algum lugar dentro da tnica alaranjada. Depois, esse lindorapaz quase criana desligou-se da internet e saiu da lan house rumo ao calor escaldante daantiga cidade fluvial.

    Dali a instantes me levantei e o segui sem ser notada. Observei-o andando rua acima,subindo lentamente na direo do templo central no alto do morro, sem olhar para a direitanem para a esquerda. No demorou para um grupo de jovens monges vir andando e ultrapass-lo aos poucos, e o monge de Carla se juntou em silncio s suas fileiras, desaparecendo namultido de novios esguios e jovens como um peixe alaranjado que some no cardume de seusirmos duplicados. Na mesma hora o perdi naquela multido de meninos todos exatamenteiguais. Mas era bvio que esses meninos no eram exatamente iguais. Por exemplo, s umdaqueles jovens monges laocianos tinha uma carta de amor de uma mulher chamada Carladobrada e escondida em algum lugar da tnica. E, por mais maluco que parea, e por maisperigoso que fosse o jogo dele, no pude deixar de me sentir um pouco empolgada com ogaroto.

    Qualquer que fosse o resultado, alguma coisa estava lhe acontecendo.

    Buda ensinou que todo sofrimento humano nasce do desejo. E todos sabemos que isso verdade, no ? Quem j desejou alguma coisa e depois no a conseguiu (ou pior, conseguiu eperdeu) conhece muito bem o sofrimento de que Buda falou. Desejar outra pessoa talvez seja odesafio mais arriscado de todos. Assim que queremos algum queremos de verdade , como se pegssemos uma agulha cirrgica e suturssemos a nossa felicidade na pele dessealgum, de modo que toda separao provoca um ferimento dilacerante. A nica coisa quesabemos que temos de obter o objeto de desejo pelo meio que for necessrio e depois nuncamais nos separar dele. S conseguimos pensar no ser amado. Perdidos nessa urgnciaprimitiva, no nos possumos mais por inteiro. Viramos servos cativos dos nossos anseios.

    Assim, d para entender por que Buda, que ensinou o sereno desapego como caminho

  • para a sabedoria, no aprovaria que esse jovem monge levasse consigo furtivamente cartas deamor de algum chamado Carla. D para ver que o Senhor Buda consideraria esse namorouma certa distrao. Sem dvida, nenhuma relao baseada em segredo e luxria lhe causariaboa impresso. Mas tambm, Buda nunca foi muito f da intimidade sexual ou romntica. slembrar que, antes de se tornar o Ser Perfeito, ele abandonou esposa e filho para partirdesimpedido numa viagem espiritual. Assim como os primeiros padres cristos, Buda ensinouque s o celibatrio e o solitrio chegam iluminao. Portanto, o budismo tradicional sempreolhou o casamento com certa desconfiana. O caminho budista uma viagem de desapego, e ocasamento uma propriedade que traz consigo a sensao intrnseca de apego ao cnjuge, aosfilhos, ao lar. A viagem rumo iluminao comea com o afastamento disso tudo.

    Existe um papel para os casados na cultura budista tradicional, mas mais um papel deapoio. Buda se referia aos casados como chefes de famlia. Chegou a dar instrues claraspara ser um bom chefe de famlia: seja gentil com o cnjuge, seja honesto, seja fiel, desmolas aos pobres, faa seguro contra fogo e enchentes...

    Estou falando srio: Buda aconselhou literalmente os casais a fazerem seguro daspropriedades.

    No um caminho to empolgante quanto abrir o vu da iluso e ficar no patamarbrilhante da perfeio imaculada, me parece. Mas, para Buda, a iluminao simplesmente noestava disponvel para chefes de famlia. Mais uma vez, nisso ele lembrava os primeirospadres cristos, que acreditavam que o apego conjugal era apenas um obstculo para chegarao paraso; e isso nos leva a perguntar exatamente o que esses seres iluminados tinham contraos casais. Por que tanta hostilidade para com a unio romntica e sexual, e at para com ocasamento firme? Por que tanta resistncia ao amor? Ou talvez o problema no fosse o amor;Jesus e Buda foram os maiores professores de amor e compaixo que o mundo j viu. Talvez operigo acessrio do desejo que tenha levado esses mestres a temer pela alma, pela sanidadee pelo equilbrio de todos.

    O problema que todos somos cheios de desejo; essa a marca registrada da nossaexistncia emocional e pode levar nossa runa, e runa dos outros. Em O Banquete, o tratadomais famoso j escrito sobre o desejo, Plato descreve um conhecido jantar no qual odramaturgo Aristfanes conta a histria mtica que explica por que ns, seres humanos, temosum anseio to profundo pela unio com o outro e por que s vezes os nossos atos de uniopodem ser to insatisfatrios e at destrutivos.

    H muito, muito tempo, conta Aristfanes, havia deuses no cu e seres humanos na terra.Mas ns, seres humanos, no ramos como somos hoje. Tnhamos duas cabeas, quatro pernase quatro braos: em outras palavras, ramos a fuso perfeita de duas pessoas, unidas de formainteiria num nico ser. Havia trs variaes sexuais possveis: fuses macho/fmea, fusesmacho/macho e fuses fmea/fmea, dependendo do que combinasse melhor com cadacriatura. Como j tnhamos o parceiro perfeito costurado no prprio tecido do nosso ser,ramos todos felizes. Assim, todos ns, criaturas de duas cabeas e oito membros,

  • perfeitamente satisfeitas, percorramos a terra como os planetas viajam pelo cu: sonhadores,ordeiros, sem sobressaltos. No sentamos falta de nada; no tnhamos necessidadesdesatendidas; no queramos ningum. No havia conflito nem caos. ramos inteiros.

    Mas, em nossa inteireza, ficamos excessivamente orgulhosos. E com esse orgulho,deixamos de adorar os deuses. O poderoso Zeus nos puniu pela negligncia cortando ao meiotodos os seres humanos de duas cabeas, oito membros e total satisfao, criando assim ummundo de criaturas sofredoras e cruelmente separadas, com uma cabea, dois braos e duaspernas. Nesse momento de amputao em massa, Zeus imps humanidade a mais dolorosacondio humana: a sensao surda e constante de que no somos inteiros. Pelo resto daeternidade, os seres humanos nasceriam sentindo que faltava alguma coisa a metadeperdida, que quase amamos mais do que a ns mesmos e que essa parte que faltava estavapor a, em algum lugar, girando pelo universo na forma de outra pessoa. Tambm nasceramosacreditando que, se procurssemos sem parar, talvez um dia encontrssemos aquela metadesumida, aquela outra alma. Pela unio com o outro, voltaramos a completar a nossa formaoriginal e nunca mais sentiramos a solido.

    Essa a fantasia singular da intimidade humana: um mais um, de certa forma, algum dia,ser igual a um.

    Mas Aristfanes avisou que a realizao desse sonho de completude pelo amor impossvel. Como espcie, estamos despedaados demais para algum dia nos consertarmoscom uma simples unio. As metades originais dos octpodes humanos cortados e separados seespalharam demais para que algum de ns consiga encontrar de novo a metade que falta. Aunio sexual pode fazer algum se sentir temporariamente completo e saciado (Aristfanesconjecturou que Zeus deu aos seres humanos o dom do orgasmo por pena, especificamentepara que pudssemos nos sentir unidos de novo por algum tempo e no morrssemos dedepresso e desespero), mas, no fim das contas, ficaremos sozinhos. Assim, a solidocontinua, o que nos leva a vrias unies com as pessoas erradas em busca da unio perfeita.s vezes, podemos at acreditar que achamos a outra metade, mas o mais provvel quetenhamos achado algum em busca da sua metade, algum igualmente desesperado paraacreditar que encontrou em ns a completude.

    assim que comea a paixo. E a paixo o aspecto mais perigoso do desejo humano.A paixo leva ao pensamento invasivo, como dizem os psiclogos: aquele famoso estadodistrado em que a gente no consegue se concentrar em nada, s no objeto da obsesso.Quando a paixo ataca, tudo o mais emprego, relacionamento, responsabilidade, comida,sono, trabalho fica de lado enquanto alimentamos fantasias sobre a pessoa amada que logose tornam repetitivas, invasivas e absorventes. A paixo altera a qumica do crebro, como sea gente se drogasse com opiceos e estimulantes. No faz muito tempo, os cientistasdescobriram que as tomografias do crebro e as mudanas de humor do amante apaixonadoso parecidssimas com as tomografias e mudanas de humor do viciado em cocana; e issono surpreende, j que a paixo um vcio com efeito qumico mensurvel sobre o crebro.

  • Como explicou a dra. Helen Fisher, antroploga e especialista em paixo, os amantesapaixonados, como todos os viciados, perdem a sade, se humilham e at se arriscamfisicamente para obter o seu narctico.

    O momento em que essa droga mais forte bem no comecinho de um relacionamentoapaixonado. A dra. Fisher observou que uma quantidade enorme de bebs concebida nosseis primeiros meses de um caso de amor, fato que acho realmente digno de nota. A obsessohipntica pode levar a uma sensao de abandono eufrico, e o abandono eufrico a melhormaneira de engravidar sem querer. Na verdade, alguns antroplogos defendem que a espciehumana precisa da paixo como ferramenta reprodutiva para nos manter imprudentes a pontode correr o risco de engravidar, para que possamos recompor as nossas fileiras.

    A pesquisa da dra. Fisher tambm mostrou que as pessoas so bem mais suscetveis paixo quando passam por situaes delicadas ou vulnerveis. Quanto mais nos sentimosinseguros e desequilibrados, maior a probabilidade de que nos apaixonemos de forma rpidae imprudente. Isso deixa a paixo parecida com um vrus adormecido que jaz espera, semprepronto para atacar o nosso enfraquecido sistema imunolgico emocional. Os estudantesuniversitrios, por exemplo longe de casa pela primeira vez, inseguros, sem a rede deapoio familiar so famosos pela suscetibilidade paixo. E todos sabemos que comumos viajantes em terra estrangeira se apaixonarem loucamente por desconhecidos, ao queparece da noite para o dia. No fluxo e na empolgao da viagem, os mecanismos protetoreslogo enguiam. De certa forma, maravilhoso (pelo resto da vida, sempre sentirei um arrepiode prazer quando me lembrar do beijo daquele camarada junto ao terminal de nibus deMadri), mas nessas circunstncias sensato seguir o conselho da venervel filsofa norte-americana Pamela Anderson: Nunca se case quando estiver de frias.

    Quem passa por uma fase emocional difcil, seja pela morte de um parente, talvez, sejapela perda do emprego, tambm fica suscetvel ao amor instvel. Tambm se sabe que osdoentes, os feridos e os assustados so vulnerveis ao amor sbito, o que ajuda a explicar porque tantos soldados dilacerados pelas batalhas se casam com as suas enfermeiras. Os cnjugesem crise no relacionamento tambm so excelentes candidatos a se apaixonar por um novoamante, como posso atestar pessoalmente com a louca comoo que cercou o fim do meuprimeiro casamento, quando tive a boa e slida sensatez de cair no mundo e me apaixonarloucamente por outro homem na mesma hora em que deixava o meu marido. A minha grandeinfelicidade e o esfacelamento do meu eu me deixaram pronta para o tranco da paixo, ecaramba, que tranco! Na minha situao (e, pelo que eu sei, um exemplo bem comum e chato,digno de livro didtico), o meu novo interesse amoroso parecia ter uma enorme placa de SADApendurada na cabea e mergulhei direto nessa sada, usando o caso de amor como desculpapara fugir do casamento que desmoronava e afirmando depois, com certeza quase histrica,que essa pessoa era tudo o que eu realmente precisava na vida.

    incrvel, no deu certo. claro que o problema da paixo ser uma miragem, uma iluso de tica na verdade,

  • uma iluso do sistema endcrino. Paixo no a mesma coisa que amor; parece mais osuspeito primo em segundo grau do amor, que vive pedindo dinheiro emprestado e nunca parano emprego. Quando nos apaixonamos por algum, na verdade no estamos olhando aquelapessoa; s ficamos cativados pelo nosso prprio reflexo, inebriados por um sonho decompletude que projetamos em algum praticamente estranho. Nesse estado, tendemos aconcluir sobre o nosso amante coisas espetaculares que podem ou no ser verdadeiras.Percebemos no amado algo quase divino, mesmo que os amigos e parentes no percebam.Afinal de contas, a Vnus de um a loira burra do outro, e h quem ache o nosso Adnispessoal um fracassado e chato de galocha.

    claro que todos os amantes veem e tm de ver os parceiros com olhosgenerosos. natural e at adequado exagerar um pouco as virtudes dos parceiros. Carl Jungachava que, para quase todo mundo, os seis primeiros meses da maioria das histrias de amorso um perodo de pura projeo. Mas a paixo a projeo que saiu dos trilhos. O casobaseado na paixo uma zona sem sanidade, onde as falsas concepes no tm limite e ondea viso realista no tem apoio. Freud definiu a paixo sucintamente como supervalorizaodo objeto, e Goethe explicou ainda melhor: Quando duas pessoas ficam realmente felizesuma com a outra, em geral podemos supor que esto enganadas. (Alis, pobre Goethe! Nemele foi imune paixo, nem com toda a sua sabedoria e experincia. Esse alemo velho efirme, aos 71 anos, apaixonou-se pela inadequadssima Ulrike, uma beldade de 19 anos querecusou as suas propostas ardentes de casamento, deixando o gnio envelhecido to desoladoque escreveu um rquiem vida, concluindo com os versos perdi o mundo inteiro, perdi amim.)

    Toda relao real impossvel nesse estado de febre desvairada. O amor real, so,maduro, do tipo que paga hipoteca ano aps ano e busca os filhos na escola, no se baseia empaixo, mas em afeto e respeito. E a palavra respeito, do latim respicere (fitar), sugere quepodemos realmente ver a pessoa que est ao nosso lado, coisa absolutamente impossveldentro das brumas rodopiantes da iluso romntica. A realidade sai do palco assim que apaixo entra, e logo nos vemos fazendo um monte de coisas malucas que jamais pensaramosem fazer se estivssemos sos. Por exemplo, certo dia podemos acabar escrevendo e-mailsapaixonados a um monge de 16 anos no Laos ou coisa parecida. Quando o p assenta, anosdepois, nos perguntamos: O que que eu estava pensando? e a resposta costuma ser: Vocno estava pensando.

    Os psiclogos chamam esse estado de loucura iludida de amor narcsico.Eu o chamo de meus 20 anos.Olhe, quero deixar bem claro que no sou intrinsecamente contra a paixo. Claro que

    no! As sensaes mais extasiantes que j tive na vida surgiram quando me consumia naobsesso romntica. Esse tipo de amor nos deixa super-heroicos, mticos, mais do quehumanos, imortais. Irradiamos vida; no precisamos dormir; o ser amado enche o nossopulmo de oxignio. Por mais que, no final, essas experincias sejam dolorosas (e para mimsempre acabam em dor), detestaria ver algum passar a vida inteira sem saber como

  • metamorfosear-se euforicamente no ser de outra pessoa. Assim, quando digo que fico meioempolgada com o monge e Carla, disso que estou falando. Fico contente de que tenham aoportunidade de provar aquele xtase narctico. Mas tambm fico contentssima porque, dessavez, no comigo.

    Porque tem uma coisa que sei com certeza sobre mim, quando me aproximo dos 40 anos.No consigo mais aguentar a paixo. Ela me mata. No final, como se me jogasse numamquina de picar. Embora eu saiba que deve haver casais cuja histria de amor comeou comuma fogueira de obsesso e depois, com o passar dos anos, abrandou-se e se transformou nasbrasas seguras de uma relao longa e saudvel, nunca consegui aprender esse truque. Paramim, a paixo s fez uma nica coisa, sempre: destruir e, em geral, bem depressa.

    Mas, na juventude, eu adorava o barato da paixo e, por isso, transformei-o em hbito.Com hbito, quero dizer exatamente a mesma coisa que o viciado em herona, quando falado seu hbito: um eufemismo para compulso incontrolvel. Buscava a paixo por toda parte.Eu a refinei. Virei o tipo de garota em quem, sem dvida, Grace Paley pensava quandodescreveu uma personagem que sempre precisava de um homem na vida, mesmo quandoparecia que j tinha o seu. Apaixonar-se primeira vista virou uma especialidade especficaminha do final da adolescncia at os 20 e poucos anos; acontecia at quatro vezes por ano.Houve ocasies em que passei to mal com os romances que perdi bons nacos da vida porisso. Sumia entregue a eles no incio do caso, mas logo acabava chorando e vomitando nofinal. No caminho, perdia tanto sono e tanta sanidade que, quando me lembro agora, partes doprocesso lembravam a amnsia alcolica. S que sem lcool.

    Essa mocinha deveria ter se casado aos 25 anos? A Sabedoria e a Prudncia diriam queno. Mas no convidei Sabedoria e Prudncia para o meu casamento. (Em minha defesa, onoivo tambm no.) Naquela poca, eu era uma moa despreocupada, em todos os sentidos.Certa vez, li uma notcia no jornal sobre um homem que causou um incndio que consumiumilhares de hectares de floresta porque ficou o dia todo passeando de carro por um parquenacional arrastando o cano de descarga, fazendo fagulhas explosivas saltarem no mato seco ecriando um novo incendiozinho de tantos em tantos metros. Outros motoristas pelo caminhobuzinaram e acenaram, tentando chamar a ateno dele para o dano que causava, mas ocamarada estava ouvindo rdio e no notou a catstrofe que provocou atrs de si.

    Eu era assim na juventude.S quando cheguei aos 30 e poucos anos, s depois que eu e o meu ex-marido destrumos

    o casamento para sempre, s depois que a minha vida ficou totalmente atrapalhada (assimcomo a vida de alguns bons homens, de outros no to bons e de um punhado de transeuntesinocentes), que finalmente parei o carro. Sa e olhei em volta a paisagem carbonizada,pisquei um pouco e perguntei: Vocs querem dizer que toda essa baguna tem algo a vercomigo?

    A veio a depresso.Certa vez, o professor quacre Parker Palmer disse sobre a sua vida que a depresso foi

  • um amigo enviado para salv-lo das alturas exageradas da falsa euforia que vinha fabricandodesde sempre. A depresso o empurrou de volta terra, de volta a um nvel onde finalmenteseria seguro andar e se manter na realidade. Eu tambm precisava ser puxada para o mundoreal depois de anos a me iar artificialmente com uma paixo impensada atrs da outra.Tambm passei a ver a minha temporada de depresso como essencial, embora soturna etristonha.

    Usei aquele tempo sozinha para me estudar, para responder sinceramente perguntasdolorosas e, com a ajuda de um terapeuta paciente, entender a origem do meu comportamentoto destrutivo. Viajei (e me desviei de espanhis lindos em terminais rodovirios). Busquei,diligente, formas mais saudveis de alegria. Passei muito tempo sozinha. Antes, nunca ficarasozinha, mas fiz um bom mapa do caminho. Aprendi a rezar, expiando o melhor possvel aterra devastada e queimada atrs de mim. Principalmente, contudo, pratiquei a nova arte doautoconsolo, resistindo a todas as tentaes romnticas e sexuais passageiras com essapergunta recm-adulta: Essa escolha ser benfica para algum a longo prazo? Em resumo:cresci.

    Immanuel Kant acreditava que ns, seres humanos, por sermos to complexos em termosemocionais, passamos por duas puberdades na vida. A primeira quando o nosso corpo setorna maduro para o sexo; a segunda quando a nossa mente se torna madura para o sexo. Osdois fatos podem estar separados por muitos e muitos anos, embora eu me pergunte se, talvez,a maturidade emocional s venha com a experincia e as lies dos fracassos romnticosjuvenis. Pedir a uma garota de 20 anos que conhea automaticamente os fatos da vida que amaioria das mulheres de 40 precisou de dcadas para entender esperar sabedoria demais dealgum to jovem. Ser que, em outras palavras, temos todos de passar pela angstia e peloserros da primeira puberdade para atingir a segunda?

    Seja como for, quando j estava bem avanada na minha experincia de solido eresponsabilidade perante mim, conheci Felipe. Ele era gentil, leal e atento, e avanamosdevagar. No foi um amor adolescente. Nem amor infantil, nem amor de frias. Admito que,por fora, a nossa histria de amor parecia terrivelmente romntica conforme foi sedesenrolando. Caramba, nos conhecemos na ilha tropical de Bali, sob as palmeiras ondulantesetc. etc. Seria difcil imaginar um cenrio mais idlico do que aquele. Na poca, lembro quedescrevi toda essa cena onrica num e-mail que mandei minha irm mais velha, numsubrbio da Filadlfia. Em retrospecto, talvez tenha sido injusto da minha parte. Catherine, emcasa com dois filhos pequenos e enfrentando uma reforma enorme da casa, s respondeu:Pois , nesse fim de semana eu tambm estava planejando ir para uma ilha tropical com omeu amante brasileiro... mas da surgiu aquele engarrafamento.

    Assim, pois , o meu caso de amor com Felipe teve um maravilhoso elemento romnticoque sempre guardarei no corao. Mas no foi paixo, e sei disso porque no exigi que ele setransformasse no meu Grande Salvador nem na Fonte da Minha Vida, nem sumi imediatamentena cavidade do peito daquele homem como um homnculo distorcido, irreconhecvel e

  • parasita. Durante o nosso longo perodo de corte, fiquei intacta dentro da minha personalidadee me permiti aceitar Felipe como era. Aos olhos um do outro, talvez tenhamos mesmoparecido desmedidamente lindos, perfeitos e heroicos, mas nunca perdi de vista a nossarealidade: eu era uma senhora divorciada, amorosa, mas cansada, que precisava controlar comtodo o cuidado a tendncia ao romance melodramtico e s expectativas insensatas; Felipe eraum homem divorciado e afetuoso que estava ficando careca e precisava controlar com todo ocuidado a tendncia a beber e o profundo temor de traio. ramos duas pessoas bem legais,trazendo as feridas de algumas decepes pessoais enormes e bastante comuns, eprocurvamos algo que fosse simplesmente possvel no outro: uma certa gentileza, uma certaateno, um certo anseio em comum de confiar e merecer confiana.

    At hoje, me recuso a sobrecarregar Felipe com a responsabilidade tremenda de mecompletar. Nesse momento da minha vida, j descobri que ele no pode me completar, nemque quisesse. J enfrentei minhas incompletudes em quantidade suficiente para admitir que sos minhas. Depois de aprender essa verdade essencial, agora posso at dizer onde queacabo e onde que o outro comea. Pode parecer um truque vergonhoso de to simples, maspreciso deixar claro que levei trs dcadas e meia para chegar a esse ponto, para aprender aslimitaes da intimidade humana saudvel, como C. S. Lewis definiu to bem quando escreveusobre a esposa: Ambos sabamos: eu tinha os meus sofrimentos, no os dela; ela tinha osdela, no os meus.

    Um mais um, em outras palavras, s vezes deve dar dois.

    Mas como saber com certeza que nunca mais me apaixonaria por mais ningum? At queponto o meu corao digno de confiana? At que ponto slida a lealdade de Felipe amim? Como saber, sem nenhuma dvida, que desejos externos no tentaro nos separar?

    Essas foram as perguntas que comecei a me fazer assim que percebi que Felipe e euestvamos, como diz minha irm, presos por toda a vida. Para ser honesta, eu estava menospreocupada com a lealdade dele do que com a minha. Felipe tem uma histria bem maissimples no amor do que eu. Ele um mongamo irremedivel que escolhe algum e depoislogo relaxa na fidelidade, e no passa muito disso. fiel em todos os aspectos. Depois quearranja um restaurante favorito, se contenta em comer l toda noite, sem jamais ansiar porvariedade. Se gosta de um filme, se satisfaz em assistir a ele centenas de vezes. Se gosta deuma pea de roupa, vai ser visto com ela durante anos. A primeira vez que lhe comprei um parde sapatos, ele disse, com doura: Ah, que adorvel, querida, mas j tenho sapatos.

    O primeiro casamento de Felipe no terminou por causa da infidelidade (ele j tinhasapatos, se que voc me entende). Em vez disso, o relacionamento foi enterrado sob umaavalanche de infortnios circunstanciais que causaram presso demais sobre a famlia, efinalmente os laos se romperam. Foi uma pena, porque acredito honestamente que Felipe foifeito para se acasalar uma vez s pela vida inteira. Ele leal em nvel celular. Talvez isso

  • seja quase literal. Nos estudos evolucionrios recentes, h uma teoria que defende a existnciade dois tipos de homem no mundo: os feitos para ter filhos e os feitos para criar filhos. Osprimeiros so promscuos; os outros, constantes.

    a famosa teoria dos papais e titios. No meio evolucionrio, isso no consideradoum juzo moral, mas sim algo que pode realmente chegar ao nvel gentico. Parece que existeuma variaozinha qumica fundamental no macho da espcie chamada gene receptor devasopressina. Os homens que tm o gene receptor de vasopressina tendem a ser parceirossexuais leais e dignos de confiana, que se apegam parceira durante dcadas, criando filhose administrando lares estveis. (Vamos chamar esses caras de Harry Truman). J os que notm o gene receptor de vasopressina tendem aos flertes e infidelidade, precisando semprebuscar variedade sexual por a. (Vamos chamar esses homens de John F. Kennedy.)

    As bilogas evolucionrias brincam que s h uma parte da anatomia masculina quequalquer candidata a parceira deveria ter o cuidado de medir: o tamanho do gene receptor devasopressina. Os John F. Kennedy do mundo, com escassez de genes receptores devasopressina, perambulam muito, espalhando sementes pela Terra, mantendo o cdigogentico humano misturado e heterogneo o que bom para a espcie, mesmo que no sejabom para as mulheres apaixonadas e depois abandonadas. No fim das contas, os HarryTruman, com seus longos genes, acabam criando os filhos dos John F. Kennedy.

    Felipe um Harry Truman e, quando o conheci, eu estava to cheia de JFKs, to exaustados seus encantos e caprichos de rachar o corao, que s queria um pacote de firmeza etranquilidade igual a ele. Mas tambm no considero eterna a decncia de Felipe nem relaxototalmente em relao minha prpria fidelidade. A histria nos ensina que qualquer um capaz de tudo nos domnios do amor e do desejo. Na vida de todos ns, surgem circunstnciasque pem em cheque at a lealdade mais teimosa. Talvez seja isso o que mais tememos aoentrar no casamento: que algum dia as circunstncias, sob a forma de alguma paixo externaincontrolvel, rompam o lao.

    Como se proteger dessas coisas?O nico consolo que j encontrei nesse assunto foi quando li a obra de Shirley P. Glass,

    psicloga que passou boa parte da carreira estudando a infidelidade conjugal. A pergunta delasempre era Como foi que aconteceu?. Como que pessoas boas e decentes, at pessoas dotipo Harry Truman, se veem varridas de repente por correntes de desejo e destroem semquerer vidas e famlias? No falamos aqui de puladores de cerca contumazes, mas de pessoasconfiveis que, contra o seu prprio bom senso ou cdigo moral, se perdem. Quantas vezes jouvimos algum dizer: Eu no procurava amor fora do casamento, s que aconteceu? Descritoassim, o adultrio comea a se parecer com um acidente de carro, um buraco escondido numacurva fechada, aguardando o motorista inocente.

    Mas, na pesquisa, Shirley Glass descobriu que, se escavarmos um pouco mais ainfidelidade, quase sempre vemos que o caso comeou muito antes do primeiro beijo roubado.Ela escreveu que a maioria dos casos comea quando o marido ou a mulher fazem um novo

  • amigo e nasce uma intimidade aparentemente inofensiva. Ningum sente o perigo seaproximar, porque o que h de errado na amizade? Por que no podemos ter amigos do sexooposto ou do mesmo sexo, alis quando estamos casados?

    A resposta, como explica a dra. Glass, que no h nada errado quando algum casadocomea uma amizade fora do matrimnio, desde que as paredes e janelas do relacionamentocontinuem no lugar certo. A teoria dela que todo casamento saudvel se compe de paredese janelas. As janelas so os aspectos do relacionamento abertos ao mundo, isto , as brechasnecessrias pelas quais interagimos com a famlia e os amigos; as paredes so as barreiras deconfiana, atrs das quais ficam guardados os segredos mais ntimos do casamento.

    Entretanto, nas amizades supostamente inofensivas, o que acontece que comeamos adividir com o novo amigo intimidades que deveriam estar escondidas dentro do casamento.Revelamos segredos sobre ns, nossos anseios e frustraes mais profundas, e se expor assimd uma sensao boa. Abrimos uma janela onde na verdade deveria haver uma parede slida eresistente, e logo nos vemos derramando os segredos do corao para essa nova pessoa. Noquerendo que o cnjuge tenha cimes, mantemos ocultos os detalhes da nova amizade. Comisso, criamos um problema: acabamos de construir uma parede entre ns e o cnjuge onde naverdade deveria haver a circulao livre de ar e luz. Portanto, toda a arquitetura da intimidadeconjugal foi rearrumada. Todas as antigas paredes agora so imensas janelas panormicas;todas as antigas janelas agora esto emparedadas como as de uma casa abandonada. Semperceber, acabamos de criar a planta baixa perfeita para a infidelidade.

    Assim, na hora em que o novo amigo entra na nossa sala em lgrimas devido a algumanotcia ruim e ns o abraamos (s querendo consolar!), e depois os lbios se roam epercebemos, num mpeto estonteante, que amamos essa pessoa, que sempre amamos essa pessoa!, tarde demais. Porque, agora, o estopim j se acendeu. E agora corremos mesmo o risco de,algum dia (provavelmente logo), ficarmos no meio dos destroos da vida, diante do cnjugetrado e abalado (de quem ainda gostamos imensamente, alis), tentando explicar entre soluosque nunca quisemos ferir ningum e que nunca vimos o que ia acontecer.

    E verdade. No vimos o que ia acontecer. Mas fomos ns que construmos aquilo epoderamos ter parado a tempo se agssemos mais depressa. De acordo com a dra. Glass,assim que percebemos que estamos dividindo com um novo amigo segredos que na verdadedeveriam pertencer ao cnjuge, h um caminho muito mais honesto e inteligente a seguir. Asugesto dela que, ao voltar para casa, contemos tudo ao marido ou esposa. O roteiro maisou menos assim: Tenho uma coisa preocupante para lhe contar. Esta semana fui almoar duasvezes com Mark, e me assustei porque a conversa logo ficou ntima. De repente, me vicontando coisas que s contava a voc. Era assim que conversvamos no incio do nossorelacionamento, e eu gostava demais, mas acho que perdemos isso. Sinto falta desse nvel deintimidade. Ser que podemos fazer alguma coisa para reavivar a nossa ligao?

    Na verdade, a resposta pode ser: No.Pode no haver nada que se possa fazer para reavivar aquela ligao. Uma amiga minha

  • teve uma conversa igualzinha a essa com o marido, e ele respondeu: No dou a mnima,passe o seu tempo com quem voc quiser. No surpreende que esse casamento acabassepouco depois. (E eu diria que precisava mesmo acabar.) Mas, se o seu cnjuge for receptivo,talvez escute o anseio por trs da confisso, e tomara que reaja, talvez at retrucando com aexpresso do seu prprio anseio.

    Sempre possvel que os dois no consigam se entender, mas pelo menos mais tardesaberemos que houve um esforo sincero para segurar as paredes e janelas do casamento, eesse conhecimento pode ser confortador. Alm disso, podemos evitar enganar o cnjuge,mesmo que no evitemos o divrcio; e isso pode ser bom, por muitas razes. Como observoucerta vez um velho advogado amigo meu, na histria humana, nenhum divrcio ficou maissimples, mais generoso, mais rpido ou mais barato por causa de um episdio de adultrio.

    Seja como for, ler a pesquisa da dra. Glass sobre infidelidade me deu uma sensao deesperana que foi quase eufrica. As ideias dela sobre fidelidade conjugal no so muitocomplexas, mas que eu nunca aprendera esse tipo de coisa antes. No sei direito se entendia sequer aembaraosa noo teraputica de que, de algum modo, controlamos o que acontece dentro eem torno dos relacionamentos. Fico envergonhada de admitir, mas verdade. Antigamente,acreditava que o desejo era to incontrolvel quanto um tornado e que o mximo que sepoderia fazer era torcer para no sugar a casa e explodi-la no ar. E aqueles casais cujorelacionamento durava dcadas? Eu achava que deviam ter muita sorte, que o tornado nunca osatingira. (Nunca me ocorreu que, na verdade, poderiam ter construdo juntos um poroembaixo da casa para onde fugir sempre que o vento aumentasse.)

    Embora o corao humano possa mesmo ser atingido por um desejo inesgotvel, eembora o mundo possa estar cheio de criaturas atraentes e outras opes deliciosas, pareceque mesmo possvel escolher de olhos bem abertos opes que limitem e controlem o riscoda paixo. E quando tememos problemas futuros no casamento, bom entender que osproblemas no so necessariamente coisas que acontecem; muitas vezes, os problemas socultivados de forma impensada em laminazinhas de vidro que deixamos espalhadas pelacidade toda.

    Tudo isso parece absurdamente bvio para todo mundo? Pois no era nada bvio paramim. Eram informaes que poderiam mesmo ter sido teis h mais de dez anos, quando mecasei pela primeira vez. No sabia nada disso. E s vezes fico horrorizada ao perceber queentrei no matrimnio sem esses dados to teis, ou melhor, sem quase nenhum dado til.Recordando agora o meu primeiro casamento, lembro-me do que tantas amigas minhas dizemsobre o dia em que levaram o primeiro filho do hospital para casa. H um momento, dizem asminhas amigas, em que a enfermeira lhes entrega o nenm e a nova mame percebe,horrorizada: Meu Deus, vou ter de levar essa coisa para casa comigo? Nem sei o que estoufazendo! Mas claro que os hospitais entregam bebs s mes e as mandam para casa,porque se pressupe que a maternidade seja meio instintiva, que naturalmente saberemos comocuidar do prprio filho, que o amor vai ensinar, mesmo que no tenhamos nenhuma

  • experincia nem treinamento para esse empreendimento vultoso.Passei a acreditar que, com muita frequncia, alimentamos a mesma ideia em relao ao

    casamento. Acreditamos que, se duas pessoas se amam de verdade, de algum modo aintimidade ser intuitiva e o casamento durar para sempre com a mera fora do afeto. Porques precisamos de amor! Ou pelo menos eu assim pensava quando jovem. Claro que ningumprecisa de estratgias, ajuda, ferramentas nem capacidade de ver as coisas dentro de umcontexto maior. E foi assim que eu e o meu primeiro marido simplesmente fomos em frente enos casamos numa situao de grande ignorncia, grande imaturidade e grande despreparo,simplesmente porque tivemos vontade de nos casar. Fizemos os nossos votos sem ter a maisremota ideia de como manter viva e saudvel a nossa unio.

    Ser mesmo surpresa termos ido diretamente para casa e deixado o beb cair de cabea?

    Por isso, agora, 12 anos depois, enquanto me aprontava para entrar de novo num casamento,achei que seriam necessrios alguns preparativos cuidadosos. O lado bom do perodo longo eimprevisto de noivado que o Departamento de Segurana Interna nos ofereceu foi que Felipe eeu tivemos tempo de sobra (todas as horas de viglia do dia, na verdade, durante muitos mesesa fio) para discutir as nossas questes e dificuldades com o casamento. E, assim, discutimos.Todas elas. Isolados da famlia, s ns dois, em lugares remotos, presos em longas viagens dedez horas de nibus, uma atrs da outra, o que mais tnhamos era tempo. Assim, eu e Felipeconversamos, conversamos e conversamos, esclarecendo diariamente que forma teria o nossocontrato de casamento.

    claro que a fidelidade tinha importncia fundamental. Era a nica condioinegocivel do nosso casamento. Ambos admitamos que, depois de estilhaada a confiana,juntar os cacos outra vez rduo e sofrido, para no dizer impossvel. (Como dizia o meu paisobre a poluio da gua, do seu ponto de vista de engenheiro ambiental: muito mais fcil ebarato manter o rio descontaminado desde o comeo do que limp-lo de novo depois depoludo.)

    O tema potencialmente explosivo das tarefas domsticas tambm foi bem simples deresolver: j morvamos juntos e tnhamos descoberto que dividamos essas tarefas de maneirafcil e justa. Alm disso, eu e Felipe tnhamos a mesma posio sobre a questo dos filhos (ouseja: obrigado, mas, no, obrigado), e a nossa concordncia nesse tema imponente pareciaapagar uma enciclopdia inteira de possveis conflitos conjugais futuros. Felizmente, tambmramos compatveis na cama, logo no prevamos problemas futuros no departamento desexualidade humana, e achei que no era bom procurar confuso onde no havia.

    Isso deixava apenas uma questo importante que podia mesmo desfazer o casamento:dinheiro. E, no fim das contas, aqui havia muito a discutir. Porque, embora Felipe e eu logoconcordemos com o que tem importncia na vida (comida boa) e o que no tem importncia navida (loua cara para servir aquela comida boa), temos valores e crenas muito diferentes a

  • respeito de dinheiro. Sempre fui conservadora com os meus proventos, cuidadosa, poupadoracompulsiva, basicamente incapaz de me endividar. Atribuo isso s lies de frugalidade querecebi dos meus pais, que tratavam cada dia como se fosse 30 de outubro de 1929, quandocomeou a Grande Depresso, e que me deram a primeira caderneta de poupana quando euestava no segundo ano primrio.

    Felipe, por outro lado, foi criado por um pai que, certa vez, trocou um carro bom poruma vara de pescar.

    Enquanto a economia a religio oficial da minha famlia, Felipe no tem toda essareverncia pela frugalidade. No mnimo, est imbudo da disposio nata do empresrio decorrer riscos e se dispe muito mais do que eu a perder tudo e comear de novo. (Vouexplicar de outra forma: eu no me disponho de jeito nenhum a perder tudo e comear denovo.) Alm disso, Felipe no tem a minha confiana inata nas instituies financeiras. Eleatribui isso, no sem razo, ao fato de ter crescido num pas cuja moeda flutuava loucamente;quando criana, ele aprendeu a contar observando a me reajustar todo dia pela inflao a suareserva de cruzeiros brasileiros. Assim, dinheiro vivo significa muito pouco para ele. Contasde poupana significam menos ainda. Extratos bancrios no passam de zeros num papelque podem sumir da noite para o dia, por razes totalmente fora do nosso controle. Portanto,explicou Felipe, ele preferia manter sua riqueza em pedras preciosas, por exemplo, ouimveis, e no em bancos. Ele deixou claro que nunca mudaria de ideia a esse respeito.

    Tudo bem. o que . No entanto, sendo assim, perguntei a Felipe se ele concordaria emme deixar cuidar das despesas e administrar as contas da casa. Eu tinha certeza de que acompanhia de luz no aceitaria pagamentos mensais em ametistas, logo teramos de abrir umaconta conjunta, mesmo que s para cuidar das contas. Ele concordou com essa ideia, o que foiconfortador.

    Foi ainda mais confortador quando Felipe concordou em usar os nossos meses de viagemconjunta para elaborar comigo, com o mximo de cuidado e respeito, durante aquelas muitasviagens longas de nibus, os termos de um acordo pr-nupcial. Na verdade, ele insistiu nissotanto quanto eu. Embora talvez alguns leitores achem difcil entender ou adotar essa ideia,peo que avaliem a nossa situao. Para mim, profissional autnoma e independente, numcampo criativo, que sempre ganhou a vida sozinha e tem um histrico de sustentarfinanceiramente os homens da minha vida (e que ainda manda cheques dolorosos para o ex),esse assunto tinha enorme importncia. Quanto a Felipe, homem cujo divrcio o deixou no scom o corao partido mas tambm quase literalmente falido... bom, para ele era importantetambm.

    Sei que, sempre que se discutem acordos pr-nupciais nos meios de comunicao, arazo costuma ser que um velho rico vai se casar com mais uma mocinha bonita. O temasempre parece srdido, um plano suspeito de golpe do ba. Mas Felipe e eu no somosmagnatas nem oportunistas; somos apenas experientes o suficiente para admitir que osrelacionamentos s vezes acabam, e que seria intencionalmente infantil fingir que isso nunca

  • aconteceria conosco. Seja como for, quando a gente se casa na meia-idade as questes dedinheiro so sempre diferentes de quando a gente se casa na juventude. Cada um de ns trariapara esse casamento o nosso mundo individual j existente, mundos que continham carreiras,negcios, patrimnio, os filhos dele, os meus royalties, as pedras preciosas que elecolecionava cuidadosamente havia anos, os planos de previdncia que venho pagando desdeque era uma garonete de 20 anos... e todas essas coisas de valor tinham de ser consideradas,pesadas, discutidas.

    Embora talvez parea que redigir um acordo desses no um jeito muito romntico depassar os meses que antecedem o casamento, peo que acreditem em mim quando digo quetivemos momentos muito ternos durante essas conversas, principalmente quando discutamos oque seria melhor para o outro. Dito isso, tambm houve momentos em que o processo ficoutenso e desconfortvel. O tempo em que conseguamos discutir o assunto era limitado; depoisdisso, tnhamos de fazer uma pausa, mudar de assunto ou at passar algumas horas separados. interessante que, alguns anos depois, quando Felipe e eu redigimos juntos os nossostestamentos, tivemos o mesmo problema: um cansao do corao que no parava de nosafastar da mesa. um trabalho cansativo planejar o pior. Em ambos os casos, tanto notestamento quanto no acordo pr-nupcial, perdi a conta de quantas vezes murmuramos a fraseDeus nos livre.

    Mas perseveramos na tarefa e conseguimos redigir o nosso acordo pr-nupcial emtermos que nos deixaram felizes. Mas talvez felizes no seja a palavra mais certa quandoconceituamos uma estratgia de emergncia para escapar de uma histria de amor que aindaest no comeo. Imaginar o fracasso do amor um servio triste, mas o fizemos mesmo assim.E fizemos esse servio porque o casamento no apenas uma histria de amor particular, mastambm um contrato social e econmico muito estrito; se no fosse, no haveria milhares deleis municipais, estaduais e federais regendo nossa unio matrimonial. Fizemos o servio porsaber que melhor estabelecer os nossos prprios termos do que correr o risco de que algumdia, mais adiante, estranhos no sentimentais, num tribunal implacvel, possam determinaresses termos por ns. Mas, principalmente, nos foramos a passar pela parte desagradveldessas conversas financeiras esquisitssimas porque eu e Felipe aprendemos, com o tempo,que o seguinte fato indiscutivelmente verdadeiro: se voc acha que difcil falar de dinheiro quandoest feliz e apaixonado, experimente falar sobre isso depois, quando estiver desconsolado, zangado e o amor tivermorrido.

    Deus nos livre.

    Mas eu estaria me iludindo ao esperar que o nosso amor no morresse?Ousaria sequer sonhar com isso? Durante as nossas viagens, passei um tempo quase

    embaraoso de to grande fazendo listas de tudo o que eu e Felipe tnhamos a nosso favor,colecionando mritos como pedrinhas da sorte, empilhando-os no bolso, passando neles os

  • dedos nervosos numa busca constante de confiana. A minha famlia e os meus amigos j noadoravam Felipe? Esse no era um endosso importante e at mesmo um talism da sorte? Aminha velha amiga mais sbia e presciente, a mesma que me alertara, anos antes, para no mecasar com o meu primeiro marido, no aprovara Felipe plenamente como um bom par paramim? At o meu av de 91 anos, brusco como um martelo, no tinha gostado dele? (VovStanley observou Felipe atentamente durante todo o fim de semana em que se conheceram edeu finalmente o veredito: Gosto de voc, Felipe, sentenciou. Voc parece ser umsobrevivente. E bom que seja, porque essa mocinha j acabou com vrios.)

    Fiquei me apegando a essas avaliaes positivas no porque quisesse me tranquilizarsobre Felipe, mas porque tentava me tranquilizar sobre mim. Exatamente pela razo alegadacom tanta franqueza pelo vov Stanley, o meu discernimento romntico que no mereciamuita confiana. Eu tinha uma histria longa e extravagante de pssimas decises na questodos homens. Assim, me baseei na opinio dos outros para reforar a minha confiana nadeciso que ia tomar agora.

    Tambm me baseei em outros indcios encorajadores. Sabia, pelos dois anos que jtnhamos passado juntos, que eu e Felipe, enquanto casal, ramos o que os psiclogos chamamde avessos a conflitos. Essa expresso um resumo de Ningum Jamais Vai Jogar Pratosem Ningum do Outro Lado da Mesa da Cozinha. Na verdade, Felipe e eu brigamos topouco que isso me deixava preocupada. Todos dizem que os casais tm de brigar para pr parafora as suas mgoas. Mas quase nunca brigamos. Isso queria dizer que reprimamos a raiva e oressentimento verdadeiros, que um dia explodiriam na nossa cara, numa onda ardente de friae violncia? Parecia que no. (Mas claro que isso no aconteceria: esse o truque insidioso darepresso, no ?)

    Mas, quando pesquisei mais o assunto, relaxei um pouco. As novas pesquisas mostramque alguns casais conseguem se esquivar de conflitos graves durante dcadas sem nenhumcontragolpe srio. Esses casais transformam em arte o chamado comportamento mutuamenteacomodatcio: ceder delicada e estudadamente, dobrando-se para um lado e para outro paraevitar a discrdia. Esse sistema, alis, s funciona quando ambos tm personalidadesacomodatcias. No preciso dizer que o casamento no saudvel quando um cnjuge dcile flexvel e o outro, um monstro dominador ou uma megera impenitente. Mas a docilidademtua pode ser uma estratgia de parceria bem-sucedida se for o que ambos querem. Oscasais avessos a conflitos preferem deixar as mgoas se dissolverem em vez de disputar cadadetalhe. Do ponto de vista espiritual, essa ideia me atrai imensamente. Buda ensinou que amaioria dos problemas, se lhe dermos tempo e espao suficientes, acaba se desgastando. Mas,novamente, tive relacionamentos no passado em que os problemas jamais se desgastariam,nem em cinco vidas consecutivas, ento o que eu sabia sobre isso? S o que sei que pareceque Felipe e eu nos damos muito bem. O que no sei dizer por qu.

    Mas, seja como for, a compatibilidade humana mesmo um troo misterioso. E no s acompatibilidade humana! O naturalista William Jordan escreveu um livrinho adorvel chamado

  • Divorce Among the Gulls (O divrcio entre as gaivotas), no qual explicava que, at entre asgaivotas, espcie de pssaro que supostamente se acasala para a vida inteira, existe uma taxade divrcio de 25%. Isso significa que um quarto de todos os casais de gaivota fracassam noprimeiro relacionamento, a ponto de terem de se separar devido a diferenas inconciliveis.Ningum faz ideia de por que esses pssaros especficos no se entendem, mas claro quesimplesmente no se entendem. Bicam-se e competem pela comida. Brigam para saber quem vaiconstruir o ninho. Brigam para saber quem vai guardar os ovos. Provavelmente tambmbrigam sobre a orientao em voo. Em ltima anlise, no conseguem produzir filhotessaudveis. (Por que esses pssaros briguentos se sentiram atrados um pelo outro ou por queno deram ouvidos aos avisos dos amigos um mistrio, mas suponho que sou a ltima a tercondies de julgar.) Seja como for, depois de uma ou duas estaes de briga, esses pobrescasais de gaivotas desistem e vo procurar outros cnjuges. E a vem a surpresa: em geral, osegundo casamento perfeitamente feliz, e a muitas delas se acasalam para a vida inteira.

    Imagine s! Mesmo entre pssaros com o crebro do tamanho da bateria de uma cmerafotogrfica, existem coisas primrias como compatibilidade e incompatibilidade que parecemse basear, como explica Jordan, num fundamento de diferenas psicobiolgicas bsicas queat hoje nenhum cientista conseguiu definir. Os pssaros so ou no so capazes de se tolerardurante muitos anos. simples assim, e complexo assim.

    A situao a mesma entre seres humanos. Alguns deixam o outro maluco; outros, no.Talvez haja um limite para o que se pode fazer a respeito. Emerson escreveu que no temosmuita culpa pelos maus casamentos, e talvez seja sensato afirmar que tambm no temosmuito crdito pelos bons. Afinal de contas, todo romance no comea sempre no mesmo lugar,naquela esquina do afeto com o desejo, onde dois estranhos sempre se encontram para seapaixonar? Ento, como, no comeo de uma histria de amor, algum poderia prever o que osanos vo trazer? Parte disso fica mesmo por conta do acaso. Claro que h um certo trabalhoenvolvido para manter qualquer relacionamento funcionando bem, mas conheo alguns casaisbem legais que dedicaram montes de esforo para salvar o casamento e mesmo assimacabaram se divorciando, enquanto outros casais, nem melhores nem piores que os vizinhosem termos intrnsecos, parecem seguir juntos, alegres e sem problemas durante anos, comofornos autolimpantes.

    Certa vez, li a entrevista de uma juza da vara de divrcios do tribunal de Nova Yorkque disse que, nos dias tristes depois de 11 de Setembro, um nmero surpreendente de casaiscancelou processos que estavam aos seus cuidados. Todos esses casais afirmaram ter ficadoto comovidos com a extenso da tragdia que decidiram ressuscitar o casamento. E fazsentido. Uma calamidade daquele tamanho apequenaria as discusses mesquinhas sobre amquina de lavar louas, despertando o desejo natural e compassivo de enterrar velhasmgoas e talvez at gerar vida nova. Uma nsia nobre, verdade. Mas, seis meses depois,como observou a juza, todos esses casais voltaram ao tribunal, pedindo o divrcio outra vez.Apesar das nsias nobres, quando a gente realmente no tolera morar com algum nem mesmo

  • um ataque terrorista salvar o casamento.Sobre o tema da compatibilidade, muitas vezes tambm me pergunto se os 17 anos que

    me separam de Felipe no seriam uma vantagem para ns. Ele sempre insiste que hoje umparceiro muito melhor para mim do que seria para qualquer pessoa h vinte anos, e no hdvida de que aprecio a sua maturidade (e preciso dela). Ou talvez sejamos apenassupercuidadosos um com o outro porque a diferena de idade um lembrete da mortalidadeinata do nosso relacionamento. Felipe j tem 50 e poucos anos; no o terei para sempre e noquero desperdiar com brigas os anos que tenho com ele.

    Lembro-me de ver o meu av enterrar as cinzas da minha av na fazenda da famlia, h25 anos. Era uma noite fria de inverno, em novembro, no norte do estado de Nova York. Ns,os filhos e netos, fomos todos andando atrs do meu av nas sombras arroxeadas da noite,pelos prados conhecidos, at o ponto arenoso na curva do rio onde ele decidira enterrar osrestos da sua mulher. Levava uma lanterna na mo e uma p no ombro. O cho estava cobertode neve e foi difcil cavar ali, mesmo para um objeto to pequeno quanto aquela urna, mesmopara um homem to robusto quanto o vov Stanley. Mas ele pendurou a lanterna no galho nu deuma rvore e cavou o buraco sem parar at que acabou. E assim. Temos algum poralgum tempo e a essa pessoa se vai.

    E isso acontecer com todos ns, com todos os casais que ficarem juntos com amor;algum dia (se tivermos sorte de passar a vida juntos), um de ns levar a p e a lanterna parao outro. Todos dividimos a nossa casa com o Tempo, que pulsa ao nosso lado, enquantoconstrumos a vida cotidiana, para nos lembrar do nosso destino final. que, para alguns dens, o Tempo pulsa com mais insistncia...

    Por que estou falando nisso bem agora?Porque o amo. Ser que cheguei mesmo at esse ponto do livro sem ainda ter dito isso

    com clareza? Amo esse homem. Amo-o por incontveis razes ridculas. Amo os seus psquadrados, robustos, de hobbit. Amo o jeito como sempre canta La Vie en Rose quando estpreparando o jantar. (Nem preciso dizer que amo que ele faa o jantar.) Amo o modo comofala um ingls quase perfeito, mas, mesmo depois de todos esses anos usando o idioma, aindaconsegue inventar algumas palavras maravilhosas. (Smoothfully, de um jeito cheio desuavidade, uma das minhas favoritas, embora tambm goste de lulu-bell, que a traduoadorvel de Felipe para a palavra lullaby, cano de ninar.) Amo que tambm nunca tenhaconseguido dominar direito algumas expresses idiomticas em ingls. (Dont count your eggswhile theyre still up inside the chickens ass, ou no conte com os ovos ainda no cu da galinha, umexemplo fantstico, embora eu tambm seja f de Nobody sings till the fat lady sings, ningumcanta antes da gorda.) Amo que Felipe nunca consiga, por mais que se esforce, guardardireito o nome das celebridades americanas. (George Cruise e Tom Pitt so dois timosexemplos.)

    Amo-o, e portanto quero proteg-lo, at mesmo de mim, se que isso faz sentido. Noquero pular nenhum dos passos preparatrios do casamento nem deixar sem resolver nada que

  • depois possa nos prejudicar prejudicar Felipe. Com medo de que, mesmo depois de todasessas conversas, pesquisas e brigas jurdicas, eu estivesse deixando de lado alguma questomatrimonial relevante, acabei pondo as mos num recente relatrio da Universidade Rutgersintitulado Alone Together: How Marriage Is Changing in America (Sozinhos e juntos: comoo casamento est mudando nos Estados Unidos) e fiquei meio maluca com ele. Esse grossovolume analisa cuidadosamente o resultado de uma pesquisa de vinte anos sobre o matrimnionos Estados Unidos, o estudo mais extenso j feito, e me enfurnei nele como se fosse overdadeiro I Ching. Busquei alvio nas estatsticas, me afligi com os grficos de resistnciaconjugal, buscando o meu rosto e o de Felipe escondidos no meio das colunas de escalas devarincia comparvel.

    Pelo que consegui entender do relatrio Rutgers (e tenho certeza de que no entenditudo), parece que os pesquisadores descobriram tendncias de propenso ao divrcio combase em certo nmero de fatos demogrficos concretos. Alguns casais simplesmente tm maisprobabilidade de fracassar do que outros, num grau que pode ser previsto. Alguns fatores mesoaram conhecidos. Todos sabemos que filhos de pais divorciados tm maior probabilidadede se divorciar um dia, como se divrcio gerasse divrcio, e os exemplos disso se espalhampelas geraes.

    Mas outras ideias eram menos conhecidas e at tranquilizadoras. Sempre ouvi dizer, porexemplo, que quem j se divorciou uma vez tem maior probabilidade estatstica de tambmfracassar no segundo casamento. Mas no, no necessariamente. encorajador: a pesquisa daRutgers demonstra que muitos segundos casamentos duram a vida inteira. (Assim como oscasos de amor das gaivotas, h quem faa a escolha errada da primeira vez e escolha bemmelhor o segundo parceiro.) O problema surge quando as pessoas levam consigo, de umcasamento para o outro, comportamentos destrutivos no resolvidos, como alcoolismo,compulso por jogos, doena mental, violncia ou promiscuidade. Com uma bagagem dessas,na verdade no importa com quem a pessoa se casa, porque inevitvel que acabe arruinandoo relacionamento com base nessas patologias.

    Depois, h a questo daquela taxa infame de 50% de divrcios nos Estados Unidos.Todos conhecemos essa estatstica clssica, no ? No para de ser citada o tempo todo e,caramba, como soa horrvel. Como o antroplogo Lionel Tiger escreveu incisivamente sobreo tema: espantoso que, nessas circunstncias, o casamento ainda seja legalmente permitido.Se quase metade de alguma coisa termina em desastre, no h dvida de que o governodeveria proibir essa coisa imediatamente. Se metade dos tacos mexicanos servidos emrestaurantes causasse disenteria, se metade dos que aprendem carat quebrasse a mo, seapenas 6% dos que andam em montanhas-russas danificassem o ouvido mdio, o pblicobradaria por aes. Mas o mais ntimo dos desastres [...] acontece vrias e vrias vezes.

    Mas esse nmero de 50% muito mais complicado do que parece quando odecompomos em aspectos demogrficos. A idade do casal na poca do casamento parece ser aconsiderao mais significativa. Quanto mais jovens nos casamos, maior a probabilidade de

  • nos divorciarmos depois. Na verdade, essa probabilidade de se divorciar espantosamentemaior quando nos casamos jovens. Por exemplo, quem se casa na adolescncia ou com 20 epoucos anos tem o dobro ou o triplo da probabilidade de se divorciar do que quem espera atos 30 ou os 40 anos.

    As razes so de uma obviedade to gritante que hesito em enumer-las por medo deinsultar o leitor, mas a vai: quando somos jovens, tendemos a ser mais irresponsveis, menosintrospectivos, mais descuidados e menos estveis economicamente do que quando somosmais velhos. Portanto, no deveramos nos casar muito jovens. por isso que recm-casadosde 18 anos no tm uma taxa de divrcios de 50%; tm algo mais prximo de 75%, o que jogaa curva l em cima para todo mundo. A idade de 25 anos parece ser o ponto mgico da virada.Quem se casa antes dessa idade tem uma tendncia ao divrcio absurdamente maior do quequem espera at os 26 anos ou mais. E a estatstica vai ficando mais tranquilizadora conformeo casal em questo envelhece. Espere at depois dos 50 para se casar e a probabilidade de umdia ir parar no tribunal para obter o divrcio fica praticamente invisvel na estatstica. Acheiisso muitssimo encorajador, dado que, se somarmos a idade de Felipe e a minha e depoisdividirmos por dois, temos uma mdia de 46 anos. Na hora do previsor estatstico de idade,ns somos demais!

    Mas claro que a idade no a nica considerao. De acordo com o estudo daUniversidade Rutgers, outros fatores de resistncia conjugal so:

    1 . Instruo. Em termos estatsticos, quanto mais instrudas as pessoas, melhor ocasamento. Especificamente, quanto mais instruda a mulher, mais feliz o casamento.As mulheres com instruo universitria e carreira que se casam relativamente tardeso as candidatas mais provveis a permanecer casadas. Parece ser uma boa notcia,que nos d claramente alguns pontos a favor.

    2 . Filhos. A estatstica mostra que os casais com filhos pequenos relatam maisdesencanto com o casamento do que os casais com filhos adultos ou sem filhonenhum. As exigncias impostas ao relacionamento pelos recm-nascidos,principalmente, so considerveis, por razes que, tenho certeza, no precisoexplicar a ningum que teve filho h pouco tempo. No sei o que isso significa para ofuturo do mundo em geral, mas para Felipe e eu foi outra boa notcia. Mais velhos,instrudos e sem filhos pequenos, aqui Felipe e eu temos boa probabilidade comocasal, pelo menos de acordo com os tomadores de aposta da Rutgers.

    3. Coabitao. Ah, aqui que a mar comea a virar contra ns. Parece que quem morajunto antes de casar tem um nvel de divrcio um tantinho mais alto do que quemespera casar para morar junto. Os socilogos no entendem direito por qu, masarriscam que talvez a coabitao pr-conjugal indique uma posio em geral maisfrouxa com relao ao compromisso sincero. Seja qual for a razo, um ponto contraFelipe e Liz.

  • 4 . Heterogamia. Esse fator me deprime, mas a vai: quanto menos parecidos osparceiros em termos de raa, idade, religio, etnia, base cultural e carreira, maisprovvel que algum dia se divorciem. Os opostos realmente se atraem, mas nemsempre se aguentam. Os socilogos suspeitam que essa tendncia se reduzir quandoos preconceitos da sociedade se desfizerem com o tempo, mas e agora? Dois pontoscontra Liz e o namorado, empresrio sul-americano muito mais velho que nasceucatlico.

    5 . Integrao social. Quanto mais interligado se mostra o casal na comunidade deamigos e familiares, mais forte ser o casamento. Segundo os especialistas, o fato deque hoje os americanos tm menos probabilidade de conhecer os vizinhos, frequentarclubes sociais e morar perto da famlia tem um grave efeito desestabilizador sobre ocasamento. Trs pontos contra Felipe e Liz, que, na poca em que Liz leu o relatrio,moravam sozinhos num quarto de hotel dilapidado no norte do Laos.

    6 . Religiosidade. Quanto mais religioso o casal, mais provvel que permaneamcasados, embora a f s d uma vantagem bem pequena. Nos Estados Unidos, oscristos renascidos tm um nvel de divrcio que s fica 2% abaixo dos vizinhosmenos dedicados a Deus; ser que porque no Cinturo da Bblia todos se casamjovens demais? Seja como for, no sei direito como fica essa questo da religiocomigo e com o meu futuro marido. Se misturarmos a minha opinio pessoal sobre adivindade com a de Felipe, elas englobam uma filosofia que se poderia chamar devagamente espiritual. (Como explica Felipe: Um de ns espiritual; o outro,apenas vagamente.) O relatrio da Universidade Rutgers no apresenta dadosespecficos sobre a resistncia conjugal nas fileiras dos vagamente espirituais.Vamos contar esse item aqui como empate.

    7 . Justia entre os sexos. Esse dos bons. Os casamentos baseados na nootradicional e restritiva do lugar da mulher no lar tendem a ser menos fortes e menosfelizes do que aqueles em que o homem e a mulher se veem como iguais e nos quais omarido participa das ingratas tarefas domsticas tradicionalmente femininas. Sobreesse assunto, tudo o que posso dizer que, certa vez, ouvi Felipe dizer a uma visitaque sempre acreditou que o lugar da mulher na cozinha... sentada numa cadeiraconfortvel, com os ps para cima, tomando um copo de vinho e olhando o maridofazer o jantar. Posso ganhar uns pontos a mais aqui?

    Eu poderia continuar, mas depois de algum tempo comecei a ficar meio zonza e doidacom todos esses dados. Alm disso, a minha prima Mary, estatstica que trabalha naUniversidade de Stanford, me preveniu de que no deveria dar peso demais a esse tipo deestudo. Parece que no devem ser lidos como borras de ch. Mary me preveniu principalmentede que olhasse com cuidado toda e qualquer pesquisa matrimonial que medisse conceitoscomo felicidade, j que a felicidade no l muito quantificvel em termos cientficos.

  • Alm disso, s porque um estudo estatstico mostra uma ligao entre duas ideias (nvel deinstruo superior e resistncia conjugal, por exemplo), isso no significa que, necessariamente,um leve ao outro. Como a prima Mary nunca deixa de me lembrar, os estudos estatsticostambm provaram, sem sombra de dvida, que nos Estados Unidos a taxa de afogamentos maior nas reas geogrficas onde mais se vende sorvete. bvio que isso no significa quecomprar sorvete faa algum se afogar. mais provvel que a venda de sorvete tenda a sermaior na praia, e as pessoas tendem a se afogar em praias porque l que tende a haver maisgua. Ligar duas noes sem nenhuma relao como sorvete e afogamentos um exemploperfeito de falcia lgica, e os estudos estatsticos costumam ser cheios dessas pistas falsas. Eprovavelmente por isso que no Laos, numa noite em que peguei o relatrio Rutgers e tenteimontar um modelo do casal com a menor probabilidade possvel de divrcio nos EstadosUnidos, acabei com uma dupla frankensteiniana.

    Primeiro, preciso encontrar duas pessoas da mesma raa, idade, religio, origemcultural e nvel intelectual cujos pais nunca tenham se divorciado. Faa essas pessoasesperarem at os 55 anos, mais ou menos, antes que possam se casar sem permitir quemorem juntas antes, claro. Veja se ambas acreditam em Deus com fervor e defendemplenamente os valores familiares, mas proba-os de terem filhos. (Alm disso, o marido deveaceitar com ardor os preceitos do feminismo.) Ponha-os para morar na mesma cidade que oresto da famlia e cuide para que passem muitas horas felizes jogando boliche e cartas com osvizinhos isto , quando no estiverem mundo afora tendo sucesso na carreira maravilhosade cada um por conta do nvel fabuloso da sua instruo superior.

    Quem so essas pessoas?E, afinal de contas, o que que eu pretendia, morrendo de calor num quarto de hotel

    laosiano, escarafunchando estudos estatsticos e tentando armar o casamento americanoperfeito? A minha obsesso estava comeando a me lembrar da cena a que assisti num lindodia de vero em Cape Cod, quando sa para passear com a minha amiga Becky. Vimos umajovem me que levava o filho num passeio de bicicleta. O pobre garoto usava roupasprotetoras da cabea aos ps: capacete, joelheira, protetores de pulso, rodinhas, bandeirolasalaranjadas de alerta e um colete refletor. Alm disso, a me segurava a bicicleta do meninoliteralmente numa guia, ela correndo freneticamente atrs dele, para que o filho nuncaestivesse fora do seu alcance nem por um segundo.

    A minha amiga Becky observou a cena e suspirou. Tenho uma m notcia para essa senhora disse. Um dia o filho dela ser picado

    por um carrapato.A emergncia que acaba nos pegando aquela para a qual no nos preparamos.Em outras palavras, ningum canta antes da gorda.Ainda assim, no podemos pelo menos tentar minimizar o risco? Haver um jeito saudvel

    de fazer isso sem ficar neurtico? Sem saber como andar nessa corda bamba, continuei osmeus preparativos pr-conjugais aos trambolhes, tentando cuidar de tudo, tentando prever

  • todas as possibilidades imaginveis. E a ltima coisa, a mais importante que eu quis fazer, porum impulso feroz de franqueza, foi garantir que Felipe soubesse o que estava arranjando e noque estava se metendo comigo. No queria, de jeito nenhum, fazer a esse homem promessasmirabolantes nem lhe apresentar uma encenao sedutora e idealizada de mim mesma. Aseduo trabalha em tempo integral como criada do desejo: tudo o que faz iludir essa asua verdadeira tarefa e eu no queria que ela preparasse o cenrio dessa relao durante osensaios. Na verdade, fui to inflexvel nisso que certo dia, no Laos, fiz Felipe se sentar bemali na margem do rio Mekong e lhe apresentei uma lista dos piores defeitos do meu carter,para ter certeza de que ele foi muito bem avisado. (Pode chamar de alvar de consentimentopr-conjugal.) E eis o que encontrei como meus defeitos mais deplorveis ou, pelo menos,depois de um esforo imenso para reduzi-los aos cinco piores:

    1. Tenho em elevada estima a minha prpria opinio. Geralmente, acredito que sei como que todo mundo deve levar a vida; e voc, mais do que ningum, ser vtima disso.

    2. Exijo um volume de devoo que deixaria Maria Antonieta envergonhada.3. Na vida, tenho muito mais entusiasmo do que energia de verdade. Na minha

    empolgao, costumo aceitar mais do que consigo dar conta, fsica eemocionalmente, o que me faz desmoronar com demonstraes bastante previsveisde exausto drstica. Voc que ser encarregado de passar a vassoura e catar ospedacinhos toda vez que eu exagerar e depois me desintegrar. Isso ser chatrrimo.J peo desculpas com antecedncia.

    4. s claras, sou orgulhosa; em segredo, crtica e intolerante; e nos conflitos, covarde.s vezes tudo isso coincide e me transformo numa baita mentirosa.

    5. E o meu defeito mais desonroso: embora eu leve muito tempo para chegar a esseponto, assim que decido que algum imperdovel, essa pessoa assim ser pela vidatoda com demasiada frequncia, eliminada para sempre, sem aviso prvio,explicao nem segunda chance.

    No era uma lista atraente. Foi doloroso ler e, com certeza, nunca tinha codificado asminhas falhas para ningum com tanta franqueza. Mas, quando fiz a Felipe esse inventrio dedefeitos de carter lamentveis, ele aceitou a notcia sem inquietude visvel. Na verdade, ssorriu e disse:

    Agora, h alguma coisa que voc queira me dizer a seu respeito que eu ainda nosaiba?

    Voc ainda me ama? perguntei. Ainda confirmou ele. Como?Porque essa a pergunta essencial, no ? Quero dizer, depois que a loucura inicial do

    desejo passou e ficamos um de frente para o outro como idiotas mortais e meio estpidos,

  • como que conseguimos ter capacidade de amar e perdoar o outro e, mais ainda, de formaduradoura?

    Felipe levou um tempo para responder. Ento, disse: Quando eu ia ao Brasil comprar pedras preciosas, costumava comprar um pacote.

    O pacote um conjunto aleatrio de pedras reunido pelo mineiro, pelo atacadista ou por quemquer que esteja enrolando o comprador. Um pacote tpico contm, sei l, talvez umas vinte outrinta guas-marinhas de uma vez. Supostamente, comprado assim, tudo junto, sai mais barato,mas preciso tomar cuidado porque claro que o camarada est querendo nos passar a perna.Est tentando se livrar das pedras ruins misturando-as com algumas que so mesmo boas.Ento, quando comecei no negcio de joias, continuou Felipe, costumava me dar mal,porque me empolgava demais com uma ou duas guas-marinhas perfeitas do pacote e no davamuita ateno ao lixo que vinha misturado. Depois de ser enganado vrias vezes, acabeificando esperto e aprendi: a gente tem de ignorar as pedras perfeitas. Nem olhe duas vezes,porque elas deixam a gente cego. Basta coloc-las de lado e olhar com ateno as pedraspiores. Examine-as por um bom tempo e depois pergunte francamente a voc mesmo: D paratrabalhar com essas? D para ganhar alguma coisa com elas? Seno, a gente acaba gastandoum monte de dinheiro com uma ou duas guas-marinhas maravilhosas enterradas num montode lixo intil.

    Nos relacionamentos, acho que a mesma coisa. Todo mundo se apaixona pelosaspectos mais perfeitos da personalidade do outro. Quem no se apaixonaria? Todo mundoconsegue amar as partes maravilhosas do outro. Mas isso no ser esperto. O truque esperto o seguinte: d para aceitar os defeitos? D para olhar francamente os defeitos do parceiro edizer: Isso, d para contornar. D para ganhar alguma coisa? Porque o que bom estarsempre ali e sempre ser bonito e brilhante, mas o lixo que est por trs pode acabar com agente.

    Est dizendo que voc esperto a ponto de contornar as minhas caractersticashorrveis, srdidas, sem valor nenhum? perguntei.

    O que estou querendo dizer, querida, que j a observo com muita ateno h algumtempo e acredito que d para aceitar o pacote fechado.

    Obrigada disse eu, e estava sendo sincera. Sincera com todos os defeitos do meuser.

    E agora, quer conhecer os meus piores defeitos? perguntou Felipe.Devo admitir que pensei com os meus botes: J conheo os seus piores defeitos, caro senhor.

    Mas, antes que eu pudesse falar, ele enumerou os fatos rpida e diretamente, como s umhomem que se conhece muito bem consegue fazer.

    Sempre fui bom para ganhar dinheiro disse , mas nunca aprendi a guardar. Tomovinho demais. Fui superprotetor com os meus filhos e provavelmente serei superprotetor comvoc. Sou paranoico, a minha brasilidade natural me faz assim, e, sempre que no entender oque est acontecendo, vou supor o pior. J perdi amigos por causa disso e sempre me

  • arrependo, mas assim que eu sou. Posso ser antissocial, temperamental e defensivo. Sou umhomem de rotinas, ou seja, sou um chato. Tenho pouqussima pacincia com idiotas elesorriu e tentou deixar o momento crescer. Tambm no consigo olhar voc sem querersexo.

    Ah, isso eu consigo aguentar respondi. difcil que haja um presente mais generoso que se possa dar a algum do que aceitar a

    pessoa por inteiro, am-la quase apesar dela. Digo isso porque listar to abertamente osnossos defeitos um para o outro no foi um artifcio bonitinho, mas um esforo real pararevelar os pontos obscuros que existem no nosso carter. No so nada engraados, essesdefeitos. Podem ferir. Podem desfazer. A minha carncia narcisista, se deixada por contaprpria, tem o mesmssimo potencial de sabotar uma relao que a temeridade financeira deFelipe ou a sua rapidez de supor o pior em momentos de incerteza. Quando temos um mnimode capacidade de reflexo, nos esforamos muito para manter sob controle esses aspectosmais arriscados da nossa natureza, mas eles no somem. Tambm bom anotar: se Felipe temdefeitos de carter que nem ele consegue mudar, seria tolice minha acreditar que eu poderiamud-los por ele. claro que o inverso tambm se aplica. E algumas coisas que no podemosmudar em ns mesmos so feias de se ver. Assim, ser visto por inteiro por algum e aindaassim ser amado uma ddiva humana que pode ser quase um milagre.

    Com todo respeito a Buda e aos antigos celibatrios cristos, s vezes me pergunto setodos esses ensinamentos sobre o desapego e a importncia espiritual da solido monsticano nos negam algo bastante vital. Talvez toda essa renncia intimidade nos negue aoportunidade de um dia vivenciar aquela ddiva bem p no cho, domstica, mo na massa, doperdo cotidiano, difcil e a longo prazo. Todos os seres humanos tm defeitos, escreveuEleanor Roosevelt. (E ela, na metade de um casamento muito complexo, s vezes infeliz mas,em ltima anlise, pico, sabia do que estava falando.) Todos os seres humanos tmnecessidades, tenses e tentaes. Os homens e mulheres que viveram juntos durante muitosanos passam a conhecer as falhas um do outro; mas tambm passam a conhecer o que dignode respeito e admirao em si e naqueles com quem convivem.

    Talvez criar um espao dentro da conscincia grande o bastante para guardar e aceitar ascontradies de algum, e at as suas idiotices, seja um tipo de ato divino. Talvez atranscendncia no se encontre s nos picos solitrios das montanhas ou nos ambientesmonsticos, mas tambm na mesa da cozinha, na aceitao cotidiana dos defeitos maiscansativos e irritantes do parceiro.

    No estou sugerindo que todos devam aprender a tolerar agresso, negligncia,desrespeito, alcoolismo, infidelidade nem desprezo, e sem dvida no acho que os casais cujocasamento se transformou num tmulo ftido de tristeza devam simplesmente se animar e darum jeito. No sabia mais quantas demos de tinta ainda conseguiria dar no meu corao, medisse em lgrimas uma amiga depois que largou o marido; e quem, em s conscincia, areprovaria por dar fim a tanto sofrimento? H casamentos que simplesmente apodrecem com o

  • tempo, e alguns tm de acabar. Logo, largar um casamento deteriorado no , necessariamente,um fracasso moral, mas s vezes pode ser o oposto da desistncia: pode ser o incio daesperana.

    Portanto, no, quando menciono tolerncia no falo em aprender a aguentar o que nopresta. Falo em aprender a adaptar a vida da maneira mais generosa possvel em torno de umser humano basicamente decente que, s vezes, pode ser um pentelho insuportvel. Quanto aisso, a cozinha conjugal pode se parecer com um templinho azulejado aonde vamosdiariamente praticar o perdo como ns mesmos gostaramos de ser perdoados. mesmo,pode ser mundano. Sem nenhum momento tipo xtase divino de um astro do rock, sem dvida.Mas quem sabe se esses atos minsculos de tolerncia domstica, de um jeito quieto eincomensurvel, tambm no so outro tipo de milagre?

    E mesmo alm dos defeitos, h algumas diferenas simples entre mim e Felipe queambos temos de aceitar. Posso garantir que ele jamais far uma aula de ioga comigo, por maisque eu tente convenc-lo de que ele adoraria. (Ele no adoraria mesmo.) Nunca meditaremosjuntos num retiro espiritual de fim de semana. Nunca conseguirei que coma menos carnevermelha nem que faa comigo, s por diverso, algum tipo de jejum de limpeza que esteja namoda. Jamais farei com que controle o seu mau humor, que s vezes chega a extremoscansativos. Ele nunca vai praticar hobbies comigo, disso tenho certeza. No vamos passear demos dadas pela feira nem passear juntos s para identificar flores selvagens. E, embora gostede ficar sentado o dia inteiro me ouvindo explicar por que adoro Henry James, ele jamais lercomigo as obras completas de Henry James, de modo que esse imenso prazer meu continuar aser um prazer particular.

    Do mesmo modo, h prazeres da vida dele que jamais sero meus. Crescemos emdcadas diferentes e em hemisfrios diferentes; s vezes fico a milhas de distncia das suaspiadas e referncias culturais. (Melhor dizendo, a quilmetros de distncia.) Nunca tivemosfilhos, por isso Felipe no pode ficar horas a fio conversando com a parceira sobre Zo e Ericaquando eram pequenos, como talvez fizesse se o casamento com a me deles tivesse durado 30anos. Ele adora bons vinhos quase a ponto de entrar em arrebatamento religioso, mas meservir vinho bom desperdcio. Adora falar francs; no entendo francs. Ele prefeririapassar a manh inteira toa na cama comigo, mas se eu no estiver acordada e fazendo algoprodutivo ao alvorecer, comeo a me contorcer com um tipo de furiosa loucura ianque. Almdisso, Felipe jamais ter comigo a vida tranquila de que gostaria. Ele solitrio; eu, no.Como os cachorros, preciso da matilha; como os gatos, ele prefere a casa em silncio.Enquanto estiver casado comigo, a casa nunca ficar em silncio.

    E devo acrescentar: essa apenas uma lista parcial.Algumas dessas diferenas so importantes, outras nem tanto, mas todas so inalterveis.

    No fim das contas, parece que o perdo talvez seja o nico antdoto realista que o amor nosoferece para combater as decepes inevitveis da intimidade. Ns, seres humanos, viemos aomundo, como Aristfanes explicou to bem, com a sensao de que fomos serrados ao meio,

  • desesperados para encontrar algum que nos reconhea e nos conserte. (Ou nos complete.) Odesejo o cordo umbilical cortado que est sempre conosco, sempre sangrando, querendo eansiando a unio sem falhas. O perdo a enfermeira que sabe que essas fuses imaculadasso impossveis, mas que talvez possamos viver juntos caso sejamos bem-educados, gentis ecuidadosos para no derramar sangue demais.

    H momentos em que quase consigo ver o espao que me separa de Felipe, e que semprenos separar, apesar do meu anseio vitalcio de me completar pelo amor de algum, apesar detodo o meu esforo, no decorrer dos anos, para encontrar algum que seja perfeito para mim eque, por sua vez, faa com que eu me torne um tipo de ser aperfeioado. Em vez disso, asnossas dessemelhanas e defeitos estaro sempre entre ns, como uma onda sombria. Mas, svezes, pelo canto do olho, percebo um vislumbre da Intimidade em pessoa, balanando bemali naquela mesma onda de diferena na verdade, bem ali de p, entre ns , como (que ocu nos ajude) uma chance de sucesso.

  • CAPTULO CINCO

    Casamento e mulheresHOJE, O PROBLEMA SEM NOME COMO CONCILIAR TRABALHO, AMOR, LAR E FILHOS.

    Betty Friedan, A Segunda Etapa

    D

    Durante a ltima semana que passamos em Luang Prabang, conhecemos um rapaz chamadoKeo.

    Keo era amigo de Khamsy, que administrava o hotel minsculo junto ao rio Mekong ondeFelipe e eu j estvamos hospedados havia algum tempo. Depois que explorei Luang Prabangtodinha a p e de bicicleta, depois que me cansei de espionar os monges, depois que conhecitodas as ruas e todos os templos dessa cidadezinha, finalmente perguntei a Khamsy se noteria algum amigo de carro que falasse ingls e que talvez pudesse nos levar s montanhas forada cidade.

    Assim, Khamsy generosamente nos trouxe Keo, que, por sua vez, nos trouxe o carro dotio e l fomos ns.

    Keo era um rapaz de 21 anos que tinha muitos interesses na vida. Sei que verdadeporque foi uma das primeiras coisas que ele me disse: Sou um rapaz de 21 anos que temmuitos interesses na vida. Keo tambm me explicou que nasceu pauprrimo, o caula dos setefilhos de uma famlia pobre no pas mais pobre do sudeste da sia, mas que sempre foi omelhor aluno na escola devido sua tremenda diligncia mental. S um aluno por ano nomeado Melhor Aluno de Ingls, e este Melhor Aluno de Ingls era sempre Keo, e por issotodos os professores gostavam de fazer perguntas a Keo durante a aula porque Keo sempresabia a resposta certa. Ele tambm me garantiu que sabia tudo sobre comida. No s comidalaociana, mas tambm comida francesa, porque j fora garom num restaurante francs e,portanto, ficaria muito contente de dividir comigo o seu conhecimento sobre o assunto. Almdisso, Keo trabalhara algum tempo com os elefantes de um campo de elefantes para turistas,de modo que sabia muita coisa sobre elefantes.

    Para demonstrar o quanto sabia sobre elefantes, Keo me perguntou, assim que meconheceu:

  • Sabe quantas unhas o elefante tem na pata dianteira?Ao acaso, chutei trs. falso disse Keo. Permitirei que tente de novo.Chutei cinco. Infelizmente ainda falso disse Keo. Por isso lhe direi a resposta. H quatro

    unhas na pata dianteira do elefante. E quantas na pata traseira?Chutei quatro. Infelizmente falso. Permitirei que tente de novo.Chutei trs. Ainda falso. H cinco unhas na pata traseira do elefante. Agora, sabe quantos litros

    dgua cabem na tromba do elefante?Eu no sabia. No conseguia nem imaginar quantos litros dgua cabem na tromba do

    elefante. Mas Keo sabia: oito litros! E temo que tambm soubesse centenas de outras coisassobre elefantes. Portanto, sem dvida alguma, ficar o dia inteiro passeando de carro pelasmontanhas laocianas com Keo era um curso completo sobre biologia paquidrmica! Mas Keoconhecia outros assuntos, tambm. Como explicou com todo o cuidado:

    No so apenas fatos e explicaes sobre elefantes que lhe informarei. Tambm seimuito sobre peixes lutadores.

    Pois Keo era exatamente esse tipo de rapaz de 21 anos. E foi essa a razo pela qual Felipepreferiu no me fazer companhia nos meus passeios fora de Luang Prabang, porque um dosoutros defeitos de Felipe (que ele no mencionou na sua lista) ter um nvel baixssimo detolerncia com rapazes srios de 21 anos que nos perguntam sem parar o que sabemos sobreunhas de elefantes.

    Mas gostei de Keo. Sinto uma afeio inerente pelos Keos da vida. Keo era naturalmentecurioso e entusiasmado e tinha pacincia com a minha curiosidade e com o meu entusiasmo.No importava a pergunta que eu lhe fizesse, por mais arbitrria que fosse, ele sempre sedispunha a tentar responder. s vezes a forma da resposta era ditada pela sua rica noo dehistria do Laos; outras vezes, eram respostas mais reducionistas. Por exemplo, passamoscerta tarde por uma aldeia pauprrima na montanha, cujas casas de cho de terra batida notinham portas e as janelas eram de chapa ondulada cortada de qualquer jeito. Ainda assim,como em tantos lugares que vi na zona rural do Laos, muitas cabanas tinham parablicas caraspresas no telhado. Ponderei em silncio o porqu de algum investir numa parablica antes decomprar, digamos, uma porta. Finalmente, perguntei a Keo:

    Por que para essa gente to importante ter uma parablica?Ele s deu de ombros e respondeu: Porque aqui a televiso pega muito mal.Mas claro que a maioria das minhas perguntas a Keo eram sobre casamento, j que

    esse era o tema do ano. Keo ficava mais do que satisfeito de me explicar como era ocasamento no Laos. Disse que a cerimnia era o evento mais importante na vida de uma

  • pessoa laociana. Em termos de importncia, s o nascimento e a morte chegam perto, e svezes difcil planejar festas para eles. Portanto, o casamento sempre uma ocasioimponente. Keo, como ele mesmo me informou, convidara 700 pessoas para o seu casamentono ano anterior. Esse o padro, disse. Como a maioria dos laocianos, Keo admitiu terprimos demais, amigos demais. E temos de convidar todos eles.

    Todos os 700 convidados foram ao seu casamento? perguntei. Ah, no ele me tranquilizou. Foram mais de mil pessoas!O que acontece num casamento laociano tpico que todos os primos e amigos convidam

    todos os primos e amigos (e os convidados dos convidados s vezes levam convidados), ecomo o anfitrio no pode se recusar a receber ningum, tudo pode fugir ao controle bemdepressa.

    Gostaria que agora eu lhe fornecesse fatos e informaes sobre o presente decasamento tradicional do casamento tradicional laociano? perguntou Keo.

    Gostaria muito, respondi, e Keo explicou. Quando est prestes a se casar, o casallaociano manda convites a todos os convidados. Estes pegam os convites originais (com onome e endereo deles escrito), dobram-nos no formato de um envelopinho e pem dinheirodentro. No dia do casamento, todos esses envelopes vo para uma gigantesca caixa demadeira. Essa doao imensa o dinheiro com que o casal comear a nova vida em comum.Foi por isso que Keo e a noiva convidaram tanta gente para o casamento: para garantir aentrada mxima de dinheiro.

    Mais tarde, quando a festa acaba, os noivos passam a noite acordados contando odinheiro. Enquanto o noivo conta, a noiva anota num caderninho exatamente quanto cadaconvidado deu. Isso no para depois mandar bilhetes detalhados de agradecimento (comosups a minha mente tradicionalmente norte-americana), mas para guardar para sempre umacontabilidade minuciosa. Esse caderninho, que na verdade um livro-caixa, ficar guardadoem lugar seguro e ser consultado muitas vezes nos prximos anos. Assim, dali a cinco anos,quando o primo l de Vientiane se casar, ser possvel conferir no caderninho quanto dinheiroele deu no casamento e ento lhe dar a mesmssima quantia por ocasio do casamento dele. Naverdade, costume lhe dar um tiquinho a mais, como se fossem juros.

    Reajustado pela inflao! como Keo explicou com orgulho.Assim, na verdade, o dinheiro do casamento no um presente: um emprstimo

    minuciosamente registrado e sempre renovado, circulando de uma famlia a outra cada vez queum casal comea uma nova vida. possvel usar o dinheiro do casamento para comear avida, comprar um terreno ou abrir uma pequena empresa e depois, quando a prosperidade seinstala, paga-se o emprstimo lentamente no decorrer dos anos, um casamento por vez.

    Esse um sistema brilhante num pas com tanta misria e caos econmico. Durante anos,o Laos sofreu atrs de uma Cortina de Bambu comunista, a mais restritiva de toda a sia,com uma srie de governos incompetentes impondo uma poltica econmica de terra arrasada,e onde os bancos nacionais murchavam e morriam em mos corruptas e incompetentes. Em

  • resposta, o povo juntou os centavos e transformou as cerimnias de casamento num sistemabancrio que realmente funciona: a nica Caixa Econmica realmente digna de crdito nopas. Todo esse contrato social foi construdo com base no entendimento coletivo de que odinheiro no pertence ao jovem casal; pertence comunidade e tem de ser restitudo comunidade. Com juros. At certo ponto, isso significa que o casamento tambm no pertencetotalmente ao casal; tambm pertence comunidade, que espera receber dividendos dessaunio. De fato, o casamento se torna uma empresa cujas aes pertencem literalmente a todosem volta.

    Os dividendos dessas aes ficaram claros para mim certa tarde em que Keo me levoualm das montanhas de Luang Prabang, at uma aldeola chamada Ban Phanom umacomunidade da plancie distante povoada por uma minoria tnica, os leus, povo que fugiu daChina para o Laos h alguns sculos para se livrar do preconceito e da perseguio e s levouconsigo os bichos-da-seda e os conhecimentos de agricultura. Keo tinha uma amiga dauniversidade que morava na aldeia e que agora trabalhava como tecel, como todas as outrasmulheres leus. Essa moa e a me concordaram em se encontrar comigo para conversar sobreo casamento, e Keo concordara em servir de intrprete.

    A famlia morava numa casa de bambu quadrada e limpa, com piso de cimento. Nohavia janelas, para deixar o sol furioso do lado de fora.

    Dentro da casa, o efeito era como estar numa gigantesca caixa de costura de vime, coisabastante adequada nessa cultura de talentosas tecels. As mulheres me trouxeram um tamboreteminsculo para eu me sentar e um copo dgua. A casa quase no tinha moblia, mas na sala deestar estavam mostra os objetos mais valiosos da famlia, alinhados em fila, por ordem deimportncia: um tear novinho em folha, uma motocicleta novinha em folha e uma televisonovinha em folha.

    A amiga de Keo se chamava Joy e a me, Ting uma mulher rolia e atraente de 40 epoucos anos. Com a filha sentada em silncio, embainhando um tecido de seda, a me falavacom entusiasmo, e por isso fiz todas as perguntas me. Perguntei a Ting quais eram astradies matrimoniais naquela aldeia especfica e ela disse que era tudo muito simples. Seum rapaz gostava de uma moa, e se a moa tambm gostasse dele, os pais se reuniam ecombinavam um plano. Se tudo corresse bem, logo ambas as famlias iam visitar um mongeespecial, que consultaria o calendrio budista para encontrar uma data auspiciosa para ocasamento. Ento os jovens se casavam, e todos na comunidade lhes emprestavam dinheiro. Eesses casamentos duravam para sempre, Ting logo explicou, porque no havia divrcio naaldeia de Ban Phanom.

    J ouvi observaes assim antes, nas minhas viagens. E sempre duvido um pouquinho,porque em lugar nenhum do mundo no existe divrcio. Basta cavucar um pouco e a gentesempre encontra uma histria escondida sobre algum casamento que deu errado. Por todaparte. Pode acreditar. Isso sempre me lembra aquele momento de The House of Mirth (A casa daalegria), de Edith Wharton, em que uma velha dama fofoqueira da sociedade observa: H um

  • divrcio e um caso de apendicite em todas as famlias conhecidas. (E caso de apendicite,alis, era o cdigo que, na Inglaterra bem-educada do incio do sculo XX, significavaaborto provocado e isso tambm acontece em toda parte, s vezes nos crculos maisinesperados.)

    Mas h mesmo sociedades em que o divrcio rarssimo.E assim era no cl de Ting. Quando pressionada, ela admitiu que uma das suas amigas de

    infncia teve de se mudar para a capital porque o marido a abandonou, mas esse era o nicodivrcio de que conseguia se lembrar nos ltimos cinco anos. Seja como for, disse ela,existem sistemas que ajudam a manter as famlias unidas. D para imaginar que, numa aldeiapobre e minscula como aquela, onde as vidas so to interdependentes (em termosfinanceiros, inclusive), preciso dar passos constantes para manter ntegras as famlias. Tingexplicou que, quando surgem problemas num casamento, a comunidade usa uma abordagemcom quatro estgios para encontrar solues. Primeiro, a esposa do casamento problemtico encorajada a manter a paz cedendo o mximo possvel vontade do marido.

    O casamento melhor quando s h um comandante disse ela. mais fcilquando o comandante o marido.

    Concordei educadamente, decidindo que era melhor deixar a conversa fluir o maisdepressa possvel para o Estgio Nmero Dois.

    Mas Ting tambm explicou que, s vezes, nem mesmo a submisso absoluta consegueresolver todos os conflitos domsticos, e a preciso terceirizar o problema. Assim, osegundo nvel de interveno levar os pais do marido e da mulher para ver se conseguemresolver os problemas domsticos. Os pais se renem com o casal e com cada um doscnjuges em separado e todos tentam dar um jeito na situao dentro da famlia.

    Quando a superviso dos pais fracassa, o casal passa para o terceiro estgio deinterveno. Agora tm de comparecer ao conselho de ancios da aldeia as mesmaspessoas que os casaram. Os ancios levaro o problema a uma reunio pblica do conselho.Assim, os fracassos domsticos passam a fazer parte da pauta cvica, como os grafiteiros e asverbas para a educao, e todos precisam se reunir para resolver o caso. Os vizinhos doideias, sugerem solues e at oferecem auxlio, como ficar com os filhos pequenos duranteuma ou duas semanas enquanto o casal tenta resolver o problema sem distraes.

    S no Quarto Estgio, se tudo o mais falhar, admite-se que a situao no tem jeito. Se afamlia no consegue resolver a disputa e a comunidade tambm no (o que raro), ento, e sento, o casal vai para a cidade grande, fora do terreno da aldeia, para pedir o divrciooficial.

    Enquanto escutava Ting explicar tudo isso, pensei novamente no meu primeiro casamentofracassado. Ser que o meu ex-marido e eu poderamos salvar o relacionamento se tivssemosinterrompido mais cedo a queda livre, antes que tudo se envenenasse por completo? E setivssemos convocado um conselho de emergncia de amigos, parentes e vizinhos para nos daruma ajudinha? Talvez uma interveno oportuna pudesse nos endireitar, tirar o p, nos levar

  • de volta um ao outro. Durante seis meses, bem no finalzinho do casamento, frequentamosjuntos sesses de aconselhamento, mas, como j ouvi muitos terapeutas lamentarem sobre ospacientes, procuramos a ajuda externa tarde demais e nos esforamos muito pouco. Visitardurante uma hora por semana o consultrio de algum no foi suficiente para consertar oimpasse descomunal a que j tnhamos chegado em nossa viagem de npcias. Quando levamos mdica o casamento doente, ela pouco pde fazer alm da autpsia. Quem sabe, setivssemos agido antes, ou com mais confiana... Quem sabe, se tivssemos buscado a ajudada famlia e da comunidade...

    Por outro lado, talvez no.Havia muita coisa errada naquele casamento. Acho que no duraramos muito tempo

    juntos, mesmo que tivssemos toda a aldeia de Manhattan trabalhando para o nosso bemcomum. Alm disso, no tnhamos nenhum modelo cultural parecido com essa interveno dafamlia e da comunidade. ramos americanos modernos e independentes que moravam acentenas de quilmetros da famlia. Seria a ideia mais estranha e artificial do mundoconvocarmos parentes e vizinhos para um conselho tribal sobre assuntos que,deliberadamente, mantivemos s entre ns durante anos. Seria a mesma coisa que sacrificaruma galinha harmonia conjugal e torcer para que isso resolvesse alguma coisa.

    Seja como for, h um limite at onde se pode ir com essas ideias. No devemos cair nojogo eterno do e se... nem nos arrepender do fracasso do casamento, embora, sabidamente,seja difcil controlar essas angustiadas contores mentais. Por essa razo, estou convencidade que o padroeiro supremo de todos os divorciados deve ser o antigo tit grego Epimeteu,que foi abenoado ou melhor, amaldioado com o dom da perfeita viso retrospectiva.Era um camarada bem legal, esse tal de Epimeteu, mas ele s via as coisas claras depois deacontecidas, talento no muito til no mundo real. (Alis, o interessante que Epimeteu eracasado, mas com a sua viso retrospectiva perfeita talvez ele desejasse ter escolhido outramoa: a mulher dele era uma megerinha chamada Pandora. Um casal engraado.) Seja comofor, em algum momento da vida temos de parar de nos castigar por causa dos tropeospassados, mesmo que, em retrospecto, sejam tropeos de uma obviedade dolorosa, e seguiradiante. Ou, como Felipe j disse com o seu jeito inimitvel, No vamos perder tempo comos erros do passado, querida. melhor nos concentrarmos nos erros do futuro.

    Nessa linha, passou pela minha cabea naquele dia, no Laos, que talvez aqui Ting e a suacomunidade tivessem razo quanto ao casamento. No essa coisa de o marido ser ocomandante, claro, mas a ideia de que talvez haja momentos em que a comunidade, paramanter a coeso, deva dividir no s dinheiro e recursos, mas tambm a noo deresponsabilidade coletiva. Talvez, para durar, todos os nossos casamentos devessem serinterligados, entretecidos num tear social maior. E por isso que, naquele dia, no Laos, fizuma anotaozinha: No privatize o seu casamento com Felipe a ponto de deix-lo sem oxignio, isolado,solitrio, vulnervel...

    Fiquei tentada a perguntar minha nova amiga Ting se ela j interviera no casamento dealgum vizinho, como um tipo de anci da aldeia. Mas, antes que eu passasse pergunta

  • seguinte, ela me interrompeu para me indagar se eu no conseguiria encontrar nos EstadosUnidos um bom marido para a filha Joy. Algum com instruo universitria. Depois, ela memostrou um dos lindos tecidos de seda da filha: uma tapearia com elefantes douradosdanando num mar de carmim. Ser que algum americano gostaria de se casar com uma moacapaz de fazer coisas como aquela com as prprias mos?

    Alis, durante todo o tempo em que eu e Ting ficamos conversando, Joy esteve alisentada, costurando em silncio, de jeans e camiseta, o cabelo preso num rabo de cavalofrouxo. Ela alternava entre escutar a me educadamente, com ateno, e, em certos momentos, maneira clssica das filhas, revirar os olhos com vergonha das declaraes da me.

    Ser que no h nenhum americano instrudo que quisesse se casar com uma boa moaleu como a minha filha? perguntou Ting outra vez.

    Ela no estava brincando, e a tenso na voz anunciava a crise. Pedi a Keo que sondassegentilmente o problema, e logo Ting se abriu. Ultimamente, a aldeia passava por um grandeproblema. As moas estavam ganhando mais do que os rapazes e comearam a buscar maisinstruo. As mulheres dessa minoria tnica so tecels de talento excepcional e, agora que hturistas ocidentais no Laos, pessoas de fora se interessam em comprar os seus tecidos. Assim,as moas locais conseguem ganhar um bom dinheiro, que costumam economizar desde jovens.Algumas como Joy, a filha de Ting usam o que ganham para pagar a faculdade, alm decomprar bens para a famlia, como motocicletas, televisores e teares novos, enquanto osrapazes ainda so agricultores que mal fazem algum dinheiro.

    Isso no era problema quando ningum ganhava dinheiro, mas com a prosperidade de umdos sexos as moas , tudo se desequilibrou. Ting disse que as moas da aldeia esto seacostumando com a ideia de se sustentarem, e que algumas vm retardando o casamento. Masesse no era o maior problema! O maior problema era que agora, quando os jovens secasavam, os homens logo se acostumavam a gastar o dinheiro das mulheres, ou seja, notrabalhavam mais como antes. Os rapazes, sem mais noo do prprio valor, acabavam numavida de jogo e bebida. As moas, quando observaram essa situao, no gostaram nem umpouco. Portanto, ultimamente muitas moas tinham decidido no se casar, e isso vinhasubvertendo o sistema social da aldeiazinha, criando tenses e complicaes de todos ostipos. Era por isso que Ting temia que a filha nunca se casasse (a menos, talvez, que euconseguisse lhe arranjar um americano igualmente instrudo), e a o que aconteceria com asucesso familiar? O que seria dos rapazes da aldeia, cujas moas os tinham ultrapassado? Oque seria de toda a complexa rede social da aldeia?

    Ting me contou que chamava essa situao de problema do tipo ocidental, ou seja, elalia os jornais, porque esse um problema de tipo plenamente ocidental, que vemos h geraesno Ocidente, desde que o caminho da riqueza ficou ao alcance das mulheres. Quando asmulheres comeam a ganhar o prprio dinheiro, uma das primeiras coisas a mudar emqualquer sociedade a natureza do casamento. Vemos essa tendncia em todos os pases e emtodos os povos. Quanto mais consegue autonomia financeira, mais tarde a mulher se casa,

  • quando se casa.Alguns lamentam isso como se fosse o Colapso da Sociedade e acham que essa

    independncia econmica feminina est destruindo os casamentos felizes. Mas ostradicionalistas que olham com saudade os dias de antigamente, em que as mulheres ficavamem casa e cuidavam da famlia e em que o nmero de divrcios era muito menor do que hoje,no deveriam esquecer que, no decorrer dos sculos, muitas mulheres se mantiveram emcasamentos horrveis porque no podiam se dar ao luxo de ir embora. Ainda hoje, a rendamdia das americanas divorciadas cai 30% quando o casamento acaba, e no passado eramuito pior. Como dizia um velho ditado bastante correto: Toda mulher est a um divrcio dafalncia. Para onde exatamente a mulher iria embora, se tivesse filhos pequenos, nenhumainstruo e nenhum meio de se sustentar? Tendemos a idealizar as culturas em que as pessoasficavam casadas para sempre, mas no devemos supor automaticamente que a durao domatrimnio era sempre sinal de contentamento conjugal.

    Durante a Grande Depresso, por exemplo, o nmero de divrcios despencou nosEstados Unidos. Os analistas sociais da poca gostavam de atribuir esse declnio ideiaromntica de que os tempos difceis uniam mais os casais. Pintavam um quadro alegre defamlias resolutas se juntando para dividir a magra refeio num nico prato empoeirado.Esses mesmos analistas costumavam dizer que muitas famlias perderam o carro paraencontrar a alma. Na verdade, contudo, como qualquer terapeuta familiar saberia dizer, osprofundos problemas financeiros causam tenses monstruosas no casamento. Depois dainfidelidade e da violncia deslavada, nada corri um relacionamento com mais rapidez doque a pobreza, a falncia e as dvidas. E quando os historiadores modernos examinaram commais ateno a queda do nmero de divrcios na Grande Depresso, descobriram que muitoscasais americanos continuaram juntos porque no tinham dinheiro para se separar. J era bemdifcil sustentar um lar e seria pior sustentar dois. Muitas famlias preferiram atravessar aGrande Depresso com um lenol pendurado no meio da sala para separar marido e mulher,imagem que mesmo muito deprimente. Outros casais se separaram, mas nunca tiveramdinheiro para obter o divrcio na justia. O abandono virou epidemia na dcada de 1930.Legies de americanos falidos simplesmente acordaram e foram embora, deixando a mulher eos filhos, e nunca mais foram vistos (de onde voc acha que vinham todos aqueles mendigos eandarilhos?), e pouqussimas mulheres tomaram a iniciativa de citar oficialmente a falta domarido aos recenseadores. Tinham coisa mais importante para se preocupar, como arranjarcomida.

    A pobreza extrema gera tenso extrema; isso no deveria espantar ningum. O nmero dedivrcios nos Estados Unidos mais alto entre os adultos pouco instrudos e em condies deinsegurana financeira. claro que o dinheiro traz os seus problemas, mas traz tambmopes. O dinheiro pode comprar babs e creches, banheiros separados, frias, acabar com asdiscusses sobre contas e tudo isso ajuda a estabilizar o casamento. E quando as mulherespem as mos em dinheiro prprio, e quando se remove a sobrevivncia econmica como

  • motivao para o casamento, tudo muda. Em 2004, as mulheres solteiras formavam o grupodemogrfico que mais crescia nos Estados Unidos. Era muito mais provvel que umaamericana de 30 anos fosse solteira do que na dcada de 1970. Tambm era muito menosprovvel que fosse me antes ou depois. O nmero de famlias americanas sem filhoschegou ao ponto mximo em 2008.

    claro que nem sempre essa mudana vista com bons olhos pela sociedade em geral.Hoje em dia, no Japo, onde encontramos as mulheres mais bem pagas do mundoindustrializado (e tambm, no por coincidncia, a taxa de natalidade mais baixa do mundo),os crticos sociais conservadores chamam as moas que se recusam a se casar e ter filhos desolteiras parasitas, insinuando que a mulher solteira sem filhos se aproveita de todos osbenefcios da cidadania (como a prosperidade) sem oferecer nada em troca (os bebs). Atem sociedades to repressoras quanto a do Ir contemporneo, cada vez mais moas preferemretardar o casamento e a criao dos filhos para se concentrar nos estudos e na carreira.Assim como a noite segue o dia, os analistas conservadores j esto condenando a tendncia,e uma autoridade do governo iraniano descreveu essas mulheres deliberadamente solteirascomo mais perigosas do que as bombas e msseis do inimigo.

    Assim, como me na regio rural do Laos em desenvolvimento, minha nova amiga Tingnutria pela filha um conjunto complicado de sentimentos. Por um lado, se orgulhava dainstruo de Joy e do seu talento de tecel, com o qual ela pagara o tear novinho em folha, otelevisor novinho em folha e a motocicleta novinha em folha. Por outro lado, Ting noconseguia compreender o admirvel mundo novo de aprendizado, dinheiro e independncia dafilha. E, quando olhava o futuro de Joy, s via uma mistura confusa de novas perguntas. Essamoa instruda, letrada, com independncia financeira e assustadoramente contempornea notinha precedentes na tradicional sociedade leu. O que fazer com ela? Como encontrariaparidade com os agricultores vizinhos sem instruo? Claro que possvel estacionar umamotocicleta na sala e espetar uma parablica no telhado da cabana, mas qual o lugar de umamoa dessas?

    Pois vou lhe contar o interesse que Joy demonstrou pelo debate: ela se levantou e saiu decasa no meio da minha conversa com a me, e no a vi mais. No consegui obter uma nicapalavra da moa sobre o tema do casamento. Embora eu tenha certeza de que ela alimentaideias bem seguras sobre o tema, no h dvida de que no tinha a mnima vontade de discuti-las comigo e com a me. Em vez disso, Joy saiu para aproveitar melhor o seu tempo. Quasedeu para sentir que ela iria delicatessen da esquina comprar cigarros e depois, talvez, fosseassistir a um filme com os amigos. S que nessa aldeia no havia delicatessen, cigarros nemfilmes, s galinhas cacarejando numa estrada de terra.

    Ento aonde iria aquela moa?Ah, mas a que est todo o problema, no ?

  • Alis, j mencionei que a mulher de Keo estava grvida? Na verdade, o beb deveria nascerna mesma semana em que conheci Keo e o contratei como meu guia e intrprete. Soube dagravidez da esposa quando Keo mencionou que ficara muito contente com a renda extra, porconta da chegada iminente do beb. Ele estava orgulhosssimo de ter um filho e, na nossaltima noite em Luang Prabang, convidou Felipe e eu para jantarmos na casa dele, para nosmostrar a sua vida e nos apresentar jovem e grvida Noi.

    Ns nos conhecemos na escola disse Keo sobre a esposa. Sempre gostei dela.Ela um pouco mais nova do que eu, s tem 19 anos agora. muito bonita. Embora sejaesquisito agora que vai ter o beb. Ela era to mida que quase no pesava quilo nenhum!Agora parece que pesa todos os quilos de uma vez s!

    Assim, fomos casa de Keo, levados at l pelo seu amigo Khamsy, o dono do hotel,levando presentes. Felipe comprou vrias garrafas de Beerlao, a cerveja local, e eu, algumasroupinhas neutras de beb que achei no mercado e que queria dar mulher de Keo.

    A casa de Keo ficava no fim de uma estrada de terra cheia de lombadas, perto de LuangPrabang. Era a ltima casa de uma rua de casas parecidas antes que a selva tomasse conta, eocupava um terreno retangular de seis por nove metros. Metade da propriedade estava cobertade tanques de concreto que Keo enchera com as rs e os peixes lutadores que cria paracomplementar a renda de professor primrio e guia turstico ocasional. Ele vende as rs comoalimento. Como explicou com orgulho, o quilo chega a 25 mil kip dois dlares e meio e,em mdia, h trs a quatro rs em cada quilo, porque essas rs so bem corpulentas. Assim, uma boa fonte de renda secundria. No meio-tempo, tambm h os peixes lutadores, vendidosa 5 mil kip cada cinquenta centavos de dlar , que se multiplicam rapidamente. Elevende os peixes a moradores locais que apostam nas batalhas aquticas. Keo explicou quecomeou a criar peixes lutadores quando criana, j pensando num meio de ganhar umdinheirinho extra para no ser um fardo para os pais. Embora no goste de se gabar, foi difcilno revelar que talvez fosse o melhor criador de peixes lutadores de Luang Prabang.

    A casa de Keo ocupava o resto da propriedade, o pedao que no estava coberto detanques de rs e peixes, ou seja, a casa propriamente dita tinha uns vinte metros quadrados. Aestrutura era feita de bambu e compensado, com telhado de chapa ondulada. O nico cmodooriginal da casa fora recentemente dividido para criar uma sala de estar e um quarto. A parededivisria no passava de uma separao de compensado que Keo revestira cuidadosamentecom pginas de jornais em ingls, como o Bangkok Post e o Herald Tribune. (Mais tarde, Felipe medisse que desconfiava que Keo se deita ali noite e l cada palavra do papel de parede,sempre se esforando para melhorar o seu ingls.) Havia uma nica lmpada, pendurada nasala. Havia tambm um minsculo banheirinho de concreto, com uma privada de agachar euma bacia para o banho. Entretanto, na noite da visita a bacia estava cheia de rs, porque ostanques de rs l fora estavam lotados. (Keo explicou que h um benefcio colateral quando secriam centenas de rs: De todos os vizinhos, s ns no temos problema com mosquitos.) A

  • cozinha ficava fora da casa, sob um puxadinho do telhado, com cho bem varrido de terrabatida.

    Algum dia investiremos num piso de verdade para a cozinha disse Keo com atranquilidade do suburbano que prev construir algum dia uma varanda envidraada junto sala de estar. Mas primeiro preciso ganhar mais dinheiro.

    Nessa casa no havia mesa nem cadeiras. Do lado de fora, na cozinha, havia um bancopequeno, e embaixo dele ficava a cadelinha da famlia, que dera cria alguns dias antes. Osfilhotinhos eram mais ou menos do tamanho de um ratinho do deserto. A nica vergonha queKeo demonstrou sentir com a sua vida modesta devia-se ao tamanho minsculo dacachorrinha. Parece que ele achava quase mesquinho apresentar aos honrados hspedes umacadela to mida, como se a pequena estatura do animal no combinasse com a posio deKeo na vida, ou, pelo menos, no combinasse com as aspiraes de Keo.

    Vivemos rindo dela por ser to pequena. Sinto muito que no seja maior desculpou-se. Mas uma tima cadelinha.

    Havia tambm uma galinha, que morava na rea da varanda/cozinha, com um pedao debarbante que a prendia parede, de modo que podia andar, mas no fugir. Tinha uma caixinhade papelo e, nessa caixinha, punha um ovo por dia. Ao nos apresentar a galinha e a caixa,Keo parecia um rico fazendeiro, estendendo o brao com orgulho:

    E esta a nossa galinha!Nesse momento, tive um vislumbre de Felipe com o canto do olho e observei uma srie

    de emoes passar em ondas no seu rosto: ternura, pena, saudade, admirao e uma pequenadose de tristeza. Felipe cresceu na pobreza do sul do Brasil e, como Keo, sempre foi umaalma orgulhosa. Na verdade, Felipe ainda uma alma orgulhosa, a ponto de dizer aos outrosque nasceu falido e no pobre, transmitindo assim a noo de que sempre viu a suapobreza como condio temporria (como se, de algum modo, como indefeso beb de colo, derepente se visse com pouco dinheiro no bolso). E, igual a Keo, Felipe tendia a umempreendedorismo mal-ajambrado que se revelara em tenra idade. Teve a sua primeira grandeideia de negcios aos nove anos, quando notou que os carros sempre atolavam numa poafunda no fim de uma ladeira em Porto Alegre, sua cidade natal. Ele arranjou um amigo paraajudar e os dois ficavam o dia todo no p da ladeira esperando para empurrar para fora dapoa os carros atolados. Os motoristas davam uns trocados aos meninos em troca da ajuda e,com esses poucos trocados, compraram-se muitas revistas em quadrinhos americanas. Comdez anos, Felipe entrou no ramo da sucata, percorrendo a cidade atrs de pedaos de ferro,lato e cobre para revender. Aos 13 anos, vendia ossos de animais (arranjados nos aougues ematadouros locais) a um fabricante de cola, e esse dinheiro ajudou a pagar a primeirapassagem de navio para fora do Brasil. Se ele tivesse ouvido falar de carne de r e peixeslutadores, pode acreditar: ele tambm teria feito isso.

    At essa noite, Felipe no queria saber de Keo. De fato, a natureza impertinente do meuguia o irritava demais. Mas algo mudou em Felipe assim que conheceu a casa de Keo, a

  • parede de jornais, o cho varrido de terra batida, as rs no banheiro, a galinha na caixa e acadelinha humilde. E, quando ele conheceu Noi, mulher de Keo, que era mida mesmo noestado avanado de gestao com todos os seus quilos de uma vez s, e que se esforava tantopara preparar o jantar numa nica boca de gs, vi os seus olhos se encherem de lgrimas deemoo, embora Felipe fosse educado demais para exprimir a Noi algo alm do interesseamistoso pela comida que ela preparava. Ela aceitou timidamente os elogios de Felipe. (Elasabe ingls, disse Keo. Mas fica envergonhada de treinar.)

    Quando conheceu a me de Noi uma senhora minscula, mas ainda assim majestosa,com um sarongue azul surrado e apresentada apenas como Av , o meu futuro maridoseguiu um instinto pessoal profundo e fez uma reverncia diante daquela mulher minscula.Com esse gesto grandioso, a Av deu o mais leve dos sorrisos (s com o canto dos olhos) erespondeu com um aceno de cabea quase imperceptvel, telegrafando com sutileza: Suareverncia nos agradou, senhor.

    Amei tanto Felipe nesse momento que foi quase o mximo que j o amei em qualquerinstante, em qualquer lugar.

    Devo esclarecer aqui que, embora Keo e Noi no tivessem moblia, havia trs objetos deluxo na sua casa. Havia um televisor com aparelho de som e DVD embutidos, uma geladeiraminscula e um ventilador eltrico. Quando entramos na casa, Keo pusera os trs aparelhospara funcionar na potncia mxima para nos receber. O ventilador ventilava; a geladeirazumbia, fazendo gelo para a cerveja; a televiso berrava desenhos animados.

    Keo perguntou: Preferem ouvir msica ou assistir televiso durante o jantar?Respondi que preferamos ouvir msica, obrigada. Preferem rock ocidental perguntou ou msica laociana suave?Agradeci a considerao e respondi que msica laociana suave seria timo.Keo disse: Para mim no problema. Tenho msica laociana perfeita de que vocs gostaro.Ele ps para tocar algumas canes de amor laocianas, mas num volume altssimo, para

    demonstrar melhor a qualidade da aparelhagem de som. Foi por essa mesma razo que Keodirigiu o ventilador bem para a nossa cara. Tinha o conforto desses luxos e queria que osaproveitssemos ao mximo.

    Assim, foi uma noite bem barulhenta, mas no a pior coisa do mundo, porque o barulhoassinalava o ar festivo, e obedecemos devidamente mensagem. Logo, estvamos todostomando Beerlao, contando histrias e rindo. Ou pelo menos Felipe, Keo, Khamsy e euestvamos todos bebendo e rindo; Noi, em sua extrema gravidez, parecia sofrer com o calor eno tomou cerveja, s ficou sentada em silncio no cho duro de terra batida, mudando deposio de vez em quando em busca de conforto.

    Quanto Av, ela tomou cerveja, mas no riu muito conosco. S nos olhava a todos, comum ar tranquilo e contente. Soubemos que a Av plantava arroz e viera do norte, de perto da

  • fronteira chinesa. Era de uma antiga linhagem de plantadores de arroz e tivera dez filhos (Noi,a caula), todos nascidos em casa. Ela s nos contou tudo isso porque lhe pergunteidiretamente qual era a histria da sua vida. Com Keo como intrprete, ela nos contou que ocasamento, aos 16 anos, fora um tanto acidental. Ela se casou com um homem que s estavade passagem pela aldeia. Ele passara a noite na casa da famlia e se apaixonara por ela.Alguns dias depois da chegada do estranho, os dois se casaram. Tentei fazer Av algumasperguntas a mais sobre o que pensava do casamento, mas ela no revelou nada alm dessesfatos: produtora de arroz, casamento acidental, dez filhos. Eu morria de vontade de saber oque significava casamento acidental (muitas mulheres da minha famlia tambm tiveram dese casar por causa de acidentes), mas no recebi mais nenhuma informao.

    Ela no est acostumada com tanto interesse pela sua vida explicou Keo, e deixeio assunto morrer.

    Mas, durante a noite toda, no parei de lanar Av olhares furtivos, e a noite toda acheique ela nos observava de uma enorme distncia. Ela transmitia um desligamento cintilante,marcado por um comportamento to silencioso e reservado que, s vezes, era quase como sedesaparecesse. Muito embora estivesse sentada no cho bem na minha frente, muito embora eupudesse toc-la facilmente a qualquer momento se estendesse a mo, era como se residisse emoutro lugar e nos olhasse de um trono benevolente, situado em algum ponto l na Lua.

    A casa de Keo, embora minscula, era to limpa que se podia comer no cho, e foiexatamente isso que fizemos. Todos nos sentamos numa esteira de bambu e dividimos arefeio, fazendo bolinhos de arroz com as mos. De acordo com o costume laociano, todosbebemos do mesmo copo, passando-o de mo em mo na sala, do mais velho ao mais novo. Eeis o que comemos: sopa de peixe-gato maravilhosamente temperada, salada de mamo verdecom molho de peixe defumado, arroz empapado e, claro, r. As rs eram o prato principal,servido com orgulho por serem do rebanho pessoal de Keo, e tivemos de comer vrias. Eu jcomera rs no passado (bem, pernas de r), mas essas eram diferentes. Eram rs gigantes,imensas, corpulentas, carnudas, picadas em pedaos grandes, como num guisado de frango, ecozidas com pele, ossos e tudo. A pele foi a parte mais difcil da refeio, j que, mesmodepois de cozida, era uma pele de r muito bvia: manchada, borrachenta, anfbia.

    Noi nos observava com ateno. Falou pouco durante a refeio, exceto para noslembrar em certo instante: No comam s arroz, comam a carne tambm, porque a carne preciosa e ramos visitantes importantes. Assim, comemos todas aquelas postas de carne de rborrachenta, junto com a pele e um ou outro pedacinho de osso, mastigando tudo sem queixas.Felipe pediu para repetir, no uma vez s, mas duas, o que fez Noi corar e sorrir para abarriga grvida com prazer incontido. Embora no fundo eu soubesse que Felipe prefeririacomer o prprio sapato refogado a engolir mais um pedao de r gigante cozida, naquelemomento senti por ele, mais uma vez, um amor avassalador pela sua grande bondade.

    D para levar esse homem a qualquer lugar, pensei com orgulho, e ele sempre vai saber se comportar.Depois do jantar, Keo passou alguns vdeos de danas tradicionais dos casamentos

  • laocianos para nos entreter e instruir. Os vdeos mostravam um grupo de mulheres laocianasrgidas e formais danando no palco de uma discoteca, com maquiagem exagerada e saronguesreluzentes. A dana envolvia muita imobilidade, com as mos regirando e um sorrisocimentado no rosto. Todos assistimos a isso durante meia hora de silncio atento.

    So todas danarinas excelentes e profissionais informou Keo finalmente,quebrando o estranho devaneio. O cantor cuja voz vocs podem ouvir na msica de fundo muito famoso no Laos, exatamente como o seu Michael Jackson nos Estados Unidos. E eumesmo j o conheci.

    Havia em Keo uma inocncia quase comovente de se ver. Na verdade, a famlia inteiraparecia a coisa mais pura que eu j encontrara. Apesar da televiso, da geladeira e doventilador, continuavam intocados pela modernidade, ou pelo menos intocados pela malciasofisticada da modernidade. Eis aqui apenas alguns elementos que faltaram na conversa comKeo e a sua famlia: ironia, cinismo, sarcasmo e presuno. Conheo nos Estados Unidoscrianas de 5 anos mais astutas do que essa famlia. Na verdade, todas as crianas de 5 anosque conheo nos Estados Unidos so mais astutas do que essa famlia. Fiquei com vontade deembrulhar a casa inteira num tipo de gaze protetora para defend-la do mundo faanha que,dado o tamanho da casa, no exigiria muita gaze.

    Depois de terminada a exibio de dana, Keo desligou a televiso e levou a conversade volta aos sonhos e planos dele e de Noi para a vida conjugal. Depois que o beb nascesse,era bvio que precisariam de mais dinheiro, e por isso Keo tinha um plano para expandir onegcio de carne de r. Ele explicou que gostaria de inventar uma casa de criao de rs comambiente controlado que imitasse as condies do vero, ideais para a atividade, mas duranteo ano todo. Essa inveno, que supus ser um tipo de estufa, incluiria tecnologias como solfalso e chuva falsa. As condies climticas falsas levariam as rs a no perceber que oinverno chegara. Isso seria benfico, porque o inverno uma poca do ano difcil para oscriadores de rs. Todo inverno, as rs de Keo entravam em hibernao (ou, como ele dizia,meditao) e no comiam, perdendo assim muito peso e transformando em mau negcio avenda de carne de r a quilo. Mas, se Keo conseguisse criar rs o ano todo, e se fosse a nicapessoa de Luang Prabang a fazer isso, a empresa dele cresceria e a famlia inteira iriaprosperar.

    Parece uma ideia brilhante, Keo disse Felipe. Foi ideia de Noi disse Keo, e todos nos viramos de novo para a mulher de Keo,

    para a linda Noi, de apenas 19 anos e com o rosto mido de calor, ajoelhada meio sem jeitono cho de terra, a barriga cheia de beb.

    Voc um gnio, Noi! exclamou Felipe. Ela um gnio! concordou Keo.Noi corou tanto com esse elogio que parecia que ia desmaiar. No conseguia nos olhar

    nos olhos, mas dava para ver que se sentia honrada, mesmo que no conseguisse aceitar ashonras. Dava para ver que sentia muito bem como era considerada pelo marido. Keo, jovem,

  • bonito e inventivo, tinha a mulher em to alta conta que era impossvel no se gabar dela paraos honrados convidados do jantar! Com uma declarao to pblica da sua importncia, atmida Noi pareceu inchar para o dobro do tamanho natural (e ela j estava com o dobro dotamanho natural, com aquele beb prestes a nascer a qualquer momento). Honestamente,naquele instante sublime, a jovem futura mame pareceu to extasiada, to inchada, que fiqueicom medo que sasse flutuando e se encontrasse com a me dela l na superfcie da Lua.

    Naquela noite, quando voltamos ao hotel, tudo isso me fez pensar na minha av e no seucasamento.

    Minha vov Maude, que fez 96 anos h pouco tempo, vem de uma longa linhagem cujonvel de conforto na vida foi bem mais prximo do de Keo e Noi do que do meu. A famlia davov Maude era de imigrantes do norte da Inglaterra que chegaram ao centro do estadoamericano de Minnesota em carroas cobertas e que passaram aqueles primeiros invernosimpensveis em casas grosseiras feitas de torres de turfa. Simplesmente se matando detrabalhar, adquiriram terras, construram casinhas de madeira, depois casas maiores e, aospoucos, aumentaram o rebanho e prosperaram.

    Minha av nasceu em janeiro de 1913, em casa, no meio do inverno frio das pradarias.Chegou ao mundo com um defeito capaz de pr a vida em risco: um caso grave de lbioleporino que a deixava com um buraco no cu da boca e o lbio superior incompleto. Eraquase abril quando os trilhos da ferrovia degelaram o suficiente para que o pai de Maudelevasse o beb at Rochester, para a primeira cirurgia rudimentar. At aquela poca, no seicomo a me e o pai da minha av conseguiram mant-la viva, apesar de ela no conseguirmamar. At hoje a minha av ainda no sabe como os pais a alimentaram, mas acha que deveter sido com um pedao de tubo de borracha que o pai tirou da ordenhadeira. A minha av medisse recentemente que hoje gostaria de ter pedido me mais informaes sobre essesprimeiros meses difceis da sua vida, mas naquela famlia ningum gostava de falar delembranas tristes nem encorajava conversas dolorosas, e por isso o assunto nunca foiabordado.

    Embora minha av no seja de se queixar, a sua vida foi difcil sob todos os pontos devista. claro que a vida de todo mundo em volta dela tambm era difcil, mas Maude tinha adesvantagem extra do problema de sade que a deixou para sempre com dificuldade de falar ecom uma cicatriz visvel no meio do rosto. No surpreende que fosse terrivelmente tmida. Portodas essas razes, todos achavam que ela jamais se casaria. Essa suposio nunca precisouser dita em voz alta; simplesmente, todo mundo sabia.

    Mas, s vezes, at o destino mais infeliz pode trazer benefcios especficos. No caso daminha av, o benefcio foi o seguinte: ela foi o nico membro da famlia a receber uma boaeducao. Maude pde se dedicar aos estudos porque precisava mesmo se instruir, para um diase sustentar como mulher solteira. Assim, enquanto todos os meninos saram da escola por

  • volta da oitava srie para trabalhar no campo e as meninas raramente iam at o fim dosecundrio (era comum j estarem casadas e com filhos antes de terminar os estudos), Maudefoi morar na cidade com outra famlia e se tornou uma aluna dedicada. Destacou-se na escola.Tinha gosto especial pela histria e pelo ingls e sonhava em algum dia se tornar professora;trabalhava como faxineira e economizava para pagar a faculdade. Ento veio a GrandeDepresso, e o custo da faculdade ficou alto demais. Mas Maude continuou trabalhando, e odinheiro que ganhava a transformou numa das criaturas mais raras que se podia imaginar nocentro de Minnesota: uma moa autnoma que se sustentava sozinha.

    Aqueles anos da vida da minha av logo depois do curso secundrio sempre mefascinaram porque o caminho dela foi muito diferente do caminho de todos os que a cercavam.Ela teve experincia no mundo real em vez de partir diretamente para o negcio de constituirfamlia. A me de Maude raramente saa da fazenda da famlia, a no ser para ir cidade umavez por ms (e nunca no inverno) para comprar produtos bsicos, como farinha, acar epano. Mas, depois de terminar o secundrio, Maude foi para Montana sozinha e trabalhou numrestaurante, servindo caf e torta aos vaqueiros. Isso foi em 1931. Ela fez coisas exticas eincomuns que nenhuma mulher da famlia jamais imaginara fazer. Cortou o cabelo e fez umpermanente da moda (por dois dlares inteiros!) num cabeleireiro de verdade, numa estaoferroviria de verdade. Comprou um vestido amarelo justo, chique, sedutor, numa loja deverdade. Foi ao cinema. Leu livros. Pegou uma carona para voltar de Montana a Minnesota nacarroceria do caminho de uns imigrantes russos, com um filho bonito mais ou menos da idadedela.

    Depois de voltar da aventura em Montana, ela arranjou emprego de secretria e faxineirana casa de uma velha rica chamada sra. Parker, que bebia, fumava, ria e gozava a vidaimensamente. Minha av me informa que a sra. Parker no tinha medo nem de falar palavroe dava festas em casa, to extravagantes (os melhores bifes, a melhor manteiga e muita bebidae cigarro) que nem se percebia que havia uma Depresso rugindo l fora. Alm disso, a sra.Parker era generosa e liberal e costumava dar suas boas roupas para minha av, que tinhametade do tamanho dela e, infelizmente, nem sempre podia se aproveitar dessa generosidade.

    Minha av trabalhou muito e economizou. Aqui, tenho de enfatizar: ela tinha suas prpriaseconomias. Acredito que d para passar em revista vrios sculos de ancestrais de Maude semjamais encontrar uma mulher que conseguisse guardar um dinheiro s seu. Ela chegou a juntarum dinheiro extra para pagar uma operao que tornaria menos visvel a cicatriz do lbioleporino. Mas, para mim, o maior smbolo da independncia da sua juventude o seguinte: umcasaco cor de vinho maravilhoso, com gola de pele verdadeira, que ela comprou por vintedlares no incio da dcada de 1930. Foi uma extravagncia sem precedentes para uma mulherdaquela famlia. A me da minha av ficou sem fala com a ideia de desperdiar aquela quantiaastronmica num... casaco. Mais uma vez, acredito que d para examinar com pinas agenealogia da minha famlia sem jamais encontrar uma mulher antes de Maude que tivessecomprado para si mesma uma coisa to fina e cara.

  • Hoje, quando falamos dessa compra com a minha av, os olhos dela ainda esvoaam deprazer absoluto. Aquele casaco cor de vinho com gola de pele verdadeira foi a coisa maislinda que Maude possuiu na vida seria at a coisa mais linda que viria a possuir na vida e ela ainda se lembra da sensualidade da pele encostada ao rosto e ao queixo.

    Naquele mesmo ano, talvez usando aquele mesmo casaco encantador, Maude conheceuum jovem fazendeiro chamado Carl Olson, cujo irmo cortejava sua irm, e Carl, o meu av,se apaixonou por ela. Ele no era um homem romntico nem potico, muito menos rico. (Apequena conta de poupana dela era bem maior do que o patrimnio dele.) Mas era um homemlindssimo e trabalhador. Todos os irmos Olson eram famosos por serem bonitos etrabalhadores. A minha av ficou caidinha por ele. E logo, para surpresa de todos, MaudeEdna Morcomb se casou.

    Agora, a concluso que sempre tirei dessa histria no passado ao refletir sobre ela eraque o casamento marcou o fim da autonomia de Maude Edna Morcomb. Depois disso, a vidadela foi de trabalho duro e dificuldades constantes at, talvez, 1975. No que ela no estivesseacostumada a trabalhar, mas a situao ficou muito ruim muito depressa. Ela se mudou da belacasa da sra. Parker (chega de bife, chega de festas, chega de gua corrente) para a fazenda dafamlia do meu av. Os parentes de Carl eram imigrantes suecos e severos, e o jovem casalteve de morar numa casa pequena com o pai e o irmo mais novo do meu av. Maude era anica mulher da fazenda e cozinhava e lavava para os trs homens, e muitas vezes alimentavatambm os pees da fazenda. Quando a luz chegou finalmente cidade com o programa deeletrificao rural do governo Roosevelt, o sogro s comprava as lmpadas mais fracas, queraramente eram acesas.

    Maude criou os primeiros cinco ou sete filhos naquela casa. Minha me nasceu naquelacasa. Os trs primeiros filhos foram criados num nico quarto, com uma nica lmpada, assimcomo sero criados os filhos de Keo e Noi. (O sogro e o cunhado tinham um quarto para cadaum.) Quando Lee, o filho mais velho de Maude e Carl, nasceu, pagaram o mdico com umvitelo. No havia dinheiro. Nunca havia dinheiro. A poupana de Maude, o dinheiro que elatinha juntado para a cirurgia de reconstruo, fora absorvido havia muito tempo pela fazenda.Quando nasceu a filha mais velha, minha tia Marie, minha av cortou o seu querido casaco corde vinho com gola de pele verdadeira e usou o tecido para fazer uma roupinha de Natal para abebezinha nova.

    E sempre foi assim, na minha cabea, a metfora operacional do que o casamento fazcom o meu pessoal. Com meu pessoal, quero dizer as mulheres da minha famlia,especificamente as mulheres do lado materno o meu legado, a minha herana. Afinal, o quea minha av fez com o seu lindo casaco (a coisa mais adorvel que ela j possuiu) foi o quetodas as mulheres daquela gerao (e das anteriores) fizeram pela famlia, pelos maridos epelos filhos. Cortaram as melhores partes de si, aquelas de que mais se orgulhavam, edistriburam. Repartiram o que era delas, ajustando tudo aos outros. Abriram mo. Eram asltimas a comer na hora do jantar, as primeiras a acordar de manh, a esquentar a cozinha fria

  • para passar mais um dia cuidando de todo mundo. Era a nica coisa que sabiam fazer. Eis overbo que as conduzia, o princpio que as definia na vida: dar.

    A histria do casaco cor de vinho com gola de pele verdadeira sempre me fez chorar. Ese eu dissesse que essa histria no configurou para sempre os meus sentimentos para com ocasamento e que no forjou dentro de mim uma magoazinha silenciosa com o que a instituiomatrimonial pode tirar de mulheres boas, estaria mentindo.

    Mas tambm estaria mentindo ou pelo menos ocultando informaes importantes se no revelasse o final inesperado da histria: alguns meses antes de Felipe e eu sermoscondenados a casar pelo Departamento de Segurana Interna, fui a Minnesota visitar a minhaav. Sentei-me com ela enquanto ela trabalhava no quadrado de uma colcha de retalhos e elame contou histrias. Ento lhe fiz uma pergunta que nunca fizera antes:

    Qual foi a poca mais feliz da sua vida?No fundo, acreditava j saber a resposta. Seria o incio da dcada de 1930, quando

    morava com a sra. Parker, usava um vestido amarelo justo, o cabelo penteado no cabeleireiroe um casaco cor de vinho bem cortado. A resposta tinha de ser essa, no ? Mas esse oproblema das avs. Apesar de tudo o que do aos outros, elas ainda insistem em guardaropinies prprias sobre a vida. Porque, na verdade, a vov Maude disse o seguinte:

    A poca mais feliz da minha vida foram aqueles primeiros anos de casada com o seuav, quando morvamos juntos na fazenda da famlia Olson.

    Lembrem-se bem: eles no tinham nada. Maude era praticamente a escrava domstica detrs homens crescidos (agricultores suecos grosseiros, ainda por cima, que viviam irritadosuns com os outros) e foi obrigada a amontoar os filhos e as fraldas sujas num nico quarto frioe mal iluminado. Ficou cada vez mais doente e fraca a cada gravidez. A Depresso rugia dolado de fora. O sogro se recusava a instalar gua corrente na casa. Etc. etc.

    Vov disse eu, segurando as mos artrticas dela , como essa pode ter sido apoca mais feliz da sua vida?

    Mas foi disse ela. Eu vivia feliz porque tinha a minha prpria famlia. Tinha ummarido. Tinha filhos. Nunca ousei sonhar que um dia eu poderia ter essas coisas na vida.

    Por mais que essas palavras me surpreendessem, acreditei. Mas s porque acreditei noquero dizer que tenha entendido. Na verdade, s comecei a entender a resposta da minha avsobre a maior felicidade da sua vida naquela noite, meses depois, em que jantei no Laos comKeo e Noi. Sentada ali no cho de terra, vendo Noi mudar de posio com desconforto emtorno da barriga grvida, comecei naturalmente a formular suposies de todos os tipos sobrea vida dela tambm. Tive pena de Noi pelas dificuldades que enfrentava por ter se casado tonova e fiquei preocupada porque ela teria de criar o beb numa casa j tomada por umrebanho de rs gigantes. Mas, quando Keo se gabou da inteligncia da jovem esposa (comtodas aquelas grandes ideias sobre estufas!) e quando vi a alegria passar pelo rosto da moa(uma moa to tmida que mal nos olhou nos olhos durante a noite inteira), encontrei derepente a minha av. De repente conheci a minha av refletida em Noi, de um jeito que nunca a

  • conhecera.Soube como a minha av deve ter sido quando jovem esposa e me: orgulhosa,

    imprescindvel, apreciada. Por que Maude foi to feliz em 1936? Pela mesma razo pela qualNoi era feliz em 2006: porque sabia ser indispensvel na vida de algum. Era feliz porquetinha um parceiro, porque estavam construindo algo juntos, porque acreditava profundamenteno que estavam construindo, porque se espantava de estar includa nessa empreitada.

    No vou insultar a minha av nem Noi e insinuar que, na verdade, elas deveriam visar aalgo mais elevado na vida (algo mais prximo, talvez, das minhas aspiraes e dos meusideais). Tambm me recuso a dizer que o desejo de estar no centro da vida do marido refletiaou reflete alguma patologia dessas mulheres. Garanto que tanto Noi quanto a minha avsabiam que eram felizes, e me curvo com respeito diante da sua experincia. Parece que o queobtiveram foi exatamente o que sempre desejaram.

    Ento, est resolvido.Estar mesmo?Porque, s para confundir ainda mais a questo, preciso revelar o que a minha av me

    disse no final da nossa conversa naquele dia l em Minnesota. Ela sabia que eu tinha meapaixonado recentemente por esse homem chamado Felipe e soube que a nossa relao estavaficando sria. Maude no uma mulher invasiva (ao contrrio da neta dela), mas estvamosnuma conversa ntima, e talvez tenha sido por isso que ela se sentiu vontade para meperguntar diretamente:

    Quais so os seus planos com esse homem?Eu lhe disse que no tinha certeza, que s queria ficar com ele porque ele era gentil,

    amoroso, me dava apoio e me deixava feliz. Mas voc vai...? e se interrompeu.No terminei a frase por ela. Sabia o que ela queria perguntar, mas, naquele momento da

    minha vida, ainda no tinha a mnima inteno de voltar a me casar, por isso nada disse,esperando que o momento passasse.

    Depois de um certo silncio, ela tentou de novo. Vocs dois esto planejando ter...? Novamente, no lhe dei a resposta. No estava

    tentando ser rude nem evasiva. que eu sabia que no teria filhos e, na verdade, no queriadesapont-la.

    Mas a essa mulher quase centenria me chocou. A minha av ergueu as mos e disse: Ora, melhor eu perguntar de uma vez! Agora que voc conheceu esse homem to

    bacana, no vai se casar e ter filhos e parar de escrever livros, vai?

    E como que eu resolvo isso?O que posso concluir quando a minha av diz que a deciso mais feliz da vida dela foi

    largar tudo pelo marido e pelos filhos, mas depois diz, quase no mesmo flego, que no quer

  • que eu faa a mesma coisa? No sei direito como conciliar, s que acredito que, seja l comofor, as duas afirmativas so verdadeiras e autnticas, embora paream se contradizertotalmente. Acredito que uma mulher que viveu tanto quanto a minha av tem direito a algumascontradies e mistrios. Como a maioria de ns, essa mulher contm multides. Alm disso,na questo da mulher e do casamento difcil tirar concluses levianas, e o caminho apinhado de enigmas em todas as direes.

    Para nos aproximarmos da soluo do problema mulheres e casamento , temos decomear com o fato feio e frio de que o casamento beneficia menos as mulheres do que oshomens. No inventei esse fato e no gosto de afirm-lo, mas uma verdade triste, reforadapor um estudo atrs do outro. Por outro lado, o casamento, como instituio, sempre foiabsurdamente benfico para os homens. Os grficos atuariais afirmam que, quando se homem, a deciso mais inteligente possvel, supondo que se queira uma vida longa, feliz,saudvel e prspera, se casar. Os casados tm na vida um desempenho imensamente melhordo que os solteiros. Os casados vivem mais do que os solteiros; acumulam mais riqueza doque os solteiros; sobem mais na carreira do que os solteiros; tm probabilidade muito menorde sofrer morte violenta do que os solteiros; se consideram muito mais felizes do que ossolteiros; e sofrem menos de alcoolismo, vcio em drogas e depresso do que os solteiros.

    No se poderia inventar sistema mais meticulosamente hostil felicidade humana doque o casamento, escreveu Percy Bysshe Shelley em 1813, mas estava redondamenteenganado, pelo menos com relao felicidade humana masculina. Parece que no h nada,estatisticamente falando, que o homem no ganhe quando se casa.

    desalentador, mas o contrrio no verdade. As casadas modernas no se do melhorna vida do que as solteiras. Nos Estados Unidos, as casadas no vivem mais do que assolteiras; no acumulam tanta riqueza quanto as solteiras (em mdia, recebemos uma reduosalarial de 7% s porque juntamos os trapinhos); no progridem tanto na carreira quanto assolteiras; so bem menos saudveis do que as solteiras; tm probabilidade maior do que assolteiras de ser vtima de depresso; e tm mais probabilidade de sofrer morte violenta do queas solteiras, em geral pelas mos do marido, o que revela a triste realidade de que,estatisticamente falando, a pessoa mais perigosa na vida da mdia das mulheres o seuprprio homem.

    Tudo isso se resume ao Desequilbrio dos Benefcios do Casamento, como dizem ossocilogos perplexos um nome simples para uma concluso sombria e assustadora: emgeral, as mulheres perdem em troca dos votos matrimoniais, enquanto os homens ganhammuito.

    Agora, antes de ns todas nos deitarmos debaixo das cobertas para chorar que o queessa concluso me d vontade de fazer devo garantir a todos que a situao estmelhorando. Conforme os anos passam e mais mulheres se tornam autnomas, o Desequilbriodos Benefcios do Casamento diminui, e h alguns fatores que podem reduzirconsideravelmente essa desigualdade. Quanto mais instruda for a mulher casada, mais

  • dinheiro ganhar, mais tarde se casar, menos filhos tiver e mais o marido ajudar nos afazeresdomsticos, melhor ser a qualidade de vida que ter no casamento. Assim, se existe um bommomento na histria ocidental para a mulher se tornar esposa, o provvel que seja agora. Sepretende dar conselhos sua filha sobre o futuro e quer que algum dia ela seja um adulto feliz,o melhor encoraj-la a terminar a faculdade, retardar o casamento o mximo possvel,ganhar a vida, limitar o nmero de filhos e achar um homem que no se incomode de lavar obanheiro. A a sua filha ter a possibilidade de uma vida quase to saudvel, rica e felizquanto a do futuro marido.

    Quase.Porque, muito embora a diferena tenha diminudo, o Desequilbrio dos Benefcios do

    Casamento persiste. J que assim, devemos parar aqui um instante para avaliar essa perguntadesconcertante: por que, depois de tantas vezes demonstrado que o casamento desproporcionalmente desvantajoso para elas, as mulheres ainda anseiam tanto por ele? Dpara argumentar que talvez as mulheres no tenham lido as estatsticas, mas acho que a questono to simples assim. H outra coisa aqui nisso de mulheres e casamento, algo maisprofundo, mais emocional, que uma mera campanha de utilidade pblica (no se case antesdos 30 anos e antes de ser solvente em termos econmicos!!!) dificilmente mudaria oualteraria.

    Intrigada com esse paradoxo, abordei o problema por e-mail com algumas amigasminhas nos Estados Unidos, que sabia que havia muito queriam arranjar marido. O anseioprofundo delas pelo matrimnio era algo que eu nunca vivera pessoalmente e, portanto, nuncaconseguira entender de verdade, mas agora queria ver pelos olhos delas.

    Como isso?, perguntei.Recebi algumas respostas ponderadas, outras engraadas. Uma delas redigiu uma longa

    meditao sobre o seu desejo de encontrar um homem que pudesse se tornar, como ela dissecom elegncia, a cotestemunha que sempre desejei na vida. Outra amiga afirmou que queriaconstituir famlia com algum mesmo que seja s para ter filhos. Quero finalmente usar essesmeus seios gigantescos para o seu objetivo inicial. Mas hoje as mulheres podem construirparcerias e ter filhos fora do matrimnio, ento por que o anseio especfico pelo casamentooficial?

    Quando fiz a pergunta de novo, outra amiga solteira respondeu: Para mim, querer mecasar como o desejo de me sentir escolhida. Ela continuou escrevendo que, embora oconceito de construir uma vida em comum com outro adulto fosse atraente, o que realmente lhefalava ao corao era o desejo das bodas, de um evento pblico que provar sem dvidaalguma a todo mundo, principalmente a mim, que sou preciosa a ponto de ter sido escolhidapara sempre por algum.

    Agora, possvel dizer que a minha amiga sofreu a lavagem cerebral dos meios decomunicao americanos, que vendem sem parar essa fantasia de perfeio feminina eterna (alinda noiva de vestido branco, com uma aurola de flores e rendas, cercada de solcitas damas

  • de honra), mas no aceito totalmente essa explicao. A minha amiga adulta, s, inteligente,muito lida e ponderada; no consigo acreditar que desenhos animados Disney e novelas de TVa tenham ensinado a desejar o que ela deseja. Acho que ela chegou a esse desejo por contaprpria.

    Tambm acredito que essa mulher no deveria ser julgada nem condenada por querer oque quer. Ela tem um grande corao. Com demasiada frequncia, a sua enorme capacidade deamar no recebeu do mundo retorno nem reciprocidade. Desse modo, ela luta com algumasaspiraes e questes emocionais muito srias e no respondidas sobre o seu prprio valor.Sendo assim, que confirmao melhor desse valor poderia conseguir, seno com a cerimnianuma linda igreja, vista por todos num cortejo, como uma princesa, uma virgem, um anjo, umtesouro mais valioso do que rubis? Quem a condenaria por querer saber, uma vez s, como isso?

    Espero que ela chegue a ter essa experincia com a pessoa certa, claro. Ainda bemque a minha amiga tem suficiente estabilidade mental para no sair correndo e se casar spressas com algum homem superinadequado s para dar vida s suas fantasias matrimoniais.Mas sem dvida h outras mulheres por a que fizeram essa troca: o bem-estar futuro (mais7% do salrio e, no esqueamos, alguns anos de expectativa de vida) por uma tarde decomprovao pblica e irrefutvel do seu valor. E vou dizer de novo: no ridicularizarei esseanseio. Como quem sempre quis ser considerada preciosa e que fez muitas coisas idiotas paracomprovar que assim era considerada, isso eu entendo. Mas tambm entendo que ns, mulheres,especificamente, temos de trabalhar muito para manter as nossas fantasias separadas darealidade da maneira mais clara e limpa possvel, e s vezes so necessrios anos de esforopara chegar a esse ponto de discernimento sbrio.

    Penso na minha amiga Christine, que percebeu, s vsperas do quadragsimoaniversrio, que adiara para sempre a vida real espera da validao do dia do casamentopara se considerar adulta. Como nunca percorreu a igreja de vu e vestido branco, ela tambmnunca se sentira escolhida. Portanto, durante duas dcadas ela apenas cumpriu tarefas trabalhar, fazer exerccios, comer, dormir , mas o tempo todo aguardava em segredo. Mas,quando o quadragsimo aniversrio se aproximou e nenhum homem se apresentou para coro-la como sua princesa, ela percebeu que toda aquela espera era ridcula. No, era mais do queridcula: era uma priso. Ela era refm da ideia que batizou de Tirania da Noiva e decidiuque tinha de quebrar esse encantamento.

    Eis o que ela fez: quando a aurora do quadragsimo aniversrio nasceu, ela foi at onorte do Oceano Pacfico. Era um dia frio e nublado, sem nada de romntico. Ela levava umbarquinho de madeira que construra com as prprias mos. Encheu o barquinho de ptalas derosa e arroz, artefatos de um casamento simblico. Entrou na gua fria at o peito e ps fogono barquinho. E depois o deixou ir, libertando com ele as suas fantasias mais tenazes decasamento num ato de salvao pessoal. Depois disso, Christine me contou que, quando o marlevou para sempre a Tirania da Noiva (ainda em chamas), ela se sentiu transcendente e

  • poderosa, como se tivesse atravessado uma soleira importantssima levando a si mesma nocolo. Finalmente, se casara com a prpria vida, e bem na hora certa.

    Esse um jeito de resolver a questo.Mas, para ser totalmente honesta, esse tipo de ato corajoso e voluntrio de autosseleo

    nunca foi muito adequado para mim dentro da histria da minha famlia. Nunca vi nada como obarquinho de Christine quando criana. Nunca vi uma mulher casar-se ativamente com aprpria vida. Todas as mulheres que mais me influenciaram (me, avs, tias) eram mulherescasadas no sentido mais tradicional, e todas elas, tenho de revelar, abriram mo de boa partede si mesmas nessa troca. Nenhum socilogo precisa me falar de algo chamado Desequilbriode Benefcios do Casamento; vi isso em primeira mo desde a infncia.

    Ademais, no preciso ir muito longe para procurar a explicao da existncia dessedesequilbrio. Pelo menos na minha famlia, a grande falta de paridade entre maridos eesposas sempre foi gerado pelo grau desproporcional de autossacrifcio que as mulheres sedispem a fazer por aqueles que amam. Como escreveu a psicloga Carol Gilligan, pareceque a noo de integridade das mulheres est entrelaada com a tica do cuidar, de modo quese ver como mulher se ver numa relao de conexo. Com frequncia, esse instinto feroz deentrelaamento levou as mulheres da minha famlia a fazer escolhas ruins para elas a abrirmo vrias vezes da prpria sade, do seu tempo ou dos seus interesses em troca do quepercebem como bem maior , talvez para reforar constantemente a sensao imperativa deser especial, de ser escolhida, de conexo.

    Suspeito que isso tambm deve acontecer em vrias outras famlias. Claro que sei que hexcees e anomalias. Eu mesma vi pessoalmente famlias em que os maridos abrem mo demais do que as esposas, ou cuidam mais dos filhos e da casa do que as esposas, ou assumem opapel cuidador feminino mais do que as esposas; mas posso contar essas famlias nos dedosde uma nica mo. (Mo, alis, que agora ergo para saudar esses homens com enormeadmirao e respeito.) Mas a estatstica do ltimo recenseamento dos Estados Unidos conta averdadeira histria: em 2000, havia no pas cerca de 5,3 milhes de mes do lar e somenteuns 140 mil pais do lar. Isso se traduz numa proporo de apenas 2,6% de pais dentre todosos cidados do lar. Quando escrevi isso, essa pesquisa j tinha uma dcada, e vamosesperar que a proporo esteja mudando. Mas no d para mudar to depressa quanto eugostaria. E essa criatura rara, o pai que uma me, nunca foi personagem na histria da minhafamlia.

    No entendo direito por que as mulheres da minha famlia do tanto de si para cuidar dosoutros, nem por que eu mesma herdei dose to grande desse impulso, do impulso de semprecuidar e remendar, de tecer redes complexas para cuidar dos outros, at mesmo em detrimentode mim mesma. Esse tipo de comportamento aprendido? Herdado? Esperado?Biologicamente predeterminado? O senso comum s nos d duas explicaes para essatendncia feminina ao autossacrifcio, e nenhuma delas me satisfaz. Ou nos dizem que asmulheres so geneticamente programadas para cuidar dos outros, ou que as mulheres foram

  • enganadas pelo mundo patriarcal injusto para acreditar que so programadas geneticamente paracuidar dos outros. Essas duas vises opostas significam que sempre glorificamos oupatologizamos o altrusmo feminino. As mulheres que abrem mo de tudo pelos outros soconsideradas paradigmas ou tapadas, santas ou idiotas. No me entusiasmo com nenhuma dasduas explicaes porque no vejo o rosto das mulheres da minha famlia em nenhuma dessasdescries. Eu me recuso a aceitar que a histria das mulheres assim to sem nuances.

    Vejamos a minha me, por exemplo. E pode acreditar: tenho pensado na minha me tododia desde que descobri que me casaria de novo, j que acho que precisamos pelo menos tentarentender o casamento da me antes de embarcar no nosso. Os psiclogos sugerem quedevemos voltar pelo menos trs geraes em busca de pistas sempre que comeamos adesenrolar a herana emocional do nosso histrico familiar. quase como se tivssemos deolhar a histria em trs dimenses, com cada dimenso representando uma gerao que sedesenrola.

    Enquanto a minha av foi a tpica mulher de fazendeiro da poca da Grande Depresso, aminha me pertenceu quela gerao de mulheres que chamo de feministas limtrofes.Mame foi s um pouquinho velha demais para participar do movimento de libertao dasmulheres da dcada de 1970. Foi criada para acreditar que as mulheres deviam se casar e terfilhos pela mesma razo que a bolsa e os sapatos tinham sempre de combinar: porque assimque se faz. Afinal de contas, mame chegou maioridade na dcada de 1950, poca em que odr. Paul Landes, mdico famoso que dava conselhos s famlias, pregava que todos os adultossolteiros dos Estados Unidos deviam se casar, exceto os doentes, os aleijados graves, osdeformados, os emocionalmente incapazes e os deficientes mentais.

    Para tentar me pr de volta naquela poca, para tentar entender com mais clareza asexpectativas de casamento com as quais a minha me foi criada, pedi pela internet um filmeantigo de propaganda matrimonial de 1950 chamado Casamento para Pessoas Modernas. O filme foiproduzido pela McGraw-Hill e se baseava nos estudos e pesquisas de um tal professor HenryA. Bowman, Ph.D., presidente da Diviso de Lares e Famlias do Departamento de EducaoConjugal do Stephens College, no estado do Missouri. Quando dei com essa antiga relquia,pensei: Caramba, l vamos ns!, e me preparei para me divertir com um monte dedisparates surrados e ridculos sobre a santidade do lar e da famlia, estrelado por atores bempenteados de colar de prola e gravata, sorrindo com a alegria dos seus filhos perfeitos eexemplares.

    Mas o filme me surpreendeu. A histria comea com um casal jovem de aparnciacomum, de roupas modestas, sentado num banco de praa, conversando com seriedadetranquila. Por sobre a imagem, um narrador respeitvel fala de como pode ser difcil eassustador para um casal jovem, nos Estados Unidos de hoje, sequer pensar em casamento,de to difcil que anda a vida. As nossas cidades so atormentadas por uma chaga socialchamada favela, explica o narrador, e todos vivemos numa poca de impermanncia, deinquietao e confuso, sob a ameaa constante da guerra. A economia enfrenta problemas, e

  • o aumento do custo de vida rivaliza com a queda dos rendimentos. (Aqui, vemos um rapazpassar tristonho por um cartaz num prdio de escritrios onde se diz no h vagas, no secandidate.) Enquanto isso, de cada quatro casamentos, um termina em divrcio. No admira,portanto, que seja to difcil para os casais se comprometerem com o matrimnio. No acovardia que faz as pessoas pararem para pensar, explica o narrador, mas a purarealidade.

    No consegui acreditar no que estava ouvindo. Pura realidade no era o que esperavaencontrar. Aquela dcada no foi a nossa Idade do Ouro, o nosso doce den conjugal, o tempoem que a famlia, o trabalho e o casamento eram todos ideais simples e santificados? Mas,como indicava o filme, em 1950, pelo menos para alguns casais, as questes do casamentoeram complicadas como sempre.

    O filme destaca, especificamente, a histria de Phyllis e Chad, jovens recm-casadosque tentam viver de acordo com o oramento. Quando conhecemos Phyllis, ela est em p nacozinha, lavando pratos. Mas a voz do narrador nos conta que, poucos anos antes, essa mesmamoa preparava lminas no laboratrio de patologia da universidade, ganhando a vida,vivendo a vida. Ficamos sabendo que Phyllis era ps-graduada, tinha uma carreira e adoravao seu trabalho. (Ser moa solteira no era a desgraa social da poca em que os nossos paisa chamariam de solteirona.) Quando a cmera mostra Phyllis fazendo as compras da casa, onarrador explica: Phyllis no se casou porque precisava. Ela podia se casar ou no. As moasmodernas como Phyllis consideram o casamento um estado voluntrio. A liberdade de escolha um privilgio moderno, uma responsabilidade moderna. O narrador explica que Phyllis sse voluntariou para o casamento porque decidiu que preferia ter famlia e filhos a ter carreira.A deciso foi ela quem tomou, e acha que foi acertada, muito embora o sacrifcio tenha sidogrande.

    No entanto, logo vemos sinais de tenso.Parece que Phyllis e Chad se conheceram na aula de matemtica da universidade, onde

    ela tirava notas melhores. Mas agora ele engenheiro e ela, dona de casa. Phyllis aparecepassando devidamente as camisas do marido tarde, em casa. Mas a a nossa herona sedistrai quando encontra as plantas que o marido est desenhando para a concorrncia de umgrande prdio. Ela pega a rgua de clculo e comea a conferir os nmeros, porque sabe que o que ele gostaria que fizesse. (Ambos sabem que, na matemtica, ela melhor do que ele.)Ela perde a noo do tempo e fica to envolvida nos clculos que no termina de passar aroupa; de repente, se lembra de que est atrasada para a hora marcada no mdico, paraconversar sobre a (primeira) gravidez. Phyllis se esqueceu totalmente do beb dentro dela deto cativada que ficou com os clculos matemticos.

    Cus, pensei, que tipo de dona de casa de 1950 essa a?Uma dona de casa tpica, diz o narrador, como se escutasse a minha pergunta. Uma

    dona de casa moderna.A histria continua. Naquela noite, Phyllis, a grvida que um gnio na matemtica, e o

  • lindo marido Chad esto sentados no apartamento minsculo, fumando. (Ah, o fresco sabor danicotina das gestaes de 1950!) Juntos, trabalham nas plantas de engenharia de Chad para onovo prdio. O telefone toca. um amigo de Chad; quer ir ao cinema. Com os olhos, Chadpede a aprovao de Phyllis. Mas ela contra. O prazo da concorrncia vence na semana quevem e preciso terminar as plantas. Os dois tm trabalhado tanto! Mas Chad quer mesmoassistir ao filme. Phyllis argumenta: todo o futuro deles depende daquele trabalho! Chadparece desapontado, de um jeito quase infantil. Mas acaba cedendo, meio emburrado, e deixaque Phyllis literalmente o empurre de volta prancheta.

    O narrador onisciente, ao analisar a cena, aprova. Explica que Phyllis no uma chata.Ela tem todo o direito de exigir que Chad fique em casa e termine o projeto que pode melhorarmuito a situao deles no mundo.

    Ela abriu mo da carreira por ele, diz o nosso sonoro narrador, e quer verresultados. Senti uma estranha combinao de vergonha e emoo ao assistir ao filme. Fiqueienvergonhada por nunca ter imaginado que os casais americanos da dcada de 1950 tivessemconversas assim. Por que engoli sem questionar a imagem cultural nostlgica e convencionalde que aquela poca fora mais simples? Que poca jamais foi simples para quem a viveu?Alm disso, fiquei comovida porque os cineastas, a seu modo discreto, defendiam Phyllis,tentando passar uma mensagem importantssima aos jovens noivos americanos: Sua noivalinda e inteligente abriu mo de tudo por voc, seu gostoso; por isso, bom fazer jus aosacrifcio dela trabalhando duro e lhe dando uma vida de prosperidade e segurana.

    Alm disso, fiquei comovida porque essa reao inesperadamente solidria com osacrifcio da mulher veio de algum to claramente masculino e abalizado quanto o dr. HenryA. Bowman, ph.D., presidente da Diviso de Lares e Famlias do Departamento de EducaoConjugal do Stephens College, no estado do Missouri.

    Dito isso, no pude evitar de me perguntar o que aconteceria com Phyllis e Chad unsvinte anos depois, quando os filhos tivessem crescido e a prosperidade fosse atingida, ePhyllis no tivesse vida nenhuma fora do lar, e Chad comeasse a se perguntar por que abriramo de tantos prazeres pessoais durante todos aqueles anos para ser um bom e fiel arrimo defamlia, s para ser recompensado agora com uma esposa frustrada, filhos adolescentesrebeldes, um corpo flcido e uma carreira chata. Pois no foram exatamente essas as perguntasque explodiram em todas as famlias americanas no final da dcada de 1970, tirando dostrilhos tantos casamentos? O dr. Bowman ou qualquer um em 1950, alis conseguiriaprever a tempestade cultural que estava por vir?

    Ah, boa sorte, Chad e Phyllis!Boa sorte, todo mundo!Boa sorte, papai e mame!Porque, embora a minha me tivesse se definido como noiva da dcada de 1950 (apesar

    de ter se casado em 1966, as suas ideias sobre o casamento vinham de Mamie Eisenhower), ahistria ditou que ela se transformasse numa esposa da dcada de 1970. S estava casada

  • havia cinco anos, e as filhas mal tinham largado as fraldas, quando a grande onda deturbulncia feminista atingiu com fora os Estados Unidos e abalou todos as ideias que tinhamlhe ensinado sobre casamento e sacrifcio.

    Veja bem, o feminismo no chegou da noite para o dia, como s vezes parece. Noaconteceu de as mulheres do mundo ocidental acordarem certo dia durante o governo Nixon edecidirem que no aguentavam mais e que iriam para as ruas. As ideias feministas circulavamna Europa e na Amrica do Norte dcadas antes de a minha me nascer, mas, ironicamente, foinecessria a prosperidade econmica sem precedentes da dcada de 1950 para deflagrar olevante que definiu a dcada de 1970. Quando a necessidade bsica de sobrevivncia dafamlia foi atendida em escala to ampla, as mulheres finalmente puderam dar ateno atpicos mais especficos como injustia social e at os seus desejos emocionais. Alm disso,de repente existia uma classe mdia imensa nos Estados Unidos (minha me foi um dosmembros mais novos, nascida pobre, formada como enfermeira e casada com um engenheiroqumico); dentro dessa classe mdia, as inovaes que poupavam mo de obra, comomquinas de lavar, geladeiras, comida industrializada, roupas fabricadas em srie e guaquente nas torneiras (confortos com que a minha av Maude, na dcada de 1930, s poderiasonhar), deram pela primeira vez na histria tempo livre s mulheres ou, pelo menos, algumtempo livre.

    Alm disso, devido aos meios de comunicao de massa, as mulheres no precisavammais morar na cidade grande para ouvir ideias novas e revolucionrias; os jornais, a televisoe o rdio levaram conceitos sociais inovadores l para a cozinha no meio da roa. Assim, umapopulao imensa de mulheres comuns passou a ter tempo (alm de sade, intercomunicao ealfabetizao) para fazer perguntas como Espere a: o que que quero da vida? O que queropara as minhas filhas? Por que ainda sirvo a refeio desse homem toda noite? E se eu tambmquiser trabalhar fora? Posso continuar estudando, mesmo que o meu marido no tenhaestudado? Por que no posso ter conta no banco, alis? E preciso mesmo continuar tendotantos filhos?.

    Essa ltima pergunta foi a mais importante e transformadora. Embora nos EstadosUnidos houvesse formas limitadas de controle da natalidade desde a dcada de 1920 (pelomenos para mulheres no catlicas com dinheiro), s na segunda metade do sculo XX, com ainveno e a ampla disponibilidade da plula anticoncepcional, que toda a conversa socialsobre casamento e criao de filhos pde finalmente mudar. Como escreveu a historiadoraStephanie Coontz, antes que as mulheres tivessem acesso contracepo segura e eficaz quelhes permitisse controlar quando ter filhos e quantos ter, havia um limite reorganizao davida e do casamento.

    Enquanto minha av teve sete filhos, minha me s teve duas. uma diferena enormenuma nica gerao. Mame tambm tinha aspirador de p e gua encanada, de modo que,para ela, tudo era um pouco mais fcil. Isso criou, na vida da minha me, uma lasquinha detempo para que comeasse a pensar em outras coisas e, na dcada de 1970, havia muito em

  • que pensar. Minha me nunca se identificou como feminista; isso eu quero deixar claro. Aindaassim, no ficou surda s vozes dessa nova revoluo feminista. Como filha do meio de umafamlia grande e muito observadora, ela sempre foi boa ouvinte; e pode acreditar, ela escutavacom muita ateno tudo o que se dizia sobre direitos da mulher, e boa parte daquilo faziasentido. Pela primeira vez, discutiam-se abertamente ideias que ela ponderara em silnciodurante muito tempo.

    A principal delas era a questo relativa ao corpo e sade sexual da mulher, e ahipocrisia a ela ligada. L na sua pequena comunidade rural de Minnesota, ela cresceraassistindo a um drama bem desagradvel que se desenrolava ano aps ano, de casa em casa,quando, inevitavelmente, uma mocinha se via grvida e tinha de casar. Na verdade, eraassim que a maioria dos casamentos acontecia. Mas toda vez que acontecia toda vez, semexceo , o caso era tratado como um escndalo absurdo para a famlia e uma crise dehumilhao pblica para a moa em questo. Toda vez, sem exceo, a comunidade secomportava como se esse fato chocante nunca tivesse acontecido, muito menos cinco vezespor ano, em famlias de todas as condies sociais possveis.

    Mas, ainda assim, o rapaz em questo, o fecundador, era poupado da desgraa. Em geral,era considerado inocente, ou s vezes vtima de seduo ou de armadilhas. Quando se casavacom a moa, ela era considerada sortuda. Era quase um ato de caridade. Quando no secasava, a moa era mandada para longe enquanto a gravidez durasse, mas o rapaz continuavana escola ou na fazenda, levando a vida como se nada tivesse acontecido. Era como se, nacabea da comunidade, o rapaz sequer estivesse presente no quarto quando aconteceu o atosexual original. O seu papel na concepo era imaculado, de um jeito estranho e quasebblico.

    Minha me observou esse drama durante os anos da sua formao e, em tenra idade,chegou a uma concluso bastante sofisticada: quando, numa sociedade, a moralidade sexualfeminina significa tudo e a moralidade sexual masculina no significa nada, essa sociedade muito deformada e atica. Ela nunca ligou essas palavras especficas a esses sentimentos, mas,no incio da dcada de 1970, quando as mulheres comearam a falar, ela finalmente ouviuessas ideias pronunciadas. Em meio a todas as outras questes da pauta feminista oportunidade de emprego igual, acesso igual educao, direitos iguais perante a lei, maisparidade entre maridos e mulheres o que realmente falou ao corao dela foi essa nicaquesto da justia sexual na sociedade.

    Incentivada por suas convices, arranjou emprego na Planned Parenthood, umainstituio de planejamento familiar, em Torrington, no estado de Connecticut. Ela foitrabalhar nisso quando eu e minha irm ainda ramos bem pequenas. O fato de ser enfermeiralhe garantiu o emprego, mas foi o talento administrativo inato que a transformou em parte tovital da equipe. Em pouco tempo coordenava todo o escritrio da Planned Parenthood, quecomeara numa sala de estar residencial e logo se transformou numa clnica propriamente dita.Foram dias inebriantes. Naquela poca ainda era quase pecaminoso discutir abertamente a

  • contracepo ou, pior ainda, o aborto. Os preservativos ainda eram ilegais em Connecticutquando fui concebida, e um bispo local declarara recentemente, na assembleia legislativalocal, que, se removessem as restries aos contraceptivos, em 25 anos o Estado setransformaria numa massa de runas fumegantes.

    Minha me adorava o emprego. Estava na linha de frente de uma verdadeira revoluoda sade pblica, quebrando todas as regras ao falar abertamente sobre a sexualidade humana,tentando abrir uma clnica da Planned Parenthood em todos os condados do estado, permitindos moas escolher o que queriam fazer com o seu corpo, derrubando mitos e boatos sobregravidez e doenas venreas, combatendo leis pudicas e, principalmente, oferecendo a mescansadas (e pais cansados, alis) opes que nunca estiveram disponveis. Era como se, como trabalho, ela encontrasse um modo de retribuir a todas aquelas primas, tias, amigas evizinhas que tinham sofrido no passado pela falta de opes. Ela trabalhou muito a vida toda,mas esse emprego, essa carreira, se tornou uma expresso do seu ser, e ela adorava cadaminuto.

    Mas, em 1976, ela pediu demisso.A deciso foi tomada na semana em que teria de comparecer a uma importante

    conferncia em Hartford e eu e minha irm pegamos catapora juntas. Na poca, estvamoscom 7 e 10 anos, e claro que no podamos ir escola. Ela pediu ao meu pai que faltassedois dias ao trabalho e ficasse em casa conosco para que pudesse ir conferncia. Ele noconcordou.

    Veja bem, aqui no quero criticar o meu pai. Adoro esse homem com todo o corao, edevo dizer o seguinte em sua defesa: ele se arrependeu e pediu desculpas. Mas, assim como a minhame foi uma noiva da dcada de 1950, o meu pai era um noivo da dcada de 1950. Nuncapedira nem esperara uma mulher que trabalhasse fora. No pediu que o movimento feministachegasse na poca dele e no tinha muito interesse pela questo da sade sexual da mulher.No se empolgara muito com o emprego da minha me, para sermos claros. O que ela viacomo carreira, ele considerava um passatempo. No fazia objees a esse passatempo, desdeque no interferisse de jeito nenhum na sua vida. Ela podia ter o seu emprego, desde que aindacuidasse de tudo em casa. E tambm havia muito a cuidar em casa, porque, alm de constituirfamlia, os meus pais tambm tinham um stio. No entanto, at o incidente da catapora minhame conseguira cuidar de tudo. Trabalhava em horrio integral, cuidava da horta, limpava acasa, preparava as refeies, criava as filhas, ordenhava as cabras e ainda estava disposiodo meu pai quando ele chegava em casa todo fim de tarde, s 17h30. Mas quando a cataporasurgiu e o meu pai no quis abrir mo de dois dias da vida dele para cuidar das filhas, derepente foi demais.

    Naquela semana, minha me optou. Largou o emprego e decidiu ficar em casa comigo ecom minha irm. No que nunca mais pudesse voltar a trabalhar fora (sempre teve algumemprego em meio expediente enquanto crescamos), mas uma carreira? Essa j era. Como meexplicou depois, ela sentiu que teria de escolher: famlia ou vocao; mas no conseguiu

  • descobrir como ter as duas sem apoio e encorajamento do marido. Por isso, demitiu-se.No preciso dizer que foi um dos pontos baixos do casamento. Nas mos de outra

    mulher, esse incidente poderia ter sido o fim da relao. Sem dvida, muitas outras mulheresdo crculo da minha me se divorciaram por volta de 1976, e por razes parecidas. Mas aminha me no de tomar decises apressadas. Ela estudou em silncio e com ateno asmes que trabalhavam e estavam se divorciando e tentou avaliar se a vida delas era melhor.Para ser honesta, nem sempre ela viu muita melhora. Essas mulheres estavam cansadas echeias de conflito quando casadas e agora, depois do divrcio, ainda pareciam cansadas echeias de conflito. Ela achou que talvez s tivessem substitudo os problemas antigos poroutros novos, inclusive novos namorados e maridos que, talvez, no fossem to melhoresassim. Mas, alm de tudo, no fundo a minha me era (e ) uma pessoa conservadora.Acreditava na santidade do matrimnio. Mais ainda, por acaso ela amava o meu pai, muitoembora se zangasse com ele e muito embora ele a desapontasse profundamente.

    Assim, tomou a deciso, manteve os votos e eis como explicou: Escolhi a minhafamlia.

    Estarei deixando bvia demais a questo se disser que muitas, muitas mulheres tambmenfrentaram esse tipo de escolha? Por alguma razo, June, mulher do cantor Johnny Cash, mevem mente: Eu poderia ter gravado mais discos, disse ela mais tarde, mas queria mecasar. H infinitas histrias assim. Chamo-as de Sndrome do Cemitrio da NovaInglaterra. Basta visitar qualquer cemitrio da Nova Inglaterra que tenha dois ou trs sculosde histria para encontrar aglomeraes de lpides familiares, muitas vezes arrumadas emfila, um beb atrs do outro, um inverno atrs do outro, s vezes por anos a fio. Os bebsmorriam. Morriam aos montes. E as mes faziam o que tinham de fazer: enterravam o filhomorto, choravam e iam em frente para sobreviver mais um inverno.

    claro que as mulheres modernas no tm de aguentar perdas to amargas, pelo menosno como rotina, pelo menos no literalmente, ou pelo menos no anualmente, como tantasancestrais nossas. Isso uma bno. Mas no se deixe enganar: nem por isso a vida moderna fcil, nem por isso deixa de causar s mulheres perdas e tristezas. Acredito que muitasmulheres modernas, inclusive a minha me, levam consigo todo um cemitrio secreto da NovaInglaterra, no qual enterraram em silncio, em filas bem arrumadinhas, os sonhos pessoais queabandonaram pela famlia. Por exemplo, as canes nunca gravadas de June Carter Cashdescansam nesse cemitrio silencioso, ao lado da carreira modesta mas muito valiosa daminha me.

    E assim, essas mulheres se adaptam nova realidade. Choram a seu modo, muitas vezesinvisvel, e vo em frente. Seja como for, as mulheres da minha famlia so boas para engolirdecepes e ir em frente. Sempre me pareceu que tm um certo talento para mudar de forma,que lhes permite se dissolver e depois fluir em torno da necessidade dos parceiros, dos filhosou da mera realidade cotidiana. Elas se ajustam, se adaptam, deslizam, aceitam. Sopoderosas na sua maleabilidade, quase a ponto de terem um poder sobre-humano. Cresci

  • observando uma me que, a cada novo dia, se transformava no que aquele dia lhe impunha.Criava guelras quando precisava de guelras, criava asas quando as guelras ficavam obsoletas,exibia velocidade furiosa quando se exigia velocidade e pacincia pica em outrascircunstncias mais sutis.

    O meu pai no tinha nada dessa elasticidade. Era homem, era engenheiro, fixo e firme.Era sempre o mesmo. Era papai. Era a pedra no meio do rio. Todas nos movamos em tornodele, a minha me mais do que todas. Ela era o mercrio, a mar. Devido a essa supremacapacidade de adaptao, criou o melhor mundo possvel para ns dentro de casa. Tomou adeciso de largar o emprego e ficar em casa porque acreditava que essa opo seria a maisbenfica para a famlia, e devo dizer que nos beneficiou. Quando mame largou o emprego,toda a nossa vida (exceto a dela, quero dizer) ficou muito mais legal. Meu pai voltou a ter umaesposa em tempo integral, e eu e Catherine, uma me em tempo integral. Para ser honesta, eu eminha irm no tnhamos gostado da poca em que mame trabalhou na Planned Parenthood.Naquela poca, no havia boas opes de creche na nossa cidade, e costumvamos ficar nacasa de vrios vizinhos depois da escola. Alm do acesso bem-vindo televiso dos vizinhos(no tnhamos o luxo estupendo de um televisor em casa), eu e Catherine sempre detestamosesses arranjos improvisados. Francamente, ficamos felicssimas quando mame abriu mo dossonhos e voltou para casa, para tomar conta de ns.

    Mas, mais do que tudo, acho que eu e minha irm recebemos um benefcio incalculvelcom a deciso de mame de continuar casada com papai. O divrcio horrvel para os filhose pode deixar cicatrizes psicolgicas duradouras. Disso fomos poupadas. Tivemos em casauma me atenta que nos recebia porta todos os dias depois da escola, que supervisionava anossa vida cotidiana e que servia o jantar quando papai voltava do trabalho. Ao contrrio detantos amigos meus em lares rompidos, nunca tive de conhecer a namorada nojenta do meu pai;os natais eram sempre passados no mesmo lugar; a sensao de constncia em casa permitiaque eu me concentrasse no dever de casa e no nos sofrimentos da famlia... e assim,prosperei.

    Mas aqui quero dizer, para deixar registrado para sempre por escrito, no mnimo parahomenagear a minha me, que uma parte enorme das vantagens que tive quando criana sebaseou nas cinzas do sacrifcio pessoal dela. O fato que, embora a nossa famlia como umtodo tivesse lucrado imensamente com o abandono da carreira da minha me, a vida delacomo indivduo no se beneficiou tanto assim, necessariamente. No final, ela s fez o que assuas antecessoras sempre fizeram: costurou os casacos de inverno dos filhos com o materialque restara dos desejos mais secretos do seu corao.

    E, alis, essa a minha objeo aos conservadores sociais que vivem batendo na teclade que o lar mais propcio para uma criana aquele que tem os dois pais, com a me nacozinha. Se eu, como beneficiria exata dessa frmula, admito que a minha vida realmente seenriqueceu com essa mesma estrutura familiar, os conservadores sociais fariam o favor (umavezinha s!) de admitir que esse esquema sempre imps um fardo incmodo e desproporcional

  • s mulheres? Um sistema desses exige que as mes se tornem altrustas a ponto de ficar quaseinvisveis para construir esses ambientes exemplares para a famlia. E esses mesmosconservadores sociais, em vez de s elogiar as mes como nobres e sagradas, sedisporiam, algum dia, a travar uma conversa mais ampla sobre como deveramos trabalharjuntos, como sociedade, para construir um mundo em que seja possvel criar filhos saudveise no qual famlias saudveis possam prosperar sem que as mulheres tenham de se esfolar at ofundo da alma para isso?

    Desculpem o discurso. que para mim essa uma questo importantssima.

    Talvez seja exatamente por ter visto o custo da maternidade na vida de mulheres que amo eadmiro que estou aqui, com quase 40 anos, sem o mnimo desejo de ter um beb s meu.

    claro que essa uma questo bem importante a ser discutida s vsperas docasamento, e por isso devo abord-la aqui, no mnimo porque a criao de filhos e ocasamento esto ligados de forma muito inerente na nossa cultura e no nosso pensamento.Todos conhecemos o refro, no ?: primeiro o amor, depois o casamento, depois o beb nocarrinho. At a palavra matrimnio nos veio da palavra latina que significa me. Nochamamos o casamento de patrimnio. O matrimnio traz consigo o pressuposto intrnsecoda maternidade, como se fossem os prprios bebs que fizessem o casamento. Na verdade,muitas vezes so os prprios bebs que fazem o casamento: no s, no decorrer da histria,muitos casais foram obrigados a se casar devido a uma gravidez no planejada como, svezes, os casais esperaram at que houvesse uma gravidez bem-sucedida para selar o contratodo matrimnio, de modo a garantir que, mais tarde, a fertilidade no fosse problema. Comosaber se o candidato a noivo ou noiva era um bom reprodutor sem antes dar uma testada nomotor? Como descobriu a historiadora Nancy Cott, isso era muito comum na antiga sociedadecolonial americana, quando muitas comunidades consideravam a gravidez como sinalsocialmente aceito e sem estigmas de que chegara a hora de o jovem casal juntar os trapinhos.

    Mas, com a modernidade e o controle da natalidade mais disponvel, toda a questo daprocriao ficou mais complicada e cheia de nuances. Agora a equao no mais bebsgeram matrimnio, nem mesmo, necessariamente, matrimnio gera bebs; em vez disso,hoje tudo se resume a trs questes fundamentais: quando, como e se. Se, por acaso, voc e oseu parceiro discordarem em qualquer uma delas, a vida de casado pode ficarcomplicadssima, porque comum que a nossa posio a respeito dessas trs questes sejainegocivel.

    Sei disso por experincia prpria e dolorosa, porque o meu primeiro casamentodesmoronou, em grande parte, devido questo dos filhos. O meu ento marido sempre supsque um dia teramos filhos. Ele tinha todo o direito de fazer essa suposio, j que eu tambmsupunha o mesmo, embora no tivesse muita certeza de quando eu iria querer bebs. No dia docasamento a possibilidade de um dia engravidar e ser me parecia confortavelmente distante;

  • era um fato que aconteceria no futuro, na hora certa e quando ns dois estivermosprontos. Mas s vezes o futuro nos chega mais depressa do que esperamos, e o momentocerto nem sempre se anuncia com clareza. O problema que existia dentro do meu casamentologo me fez duvidar de que eu e esse homem algum dia estaramos realmente prontos paraenfrentar um desafio to grande quanto criar filhos.

    Alm disso, embora a vaga ideia da maternidade sempre me parecesse natural, arealidade, quando se aproximou, s me encheu de medo e tristeza. Quando fiquei mais velha,descobri que, dentro de mim, nada pedia um beb. Parece que o meu tero no veio equipadocom aquele famoso relgio biolgico. Ao contrrio de tantas amigas minhas, no ardia devontade quando via um nenenzinho. (Embora, verdade, eu ardesse de vontade sempre quevia um bom sebo.) Toda dia de manh, fazia em mim uma espcie de tomografia, por assimdizer, procura do desejo de engravidar, mas nunca o encontrei. No havia nenhumimperativo por ali, e acredito que ter filhos deve ser como um imperativo, que deve sermotivado por uma sensao de anseio e at mesmo de destino, por ser um feito de imensaimportncia. J vi esse anseio em outras pessoas; sei como . Mas nunca o senti em mim.

    Alm disso, conforme envelhecia, descobri que adorava cada vez mais o meu trabalhode escritora e no queria abrir mo dessa comunho nem por uma hora. Como Jinny em AsOndas, de Virginia Woolf, s vezes sinto mil capacidades brotarem em mim; quero ir atrs detodas e fazer cada uma delas se manifestar. Dcadas atrs, a romancista Katherine Mansfieldescreveu num dos seus dirios da juventude: Quero trabalhar! e a nfase, a paixodaquele anseio sublinhada com fora, ainda atravessa as dcadas e causa uma ruga no meucorao.

    Eu tambm queria trabalhar. Sem parar. Com alegria.Mas como administrar isso com um beb? Num pnico cada vez maior diante dessa

    questo e sabendo muito bem da impacincia crescente do meu ento marido, passei dois anosfrenticos entrevistando todas as mulheres que encontrava casadas, solteiras, sem filhos,artsticas, arqutipos maternais para lhes perguntar o que tinham escolhido e asconsequncias dessa escolha. Esperava que as respostas esclarecessem todas as minhasdvidas, mas as respostas abrangiam uma gama to ampla de experincias que no final sfiquei ainda mais confusa.

    Por exemplo, conheci uma mulher (uma artista que trabalhava em casa) que disse:Tambm tive as minhas dvidas, mas assim que o meu beb nasceu tudo o mais na minhavida sumiu. Agora, nada mais importante para mim do que o meu filho.

    Mas outra mulher (que eu definiria como uma das melhores mes que j conheci e cujosfilhos adultos so maravilhosos e bem-sucedidos) admitiu em particular e de forma atchocante: Quando me lembro do passado, no fico muito convencida de que a minha vidatenha melhorado com a opo de ter filhos. Abri mo totalmente de muita coisa e mearrependi. No que eu no adore os meus filhos, mas, honestamente, s vezes gostaria de terde volta todos aqueles anos perdidos.

  • Por outro lado, uma empresria elegante e carismtica da costa oeste me disse: A nicacoisa de que ningum me avisou quando comecei a ter filhos foi o seguinte: prepare-se para osanos mais felizes da sua vida. Nunca vi que se aproximavam. A alegria foi como umaavalanche.

    Mas tambm conversei com uma me solteira exausta (uma romancista talentosa) quedisse: Criar filhos a mais pura definio de ambivalncia. s vezes fico estupefata ao verque, ao mesmo tempo, pode ser to horrvel e to compensador.

    Uma amiga minha, muito criativa, disse: , a gente perde muita liberdade. Mas, comome, a gente tambm ganha um novo tipo de liberdade, a liberdade de amarincondicionalmente outro ser humano, de todo o corao. Essa tambm uma liberdade quevale a pena.

    Outra amiga ainda, que largou a carreira de editora para ficar em casa com os trs filhos,me alertou: Pense muito bem sobre essa deciso, Liz. J bastante difcil ser me quando isso que a gente realmente quer. No chegue nem perto de ter filhos antes de ter certezaabsoluta.

    Mas outra mulher que conseguiu manter a carreira prspera e vibrante mesmo com trsfilhos e que s vezes leva as crianas com ela nas viagens de negcios ao exterior disse: Vfundo. No to difcil assim. S preciso resistir a todas as foras que dizem o que nopodemos mais fazer agora que somos mes.

    Mas tambm fiquei profundamente comovida quando conheci uma renomada fotgrafa, jcom mais de 60 anos, que me fez o seguinte comentrio simples sobre o tpico dos filhos:Nunca tive, querida. E nunca senti falta.

    D para perceber o padro?Eu no vi nenhum. porque no havia padro. Havia apenas um monte de mulheres inteligentes tentando

    entender a situao a seu modo, tentando navegar de acordo com o instinto. Era bvio que seeu devia ou no ser me era uma questo que nenhuma dessas mulheres poderia resolver pormim. Eu precisaria escolher por conta prpria. E, em termos pessoais, o que estava em jogoera imenso. Na prtica, declarar que no queria ter filhos seria o fim do casamento. Haviaoutras razes pelas quais sa do casamento (havia aspectos do nosso relacionamento que,francamente, eram absurdos), mas a questo dos filhos foi o golpe final. Afinal de contas,nesse caso no h posio intermediria.

    Assim, ele se enraiveceu; eu chorei; nos divorciamos.Mas esse seria outro livro.Com todo esse histrico, no deve ter surpreendido ningum que, depois de alguns anos

    sozinha, eu conhecesse Felipe e me apaixonasse por ele: um homem mais velho, com doisfilhos lindos e adultos e sem um nico pingo de interesse em repetir a experincia dapaternidade. Tambm no foi por acaso que Felipe se apaixonou por mim, uma mulher semfilhos, nos ltimos anos de fertilidade, que adorava os filhos dele mas no tinha um nico

  • pingo de interesse em se tornar me.Esse alvio, o grande alvio trovejante que ns dois sentimos ao descobrir que nenhum

    de ns tentaria forar o outro a procriar, ainda provoca uma vibrao agradvel na nossa vidaem comum. Ainda no consigo acreditar nisso inteiramente. Por alguma razo, nunca pensei napossibilidade de ter um companheiro vitalcio sem que ele esperasse ter filhos. Para vocsverem como a frmula primeiro o amor, depois o casamento, depois o beb no carrinhopenetrou profundamente na minha conscincia, eu deixara de notar, com toda a honestidade,que possvel sair do ramo de carrinhos de beb sem que ningum, pelo menos no no nossopas, mande a gente para a cadeia por isso. E o fato de que, ao conhecer Felipe, tambmherdei dois enteados adultos maravilhosos foi um bnus a mais. Os filhos de Felipe precisamdo meu amor e do meu apoio, mas no precisam que eu seja sua me; j tiveram uma memaravilhosa muito antes de eu entrar em cena. Mas o melhor de tudo foi que, ao trazer osfilhos de Felipe para a minha famlia extensa, realizei o maior truque de mgica entregeraes: dei aos meus pais netos novos sem nem precisar criar filhos meus. Ainda hoje, aliberdade e a abundncia disso tudo parecem quase milagrosas.

    Ser dispensada da maternidade tambm permitiu que eu me tornasse exatamente a pessoaque acho que devia ser: no apenas escritora, no apenas viajante, mas tambm, de um jeitomaravilhoso, tia. Tia sem filhos, para ser exata, o que me deixa em excelente companhia,porque eis um fato espantoso que descobri margem da minha pesquisa sobre o casamento:quando examinamos toda a variedade de populaes humanas de todas as culturas econtinentes (mesmo entre os progenitores mais entusiasmados da histria, como os irlandesesdo sculo XIX ou os amish contemporneos), descobrimos que sempre h uns 10% demulheres, em qualquer populao, que nunca tm filhos. O percentual nunca menor do queesse em qualquer populao que seja. Na verdade, na maioria das sociedades o percentual demulheres que nunca se reproduzem costuma ser muito maior do que 10%, e no s hoje nomundo ocidental desenvolvido, onde a proporo de mulheres sem filhos tende a oscilar pertodos 50%. Por exemplo, na dcada de 1920, espantosos 23% das mulheres adultas dos EstadosUnidos nunca tiveram filhos. (No parece uma proporo altssima para uma poca toconservadora, antes do surgimento do controle legalizado da natalidade? Mas assim foi.)Portanto, o nmero pode ser bem alto. Mas nunca fica abaixo de 10%.

    Com muita frequncia, as que preferimos no ter filhos somos chamadas de poucofemininas, antinaturais ou egostas, mas a histria nos ensina que sempre houve mulheres quepassaram a vida sem filhos. Muitas delas escolheram deliberadamente fugir maternidade,evitando totalmente o sexo com homens ou aplicando com o mximo cuidado o que as damasvitorianas chamavam de artes da precauo. (A irmandade sempre teve os seus segredos etalentos.) claro que outras mulheres tiveram de suportar involuntariamente a falta de filhos,devido a infertilidade, doenas, solteirice ou falta geral de machos disponveis por causa dasbaixas das guerras. Mas, seja qual for a razo, a falta generalizada de filhos no umaevoluo to moderna quanto tendemos a acreditar.

  • De qualquer modo, no decorrer da histria, o nmero de mulheres que nunca se tornoume to grande (to constantemente grande) que suspeito hoje que um certo grau de mulheressem filhos uma adaptao evolucionria da raa humana. Talvez seja no apenasabsolutamente legtimo, mas tambm necessrio, que algumas mulheres nunca se reproduzam. como se, como espcie, precisssemos de uma abundncia de mulheres responsveis, bondosase sem filhos disponveis para ajudar de vrias maneiras a comunidade maior. Ter e criarfilhos consome tanta energia que as mulheres que se tornam mes logo so engolidas por essatarefa imensa, e at morrem por causa dela. Portanto, talvez precisemos de fmeas a mais,mulheres adicionais com energia no exaurida, dispostas a entrar na dana e dar apoio tribo.As mulheres sem filhos sempre foram essenciais na sociedade humana porque geralmentetomam a si a tarefa de cuidar daqueles que no so sua responsabilidade biolgica oficial, enenhum outro grupo faz isso em proporo to elevada. As mulheres sem filhos sempreadministraram orfanatos, escolas e hospitais. So parteiras, freiras e distribuidoras decaridade. Curam os doentes, ensinam as artes e, muitas vezes, se tornam indispensveis nocampo de batalha da vida. Em alguns casos, literalmente. (Florence Nightingale me vem mente.)

    Acho que essas mulheres sem filhos vamos cham-las de Brigada das Tias nunca receberam da histria as devidas homenagens. So chamadas de egostas, frgidas,dignas de pena. H uma ideia muito comum e bem asquerosa que circula por a sobre mulheressem filhos e que preciso repetir aqui: as mulheres que no tm filhos podem levar vidasliberadas, ricas e felizes quando jovens, mas vo acabar se arrependendo quandoenvelhecerem, porque todas morrero sozinhas, deprimidas e amargas. Com certeza voc jouviu essa bobagem. S para deixar tudo bem claro: no h nenhum indcio sociolgico queconfirme isso. Na verdade, estudos recentes feitos em lares de idosos americanos paracomparar o nvel de felicidade das idosas sem filhos com o das idosas com filhos no revelounenhum padro especial de sofrimento ou alegria em nenhum dos grupos. Mas eis o que ospesquisadores descobriram que faz as mulheres idosas em geral sofrerem: pobreza eproblemas de sade. Quer se tenha filhos, quer no, a receita bvia: economize, use fiodental e cinto de segurana e se mantenha em forma; assim, garanto que algum dia voc seruma velhota felicssima.

    s um pequeno conselho gratuito da titia Liz.No entanto, por no deixar descendentes, as tias sem filhos tendem a sumir da memria

    depois de uma simples gerao, logo esquecidas, com vidas transitrias como as borboletas.Mas, enquanto vivas, so fundamentais e podem ser at heroicas. At na histria recente dosdois lados da minha famlia, h casos de tias verdadeiramente magnficas que entraram emao e salvaram a situao em emergncias. Capazes, muitas vezes, de acumular instruo erecursos exatamente por no terem filhos, essas mulheres tinham renda e compaixo emexcesso para pagar operaes em casos de vida ou morte, para salvar a fazenda da famlia oupara abrigar uma criana cuja me ficou gravemente enferma. Tenho uma amiga que chama

  • esse tipo de tia resgatadora de crianas de me sobressalente, e o mundo est cheio delas.Mesmo na minha prpria comunidade, posso ver que s vezes fui importantssima como

    integrante da Brigada das Tias. O meu servio no apenas mimar e estragar a minha sobrinhae o meu sobrinho (embora leve essa funo a srio), mas tambm ser, para o mundo, uma tiaitinerante, uma tia embaixadora, que est mo sempre que algum precisa de ajuda, emqualquer famlia. H pessoas que pude ajudar, s vezes apoiando-as durante anos, porque nosou obrigada, como a me seria, a dedicar toda a minha energia e todos os meus recursos criao de um filho em tempo integral. H um monte de camisas do time da escola e contas deortodontista e cursos universitrios que jamais terei de pagar, o que libera recursos quepodem ser mais bem distribudos pela comunidade. Dessa maneira, tambm promovo a vida.H muitssimas maneiras de promover a vida. E pode acreditar, todas elas so essenciais.

    Certa vez, Jane Austen escreveu a uma parenta cujo primeiro sobrinho acabara denascer: Sempre defendi, o mximo que pude, a importncia das tias. Agora que se tornou tia,voc uma pessoa de certa importncia. Jane sabia o que estava falando. Ela tambm erauma tia sem filhos, adorada pelos sobrinhos como confidente maravilhosa e sempre lembradapelos ataques de riso.

    Por falar em escritores: de uma posio que admito tendenciosa, acho necessriomencionar aqui que Leon Tolstoi, Truman Capote e as irms Bront foram criados por tiassem filhos depois que as mes naturais morreram ou os abandonaram. Tolstoi afirmou que atia Toinette foi a maior influncia da sua vida, j que ela lhe ensinou a alegria moral doamor. O historiador Edward Gibbon, que ficou rfo quando pequeno, foi criado pela amadatia Kitty, que no tinha filhos. John Lennon foi criado pela tia Mimi, que convenceu o meninode que, algum dia, seria um artista importante. A leal tia Annabel de F. Scott Fitzgerald seofereceu para lhe pagar o curso universitrio. O primeiro prdio de Frank Lloyd Wright foiencomendado pelas tias Jane e Nell, solteironas adorveis que tinham um internato em SpringGreen, no estado americano do Wisconsin. Coco Chanel, rf quando criana, foi criada pelatia Gabrielle, que a ensinou a costurar um ofcio til para a menina, acho que nisso todosconcordamos. Virginia Woolf foi profundamente influenciada pela tia Caroline, solteironaquacre que dedicava a vida a obras de caridade, ouvia vozes e falava com espritos e que,como Woolf recordou anos depois, parecia um tipo de profetisa moderna.

    Lembram-se daquele momento fundamental da histria literria em que Marcel Proustmorde a famosa madeleine e fica to assoberbado de saudade que no tem opo seno comeara escrever os vrios volumes do pico Em Busca do Tempo Perdido ? Todo aquele tsunami desaudade eloquente foi provocado pela lembrana especfica da amada tia Leonie de Marcel,que, todo domingo depois da igreja, dividia as suas madeleines com o menino.

    E j se perguntou com quem Peter Pan realmente se parecia? O seu criador, J. M. Barrie,nos respondeu essa pergunta em 1911. Para ele, a imagem de Peter Pan, a sua essncia, o seumaravilhoso esprito de felicidade pode ser encontrado no mundo inteiro, refletido de formadifusa no rosto de muitas mulheres que no tm filhos.

  • Isso a Brigada das Tias.Mas essa deciso minha, a deciso de entrar para a Brigada das Tias em vez de me

    alistar no Exrcito das Mes, me torna bem diferente de minha me, e aqui eu ainda sentia queprecisava harmonizar alguma coisa dentro dessa distino. Provavelmente foi por isso que,certa noite, no meio das minhas viagens com Felipe, liguei do Laos para minha me para tentarentender algumas questes persistentes sobre a vida dela, as escolhas que fez e a relaodessas escolhas com a minha vida e as minhas escolhas.

    Conversamos mais de uma hora. Minha me estava calma e pensativa, como sempre. Nopareceu se surpreender com a linha de interrogatrio; na verdade, respondeu como seesperasse as perguntas. Como se esperasse talvez h anos.

    Em primeiro lugar, assim de improviso, ela logo me lembrou: No me arrependo de nada que fiz por vocs. No se arrepende de ter largado o trabalho que adorava? perguntei. Eu me recuso a viver com remorsos disse ela (o que no respondia exatamente

    pergunta, mas parecia um comeo sincero). Aconteceu tanta coisa maravilhosa naquelesanos que passei em casa com vocs. Conheo vocs de um jeito que seu pai jamais conhecer.Eu estava l, observando vocs crescerem. Foi um privilgio ver vocs virarem adultas. Eununca ia perder uma coisa dessas.

    Alm disso, minha me me lembrou que escolheu ficar casada tantos anos com o mesmohomem porque, por acaso, ela ama demais meu pai, o que um argumento bom e muitoconvincente. verdade que meus pais no esto ligados s como amigos, mas tambm numnvel bem corporal. Em tudo, esto fisicamente juntos: caminham, pedalam e cuidam do stiolado a lado. Lembro que liguei da faculdade para casa tarde da noite, num dia de inverno, epeguei os dois sem flego.

    O que vocs dois estavam aprontando? perguntei, e minha me, eufrica de tantorir, anunciou:

    Andando de tren!Os dois tinham furtado o tobog do vizinho de 10 anos e descido o morro gelado nos

    fundos da casa meia-noite, minha me atrs de meu pai, gritando de prazer com a adrenalina,enquanto ele dirigia o tren a toda sob o luar. Quem ainda faz isso na meia-idade?

    Meus pais sempre tiveram uma certa qumica sexual, desde o dia em que se conheceram.Ele se parecia com Paul Newman, diz minha me sobre o primeiro encontro, e quandominha irm perguntou a meu pai qual lembrana favorita que tinha de minha me, ele nohesitou ao responder: Sempre amei a natureza agradvel da forma de sua me. E ainda ama.Meu pai vive agarrando o corpo de minha me quando ela passa pela cozinha, sempreavaliando, admirando as pernas dela, cobiando. Ela o enxota e se faz de chocada: John!Pare com isso! Mas d para ver que ela adora essas atenes. Cresci vendo isso e acho que uma ddiva rara saber que os pais da gente so fisicamente agradveis um para o outro.Assim, grande parte do casamento de meus pais, como minha me me fez lembrar, sempre se

  • abrigara alm do lado racional, escondida l no fundo do corpo sexual. E esse grau deintimidade est alm de toda e qualquer explicao, alm de todo e qualquer debate.

    E h o companheirismo. Meus pais esto casados h mais de quarenta anos. De modogeral, eles chegaram a um acordo. Vivem uma rotina bem tranquila, os hbitos azeitados pelofluxo do tempo. Giram em torno um do outro no mesmo padro bsico todos os dias: caf,cachorro, desjejum, jornal, jardim, contas, tarefas domsticas, rdio, almoo, compras dacasa, cachorro, jantar, leitura, cachorro, cama... Repita.

    O poeta Jack Gilbert (sem parentesco, infelizmente) escreveu que o casamento o queacontece em meio ao memorvel. Ele disse que muitas vezes recordamos o casamento anosdepois, talvez aps a morte de um dos cnjuges, e s conseguimos lembrar as frias, asemergncias os pontos altos e baixos. O resto se funde num tipo nebuloso de mesmicecotidiana. Mas o poeta afirma que exatamente essa mesmice nebulosa que compe ocasamento. O casamento essas duas mil conversas indistintas, durante dois mil desjejunsindistintos, nos quais a intimidade gira como uma roda lenta. Como medir o valor de ficar tofamiliar para algum, to absolutamente conhecido e to completamente presente que viramosuma necessidade quase invisvel, como o ar?

    Alm disso, minha me teve a bondade de me lembrar naquela noite, quando liguei paraela do Laos, que est longe de ser santa e que meu pai tambm teve de abrir mo de partesdele para ficar casado com ela. Minha me reconheceu generosamente que nem sempre ela uma pessoa de convivncia muito fcil. Meu pai teve de aprender a tolerar e suportar o efeitode ser administrado o tempo todo por uma esposa com mania de organizao. Nesse aspecto,os dois combinam horrivelmente mal. Meu pai aceita a vida que vier; minha me faz a vidaacontecer. Por exemplo: certo dia, meu pai trabalhava na garagem e, acidentalmente, assustouum passarinho que fizera ninho nas vigas do telhado. Confuso e com medo, o bichinho seinstalou na aba do chapu do meu pai. Para no assust-lo ainda mais, meu pai ficou quaseuma hora sentado no cho da garagem at que o passarinho decidisse voar. Essa histria tpica de meu pai. Uma coisa dessas nunca aconteceria com minha me. Ela ocupada demaispara permitir que passarinhos tontos descansem na cabea dela quando h tarefas a cumprir.Mame no espera passarinho nenhum.

    Alm disso, embora seja verdade que minha me abriu mo de muito mais ambiespessoais do que meu pai, ela exige do casamento muito mais do que ele. Ele a aceita muitomais do que ela a ele. (Ele vive dizendo que ela a melhor Carole possvel, mas a gentefica com a sensao de que a minha me acredita que o marido poderia, e talvez at devesse,ser um homem muito melhor.) Ela o comanda o tempo todo. suficientemente sutil e graciosanos seus mtodos de controle para nem sempre a gente perceber o que ela est fazendo, masacredite: mame nunca larga o leme.

    Ela adquiriu essa caracterstica honestamente. Todas as mulheres da famlia dela fazemisso. Elas assumem todos os aspectos da vida do marido e depois, como o meu pai adoradestacar, recusam-se terminantemente a morrer . Nenhum homem consegue sobreviver a uma noiva

  • Olson. Esse um simples fato biolgico. No estou exagerando: nunca aconteceu, pelo menosno que algum se lembre. E nenhum homem consegue escapar de ser totalmente controladopela esposa Olson. (Estou lhe avisando, disse meu pai a Felipe, no comeo do nossorelacionamento, se pretende ter algum tipo de vida em comum com Liz, ter de definir o seuespao j e defend-lo para sempre.) Certa vez o meu pai brincou s que no erabrincadeira que minha me controla uns 95% da vida dele. O mais extraordinrio, meditouele, que ela fica muito mais tensa com os 5% da vida dele dos quais ele no abre mo doque ele com os 95% que ela domina totalmente.

    Robert Frost escreveu que o homem deve desistir em parte de ser homem para se casare, para ser justa, no posso negar isso no caso da minha famlia. J escrevi muitas pginasdescrevendo o casamento como ferramenta repressora usada contra as mulheres, mas importante lembrar que o casamento tambm costuma ser usado como ferramenta repressoracontra os homens. O casamento um arreio da civilizao, que prende o homem a um conjuntode obrigaes e, portanto, restringe a sua energia inquieta. As sociedades tradicionaisperceberam h muito tempo que nada mais intil para a comunidade do que um monte derapazes solteiros e sem filhos (fora do papel sabidamente til de bucha de canho, claro).Em sua maioria, os rapazes solteiros tm fama global de desperdiar dinheiro com prostitutas,bebidas, jogos e preguia: no ajudam em nada. preciso conter essas feras, prend-los responsabilidade ou, pelo menos, o argumento sempre foi esse. preciso convencer essesrapazes a deixar de lado os modos infantis e vestir o manto da condio de adulto, construirlares e empresas e cultivar o interesse pelo que o cerca. Um antigo trusmo de incontveisculturas diferentes que no h melhor ferramenta para criar responsabilidade num rapazirresponsvel do que uma esposa boa e slida.

    No h dvida de que foi esse o caso de meus pais. Ela me ps em forma no chicote, o resumo que meu pai faz da histria de amor. Em geral, ele no se incomoda com isso, mas svezes digamos, no meio de uma reunio de famlia, cercado pela mulher poderosa e pelasfilhas igualmente poderosas meu pai lembra apenas um urso de circo velho e perplexo queno consegue entender como se tornou to domesticado nem como conseguiu se sentar to altonaquele estranho monociclo. Nesses momentos, ele me lembra Zorba, o Grego, que, quandolhe perguntavam se j se casara, respondia: No sou homem? claro que j me casei.Mulher, casa, filhos, a catstrofe completa! (A angstia melodramtica de Zorba, alis, melembra o fato curioso de que, na Igreja Ortodoxa grega, o casamento no consideradosacramento, mas santo martrio; a ideia que a parceria humana bem-sucedida a longo prazoexige uma certa Morte do Eu daqueles que participam.)

    Sem dvida, no casamento ambos meus pais sentiram essa restrio, essa pequenasensao de morte do eu. Sei que verdade. Mas no tenho certeza de que sempre seincomodaram de o outro ficar ali por perto, atrapalhando. Quando perguntei a meu pai que tipode criatura ele gostaria de ser na prxima encarnao, caso haja uma prxima encarnao, elerespondeu sem hesitar:

  • Um cavalo. Que tipo de cavalo? perguntei, imaginando um garanho selvagem a galopar pela

    ampla plancie. Um bom cavalo disse ele.Ajustei devidamente a imagem na minha cabea. Imaginei um garanho selvagem e

    amistoso galopando pela plancie. Que tipo de cavalo bom? sondei. Um cavalo castrado anunciou.Um cavalo castrado! Por isso eu no esperava. A imagem da minha cabea mudou

    completamente. Agora visualizei meu pai como um gentil cavalo de trao, puxandodocilmente a carroa conduzida pela minha me.

    Por que castrado? perguntei. Descobri que a vida assim mais fcil respondeu ele. Pode acreditar.E assim a vida foi mais fcil para ele. Em troca das restries quase castradoras que o

    casamento imps liberdade pessoal de meu pai, ele recebeu estabilidade, prosperidade,encorajamento no trabalho, camisas limpas e costuradas que surgiam num passe de mgica nasgavetas da cmoda, uma refeio confivel no final de um bom dia de trabalho. Em troca,trabalhou para minha me, foi fiel a ela e submete vontade dela 95% completos do seutempo, s a afastando um pouco quando ela chega perto demais de conseguir o domnio totaldo mundo. Os termos desse contrato devem ser aceitveis para os dois porque, como minhame me lembrou quando lhe telefonei do Laos, o casamento deles agora entra na quintadcada.

    claro que, provavelmente, os termos do casamento de meus pais no servem para mim.Enquanto minha av era uma mulher da roa tradicional e minha me, uma feminista limtrofe,eu cresci com ideias totalmente novas sobre as instituies do casamento e da famlia. Orelacionamento que provavelmente construirei com Felipe aquele que eu e minha irmbatizamos de Casamento Sem Esposa, ou seja, na nossa casa ningum vai representar (ourepresentar exclusivamente) o papel tradicional da esposa. As tarefas menos gratas que semprecaram sobre os ombros das mulheres sero equilibradas com mais justia. E como no haverfilhos, suponho que tambm podemos cham-lo de Casamento Sem Me, um modelo decasamento que, obviamente, nem minha me nem minha av experimentaram. Do mesmo modo,a responsabilidade de ganhar o po no recair inteiramente sobre os ombros do Felipe, comoaconteceu com meu pai e meu av; na verdade, provvel que o grosso da renda familiar sejasempre meu. Talvez nesse aspecto, portanto, teremos tambm algo como um Casamento SemMarido. Casamentos sem esposa, sem filhos, sem marido... no houve muitas unies assim nahistria, logo no temos aqui um modelo para seguir. Felipe e eu teremos de elaborar pelocaminho as regras e fronteiras da nossa histria.

    Mas no sei. Talvez todo mundo tenha de elaborar pelo caminho as regras e fronteiras dasua histria.

  • Seja como for, quando perguntei pelo telefone a minha me, naquela noite no Laos, se elafoi feliz durante os anos do seu casamento, ela me assegurou que, na maior parte do tempo, foitudo muito agradvel com meu pai. Quando lhe perguntei qual fora o seu perodo mais feliz,ela respondeu:

    Agora. Morando com o seu pai, saudvel, financeiramente estvel, livre. Eu e seu paipassamos o dia fazendo o que gostamos e depois nos encontramos toda noite mesa do jantar.Mesmo depois de todos esses anos, ainda passamos horas l sentados, rindo e conversando. muito bom mesmo.

    Que maravilha disse eu.Houve uma pausa. Posso lhe dizer uma coisa sem querer ofender? arriscou ela. V fundo. Para ser plenamente sincera, a melhor parte da minha vida comeou assim que vocs

    duas cresceram e foram embora.Comecei a rir (Caraca! Obrigada, me!), mas ela insistiu por sobre o meu riso. Estou falando srio, Liz. Tem uma coisa que voc precisa entender a meu respeito:

    cuidei de crianas a vida toda. Cresci numa famlia grande e sempre tive de tomar conta deRod, Terry e Luana quando eram pequenos. Cansei de me levantar no meio da noite quandotinha 10 anos para limpar algum que tinha feito xixi na cama. Foi assim a minha infncia toda.Nunca tive tempo s para mim. Depois, quando adolescente, tomei conta dos filhos de meuirmo mais velho, sempre tentando imaginar como fazer o dever de casa enquanto cuidava dobeb. Depois criei a minha prpria famlia e tive de me dedicar muito a isso. Quando voc esua irm finalmente foram para a faculdade, foi a primeira vez na vida em que no tivenenhuma criana sob minha responsabilidade. Adorei. No d para explicar o quanto adorei.Ter seu pai s para mim, ter todo o meu tempo para mim foi revolucionrio. Nunca fui maisfeliz.

    Ento tudo bem, pensei, com uma sensao de alvio. Ento ela fez as pazes com aquilo tudo. timo.Houve outro instante de silncio.Ento, de repente, minha me acrescentou, num tom de voz que eu nunca ouvira dela: Mas vou lhe dizer mais alguma coisa. H pocas em que me recuso at a pensar nos

    primeiros anos do meu casamento e em tudo de que tive de abrir mo. Se pensar muito nisso,que Deus me perdoe, fico com tanta raiva que nem enxergo direito.

    Ah.Portanto, a concluso perfeita e definitiva ... ???Aos poucos, foi ficando bvio para mim que, talvez, nunca haja aqui uma concluso

    perfeita e definitiva. Provavelmente, at minha me desistiu h muito tempo de tirarconcluses perfeitas e definitivas sobre a vida dela, depois de abandonar (como tantas de nstemos de fazer, depois de certa idade) a fantasia esplendorosamente inocente de que temos odireito de alimentar sentimentos puros e ntidos sobre a vida. E se eu precisasse alimentar

  • sentimentos puros e ntidos sobre a vida de minha me para acalmar a minha ansiedade com omatrimnio, acho que seria como carregar gua em cesto. Eu s tinha certeza de que minhame deu um jeito de construir para si um lugar de descanso suficientemente tranquilo no campocoalhado de contradies da intimidade. L, com um volume de paz suficientemente satisfatrio,ela vive.

    claro que me deixando para descobrir sozinha como construir algum dia um habitatassim to cuidadoso.

  • CAPTULO SEIS

    Casamento e autonomiaO CASAMENTO UMA COISA LINDA. MAS TAMBM UMA BATALHA CONSTANTE PELA SUPREMACIA

    MORAL.

    Marge Simpson

    D

    Em outubro de 2006, Felipe e eu j estvamos viajando havia seis meses e o nimo vinhafraquejando. Fazia semanas que tnhamos partido da cidade santa de Luang Prabang, no Laos,depois de exaurir todos os seus tesouros, e pegado a estrada de novo no mesmo movimentoaleatrio de antes, matando o tempo, passando as horas e os dias.

    A essa altura, j espervamos estar em casa, mas no havia avano nenhum no nossocaso na Imigrao. O futuro de Felipe estava atolado num tipo de limbo insondvel que quasechegamos a acreditar irracionalmente que nunca acabaria. Separado do seu estoque comercialnos Estados Unidos, incapaz de fazer planos e de ganhar dinheiro, totalmente dependente doDepartamento de Segurana Interna americano (e de mim) para decidir o seu destino, a cadadia ele se sentia com menos poder. Essa no era a situao ideal. Afinal, se h uma coisa queaprendi sobre os homens com o passar dos anos, que esse sentimento no costuma alimentaras suas melhores qualidades. Felipe no foi exceo. Vinha ficando cada vez mais nervoso,mal-humorado, irritvel e absurdamente tenso.

    Mesmo na melhor das circunstncias, s vezes Felipe tem o mau hbito de explodir comimpacincia com quem ele acha que no est se comportando direito ou que est interferindoem sua qualidade de vida. Isso acontece raramente, mas gostaria que no acontecesse nunca.No mundo inteiro e em vrias lnguas, vi esse homem rugir com desaprovao para aeromoasincompetentes, motoristas de txi ineptos, mercadores inescrupulosos, garons apticos e paisde crianas malcriadas. s vezes tambm h braos agitados e voz alta envolvidos nessascenas.

    Lamento isso.Criada por uma me tranquila do Meio-Oeste e um pai ianque e taciturno, sou gentica e

    culturalmente incapaz de lidar com a clssica verso brasileira de Felipe para resolver

  • conflitos. As pessoas da minha famlia no falariam assim nem com um assaltante. Alm disso,sempre que vejo Felipe perder o controle em pblico, isso interfere em minha adoradanarrativa pessoal de como escolhi amar um cara gentil e de bom corao, coisa que,francamente, o que mais me irrita. A indignidade que jamais suportarei com educao veros outros maltratarem as minhas queridas narrativas pessoais sobre eles.

    O pior que o meu anseio de ver todas as pessoas do mundo se tornarem boas amigas,combinado minha empatia quase patolgica pelos sofredores, me deixa na defesa dasvtimas de Felipe, o que s aumenta a tenso. Enquanto ele demonstra tolerncia zero comidiotas e incompetentes, acho que por trs de todos os idiotas incompetentes h uma pessoadoce num dia ruim. Tudo isso pode levar a brigas entre mim e Felipe e, nas raras ocasies emque discutimos, geralmente sobre questes como essa. Ele nunca me deixou esquecer quecerta vez o obriguei a voltar a uma sapataria na Indonsia e pedir desculpas vendedora queachei que ele tinha maltratado. E ele pediu mesmo! Marchou de volta quela sapatariazinhadilapidada e fez moa perplexa uma declarao corts de arrependimento por ter perdido apacincia. Mas ele s agiu assim porque achou fascinante a minha defesa da vendedora. Masno achei a situao nada fascinante. Nunca acho.

    Ainda bem que as exploses de Felipe so bastante raras na nossa vida normal. Mas oque estvamos vivendo naquela poca no era normal. Seis meses de viagens desconfortveis,pequenos quartos de hotel e impasses burocrticos exasperantes vinham desgastando o estadoemocional de Felipe a ponto de eu sentir que a sua impacincia atingia um nvel epidmico(embora talvez os leitores devam dar um certo desconto palavra epidmico, dado que aminha hipersensibilidade ao mais leve conflito humano me transforma em juza muitomelindrosa de atritos emocionais). Ainda assim, os indcios pareciam indiscutveis: naquelesdias, ele no levantava a voz somente com estranhos, estava tambm explodindo comigo. Issoera mesmo indito, porque no passado Felipe sempre parecera ser imune a mim, como se eu,somente eu em meio a todo mundo na Terra, fosse sobrenaturalmente incapaz de irrit-lo. Masagora parecia que aquele doce perodo de imunidade terminara. Ele se irritava comigo porficar tempo demais nos computadores alugados, por nos arrastar para ver a merda doselefantes numa arapuca cara para turistas, por nos plantar em mais um trem noturno horrvel,se irritava quando eu gastava e quando poupava dinheiro, se irritava porque eu sempre queriair a toda parte a p, porque eu vivia tentando encontrar comida saudvel quando eraobviamente impossvel...

    Felipe parecia cada vez mais preso quele tipo de humor em que qualquer falha ouincmodo fica quase fisicamente intolervel. Isso era uma pena, porque viajar, ainda mais sefor o tipo de viagem barata que fazamos, praticamente no passa de uma falha ou incmodoatrs do outro, interrompidos por um pr do sol impressionante de vez em quando, que o meucompanheiro, evidentemente, perdera a capacidade de aproveitar. Enquanto eu arrastava umFelipe cada vez mais relutante pelas atividades do sudeste da sia (mercados exticos!templos! cachoeiras!), ele s ia ficando menos relaxado, menos complacente, menos confortado. J

  • eu reagi ao seu mau humor estragado da maneira como a minha me me ensinou a reagir aomau humor dos homens: ficando mais alegre, mais animada, mais odiosamente faladeira.Enterrei a frustrao e as saudades de casa num disfarce de otimismo infatigvel, avanandoimpetuosa com um comportamento agressivamente radiante como se fosse possvel forarFelipe a ficar num estado de felicidade despreocupada s com o poder do meu jbilomagntico e incansvel.

    Espantosamente, no deu certo.Com o tempo, fiquei irritada com ele, exasperada com a sua impacincia, irritao,

    letargia. Alm disso, fiquei irritada comigo, incomodada com o tom falso da minha voz quandotentava envolver Felipe nas coisas curiosas para as quais o arrastava de cada vez. (Ah, querido,olhe! Esto vendendo ratos para comer! Ah, querido, olhe! A mame elefante est dando banho no filhote! Ah, querido,olhe! Esse quarto de hotel tem uma vista to interessante do matadouro!) Enquanto isso, Felipe seguia para obanheiro e voltava furioso com o fedor e a imundcie do lugar qualquer que fosse o lugar enquanto, ao mesmo tempo, se queixava de que a poluio lhe irritava a garganta e otrnsito lhe dava dor de cabea.

    A tenso dele me deixava tensa, o que me deixou fisicamente descuidada e me levou adar uma topada em Hani, cortar o dedo no barbeador dele em Chiang Mai enquantoprocurava a pasta de dentes na bolsinha de produtos de higiene e, numa noite pavorosa, prrepelente de inseto nos olhos em vez de colrio porque no olhei direito a garrafinha. O quemais me lembro desse ltimo incidente que fiquei uivando de dor e autorrecriminaoenquanto Felipe segurava a minha cabea sobre a pia e lavava os meus olhos com uma garrafade gua morna atrs da outra, me consertando o melhor possvel enquanto fazia um discursocontnuo e furioso sobre, para comear, a estupidez do fato de estarmos naquele pas maldito. Ofato de no me lembrar especificamente do pas maldito onde estvamos a prova de comoaquelas semanas foram ruins.

    Toda essa tenso chegou ao ponto mais alto (ou melhor, ao pior ponto) no dia em quearrastei Felipe por um viagem de doze horas de nibus pelo interior do Laos para visitar umstio arqueolgico no meio do pas que insisti que seria fascinante. Dividamos o nibus comuma boa quantidade de animais de criao, e os assentos eram mais duros do que os bancos deuma igreja quacre. claro que no havia ar-condicionado e as janelas no abriam. No possodizer honestamente que o calor fosse insuportvel, porque bvio que o suportamos, masdirei que estava muito, muito quente. No consegui despertar o interesse de Felipe peloiminente stio arqueolgico, mas tambm no consegui irrit-lo com as condies da nossaviagem de nibus e isso foi mesmo notvel, dado que talvez essa tenha sido a experinciade transporte pblico mais arriscada por que j passei. O motorista conduzia o seu antigoveculo com agressividade enlouquecida e vrias vezes quase nos jogou de alguns penhascosbem impressionantes. Mas Felipe no reagiu a nada disso nem a nenhuma das nossas quasecolises com o trnsito em sentido contrrio. Estava simplesmente entorpecido. Fechou osolhos de cansao e parou totalmente de falar. Parecia resignado com a morte. Ou talvez apenasansiasse por ela.

  • Depois de vrias dessas horas perigosas, de repente o nibus fez uma curva e deu com acena de um grande acidente na estrada: dois nibus bem parecidos com o nosso tinhamacabado de bater de frente. Parecia no haver feridos, mas os veculos formavam uma pilharetorcida de metal fumegante. Quando reduzimos a velocidade para passar, agarrei a mo deFelipe e disse;

    Veja, querido! Dois nibus bateram!Sem nem abrir os olhos, ele respondeu, sarcstico: Oh! Como que isso pde acontecer?De repente, a raiva subiu. O que que voc quer? perguntei.Ele no respondeu, o que s me deixou ainda mais zangada, e continuei: S estou tentando encarar a situao pelo melhor lado possvel, certo? Se tem alguma

    ideia melhor, algum plano melhor, ento fale. E seria timo mesmo que voc conseguissepensar em alguma coisa que o deixe feliz, porque, sinceramente, no aguento mais o seusofrimento, no aguento mesmo.

    Nisso, os olhos dele se arregalaram. Eu s quero um bule de caf disse ele, com paixo inesperada. Como assim, um bule de caf? S quero estar em casa, morando junto com voc com segurana num lugar s. Quero

    rotina. Quero um bule de caf s nosso. Quero poder acordar todo dia de manh mesma horae fazer o caf da manh para ns, na nossa casa, com o nosso bule de caf.

    Em outro ambiente, talvez essa confisso tivesse me despertado solidariedade e talvezdevesse ter me despertado solidariedade naquela hora, mas s me deixou mais zangada: por queele s pensava no impossvel?

    No podemos ter nada disso agora respondi. Meu Deus, Liz, acha que no sei disso? Acha que tambm no quero essas coisas? disparei de volta.A voz dele subiu: Acha que no sei que voc quer essas coisas? Acha que no percebi voc consultando

    anncios de imveis pela internet? Acha que no sei que voc sente saudades de casa? Temalguma ideia de como que me sinto por no poder lhe dar um lar agora, por voc estar presaa esses quartos de hotel dilapidados do outro lado do mundo por minha causa? Faz algumaideia de como humilhante para mim no ter dinheiro para lhe oferecer uma vida melhoragora? Tem alguma ideia de como isso me faz sentir uma puta impotncia? Como homem?

    s vezes, eu esqueo.Tenho de dizer isso porque acho que essa uma questo muito importante no casamento:

    s vezes esqueo como importante para alguns homens para algumas pessoas sercapaz de dar aos entes queridos proteo e conforto material o tempo todo. Esqueo comoalguns homens se sentem perigosamente diminudos quando essa capacidade bsica lhes

  • tirada. Esqueo o quanto isso importa para os homens, o que isso representa.Ainda me lembro do ar angustiado no rosto de um velho amigo que me contou, h vrios

    anos, que a mulher dele ia embora. Parece que ela se queixava de estar absurdamente sozinha,de que ele no estava l ao lado dela, mas ele no conseguia nem comear a entender o queisso significava. Ele achava que se esforara ao mximo durante anos para cuidar da esposa.

    Tudo bem admitiu , talvez eu no estivesse l emocionalmente ao lado dela, mas,meu Deus, como cuidei daquela mulher! Tinha dois empregos por causa dela! Isso no mostraque eu a amava? Ela devia saber que eu faria qualquer coisa para continuar cuidando dela, lhedando proteo! Se acontecesse um holocausto nuclear, eu a pegaria e a jogaria nas costas e alevaria pela paisagem em chamas at um lugar seguro... e ela sabia disso! Como que podedizer que eu no estava l ao lado dela?

    No consegui me forar a dar ao meu amigo a m notcia de que, infelizmente, na maiorparte do tempo, no h holocaustos nucleares. Infelizmente, na maior parte do tempo a nicacoisa que a mulher dele realmente queria era um pouco mais de ateno.

    Do mesmo modo, a nica coisa de Felipe que eu precisava naquele momento era que elese acalmasse, que fosse mais gentil, que mostrasse a mim e a todos nossa volta um poucomais de pacincia, um pouco mais de generosidade emocional. No precisava que ele meprotegesse nem me sustentasse. No precisava do seu orgulho masculino, que ali no serviapara nada. S precisava que ele relaxasse na situao que se apresentava. claro que seriamuito melhor estar em casa, perto da minha famlia, morando numa casa de verdade; masnaquele momento a nossa falta de razes no me incomodava tanto quanto o mau humor dele.

    Tentando reduzir a tenso, toquei a perna de Felipe e disse: D para ver que para voc essa situao mesmo frustrante.Aprendi esse truque num livro chamado Ten Lessons to Transform Your Marriage: Americas Love

    Lab Experts Share Their Strategies for Strengthening Your Relationship (Dez lies para transformar ocasamento: especialistas matrimoniais revelam estratgias para fortalecer a relao), de JohnM. Gottman e Julie Schwartz-Gottman, pesquisadores do Relationship Research Institute,instituto de pesquisa do relacionamento de Seattle, que receberam muita ateno ultimamentepor afirmarem que conseguem prever, com 90% de acerto, se um casal ainda estar junto dalia cinco anos meramente pelo estudo da transcrio de cinco minutos de uma conversa tpicaentre marido e mulher. (Por essa razo, imagino que John M. Gottman e Julie Schwartz-Gottman sejam pssimos convivas num jantar.) Seja qual for o alcance dos seus poderes, osGottman sugerem algumas estratgias prticas para resolver disputas conjugais e tentar salvaros casais do que chamam de Quatro Cavaleiros do Apocalipse: Obstruo, Defensividade,Crtica e Desprezo. O truque que usei, repetindo para Felipe a frustrao dele para indicar quelhe dava ouvidos e me preocupava, os Gottman chamam de voltar-se para o parceiro.Deveria desarmar as discusses.

    Nem sempre d certo. Voc no sabe como eu me sinto, Liz! explodiu Felipe. Eles me prenderam. Me

  • algemaram e me levaram por aquele aeroporto todo com todo mundo olhando, sabia? Tiraramas minhas impresses digitais. Tiraram a minha carteira, tiraram at o anel que voc me deu.Tiraram tudo. Me puseram na cadeia e me expulsaram do seu pas. Trinta anos de viagens enunca me fecharam uma fronteira, e agora, de todos os malditos lugares de onde podiam meexpulsar, no posso mais entrar logo nos Estados Unidos! Antigamente, eu s diria que sedane e continuaria numa boa, mas no posso, porque voc quer morar nos Estados Unidos equero ficar com voc. Logo, no tenho opo. Tenho de aguentar essa merda toda e tenho deentregar toda a minha vida privada a esses burocratas e sua polcia, e isso humilhante. Eno podemos nem conseguir informaes sobre quando tudo isso vai acabar, porque nemmesmo temos importncia. Somos apenas nmeros na mesa de um funcionrio pblico. Enquantoisso, o meu negcio morre e vou falncia. Logo, claro que estou um trapo. E voc ainda ficame arrastando por todo esse maldito sudeste da sia nesses malditos nibus...

    S estou tentando fazer voc feliz explodi de volta, recolhendo a mo, magoada.Se naquele nibus houvesse uma cordinha para puxar e avisar ao motorista que um passageiroqueria descer, juro por Deus que eu teria puxado. Teria saltado bem ali, deixado Felipenaquele nibus, para me arriscar sozinha pela selva.

    Ele inspirou fundo, como se fosse dizer algo duro, mas se segurou. Quase consegui sentiros tendes do pescoo se enrijecerem, e a minha exasperao tambm disparou. Alis, oambiente tambm no ajudava muito. O nibus continuava sacolejando pelo caminho,barulhento, quente e arriscado, batendo em galhos baixos, espalhando porcos, galinhas ecrianas estrada afora, soltando uma nuvem fedorenta de fumaa preta, malhando cadavrtebra do meu pescoo a cada solavanco. E ainda tnhamos sete horas pela frente.

    No dissemos nada durante muito tempo. Eu queria chorar, mas me segurei,reconhecendo que chorar no ajudaria. Mas ainda estava zangada com ele. Com pena dele,claro, mas principalmente zangada. E por qu? Por pouco esprito esportivo, talvez? Porfraqueza? Por desmoronar antes de mim? Claro que a nossa situao era ruim, mas poderia serinfinitamente pior. Pelo menos, estvamos juntos. Pelo menos pude me dar ao luxo de ficar comele durante esse perodo de exlio. Havia milhares de casais na mesma situao que ns quedariam a vida pelo direito de passar uma noite juntos durante um perodo to longo deseparao forada. Pelo menos tnhamos esse consolo. E pelo menos tnhamos instruosuficiente para ler os documentos absurdamente confusos da Imigrao, e pelo menos tnhamosdinheiro suficiente para contratar um bom advogado que nos ajudasse com o resto doprocesso. Seja como for, ainda que o pior acontecesse e os Estados Unidos rejeitassem Felipepara sempre, pelo menos tnhamos opes. Meus Deus, poderamos sempre nos mudar para aAustrlia, caramba. Austrlia! Um pas maravilhoso! Um pas de prosperidade e sensatez noestilo do Canad! No seramos mandados para o exlio no norte do Afeganisto! Quem maisna nossa situao tinha tantas vantagens?

    E por que, alm disso, era sempre eu que tinha de pensar nesses termos animados,enquanto Felipe, francamente, pouco fizera nas ltimas semanas alm de se emburrar com

  • circunstncias que, em boa medida, estavam fora do nosso controle? Por que nunca conseguiase curvar s situaes adversas com um pouco mais de boa vontade? E, alis, ele morreria sedemonstrasse um pouco de entusiasmo com o stio arqueolgico que nos esperava?

    Eu quase disse isso, cada palavra, a porcaria toda, mas me segurei. Um transbordamentode emoes como esse representa o que John M. Gottman e Julie Schwartz-Gottman chamamde enchente, aquele ponto em que estamos to cansados ou exasperados que a cabea inundada (e iludida) pela raiva. Um sinal seguro de que a enchente est prxima que a gentecomea a usar as palavras sempre ou nunca na discusso. Os Gottman chamam isso deTornar-se universal (como em Voc sempre me deixa na mo! ou Nunca posso contar comvoc!). Essa linguagem mata totalmente toda e qualquer possibilidade de discurso justo ouinteligente. Depois que chegamos Enchente, depois que nos tornamos Universais na esteirade algum, o pandemnio est criado. melhor mesmo no deixar que acontea. Como j medisse um velho amigo, d para medir a felicidade de um casamento pelo nmero de cicatrizesque cada parceiro tem na lngua, conseguidas durante anos de mordidas para no deixar sairpalavras raivosas.

    Assim, no falei, e Felipe no falou, e esse silncio ardente durou muito tempo at que,finalmente, ele pegou a minha mo e disse, com voz exausta:

    Vamos tomar cuidado agora, t bom?Afrouxei, sabendo exatamente o que ele queria dizer. Era um antigo cdigo nosso.

    Surgira numa viagem de carro que fizemos do Tennessee at o Arizona no incio do nossorelacionamento. Eu dava aula de criao literria na universidade do Tennessee, morvamosnaquele estranho quarto de hotel em Knoxville, e Felipe quis ir a uma exposio de pedraspreciosas que descobrira em Tucson. Assim, espontaneamente, fomos juntos de carro at l,tentando cobrir a distncia numa estirada s. Na maior parte, foi uma viagem divertida.Cantamos, conversamos e rimos. Mas sempre h um limite para o canto, a conversa e o riso, echegou um momento, j com umas trinta horas de viagem, em que ns dois atingimos a totalexausto. Estvamos ficando sem combustvel, literal e figurativamente. No havia hotis porperto e estvamos cansados e com fome. Acho que me lembro de uma grande diferena deopinio entre ns sobre onde e quando seria a prxima parada. Ainda conversvamos num tomde voz perfeitamente civilizado, mas a tenso comeara a circular pelo carro como uma leveneblina.

    Vamos tomar cuidado disse Felipe, do nada. Com o qu? perguntei. Vamos tomar cuidado com o que dizemos um ao outro nas prximas horas ele

    continuou. nessas horas, quando todo mundo est cansado assim, que as brigasacontecem. Vamos escolher as palavras com o mximo cuidado at acharmos um lugar paradescansar.

    Nada tinha acontecido ainda, mas Felipe propunha a ideia de que talvez haja momentosem que bom o casal praticar a soluo preventiva de conflitos, interrompendo a discusso

  • antes mesmo que comece. Assim, essa se tornou uma expresso em cdigo nossa, uma placaavisando para tomar cuidado com o buraco e ficar atento s avalanches. Era uma ferramentaque usvamos de vez em quando em momentos especialmente tensos. No passado, semprefuncionou bem conosco. Mas no passado nunca tnhamos vivido nada to tenso quanto aqueleperodo de exlio indeterminado no sudeste da sia. Por outro lado, talvez a tenso da viagems nos fizesse precisar mais do que nunca da bandeira amarela.

    Sempre me lembro da histria que os meus amigos Julie e Dennis contaram sobre a brigahorrvel que tiveram numa viagem frica, no incio do casamento. Qualquer que tenha sido arazo da disputa, at hoje eles no conseguem se lembrar, mas eis como terminou: certa tarde,em Nairobi, os dois ficaram to enraivecidos um com o outro que tiveram de andar emcaladas diferentes rumo ao mesmo destino porque no conseguiam mais tolerar fisicamente aproximidade um do outro. Depois de um bom tempo dessa ridcula caminhada paralela, comquatro pistas defensivas de trnsito nairobiano entre eles, Dennis finalmente parou. Abriu osbraos e acenou para que Julie atravessasse a rua para se juntar a ele. Parecia um gesto dereconciliao e ela cedeu. Andou at o marido, amolecendo pelo caminho, esperandosinceramente receber algo como um pedido de desculpas. Em vez disso, assim que ela chegoua uma distncia em que pudesse ouvir, Dennis se inclinou e disse suavemente:

    Ei, Jules! V se foder!Em resposta, ela saiu batendo os ps at o aeroporto e na mesma hora tentou vender a

    passagem de avio de volta do marido a um estranho qualquer.No final, felizmente, tudo se resolveu. Dcadas depois, esse um caso engraado para se

    contar num jantar, mas tambm um alerta: no bom deixar as coisas chegarem a esse ponto.Assim, apertei de leve a mo de Felipe e disse, em portugus: Quando casar passa, que umadoce expresso brasileira. Quando menino, a me dele costumava lhe dizer isso sempre queele caa e ralava o joelho. um pequeno murmrio bobo de consolo maternal. Felipe e euvnhamos dizendo muito essa frase um ao outro ultimamente. No nosso caso, em boa parte elaera verdadeira: quando finalmente nos casssemos, um monte desses problemas passaria.

    Ele passou o brao nas minhas costas e me puxou para perto. Relaxei no seu peito. Ourelaxei o que foi possvel, dado o mpeto sacolejante do nibus.

    No fim das contas, ele era um bom homem.De qualquer modo, ele era basicamente um bom homem.No, ele era bom. Ele bom. O que faremos at l? perguntou.Antes dessa conversa, a minha intuio fora nos manter em movimento rpido de um

    lugar a outro, na esperana de que novas paisagens nos distrassem dos problemas jurdicos.No passado, esse tipo de estratgia sempre funcionou, pelo menos comigo. Como um bebchoro que s adormece num carro em movimento, sempre me acalmei com o ritmo dasviagens. Sempre achei que Felipe funcionava do mesmo jeito, uma vez que a pessoa maisviajada que j conheci. Mas parece que ele no estava gostando de viver deriva.

  • Para comear, embora eu sempre esquea, esse homem 17 anos mais velho do que eu.Logo, deve ser desculpado por se sentir um pouco menos empolgado do que eu com a ideia deviver de mochila s costas por um perodo indeterminado, levando apenas uma muda de roupae dormindo em quartos de hotel de dezoito dlares. Era bvio que isso o desgastava. E eletambm j vira o mundo. J vira tudo aquilo aos montes e j viajava pela sia em vages deterceira classe quando eu ainda estava no segundo ano. Por que eu o obrigava a fazer isso denovo?

    Pior ainda, os ltimos meses tinham chamado a minha ateno para umaincompatibilidade importante entre ns que eu nunca tinha notado. Para um casal de viajantesvitalcios, Felipe e eu, na verdade, viajamos de maneira muito diferente. No caso de Felipe, arealidade, como eu vinha percebendo aos poucos, que, ao mesmo tempo, ele o melhor e opior viajante que j conheci. Ele detesta banheiros esquisitos, restaurantes sujos, trensdesconfortveis, camas estranhas tudo o que praticamente define o ato de viajar. Se puderescolher, vai sempre preferir uma vida de rotina, familiaridade e prticas cotidianas tediosase tranquilizadoras. Tudo isso pode fazer algum supor que ele no tem o mnimo talento deviajante. Mas quem pensa assim se engana, pois eis aqui o dom de viajante de Felipe, o seusuperpoder, a arma secreta que o torna inigualvel: ele consegue criar para si um habitatconhecido de prticas cotidianas tediosas e tranquilizadoras em qualquer lugar, basta deix-loficar num lugar s. Ele consegue assimilar absolutamente qualquer ponto do planeta em cercade trs dias e, depois, capaz de ficar parado nesse lugar sem se queixar pela dcadaseguinte.

    Foi por isso que Felipe conseguiu morar no mundo inteiro. No s viajar, mas morar.Com o passar dos anos, ele se enfiou em sociedades que vo da Amrica do Sul Europa, doOriente Mdio ao sul do Pacfico. Ele chega a um lugar completamente novo, decide que gostade l, se muda, aprende a lngua e, instantaneamente, vira um morador local. Felipe levoumenos de uma semana, morando comigo em Knoxville, por exemplo, para localizar o lugarpredileto para tomar o caf da manh, o bartender predileto, o restaurante predileto paraalmoar. (Querida!, disse ele certo dia, empolgadssimo depois de uma explorao solitriado centro de Knoxville. Sabia que aqui fica o restaurante de frutos do mar mais maravilhosoe barato, chamado John Long Slivers? s que o nome do restaurante Long John Silvers,e faz parte de uma rede internacional americana fundada em 1969...) Ele teria ficado feliz emKnoxville para sempre, se eu quisesse. Para ele, no havia problema nenhum na ideia demorar naquele quarto de hotel durante muitos e muitos anos, desde que pudssemos ficar numlugar s.

    Tudo isso me lembra de uma histria que Felipe um dia me contou sobre a sua infncia.No Brasil, quando era menino, ele costumava acordar apavorado no meio da noite por causade algum pesadelo ou monstro imaginrio, e sempre disparava pelo quarto e subia na cama desua maravilhosa irm Lily, dez anos mais velha e que, portanto, personificava toda asegurana e sabedoria humana. Ele cutucava o ombro de Lily e sussurrava: Me d um cantinho.

  • Sonolenta, sem nunca protestar, ela se afastava e criava para ele um espao quente na cama.No era pedir demais: apenas um cantinho quente. Durante todos os anos em que conheo essehomem, nunca o vi pedir nada alm disso.

    J eu no sou assim.Enquanto Felipe consegue encontrar um cantinho em qualquer lugar do mundo e se

    instalar nele para sempre, eu no consigo. Sou muito mais inquieta do que ele. A minhainquietude me transforma numa viajante cotidiana muito melhor do que ele jamais ser. Souinfinitamente curiosa e quase infinitamente paciente com contratempos, desconfortos epequenos desastres. Portanto, posso ir a qualquer lugar do planeta; isso no problema. Oproblema que simplesmente no consigo morar em nenhum lugar do planeta. Percebera issohavia apenas algumas semanas, l no norte do Laos, quando Felipe acordou numa linda manhde Luang Prabang e disse:

    Querida, vamos ficar aqui. Claro disse eu. Podemos ficar aqui mais alguns dias, se voc quiser. No, estou falando em morar aqui. Vamos esquecer essa minha imigrao para os

    Estados Unidos. problema demais! Essa cidade maravilhosa. Gosto do jeito daqui. Melembra o Brasil de 30 anos atrs. No precisaramos de muito dinheiro e esforo para ter umpequeno hotel ou uma loja por aqui, alugar um apartamento, nos instalarmos...

    Como reao, s empalideci.Ele falava srio. Faria mesmo aquilo. Ele se levantaria, se mudaria indefinidamente para o

    norte do Laos e construiria ali uma nova vida. Mas no consigo. O que Felipe propunha eraum nvel de viagem que no posso alcanar, uma viagem que nem mais viagem, mas sim adisposio de ser definitivamente engolido por um lugar desconhecido. Disso, eu no estava afim. As minhas viagens, como entendi naquela hora pela primeira vez, eram muito maisdiletantes do que eu imaginava. Por mais que eu adore sair beliscando o mundo, na hora de meinstalar, de me instalar de verdade, queria morar em casa, no meu pas, com a minha lngua,perto da minha famlia e na companhia de pessoas que pensam como eu e acreditam nasmesmas coisas em que acredito. Isso, basicamente, me limita a uma pequena regio do planetaTerra, formada pelo sul do estado de Nova York, pelas partes mais rurais do centro de NovaJersey, pelo noroeste do estado de Connecticut e por pedacinhos do leste da Pensilvnia. Umhabitat bastante limitado para um pssaro que se afirma migratrio. Por sua vez, Felipe, o meupeixe voador, no tem essas limitaes domsticas. Um baldinho dgua em qualquer lugar domundo j lhe basta.

    Perceber tudo isso tambm me ajudou a entender melhor a irritabilidade recente deFelipe. Ele passava por tudo aquilo, toda a incerteza e humilhao do processo americano deimigrao, puramente por minha causa, suportando um processo jurdico totalmente invasivoquando poderia muito bem comear uma vida mais nova e muito mais fcil numapartamentinho recm-alugado em Luang Prabang. Mais ainda, enquanto isso ele toleravatodas essas viagens agitadas de um lugar a outro, processo que no aprecia nem um pouco,

  • porque sentia que era o que eu queria. Por que eu o fazia passar por isso? Por que no deixavao homem descansar em qualquer lugar?

    Ento, mudei de plano. Por que no passamos alguns meses em algum lugar e ficamos l at voc ser

    chamado Austrlia para a entrevista da Imigrao? sugeri. Vamos para Bangcoc. No disse ele. Bangcoc, no. A gente enlouqueceria morando em Bangcoc. No isso disse eu. No vamos morar em Bangcoc; s vamos naquela direo

    porque um ponto central. Ficamos uma semana em Bangcoc, num bom hotel, descansamos etentamos conseguir passagens baratas para Bali. Quando chegarmos l, alugamos uma casinha.A ficamos em Bali e esperamos at tudo se acertar.

    Deu para ver, pela cara de Felipe, que a ideia estava funcionando. Voc faria isso? perguntou.De repente, tive outra inspirao. Espere! Vamos ver se conseguimos de volta a sua antiga casa de Bali! Talvez a gente

    consiga alugar do novo dono. E a, ficamos l, em Bali, at recebermos o seu visto para voltaraos Estados Unidos. O que acha?

    Felipe levou uns segundos para responder, mas, para ser sincera perante Deus, quandorespondeu achei que ele ia chorar de alvio.

    E foi o que fizemos. Voltamos a Bangcoc. Encontramos um hotel com piscina e com umbar bem sortido. Ligamos para o novo dono da antiga casa de Felipe para ver se estava paraalugar. Maravilhosamente, estava, a um preo confortvel de quatrocentos dlares por ms um preo surreal mas bastante bom para pagar por uma casa que j fora dele. Reservamospassagens para Bali e partimos dali a uma semana. No mesmo instante, Felipe ficou feliz denovo. Feliz, paciente e bondoso, como eu sempre o conhecera.

    Mas quanto a mim...Alguma coisa me incomodava.Alguma coisa me puxava. Dava para ver que Felipe estava relaxando, sentado junto

    linda piscina com um romance policial numa das mos e uma cerveja na outra, mas agora eraeu quem me debatia. Nunca serei aquela pessoa que s quer ficar sentada junto piscina dohotel com uma cerveja gelada e um romance policial. Os meus pensamentos no saam doCamboja, cuja proximidade era to torturante, logo ali, do outro lado da fronteira da Tailndia...Sempre quis ver as runas do templo de Angkor Wat, mas nunca conseguira em viagensanteriores. Tnhamos uma semana de tempo livre, seria a ocasio perfeita para ir at l. Masno me passaria pela cabea arrastar Felipe comigo at o Camboja. Na verdade, eu noconseguiria imaginar nada que Felipe quisesse menos do que pegar um avio para o Cambojae visitar as runas esfarelentas de um templo no calor escaldante.

    E se eu fosse ao Camboja sozinha, s por alguns dias? E se eu deixasse Felipe ali emBangcoc, sentado feliz junto piscina? Nos ltimos cinco meses, tnhamos passado quasetodos os minutos do dia na companhia um do outro, muitas vezes em ambientes desafiadores.

  • Era um milagre que a nossa recente desavena no nibus fosse o nico conflito srio at ento.Uma separao curta no seria uma boa para ns?

    Dito isso, a tenuidade da nossa situao me fez ter medo de deix-lo, mesmo que porpoucos dias. No era hora de arrumar complicao. E se alguma coisa me acontecesse noCamboja? E se alguma coisa acontecesse a ele? E se houvesse um terremoto, um tsunami, umquebra-quebra, um acidente de avio, um caso grave de intoxicao alimentar, um sequestro?E se algum dia Felipe sasse para passear em Bangcoc enquanto eu no estava l e fosseatropelado e sofresse traumatismo craniano e acabasse em algum hospital misterioso sei londe sem que ningum soubesse quem era, e se eu nunca mais o encontrasse? Naquelemomento, a nossa existncia no mundo estava numa situao crtica, e tudo era delicadssimo.Durante cinco meses tnhamos flutuado pelo planeta num nico barco salva-vidas, balanandojuntos na incerteza. Por enquanto, a unio era a nossa nica fora. Por que arriscar umaseparao num instante to precrio?

    Por outro lado, talvez fosse hora de reduzir um pouco esse esvoaar fantico. No havianenhuma razo sensata para supor que tudo no fosse dar certo no final para ns dois. Semdvida o nosso estranho perodo de exlio passaria; sem dvida Felipe receberia o seu vistoamericano; sem dvida nos casaramos; sem dvida encontraramos um lar adequado nosEstados Unidos; sem dvida passaramos muitos anos juntos no futuro. Sendo assim, talvez eudevesse fazer uma rpida viagem sozinha agora, no mnimo para estabelecer um firmeprecedente para o futuro. Porque eis uma coisa sobre mim que eu j sabia ser verdadeira:assim como h esposas que s vezes precisam de uma pausa dos maridos para passar um fimde semana num spa com as amigas, sempre serei o tipo de esposa que s vezes precisa de umapausa do marido para visitar o Camboja.

    S uns diazinhos!E talvez tambm fizesse bem a ele ficar um pouco longe de mim. Ao ver como eu e

    Felipe tnhamos nos irritado um com o outro nas ltimas semanas, e ao sentir agora com tantafora que queria uma certa distncia dele, comecei a pensar na horta dos meus pais, que umaboa metfora de como duas pessoas casadas tm de aprender a se adaptar uma outra e, svezes, apenas se afastar do caminho da outra para evitar conflitos.

    A princpio, a minha me era a jardineira da famlia, mas com o passar dos anos o meupai ficou mais interessado pela agricultura domstica, abrindo caminho e penetrandoprofundamente nesse terreno dela. Mas, assim como Felipe e eu viajamos de maneirasdiferentes, a minha me e o meu pai plantam de maneiras diferentes, e muitas vezes issoprovocou brigas. Assim, com o passar dos anos eles dividiram a horta para manter algumacivilidade ali, entre as plantas. Na verdade, dividiram a horta de uma maneira to complicadaque, nesse momento da histria, seria preciso quase uma tropa de paz das Naes Unidas paraentender as esferas cuidadosamente repartidas de influncia hortcola. O alface, os brcolis,as ervas, as beterrabas e as framboesas ainda esto sob o domnio da minha me, porexemplo, porque o meu pai ainda no deu um jeito de arrancar dela o controle dessas

  • hortalias. Mas as cenouras, o alho-por e os aspargos so provncia exclusiva do meu pai. Equanto aos mirtilos? Papai expulsa mame do canteiro de mirtilos como se ela fosse umpssaro atrs de comida. A minha me no tem permisso sequer de se aproximar dosmirtilos: nem para pod-los, nem para colh-los, nem mesmo para reg-los. O meu paireivindicou para si o canteiro de mirtilos e o defende.

    Mas a horta fica mesmo complicada na questo dos tomates e do milho. Como aCisjordnia, Formosa ou Caxemira, os tomates e o milho ainda so territrios disputados. Aminha me planta os tomates, mas o meu pai est encarregado de estaque-los, s que depois a minha me quem colhe. No me pergunte por qu! So apenas as regras do combate. (Oupelo menos eram as regras do combate no vero passado. A situao dos tomates ainda estem evoluo.) Por outro lado, h o milho. O meu pai planta o milho e a minha me colhe, maso meu pai insiste em cortar pessoalmente os galhos de milho para cobrir a terra depois dacolheita.

    E assim continuam trabalhando, juntos mas separados.Plantai por ns, amm.A trgua peculiar da horta dos meus pais me faz lembrar um livro que uma amiga minha,

    uma psicloga chamada Deborah Luepnitz, publicou h vrios anos, chamado Os Porcos-espinhosde Schopenhauer. A metfora empregada no livro de Deborah uma histria que o filsofo pr-freudiano Arthur Schopenhauer contou sobre o dilema essencial da intimidade humanamoderna. Schopenhauer acreditava que os seres humanos, nos relacionamentos amorosos,eram como porcos-espinhos numa noite fria de inverno. Para no congelar, os animais seamontoam. Mas, quando se aproximam o bastante para se aquecer, eles se espetam nosespinhos uns dos outros. Num ato reflexo, para evitar a dor e a irritao do excesso deproximidade, os porcos-espinhos se separam. Mas assim que se separam, sentem frio outravez. O frio faz com que se aproximem novamente e se espetem de novo nos espinhos uns dosoutros. Assim, voltam a se afastar. E depois a se aproximar. Infinitamente.

    E o ciclo se repete, escreveu Deborah, enquanto lutam para encontrar uma distnciaconfortvel entre se emaranhar e congelar.

    Ao dividir e subdividir o controle sobre coisas importantes como dinheiro e filhos, mastambm sobre coisas aparentemente sem importncia como beterrabas e mirtilos, os meus paiscriam a sua verso da dana dos porcos-espinhos, avanando e retrocedendo no territrio umdo outro, ainda negociando, ainda recalibrando, ainda trabalhando depois de todos esses anos,para encontrar a distncia correta entre autonomia e cooperao, buscando um equilbrio sutile fugidio que, de algum modo, mantenha em crescimento esse estranho canteiro de intimidade.Eles cedem muito no processo; s vezes, cedem tempo e energia preciosos que talvezpreferissem empregar em coisas diferentes, coisas separadas, se a outra pessoa no estivesseatrapalhando. Felipe e eu teremos de fazer o mesmo no caso das nossas esferas de cultivo, ecom certeza precisaremos aprender os nossos passos na dana do porco-espinho na questodas viagens.

  • Ainda assim, quando chegou a hora de discutir com Felipe a minha ideia de passar umtempo no Camboja sem ele, tratei do tema com um grau de nervosismo que me surpreendeu.Durante alguns dias, no consegui achar a abordagem certa. No queria que parecesse queestava pedindo permisso, j que isso o poria no papel de senhor ou pai, o que no seria justocomigo. Tambm no conseguia me imaginar diante desse homem bom e atencioso para lheinformar secamente que ia viajar sozinha, quer ele quisesse, quer no. Isso me colocaria nopapel de tirana voluntariosa, o que obviamente era injusto com ele.

    O fato que eu perdera a prtica desse tipo de coisa. Vivera sozinha por algum tempoantes de conhecer Felipe e me acostumara a organizar a minha agenda sem ter de levar emconta os desejos de outra pessoa. Alm disso, at esse ponto na nossa histria de amor asrestries externas das nossas viagens (assim como a nossa vida em continentes separados)sempre asseguraram que passssemos muito tempo sozinhos. Mas agora, com o casamento,tudo mudaria. Ficaramos juntos o tempo todo, e esse estar junto traria novos limitesdesgastantes, porque o casamento, pela prpria natureza, algo que prende, que domestica. Ocasamento tem a energia de um bonsai: uma rvore num vaso, com razes cortadas e galhospodados. Veja bem, o bonsai pode viver sculos, e a sua beleza etrea resultado diretodessa restrio, mas ningum jamais confundiria um bonsai com uma trepadeira que cresce emliberdade.

    O filsofo e socilogo polons Zygmunt Bauman escreveu primorosamente sobre esseassunto. Ele acredita que os casais modernos foram ludibriados quando lhes disseram quepodiam e deviam ter as duas coisas que na vida deveramos ter partes iguais de intimidadee autonomia. Bauman diz que, na nossa cultura, passamos a acreditar erradamente que, seconseguirmos administrar direito a vida emocional, seremos capazes de vivenciar toda aconstncia tranquilizadora do casamento sem jamais nos sentir confinados nem limitados.Aqui, a palavra mgica, a palavra quase transformada em fetiche, equilbrio, e quase todomundo que conheo hoje em dia parece procurar esse equilbrio com insistncia quasedesesperada. Como escreve Bauman, todos tentamos forar o casamento a dar poder semtirar poder, capacitar sem incapacitar, satisfazer sem sobrecarregar.

    Mas ser que essa aspirao irrealista? Afinal, o amor limita, quase por definio. Oamor estreita. A grande expanso que sentimos no corao quando nos apaixonamos s seiguala s grandes restries que, necessariamente, viro a seguir. Felipe e eu temos uma dasrelaes mais tranquilas que se pode imaginar, mas no se engane: declarei que esse homem inteiramente meu e, portanto, o afastei do resto do rebanho. A sua energia (sexual, emocional,criativa) pertence em boa parte a mim, e a mais ningum; no nem mais inteiramente dele.Ele me deve coisas como informaes, explicaes, fidelidade, constncia e detalhes sobre ospequenos aspectos mais mundanos da sua vida. No que eu mantenha esse homem numacoleira com rdio, mas no se engane: agora ele meu. E perteno a ele, exatamente na mesmamedida.

    O que no significa que eu no possa ir sozinha ao Camboja. Mas significa que preciso

  • discutir os meus planos com Felipe antes de ir, como ele faria comigo se a situao seinvertesse. Se ele fizer objees ao meu desejo de viajar sozinha, posso discutir com ele aminha posio, mas sou obrigada pelo menos a ouvir as suas objees. Se ele fizer objeesincansveis, posso rejeit-las da mesma forma incansvel, mas tenho de escolher as minhasbatalhas e ele tambm. Se ele contestar os meus desejos com demasiada frequncia, semdvida o nosso casamento vai desmoronar. Por outro lado, se eu exigir constantemente levar avida longe dele, o casamento, com a mesma certeza, vai desmoronar. Portanto, delicado essefuncionamento da opresso mtua, silenciosa, quase de veludo. Por respeito, temos deaprender a liberar e confinar um ao outro com o mximo cuidado, mas nunca, nem por ummomento, devemos fingir que no estamos confinados.

    Depois de muito pensar, certo dia em Bangcoc, durante o caf da manh, finalmente faleido assunto do Camboja com Felipe. Escolhi as palavras com um cuidado absurdo, usando umalinguagem to obscura que, por algum tempo, ficou bvio que o pobre coitado no fazia amnima ideia do que eu estava dizendo. Com uma boa dose de formalidade rgida e um enormeprembulo, tentei explicar sem jeito que, embora o amasse e hesitasse em deix-lo sozinhonaquele momento to tnue da nossa vida, eu gostaria muito de ver os templos do Camboja... etalvez, j que ele achava runas antigas to chatas, essa fosse uma viagem que talvez eudevesse pensar, quem sabe, em fazer sozinha... e talvez no fosse assim to ruim para ns doispassar alguns dias separados, visto que todas aquelas viagens tinham ficado to estressantes...

    Felipe levou alguns instantes para entender o rumo do que eu dizia, mas, quando a fichafinalmente caiu, ele pousou a torrada e me fitou com sincera perplexidade.

    Meu Deus, querida! disse ele. Por que est me pedindo? Basta ir!

    E fui.E a minha viagem ao Camboja foi...Como que vou explicar?Ir ao Camboja no passar um dia na praia. Ir ao Camboja no passar um dia na praia

    nem mesmo quando se passa um dia numa praia de verdade de l. O Camboja duro. Tudonaquele lugar me pareceu duro. A paisagem dura, arrasada at ficar quase sem vida. Ahistria dura, com o genocdio a persistir na memria recente. O rosto das crianas duro.Os ces so duros. A pobreza era a mais dura que j vi. Era como a pobreza da ndia rural,sem a verve da ndia. Era como a pobreza do Brasil urbano, sem o brilho do Brasil. Eraapenas pobreza, do tipo exausto e empoeirado.

    Mais que tudo, entretanto, o meu guia era duro.Depois que arranjei um hotel em Siem Reap, sa para contratar um guia que me mostrasse

    os templos de Angkor Wat e acabei achando um homem chamado Narith, um cavalheiroarticulado, instrudo e extremamente rgido de 40 e poucos anos que me mostrou com toda aeducao as magnficas runas antigas, mas que, falando com delicadeza, no apreciava a

  • minha companhia. No ficamos amigos, Narith e eu, embora eu quisesse muito. No gosto deconhecer uma pessoa e no ficar amiga, mas nunca haveria amizade entre mim e Narith. Partedo problema era o comportamento extremamente intimidador de Narith. Todo mundo tem a suaemoo bsica; a de Narith era a desaprovao silenciosa, que ele irradiava a cada passo.Isso me desconcertou de tal forma que, dali a dois dias, eu mal ousava abrir a boca. Ele fezcom que me sentisse como uma criana boba, o que no surpreende, j que o seu outroemprego, alm de guia turstico, era de mestre-escola. Posso apostar que devia ser de umaeficcia tremenda. Ele confessou para mim que s vezes sente saudades dos bons dias deantigamente, antes da guerra, quando as famlias cambojanas estavam mais intactas e ascrianas eram bem disciplinadas com surras regulares.

    Mas no foi s a austeridade de Narith que impediu o desenvolvimento de uma calorosaligao humana; a culpa tambm foi minha. Sinceramente, no consegui descobrir como falarcom aquele homem. Eu sabia muito bem que estava na presena de uma pessoa que cresceranum dos espasmos de violncia mais brutais que o mundo j viu. Nenhuma famlia cambojanapassou ilesa pelo genocdio da dcada de 1970. Quem no foi torturado ou executado noCamboja durante os anos de Pol Pot simplesmente sofreu e passou fome. Portanto, d parasupor com segurana que todo cambojano que tem 40 anos hoje passou por uma infncia quefoi puro inferno. Sabendo disso tudo, achei difcil travar uma conversa despreocupada comNarith. No conseguia encontrar assunto que no fosse carregado de possveis referncias aopassado no to distante. Decidi que viajar pelo Camboja com um cambojano devia ser comovisitar uma casa que recentemente foi cenrio de um horrvel assassinato familiar em massa,guiada no passeio pelo nico parente que conseguiu escapar da morte. Isso nos deixadesesperados para evitar perguntas como Ento foi neste quarto que seu irmo matou suasirms? ou esta a garagem onde o seu pai torturou os seus primos?. Em vez disso, sseguimos o guia educadamente e, quando ele diz: Eis aqui um aspecto antigo e beminteressante da casa, fazemos que sim e murmuramos: Tem razo, uma linda prgula...

    E voc fica se perguntando.Nesse meio-tempo, enquanto Narith e eu percorramos as runas antigas e evitvamos

    discutir a histria moderna, tropeamos por toda parte em grupos de crianas sozinhas,gangues esfarrapadas inteiras, abertamente pedindo esmolas. A algumas faltavam membros.As crianas sem membros sentavam-se no canto de um antigo edifcio abandonado, apontandoas pernas amputadas e gritando Mina terrestre! Mina terrestre! Mina terrestre!. Enquantoandvamos, as crianas mais inteiras nos seguiam, tentando me vender cartes-postais,pulseiras, quinquilharias. Algumas eram insistentes, mas outras tentavam ngulos mais sutis.De que estado dos Estados Unidos a senhora ?, perguntou um menininho. Se eu lhe dissera capital, a senhora me d um dlar! Esse menino especfico me seguiu por longos trechos dodia, vomitando o nome dos estados e das capitais americanos como um poema agudo eestranho: Illinois, madame! Springfield! Nova York, madame! Albany! Com o passar do dia,ele foi ficando cada vez mais desanimado: Califrnia, madame! SACRAMENTO! Texas,

  • madame! AUSTIN!Estrangulada de tristeza, ofereci dinheiro s crianas, mas Narith s fez me repreender

    pelas esmolas. Eu devia ignorar as crianas, foi a lio de moral. Eu s piorava a situaodando dinheiro, advertiu ele. Estava encorajando a cultura da mendicncia, que seria o fim doCamboja. De qualquer modo, havia crianas selvagens demais para ajudar e os meus brindess atrairiam mais ainda. E foi isso mesmo, mais crianas se juntavam sempre que me viampuxando notas e moedas, e assim que o meu dinheiro cambojano acabou elas ainda seamontoavam minha volta. Eu me senti envenenada com a repetio constante da palavraNO saindo da minha boca sem parar: uma ladainha horrvel. As crianas ficaram maisinsistentes at que Narith decidiu que bastava e espalhou-as de novo pelas runas expulsando-as aos berros.

    Certa tarde, voltando para o carro depois de visitar outro palcio do sculo XIII etentando mudar o assunto das crianas mendigas, perguntei algo sobre a histria da florestaprxima. Narith respondeu, com aparente incoerncia:

    Quando o meu pai foi morto pelo Khmer Vermelho, os soldados tomaram a nossa casacomo trofu.

    No consegui responder a isso, e andamos juntos em silncio.Dali a pouco, ele acrescentou: A minha me foi mandada para a floresta conosco, com todos os filhos, para tentar

    sobreviver.Aguardei o resto da histria, mas no houve resto da histria pelo menos, nada que

    ele quisesse dividir comigo. Sinto muito disse eu, finalmente. Deve ter sido terrvel.Narith me lanou um olhar escuro de... de qu? Pena? Desprezo? Da passou. Vamos continuar a visita disse, apontando um pntano ftido esquerda. Esse

    j foi um espelho dgua, usado pelo rei Jayavarman VII, no sculo XII, para estudar a imagemrefletida das estrelas noite...

    Na manh seguinte, querendo oferecer alguma coisa a esse pas alquebrado, tentei doarsangue no hospital local. Vira cartazes pela cidade toda anunciando falta de sangue e pedindoajuda aos turistas, mas nem nessa tentativa tive sorte. A estrita enfermeira sua de planto deuuma olhada no meu nvel baixo de ferro e se recusou a aceitar o meu sangue. No tiraria demim nem meio litro.

    A senhora est fraca demais! vaticinou. bvio que no est se cuidando! Asenhora no devia estar viajando por a! Devia estar em casa, descansando!

    Naquela noite, a minha ltima noite sozinha no Camboja, perambulei pelas ruas de SiemReap, tentando relaxar. Mas no me sentia segura naquela cidade. Uma sensao peculiar detranquilidade e harmonia costuma me invadir quando percorro sozinha uma nova paisagem (defato, essa sensao que fui buscar no Camboja), mas nunca a consegui naquela viagem. Nomnimo, me sentia sempre no meio do caminho, como se fosse algo irritante, uma idiota, ou at

  • um alvo. Eu me sentia pattica e exangue. Quando voltava a p para o hotel depois do jantar,um pequeno enxame de crianas se juntou minha volta, pedindo dinheiro outra vez. Ummenino no tinha p e, enquanto mancava com vontade, ps a muleta na minha frente e me feztropear de propsito. Cambaleei, agitando os braos como um palhao, mas no cheguei acair.

    Dinheiro disse o menino com voz montona. Dinheiro.Tentei contorn-lo de novo. Com agilidade, ele esticou a muleta outra vez, e

    praticamente tive de pular sobre ela para me esquivar, o que me pareceu horrvel e maluco.As crianas riram, e depois mais crianas se juntaram: agora era um espetculo. Acelerei opasso e fui mais depressa rumo ao hotel. A multido de crianas foi atrs de mim, minhavolta, minha frente. Algumas riam e bloqueavam o meu caminho, mas uma menina bempequena no parava de puxar a minha manga, gritando Comida! Comida! Comida!. Quandome aproximei do hotel, estava correndo. Foi vergonhoso.

    Toda a equanimidade que vinha mantendo com orgulho e teimosia durante aquelesltimos meses caticos desmoronou no Camboja, e desmoronou depressa. Toda a minhacompostura de viajante experiente se desfez em pedacinhos, aparentemente junto com a minhapacincia e a minha compaixo humana bsica, quando me vi em pnico e cheia de adrenalinafugindo a toda de crianas pequenas e famintas que abertamente me imploravam comida.Quando cheguei ao hotel, mergulhei no quarto, tranquei a porta, enfiei a cara numa toalha etremi como uma covarde de bosta pelo resto da noite.

    Pois foi essa a minha grande viagem ao Camboja. claro que um modo bvio de interpretar essa histria que, talvez, para comear, eu

    no devesse ter ido ou, pelo menos, no naquele momento. Talvez a minha viagem tenhasido um passo voluntarioso demais, ou at imprudente, dado que eu j estava fatigada dosmeses de viagem e dada a tenso das circunstncias incertas, minhas e de Felipe. Talvez nofosse hora de eu provar a minha independncia, nem de criar precedentes para futurasliberdades, nem de testar os limites da intimidade. Talvez eu devesse ter ficado o tempo todol em Bangcoc com Felipe, junto piscina, tomando cerveja e relaxando, espera do nossoprximo passo juntos.

    S que no gosto de cerveja e no teria relaxado. Se tivesse refreado os meus impulsos eficado em Bangcoc naquela semana, tomando cerveja e observando ns dois darmos nosnervos um do outro, teria enterrado dentro de mim algo importante, algo que talvez comeassea feder, como o espelho dgua do rei Jayavarman, criando ramificaes contagiantes nofuturo. Fui ao Camboja porque tinha de ir. Pode ter sido uma experincia confusa e mal-ajambrada, mas no por isso que eu no deveria ir. s vezes, a vida confusa e mal-ajambrada. Fazemos o possvel. Nem sempre damos o passo certo.

    O que sei que no dia seguinte ao meu encontro com as crianas mendigas voei de voltaa Bangcoc e me reuni a Felipe, que estava calmo e relaxado e que, claramente, gozara de umapausa reconfortante sem a minha companhia. Passara os dias da minha ausncia aprendendo

  • alegremente a fazer animais com bales, para se manter ocupado. Portanto, quando cheguei eleme presenteou com uma girafa, um dachshund e uma cascavel. Estava orgulhosssimo de simesmo. J eu me sentia um tanto ou quanto desarranjada e no muito orgulhosa do meudesempenho no Camboja. Mas fiquei absurdamente contente de ver aquele cara. E fiqueiabsurdamente grata a ele por me encorajar a tentar coisas que nem sempre so totalmenteseguras, que nem sempre so totalmente explicveis, que nem sempre funcionam de forma toperfeita quanto eu sonhava. Sou mais grata por isso do que posso dizer porque, verdadeseja dita, tenho certeza de que voltarei a fazer esse tipo de coisa.

    Assim, elogiei Felipe pelo maravilhoso zoolgico de bales, e ele escutou com atenoas minhas histrias tristes sobre o Camboja, e quando ambos estvamos bem e cansadossubimos juntos para cama e amarramos mais uma vez os nossos barcos salva-vidas econtinuamos com a nossa histria.

  • CAPTULO SETE

    Casamento e subversoDE TODAS AS AES DA VIDA DE UM HOMEM, O CASAMENTO O QUE MENOS DIZ RESPEITO AOS

    OUTROS; MAS, DE TODAS AS AES DA NOSSA VIDA, NELE QUE OS OUTROS MAIS SE METEM.

    John Selden, 1689

    D

    No final de outubro de 2006, estvamos de volta a Bali, instalados na antiga casa de Felipenos arrozais. L, planejamos esperar com calma o resto do processo de imigrao, de cabeabaixa, sem provocar mais estresse nem conflitos. Foi bom ficar num lugar mais conhecido, foibom parar de viajar. Foi naquela casa que, fazia quase trs anos, nos apaixonamos. Foidaquela casa que Felipe abrira mo fazia apenas um ano para ir morar comigopermanentemente na Filadlfia. Aquela casa era a coisa mais prxima de um verdadeiro larque conseguimos encontrar naquele momento, e, caramba, como ficamos felizes ao v-la!

    Vi Felipe se derreter de alvio enquanto perambulava pela velha casa, tocando echeirando todos os objetos conhecidos com prazer quase canino. Tudo estava do mesmo jeitoque ele deixara. L estava o terrao aberto do andar de cima, com o sof de rat onde Felipe,como ele gosta de dizer, me seduziu. L estava a cama confortvel onde fizemos amor pelaprimeira vez. L estava a cozinha mida cheia de pratos e travessas que comprei para Felipelogo que nos conhecemos porque o seu equipamento de solteiro me deprimia. L estava aescrivaninha tranquila no canto onde trabalhei no meu livro anterior. L estava Raja, o velhocachorro alaranjado e amistoso do vizinho (que Felipe sempre chamou de Roger),mancando alegremente, rugindo para a prpria sombra. L estavam os patos do arrozal, dandovoltas e fofocando entre si sobre algum recente escndalo avcola.

    L estava at o bule de caf.E foi assim que Felipe voltou a ser quem era: gentil, atento, legal. Ele tinha o seu

    cantinho e as suas rotinas. Eu, os meus livros. Ns dois, uma cama conhecida para dividir.Relaxamos o mximo possvel num perodo de espera at que o Departamento de SeguranaInterna decidisse o destino dele. Nos dois meses seguintes, camos numa pausa quasenarctica, como as rs meditativas do nosso amigo Keo. Eu lia, Felipe cozinhava, s vezesdvamos lentos passeios pela aldeia e visitvamos velhos amigos. Mas o que mais recordo

  • desse perodo em Bali so as noites.Eis algo que ningum esperaria de Bali: o lugar terrivelmente barulhento. J morei num

    apartamento em Manhattan que dava para a rua 14 e o barulho do lugar nem chegava pertodessa aldeia rural balinesa. Havia noites em Bali em que acordvamos ao mesmo tempo como som de uma briga de ces, ou uma discusso de galos, ou uma animada procissocerimonial. Outras vezes, ramos arrancados do sono pelas condies climticas, queconseguiam se comportar com espantosa dramaticidade. Sempre dormamos de janela aberta,e houve noites de vento to forte que acordamos emaranhados no tecido do mosquiteiro, comoalgas presas no cordame de um veleiro. Ento, nos desamarrvamos um ao outro e ficvamosdeitados na escurido quente, conversando.

    Um dos meus trechos favoritos da literatura de As Cidades Invisveis, de Italo Calvino.Nele, Calvino descreve uma cidade imaginria chamada Eufemia em que os mercadores detodos os pases se renem em cada solstcio e equincio para trocar mercadorias. Mas essesmercadores no se renem apenas para trocar especiarias, pedras preciosas, gado e tecidos.Na verdade, eles vo a essa cidade para trocar histrias para literalmente trocar intimidadespessoais. Segundo Calvino, funciona assim: os homens se renem noite em torno dasfogueiras no deserto, e cada um oferece uma palavra, como irm, lobo ou tesouroenterrado. Ento, todos os outros homens, um de cada vez, conta a sua histria pessoal deirms, lobos e tesouros enterrados. E nos meses seguintes, muito depois de partirem deEufemia, quando cruzam o deserto sozinhos em seus camelos ou singram o longo caminho at aChina, os mercadores combatem o tdio desencavando antigas lembranas. E a que oshomens descobrem que as suas lembranas foram mesmo trocadas, que, como escreve Calvino,sua irm foi trocada pela irm de outrem, seu lobo pelo lobo de outrem.

    Com o tempo, isso o que a intimidade faz conosco. isso que um casamento longopode fazer: ele nos leva a herdar e trocar as histrias um do outro. Em parte, assim que nostornamos anexos um do outro, trelias nas quais a biografia do outro pode crescer. A histriaprivada de Felipe se torna um pedao da minha memria; a minha vida se entrelaa com amatria-prima da vida dele. Ao recordar aquela cidade imaginria de Eufemia onde se trocamhistrias e ao pensar nos minsculos pontos narrativos que compem a intimidade humana, svezes, s trs da madrugada numa noite insone em Bali, eu dizia a Felipe uma palavraespecfica s para ver que lembranas conseguia provocar. Com a minha deixa, com a palavraque eu lhe oferecia, Felipe ficava ali deitado ao meu lado no escuro contando as suas histriasdispersas de irms, tesouros enterrados, lobos e mais ainda praias, pssaros, ps,prncipes, competies...

    Lembro-me de uma noite quente e mida em que acordei depois que uma motocicletasem silencioso passou voando pela nossa janela e senti que Felipe tambm estava acordado.Mais uma vez, escolhi uma palavra ao acaso.

    Conte uma histria sobre peixes pedi.Felipe pensou por um bom tempo.

  • Depois, demorou-se no quarto enluarado contando uma lembrana das pescarias com opai em viagens noturnas quando era apenas um menininho no Brasil. Eles partiam juntos paraalgum rio no mato, s o homem e o menino, e passavam dias l acampados, descalos e depeito nu o tempo todo, vivendo do que pescavam. Felipe no era to inteligente quanto Gildo,o irmo mais velho (nisso, todos concordavam) nem to encantador quanto Lily, a irm maisvelha (nisso, todos tambm concordavam), mas era famoso na famlia por ser o que maisajudava, e por isso era o nico que ia sozinho com o pai nas pescarias, muito embora fossebem pequeno.

    Nessas expedies, a principal tarefa de Felipe era ajudar o pai a armar as redes no rio.Era tudo uma questo de estratgia. O pai no conversava muito com ele durante o dia(ocupado demais, se concentrando na pescaria), mas toda noite, junto fogueira, de homempara homem, explicava o plano de onde iriam pescar no dia seguinte. O pai de Felipeperguntava ao filho de 6 anos: Est vendo aquela rvore mais ou menos um quilmetro emeio rio acima, que est meio afundada? O que acha de irmos at l amanh investigar?, eFelipe ficava de ccoras ali junto ao fogo, atento e muito srio, ouvindo como adulto,concentrado no plano, dando aprovao.

    O pai de Felipe no era um homem ambicioso, nem um grande pensador, nem um capitode indstria. Na verdade, nem era muito industrioso. Mas era um nadador destemido.Agarrava com os dentes a grande faca de caa e nadava por aqueles rios largos, verificandoas redes e armadilhas enquanto deixava o filho pequeno sozinho na margem. Para Felipe, eraao mesmo tempo assustador e emocionante ver o pai se despir at ficar s de calo, morder afaca e abrir caminho pela corrente rpida, sabendo o tempo todo que, se o pai fosse levadoembora, ele ficaria abandonado ali no meio do nada.

    Mas o pai nunca foi levado embora. Era forte demais. No calor noturno do nosso quartoem Bali, sob o mosquiteiro mido e ondulante, Felipe me mostrou como o pai era um nadadorforte. Imitou as belas braadas do pai, deitado ali de costas no ar mido da noite, nadando, osbraos indistintos e fantasmagricos. Depois de todas aquelas dcadas perdidas, Felipe aindaconseguia imitar o som exato que os braos do pai faziam ao cortar as guas rpidas e escuras:Xaxaaa, xaxaaa, xaxaaa...

    E agora aquela lembrana, aquele som, tambm nadam em mim. quase como se euconseguisse me lembrar, apesar de no ter conhecido o pai de Felipe, que morreu anos atrs.Na verdade, talvez s haja quatro pessoas vivas no mundo inteiro que ainda se lembram dopai de Felipe, e s uma delas, at o momento em que Felipe dividiu essa histria comigo,recordava exatamente como aquele homem era e soava quando costumava nadar pelos largosrios brasileiros em meados do sculo passado. Mas agora eu sentia que tambm conseguialembrar, de um jeito estranho e pessoal.

    Isso intimidade: a troca de histrias no escuro.Para mim, esse ato, o ato da conversa noturna tranquila, ilustra mais do que tudo a

    estranha alquimia do companheirismo. Afinal, quando Felipe descreveu as braadas do pai,

  • peguei aquela imagem aquosa e a costurei cuidadosamente na bainha da minha vida, e agoravou lev-la comigo para sempre. Enquanto viver, e mesmo muito depois que Felipe se for, asua lembrana da infncia, o pai, o rio, o Brasil, tudo isso tambm, de certo modo, passou aser meu.

    Quando j estvamos em Bali havia algumas semanas, finalmente houve algum avano nocaso da imigrao.

    De acordo com o nosso advogado da Filadlfia, o FBI verificara o meu histricocriminal. A minha ficha estava limpa. Agora eu era considerada um risco aceitvel para mecasar com estrangeiros, o que significava que, finalmente, o Departamento de SeguranaInterna comearia a examinar o pedido de imigrao de Felipe. Se tudo corresse bem, se lheconcedessem o difcil bilhete dourado do visto de noivo, ele poderia voltar aos EstadosUnidos num perodo de trs meses. Agora, o fim estava vista. Agora, o nosso casamentoficara iminente. Os documentos da imigrao, supondo que Felipe os obtivesse, estipulariamcom bastante clareza que esse homem teria permisso de entrar de novo nos Estados Unidos,mas s por exatos trinta dias, e nesse prazo teria de se casar com uma cidad especficachamada Elizabeth Gilbert, e somente com uma cidad especfica chamada Elizabeth Gilbert,seno seria deportado para sempre. O governo no ia despachar uma espingarda junto com apapelada, mas era quase essa a sensao.

    Quando essa notcia chegou a todos os nossos parentes e amigos pelo mundo,comeamos a receber mensagens perguntando que tipo de cerimnia de casamento tnhamosplanejado. Quando seria o casrio? Onde seria? Quem seria convidado? Fugi das perguntas detodo mundo. Na verdade, eu no planejara nada de especial como cerimnia de casamento,simplesmente porque achava essa ideia de casamento pblico uma agitao s.

    Nos meus estudos, encontrei uma carta que Anton Tchecov escreveu noiva OlgaKnipper em 26 de abril de 1901, carta que exprimia com perfeio a soma de todos os meustemores. Tchecov escreveu: Se me prometeres que nenhuma alma em Moscou saber donosso casamento a no ser depois que acontecer, disponho-me a desposar-te no mesmo dia daminha chegada. Por alguma razo, tenho um medo horrvel da cerimnia de casamento e dascongratulaes e do champanhe que preciso segurar enquanto sorrimos vagamente. Gostariaque fssemos da igreja diretamente para Zvenigorod. Ou talvez pudssemos nos casar emZvenigorod. Pensa, pensa, querida! s inteligente, o que dizem.

    Isso! Pensa!Eu tambm queria pular a confuso toda e ir direto para Zvenigorod, e nunca ouvi falar

    sequer em Zvenigorod! S queria me casar da maneira mais furtiva e particular possvel,talvez sem nem mesmo contar a ningum. L no havia juzes e tabelies para fazer o servioquase sem dor? Quando confidenciei essas ideias num e-mail a minha irm Catherine, elarespondeu: Voc faz o casamento parecer uma colonoscopia. Mas posso afirmar que, depois

  • de meses de perguntas invasivas do Departamento de Segurana Interna, era exatamente comuma colonoscopia que o nosso casamento estava ficando parecido.

    Ainda assim, no fim das contas, havia algumas pessoas na nossa vida que achavam queesse evento tinha de ser comemorado com uma cerimnia adequada, e minha irm era uma dasmais importantes. Ela me mandava da Filadlfia e-mails gentis mas frequentes tratando dapossibilidade de dar uma festa de casamento na casa dela para ns, quando voltssemos. Elaprometeu que no seria nada muito pomposo, mas ainda assim...

    Eu ficava com as mos suadas s de pensar. Afirmei que no era mesmo necessrio, queFelipe e eu no funcionamos desse jeito. Na mensagem seguinte, Catherine escreveu: E se euder uma grande festa de aniversrio para mim e voc e Felipe puderem vir? Voc deixa pelomenos eu brindar ao seu casamento?

    No me comprometi com nada disso.Ela tentou de novo: E se por acaso eu der uma grande festa quando vocs estiverem

    aqui em casa, mas voc e Felipe nem precisarem descer? Basta se trancarem no andar de cimacom a luz apagada. E quando eu fizer o brinde do casamento, assim, toa, ergo a taa dechampanhe mais ou menos na direo da porta do sto? At isso seria ameaador demais?

    Estranha, indefensvel e perversamente, seria.Quando tentei esmiuar a minha resistncia cerimnia pblica de casamento, tive de

    admitir que parte do problema era simplesmente vergonha. Que coisa mais esquisita ficar nafrente da famlia e dos amigos (muitos deles convidados para o primeiro casamento) e fazernovamente promessas solenes para a vida toda. Todos j no tinham visto esse filme? A nossacredibilidade comea a perder o lustro depois de tanta repetio. E Felipe tambm j fizerapromessas para a vida inteira, e o casamento acabou depois de 17 anos. Que casalformvamos! Parafraseando Oscar Wilde: um divrcio pode ser visto como infortnio, masdois comea a parecer descuido.

    Alm disso, eu jamais esqueceria o que Miss Manners, aquela colunista especializadaem etiqueta, disse sobre o assunto. Embora se declarasse convicta de que todos deveriam secasar quantas vezes quisessem, ela acreditava que cada um de ns tem direito apenas a umagrande cerimnia de casamento com fanfarra e tudo. (Pode parecer meio protestante erepressor demais, eu sei, mas o curioso que os hmong tambm pensam assim. Quandoperguntei quela av l no Vietn o procedimento hmong tradicional para o segundocasamento, ela respondeu: O segundo casamento exatamente igual ao primeiro, s que commenos porcos.) Alm disso, o segundo ou o terceiro grande casamento deixa os parentes eamigos na estranha posio de duvidar se devem encher novamente os multinoivos depresentes e muita ateno. Parece que a resposta no. Como Miss Manners explicoufriamente a um leitor certa vez, a tcnica adequada para congratular a futura noiva em srie evitar todos os presentes e pompas e escrever dama um simples bilhete dizendo que estamosmuito contentes com a felicidade dela e desejamos toda a sorte do mundo, tomando o mximocuidado para no usar as palavras desta vez.

  • Meu Deus, como essas duas palavrinhas condenatrias desta vez me causamarrepios. Mas verdade. As lembranas da ltima vez pareciam recentes demais para mim,dolorosas demais. Alm disso, no gostava da ideia de que bem provvel que os convidadosdo segundo casamento da noiva pensem no primeiro marido tanto quanto pensam no novo eque bem provvel que a noiva, naquele dia, tambm pense no ex-marido. Aprendi que naverdade os primeiros cnjuges nunca vo embora, nem que a gente no fale mais com eles.Eles so fantasmas que moram pelos cantos das novas histrias de amor, que nunca somem devista totalmente, que se materializam na nossa cabea quando querem, fazendo comentriosindesejados ou pequenas crticas doloridas e certeiras. Conhecemos voc melhor do que ans mesmos, disso que os fantasmas dos ex-cnjuges gostam de nos lembrar, e,infelizmente, o que sabem sobre ns no costuma ser muito bonito.

    H quatro mentes na cama do divorciado que se casa com uma divorciada, diz umdocumento talmdico do sculo IV e verdade, os ex-cnjuges costumam visitar a nossacama. Ainda sonho com o meu ex-marido, por exemplo, muito mais do que imaginava fazerquando o deixei. Em geral, so sonhos agitados e confusos. Em raras ocasies, so cordiais ouconciliadores. Mas na verdade no importa: no posso controlar os sonhos nem impedi-los.Ele aparece no meu subconsciente quando quer e entra sem bater. Ainda tem as chaves dessacasa. Felipe tambm sonha com a ex-mulher. Cus, eu sonho com a ex-mulher de Felipe! svezes sonho at com a nova mulher do meu ex-marido, que no conheo, cuja fotografia nuncavi mas s vezes ela aparece nos meus sonhos e conversamos. (Na verdade, fazemosreunies de cpula.) E no me surpreenderia se, em algum lugar do mundo, a segunda mulherdo meu ex-marido sonha de vez em quando comigo, tentando, no seu subconsciente, elaboraras estranhas dobras e costuras da nossa ligao.

    A minha amiga Ann, divorciada h vinte anos e feliz no novo casamento com um homemmais velho e maravilhoso, me garante que tudo isso passa com o tempo. Ela jura que osfantasmas se recolhem, que chega uma hora em que nunca mais vou pensar no ex-marido. Masno sei. Acho isso difcil de imaginar. Consigo imaginar que se reduza, mas no consigoimaginar que desaparea totalmente, ainda mais porque o meu primeiro casamento acabou deum jeito to bagunado, com tanta coisa mal resolvida. O meu marido e eu nunca concordamoscom o que deu errado no relacionamento. Foi chocante a nossa total falta de consenso. Essadiferena to absoluta de viso de mundo talvez seja tambm uma indicao de que nuncadeveramos ter nos juntado; fomos as nicas testemunhas oculares da morte do nossocasamento e cada um de ns deu um depoimento totalmente diferente sobre o que aconteceu.

    Portanto, talvez venha da a sensao difusa de ser perseguida por fantasmas. Assim,hoje levamos vidas separadas, eu e o meu ex-marido, mas ele ainda visita os meus sonhos naforma de um representante incorpreo que sonda, debate e reconsidera de mil ngulosdiferentes uma pauta eterna de assuntos no encerrados. esquisito. sinistro. fantasmagrico, e eu no queria provocar aquele fantasma com uma cerimnia oucomemorao grande e barulhenta.

  • Talvez outra razo para Felipe e eu resistirmos tanto a trocar votos cerimoniais era queachvamos j ter feito isso. J tnhamos trocado votos numa cerimnia absolutamenteparticular, inventada por ns mesmos. Isso aconteceu em Knoxville, em abril de 2005, quandoFelipe veio morar comigo pela primeira vez naquele estranho hotel decadente na praa. Certodia, samos e compramos um par de alianas simples. Depois, escrevemos as promessas quefaramos um ao outro e as lemos em voz alta. Pusemos as alianas um no outro, selamos onosso compromisso com um beijo e lgrimas, e pronto. Ambos sentimos que isso bastava.Portanto, no que tinha importncia para ns achvamos que j estvamos casados.

    Ningum viu acontecer, a no ser ns dois (e, tomara, Deus). E nem preciso dizer queningum acatou essas promessas (a no ser ns dois e, tomara de novo, Deus). Convido oleitor a imaginar como os agentes do Departamento de Segurana Interna, por exemplo,reagiriam l no Aeroporto de Dallas/Fort Worth se eu tentasse convenc-los de que umacerimnia de compromisso particular realizada num quarto de hotel de Knoxville mudara oestado civil meu e de Felipe.

    Verdade seja dita, muita gente achava profundamente irritante, at pessoas que nosamavam, que Felipe e eu usssemos aliana sem uma cerimnia de casamento legal e oficial.Segundo o consenso, os nossos atos eram, no melhor dos casos, confusos, e no pior, patticos.No!, declarou o meu velho amigo Brian num e-mail da Carolina do Norte quando lhe disseque Felipe e eu tnhamos trocado votos particulares recentemente. No, vocs no podem fazers assim!, insistiu. Isso no basta! Vocs tm de fazer um casamento de verdade, seja de quetipo for!

    Brian e eu discutimos o assunto durante semanas e fiquei surpresa ao descobrir a suainflexibilidade naquele tema. Achei que ele que entenderia melhor por que Felipe e eu noprecisaramos nos casar de forma pblica e oficial s para satisfazer as convenes dosoutros. Brian um dos homens mais bem casados que conheo (a sua devoo a Linda otransforma num exemplo vivo de endeusamento da esposa), mas talvez tambm seja o meuamigo mais naturalmente inconformista. Ele no se dobra com facilidade a nenhuma normaaceita pela sociedade. Basicamente, um pago com ph.D. que mora numa cabana na florestacom um vaso sanitrio seco; no tem nada a ver com Miss Manners. Mas Brian foi inflexvelna insistncia de que promessas particulares feitas diante de Deus no contam comocasamento.

    CASAMENTO NO ORAO!, insistiu (o itlico e as maisculas so dele). por isso quevoc tem de se casar na frente dos outros, nem que seja na frente da tia que fede a coc de gato. um paradoxo, mas na verdade o casamento concilia um monte de paradoxos: liberdade ecompromisso, fora e subordinao, sabedoria e idiotice etc. E voc est deixando de ver aquesto principal: no s para satisfazer os outros. Na verdade, voc tem de forar osconvidados do casamento a cumprir a parte deles no trato. Eles tm de ajudar voc nocasamento; tm de dar apoio a voc e a Felipe quando o outro faltar.

    A nica pessoa que parecia mais incomodada do que Brian com a nossa cerimnia de

  • compromisso particular era a minha sobrinha Mimi, de 7 anos. Em primeiro lugar, Mimi sesentiu horrivelmente lograda por no ter havido um casamento de verdade, porque ela queriamuito ser daminha pelo menos uma vez na vida e nunca tivera a oportunidade. Enquanto isso, asua melhor amiga e rival Moriya j fora daminha duas vezes e olha aqui, gente, daqui para afrente Mimi s vai envelhecer!

    Alm disso, as nossas aes no Tennessee ofenderam a minha sobrinha num nvel quasesemntico. Disseram a Mimi que, agora, depois daquela troca de promessas particulares emKnoxville, ela poderia chamar Felipe de tio, mas ela nem quis pensar nisso. Nick, o irmomais velho, tambm no aceitou a ideia. No que os filhos de minha irm no gostassem deFelipe. s que tio, como Nick (de 10 anos) me explicou com severidade, o irmo do paiou da me ou o homem legalmente casado com a tia. Portanto, Felipe no era oficialmente tio deNick e Mimi, j que no era oficialmente meu marido, e no havia como convencer os dois docontrrio. Nessa idade, as crianas no passam de defensoras das convenes. Que inferno,so praticamente recenseadoras! Para me punir pela desobedincia civil, Mimi passou achamar Felipe de tio, sem nunca esquecer as aspas areas do sarcasmo. s vezes, at sereferia a ele como meu marido, novamente com aspas areas e um tom de desdm irritado.

    Em 2005, numa noite em que Felipe e eu fomos jantar na casa de Catherine, perguntei aMimi o que precisava fazer para que ela considerasse vlido o meu compromisso com Felipe.Ela foi inflexvel na certeza:

    Voc precisa de um casamento de verdade disse ela. Mas o que um casamento de verdade? perguntei. preciso ter uma pessoa l. Agora ela estava francamente exasperada. No d

    para fazer promessas sem ningum olhando. Tem de haver uma pessoa que veja vocsprometerem.

    interessante que Mimi defendia aqui uma forte questo intelectual e histrica. Comoexplicou o filsofo David Hume, em todas as sociedades so necessrias testemunhas na horade promessas importantes. A razo que no possvel saber se algum diz a verdade oumente ao fazer uma promessa. Quem a faz, como disse Hume, pode ter uma secreta direodo pensamento escondida por trs de palavras nobres e bombsticas. No entanto, a presenade testemunhas nega as intenes ocultas. No importa mais o que voc queria dizer quandodisse; s importa que voc disse o que disse e que um terceiro viu e ouviu voc dizer. Assim, a testemunha que se torna a prova viva da promessa, autenticando a promessa e lhe dandopeso de verdade. Mesmo no incio da Idade Mdia europeia, antes da poca da igreja oficial edos casamentos no cartrio, bastava exprimir os votos diante de uma nica testemunha paraunir para sempre o casal no estado oficial do matrimnio. Mesmo naquela poca, no se podiafazer isso sozinho. Mesmo naquela poca, algum tinha de assistir.

    Voc ficaria satisfeita perguntei a Mimi se Felipe e eu fizssemos os votos docasamento bem aqui na cozinha, na sua frente?

    Tudo bem, mas quem seria a pessoa? perguntou ela.

  • Por que no pode ser voc? sugeri. Assim voc garante que tudo vai ser feitodireitinho.

    Era um plano brilhante. Garantir que tudo seja feito direitinho a especialidade deMimi. Essa uma menina que realmente nasceu para ser a pessoa. E me orgulho de dizer queela ficou altura da ocasio. Bem ali na cozinha, enquanto a me preparava o jantar, Mimipediu a Felipe e eu que nos levantssemos e ficssemos de frente para ela. Ela nos pediu quelhe entregssemos as alianas de casamento (novamente com as aspas areas) que jusvamos havia meses. Esses anis, ela prometeu guardar em segurana at que a cerimniaterminasse.

    Depois, improvisou um ritual matrimonial, montado, suponho, a partir dos vrios filmesa que assistiu durante os seus longos 7 anos de vida.

    Prometem amar um ao outro o tempo todo? perguntou.Prometemos. Prometem amar um ao outro na doena e na no doena?Prometemos. Prometem amar um ao outro na loucura e na no loucura?Prometemos. Prometem amar um ao outro na riqueza e na no-tanta-riqueza? (Parece que ideia

    de pobreza pura no era algo que Mim quisesse nos desejar; por isso, a no-tanta-riquezateria de bastar.)

    Prometemos.Ficamos todos ali em p por um momento de silncio. Era evidente que Mimi gostaria de

    ficar mais algum tempo na posio dominante de pessoa, mas no conseguia se lembrar de maisnada que precisasse de promessa. Ento, nos devolveu os anis e nos mandou coloc-los nodedo um do outro.

    Agora, pode beijar a noiva anunciou.Felipe me beijou. Catherine deu um pequeno viva e voltou a mexer o molho de mariscos.

    Assim terminou, bem ali na cozinha de minha irm, a segunda cerimnia de compromisso nooficial de Liz e Felipe. Dessa vez, com uma testemunha de verdade.

    Abracei Mimi. Satisfeita?Ela fez que sim.Mas era claro dava para ver pela cara dela que no estava nada satisfeita.

    Afinal de contas, o que que h numa cerimnia oficial e pblica de casamento que significatanto para todo mundo? E por que eu resistia a isso com tanta teimosia, quase combeligerncia? A minha averso fazia ainda menos sentido quando consideramos que, poracaso, sou uma pessoa que adora desmedidamente rituais e cerimnias. Vejam bem, estudei

  • Joseph Campbell, li O Ramo de Ouro, e entendi. Reconheo plenamente que a cerimnia essencial para os seres humanos: um crculo que desenhamos em torno de fatos importantespara separar o grandioso do ordinrio. E o ritual um tipo de cinto de segurana mgico quenos guia de um estgio a outro da vida, assegurando que no vamos tropear nem nos perderpelo caminho. As cerimnias e os rituais nos levam cuidadosamente at o centro dos nossosmedos mais profundos de mudana, do mesmo modo que um cavalario consegue levar ocavalo vendado pelo meio de uma fogueira sussurrando: No se preocupe com isso, amigo,certo? Basta pr uma pata na frente da outra e vamos sair pelo outro lado numa boa.

    Entendo at por que todos acham to importante assistir s cerimnias rituais dos outros.O meu pai, que no , de jeito nenhum, um homem muito convencional, sempre foi inflexvelna hora de comparecermos aos velrios e funerais de todo mundo que morria na cidade ondemorvamos. Ele explicava que a questo no era s homenagear o morto nem consolar osvivos. Na verdade, amos a essas cerimnias para sermos vistos especificamente, porexemplo, pela viva do falecido. Era preciso garantir que ela catalogasse o nosso rosto eregistrasse o fato de que tnhamos comparecido ao funeral do marido. No para ganhar pontossociais ou crdito por ser boa pessoa, mas para que, da prxima vez que encontrssemos aviva no supermercado, ela fosse poupada da incerteza horrvel de no saber se tnhamosrecebido a m notcia. Depois de nos ver no enterro do marido, ela saberia que sabamos.Portanto, no teria de repetir toda a histria da perda outra vez, e seramos poupados danecessidade desagradvel de dar condolncias bem ali, no meio da seo de hortifruti, porquej as demos no velrio, onde essas palavras so adequadas. Assim, a cerimnia pblica damorte deixava a ns e a viva quites, e poupava a todos da incerteza e do desconforto social. Aquesto se resolvia, com todos em segurana.

    Percebi que era isso que os meus amigos e parentes queriam ao pedir uma cerimniapblica do meu casamento com Felipe. No que quisessem vestir roupas bonitas, danarcom sapatos desconfortveis nem jantar frango ou peixe. O que os meus amigos e parentesrealmente queriam era poder seguir na vida tendo certeza de conhecer a posio de todos emrelao a todos. Era isso o que Mimi queria, tudo certinho, tim-tim por tim-tim. Ela queriauma garantia clara de que agora podia tirar as aspas areas das palavras tio e marido econtinuar vivendo sem dvidas esquisitas sobre como deveria tratar Felipe, como membro dafamlia ou no. E era bem claro que s prestaria toda a sua lealdade a essa unio se pudesseassistir pessoalmente troca oficial de votos.

    Eu sabia e entendia tudo isso. Ainda assim, resistia. O principal problema era que,mesmo depois de vrios meses lendo sobre casamento, pensando sobre casamento, falandosobre casamento, eu ainda no estava totalmente convencida do casamento. Ainda no tinhacerteza de que queria comprar o pacote que vinha junto com o matrimnio. Para ser sincera,ainda me ressentia de que Felipe e eu tivssemos de nos casar s porque o governo mandara.E acabei percebendo que, provavelmente, a razo para tudo isso me incomodar toprofundamente, num nvel to fundamental, era que sou grega.

  • Entenda, por favor, que no quero dizer que sou literalmente grega, como se tivesse nascidona Grcia, pertencesse a alguma fraternidade universitria ou me enamorasse pela paixosexual que une dois homens no amor. Quero dizer que sou grega no modo de pensar. Porque o seguinte: os filsofos j entenderam h muito tempo que toda a base da cultura ocidental seapoia em duas vises de mundo rivais, a grega e a hebraica, e o lado que adotamos com maisintensidade determina em boa medida como vemos a vida.

    Dos gregos, dos dias gloriosos da antiga Atenas, especificamente, herdamos as ideias dehumanismo secular e santidade do indivduo. Os gregos nos legaram as noes de democracia,igualdade, liberdade pessoal, razo cientfica, liberdade intelectual, abertura de pensamento eo que hoje chamamos de multiculturalismo. A noo grega da vida, portanto, urbana,sofisticada e investigativa, sempre deixando bastante espao para a dvida e o debate.

    Por outro lado, h o modo hebraico de ver o mundo. Aqui, quando digo hebraico, nome refiro especificamente aos princpios do judasmo. (Na verdade, a maioria dos judeusamericanos contemporneos que conheo so bem gregos no seu modo de pensar, enquanto oscristos fundamentalistas americanos de hoje que so profundamente hebraicos.)Hebraico, no sentido que os filsofos usam a palavra, a forma abreviada de uma antigaviso de mundo que trata de tribalismo, f, obedincia e respeito. O credo hebraico se baseiano cl, patriarcal, autoritrio, moralista, ritualista e instintivamente desconfiado deestranhos. Os pensadores hebraicos veem o mundo como um jogo claro entre bem e mal, comDeus sempre firmemente do nosso lado. As aes humanas so certas ou erradas. No hrea cinzenta. O coletivo mais importante do que o individual, a moralidade maisimportante do que a felicidade e os votos so inviolveis.

    O problema que a moderna cultura ocidental herdou, de certa forma, essas duas antigasvises de mundo, embora nunca tenhamos conciliado as duas completamente porque soinconciliveis. (Voc acompanhou o ciclo recente de eleies americanas?) A sociedadeamericana, portanto, um amlgama engraado de pensamento grego e hebraico. O nossocdigo jurdico quase todo grego; o moral, quase todo hebraico. No temos nenhum modo depensar sobre independncia, intelecto e santidade do indivduo que no seja grego. No temosnenhum modo de pensar sobre retido e vontade de Deus que no seja hebraico. A nossanoo de justeza grega; a nossa noo de justia hebraica.

    E quando se chega s ideias sobre o amor... bem, a somos uma mistura emaranhada dosdois. Em tudo quanto pesquisa, os americanos declaram acreditar em duas ideias totalmentecontraditrias sobre o casamento. Por um lado (o hebraico), acreditamos de formaavassaladora, como pas, que o casamento deve ser um voto vitalcio nunca rompido. Poroutro, grego, acreditamos igualmente que o indivduo deve ter sempre o direito de se divorciarpor suas prprias razes.

    Como as duas ideias podem ser verdadeiras ao mesmo tempo? No admira que fiquemosto confusos. No admira que os americanos se casem com mais frequncia e se divorciemcom mais frequncia do que todos os outros povos de todos os pases da Terra. No paramos

  • de pular daqui para l como bolas de pingue-pongue entre duas vises rivais do amor. A nossaviso hebraica (ou bblica/moral) do amor se baseia na devoo a Deus, que a submissodiante de um credo sacrossanto, e acreditamos nisso plenamente. A nossa viso grega (outica/filosfica) do amor se baseia na devoo natureza, que trata de investigao, beleza eum profundo respeito expresso pessoal. E tambm acreditamos plenamente nisso.

    O amante grego perfeito ertico; o amante hebraico perfeito fiel.A paixo grega; a fidelidade hebraica.Essa ideia passou a me perseguir porque, no espectro grego-hebraico, fico muito mais

    perto da ponta grega. Isso faz de mim uma candidata muito ruim para o matrimnio? Tivemedo que sim. Ns, gregos, no nos sentimos bem ao sacrificar o Eu no altar da tradio; issonos soa opressor e apavorante. Fiquei ainda mais preocupada com isso quando encontrei umainformao minscula mas importantssima naquele imenso estudo do casamento daUniversidade Rutgers. Parece que os pesquisadores acharam indcios que sustentam a noode que o casamento em que marido e mulher respeitam sinceramente a santidade do prpriomatrimnio tem mais probabilidade de durar do que o casamento em que os dois se mostramum pouco mais desconfiados diante da instituio. Assim, parece que respeitar o casamento condio para permanecer casado.

    Mas suponho que isso faz sentido, no ? preciso acreditar no que se promete para quea promessa tenha alguma importncia, no mesmo? Afinal, o casamento no apenas umapromessa feita a outro indivduo; essa a parte fcil. O casamento tambm uma promessafeita a uma promessa. Sei com certeza que h quem fique casado para sempre nonecessariamente por amar o cnjuge, mas por amar os prprios princpios. Essas pessoas iropara o tmulo ainda unidos em leal matrimnio a algum que talvez detestem com todas asforas, s porque prometeram algo quela pessoa diante de Deus e no se reconheceriam maiscaso desonrassem a promessa.

    claro que no sou uma dessas. No passado, tive de optar claramente entre honrar osmeus votos e honrar a minha vida e escolhi a mim, no promessa. Recuso-me a dizer queisso me torna necessariamente atica (pode-se argumentar que escolher a libertao em vez dosofrimento um modo de honrar o milagre da vida), mas me causou um dilema na hora de mecasar com Felipe. Embora eu fosse hebraica o bastante para querer muito ficar casada parasempre desta vez (tudo bem, vamos ceder e usar essas palavras vergonhosas: desta vez), euainda no encontrara um jeito de respeitar com sinceridade a instituio do matrimniopropriamente dita. Ainda no encontrara, na histria do casamento, um lugar onde pudesse mesentir em casa, onde conseguisse me reconhecer. Essa ausncia de respeito e identidade mefez temer que nem mesmo eu acreditaria nas minhas palavras ao fazer os votos no dia docasamento.

    Para tentar resolver a questo, falei dela a Felipe. Agora, devo dizer aqui que nisso tudoFelipe era muito mais tranquilo do que eu. Embora fosse to pouco afeioado instituio docasamento quanto eu, ele no parava de me dizer: Nesse momento, querida, isso no passa de

  • um jogo. O governo imps as regras e agora temos de fazer o jogo deles para conseguir o quequeremos. Pessoalmente, fao o jogo que for, desde que possa levar a vida com voc em paz.

    Esse modo de pensar funcionava com ele, mas no era esprito esportivo o que eu estavaprocurando; eu precisava de um certo nvel de seriedade e autenticidade. Ainda assim, Felipevia a minha agitao com a questo e, que Deus o abenoe, foi muito gentil ao ouvir duranteum bom tempo as minhas ideias sobre as filosofias rivais da civilizao ocidental e como elasafetavam a minha opinio sobre o matrimnio. Mas, quando perguntei a ele se achava que oseu pensamento era mais grego ou mais hebraico, ele respondeu:

    Querida, na verdade nada disso se aplica a mim. Por que no? perguntei. No sou grego nem hebraico. Ento o que voc ? Sou brasileiro. Mas o que isso quer dizer?Felipe riu. Ningum sabe! Isso que maravilhoso em ser brasileiro. No significa nada! Por

    isso, d para usar a brasilidade como desculpa para viver a vida como a gente quer. Naverdade, uma estratgia brilhante. Ela me levou longe.

    E como que isso me ajuda? Talvez possa ajudar voc a relaxar! Voc vai se casar com um brasileiro. Por que no

    comea a pensar como brasileira? Como? Escolhendo o que voc quer! Esse o jeitinho brasileiro, no ? Pegamos as ideias

    de todo mundo emprestadas, misturamos tudo e depois, com isso, criamos algo novo. Escute,do que que voc gosta tanto nos gregos?

    A noo de humanidade respondi. E do que voc mais gosta, se que gosta, nos hebraicos? Da noo de honra disse eu. timo, ento est resolvido: fiquemos com os dois. Humanidade e honra. Faremos um

    casamento com essa combinao. Vamos cham-lo de mistura brasileira. E ajeitaremos tudode acordo com o nosso cdigo.

    Podemos mesmo fazer isso? Querida! disse Felipe, e pegou o meu rosto entre as mos com uma urgncia sbita

    e frustrada. Quando voc vai entender? Assim que conseguirmos esse maldito visto e noscasarmos diretinho l nos Estados Unidos, podemos fazer tudo o que quisermos.

    Ser que podamos?Rezei para Felipe estar certo, mas no tinha certeza. O meu medo mais ntimo sobre o

    casamento, quando cavei bem fundo, era que o matrimnio acabasse nos configurando mais doque conseguiramos configur-lo. Todos os meus meses de estudos sobre o casamento s

  • tinham conseguido que, mais do que nunca, eu temesse essa possibilidade. Passei a acreditarque, como instituio, o matrimnio era poderosssimo. Com certeza, era muito maior, maisvelho, mais profundo e mais complicado do que Felipe e eu jamais seramos. No importavaque Felipe e eu nos sentssemos modernos e sofisticados; eu temia que entraramos na linha demontagem do casamento e logo nos veramos transformados em esposos, enfiados num moldeprofundamente convencional que beneficiava a sociedade, mesmo que no nos beneficiassetanto assim.

    Tudo isso era inquietante porque, por mais que parea incmodo, eu gosto de pensar emmim como vagamente bomia. No sou anarquista nem nada, mas me sinto bem quando vejo aminha vida em termos de uma certa resistncia instintiva conformidade. Para ser franca,Felipe gosta de pensar em si mais ou menos do mesmo modo. Tudo bem, vamos ser sinceros eadmitir que a maioria de ns provavelmente gosta de pensar assim, no mesmo? Afinal decontas, encantador imaginar-se como um inconformista excntrico, mesmo quando sacabamos de comprar um bule de caf. Assim, talvez toda essa ideia de me curvar conveno do casamento me incomodasse um pouco, naquele velho nvel teimoso do orgulhogrego antiautoritrio. Francamente, eu no tinha certeza de que algum dia conseguissecontornar essa questo.

    Quer dizer, at que descobri Ferdinand Mount.Certo dia, procurando na internet novas pistas sobre o casamento, encontrei uma obra

    acadmica que parecia interessante, intitulada The Subversive Family (A famlia subversiva), deum escritor britnico chamado Ferdinand Mount. Na mesma hora encomendei o livro e pedi aminha irm que o mandasse para Bali. Adorei o ttulo e tinha certeza de que esse texto metransmitiria histrias inspiradoras de casais que tinham encontrado maneiras de vencer osistema e minar a autoridade social, se mantendo fiis s razes rebeldes, tudo dentro dainstituio do casamento. Talvez eu encontrasse ali o meu modelo inspirador!

    Na verdade, a subverso era o tema do livro, mas no da maneira que eu esperara.Dificilmente seria um manifesto sedicioso, o que no surpreende, j que Ferdinand Mount(desculpe; leia-se sir William Robert Ferdinand Mount, 3 baronete) um colunistaconservador do Sunday Times, de Londres. Afirmo honestamente que jamais teria encomendado olivro se soubesse desse fato com antecedncia. Mas fico contente de t-lo feito, porque svezes a salvao nos chega da forma mais improvvel, e sir Mount quase me resgatou ao memostrar uma ideia de matrimnio radicalmente diferente de tudo o que eu j desenterrara.

    Mount vou deixar de lado o ttulo daqui para a frente sugere que todos oscasamentos so atos automticos de subverso contra a autoridade. (Quer dizer, todos oscasamentos no arranjados. Ou seja, todos os casamentos no tribais, sem base no cl nem napropriedade. Ou seja, o casamento ocidental.) As famlias que nascem dessas uniesvoluntariosas e pessoais tambm so unidades subversivas. Como o autor explica: A famlia uma organizao subversiva. Na verdade, a organizao subversiva suprema, a nica a s-lo com constncia e coerncia. S a famlia, em toda a histria, continuou e ainda continua a

  • minar o Estado. A famlia o inimigo permanente e duradouro de todas as hierarquias, igrejase ideologias. No s os ditadores, bispos e comissrios, mas tambm humildes padresparoquianos e intelectuais de mesa de bar se veem a enfrentar repetidamente a hostilidadeptrea da famlia e a sua determinao de resistir s interferncias at o fim.

    Bem, essa linguagem bastante forte, mas Mount constri uma argumentao cativante.Ele afirma que, como nos casamentos no arranjados os casais se unem por razesprofundamente particulares, e como esses casais criam para si vidas secretas dentro da unio,eles ameaam de forma inata todos os que querem dominar o mundo. A primeira meta dequalquer corpo autoritrio especfico impor o controle a uma populao especfica por meiode coao, doutrinao, intimidao ou propaganda. Mas, para sua frustrao, as figuras deautoridade nunca conseguiram controlar inteiramente, nem mesmo monitorar, as intimidadesmais secretas que se passam entre duas pessoas que dormem juntas regularmente.

    Nem a Stasi da Alemanha Oriental comunista, a fora policial totalitria mais eficaz queo mundo j conheceu, conseguia escutar todas as conversas privadas em todos os laresprivados s trs da madrugada. Ningum jamais conseguiu isso. No importa que a conversade travesseiro seja modesta, trivial ou sria; essas horas silenciosas pertencemexclusivamente s duas pessoas que as dividem. O que se passa com um casal sozinho noescuro a prpria definio da palavra privacidade. E aqui no estou falando s de sexo,mas do aspecto muito mais subversivo: a intimidade. Todo casal do mundo tem o potencial de setornar, com o tempo, um pequeno pas isolado com dois habitantes, criando uma culturaprpria, uma linguagem prpria, um cdigo moral prprio do qual mais ningum podeparticipar.

    Emily Dickinson escreveu: De todas as Almas criadas / Escolhi Uma. Essedireito, essa ideia de que, por razes privadas s nossas, muitos acabamos escolhendo umapessoa para amar e defender acima de todas as outras, uma situao que desde sempreexasperou familiares, amigos, instituies religiosas, movimentos polticos, agentes daimigrao e armas militares. Essa seleo, esse estreitamento da intimidade enlouquecedorpara quem deseja nos controlar. Por que vocs acham que os escravos americanos nuncativeram permisso oficial para se casar? Porque era perigoso demais, para os donos deescravos, sequer pensar em permitir que algum cativo vivenciasse toda a gama de liberdadeemocional e segredo ntimo que o casamento pode cultivar. O casamento representava um tipode liberdade do corao, e nada disso poderia ser tolerado na populao escravizada.

    Por essa razo, Mount argumenta que, no decorrer dos sculos, as entidades poderosassempre tentaram solapar os laos humanos naturais para aumentar o seu poder. Sempre queaparece um novo culto, religio ou movimento revolucionrio, o jogo sempre comea domesmo jeito: com um esforo para separar o indivduo das lealdades pr-existentes. precisofazer um juramento de sangue de fidelidade total aos novos senhores, mestres, dogmas, deusesou naes. Como escreve Mount, preciso renunciar a todos os outros bens e apegosmundanos e seguir a Bandeira, a Cruz, o Crescente ou a Foice e o Martelo. Em resumo,

  • preciso renegar a famlia real e jurar que agora somos a sua famlia. Alm disso, preciso abraaros novos arranjos pseudofamiliares impostos de fora (como o mosteiro, o kibutz, o quadro dopartido, a comuna, o peloto, a gangue etc.). E quem prefere honrar a esposa, o marido, oamante acima do coletivo, como se fracassasse e trasse o movimento e tem de sercondenado como reacionrio, egosta e at traidor.

    Ainda assim, as pessoas continuam agindo dessa forma. Continuam a resistir ao coletivoe a escolher uma pessoa na massa para amar. Vimos isso acontecer nos primeiros dias docristianismo, lembram? Os primeiros padres da Igreja ensinaram com bastante clareza aopovo que agora deviam preferir o celibato ao casamento. Esse seria o novo construto social.Embora seja verdade que alguns dos primeiros convertidos se tornaram celibatrios, amaioria decididamente no o fez. No final, os lderes cristos tiveram de ceder e aceitar que ocasamento no acabaria. Os marxistas tiveram o mesmo problema quando tentaram criar umanova ordem mundial em que as crianas seriam educadas em escolas comunitrias e onde nohaveria nenhum apego especfico entre os casais. Mas os comunistas no tiveram melhor sortedo que os primeiros cristos ao tentar impor essa ideia. Os fascistas tambm no. Elesinfluenciaram o formato do casamento, mas no conseguiram eliminar o casamento.

    Nem as feministas, devo admitir com toda a sinceridade. No incio da revoluofeminista, algumas ativistas mais radicais alimentavam o sonho de que, se tivessem opo, asmulheres liberadas sempre prefeririam os laos da irmandade e da solidariedade e no ainstituio repressora do casamento. Algumas, como a feminista separatista BarbaraLipschutz, chegaram ao ponto de sugerir que as mulheres deveriam parar totalmente de fazersexo, no s com os homens, mas tambm com outras mulheres, porque o sexo sempre seriaum ato degradante e opressor. Portanto, o celibato e a amizade seriam os novos modelos paraas relaes femininas. Ningum precisa ser fodido era o ttulo do deplorvel ensaio deLipschutz; no so exatamente as mesmas palavras que So Paulo usaria, mas trata-seessencialmente dos mesmos princpios: os encontros carnais so sempre aviltantes e osparceiros romnticos, no mnimo, nos afastam de um destino mais elevado e honroso. MasLipschutz e as suas seguidoras tambm no tiveram sorte na erradicao do desejo deintimidade sexual privada, assim como os primeiros cristos, os comunistas e os fascistas.Muitas mulheres, inclusive mulheres muito inteligentes e liberadas, acabaram preferindomesmo assim parcerias privadas com homens. E pelo que luta hoje a maioria das lsbicasfeministas e ativistas? Pelo direito de se casar. Pelo direito de se tornarem mes e pais, deconstituir famlia, de ter acesso a unies legalmente reconhecidas. Querem estar dentro domatrimnio, configurando a sua histria por dentro, no do lado de fora, jogando pedras navelha fachada decrpita.

    At Gloria Steinem, a personificao do movimento feminista americano, decidiu secasar pela primeira vez no ano 2000. Tinha 66 anos no dia do casamento e estava to brilhantecomo sempre; temos de supor que sabia muito bem o que estava fazendo. Entretanto, paraalgumas seguidores suas, aquilo foi uma traio, como se um santo casse da graa divina.

  • Mas importante observar que a prpria Steinem viu o seu casamento como umacomemorao das vitrias feministas. Como explicou, caso tivesse se casado na dcada de1950, quando devia, teria realmente se transformado em propriedade do marido, ou nomximo numa auxiliar inteligente, como Phyllis, a matemtica. Mas, no ano 2000, em boaparte graas ao seu prprio esforo incansvel, o casamento evoluiu nos Estados Unidos, aponto de uma mulher poder, ao mesmo tempo, ser esposa e pessoa humana, com toda aliberdade e os direitos civis intactos. Mas a deciso de Steinem ainda desapontou muitasfeministas apaixonadas, que no conseguiram superar o insulto candente de que a sua lderdestemida preferisse um homem irmandade coletiva. De todas as almas da criao, atGloria escolheu uma e essa deciso deixou o resto todo de fora.

    Mas no se pode impedir que as pessoas queiram o que querem, e muita gente, naverdade, quer intimidade com uma pessoa especial. E como no h intimidade semprivacidade, todos tendem a reagir bastante contra qualquer um ou qualquer coisa que interfirano desejo simples de ficar em paz com o ser amado. Embora as figuras de autoridadetentassem conter esse desejo no decorrer da histria, no conseguiram nos forar a abandon-lo. Continuamos simplesmente a insistir no direito de nos ligarmos a outra alma de maneiraoficial, emocional, fsica e material. Continuamos simplesmente a tentar, sem parar, por maisinsensato que fosse, recriar o ser de duas cabeas e oito membros da unio humana perfeita deAristfanes.

    Vejo essa nsia funcionar por toda parte e, s vezes, da forma mais surpreendente.Algumas pessoas que conheo, muito anticonvencionais, muito tatuadas, muito contrrias aosistema e socialmente rebeldes, se casam. Algumas pessoas sexualmente muito promscuasque conheo se casam (em geral com resultado desastroso, mas ainda assim elas tentam).Algumas pessoas muito misantropas que conheo se casam, apesar do aparente desagradogeral com a humanidade. Na verdade, conheo pouqussimas pessoas que no tentaram umaparceria monogmica de longo prazo pelo menos uma vez na vida, de um modo ou de outro,mesmo que nunca tenham selado esses votos oficialmente numa igreja ou diante de um juiz. Naverdade, a maioria das pessoas que conheo experimenttou vrias parcerias monogmicas delongo prazo, mesmo que o seu corao ficasse totalmente destrudo com a tentativa anterior.

    At Felipe e eu, dois desertores e sobreviventes do divrcio que nos orgulhvamos deum certo grau de autonomia bomia, comeamos a criar para ns um mundinho que lembravasuspeitosamente um casamento muito antes que as autoridades da imigrao se metessem.Antes de sequer ouvirmos falar em agente Tom, morvamos juntos, fazamos planos juntos,dormamos juntos, dividindo recursos, construamos a vida em torno um do outro, excluindooutras pessoas do nosso relacionamento... e que nome isso tem, seno casamento? Tivemos atuma cerimnia para selar a nossa fidelidade. (Ora, tivemos duas!) Estvamos configurando anossa vida daquela maneira especfica de parceria porque ansivamos por alguma coisa.Como tantos de ns anseiam. Ansiamos pela intimidade privada mesmo que seja um riscoemocional.

  • Ansiamos pela intimidade privada mesmo que a detestemos. Ansiamos pela intimidadeprivada mesmo que seja ilegal amar quem amamos. Ansiamos pela intimidade privada mesmoquando nos dizem que deveramos ansiar por outra coisa, algo melhor, algo mais nobre. E noparamos de ansiar pela intimidade privada, e por razes s nossas e profundamente pessoais. Ningumjamais conseguiu explicar esse mistrio inteiramente e ningum jamais conseguiu nos impedirde querer.

    Como escreve Ferdinand Mount, apesar de todo esforo oficial para rebaixar a famlia,para reduzir o seu papel e at para elimin-la, os homens e mulheres continuam obstinados nos a se acasalar e produzir filhos como a insistir em viver juntos em pares. (E, alis, euacrescentaria a essa ideia que homens e homens tambm insistem em viver juntos em pares. Eque mulheres e mulheres tambm insistem em viver juntas em pares. E tudo isso deixa asautoridades ainda mais malucas.)

    Diante dessa realidade, as autoridades repressoras sempre acabam cedendo, curvando-se finalmente inevitabilidade da parceria humana. Mas no cedem sem luta, esses incmodospoderes constitudos. H um padro na sua desistncia, um padro que Mount afirma serconstante em toda a histria ocidental. Primeiro, aos poucos as autoridades constatam que soincapazes de impedir que as pessoas prefiram a lealdade ao parceiro lealdade a algumacausa maior e que, portanto, o casamento no vai desaparecer. Mas, assim que desistem deeliminar o casamento, tentam control-lo, criando todo tipo de limite e lei restritiva em torno docostume. Por exemplo, na Idade Mdia, quando finalmente se renderam existncia domatrimnio, os padres imediatamente amontoaram sobre a instituio uma pilha gigantesca denovas e duras condies: no haveria divrcio; o casamento teria de ser um sacramentosagrado e inviolvel; ningum poderia se casar fora das vistas do padre; as mulheres tinhamde curvar-se lei da coverture etc. Depois, a igreja quase enlouqueceu tentando impor aocasamento todo esse controle, at no nvel mais ntimo da sexualidade conjugal privada.

    Por exemplo, em Florena, no sculo XVII, um monge (e portanto, celibatrio) chamadofrei Cherubino foi encarregado da tarefa extraordinria de escrever, para maridos e mulherescristos, um manual que esclarecesse as regras sobre quais relaes sexuais eramconsideradas aceitveis dentro do casamento cristo e quais no eram. A atividade sexual,ensinava o frei Cherubino, no deveria envolver os olhos, o nariz, as orelhas, a lngua nemoutras partes do corpo que no sejam de modo algum necessrias para a procriao. Aesposa podia olhar as partes pudendas do marido, mas s se ele estivesse doente, e noporque fosse excitante, e nunca vos permitais, mulher, ser vista nua por vosso marido. Eembora fosse permissvel aos cristos tomarem banho de vez em quando, claro que seriaterrivelmente pecaminoso tentar cheirar bem para atrair sexualmente o cnjuge. Tambmnunca se devia beijar o cnjuge usando a lngua. Em lugar nenhum! O diabo sabe muito bemcomo agir entre marido e mulher, lamentava-se o frei Cherubino. Ele os faz tocarem ebeijarem no apenas as partes honestas, mas tambm as desonestas. S de pensar nisso ficoinundado de horror, medo e perplexidade...

  • claro que, no que dizia respeito Igreja, o mais horrvel, assustador e causador deperplexidade era o fato de o leito conjugal ser to privado e, portanto, to absolutamenteincontrolvel. Nem mesmo o monge florentino mais vigilante conseguiria impedir asinvestigaes de duas lnguas privadas num quarto particular no meio da noite. E nenhummonge conseguiria controlar o que todas essas lnguas diziam depois que o ato de amorterminava e talvez fosse essa a realidade mais ameaadora de todas. Mesmo naquela pocato repressora, depois que as portas se fechavam e as pessoas podiam fazer suas escolhas,cada casal definia os seus termos de expresso ntima.

    No final, os casais tendem a vencer.Depois de no conseguir eliminar o casamento e depois de no conseguir controlar o

    casamento, as autoridades desistem e abraam plenamente a tradio matrimonial. (Oengraado que Ferdinand Mount chama isso de assinar o tratado de paz unilateral.) Mas avem um estgio ainda mais esquisito: como o mecanismo de um relgio, os poderesconstitudos tentaro cooptar a noo de matrimnio, chegando a ponto de fingir que forameles que inventaram o casamento. isso o que a liderana crist conservadora vem fazendo nomundo ocidental j h vrios sculos: agindo como se tivesse criado pessoalmente toda atradio do casamento e dos valores familiares, quando na verdade a religio deles comeoucom um ataque bastante intenso ao casamento e aos valores familiares.

    Esse o padro que aconteceu com os soviticos e tambm com os chineses no sculoXX. Primeiro, os comunistas tentaram eliminar o casamento; depois, tentaram controlar ocasamento; depois, fabricaram toda uma nova mitologia para afirmar que a famlia semprefoi a coluna vertebral da boa sociedade comunista, voc no sabia?

    Enquanto isso, durante toda essa histria retorcida, durante todo o vaivm de ditadores,dspotas, padres e agressores, o povo continuou se casando, ou seja l como se queira chamarisso a cada momento. Por mais que as unies fossem disfuncionais, tumultuadas e insensatas,ou mesmo secretas, ilegais, sem nome e rebatizadas, todos continuaram a insistir em se fundirum com o outro segundo termos prprios. Lidaram com todas as mudanas legais econtornaram todas as restries limitadoras da sua poca para obter o que queriam. Ousimplesmente ignoraram todas as restries limitadoras da poca! Como se queixou um ministroanglicano da colnia americana de Maryland, em 1750, se fosse obrigado a reconhecer comocasados apenas os casais que tivessem selado oficialmente a situao numa igreja teria deconsiderar bastardos nove dcimos das pessoas deste condado.

    Ningum espera permisso; todos vo adiante e criam o que precisam. At os escravosafricanos dos primrdios da histria norte-americana inventaram uma forma profundamentesubversiva de casamento, chamada casamento da vassoura, em que o casal pulava sobre umcabo de vassoura enviesado num portal e se declarava casado. E ningum podia impedir essesescravos de assumir esse compromisso oculto num momento de invisibilidade roubada.

    Assim, vista sob essa luz, para mim toda a noo de casamento ocidental muda mudaa ponto de parecer revolucionria, de forma tranquila e pessoal. como se todo o quadro

  • histrico se deslocasse um delicado centmetro e, de repente, tudo se alinhasse de outra forma.De repente, o casamento legal comea a parecer menos uma instituio (um sistema estrito,esttico, tacanho e desumanizador imposto por autoridades poderosas a indivduos indefesos)e mais uma concesso bastante desesperada (uma tentativa das autoridades indefesas demonitorar o comportamento incontrolvel de dois indivduos poderosssimos).

    Portanto, no somos ns, como indivduos, que devemos nos curvar com desconforto instituio do casamento; em vez disso, a instituio do casamento que tem de se curvar comdesconforto diante de ns. Afinal, eles (os poderes constitudos) nunca conseguiram impedirtotalmente que ns (duas pessoas) interligssemos a nossa vida e crissemos um mundosecreto s nosso. E assim, eles acabam no tendo opo seno permitir legalmente a nsque nos casemos, de algum modo ou forma, por mais restritivas que possam parecer as suasdeterminaes. O governo vai correndo atrs do povo, se esforando para acompanhar oritmo, atrasado e em desespero (e, muitas vezes, de forma ineficaz e at cmica), criandoregras e tradies em torno de algo que sempre faremos, queiram ou no.

    Assim, talvez o tempo todo eu tenha entendido essa histria deliciosamente ao contrrio.Dizer que a sociedade inventou o casamento e depois obrigou os seres humanos a se uniremtalvez seja absurdo. como sugerir que a sociedade inventou os dentistas e depois obrigou aspessoas a ter dentes. Ns inventamos o casamento. Os casais inventaram o casamento. Tambminventamos o divrcio, veja bem. E inventamos tambm a infidelidade, alm do sofrimentoromntico. Na verdade, inventamos toda essa baguna horrvel de amor, intimidade, averso,euforia e fracasso. Mas o mais importante, o mais subversivo, o mais teimoso, queinventamos a privacidade.

    At certo ponto, portanto, Felipe estava certo: o casamento um jogo. Eles (os ansiosose poderosos) do as regras. Ns (os comuns e subversivos) nos curvamos obedientes a essasregras. E a vamos para casa e fazemos o que queremos de qualquer jeito.

    Parece que aqui estou tentando me convencer de alguma coisa?Gente, aqui estou tentando me convencer de alguma coisa.Este livro inteiro, cada pgina dele, foi um esforo de vasculhar a histria complexa do

    casamento ocidental at descobrir nela um lugarzinho confortvel para mim. Esse confortonem sempre fcil de achar. No dia do casamento da minha amiga Jean, h trinta anos, elaperguntou me:

    Todas as noivas se sentem assim to apavoradas quando esto prestes a se casar?E a me respondeu, enquanto abotoava calmamente o vestido branco da filha: No, querida. S as que pensam.Bom, estive pensando muito sobre tudo isso. Para mim, no foi fcil pular para dentro do

    casamento, mas talvez no devesse mesmo ser fcil. Talvez seja bom que eu tivesse de serconvencida a me casar at mesmo vigorosamente convencida , ainda mais porque sou

  • mulher e porque o casamento nem sempre tratou bem as mulheres.Algumas culturas parecem entender melhor do que outras a necessidade de

    convencimento conjugal feminino. Em algumas culturas, a tarefa de incitar vigorosamente amulher a aceitar um pedido de casamento evoluiu para uma cerimnia e at para umaverdadeira forma de arte. Em Roma, no bairro operrio de Trastevere, uma forte tradioainda exige que o rapaz que quer se casar com uma moa faa uma serenata pblica para aamada diante da casa onde ela mora. Ele tem de pedir a mo dela cantando, bem ali, na rua,onde todos podem ver. claro que muitas culturas mediterrneas tm esse tipo de tradio,mas em Trastevere eles levam tudo muito a srio.

    A cena sempre comea da mesma maneira. O rapaz chega casa da amada com um grupode amigos e vrios violes. Eles se juntam debaixo da janela da moa e cantam a plenospulmes, no sonoro e rude dialeto local, uma msica com o ttulo nada romntico de Roma, nunfala stupida stasera! (Roma, no seja estpida esta noite!). Afinal, na verdade o rapaz no estcantando diretamente para a amada; ele no ousaria. O que ele quer dela (a mo, a vida, ocorpo, a alma, a devoo) to monumental que assustador demais fazer o pedidodiretamente. Em vez disso, ele dirige o canto a toda a cidade de Roma, gritando com Romanuma urgncia emocional que crua, crassa e insistente. Com todo o seu corao, ele implora cidade que o ajude nessa noite a seduzir essa mulher a se casar.

    Roma, no seja estpida esta noite!, canta o rapaz sob a janela da moa. Ajude-me!Afaste as nuvens do rosto da Lua, s para ns! Que cintilem as estrelas mais brilhantes! Sopre,seu vento oeste filho da puta! Sopre o seu ar perfumado! Que parea ser primavera!

    Quando os primeiros acordes dessa msica conhecida comeam a soar pelo bairro,todos vo janela, e assim comea a parte espantosa da participao do pblico na diversoda noite. Todos os homens ao alcance da voz se inclinam para fora da janela e sacodem opunho para o cu, ralhando com a cidade de Roma por no ajudar devidamente o rapaz com oseu pedido de casamento. Todos os homens bradam em unssono: Roma, no seja estpidaesta noite! Ajude-o!

    Ento, a moa em pessoa, o objeto do desejo, chega janela. Ela tambm tem de cantaruma estrofe da msica, mas a sua letra muito diferente. Quando chega a sua vez, ela tambmimplora que Roma no seja estpida esta noite. Tambm pede cidade que a ajude. Mas o queela pede totalmente diferente. Ela pede foras para recusar o pedido de casamento.

    Roma, no seja estpida esta noite!, implora ela cantando. Devolva as nuvens porsobre a Lua! Esconda as estrelas mais brilhantes! Pare de soprar, seu vento oeste filho daputa! Esconda o ar perfumado da primavera! Me ajude a resistir!

    Todas as mulheres do bairro botam o corpo para fora das suas janelas e cantam bem alto,junto com a moa: Roma, por favor, a ajude!

    Isso vira um duelo desesperado entre as vozes dos homens e das mulheres. A cena ficato furiosa que parece mesmo que todas as mulheres de Trastevere imploram pela vida. Omais estranho que parece que todos os homens de Trastevere tambm imploram pela vida.

  • No fervor da troca, fcil deixar de ver que, no final, tudo apenas um jogo. Desde oincio da serenata, afinal de contas, todos sabem como a histria vai acabar. Se a moa chegou janela, se ela apenas olhou o pretendente na rua, significa que j aceitou o pedido decasamento. Ao simplesmente participar da sua metade do espetculo, a moa demonstrou o seuamor. Mas, por certa sensao de orgulho (ou talvez por certa sensao de medo muitojustificvel), a moa deve esquivar-se, no mnimo para exprimir as suas dvidas e hesitaes.Tem de deixar bem claro que ser preciso todo o grande poder do amor desse rapaz,combinado com toda a beleza pica de Roma, todo o brilho das estrelas, toda a seduo daLua cheia e todo o perfume daquele vento oeste filho da puta para que diga sim.

    Devido a tudo com que ela est concordando, pode-se argumentar que todo esseespetculo e toda essa resistncia so necessrios.

    De qualquer modo, foi disso que tambm precisei: uma msica clamorosa deautopersuaso sobre casamento, cantada a plenos pulmes na minha rua, debaixo da minhajanela, at que finalmente eu conseguisse relaxar e aceitar. O tempo todo, foi esse o propsitode tanto esforo. Por isso, me desculpem se, no fim da histria, parece que estou me agarrandoa qualquer bobagem para chegar a concluses confortadoras sobre matrimnio. Preciso dessasbobagens; preciso desse conforto. Sem dvida, precisei da teoria tranquilizadora deFerdinand Mount de que, quando se olha o casamento sob certa luz, d para defender que ainstituio intrinsecamente subversiva. Recebi essa teoria como um timo blsamo calmante.Agora, talvez essa teoria no sirva para voc. Talvez voc no precise dela como precisei.Talvez a tese de Mount nem seja historicamente correta. Ainda assim, fico com ela. Como boaquase-brasileira, vou pegar esse verso da msica do convencimento e me apossar dele, no sporque me encoraja, mas porque, na verdade, tambm me excita.

    Com isso, encontrei finalmente o meu cantinho dentro da histria longa e interessante domatrimnio. Assim, aqui que amarro o meu burro, bem aqui, nesse lugar de subversotranquila, com todas as lembranas dos outros casais teimosos e apaixonados de todos ostempos que tambm suportaram todo tipo de bobagem irritante e invasiva para conseguir oque, no fundo, queriam: um pouquinho de privacidade para praticar o amor.

    Finalmente, sozinha naquele canto com o meu querido, tudo dar certo, e tudo dar certo,e todo tipo de coisa dar certo.

  • CAPTULO OITO

    Casamento e cerimniaNADA DE NOVO POR AQUI, EXCETO QUE ME CASEI, O QUE PARA MIM RAZO DE PROFUNDO

    ESPANTO.

    Abraham Lincoln, numa carta de 1842 a Samuel Marshall

    D

    Depois disso, tudo foi muito rpido.Em dezembro de 2006, Felipe ainda no tinha obtido os documentos de imigrao, mas

    sentamos que a vitria estava prxima. Na verdade, decidimos que a vitria estava prxima e,assim, avanamos e fizemos a nica coisa especfica que o Departamento de Segurana Internadiz expressamente que no se deve fazer durante a espera do visto de imigrao do parceiro:planos.

    A primeira prioridade? Precisvamos de um lugar permanente para morar depois decasados. Chega de alugar, chega de perambular. Precisvamos de uma casa s nossa. Assim,enquanto ainda estava l em Bali com Felipe, comecei a procurar casas na internet, a srio eabertamente, atrs de alguma coisa num lugar rural e tranquilo a uma distncia confortvel deminha irm na Filadlfia. meio maluco procurar casa quando no podemos, na verdade, veras casas, mas eu tinha uma imagem clara do que precisvamos: um lar inspirado no poema daminha amiga Kate Light sobre a sua verso de domesticidade perfeita: Uma casa no campopara descobrir a verdade/ algumas camisas de linho, algumas obras de arte/ e voc.

    Eu sabia que reconheceria o lugar quando o encontrasse. E a encontrei, escondido numacidadezinha fabril em Nova Jersey. Ou melhor, na verdade no era uma casa, mas uma igreja uma capela presbiteriana quadrada e minscula, construda em 1802, que algumtransformou habilmente em moradia. Dois quartos, uma cozinha compacta e um grandesanturio onde a congregao costumava se reunir. Janelas de vidro ondulado com quatrometros e meio de altura. Um bordo grande no jardim da frente. Era isso. Do outro lado doplaneta, fiz uma oferta sem sequer ver a propriedade pessoalmente. Alguns dias depois, l nadistante Nova Jersey, os proprietrios aceitaram a minha oferta.

    Temos uma casa! anunciei triunfante a Felipe.

  • Que maravilha, querida disse ele. Agora s precisamos de um pas.Assim, parti para nos garantir um pas, ora bolas. Voltei sozinha aos Estados Unidos,

    pouco antes do Natal, e cuidei de todos os nossos negcios. Assinei os documentos da comprada casa, tirei os nossos pertences do depsito, aluguei um carro, comprei um colcho.Encontrei um lugar numa aldeia prxima para guardar as mercadorias e pedras preciosas deFelipe. Registrei o negcio dele como empresa em Nova Jersey. Tudo isso antes mesmo desaber com certeza se ele teria permisso de voltar ao pas. Em outras palavras, eu nos instaleiantes mesmo que fssemos oficialmente ns.

    Enquanto isso, em Bali, Felipe mergulhou nos ltimos preparativos frenticos para afutura entrevista no consulado americano em Sydney. Conforme a data da entrevista seavizinhava (diziam que seria em algum dia de janeiro), as nossas conversas distncia setornaram quase totalmente administrativas. Perdemos toda noo de romance no haviatempo para isso enquanto eu estudava as listas burocrticas uma dzia de vezes, paragarantir que ele conseguira todos os documentos que teria de mostrar s autoridadesamericanas. Em vez de lhe mandar mensagens de amor, agora eu lhe enviava e-mails dizendo:Querido, o advogado diz que tenho de ir Filadlfia buscar pessoalmente os formulrios,porque tm um cdigo de barras especial que no d para passar por fax. Assim que eu lheenviar, a primeira coisa que voc tem de fazer assinar e datar o formulrio DS-230 Parte I emand-lo para o consulado com os anexos. Voc vai ter de levar o DS-156 original e todos osoutros documentos da imigrao para a entrevista, mas no se esquea: enquanto no estiver lna frente do entrevistador americano, NO ASSINE O FORMULRIO DS-156!!!

    No entanto, quase no ltimo minuto, poucos dias antes da data marcada para a entrevista,percebemos que tnhamos danado. Faltava a cpia da ficha policial de Felipe no Brasil. Oumelhor, faltava um documento que provasse que Felipe no tinha uma ficha policial no Brasil.No sei como essa pea fundamental do dossi escapou nossa ateno. Seguiu-se umahorrvel agitao de pnico. Isso atrasaria todo o processo? Seria possvel conseguir umnada-consta brasileiro sem que Felipe tivesse de ir ao Brasil busc-lo pessoalmente?

    Depois de alguns dias de telefonemas internacionais complicadssimos, Felipe conseguiuconvencer Armnia, a nossa amiga brasileira, mulher de carisma e engenhosidade muitolouvados, a ficar na fila o dia inteiro, numa delegacia do Rio de Janeiro, para convencer oinspetor a entregar a ela o nada-consta brasileiro de Felipe. (Houve uma certa simetria poticano fato de que, no final, foi ela que nos salvou, pois foi ela quem nos apresentou trs anosantes num jantar em Bali.) Depois, Armnia mandou os documentos num voo noturno paraFelipe em Bali, bem a tempo de ele voar at Jacarta durante a mono para procurar umtradutor juramentado que pudesse passar toda aquela papelada brasileira para o inglsnecessrio na presena do nico tabelio de lngua portuguesa autorizado pelo governoamericano em toda a nao da Indonsia.

    tudo muito simples me tranquilizou Felipe no meio da noite, telefonando de umriquix na torrencial chuva javanesa. Vamos conseguir. Vamos conseguir. Vamos

  • conseguir.Na manh de 18 de janeiro de 2007, Felipe era o primeiro da fila no consulado

    americano em Sydney. No dormia havia dias, mas estava pronto, levando consigo uma pilhade papis de complexidade apavorante: registros do governo, exames mdicos, certides denascimento e montes de outras provas. No cortava o cabelo havia muito tempo e aindacalava as sandlias da viagem. Mas tudo bem. No davam a mnima para a aparncia dele,bastava estar de acordo com a lei. E, apesar de algumas perguntas irritadas do agente daImigrao sobre o que exatamente Felipe fora fazer na pennsula do Sinai em 1975 (aresposta? apaixonar-se por uma linda mocinha israelense de 17 anos, naturalmente), aentrevista correu bem. E quando tudo acabou, finalmente, com aquele tump gratificante ebibliotecrio no passaporte, lhe concederam o visto.

    Boa sorte no seu casamento disse o agente americano ao meu noivo brasileiro, eFelipe estava livre.

    Na manh seguinte, pegou um voo da Chinese Airlines que o levou de Sydney paraTaipei e depois para o Alasca. Em Anchorage, conseguiu passar pela alfndega e pelaImigrao americanas e embarcou num avio para o aeroporto JFK. Algumas horas depois,percorri uma noite de inverno geladssima para receb-lo.

    E, embora eu goste de acreditar que me aguentei com um mnimo de estoicismo duranteos dez meses anteriores, tenho de confessar que desmoronei totalmente assim que cheguei aoaeroporto. Agora que ele estava to perto de estar em casa so e salvo, todos os temores queeu vinha sufocando desde a priso de Felipe comearam a transbordar s claras. Fiquei tonta,comecei a tremer e, de repente, tive medo de tudo. Tive medo de estar no aeroporto errado, nahora errada, no dia errado. (Devo ter conferido o itinerrio 75 vezes, mas ainda estavapreocupada.) Tive medo de que o avio de Felipe casse. Tive um medo retroativo e quaseinsano de que ele no passasse na entrevista de imigrao na Austrlia, quando, na verdade,ele tinha acabara de ser aprovado na entrevista de imigrao na Austrlia um dia antes.

    E mesmo ento, mesmo que o quadro de chegadas anunciasse claramente que o voo deletinha pousado, tive um medo perverso de que o avio no tivesse pousado, que nuncapousasse. E se ele no sair do avio? E se ele sair do avio e for preso de novo? Por que estava demorando tantopara sair do avio? Eu examinava o rosto de todos os passageiros que desciam o corredor dodesembarque, procurando Felipe da forma mais ridcula. Irracionalmente, tive de olhar duasvezes cada velhinha chinesa de bengala e cada criana de colo para ter absoluta certeza deque no era ele. Estava com dificuldade de respirar. Como uma criana perdida, quase corripara pedir ajuda a um policial mas ajuda em qu?

    Ento, de repente, era ele.Eu o reconheceria em qualquer lugar. Para mim, o rosto mais familiar do mundo. Ele

    vinha correndo pelo desembarque, procurando por mim com a mesma expresso ansiosa quetenho certeza de que eu tambm exibia. Vestia as mesmas roupas do dia em que fora preso emDallas, dez meses antes, as mesmas roupas que vinha usando praticamente todos os dias

  • durante todo aquele ano, pelo mundo inteiro. Estava meio pudo nas beiradas, verdade, maspara mim parecia poderoso assim mesmo, os olhos ardentes com o esforo de me avistar namultido. No era uma velhinha chinesa, no era uma criana de colo, no era mais ningum.Era Felipe, o meu Felipe, o meu ser humano, a minha bala de canho e a ele me viu, e veiovoando para mim, e quase me derrubou com a fora do impacto.

    Rodamos e rodamos at voltarmos para casa, ns dois, escreveu Walt Whitman.Esvaziamos tudo menos a liberdade e tudo menos a nossa alegria.

    E agora, no conseguamos nos soltar, e por alguma razo eu simplesmente noconseguia parar de chorar.

    Dali a poucos dias, nos casamos. Nos casamos na nossa casa nova, naquela velha igrejaesquisita, numa tarde fria de domingo, em fevereiro. Acontece que muito conveniente possuiruma igreja quando temos de nos casar.

    A certido de casamento nos custou 28 dlares e o xerox de uma conta de luz, gua outelefone. Os convidados foram: meus pais (casados h quarenta anos), meu tio Terry com a tiaDeborah (casados h vinte anos), minha irm com o marido (casados h quinze anos), meuamigo Jim Smith (divorciado h 25 anos) e Toby, o cachorro da famlia (nunca casado,bissimpatizante). Todos gostaramos que os filhos de Felipe (solteiros) tivessem vindotambm, mas o casamento aconteceu to depressa que no havia como eles chegarem a tempoda Austrlia. Tivemos de nos contentar com alguns telefonemas empolgados, mas nopodamos nos atrasar. Precisvamos selar o acordo imediatamente para proteger o lugar deFelipe em solo americano com um vnculo legal inviolvel.

    No final, decidimos que, afinal de contas, queramos algumas testemunhas no nossocasamento. O meu amigo Brian estava certo: o casamento no um ato de orao privada. Emvez disso, uma questo tanto pblica quanto privada, com consequncias no mundo real.Embora os termos ntimos do nosso relacionamento pertenam sempre apenas a mim e aFelipe, era importante lembrar que uma pequena parte do nosso casamento sempre pertenceriatambm nossa famlia, a todas aquelas pessoas que seriam as mais afetadas pelo nossosucesso ou pelo nosso fracasso. Assim, precisavam estar presentes naquele dia para enfatizaressa questo. Tambm tive de admitir que outra pequena parte dos nossos votos, queiramos ouno, sempre pertenceriam ao Estado. Afinal de contas, foi isso que tornou esse casamentolegal.

    Mas a menor parte e a mais interessante dos nossos votos pertencia histria, a cujosps imensos e impressionantes todos temos de acabar nos curvando. O ponto onde pousamosna histria determina, em boa parte, como sero e soaro os votos do casamento. Como poracaso Felipe e eu pousamos bem aqui, nessa pequena cidade fabril do estado-jardim deNova Jersey no ano de 2007, decidimos no fazer as nossas promessas pessoaisidiossincrsicas por escrito (afinal de contas, isso j tnhamos feito em Knoxville), masreconhecer o nosso lugar na histria repetindo os votos bsicos e seculares daquele mesmoestado. Era como um gesto adequado de concordncia com a realidade.

  • claro que a minha sobrinha e meu sobrinho tambm compareceram ao casamento. Nick,o gnio teatral, estava ali para ler um poema comemorativo.

    E Mimi? Ela me encurralara uma semana antes e perguntara: Esse vai ser um casamento de verdade ou no? Depende respondi. Para voc, o que um casamento de verdade? Casamentos de verdade tm daminha respondeu Mimi. Uma daminha de vestido

    rosa. E que leve flores. No um buqu de flores, mas uma cestinha com ptalas de rosa. E noptalas de rosa cor de rosa, mas ptalas de rosas amarelas. E a daminha vai entrar na frente danoiva, jogando no cho as ptalas de rosas amarelas. Vai ter isso?

    No sei disse eu. Acho que depende de encontrarmos por a alguma menina queconsiga fazer o servio. Tem alguma sugesto?

    Acho que eu conseguiria respondeu ela lentamente, olhando para longe com umademonstrao perfeita de falsa indiferena. Quero dizer, se voc no encontrar maisningum...

    E assim, tivemos um casamento de verdade, mesmo segundo os padres exigentes deMimi. Mas, fora a nossa arrumadssima daminha, foi uma cerimnia bem informal. Usei o meusuter vermelho preferido. O noivo usou camisa azul (a que estava limpa). Jim Smith tocouviolo, e a minha tia Deborah, cantora de pera formada, cantou La Vie en Rose s paraFelipe. Parece que ningum ligou para o fato de que a casa ainda estava cheia de caixotes equase sem moblia. O nico cmodo que dava para usar direito era a cozinha, e isso para queFelipe pudesse preparar um almoo de casamento para todos. Ele estava cozinhando haviadois dias e tivemos de lembr-lo de tirar o avental quando chegou a hora de nos casarmos.(timo sinal, observou a minha me.)

    O nosso casamento foi realizado por um bom homem chamado Harry Furstenberger,prefeito dessa cidadezinha de Nova Jersey. Quando o prefeito Harry entrou pela porta, meupai lhe perguntou diretamente:

    O senhor democrata ou republicano? porque sabia que, para mim, isso eraimportante.

    Republicano disse o prefeito Harry.Seguiu-se um momento tenso de silncio. Ento, minha irm me cochichou: Liz, na verdade, para esse tipo de coisa, bom voc querer um republicano. S para

    garantir que o casamento seja aceito pela Segurana Interna, sabe?E fomos em frente.Todos vocs conhecem o padro bsico de votos conjugais americanos e no vou repetir

    tudo aqui. Basta dizer que repetimos tudo l. Sem ironia nem hesitao, trocamos os nossosvotos na presena da minha famlia, na presena do nosso amigvel prefeito republicano, napresena de uma daminha de verdade e na presena de Toby, o co. Na verdade, Toby, aosentir a importncia do momento, se enrolou no cho bem entre mim e Felipe na hora exata emque selvamos essas promessas. Tivemos de nos inclinar sobre ele para nos beijar. Isso foi

  • auspicioso; nos retratos de casamento medievais, comum ver a imagem de um co pintadoentre os recm-casados o smbolo supremo da fidelidade.

    Quando tudo terminou e, na verdade, no levou muito tempo, considerando-se amagnitude do evento Felipe e eu estvamos final e legalmente casados. Depois, todos nossentamos juntos para almoar: o prefeito, o meu amigo Jim, a minha famlia, as crianas e omeu novo marido. Naquela tarde, eu no tinha como saber com certeza quanta paz econtentamento me aguardavam nesse casamento (leitor: agora eu sei), mas me senti calma e gratamesmo assim. Foi um dia maravilhoso. Houve muito vinho e muitos brindes. Os bales queNick e Mimi tinham trazido subiram lentamente para o teto empoeirado da velha igreja e lficaram balanando sobre ns. Todos poderiam ter ficado mais tempo, mas ao anoitecercomeou a gear e os nossos convidados juntaram os pertences e casacos, ansiosos para pegara estrada enquanto ainda dava.

    Logo, todos foram embora.E Felipe e eu finalmente ficamos sozinhos para lavar os pratos do almoo e comear a

    arrumar a nossa casa.

  • Agradecimentos

    Este livro no uma obra de fico. Recriei todas as conversas e incidentes da melhormaneira possvel, mas s vezes, em nome da coerncia narrativa, juntei num trecho s fatos econversas que podem ter ocorrido no decorrer de vrios dias. Alm disso, mudei o nome dealguns personagens da histria (mas no todos) para proteger a privacidade de algumaspessoas que talvez no pretendessem, quando os seus caminhos se cruzaram por acaso com omeu, aparecer depois num livro. Agradeo a Chris Langford por me ajudar a encontrarapelidos adequados para essa boa gente.

    No sou acadmica profissional, sociloga, psicloga nem especialista em casamento.Fiz o que pude neste livro para discutir a histria do matrimnio da maneira mais exatapossvel, mas, para isso, tive de me basear muito na obra de estudiosos e escritores quededicaram ao tema toda a sua vida profissional. No vou listar aqui uma bibliografia inteira,mas quero exprimir a minha gratido especial a alguns autores especficos.

    A obra da historiadora Stephanie Coontz foi a luz que me guiou nesses trs ltimos anosde estudo, e no posso deixar de recomendar o seu livro fascinante e extremamente gostoso deler, Marriage: A History (Casamento: uma histria). Tambm tenho uma dvida enorme para comNancy Cott, Eileen Powers, William Jordan, Erika Uitz, Rudolph M. Bell, Deborah Luepnitz,Zygmunt Bauman, Leonard Shlain, Helen Fisher, John Gottman e Julie Schwartz-Gottman,Evan Wolfson, Shirley Glass, Andrew J. Cherkin, Ferdinand Mount, Anne Fadiman (pelo textoextraordinrio sobre os hmong), Allan Bloom (pelas elucubraes sobre a linha divisriafilosfica entre gregos e hebraicos), os muitos autores do estudo sobre casamento daUniversidade Rutgers e o mais delicioso e inesperado: Honor de Balzac.

    Alm desses escritores, a pessoa mais influente na configurao deste livro foi a minhaamiga Anne Connell, que revisou, conferiu os fatos e corrigiu o manuscrito minuciosamentecom os seus olhos binicos, o mgico lpis dourado e a percia inigualvel nas redes dainternet. Ningum e quero dizer ningum mesmo chega aos ps da Escrutatrix emmeticulosidade editorial. Tenho de agradecer a Anne pelo fato de este livro estar dividido emcaptulos, de a palavra realmente no aparecer quatro vezes em cada pargrafo e de todas asrs destas pginas terem sido corretamente identificadas como anfbios e no como rpteis.

    Agradeo a minha irm Catherine Gilbert Murdock, que, alm de escritora talentosa defico para jovens (o seu maravilhoso Dairy Queen leitura indispensvel para todas asmeninas pensantes de 10 a 16 anos), tambm minha amiga muito amada e o maior modelointelectual da minha vida. Ela tambm leu este livro com cuidado prolongado, me salvando demuitos erros de pensamento e de falhas de sequncia. Dito isso, o que mais me espanta no tanto a compreenso abrangente que Catherine tem da histria ocidental, mas o seu estranhotalento de saber, sei l como, o quanto a irm saudosa precisa receber por via area pijamasnovos, mesmo quando essa irm est em Bangcoc se sentindo muito solitria. Em troca de toda

  • a gentileza e generosidade de Catherine, eu lhe dediquei uma nica nota de rodap redigidacom amor.

    Agradeo a todos os outros leitores prvios deste livro pelas ideias e encorajamento:Darcey, Cat, Ann (a palavra paquidrmica para ela), Cree, Brian (entre ns, este livrosempre ser chamado de Casamentos e despejos), mame, papai, Sheryl, Iva, Bernadette, Terry,Deborah (que sugeriu gentilmente que talvez eu quisesse mencionar a palavra feminismonum livro sobre casamento), tio Nick (o meu mais leal defensor desde sempre), Susan, Shea(que, durante horas e horas e horas, escutou as minhas primeiras ideias sobre este assunto),Margaret, Sarah, Jonny e John.

    Agradeo a Michael Knight por me oferecer um emprego e uma sala em Knoxville, em2005, e por me conhecer bastante bem para perceber que eu preferiria muito mais morar numvelho hotel-residncia maluco do que em todos os outros pontos da cidade.

    Agradeo a Peter e Marianne Blythe por dividir com Felipe o sof e a coragem quandoele pousou na Austrlia desesperado e recm-sado da cadeia. Com dois bebs novinhos, umcachorro, um passarinho e a maravilhosa e pequena Tayla, todos morando sob o mesmo teto, acasa dos Blythe j estava cheia demais, mas Peter e Marianne deram um jeito de abrir espaopara mais um refugiado carente. Tambm agradeo a Rick e Clare Hinton, em Canberra, porconduzir a parte australiana do processo de imigrao de Felipe e por cuidar diligentementeda correspondncia. Mesmo a meio mundo de distncia, foram vizinhos perfeitos.

    Por falar em grandes australianos, agradeo a Erica, Zo e Tara, meus espantososenteados e nora, por me receber to bem na sua vida. Tenho de dar especialmente a Erica ocrdito pelo cumprimento mais doce que j recebi na vida: Obrigada, Liz, por no ser umaloira burra. (Obrigada, querida. E o mesmo para voc.)

    Agradeo a Ernie Sesskin, Brian Foster e Eileen Marolla por conduzir, por pura bondadeimobiliria do seu corao, toda a transao complicada de ajudar Felipe e eu a comprar umacasa em Nova Jersey estando no outro lado do mundo. No h nada melhor do que receberuma planta desenhada mo s trs da manh para saber que algum nos d apoio.

    Agradeo a Armnia de Oliveira por entrar em ao no Rio de Janeiro e salvar oprocesso de imigrao de Felipe bem no finalzinho. Tambm na frente brasileira, comosempre, tivemos os maravilhosos Claucia e Fernando Chevarria, que foram to incansveis nabusca dos antigos registros militares quanto no encorajamento e no amor.

    Agradeo a Brian Getson, o nosso advogado de imigrao, pela meticulosidade epacincia, e agradeo a Andrew Brenner por ter nos ajudado a encontrar Brian.

    Agradeo a Tanya Hughes (por me oferecer um quarto s meu no comeo desteprocesso) e Rayya Elias (por me oferecer um quarto s meu no final).

    Agradeo a Roger LaPhoque e ao dr. Charles Henn pela hospitalidade e elegncia noosis acessvel do Atlanta Hotel, em Bangcoc. O Atlanta uma maravilha que preciso verpara crer, e nem assim d para acreditar.

    Agradeo a Sarah Chalfant pela confiana infinita em mim e pelos anos de proteo

  • envolvente e constante. Agradeo a Kassie Evashevski, Ernie Marshall, Miriam Feuerle eJulie Mancini por fechar o crculo.

    Agradeo a Paul Slovak, Clare Ferraro, Kathryn Court e a todo mundo da Viking Penguinpela pacincia enquanto eu escrevia este livro. No resta muita gente no mundo das editorascapaz de dizer Leve o tempo necessrio para uma escritora que acabou de furar um prazoimportante. Durante todo esse processo, ningum (a no ser eu mesma) me pressionou demodo algum, e essa foi uma ddiva rara. O seu carinho remonta a um modo mais antigo egracioso de fazer negcios e sou grata por ter sido a destinatria de tanta decncia.

    Agradeo minha famlia, principalmente aos meus pais e minha av Maude Olson,por no hesitar em permitir que eu examinasse por escrito os meus sentimentos mais pessoaissobre algumas das decises mais complicadas que tomaram na vida.

    Agradeo ao agente Tom do Departamento de Segurana Interna dos Estados Unidos portratar Felipe com um grau de gentileza to inesperado durante a sua priso. E essa a frasemais surreal que j escrevi na vida, mas a est. (Nem mesmo sabemos se o seu nome mesmoTom, mas foi assim que nos lembramos, e espero que pelo menos o senhor saiba quem : umagente do destino muito improvvel que tornou uma experincia ruim bem menos pior do quepoderia ser.)

    Agradeo a Frenchtown por nos trazer para casa.Finalmente, ofereo a minha maior gratido ao homem que hoje meu marido. Por

    natureza, ele uma pessoa discreta, mas infelizmente a sua privacidade acabou no dia em queme conheceu. (Hoje, uma quantidade absurda de estranhos do mundo inteiro o conhece comoaquele brasileiro de Comer, rezar, amar .) Em minha defesa, tenho a dizer que lhe dei umaoportunidade prvia de evitar toda essa exposio. Naquela poca, quando ainda estvamosnamorando, houve um momento estranho em que tive de confessar que era escritora e explicaro que isso significaria para ele. Avisei que, se ficasse comigo, acabaria revelado nos meuslivros e histrias. No havia como contornar; simplesmente, era assim. Deixei claro que amelhor opo seria ir embora bem ali, quando ainda havia tempo para escapar com adignidade e a discrio intactas.

    Mas, apesar de todos os meus avisos, ele ficou. E ainda est comigo. Acredito que essefoi um grande ato de amor e compaixo por parte dele. Em certo ponto da histria, parece queesse homem maravilhoso percebeu que a minha vida no teria mais um enredo coerente semele no centro.

  • Nota[1] Peo licena por um minutinho. Essa questo to importante e complicada que merece a nica nota de rodap do livrointeiro. Quando os socilogos dizem que o casamento excelente para os filhos, o que eles querem dizer que aestabilidade excelente para os filhos. J se provou categoricamente que as crianas desabrocham em ambientes onde nofiquem submetidas a mudanas emocionais constantes e perturbadoras, como, por exemplo, uma rotao infindvel de novosparceiros romnticos da mame ou do papai entrando e saindo de casa. O casamento tende a estabilizar as famlias e impediressas sublevaes, mas no necessariamente. Hoje em dia, por exemplo, o filho de um casal no casado da Sucia (onde ocasamento legal cada vez mais antiquado, mas os laos familiares so bastante slidos) tem mais probabilidade de viver parasempre com os mesmos pais do que o filho de um casal casado dos Estados Unidos (onde o casamento ainda reverenciado,mas o divrcio cada vez mais frequente). As crianas precisam de constncia e familiaridade. O casamento encoraja, masno pode assegurar a solidez familiar. Casais no casados, pais solteiros e at avs podem criar ambientes calmos e estveispara os filhos desabrocharem fora dos laos do matrimnio legal. S queria deixar isso bem claro. Desculpem a interrupo emuito obrigada.

  • SumrioCapaFolha de RostoCrditosDedicatriaEpgrafeNota ao leitorCAPTULO UMCAPTULO DOISCAPTULO TRSCAPTULO QUATROCAPTULO CINCOCAPTULO SEISCAPTULO SETECAPTULO OITOAgradecimentosNota

    CopyrightNota ao leitorCAPTULO UMCAPTULO DOISCAPTULO TRSCAPTULO QUATROCAPTULO CINCOCAPTULO SEISCAPTULO SETECAPTULO OITOAgradecimentosNota