Constitucionalismo no Brasil 1822- .Constitucionalismo no Brasil 1822-1929 Antonio Sebastião de

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  • 150 Revista da EMERJ, v. 10, n 39, 2007

    Constitucionalismo no Brasil1822-1929

    Antonio Sebastio de LimaJuiz de Direito (aposentado) do Estado do Riode Janeiro. Mestre em Cincias Jurdicas.Professor de Teoria Geral do Estado e DireitoConstitucional

    I. INTRODUO1. Ao constituinte

    Sentir, querer, pensar e agir prprio do ser humano. Fazer(criar, modificar, extinguir) modalidade de ao para a qual bastaaptido fsica e mental. Certos objetivos, entretanto, exigem poder,aptido do sujeito para, em sintonia com a moral e o direito, subme-ter vontade alheia prpria. A solidariedade permite ao grupo hu-mano realizar objetivos comuns. A busca do justo, do bom, do belo edo til pode gerar confrontos entre os membros do grupo, exigindomecanismos de composio. Ao mesmo tempo, em abstrato, essabusca aponta para o bem comum. H uma percepo, difusa nomeio social, da necessidade de ordem e da importncia da obedin-cia, para que todos possam desenvolver suas potencialidades e teruma existncia relativamente segura e feliz.

    A ao humana teleolgica. Criar ou elaborar implica ummodo de fazer segundo uma finalidade. A organizao da socieda-de resulta dessa ao constituinte espontnea, ou refletida, onde in-terfere o poder (difuso, personalizado ou institucionalizado). Dosnexos entre elementos estruturais (geogrfico, demogrfico,teleolgico, cratolgico) surge um tipo de sociedade que os gregosdenominavam polis e os romanos, civitas, em que o comando e aobedincia esto distribudos segundo os costumes, crenas, tradi-es e leis escritas. Essa constituio poltica brota da necessidade

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    de regras ticas e jurdicas convivncia pacfica e defesa contrafatores dissolventes. Ao conjunto de leis, costumes, crenas e tradi-es que regulava a vida em sociedade, os antigos denominavamConstituio. A organizao poltica mantinha-se pela inrcia, ouseja, pela conformidade de governantes e governados com o statusquo. s vezes, surgiam legisladores que outorgavam leis fundamen-tais, modificando os costumes, a exemplo de Minos, em Creta (1320a.C.), Licurgo, em Esparta (898 a.C.), Filolau, em Tebas (890 a.C.),Slon, em Atenas (593 a.C.).

    2. IndividualismoA conscincia da individualidade no se manifestou amplamente

    no mundo at o advento do cristianismo. A presso social fazia do serhumano um elemento do ente coletivo, mergulhado na objetiva cons-cincia comunitria, como acontecia na tribo e continuou a aconte-cer na cidade e no imprio. Os povos orientais mantinham, tradicio-nalmente, o sentimento de unio ntima a um todo csmico, fenme-no cultural que explica a duradoura vigncia de regimes autocrticose o reverencial respeito autoridade. Nos povos ocidentais operou-semudana em direo ao individualismo. Apesar da sua origem orien-tal, a doutrina crist vingou no solo ocidental. Essa doutrina valoriza oser humano como individualidade anmica; no o trata como simplespartcula de um organismo csmico; acentua a dignidade da pessoahumana; prega a igualdade entre os seres humanos sob a paternidadedivina, afinando-se com a idia de um modo de vida democrtico.Todavia, no plano histrico, a igreja crist adotou, em sua organiza-o clerical, o modelo imperial romano e conviveu com o regimeautocrtico durante toda a Idade Mdia. A igreja foi organizada hie-rarquicamente tendo na base os crentes, no meio a casta sacerdotal ena cpula a autoridade soberana e infalvel do Papa. Contrariando aseparao entre o poder secular e o poder espiritual preconizada porJesus (a Csar o que de Csar, a Deus o que de Deus) o cleroestendeu o seu poder sobre reis e imperadores, interferindo nos neg-cios de Estado. Ao glorificar a pobreza, a igreja catlica colocou trava prosperidade dos negcios privados.

    A revoluo comercial iniciada no sculo XV (1401/1500) eque incluiu as grandes navegaes de portugueses e espanhis em

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    busca de novas rotas para o comrcio, representa a chegada do ca-pitalismo, cujos lineamentos (lucro, grandes empresas, economiade mercado, trocas monetrias, trabalho assalariado) desenhavam-se desde o sculo XII, com a paulatina desintegrao do feudalismo.A separao entre tica e economia ocorreu no plano dos fatos, an-tes de ganhar fundamento terico. A reao mais vigorosa aos freiospostos pela Igreja conduta dos crentes, em geral, e atividade doscomerciantes e banqueiros, em particular, aconteceu no sculo XVI(1501/1600) com a revoluo protestante iniciada por Lutero, mon-ge agostiniano que, na Alemanha, rebelou-se contra os desvios eabusos clericais (venda de indulgncias, jejuns, peregrinaes), contraos sacramentos (com exceo do batismo e da comunho) e contraa intermediao de padres e santos. Lutero denunciou a inaptidodos rituais e milagres da igreja para salvar pecadores. O movimentoalcanou a Sua, onde se fortalecia o nacionalismo contra o SantoImprio Romano. Havia centros comerciais florescentes (Zrich,Basilia, Berna e Genebra) que ansiavam por libertao. UlrichZwinglio seguiu o exemplo de Lutero, liderou a revoluo religiosae converteu ao protestantismo quase todo o povo suo. Ao chegar Sua, oriundo da Frana, Joo Calvino encontra o terreno aplainadopor Zwinglio, fixa domiclio em Genebra, conquista o governo dacidade e impe a sua teologia inspirada em Lutero, porm, maisradical e prxima do judasmo. Diferentemente de Lutero, Calvinod primazia lei, rejeita ritual e decorao no templo e qualquerprtica da igreja catlica, determina observao rigorosa do sbadoe estabelece exageradas proibies.

    O individualismo aprofundou-se, amparado na teologiacalvinista, que inclua a doutrina da predestinao, segundo a qual,independentemente dos mritos, h pessoas e naes eleitas de Deus,enquanto outras esto destinadas danao. Assim, o calvinismojustifica: (i) as desigualdades sociais e econmicas entre os homense entre os povos; (ii) a superioridade de alguns e a inferioridade deoutros. Aos eleitos de Deus, o poder na Terra e um lugar no Cu; aoscondenados, a servido na Terra e um lugar no Inferno. Os eleitosno deviam se mesclar com os condenados (pobres, negros, ndios,mestios). Essa postura discriminatria era incompatvel com afraternidade universal. O crente foi liberado para ampla atividade

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    econmica. A riqueza pessoal era bno divina. A cobrana dejuros e os lucros no comrcio foram considerados moralmente lci-tos. O calvinismo mostrou-se mais judeu (Antigo Testamento) do quecristo (Novo Testamento). Na Inglaterra, Henrique VIII, apaixonadopor sua camareira e pretendendo despos-la, solicitou, ao Papa, anu-lao do seu casamento com Catarina. Indignado com as manobraspapistas para evitar a anulao, o soberano ingls aproveita-se domovimento protestante e funda a igreja anglicana, livra-se da subor-dinao ao Papa e apropria-se do patrimnio da igreja catlica exis-tente na Inglaterra.

    3. ConstitucionalismoA partir da revoluo comercial e da revoluo protestante, o

    individualismo torna-se possessivo, germe subjetivo do capitalismoselvagem. A alta burguesia protestante, nova e poderosa classe so-cial europia, rebela-se contra a soberania dos imperadores e a su-premacia do Papa. Hasteia a bandeira da liberdade de religio, deao e de pensamento. Em oposio ao universalismo da igreja e doimprio essa burguesia defende o nacionalismo, a existncia aut-noma do grupo nacional e o direito de cada nao se constituir emEstado. A pretendida autonomia inclua a uniformizao das leis,das prticas administrativas, da moeda, dos pesos e medidas e aconcentrao do poder poltico na pessoa do rei (supremacia emrelao aos senhores feudais, independncia em relao ao Papa,organizao de exrcito permanente, produo do direito, centrali-zao da justia e da tributao). O descontentamento dos campo-neses com as autoridades eclesisticas e seculares, bem como, arivalidade entre a monarquia e a igreja, facilitaram o caminho paraa burguesia europia concretizar aspiraes de domnio econmicoe poltico e de preeminncia social. O movimento alastrou-se e cul-minou, no sculo XVIII (1701/1800) com as revolues polticas naEuropa e na Amrica paralelas revoluo industrial que ocorria naInglaterra.

    Distinguindo Poder Constituinte, pertencente nao, e PoderConstitudo, exercido pelos governantes dentro da legalidade postapelo povo, os revolucionrios implantaram uma ordem democrtica

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    fundada na trade liberdade, igualdade e fraternidade. Promulgaram,em Frana, a declarao dos direitos do homem e do cidado comolimite ao exerccio do poder poltico (1789). Veio, a seguir, a primeiraConstituio francesa (1791), a exemplo do que ocorrera na Amrica(1787). O movimento revolucionrio francs repercutiu no mundo todo,ao contrrio do movimento americano que se limitou s colnias in-glesas na Amrica do Norte, fechadas em si mesmas, merc das suascrenas religiosas e do defensivo isolamento em relao metrpolee ao continente europeu (a Amrica para os americanos; a Europapara os europeus). Interesses de banqueiros estadunidenses credoresda Frana e da Inglaterra levaram os EUA a participar da primeiraguerra mundial (1917). Isto proporcionou enorme desenvolvimentoeconmico nao americana. Antes do ataque japons base ame-ricana de Pearl Harbor (1941), as relaes dos EUA com pases daEuropa eram predominantemente comerciais. Terminada a segundaguerra mundial (1945), os EUA saram definitivamente do isolamentopoltico e adotaram postura intervencionista e imperialista.

    A declarao de direitos da revoluo francesa refere-se aohomem, como espcie natural e ao cidado, como pessoa vincula-da a um Estado. Essa declarao revestiu carter universal e se re-velou uma das maiores conquistas do mundo civilizado. Os Estadoseuropeus surfaram na onda nacionalista e adotaram Constituiesescritas (salvo a Inglaterra). O mesmo ocorreu nos demais continen-tes. As colnias da Amrica Latina, medida que obtinham inde-pendncia da Espanha e de Portugal, no scu