“CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE” NAS CIÊNCIAS ?· sociologia rural resistiu em abrir espaços…

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  • CONSERVAO DA BIODIVERSIDADE NAS CINCIAS SOCIAIS BRASILEIRAS: UMA REVISO SISTEMTICA DE 1990 A 2010

    LAILA THOMAZ SANDRONI1 MARIA JOS TEIXEIRA CARNEIRO2

    Introduo

    O objetivo deste artigoi fazer uma anlise transversal da produo cientfica em cincias sociais sobre conservao da biodiversidade no sentido de reconhecer as princi-pais questes em debate. Realizamos um reviso sistemticaii da produo em cincias sociais entre os anos de 1992 e 2010 que trata de ambientes onde a conservao da biodiversidadeiii aparece como um elemento importante na configurao social analisada. O intuito identificar as questes principais trabalhadas pelos autores que tematizam a conservao da biodiversidade em artigos publicados em peridicos brasileiros de so-ciologia, antropologia e cincias polticas, tendo em vista a especificidade desta unidade discursiva no campo do debate sobre a conservao ambiental.

    A chamada questo ambiental est to presente no cotidiano das sociedades industriais contemporneas que s vezes no nos damos conta do quo recente esta discusso nos termos atuais. A construo da agenda ambiental, levando em conta a pre-servao de recursos naturais, as mudanas climticas, a poluio dos rios e mananciais, dentre tantos outros assuntos recorrentemente abordados hoje em dia, comeou a se desenrolar a partir de meados da dcada de 1960, nos EUA e Europa. Nos anos 1970 o debate se estendeu para Austrlia e Canad, mas somente chegou com fora aos pases da Unio Sovitica, sia e Amrica Latina na dcada de 1980 (HANNIGAN, 2009). Na medida em que foi se difundindo, este nicho de debates aumentou seu escopo.

    Uma das caractersticas fundamentais deste campo que no processo de elabora-o social da questo ambiental esteve muito clara a relao entre cincia e poltica na construo das temticas discutidas e nas solues propostas (BECK, 2010), sobretudo no caso da conservao e biodiversidade. Pesquisadores, militantes e outros atores polticos estiveram em constante interao (ou eram, de fato, as mesmas pessoas) ao longo do pro-cesso de construo e consolidao da temtica enquanto problema social. Entretanto, o perfil dos pesquisadores e acadmicos envolvidos na discusso foi se transformando com o passar do tempo. A pesquisa cientfica sobre o tema ambiental, hoje, se caracteriza por

    1. Cientista Social, Mestre e Doutoranda em Cincias Sociais em Desenvolvimento Agricultura e Sociedade, UFRRJ 2. Professora Titular do Programa de Ps-Graduao de Cincias Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da UFRRJ.

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    um amplo leque de reas do conhecimento. Mas isto nem sempre foi assim. A agenda do ambientalismo foi delineada, a princpio, por cientistas da natureza, principalmente bilogos, dentre estes se destacando os botnicos (DRUMMOND, 2006). Somente aps um bom tempo de atuao e gerao de saberes por parte dos cientistas naturais, a questo ambiental expandiu-se para outras reas do conhecimento cientfico como a demografia, sociologia, economia, cincia poltica e filosofia (LEIS, 2001).

    As cincias sociais, como a antropologia ou a sociologia, no demonstraram, a princpio, particular interesse pela chamada crise ambiental. A sociologia foi uma das ltimas a abordar este tema, inclusive depois da antropologia, ecologia humana e da economia (PORTILHO & LIMA, 2001). A ateno destas disciplinas voltou-se para a questo, de forma mais intensa, somente nos anos 1970 nos EUA e na dcada de 1980 na Europa, ganhando mais vigor em todo o mundo nos anos 1990 (GIULIANNI, 1998). Destaca-se no Brasil, o acalorado ambiente de debates sobre o tema ocorrido no processo de elaborao da constituio de 1988, que se aprofunda e reitera por ocasio da primeira Conferncia das Naes Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (RIO 92).

    O processo de institucionalizao das cincias sociais ambientais no foi ho-mogneo e se concentrou em ncleos de pesquisa especficos em cada cenrio nacional. Buttel ([1986] 1992), um dos pioneiros da questo ambiental nos Estados Unidos, pas onde a sociologia ambiental institucionalizou-se mais precocemente, descreve por-menorizadamente o processo de nascimento e consolidao da disciplina. Em sntese, o autor destaca, no contexto desse pas, o papel da contracultura (crtica radical do industrialismo e do armamentismo) como fora motriz para os estudos dos impactos ambientais. A este ambiente de ideias juntaram-se alguns acontecimentos da dcada de 1970, como a crise do petrleo e o lanamento do relatrio do clube de Roma em 1972, que desencadearam movimentos sociais e debates pblicos sobre o crescimento da populao e sua relao com a degradao ambiental. A sociologia ambiental norte--americana dominou internacionalmente o campo at o fim da dcada de 1980. Em seu momento de formao foi fundamental a interao de determinadas subdisciplinas da sociologia que contriburam, a partir de suas prprias tradies, para cobrir lacunas terico-epistemolgicas. Dentre elas, a que desempenhou papel mais importante e ativo no caso americano foi a sociologia rural.

    No Brasil, a institucionalizao da disciplina se deu em um sentido diferente: a sociologia rural resistiu em abrir espaos para a temtica ambiental, e foi a formao e consolidao da prpria sociologia ambiental que abriu espao para a incluso da questo ambiental na sociologia rural (GUIVANT, 2010). Foi fundamental para a consolidao do campo no Brasil, a criao de ncleos de pesquisa e grupos de trabalho voltados es-pecificamente para o tema, bem como de peridicos focados na relao entre natureza e sociedade. Neste contexto destacam-se a formao, em 1987, do Grupo de Trabalho Ecologia, Poltica e Sociedade na Associao Nacional de Ps-Graduao e Pesquisa em Cincias Sociais (ANPOCS) que posteriormente deu origem Associao Nacional de Ps-Graduao e Pesquisa em Ambiente e Sociedade (ANPPAS). Deste ambiente de debates surgiram e se consolidaram os peridicos Ambiente & Sociedadeiv e Desen-volvimento & Meio Ambientev. Este grupo teve dificuldade de se manter vinculado

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    ANPOCS devido, em grande parte, falta de interesse das Cincias Sociais pela questo ambiental na poca.

    H divergncias entre os autores que analisam o processo de entrada das cincias sociais na questo ambiental no Brasil. Alguns consideram que houve falta de agilidade destas disciplinas em compreender a importncia do tema (DRUMMOND, 2006). Outros compreendem que a sociologia no se colocou perante esta temtica, a princpio, devido aos embates epistemolgicos entre as cincias sociais e naturais (FERREIRA, 2004). A construo da problemtica ambiental s poderia ocorrer a partir da epistemologia das cincias naturais, baseada em projees. Nesse sentido, as cincias sociais no chegaram atrasadas, mas no momento possvel, na medida em que se voltaram, inicialmente, para a anlise dos processos de construo social da crise ambiental.

    A noo de risco e as diferentes possibilidades de mensur-lo se tornam base para argumentaes e tomadas de deciso no contexto da modernidade reflexiva. As projees desenhadas pelo conhecimento tcnico-cientfico interferem diretamente no que con-siderado como problema, pois atravs dos modelos cientficos so calculados os nveis de risco que determinada ao representa para a sociedade, o que consequentemente determina o espectro de possveis solues (BECK, 2010).

    A reviso sistemtica (sysematic review) ora realizada aponta na direo desta chegada tardia. Ela revela uma produo insipiente de artigos sobre o tema ambiental nas cincias sociais anteriormente virada do milnio e um aumento marcante a partir de ento. Apenas quatro, entre os 50 artigos selecionados, foram publicados antes do ano 2000, sendo que dos 46 restantes, um tero foi publicado entre os anos de 2008 e 2009, o que acompanha uma tendncia identificada por Hannigan (2009), em mbito internacio-nal. O mesmo foi constatado pelo relatrio da Unesco sobre as Cincias Sociais, publicado em 2013. Este documento registra um rpido aumento, a partir de 2005, da publicao de artigos em revistas cientficas sociais sobre mudanas climticas e mudanas globais ambientais, quebrando a tendncia predominante at ento, de publicao de artigos de outras reas (cincias ambientais, economia e geografia).

    De qualquer maneira, importante reconhecer que a entrada das cincias sociais no debate ambiental, mesmo se tardia, gerou uma reconfigurao das questes ao introduzir novas perspectivas, da a importncia de ser feito um panorama das questes principais trabalhadas, pois isso pode nos ajudar a melhor delimitar esta contribuio. Com este objetivo, em primeiro lugar, faremos uma apresentao da metodologia utilizada para levantamento do material analisado. Em seguida, apresentaremos um mapeamento da formao dos autores abarcados pela reviso bibliogrfica, explicitando o carter mul-tidisciplinar dessa produo, evidenciado na pesquisa. A partir da, desenvolveremos uma anlise dos artigos voltada para a identificao dos principais temas em debate e os pontos transversais mais recorrentes. Na concluso, procuraremos apontar algumas tendncias da literatura produzida pelas cincias sociais sobre o tema, bem como reconhecer algumas lacunas de conhecimento que merecem ser mais exploradas.

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    A contribuio metodolgica da abordagem da Poltica Baseada em Evidncias

    Seguimos a orientao metodolgica da abordagem da Poltica Baseada em Evi-dncias que parte do pressuposto de que as evidncias cientficas disponveis podem auxiliar a elaborao de polticas pblicas contribuindo para a sua eficcia quanto a seus objetivos. Adotamos aqui a vertente da EBM (Evidence Based Methodology) que enten