Consciência fonológica - dados sobre consciência ...· 169 CONSCIÊNCIA FONOLÓGICA - DADOS SOBRE

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    CONSCINCIA FONOLGICA - DADOS SOBRE CONSCINCIA FONMICA, INTRASSILBICA

    Textos Seleccionados, XXV Encontro Nacional da Associao Portuguesa de Lingustica, Porto, APL, 2010, pp. 169-184

    Conscincia fonolgica - dados sobre conscincia fonmica, intrassilbica e silbica

    Dina Alves#, Ana Castro+ & Susana Correia*#CLUL, Escola Superior de Sade Egas Moniz e Relicrio de Sons; +Escola Superior de

    Sade do Instituto Politcnico de Setbal e CLUNL; *CLUL

    AbstractWe present the results of a set of studies aiming at identifying the relevant linguistic

    properties on assessing and training phonemic, intrasyllabic and syllabic awareness abilities. It is shown that age, task and linguistic variables (such as word extension, syllabic structure, stress position, and phonemic properties) must be considered in the construction of phonological awareness tests. The studies reported here fulfill the first milestone of an ongoing project aiming at constructing phonological awareness tools for assessment and intervention with Portuguese preschoolers and primary schoolers.

    Keywords: Phonological awareness, tests, phonemic, syllabic, intrasyllabic.Palavras-chave: Conscincia fonolgica, testes, fonmica, silbica, intrassilbica.

    1. Conscincia fonolgica - avaliao para o portugus europeu (PE)

    Neste artigo, apresenta-se uma descrio dos resultados obtidos num conjunto de estudos exploratrios desenvolvidos no mbito do Projecto Conscincia Fonolgica - instrumentos para a interveno clnica e pedaggica.1 Pretendeu-se avaliar o impacto das propriedades lingusticas do sistema-alvo, em particular as propriedades fonolgicas,

    1 O Projecto Conscincia Fonolgica - instrumentos para a interveno clnica e pedaggica financiado pelo Instituto Politcnico de Setbal e tem como instituies intervenientes a Escola Superior de Sade do Instituto Politcnico de Setbal (ESS-IPS), a Escola Superior de Sade Egas Moniz (ESSEM) e a Escola Superior de Sade da Universidade do Algarve (ESSaF). Um agradecimento especial s autoras dos estudos monogrficos (alunas da ESS-IPS, ESSEM e ESSaF), Professora Marina Estela e aos alunos da licenciatura em Design de Comunicao da Escola Superior de Educao e Comunicao da Universidade do Algarve, bem como s instituies e crianas que participaram nos estudos.

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    XXV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAO PORTUGUESA DE LINGUSTICA

    assim como das tarefas que medeiam a avaliao destas competncias, no desempenho de tarefas de conscincia fonolgica. Os dados obtidos serviro de base emprica construo de um instrumento de avaliao da conscincia fonolgica, a validar e aferir populao portuguesa. Esse instrumento servir para avaliao, mas tambm como ferramenta para o planeamento de intervenes clnicas e/ou pedaggicas mais eficientes no desenvolvimento de competncias de leitura e escrita. Na linha deste objectivo, ser igualmente desenvolvido um conjunto de ferramentas e materiais de interveno, colmatando assim a fraca oferta de recursos desenvolvidos para o PE.

    A conscincia fonolgica pode ser definida como a capacidade para desempenhar tarefas de anlise da estrutura sonora de uma lngua particular. Trata-se de uma capacidade inerente aquisio do princpio alfabtico e fulcral para o desempenho das competncias de leitura e escrita, em crianas e em adultos, com ou sem perturbaes da linguagem (Brady & Shankweiler, 1991; Castro-Caldas & Reis, 2000; Gillon, 2004; Morais & Kolinsky, 2005; Morais, 1997; Silva, 2003; Sim-Sim, Ramos & Santos, 2006; Veloso, 2003; Viana, 2002; entre outros).

    Em Portugal, reconhece-se a importncia de avaliar esta capacidade em crianas de idade pr-escolar e escolar, tanto em contexto educativo como em contexto clnico, uma vez que algumas tarefas de anlise da estrutura sonora esto includas em testes de rastreio de perturbaes da linguagem, e outras integram especificamente testes de avaliao do processamento fonolgico. Alguns dos instrumentos mais utilizados pelos profissionais com aco neste mbito (terapeutas da fala, educadores, professores e psiclogos) so os seguintes: ALO (Sim-Sim, 2001), GOL-E (Sua-Kay & Santos, 2003), TICL (Viana, 2002), PALPA-P (Castro, Cal & Gomes, 2007), BANC (descrito em Albuquerque, Martins & Simes, 2007), BPF (Silva, 2001), TOPA (Torgesen & Bryant, 1993) e RDBM (Borel-Maisonny, s.d.). Existem, tambm, materiais desenvolvidos para contexto educativo, como o trabalho de Freitas, Alves & Costa (2007), no mbito do Plano Nacional do Ensino do Portugus, e o de Viana (2001), entre outros. Apesar da relativa quantidade e variedade de testes de avaliao da conscincia fonolgica para o PE, muitos deles apresentam limitaes. De facto, a maior parte dos instrumentos formais de avaliao e reabilitao das perturbaes da conscincia fonolgica em PE insuficiente e insatisfatria, j que:

    i. nem sempre estes instrumentos sofreram os devidos processos de validao psicomtrica e aferio populao portuguesa, isto , no reflectem necessariamente dificuldades de processamento decorrentes das propriedades lingusticas do sistema-alvo (por invalidade e/ou infidelidade do constructo, do critrio, entre outras) (Kline, 1986);

    ii. nem sempre controlam as propriedades fonolgicas da lngua com impacto no desempenho da conscincia fonolgica, isto , tendem a avaliar manifestaes superficiais da conscincia lingustica enquanto resultado de uma tarefa e no enquanto operao (meta)fonolgica influenciada pelas propriedades da lngua (Alves, em prep.; Treiman & Zukowski, 1996, entre outros);

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    iii. nem sempre diversificam as tarefas utilizadas, isto , resumem a avaliao e/ou a interveno a alguns nveis da conscincia fonolgica e a algumas tarefas especficas, ignorando outras que podem apresentar nveis de dificuldade diferenciados.

    2. Mtodo

    Neste trabalho, dar-se- conta dos dados obtidos em estudos observacionais descritivos e transversais de crianas em idade pr-escolar e escolar (dos 3 aos 8 anos). Estes estudos, de carcter exploratrio, esto, como j referido, integrados no Projecto Conscincia Fonolgica - instrumentos para a interveno clnica e pedaggica, e recaram sobre os seguintes aspectos:2

    i. conscincia silbica em idade pr-escolar e escolar - Jesus (2008), Santana (2008) e Vasco (2008);

    ii. conscincia fonmica em idade escolar - Afonso (2008), Aparcio (2008) e Silva (2008);

    iii. conscincia intrassilbica em idade pr-escolar e escolar - Meireles (2008) e Barriguita (2008).

    2.1. Critrios de incluso e de excluso

    Na amostra, foram includos falantes monolingues de PE em idade pr-escolar e escolar, com desenvolvimento de linguagem normal (com resultado num teste de avaliao da linguagem percentil 50) e boa discriminao auditiva (com resultado num teste de discriminao auditiva de 20/22).3 Foram excludas crianas com alteraes da linguagem oral, com alteraes da discriminao auditiva, com dfices sensoriais (no corrigidos) ou cognitivos, ou a ser acompanhadas em terapia da fala no momento da recolha dos dados.

    2.2. Procedimentos para seleco da amostra

    Numa primeira fase, foram apresentados formulrios para obteno de consentimento informado s instituies de educao e aos encarregados de educao.

    2 Estes estudos foram desenvolvidos no mbito dos projectos de investigao elaborados por alunos finalistas de licenciaturas em Terapia da Fala, no ano lectivo de 2007/2008. 3 Os testes usados foram, para a discriminao auditiva, o Teste de Discriminao Fonolgica de Alves (em preparao) e o Teste de Discriminao Auditiva de Pares Mnimos, de Guimares Grilo (1997); para a linguagem, TALC (idade pr-escolar), de Sua-Kay & Tavares (2007), e GOL-E (idade escolar), de Sua-Kay & Santos (2003); para a articulao, TAPAC-PE, grupo I, de Fal et al. (2001).

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    Seguidamente, foi elaborado um questionrio aos educadores (para pr-seleco das crianas a incluir na amostra). Seguidamente, foram aplicados os testes de rastreio da linguagem, o teste de discriminao auditiva e foi feita uma avaliao da articulao.

    2.3. Critrios lingusticos

    De uma forma global, em todos os estudos aqui apresentados, as variveis e os critrios lingusticos e extra-lingusticos considerados foram: extenso de palavra, estrutura silbica, qualidade do segmento, posio do acento, categoria sintctica, imageabilidade da palavra-estmulo, proximidade entre os estmulos e o conhecimento lexical das crianas, formato de apresentao dos estmulos (audiovisual).

    3. Resultados

    Nesta seco, apresentam-se os estudos conduzidos nas trs reas referidas (conscincia fonmica, intrassilbica e silbica), detalhando as suas variveis e mtodo especficos, bem como os resultados obtidos.

    Na anlise descritiva, consideraram-se desempenhos adquiridos ou dominados, os resultados acima dos 85% (Yavas, Matzenauer-Hernandorena & Lamprecht, 1991). Na anlise inferencial, considerou-se um nvel de significncia < .05 (Maroco, 2003).

    3.1. Conscincia fonmica - resultados preliminares

    Os estudos de Silva (2008), Afonso (2008) e Aparcio (2008) tiveram como objecto o desempenho de crianas em idade escolar, relativamente a conscincia fonmica. A amostra foi de 75 crianas a frequentar os 1, 2 e 3 anos do 1 ciclo do ensino bsico (n=25 em cada grupo). As variveis independentes consideradas foram: grau de escolaridade (1, 2 e 3 anos), extenso de palavra (mono-, di- e trisslabos), tarefa (sntese e segmentao), acentuao da slaba alvo (tnica e tona), modo de articulao (MA) do segmento inicial (oclusiva, fricativa, nasal, lateral e vibrante).

    No grfico 1, apresenta-se a percentagem de sucesso nas tarefas de segmentao e sntese do fonema inicial, no 1, 2 e 3 anos de escolaridade.

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