Concepto de Territorio

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    COMPONENTES DEFINIDORES DO CONCEITO DE TERRITRIO:

    A MULTIESCALARIDADE, A MULTIDIMENSIONALIDADE E A RELAO ESPAO-

    PODER AGRIPINO SOUZA COELHO NETO

    Universidade do Estado da Bahia

    Introduo

    A cincia geogrfica construiu um acmulo de reflexo sobre o conceito de territrio e suas derivaes (territorialidade, des-re-territorializao). Embora a discusso sobre o conceito nunca tenha sido prisioneira das fronteiras disciplinares da geografia, como testemunha o contedo da obra de Haesbaert (2004)1, inegvel que o esforo empreendido por uma gama de gegrafos, apoiados por distintas perspectivas terico-metodolgicas, tem concorrido para o alargamento e para a problematizao do debate resultando no levantamento de renovadas questes e na oferta de elementos conceituais que contribuem para a tarefa precpua desse campo disciplinar, ou seja, a compreenso da dimenso espacial da sociedade, miradas, neste caso, pelo prisma da relao espao-poder.

    No amplo leque de discusses que animam o debate geogrfico (no apenas, mas, especialmente), alguns aspectos sobressaem e indicam os rumos das reflexes: a nfase na (i) multiescalaridade e na (ii)

    1 Haesbaert (2004) realizou um amplo levantamento das concepes de territrio nas

    cincias humanas (antropologia, cincia poltica, sociologia, psicologia, economia), mas, tambm, na filosofia e na etologia.

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    multidimensionalidade da concepo de territrio e na centralidade da (ii) relao espao-poder para pensar a territorialidade humana.

    Esses aspectos, obviamente, no refletem a totalidade do debate geogrfico, mas, sua escolha se justifica pela posio privilegiada que ocupam no mbito das reflexes tericas que se propuseram a (re)pensar o conceito de territrio, oferecendo elementos relevantes para tarefa de conceituao e definio de parmetros operacionais para as pesquisas que se debruam sobre a compreenso das manifestaes da territorialidade. no rastreamento do percurso e no aclaramento e na organizao dessas discusses que se encontra estruturado este texto, cumprindo, tambm, o papel de guia das prximas sees2.

    A multiescalaridade do territrio

    A despeito da existncia de controvrsias etimolgicas acerca da origem e da evoluo da palavra territrio, Haesbaert (2004) destacou dois sentidos largamente difundidos (inclusive academicamente) que so tributrios do latim: o primeiro, predominante, referido terra, tomando o territrio como materialidade; e o segundo, menos frequente, relacionado aos sentimentos que o territrio provoca, ou seja, (...) medo para quem dele excludo, de satisfao para aqueles que dele usufruem ou com o qual se identificam (p. 44).

    Considerando as definies que figuram em alguns dicionrios de lnguas vernculas de grande circulao3, verifica-se, com determinada

    2 O propsito do texto no realizar uma varredura completa das contribuies

    geogrficas, mas, buscou-se dialogar com alguns autores cujas ideias destacam os componentes nucleares focalizados: a multiescalaridade, a multidimensionalidade e a relao espao-poder.

    3 O Dictionnaire de la Langue Franaise Littr [de 1971] define o territrio como a

    extenso de terra que depende de um imprio, de uma provncia, de uma cidade, de uma jurisdio (DI MO, 1998, p. 42, traduo nossa). O Le Petit Robert de la Langue Franaise (1996-1997) define como a extenso de um pas sobre o qual se exerce uma autoridade, uma jurisdio. O Novo Dicionrio Aurlio da Lngua Portuguesa (2004) define como a base geogrfica do Estado, sobre a qual ele exerce a sua soberania, e que abrange o solo, rios, lagos, mares interiores, guas adjacentes,

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    predominncia e quase que de forma homognea, uma acepo de territrio como rea, superfcie ou extenso de terra, controlada por uma jurisdio poltico-administrativa, base geogrfica da soberania de um Estado. Desta definio, possvel deduzir alguns elementos a fim de pensar o territrio como conceito, como a presena de um poder que o marca (mesmo que ainda reduzido ao poder estatal) e os limites bem demarcados, pressupondo a existncia de uma exclusividade de uso (dos recursos) que se configura pelo controle e pela soberania nacional.

    Talvez em decorrncia da tradio jurdico-romana que o seu significado etimolgico evoca, ou mesmo por seu emprego original nos estudos etolgicos (sobre a territorialidade animal) e na Geografia Poltica, o conceito de territrio sugere pensar nos limites/fronteiras que o delimitam. Esse exerccio torna-se mais fcil quando tomado em sua forma material clssica de manifestao, definido nos domnios polticos do Estado. Segundo Souza (1995), a concepo de territrio na tradicional Geografia Poltica, fixado na escala nacional e assentado na figura do Estado-nao, pressupunha limites espaciais e temporais com pequena mobilidade, pois, entende a durabilidade como geradora de razes e identidade sociocultural. As durabilidades das fronteiras nacionais permitiram a construo da ideia de fixidez dos territrios, naturalizando as fronteiras estatais (SOUZA, 2009).

    A compreenso do territrio como um espao com limites estabelecidos por fronteiras coloca, por conseguinte, a questo da exclusividade de apropriao e de uso, distinguindo ns (os includos, aqueles que integram o territrio) e os outros (aqueles que no fazem parte do territrio). Nessa perspectiva, enquadra-se adequadamente o recorte do Estado territorial, com limites estabelecidos de apropriao, uso, gesto e controle de frao do espao, como um domnio poltico-estatal, cujo acesso exige a permisso de uma autoridade, de um poder institudo concentrado na figura do Estado.

    O pressuposto da existncia de fronteiras bem delimitadas e definidoras dos membros da coletividade territorial, como contedo do conceito de territrio, no foi uma exclusividade da clssica Geografia

    golfos, baas e portos. Definio anloga a esta ltima aparece no Dicionrio Houaiss da Lngua Portuguesa (2007).

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    Poltica, mas compareceu em outras formulaes de gegrafos, conforme a definio de Soja (1971), considerando a territorialidade como

    um fenmeno de comportamento associado organizao do espao em esferas de influncia ou em territrios nitidamente delimitados, que assumem caractersticas distintas e podem ser considerados, pelos menos em parte, como exclusivos de quem os ocupa e de quem os define (SOJA, apud ROCANYOLO, 1988, p. 263, grifos nossos).

    As condies que constroem a distino entre os membros de uma coletividade territorial e os outros, que a ela no pertencem, aparecem tambm em Raffestin (1988, p. 265, traduo nossa), ao definir a territorialidade humana como o (...) conjunto de relaes mantidas pelo homem, enquanto pertencentes a uma sociedade [coletividade, segundo Raffestin, 1986], com a exterioridade e a alteridade com a ajuda de mediadores ou instrumentos (...). Portanto, falar de territrio fazer uma referncia implcita noo de limite (...) que pode ser expressa pela (...) relao que um grupo mantm com uma poro do espao, gerando uma delimitao, que, por sua vez, significa manifestar um poder numa rea precisa (RAFFESTIN, 1993 [1980], p. 153). Contudo, o autor adverte que delimitar (marcar, cercar - arremata o autor) parcelas no uma simples relao com o territrio, pressupondo uma relao triangular, pois, a relao com o territrio uma relao que mediatiza em seguida as relaes com os homens, com os outros (p. 160). Essa perspectiva aponta inequivocamente para as relaes de poder que so constitutivas da territorialidade e que ocuparam posio privilegiada no pensamento do autor (discusso que realizaremos adiante).

    A delimitao de fronteiras e o controle do acesso aos recursos so caractersticas fundamentais da concepo de territorialidade de Sack (1986), como no exemplo usado pelo autor, tomando uma regio de produo agrcola ou manufatureira, que se torna territrio quando designada pelo governo para receber um investimento pblico ou quando delimitada para ser administrada por um rgo governamental. Desse modo, as fronteiras delimitam uma jurisdio e afetam o acesso aos recursos e ao poder. Seguindo nesta direo, o autor sugere trs relaes interdependentes presentes na definio de territorialidade que revelam a sua lgica e os seus efeitos significativos: (i) envolvendo uma forma de

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    classificao de rea; (ii) contendo uma forma de comunicao, por meio de um marcador ou sinal, como comumente encontrada em uma fronteira [um limite]; e (iii) uma tentativa de impor o controle sobre o acesso a uma rea e s coisas dentro dela, ou s coisas fora dela, contendo aqueles que esto dentro (p. 21-22, traduo nossa).

    Entretanto, mesmo considerando a centralidade das fronteiras e dos limites que lhe so atributos, tanto em Raffestin (1993 [1980]), quanto em Sack (1986), j contm a ideia que expande a possibilidade de concepo de territrios no restritivos aos recortes do Estado-nao, ampliando as escalas espaciais e temporais da territorialidade. Desse modo, do Estado ao indivduo, passando por todas as organizaes pequenas ou grandes, encontram-se atores sintagmticos [aqueles que realizam um programa] que produzem o territrio, pois, em graus diversos, em momentos diferentes e lugares variados, somos todos atores sintagmticos que produzem territrios (RAFFESTIN, 1993 [1980], p. 152).

    A literatura geogrfica4 atribui a Sack (1986) uma valiosa contribuio no sentido de libertar o conceito de territrio de sua priso original, isto , da referncia exclusiva dimenso do Estado nacional (mas tambm da carga naturalista que lhe fora imputada, tributria da abordagem etolgica da territorialidade animal). O autor recusa a natureza imutvel e fixa da territorialidade, propugnando seu carter mvel e varivel em termos de temporalidade e espacialidade, pois, (...) um lugar pode ser um territrio num momento e no