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Construção Identidade Pessoal e Lesão Medular Traumática

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Construção da Identidade Pessoal em Pessoas que Sofreram Lesão Medular Traumática - Dissertação de Mestrado submetida à Universidade do Minho, 2007. Eva Lopes.

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AUTORIZADA A REPRODUO INTEGRAL DESTA DISSERTAO APENAS PARA EFEITOS DE INVESTIGAO, MEDIANTE DECLARAO ESCRITA DO INTERESSADO, QUE A TAL SE COMPROMETE.

AGRADECIMENTOS

Quero agradecer s pessoas e entidades que cooperaram na realizao deste trabalho.

Em primeiro lugar Professora Doutora Eugnia Fernandes, pelo seu saber, pelo relevo das suas crticas e pelo seu cuidado no acompanhamento e orientao do trabalho.

Ao Centro de Reabilitao Profissional de Gaia, na pessoa do seu Director, Dr. Jernimo de Sousa, pelo apoio concedido, possibilitando-me meios, tempo e instalaes totalmente acessveis.

Conceio Faria, da Associao Portuguesa de Deficientes, ao David Peres da Rodar

Associao Portuguesa de Lesionados Medulares e Etelvina Vieira, do Centro de Reabilitao Profissional de Gaia, pela colaborao no recrutamento dos participantes. Semeles, no teria sido possvel.

Ana Margarida Nunes e Alexandra Couto, pela ajuda e pelas indicaes e validaes preciosas que fizeram, ajudando-me a pensar as pessoas com leso medular.

A todos os participantes deste estudo, reitero aqui o meu agradecimento, pela disponibilidade e empenho com que nele participaram e colaboraram.

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Construo da Identidade Pessoal em Pessoas que Sofreram Leso Medular Traumtica. Estudo Exploratrio atravs de Grelhas de Repertrio

ABSTRACT Este estudo tem por objectivo investigar padres de construo da identidade pessoal em pessoas com leso medular. Os padres de construo foram estudados atravs da aplicao de grelhas de repertrio a 20 homens que sofreram leso medular traumtica. Derivada da teoria dos construtos pessoais de Kelly, a grelha de repertrio uma tcnica que permite revelar a estrutura e o contedo dos construtos pessoais que as pessoas aplicam para interpretar a sua experincia pessoal e interpessoal. Construiu-se uma grelha especfica, fornecendo elementos que se relacionam com a experincia de viver com leso medular e elucidaram-se os construtos bipolares. Cada grelha de repertrio foi analisada atravs de procedimentos de anlise de correspondncias e de anlise de contedo, permitindo extrair as dimenses psicolgicas mais significativas para cada participante. Sobre o material derivado desta fase de interpretao aplicaram-se tcnicas de codificao aberta, resultando em categorias conceptuais mais abstractas meta-categorias de significado. Estas meta-categorias foram depois relacionadas com os elementos da grelha de repertrio que mais significativamente so distinguidos pelos participantes. As relaes entre os elementos da grelha e as metacategorias de significado estruturam os padres de construo da identidade. Os padres de construo da identidade pessoal demonstram variabilidade, indicando construes da identidade pessoal alternativas e facetas mltiplas de construo, sendo descritas atravs das categorias de anlise: identidade no desejada, identidade submergida, persistncia da identidade anterior na construo da identidade, identidade em situao de

handicap, identidade idealizada e identidade reformulada. No h qualquer gradao de valorentre estas categorias de significado, elas demonstram to-s alternativas de construo e facetas mltiplas na construo pessoal da identidade. O contedo dos padres de construo demonstra que dimenses de significado pessoais como dependncia/ autonomia, fragilidade/ eficincia pessoal, imagem de si estigmatizada e excluso, so determinantes para a construo da identidade pessoal e que estas dimenses da identidade so construdas de forma sincrtica com os aspectos sociais e interpessoais. Os resultados sugerem que estas dimenses se tornaram nucleares na construo da identidade.v

Personal Identity Constructs in Persons with Traumatic Spinal Cord Injury. Exploratory Study through Repertory Grid Technique

ABSTRACT

This study aims at investigating patterns within personal identity constructs in spinal cord injured persons. Patterns were studied in 20 men with traumatic spinal cord injury through Kellys repertory grid technique Major psychological dimensions implicated in structuring identity might be studied by repertory grid technique, by applying analysing procedures for revealing structure and content of personal constructs. A repertory grid was used with supplied elements and elicited bipolar constructs. By applying multivariate correspondence analysis and content analysis to each grid, most important dimensions were extracted and open coding procedures applied to this content. Metacategories derived from this procedure. Personal identity patterns were recognized by examining explicative elements, elements most distinguished within the grid, and relating them to meta-categories. Patterns show variability, or alternative constructions, described by the categories: non desired identity, submersed identity, former identity persistence in construing, handicapsituated identity, ideal identity, and reformulated identity. No value is ascribed to these categories; they mean alternative forms, and multiple facets of construing self. Its content showed that personal dimensions of meaning as dependency/ autonomy, self fragility/ self efficiency, stigma, and exclusion are crucial in participants personal identity constructions, and that their personal identity is construed in a merged and complex way with social and interpersonal issues. Results suggest these dimensions of meaning have become nuclear in personal identity constructions of spinal cord injured participants.

vi

NDICE

1. INTRODUO ..................................................................................................1 2. ENQUADRAMENTO TERICO...........................................................................7 2.1. LESO MEDULAR......................................................................................................... 7 2.1.1. Classificao das Leses Medulares e Expectativas de Funcionalidade ................... 7 2.1.2. Investigao Psicolgica sobre Ajustamento Leso Medular............................... 12 2.1.2.1. Nota sobre os Diferentes Paradigmas de Investigao....................................... 12 2.1.2.2. Variveis Psicolgicas: Estudos de Natureza Quantitativa .................................. 14 2.1.2.3. Variveis Psicolgicas: Estudos de Natureza Qualitativa .................................... 20 2.2. CONSTRUTIVISMO PESSOAL...................................................................................... 24 2.2.1. A Teoria dos Construtos Pessoais de George Kelly ............................................... 24 2.2.2. A Grelha de Repertrio ........................................................................................ 30 2.2.3. A Identidade Pessoal na Teoria dos Construtos Pessoais...................................... 32 2.2.3.1. Investigao sobre Identidade Pessoal atravs de Grelhas de Repertrio ........... 34 2.2.3.2. Investigao sobre Deficincia Fsica Adquirida atravs de Grelhas de Repertrio ..................................................................................................................................... 36 3. MTODO........................................................................................................39 3.1. PARTICIPANTES ......................................................................................................... 39 3.2. INSTRUMENTOS UTILIZADOS..................................................................................... 40 3.2.1. Ficha de Identificao do Participante.................................................................. 40 3.2.2. Grelha de Repertrio ........................................................................................... 40 3.2.2.1. Seleco dos Elementos............................................................................... 41 3.2.2.2. Tcnica de Elucidao dos Construtos Pessoais............................................ 44 3.2.2.3. Sistema de Cotao ..................................................................................... 44 3.2.2.4. Pr-teste da Grelha de Repertrio ................................................................. 46 3.3. PROCEDIMENTOS ...................................................................................................... 46 3.3.1. Critrios de Seleco dos Participantes................................................................ 46 3.3.2. Recrutamento ..................................................................................................... 48 3.3.3. Aplicao dos Instrumentos................................................................................. 48 3.4. ANLISE DE DADOS ................................................................................................... 52 3.4.1. Anlise e Interpretao das Grelhas de Repertrio................................................ 52 3.4.1.1. Anlise de Correspondncias........................................................................ 52 3.4.1.2. Interpretao dos Grficos............................................................................ 58 3.4.1.3. Interpretao do Contedo dos Pontos Explicativos....................................... 61 3.4.2. Anlise dos Padres de Construo ..................................................................... 62 3.4.2.1. Codificao Aberta ....................................................................................... 62 3.4.2.2. Contagem de Frequncias dos Elementos .................................................... 63 3.4.2.3. Elaborao de Diagramas............................................................................. 65vii

4. RESULTADOS ................................................................................................ 67 4.1. INTERPRETAO DAS GRELHAS DE REPERTRIO.......................................................67 Participante 01...............................................................................................................68 Participante 02...............................................................................................................71 Participante 03...............................................................................................................74 Participante 04...............................................................................................................77 Participante 05...............................................................................................................80 Participante 06...............................................................................................................84 Participante 07...............................................................................................................90 Participante 08...............................................................................................................95 Participante 09............................................................................................................ 100 Participante 10............................................................................................................ 103 Participante 11............................................................................................................ 110 Participante 12............................................................................................................ 113 Participante 13............................................................................................................ 115 Participante 14............................................................................................................ 118 Participante 15............................................................................................................ 122 Participante 16............................................................................................................ 128 Participante 17............................................................................................................ 132 Participante 18............................................................................................................ 136 Participante 19............................................................................................................ 139 Participante 20............................................................................................................ 145 4.2. PADRES DE CONSTRUO .................................................................................... 149 4.2.1. Meta-Categorias de Significado .......................................................................... 149 4.2.2. Padres de Construo ..................................................................................... 152 4.2.2.1. Padres de Construo no Eixo 1 ............................................................... 153 4.2.2.2. Padres de Construo no Eixo 2 ............................................................... 159 4.2.2.3. Padres de Construo no Eixo 3 ............................................................... 162 5. INTERPRETAO E DISCUSSO.................................................................. 163 5.1. ANLISE TRANSVERSAL DOS TRS EIXOS................................................................ 163 1) Identidade no desejada ..................................................................................... 163 2) Identidade submergida........................................................................................ 165 3) Identidade em situao de handicap ................................................................... 166 4) Identidade idealizada........................................................................................... 168 5) Persistncia da identidade anterior na construo da identidade.......................... 168 6) Identidade reformulada ....................................................................................... 169 5.2. LIMITAES DO ESTUDO......................................................................................... 173 6. CONCLUSO ............................................................................................... 175 REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS...................................................................................... 181 ANEXOS .......................................................................................................................... 199viii

NDICE DE FIGURASFigura 1: Esquema da espinal-medula. .................................................................................................8 Figura 2: Escala tipo Likert utilizada na cotao dos elementos da grelha............................................45 Figura 3: Esquema utilizado na explicao do sistema de cotao da grelha de repertrio. ..................50 Figura 4: Elementos da grelha de repertrio........................................................................................51 Figura 5: Exemplo de esquema de pontos explicativos do eixo 1 .........................................................60 Figura 6: Exemplo de grfico dos eixos retidos para interpretao .......................................................61 Figura 7: Participante 01. Eixo 1 Esquema de pontos explicativos ....................................................69 Figura 8: Participante 02. Eixo 1 Esquema de pontos explicativos ....................................................72 Figura 9: Participante 03. Eixo 1 Esquema de pontos explicativos ....................................................74 Figura 10: Participante 03. Eixo 2 Esquema de pontos explicativos..................................................75 Figura 11: Participante 04. Eixo 1 Esquema de pontos explicativos..................................................78 Figura 12: Participante 05. Eixo 1 Esquema de pontos explicativos..................................................81 Figura 13: Participante 05. Eixo 2 Esquema de pontos explicativos..................................................82 Figura 14: Participante 06. Eixo 1 Esquema de pontos explicativos..................................................85 Figura 15: Participante 06. Eixo 2 Esquema de pontos explicativos..................................................86 Figura 16: Participante 06. Eixo 3 Esquema de pontos explicativos..................................................87 Figura 17: Participante 07. Eixo 1 Esquema de pontos explicativos..................................................90 Figura 18: Participante 07. Eixo 2 Esquema de pontos explicativos..................................................91 Figura 19: Participante 07. Eixo 3 Esquema de pontos explicativos..................................................92 Figura 20: Participante 08. Eixo 1 Esquema de pontos explicativos..................................................95 Figura 21: Participante 08. Eixo 2 Esquema de pontos explicativos..................................................96 Figura 22: Participante 08. Eixo 3 Esquema de pontos explicativos..................................................97 Figura 23: Participante 09. Eixo 1 Esquema de pontos explicativos................................................101 Figura 24: Participante 10. Eixo 1 Esquema de pontos explicativos................................................104 Figura 25: Participante 10. Eixo 2 Esquema de pontos explicativos................................................105 Figura 26: Participante 10. Eixo 3 Esquema de pontos explicativos................................................107 Figura 27: Participante 11. Eixo 1 Esquema de pontos explicativos................................................111 Figura 28: Participante 12. Eixo 1 Esquema de pontos explicativos................................................113 Figura 29: Participante 13. Eixo 1 Esquema de pontos explicativos................................................115 Figura 30: Participante 13. Eixo 2 Esquema de pontos explicativos................................................116 Figura 31: Participante 14. Eixo 1 Esquema de pontos explicativos................................................119 Figura 32: Participante 14. Eixo 2 Esquema de pontos explicativos................................................120 Figura 33: Participante 15. Eixo 1 Esquema de pontos explicativos................................................123 Figura 34: Participante 15. Eixo 2 Esquema de pontos explicativos................................................124 Figura 35: Participante 15. Eixo 3 Esquema de pontos explicativos................................................125 Figura 36: Participante 16. Eixo 1 Esquema de pontos explicativos................................................129 Figura 37: Participante 16. Eixo 2 Esquema de pontos explicativos................................................130 Figura 38: Participante 17. Eixo 1 Esquema de pontos explicativos................................................133 Figura 39: Participante 17. Eixo 2 Esquema de pontos explicativos................................................134 Figura 40: Participante 18. Eixo 1 Esquema de pontos explicativos................................................137 Figura 41: Participante 19. Eixo 1 Esquema de pontos explicativos................................................140 Figura 42: Participante 19. Eixo 2 Esquema de pontos explicativos................................................141 Figura 43: Participante 19. Eixo 3 Esquema de pontos explicativos................................................142 Figura 44: Participante 20. Eixo 1 Esquema de pontos explicativos................................................146 Figura 45: Participante 20. Eixo 2 Esquema de pontos explicativos................................................147 Figura 46: Diagrama de padres de construo no eixo 1.................................................................155 Figura 47: Diagrama de padres de construo no eixo 1 (oposies)...............................................157 Figura 48: Diagrama de padres de construo no eixo 1 (oposies)...............................................158 Figura 49: Diagrama de padres de construo no eixo 2.................................................................161 Figura 50: Diagrama de padres de construo no eixo 3.................................................................162ix

NDICE DE GRFICOS

Grfico 1: Participante 01 Eixos 1 e 2..............................................................................................70 Grfico 2: Participante 02 Eixos 1 e 2..............................................................................................73 Grfico 3: Participante 03 Eixos 1 e 2..............................................................................................76 Grfico 4: Participante 04 Eixos 1 e 2..............................................................................................79 Grfico 5: Participante 05 Eixos 1 e 2..............................................................................................83 Grfico 6: Participante 06 Eixos 1 e 2..............................................................................................88 Grfico 7: Participante 06 Eixos 1 e 3..............................................................................................89 Grfico 8: Participante 07 Eixos 1 e 2..............................................................................................93 Grfico 9: Participante 07 Eixos 2 e 3..............................................................................................94 Grfico 10: Participante 08 Eixos 1 e 2. ..........................................................................................98 Grfico 11: Participante 08 Eixos 2 e 3. ..........................................................................................99 Grfico 12: Participante 09 Eixos 1 e 2. ....................................................................................... 102 Grfico 13: Participante 10 Eixos 1 e 2. ....................................................................................... 108 Grfico 14: Participante 10 Eixos 1 e 3. ....................................................................................... 109 Grfico 15: Participante 11 Eixos 1 e 2. ....................................................................................... 112 Grfico 16: Participante 12 Eixos 1 e 2. ....................................................................................... 114 Grfico 17: Participante 13 Eixos 1 e 2. ....................................................................................... 117 Grfico 18: Participante 14 Eixos 1 e 2. ....................................................................................... 121 Grfico 19: Participante 15 Eixos 1 e 2. ....................................................................................... 126 Grfico 20: Participante 15 Eixos 1 e 3. ....................................................................................... 127 Grfico 21: Participante 16 Eixos 1 e 2. ....................................................................................... 131 Grfico 22: Participante 17 Eixos 1 e 2. ....................................................................................... 135 Grfico 23: Participante 18 Eixos 1 e 2. ....................................................................................... 138 Grfico 24: Participante 19 Eixos 1 e 2. ....................................................................................... 143 Grfico 25: Participante 19 Eixos 1 e 3. ....................................................................................... 144 Grfico 26: Participante 20 Eixos 1 e 2. ....................................................................................... 148

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NDICE DE TABELAS

Tabela 1: Potencial de funcionalidade esperado na condio funcional de tetraplegia ..........................10 Tabela 2: Potencial de funcionalidade esperado na condio funcional de paraplegia ..........................11 Tabela 3: Caractersticas dos participantes .........................................................................................39 Tabela 4: Nvel neurolgico da leso medular dos participantes...........................................................40 Tabela 5: Pares de elementos fornecidos para a elucidao de construtos. .........................................45 Tabela 6: Exemplo de relatrio de valores prprios da anlise de correspondncias.............................55 Tabela 7: Exemplo de relatrio da anlise de correspondncias. Valores de contribuio absoluta, contribuio relativa e de coordenada dos pontos de colunas (elementos) em cada eixo. .......................56 Tabela 8: Exemplo de relatrio da anlise de correspondncias. Valores de contribuio absoluta, contribuio relativa e de coordenada dos pontos de linhas (plos de construto) em cada eixo ..............57 Tabela 9: Amostra de agrupamento de conceitos associados a construtos nas grelhas de repertrio e elaborao de meta-categorias (procedimento de codificao aberta). ...................................................63 Tabela 10: Amostra de contagem de frequncias de associao entre elementos das grelhas de repertrio. ............................................................................................................................................64

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ABREVIATURAS UTILIZADAS (elementos da grelha de repertrio)

PLM pessoa com leso medular PCD pessoa com deficincia EU ANTES eu antes do acidente 6 MESES eu daqui a 6 meses EU QUANDO SOUBE eu quando soube as consequncias do acidente EU NA RUA eu quando ando na rua EXCLUDO eu excludo NO QUERO SER eu como no quero ser PS pessoa significativa ACEITA pessoa que me aceita NO ACEITA pessoa que no me aceita GRATA pessoa que agrada NON GRATA pessoa que no agrada

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1. INTRODUO

A leso medular traumtica resulta de dano provocado por um acidente, produzindo a interrupo das vias nervosas de comunicao entre o crebro e o resto do organismo, o que tem por consequncia alteraes das funes motoras, sensitivas e vegetativas. As consequncias deste tipo de leso afectam de forma severa, e geralmente irreversvel, a integridade das capacidades e funes bsicas do indivduo, determinando paralisia e perda de sensibilidade abaixo do nvel neurolgico de ocorrncia da leso; outras consequncias incluem a perda de controlo da bexiga e do intestino e disfuno sexual; pode tambm conduzir a diversas complicaes secundrias, como as escaras de presso, espasticidade e infeces urinrias de repetio. Trata-se de uma condio que modifica de forma brusca a vida do indivduo em reas essenciais do funcionamento, que altera as suas expectativas vitais e lhe impe extraordinrias mudanas. Para alm de significar deixar de andar, sofrer uma leso medular significa tambm perder a sensibilidade, ter de reeducar os esfncteres, evitar as complicaes mdicas secundrias, ter uma casa adaptada s necessidades, dispor de um meio de transporte adequado, restabelecer uma vida familiar, social e profissional, em suma, exige uma reestruturao de todas as reas da vida.

No mbito da Psicologia da Reabilitao, sob diversas abordagens tericas e metodolgicas, a leso medular tem sido investigada focando o problema da adaptao/ ajustamento da pessoa condio e seus factores correlativos. O seu estudo foi sendo acomodado aos paradigmas conceptuais sobre a deficincia. Sob a perspectiva do modelo mdico, o ajustamento visto como um processo individual de adaptao, pelo que a investigao se centra no impacto psicolgico e nas reaces emocionais envolvidas. No mbito da perspectiva ambientalista e sociolgica, o processo de ajustamento encarado como um problema social, sendo salientada a distino entre ajustamento psicolgico e ajustamento social, o que introduziu na investigao a influncia das condies ambientais e das variveis sociais como aspectos chave do ajustamento, dado interferirem nas possibilidades de participao das pessoas na sociedade. Sob a influncia da perspectiva interaccionista, o processo de ajustamento visto como produzindo-se de uma forma dinmica e evolutiva, em relao contnua com o ambiente e modificando-se ao longo

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do curso de vida. Diferenciado para cada pessoa, e afectando todas as dimenses da sua vida, o ajustamento representa, nesta perspectiva, o restabelecimento de um equilbrio que integra no s todos os factores individuais e sociais, como tambm a interaco entre eles. Nesta linha insere-se a corrente antropolgica e mdico-social, representada por Patrick Fougeyrollas no Canad e na Europa por Claude Hamonet, em Frana, e Teresa Magalhes, em Portugal (Fougeyrollas, 1994, Magalhes, 1998, Hamonet & Magalhes, 2001a, Hamonet, 2006), que perspectiva a deficincia ou desvantagem (handicap) como decorrente da interaco entre dois aspectos fundamentais: as situaes de vida, onde se incluem os factores associados ao ambiente fsico e social e que condicionam o handicap, e a subjectividade do indivduo, que condiciona o modo de reagir ao seu estado funcional, corporal e situacional. Neste enquadramento, o conceito de ajustamento baseia-se numa noo de sade que pressupe no o completo bem-estar, mas a ausncia de situao de

handicap, que permita pessoa a possibilidade de conduzir a sua vida o maisautonomamente possvel, mesmo que a sua autonomia esteja modificada e pressuponha algum grau de dependncia, de ajudas tcnicas ou de terceira pessoa. Integrando os aspectos subjectivos da experincia, a noo de ausncia de situao de handicap pressupe que a pessoa no esteja nem se veja em desvantagem. Esta perspectiva informa o presente trabalho.

A perspectiva interaccionista caracteriza os estudos mais actuais sobre o ajustamento leso medular, observando-se grande diversidade de aplicao de mtodos de pesquisa e de modelos tericos. Verifica-se a existncia de duas tendncias metodolgicas: os estudos de natureza quantitativa e os estudos de natureza qualitativa. Os primeiros estudam variveis psicolgicas e psicossociais em jogo no processo de ajustamento, recorrendo a estratgias de amostragem e de validao estatstica, frequentemente centrando-se em aspectos parciais da realidade do fenmeno. A investigao de natureza qualitativa opera por uma abordagem idiogrfica: de forma sistemtica analisa em profundidade o material recolhido, desenvolve descries e interpretaes sobre o fenmeno que observa, construindo abstraces sobre os dados, com a finalidade de fazer emergir conceitos que o permitam explicar e predizer (Strauss & Corbin, 1998). No estudo das pessoas com leso medular, as investigaes desta natureza dedicamse essencialmente a compreender a experincia pessoal e as dimenses que as pessoas valorizam e identificam como factores determinantes da sua qualidade de vida. So raros os

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estudos sobre a identidade das pessoas com leso medular, sendo uma temtica que aparece tratada no mbito da teoria sociolgica e da sociologia da sade, como por exemplo nos trabalhos de Smith & Sparkes (2004) e Yoshida (1993).

O presente estudo insere-se na vertente qualitativa de investigao. O modo como as pessoas constroem psicologicamente a sua experincia pessoal na situao imposta pela leso medular traumtica, constitui o mbito deste trabalho. Baseando-se no construtivismo pessoal, particularmente na Teoria dos Construtos Pessoais de George Kelly (1955/2001), pretende explorar especificamente o modo como as pessoas com leso medular constroem significados acerca da sua identidade. Para a teoria dos construtos pessoais, os processos psicolgicos so concebidos como operando atravs de uma rede estruturada de significados, que organiza a experincia pessoal e motiva o comportamento. O que determina que as pessoas estruturem ou dem significado sua experincia, a capacidade que esta estrutura lhes confere de antecipao, e portanto de controlo dos acontecimentos e da sua prpria aco. A caracterstica de antecipao inerente s construes pessoais permite que acontecimentos futuros possam ser previstos com segurana. A finalidade da construo de significados , assim, a de estabelecer modelos, ou sistemas pessoais de significao, para aplicao s realidades de que o mundo pessoal composto. A pertinncia do estudo da construo da identidade em pessoas que sofreram leso medular atravs deste referencial terico reside no facto de nele se perspectivarem os aspectos interpessoais, sociais e ambientais da realidade vivida como fundidas nas construes pessoais. Kelly (1955/2001) pensa no haver necessidade de se distinguir entre eventos externos e internos ou pblicos e privados, justamente porque a sua uma teoria de construo de significado e que considera que somente se constri significado quando se experienciam as situaes. Construir colocar uma interpretao, i.e., estruturar acontecimentos recorrentes. Somente por este acto de estruturao o mundo ganha sentido. Deste modo, todos os factores que para a pessoa com leso medular so pertinentes para dar significado a si prpria, sejam pessoais, sociais ou ambientais, podem ser abrangidos atravs do estudo do seu sistema pessoal de significados, desde que a pessoa tenha sobre eles construdo significado. A teoria pressupe que a construo pessoal se realiza de uma forma sincrtica com todos os elementos da experincia pessoal.

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O dispositivo metodolgico que neste enquadramento permita conhecer as construes pessoais da identidade, permitir aceder viso subjectiva da pessoa em situao e da forma como constri a sua identidade situada no contexto do vivido da condio de lesionado medular. Para explorar o sistema de construtos pessoais utilizou-se a tcnica da grelha de repertrio, a qual permite estudar o contedo e estrutura dos construtos pessoais, as formas particulares atravs dos quais a pessoa d significado sua experincia. A grelha de repertrio permite avaliar as formas de estruturao da identidade pessoal por referncia no a construtos tericos, como acontece nas tcnicas de questionrio, mas a construtos elaborados pela prpria pessoa. Alm disso, a tcnica tem a vantagem de combinar aspectos idiogrficos e nomotticos: atravs dela possvel obter uma compreenso da construo individual, mas tambm estudar padres de construo entre indivduos. Numa primeira etapa de anlise, foi feita a interpretao das grelhas de repertrio de cada participante, utilizando-se procedimentos matemticos de anlise factorial de

correspondncias. A anlise factorial de correspondncias consiste numa tcnica analtica exploratria de dados, que procede de modo a verificar relaes entre variveis, sem que coloque hipteses prvias sobre a natureza dessa relao. Aplicada grelha de repertrio, permite revelar a estrutura complexa da sua matriz de dados. Para passar a um nvel de comparao entre os participantes, e examinar padres de construo, outras tcnicas de anlise foram aplicadas, nomeadamente as tcnicas de codificao aberta, derivada da abordagem da grounded theory (Strauss & Corbin, 1998), e de anlise de contedo. Atravs destas tcnicas foi possvel identificar alguns padres de construo da identidade pessoal entre os participantes, os quais so apresentados em diagramas que representam a associao entre os elementos conceptuais que derivaram das anlises realizadas. O presente estudo constitui um trabalho de natureza exploratria, que apresenta limitaes ao nvel das possibilidades de generalizao dos seus resultados s pessoas com leso medular. Uma amostra de maior dimenso permitiria confirmar a recorrncia dos temas interpretados. Apresenta tambm a limitao de no poder ser comparado com outros trabalhos semelhantes, o que permitiria uma validao, ou invalidao, das concluses obtidas.

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Foi possvel identificar alguns padres de construo comuns entre os participantes e demonstrar formas alternativas e facetas mltiplas de construo pessoal. Algumas dimenses de significado que integram a identidade pessoal encontram eco na literatura produzida no mbito do estudo das pessoas com leso medular, quer na investigao de natureza quantitativa, quer qualitativa.

Na primeira parte deste trabalho, e aps uma breve apresentao sobre os impactos da leso medular na pessoa, faz-se uma apresentao dos diferentes paradigmas de conceptualizao da deficincia, que foram influenciando a investigao na Psicologia da Reabilitao. Neste mbito, os estudos sobre pessoas com leso medular dedicam-se principalmente a investigar as formas e factores determinantes para o ajustamento ou no ajustamento da pessoa, pelo que a reviso da literatura que se apresenta est organizada em torno desta temtica. Numa segunda parte de reviso da literatura, apresentada a teoria dos construtos pessoais de G. Kelly, bem como uma exposio sobre o modo como, neste sistema terico, a identidade equacionada. Conclui-se a reviso da literatura apresentando-se alguns trabalhos de investigao sobre a identidade atravs de grelhas de repertrio e sobre deficincia fsica adquirida. Todos os mtodos de recolha e de anlise de dados utilizados so descritos no captulo subsequente. Os resultados deste trabalho so apresentados em duas partes: na primeira apresenta-se a interpretao das grelhas de repertrio de cada participante; de seguida apresentam-se a padres de construo identificados. A interpretao sobre os padres de construo da identidade pessoal feita em simultneo com a sua discusso.

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2. ENQUADRAMENTO TERICO

Este captulo divide-se em duas partes. Na primeira parte so abordadas matrias relativas leso medular: a classificao das leses e uma descrio das sequelas e da previsvel funcionalidade de acordo com os segmentos neurolgicos atingidos. Uma introduo aos modelos conceptuais da deficincia e correlativas concepes do ajustamento deficincia tambm desenvolvida de forma breve, seguindo-se uma reviso da literatura sobre variveis psicolgicas envolvidas no processo de ajustamento leso medular, estudadas no contexto das investigaes de natureza quantitativa e qualitativa. Na segunda parte aborda-se o construtivismo pessoal de George Kelly e a aplicao da sua Teoria dos Construtos Pessoais s questes da identidade pessoal e da deficincia fsica.

2.1. LESO MEDULAR

2.1.1. Classificao das Leses Medulares e Expectativas de Funcionalidade As leses medulares podem ser genericamente divididas em duas categorias etiolgicas: leses traumticas e leses no-traumticas. As leses no-traumticas resultam geralmente de doenas ou outras condies patolgicas 1, enquanto as leses traumticas resultam de dano causado por um evento, tal como um acidente de viao ou uma queda. As leses medulares classificam-se atravs de trs categorias: nvel funcional, extenso e nvel neurolgico da leso. Com a finalidade de descrever a designao das leses medulares apresenta-se um esquema anatmico simplificado da espinal-medula (Figura 1). As leses medulares dividem-se correntemente em duas categorias funcionais: tetraplegia e paraplegia. A tetraplegia refere-se paralisia parcial ou completa das quatro extremidades e do tronco, incluindo os msculos respiratrios, e resulta de leso do segmento cervical da espinal-medula. A paraplegia refere-se paralisia completa ou parcial de todo ou parte do tronco e das duas extremidades inferiores, resultando de leses dos segmentos lombar ou das razes sagradas. Quanto extenso da leso, esta pode ser completa ou incompleta. Diz-

1 Exemplos dessas condies so: alteraes da funo vascular (malformaes arteriais e venosas, tromboses, embolia ou hemorragia), sub-luxaes vertebrais na sequncia de artrite reumatide ou doena degenerativa articular, infeces como a sfilis, neoplasias da espinalmedula e doenas neurolgicas, como a esclerose mltipla (Schmitz, 1988).

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se que a leso medular completa quando no existe funo sensorial e motora abaixo do nvel da leso e incompleta quando h preservao de alguma funo motora e sensorial. Existem diversos mtodos para identificar o nvel neurolgico especfico da leso medular, sendo o mais comum o de indicar o segmento da raiz do nervo mais caudal no envolvido,

i.e., que conserve funo motora e sensitiva. Assim, por exemplo, se a pessoa no apresentarfuno sensorial ou motora abaixo de C-7, a sua condio seria classificada como tetraplegia completa C-7. Mas se existir sensao irregular e alguma funo muscular abaixo do segmento de raiz do nervo C-7, seria classificada como tetraplegia incompleta C-7.

Figura 1: Esquema da espinal-medula.Delimitao dos nveis neurolgicos correspondentes aos quatro segmentos: cervical, dorsal, lombar e sagrado.

A leso medular tem por consequncia alteraes anatmicas e funcionais que dependem do nvel da leso e dos nervos que tenham sido afectados. A destruio dos nervos motores determina paralisia, a dos nervos sensitivos implica perda de sensibilidade ao toque, presso e temperatura. Outras consequncias incluem a perda ou limitao da capacidade respiratria e do reflexo da tosse, dificuldades ao nvel da regulao trmica, a presena de dor e espasticidade, a perda de controlo da bexiga e do intestino e disfuno sexual. Pode tambm conduzir a diversas complicaes secundrias, como as escaras de presso, maior

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susceptibilidade a doenas respiratrias, infeces urinrias de repetio, hipotenso postural, contracturas musculares, complicaes circulatrias, osteoporose e formao de clculos renais. Trata-se de uma condio que exige, quer nas fases iniciais de tratamento, quer nas fases de seguimento, cuidados mdicos e de reabilitao prolongados, com perodos de hospitalizao muito longos e recorrentes, para alm do tratamento das complicaes secundrias. As expectativas de funcionalidade variam de acordo com o nvel neurolgico da medula afectado: quanto mais baixo o nvel da leso menos comprometida a funcionalidade e melhor o potencial de recuperao. No mbito da avaliao da funcionalidade, avalia-se o grau de independncia para as actividades de vida diria, tais como os cuidados pessoais e de higiene, o controle de esfncteres, a comunicao, a mobilidade e a locomoo. Para alm do nvel neurolgico da leso, o grau de funcionalidade que a pessoa poder atingir mediado por outros factores, como por exemplo a existncia prvia de problemas de sade, as caractersticas pessoais que influenciam as possibilidades de aprendizagem do ajustamento nova condio, e os factores ambientais, que facilitaro ou no este processo de ajustamento. Nas pginas seguintes apresentam-se descries das expectativas de funcionalidade de acordo com os nveis neurolgicos especficos, para as condies de tetraplegia (Tabela 1) e paraplegia (Tabela 2). Esta descrio refere-se s leses completas e baseia-se nos trabalhos de Lindsey, Klebine & Wells (2000), Castro & Bravo (1993) e Lindemann (1981). A leso medular consubstancia uma condio que impe extraordinrias mudanas na vida do indivduo. Sofrer uma leso medular, para alm de significar deixar de andar, significa tambm perder a sensibilidade, ter de reeducar os esfncteres, evitar as complicaes mdicas secundrias, ter uma casa adaptada s necessidades, dispor de um meio de transporte adequado, restabelecer uma vida familiar, social e profissional. Aps a alta hospitalar, significa reestruturar todas as reas da vida.

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Tabela 1: Potencial de funcionalidade esperado em leses completas, segundo o nvel neurolgicoe na condio funcional de tetraplegia [adaptao a partir de Lindsey, Klebine & Wells (2000), Castro & Bravo (1993) e Lindemann (1981)].

NVEL LESO

TETRAPLEGIA: EXPECTATIVAS DE FUNCIONALIDADEDepende de ventilador para respirar. As pessoas com leso ao nvel C3 tm algum movimento da cabea e pescoo. Preservadas as funes de mastigar, deglutir e soprar. A fala pode estar total ou gravemente limitada. A comunicao pode ser realizada atravs de ajudas tcnicas, como um computador, o que permitir pessoa dar aos outros algumas instrues, orientando-os para as suas necessidades nas actividades dirias, como tomar banho, vestir-se, transferir-se, ou regular a higiene da bexiga e do intestino. Pode mover-se atravs de cadeira de rodas elctrica, com comando na cabea, na boca ou no queixo. Capacidade respiratria reduzida, podendo inicialmente necessitar de ventilador, mas normalmente recupera a capacidade para respirar sem ajuda. Tem, normalmente, controle da cabea e do pescoo. As pessoas com leso em C4 podem encolher os ombros. Comunicao normal. Tem necessidade de ajuda ao nvel dos cuidados pessoais, alimentao e transferncias. Com a ajuda de adaptaes tcnicas na boca poder ler e escrever, mas a independncia para estas tarefas limitada. Pode mover-se em cadeira de rodas elctrica. Capacidade respiratria reduzida, com limitaes ao nvel da tosse. Tem controle da cabea, pescoo e ombros. Pode dobrar os cotovelos e virar a palma das mos. Com ajudas tcnicas especficas pode comer, beber, lavar a face e os dentes, pentear e barbear. Necessita de ajuda para fazer transferncias. Embora a pessoa com leso C5 possa ter fora suficiente para empurrar uma cadeira de rodas manual, por distncias curtas e em superfcies lisas, normalmente usa cadeira de rodas elctrica com comando manual para o desempenho das actividades de vida diria. Capacidade respiratria reduzida. Tem movimento da cabea, pescoo, ombros, braos e pulsos, podendo encolher os ombros, dobrar os cotovelos, virar a palma das mos para cima e para baixo e flectir o punho. Com ajudas tcnicas pode ganhar alguma autonomia e com maior facilidade comer, arranjar-se e vestir a parte superior do tronco. Pode usar uma cadeira de rodas manual para as actividades dirias, mas para maior independncia necessitar de cadeira de rodas elctrica. Algumas pessoas conseguem sozinhas fazer a higiene da bexiga e intestino, aliviar a presso nas ndegas, voltar-se na cama e conduzir automvel adaptado. Capacidade respiratria reduzida. Movimento similar s pessoas com leso C6, mas com maior capacidade para endireitar os cotovelos. Maior facilidade para desempenhar algumas tarefas da lida da casa e para transferir-se e aliviar a presso nas ndegas, necessitando de menos ajudas tcnicas. Pode fazer percursos mais longos e em superfcies lisas em cadeira de rodas manual.

C1 C3

C3 C4

C5

C6

C7

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Tabela 2: Potencial de funcionalidade esperado em leses completas, segundo o nvel neurolgicoe na condio funcional de paraplegia [adaptao a partir de Lindsey, Klebine & Wells (2000), Castro & Bravo (1993) e Lindemann (1981)].

NVEL LESO

PARAPLEGIA: EXPECTATIVAS DE FUNCIONALIDADECapacidade respiratria reduzida. As leses em C-8 e D-1 so similares. Tem maior fora e preciso nos dedos, de que resulta um movimento natural, embora limitado, das mos. Pode, de forma independente e sem ajudas tcnicas, comer, tomar banho, arranjar-se, fazer a higiene oral, vestir-se, fazer a higiene da bexiga e do intestino e fazer transferncias. Uso de cadeira de rodas manual. Abaixo do nvel D2 h funo motora normal da cabea, pescoo, ombros, braos, mos e dedos. Maior uso dos msculos torcicos e intercostais e controle do tronco. Pode ser totalmente independente em todas as actividades. Alguns indivduos conseguem caminhar de forma pendular, por distncias curtas e com dispositivos de apoio. Pode conduzir automvel com controlo manual. Maior capacidade para tossir. Maior controlo do tronco e controle motor abdominal. Pode caminhar em posio pendular com dispositivos de apoio e, se tiver fora ao nvel do tronco superior e dos membros superiores, pode subir e descer escadas. Alguns indivduos podem caminhar, de forma limitada, mas isto requer uma extrema energia e colocar a fora na parte superior do corpo, o que no fornece vantagem funcional, j que pode conduzir a leses das articulaes superiores. Capacidade para desempenhar actividades em posio sentada e sem apoio. Totalmente independente nas actividades de vida diria. Pode conduzir automvel com controlo manual. Pode haver recuperao da funo motora das ancas e joelhos. Totalmente independente nas actividades de vida diria. Caminhar pode ser um objectivo funcional vivel para as pessoas com leso entre L1 e L5, com a ajuda de ortteses longas (desde o tornozelo at s ancas); as pessoas com leso mais baixa recuperam a marcha com mais facilidade. Conduo de automvel com controlo manual. Capacidade para recuperar a marcha com ou sem apoio de dispositivos. Dependendo do nvel da leso, h diferentes graus de recuperao da bexiga e intestino voluntrios e da funo sexual. Quanto mais baixo o nvel da leso, melhor a recuperao de funes.

C8 D1

D2 D6

D7 D12

L1 L5

S1 S5

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2.1.2. Investigao Psicolgica sobre Ajustamento Leso Medular

2.1.2.1. Nota sobre os Diferentes Paradigmas de Investigao O conceito de ajustamento, aplicado deficincia fsica adquirida em geral e leso medular em particular, tem sido um dos aspectos mais estudados no mbito da Psicologia da Reabilitao, demonstrando-se como uma rea resilliente s diversas abordagens metodolgicas e paradigmas conceptuais. Percorrendo a evoluo das conceptualizaes sobre a deficincia, o ajustamento foi sendo perspectivado como: 1) processo de adaptao individual, centrado no impacto psicolgico e nas reaces emocionais sob a perspectiva do modelo mdico da deficincia; 2) problema social, salientando-se a distino entre ajustamento psicolgico e ajustamento social sob a perspectiva ambientalista no mbito das teorias sociolgicas; 3) processo de interaco pessoa ambiente, entendendo-se o ajustamento como uma resposta da pessoa s exigncias do ambiente perspectiva que caracteriza os estudos mais actuais, imbuda de pluralismo conceptual e tcnico (Ruiz & Aguado-Diaz, 2003). A perspectiva ambientalista e sociolgica teve o mrito de apontar a importncia dos comportamentos sociais, das variveis ambientais e das possibilidades de participao na sociedade das pessoas com deficincia como aspectos chave no processo de ajustamento. Contriburam para o alargamento conceptual da noo de ajustamento pela introduo da dimenso pessoal, relativa aos efeitos que a deficincia tem sobre a pessoa e s reaces da pessoa a esses efeitos, e da dimenso social, ou seja, ao papel da sociedade na facilitao do processo de ajustamento. Esta perspectiva veio conferir deficincia um estatuto de realidade construda num determinado contexto scio-cultural, dando origem a uma linha de investigao sobre a influncia das condies ambientais e das variveis sociais. A reviso da Classificao Internacional das Deficincias, Incapacidades e Handicaps (CIDIH Organizao Mundial de Sade, 1980), que deu origem Classificao Internacional do

Funcionamento, Incapacidade e Sade (CIF - OMS, 2001) vai de encontro aos pressupostosdestas perspectivas. Na CIF a deficincia, ou melhor, o funcionamento, termo mais neutro, perspectivado sob dois ngulos: o funcionamento individual e o funcionamento social. A dimenso individual compreende as funes corporais (onde se incluem as funes psicolgicas, dado que o termo se refere s funes dos sistemas fisiolgicos) e as estruturas

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anatmicas. A dimenso social rene as dimenses de actividade e participao, sendo que actividade corresponde execuo de uma tarefa (sendo o seu corolrio negativo a limitao da actividade) e a participao diz respeito ao envolvimento de uma pessoa nas situaes reais de vida (sendo o seu corolrio negativo a restrio da participao). A deficincia designa o conjunto dos elementos negativos destas dimenses: deficincia da funo ou estrutura, limitao da actividade e restrio da participao. Os factores ambientais so listados na CIF parte e globalmente dizem respeito aos aspectos do ambiente fsico, social e das atitudes no qual as pessoas vivem e conduzem as suas vidas. No modelo interaccionista o ajustamento visto como um processo multicausal e multidimensional, representando o restabelecimento de um equilbrio que integra no s todos os factores, individuais e sociais, como tambm a interaco entre eles. Considera-se que o ajustamento um processo diferenciado para cada pessoa, no existindo de forma uniformizada, que afecta todas as dimenses da sua vida e que se produz de uma forma dinmica e evolutiva, em relao contnua com o ambiente e modificando-se ao longo do curso de vida. Nesta linha insere-se a corrente antropolgica e mdico-social 2, que modifica a terminologia comum, utilizando o termo handicap para se referir deficincia. Este termo derivou da noo de handicap de situao cunhada por Pierre Minaire (1991), para quem a deficincia ou desvantagem (handicap) decorre da interaco entre os factores individuais, portanto subjectivos, e os factores associados ao ambiente fsico e social. Por essa razo referir-se a pessoas com deficincia atravs de termos como o deficiente, e mesmo o uso da palavra deficincia (C. Hamonet, comunicao pessoal, 12-11-2004), so considerados estigmatizantes, dado colocarem a tnica nas caractersticas, fsicas ou mentais, do indivduo, sonegando o contributo dos factores ambientais para a situao de desvantagem (handicap) em que a pessoa vive. Assim, nesta corrente terica, deficincia inclui dois elementos fundamentais: as situaes de vida, que condicionam o handicap, e a subjectividade do indivduo, que condiciona o modo de reagir ao seu estado funcional, corporal e situacional (Hamonet & Magalhes, 2001a). Neste enquadramento, a noo de ajustamento baseia-se numa noo mais tangvel de sade, que pressupe no o completo bem-estar, conforme postula a constituio de 1947 da OMS, mas um bem-estar menos utpico, que significar a ausncia de situao de handicap (Hamonet & Magalhes, 2001b) e a reabilitao da pessoa2

Representada por Patrick Fougeyrollas no Canad (Qubec) e na Europa por Claude Hamonet (Frana) e Teresa Magalhes (Portugal) (Fougeyrollas, 1994, Magalhes, 1998, Hamonet & Magalhes, 2001, Hamonet, 2006).

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com deficincia envolve todo o conjunto de meios mdicos, psicolgicos e sociais que lhe permitam a possibilidade de conduzir a sua existncia o mais autonomamente possvel, mesmo que a sua autonomia pressuponha algum grau de dependncia de ajudas tcnicas ou de terceira pessoa.

2.1.2.2. Variveis Psicolgicas: Estudos de Natureza Quantitativa Embora os princpios da multidimensionalidade e da abordagem integral sejam sugeridos por muitos autores, no podemos dizer, porm, que estejam presentes de forma generalizada no estudo do ajustamento leso medular. As dificuldades para abordar fenmenos multidimensionais so bvias, e a ausncia de um modelo global que integre todos os factores em jogo no processo de ajustamento dificulta o seu estudo sistemtico (Ruiz & Aguado-Diaz, 2003). Isto significa que, na prtica, os investigadores se centram em aspectos psicolgicos parciais, estudando variveis psicolgicas que interferem no processo de ajustamento. Nestas pginas descrevem-se alguns dos resultados obtidos pela investigao quantitativa sobre a influncia de variveis psicolgicas no processo de ajustamento leso medular. A depresso uma das variveis psicolgicas mais estudadas nas pessoas com leso medular, sendo utilizada em muitos estudos como indicador de ajustamento. Numa reviso literria sobre tratamento da depresso aps leso medular, Elliott & Kennedy (2004) refere estudos que apontam a prevalncia de episdios de depresso major de 22,7% a 30% (Frank et al., 1985, Fullerton et al., 1981). Os estudos citados foram realizados com amostras pequenas, de pessoas que haviam sofrido recentemente a leso medular e utilizaram mtodos de entrevista, apoiando-se nos critrios do DSM-III. Uma prevalncia mais baixa foi encontrada noutros estudos: 13% no estudo de Judd & Brown (1992) e 11% no estudo de Frank et al. (1992); nestes, as medidas foram obtidas atravs da avaliao subjectiva pelos prprios participantes e a amostra variava relativamente ao tempo decorrido aps a leso medular. Elliott & Kennedy (2004) refere ainda a existncia de outros trabalhos que indicam que em pessoas cuja leso medular foi recente, e que apresentam critrios de depresso major e distimia, pode haver remisso dos sintomas dentro de trs meses aps a ocorrncia da leso medular (Kishi et al. 1994); e no estudo de Richards (1986) os sintomas depressivos diminuram ao longo do primeiro ano aps a leso medular.

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Os estudos sobre depresso nas pessoas com leso medular no permitem retirar concluses definitivas, dado a disparidade de critrios diagnsticos utilizados; o momento da avaliao, i.e., se ocorre na fase de internamento ou posteriormente, quando o indivduo retorna sua rotina; as medidas de depresso utilizadas, uma vez que se utiliza grande variedade de instrumentos, e o facto de haver escassos estudos de validao desses instrumentos (Elliott & Frank, 1996, Ruiz & Aguado-Daz, 2003). Em algumas investigaes o suicdio indicado como a terceira causa de morte em lesionados medulares com menos de 55 anos de idade, calculando-se uma taxa de prevalncia entre 5 e 10%, o que significa uma diferena de 3 a 5 vezes maior que na populao geral (Charlifue & Gerhart, 1991, DeVivo et al., 1991, DeVivo et al., 1993, cits. por Kewman & Tate, 1998). Supe-se que estas estimativas estejam sub-calculadas, uma vez que algumas mortes declaradas como acidentais, e que se cr serem devidas a septicemia na sequncia de escaras de presso, falta de cuidados ao nvel respiratrio ou a infeces do tracto urinrio, sejam de facto condutas para-suicidas por auto-negligncia (Dijkers et al., 1995, Hartkopp et

al., 1998).Algumas pesquisas indicam haver uma correlao negativa entre suicdio e grau de severidade da leso medular. Hopkins (1971), Dijkers et al. (1995) e Hartkopp et al. (1997, 1998) verificaram que a probabilidade de ocorrncia de suicdio nas pessoas com paraplegia, e portanto com menor perda de funcionalidade, era maior que nas pessoas com tetraplegia completa, sendo duas vezes maior no estudo de Hartkopp et al. (1998). Por seu lado, o estudo de Kettl (1991, cit. por Kewman & Tate, 1998) revela que a expresso de ideao suicida maior nas pessoas com tetraplegia. O estudo de Charlifue & Gerhart (1991) demonstra a associao do suicdio a variveis emocionais como desalento, vergonha, apatia e sentimentos de desespero, a um histrico de fragmentao familiar anterior leso medular, ao abuso de lcool, ao envolvimento activo no evento traumtico que motivou a leso e depresso prvia. Existe uma grande quantidade de estudos que procuram explicar o ajustamento, ou noajustamento, individual leso medular atravs de variveis da personalidade. Segundo Ruiz & Aguado-Daz (2003), podem distinguir-se quatro tendncias epistemolgicas nos estudos sobre personalidade em pessoas com leso medular: 1) estudos que investigam o papel da personalidade enquanto factor de predisposio para a ocorrncia da leso medular

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traumtica; 2) estudos que avaliam o impacto da leso medular sobre a personalidade; 3) estudos que investigam a influncia de traos de personalidade sobre o processo de ajustamento; 4) estudos que descrevem caractersticas e traos de personalidade da pessoa com leso medular. No primeiro grupo de estudos cabe referir os trabalhos que relacionam traos de personalidade com factores comportamentais de risco, como a audcia e assertividade (Kunce & Worley, 1966, cit. por Ruiz & Aguado-Daz, 2003), a impulsividade (Fordyce, 1964, Kendall et al., 1978, cit. por Krause & Rohe, 1998), o gozo com actividades que envolvam risco, a procura de sensaes e os padres de actividade altos (Ditunno et al., 1985, Mawson

et al., 1988, cits. por Ruiz & Aguado-Daz, 2003), uma maior independncia (Athelstan &Crewe, 1979, cit. por Ruiz & Aguado-Daz, 2003) e uma menor orientao social que as pessoas sem leso medular (Weiss & Diamond, 1966, cit. por Ruiz & Aguado-Daz, 2003). Nos estudos que avaliam o impacto da personalidade no ajustamento condio, predominam investigaes sobre os aspectos patolgicos da personalidade. Refiram-se os estudos de Fordyce (1964) e Kendall et al. (1978), autores que encontraram resultados semelhantes: os participantes apresentavam maiores graus de impulsividade e de interesses considerados como tipicamente masculinos, no demonstrando maior tendncia para exprimirem sentimentos depressivos, negao ou preocupao excessiva com os problemas fsicos. No terceiro grupo de estudos, o ajustamento visto como um processo individual de aprendizagem e a personalidade como uma varivel psicolgica que joga um papel neste processo, explicativa das diferenas individuais. Um exemplo deste tipo de estudo o trabalho de Krause & Rohe (1998), onde os autores procuraram identificar a relao entre personalidade e ajustamento leso medular utilizando uma medida no-patolgica (NEO-PI3) e um instrumento de avaliao do ajustamento leso medular em diversas reas (MAP4). Os resultados globais sugerem que o Neuroticismo e a Extraverso so os factores mais fortemente associados ao ajustamento leso medular. O Neuroticismo correlaciona-se com indicadores emocionais negativos, mas na sub-escala de Impulsividade no se verificou uma correlao negativa com o ajustamento, o que contraria os dados de Fordyce (1964). Na escala de Extraverso, os resultados correlacionam-se positivamente com o ndice de

Satisfao Geral, mas na sub-escala de Fantasia encontrou-se uma correlao positiva com o3

Neuroticism, Extraversion and Openness Personality Inventory (Costa & McCrae, 1992). Multidimensional Adjustment Profile (Krause & Anson, 1997).

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sofrimento emocional, o que, segundo os autores, permite interpretar que as pessoas que utilizam esta estratgia podem experienciar mais sofrimento emocional e considerarem estar menos ajustadas do que poderiam. Por fim, no mbito dos estudos que descrevem caractersticas e traos de personalidade da pessoa com leso medular, so de referir os estudos de Malec (1985, cit. por Krause & Rohe, 1998) e Wheeler et al. (1996, cit. por Ruiz & Aguado-Daz, 2003), que utilizaram o Eysenck

Personality Inventory. Em ambos foi encontrada a presena de resultados significativamentemais altos no factor Extraverso, indicativo de tendncia para aprendizagem contingencial por descoberta e atravs de uma atitude activa. Contudo, Dias de Carvalho et al. (1998) e Somasundaram et al. (1992) (cits. por Ruiz & Aguado-Daz, 2003) no encontraram diferenas nas pontuaes de Extraverso e Neuroticismo entre as pessoas com leso medular e a populao geral. A satisfao e qualidade de vida so conceitos que tm sido mencionados como medidas de ajustamento a longo prazo (Frank & Elliott, 1987, Elliott & Frank, 1996, Ruiz & Aguado-Daz, 2003). A Organizao Mundial de Sade define qualidade de vida como a auto-percepo que a

pessoa tem da sua vida, dentro do contexto cultural e do sistema de valores em que est inserida, e em relao aos seus prprios objectivos, expectativas, padres e preocupaes. Trata-se de um conceito lato, subjectivo e multidimensional, que incorpora a sade fsica, o estado psicolgico, o nvel de independncia, as relaes sociais, as crenas pessoais e a relao com os elementos relevantes do ambiente (WHOQOL Group, 1994, p. 24). Apesar daabrangncia desta definio, no que diz respeito leso medular verifica-se uma ausncia de consenso relativamente delimitao do conceito e s dimenses e indicadores a utilizar para a sua avaliao: a investigao neste domnio caracteriza-se por uma grande variabilidade de definies, quer explcitas quer implcitas, pela multiplicidade de instrumentos de avaliao, a que corresponde grande diversidade de contedos de medida, dificultando a comparao e generalizao de resultados (Brown & Gordon, 1999, Hallin et

al., 2000, Jang et al., 2004).Intrnsecos s medidas de qualidade de vida esto julgamentos de valor, pelo que a questo talvez se resuma a saber quais (que aspectos da vida so incorporados na avaliao da qualidade de vida) e de quem (da prpria pessoa, dos membros da sua famlia, do

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investigador) so os valores que esto a ser sondados (Brown & Gordon, 1999, Hammell, 2007). Alguns trabalhos estudam a relao entre satisfao com a vida e factores associados leso medular, como o dano, a incapacidade e o grau de desvantagem envolvido. A ideia intuitiva de que a um maior dano e incapacidade corresponde menor satisfao com a vida no encontra apoio na investigao emprica (Decker & Schulz, 1985, Dijkers, 1999, Fuhrer et al., 1992, McColl & Rosenthal, 1994, Richards et al., 1999, Vogel et al., 1998, Cushman & Hassett, 1992, Dijkers, 1997, Schulz & Decker, 1985). No entanto, s pessoas que se encontram numa situao de maior desvantagem esto-lhes associadas medidas de satisfao com a vida mais reduzidas, por exemplo no que concerne s limitaes relativas mobilidade (Fuhrer et al., 1992, Cushman & Hassett, 1992, Vogel et al., 1998, Dijkers, 1999), aos sistemas de apoio social (Decker & Schulz, 1985, Schulz & Decker, 1985, Fuhrer

et al., 1992, Rintala et al., 1992, Crisp, 1992, Bach & Tilton, 1994, Clayton & Chubon, 1994,McColl & Rosenthal, 1994, Dijkers, 1997, Post et al., 1998, Vogel et al., 1998, Dijkers, 1999, McColl et al., 1999, Post et al., 1999) ao acesso ao ambiente (Richards et al., 1999) ou a papis sociais (Fuhrer et al., 1992, McColl & Rosenthal, 1994, Post et al., 1998). O locus de controlo pode ser definido como o grau com que a pessoa avalia os resultados e acontecimentos como contingentes sua conduta e refere-se crena que ela tem sobre a capacidade de o seu comportamento os poder influenciar. Uma pessoa com locus externo no encontra uma relao entre o seu comportamento e os acontecimentos externos, pelo que se auto-percepciona como tendo pouco controle sobre a sua vida. Por seu lado, uma pessoa com locus interno acredita que o seu comportamento tem consequncias externas. Os estudos sobre locus de controlo em pessoas com leso medular orientam-se por dois objectivos principais (Ruiz & Aguado-Diaz, 2003): a investigao sobre a relao entre locus e ajustamento e a investigao de um locus caracterstico das pessoas com leso medular. Relativamente a este ltimo objectivo, os estudos no comprovam a existncia de um locus tpico, que seria resultante do impacto da leso medular. Estudos como os de Shadish et al. (1981) e Bukelew et al. (1991) (cits. por Ruiz & Aguado-Daz, 2003), Frank & Elliott (1989) e Frank et al. (1987) sugerem a existncia de diferenas individuais e demonstram a ausncia de relao entre locus e variveis como o tipo de leso, tempo transcorrido aps a leso ou a idade.

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Quanto ao primeiro conjunto de estudos referido, nalguns os resultados obtidos demonstram a relao entre bem-estar psicolgico e locus de controlo interno (Albrecht & Higgins, 1977, Rosenbaum & Raz, 1977, Shadish et al., 1981, Mazulla, 1984, Crisp, 1992, Krause et al., 1998, cits. por Ruiz & Aguado-Daz, 2003); outros revelam que as pessoas com leso medular com locus externo obtm pontuaes mais altas em escalas de depresso, mais baixas na auto-estima, mais altas no abandono aprendido e desespero e manifestam atitudes mais fatalistas que o grupo de controlo (Hancock et al., 1993, Craig et al., 1994, cits. por Ruiz & Aguado-Daz, 2003), especialmente na fase inicial de reabilitao, enquanto que as pessoas com locus interno, para alm de apresentarem um melhor bem-estar psicolgico, necessitam de um menor tempo para reabilitao mdico-funcional (Rosenbaum & Raz, 1977, Shadish et al., 1981, Trieschman, 1984) e demonstram um maior envolvimento com o cuidado pessoal e na preveno de escaras de presso (Anderson & Andber, 1979, cit. por Ruiz & Aguado-Daz, 2003). Na definio de coping incluem-se todas as estratgias utilizados para lidar com o stress, independentemente do resultado que atravs delas se obtenha. As funes principais das estratgias de coping so a resoluo de problemas e o controle emocional. Este conceito tem sido utilizado na investigao com o intuito de se estudar o processo de ajustamento deficincia fsica adquirida. A pertinncia do estudo sobre coping em pessoas com leso medular reside no facto de estas pessoas atravessarem diversos perodos de transio que podero ser considerados stressantes. Exemplos de alguns desses perodos so o incio do processo de reabilitao funcional aps a alta do internamento, as intervenes cirrgicas a que se submetem, a acomodao cadeira de rodas e outras ajudas tcnicas, o confronto com a acessibilidade, ou falta dela, no domiclio e o processo de reconverso profissional. Muitos dos estudos neste domnio procuram compreender quais as estratgias de coping mais eficazes no processo de ajustamento leso medular e utilizam a depresso e o bemestar psicolgico como indicadores de eficcia (Ruiz & Aguado-Daz, 2003). Dentro das estratgias de coping consideradas mais eficazes, associadas com maior bemestar, encontra-se a resoluo de problemas, a planificao e a reestruturao cognitiva (Buckelew et al., 1990, Elliott et al., 1991, Hanson et al., 1993), a procura de apoio social (Moore et al., 1994, Kennedy et al., 1995) e a aceitao (Kennedy et al., 1995, Dias de Carvalho et al., 1998) (cits. Ruiz & Aguado-Daz, 2003). A procura de informao tambm aparece como uma estratgia eficaz, sobretudo quando decorridos alguns meses aps a

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leso medular (Buckelew et al., 1990). Os estudos de Mason (1994) e Moore et al. (1994) revelam ainda que o optimismo e esperana, associados a estratgias de coping centradas no problema e na procura de solues de ajuda, aconselhamento ou apoio social, podem revelar-se eficazes no processo de ajustamento. As estratgias menos eficazes de ajustamento, associadas a depresso ou ansiedade so as de fuga-evitamento (Moore et al., 1994, Dias de Carvalho et al., 1998), a minimizao da ameaa (Buckelew et al., 1990, Buckelew et al, 1991), a desvinculao emocional (Kennedy

et al., 1995), o pensamento desiderativo (Frank et al., 1987, Buckelew et al., 1990,Buckelew et al 1991, Hanson et al., 1993), a confrontao e culpabilizao (Dias de Carvalho

et al., 1998) e a preocupao com a causa e evitabilidade da ocorrncia da leso (Van DenBout et al., 1988, cit. por Ruiz & Aguado-Daz, 2003).

2.1.2.3. Variveis Psicolgicas: Estudos de Natureza Qualitativa Num recente trabalho de meta-sntese sobre investigao qualitativa em pessoas com leso medular, Hammell (2007) coloca em evidncia os contributos da literatura publicada para a compreenso dos factores que determinam a qualidade de vida aps leso medular. No contexto deste trabalho, qualidade de vida uma noo abrangente, que reflecte os contedos dos significados pessoais e os factores que os participantes dos estudos identificaram como concorrendo para uma experincia de vida com qualidade 5 O autor seleccionou trabalhos publicados desde 1990 (59 artigos e 4 livros) onde aquele conceito de qualidade de vida estivesse reflectido. Excluiu todos os trabalhos onde o material bruto do discurso dos participantes no fosse apresentado, uma vez que, desse modo, as interpretaes dos autores no poderiam ser verificadas. Os paradigmas epistemolgicos e metodolgicos nesta amostra de trabalhos so dspares (e.g., fenomenologia, grounded

theory, anlise de discurso, entrevista etnogrfica), no entanto este aspecto no constituiucritrio de seleco. Da meta-sntese efectuada foram extrados 9 temas, no mutuamente exclusivos, associados vida com qualidade: ambiente, corpo, responsabilidade, ocupao, desenvolvimento de novos valores e perspectivas, auto-estima, relaes interpessoais, dano e perda e continuidade biogrfica.

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For the purposes of this review, quality of life was conceptualized as the experience of a life worth living (Hammell, 2007, p. 126).

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A experincia de vida com leso medular inseparvel do contexto em que a pessoa vive. Os estudos analisados apontaram para dimenses do ambiente fsico, social e poltico, como a acessibilidade e mobilidade, as preocupaes econmicas com os tratamentos e cuidados de sade, as politicas de segurana social e aspectos sociais de estigma e discriminao, que podem facilitar ou constranger a vida das pessoas com leso medular (Bach & McDaniel, 1993, Carpenter, 1994, Boswell et al., 1998, Duggan & Dijkers, 1999, Manns & Chad, 2001, Hammell, 2004, Smith & Sparkes, 2004). Os problemas relativos ao corpo, como a dor e fadiga e as complicaes mdicas secundrias como as infeces do tracto urinrio e a susceptibilidade s escaras de presso, so aspectos avaliados como muito inconvenientes e geradores de frustrao (Carpenter, 1994, Manns & Chad, 2001 Hammell, 2004), impedindo a possibilidade de participao espontnea em actividades (Duggan & Dijkers, 1999, Manns & Chad, 2001) e diminuindo a percepo pessoal de qualidade de vida. A este tema aparece associada a necessidade de assumir a responsabilidade pelo planeamento e organizao do dia-a-dia, de modo a assegurar e prevenir impedimentos espontaneidade desejada. Estreitamente relacionado com os problemas colocados pelo corpo est o desenvolvimento de um sentido pessoal de controlo e responsabilizao pela sua prpria vida. Os problemas do corpo demandam esforo de antecipao e planeamento quotidianos, de forma a tornar possvel a realizao com independncia e espontaneidade as actividades em que a pessoa est envolvida. Assumir a responsabilidade por estes aspectos confere um sentimento de liberdade, de controlo, de capacidade de tomada de deciso e de auto-determinao (Bach & McDaniel, 1993, Carpenter, 1994, Hammell, 2004), o que, segundo o autor, indica que o sentimento de independncia e controle no dependem exclusivamente da independncia fsico-funcional (Carpenter, 1994, Hammell, 2004). As pessoas com leso medular concedem grande importncia s actividades ocupacionais e profissionais, s oportunidades de explorarem e se envolverem em actividades que para elas sejam significativas, ao desenvolvimento de papis sociais valorizados e ao sentido de terem objectivos pessoais, aspectos que imprimem um sentimento de ser til para os outros (Carpenter, 1994, Boswell et al., 1998, Duggan & Dijkers, 1999, Manns & Chad, 2001, Hammell, 2004). Hammell (2007) refere a ocorrncia de uma deciso deliberada para o envolvimento em actividades, deciso que se sucede a uma reformulao da perspectiva pessoal sobre as incapacidades resultantes da leso, para uma recentrao nas capacidades e potencialidades pessoais (Carpenter, 1994, Hammell, 2004).

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A leso medular introduz uma ruptura biogrfica e a quebra da iluso de um futuro previsvel. Esta mudana conduziu muitas pessoas a reformularem quer o valor que concediam s suas vidas, quer as suas prioridades (Duggan & Dijkers, 1999, Hammell, 2004, Smith & Sparkes, 2004), incluindo a utilizao que faziam do tempo (Hammell, 2004). Embora muitas pessoas refiram sentimentos de desespero, de inutilidade e de autodesvalorizao (Duggan & Dijkers, 1999, Hammell, 2004), os quais persistem nalgumas pessoas (Smith & Sparkes, 2004), outras identificam formas atravs das quais um senso positivo de auto-estima, de se sentir capaz, vlido e til foi restabelecido, atravs da participao em ocupaes significativas (Carpenter, 1994, Boswell et al., 1998, Hammell, 2004). Para a reedificao da auto-estima contribui o reconhecimento do valor, em termos do apoio emocional e material, das relaes interpessoais com parceiros, familiares, amigos e pessoas que prestam ajuda nas actividades de vida diria. valorizao das relaes alia-se um sentimento de reciprocidade, de confirmao de que se pode contribuir e ser til para os outros (Boswell et al., 1998, Hammell, 2004). Outro aspecto importante diz respeito ao facto de as pessoas significativas confirmarem, atravs do modo de relacionamento, que a pessoa no est modificada na sua identidade devido leso medular (Bach & McDaniel, 1993, Carpenter, 1994). Para um nmero significativo de pessoas, um longo perodo de tempo decorrido aps a leso foi descrito como um tempo de preocupao com as perdas e com as expectativas defraudadas, de depresso grave e persistente e de uma incapacidade para reformular ideais de masculinidade (Smith & Sparkes, 2004). Para algumas pessoas esta situao conduziu obstinao na preocupao com a remisso total das sequelas, suspendendo o curso das suas vidas, mantendo-se espera de um retorno daquilo que perderam (Smith & Sparkes, 2004). Outros estudos revelaram narrativas que demonstram o restabelecimento de um senso de continuidade e de competncia pessoal (Carpenter, 1994), o qual passa pelo foco nas capacidades e competncias pessoais, ao invs da fixao na percepo das limitaes. Os estudos que exploram os processos da identidade em pessoas com leso medular so escassos. Merece referncia, neste mbito, o estudo de Yoshida (1993). Utilizando o mtodo da grounded theory, a autora levou a cabo uma investigao sobre o processo de mudana e reconstruo da identidade em pessoas que sofreram leso medular traumtica. Apresenta um modelo descritivo do processo de transformao da identidade que designou por pndulo do self (Yoshida, 1993, p. 222). O modelo prope que a reconstruo da identidade descreve um movimento pendular cujos extremos so o self anterior leso

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medular e o self totalmente identificado com a deficincia. No ponto de equilbrio do movimento pendular situa-se o self intermdio, que se refere a um ponto integrativo da identidade: dos aspectos da identidade associados deficincia e dos aspectos da identidade que no abrangem deficincia. o self intermdio que permite pessoa compreender que, inevitavelmente, se encontra numa cadeira de rodas, que as suas limitaes decorrem de uma leso medular e que foroso um certo grau de dependncia, pelo menos de ajudas tcnicas como a cadeira de rodas, e a conduz tambm a desenvolver uma identidade de grupo (collective disabled consciousness, Yoshida, 1993, p. 230). O self anterior leso, o self intermdio e o self total identificado com a deficincia constituem, no dizer da autora, perspectivas predominantes do self (Yoshida, 1993, p. 222), pretendendo com esta ideia reforar a viso de que a pessoa pode oscilar entre estas perspectivas, dependendo das situaes de vida que vo ocorrendo. A autora descreve ainda outras duas perspectivas predominantes do self, ocorrendo na trajectria do pndulo: orientado para o lado do self anterior leso a identidade super-normal, observvel em atitudes que conduzem a pessoa a envolver-se em actividades exigentes, alm das possibilidades da sua funcionalidade, ou de recusa de qualquer tipo de ajuda de terceiros; orientado para o lado oposto, uma perspectiva de identificao parcial com a deficincia 6. O movimento pendular influenciado por experincias de perda, de suporte relacional e de oportunidades de integrao, de continuidade e de desenvolvimento do self. Estas experincias constituem foras de influncia ao movimento pendular, fazendo emergir aspectos da deficincia ou de ausncia de deficincia integrados no self, produzindo, assim, as oscilaes entre perspectivas predominantes do self. O que o modelo pendular de Yoshida (1993) prope que a reconstruo e transformao do self um processo em movimento, no segue um movimento linear, de natureza dinmica, sendo influenciado pelas situaes de vida e de evoluo contnua, pelo que no se pode falar de um estdio estacionrio de ajustamento condio.

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The former self, the super-normal identity, the middle self, the disabled identity as part of the total self e the disabled identity as the total selfso os termos utilizados pela autora para descrever as perspectivas predominantes do self (Yoshida, 1993) 23

2.2. CONSTRUTIVISMO PESSOAL

2.2.1. A Teoria dos Construtos Pessoais de George Kelly A Teoria dos Construtos Pessoais de George Kelly representa uma teoria abrangente da personalidade, cujo foco de convenincia , nas palavras do autor, a reconstruo psicolgica da vida (Kelly, 1955/2001, p. 17). Esta afirmao revela o intuito original de Kelly de aplicao da sua teoria psicoterapia 7, no entanto, ela estendeu-se a um grande variedade de domnios de estudo, fora e dentro da Psicologia, como por exemplo as cincias cognitivas, a educao, o ambiente organizacional e de negcios e o marketing. O foco predominante continua a ser o estudo do indivduo e dos grupos sociais, com particular nfase no modo como as pessoas organizam e mudam as perspectivas pessoais acerca de si prprias e da sua envolvente, no contexto da psicoterapia (Neimeyer & Bridges, 2004). A posio filosfica subjacente teoria de Kelly consiste no alternativismo construtivo (Kelly, 1955/2001). O ser humano perspectivado como capaz de representar o ambiente em que se integra, e no como mero organismo reactivo. As representaes constituem-se como modelos para aplicao s realidades de que o mundo pessoal composto. Podem estar correctas, i.e., serem validadas ao conjugarem-se com os dados do ambiente, ou incorrectas, no encontrarem validao no ambiente; em qualquer dos casos, as construes pessoais, errneas ou no, no constituem simples epifenmeno, encerram em si prprias realidade, e so passveis de reviso e substituio. A capacidade humana de representao permite pessoa formular interpretaes ou construes alternativas e, atravs delas, modificar o seu curso de aco. Continuamente a pessoa envolve-se em processos que determinam a extenso, ajustamento e reviso dos seus prprios sistemas de significado, medida que encontra eventos que desafiam ou invalidam os seus pressupostos pessoais. Neste sentido, a teoria dos construtos pessoais pode tambm ser considerada uma teoria da aprendizagem (Kelly, 1955/2001) ou uma teoria da mudana desenvolvimental, uma vez que a reformulao e extenso do sistema o torna mais operativo sobre as novas circunstncias ambientais e, por isso, mais adaptado (Fernandes, 2001).

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We are concerned with finding better ways to help a person reconstrue his life so that he need not be the victim of his past. If the theory we construct works well within this limited range of convenience, we shall consider our efforts successful, and we shall not be too much disturbed if it proves to be less useful elsewhere (Kelly, 1955/2001, p. 17).

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Kelly faz equivaler os esforos de construo do homem comum ao do cientista: tal como um cientista, a pessoa formula construes ou hipteses acerca das regularidades que se lhe deparam no ambiente que integra, de modo a torn-lo compreensvel e previsvel. A noo de predio ou antecipao central nesta teoria, sendo considerada fundamental na gerao dos processos psicolgicos. Constituindo-se como um guia para a aco inscrita em contextos e relaes pessoais concretas, a antecipao inclui previso e controle: permite a preparao para possveis eventualidades, ao invs de ficar merc da probabilidade da sua ocorrncia; congrega a ideia de imaginao e de criao de eventualidades que no tenham ainda ocorrido. Em suma, o termo antecipao sugere que a pessoa procura a compreenso de forma a poder envolver-se e agir no seu mundo. A teoria de Kelly enuncia-se com um postulado fundamental, que constitui a pedra-de-toque de todo o desenvolvimento terico subsequente sobre os processos psicolgicos, e por 11 corolrios que dele derivam e o precisam em maior detalhe. O postulado fundamental da Teoria dos Construtos Pessoais estabelece que:

Os processos de construo de uma pessoa so psicologicamente canalizados pelo modo como ela antecipa os acontecimentos (Idem, ibidem p. 32).Este pressuposto determina desde logo que a teoria se refere ao domnio puramente psicolgico, i.e., trata-se de um sistema terico explicativo do comportamento humano. Os processos psicolgicos so concebidos como operando atravs de uma rede estruturada (canalizados) e no de forma contingente, o que no significa que a rede no seja passvel de ser modificada. Contudo, o facto de estar estruturada tanto facilita como restringe a rea de actuao da pessoa. A estrutura dos processos psicolgicos tem como funo ou finalidade principal a predio: as construes pessoais tm por objectivo tornar possvel a antecipao, para que a realidade futura possa ser melhor representada o futuro que tantaliza o

homem, no o passado, afirma Kelly (Ibid., p. 34). no movimento de antecipao que arealidade e os processos psicolgicos se ligam. Os onze corolrios constituem uma elaborao formal da teoria, aumentando a compreenso do processo e estrutura da construo pessoal, bem como das suas implicao sociais.

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1. Corolrio da Construo Uma pessoa antecipa os acontecimentos construindo as suas rplicas Construir significa colocar uma interpretao, i.e., estruturar acontecimentos recorrentes, atravs do estabelecimento das semelhanas e diferenas entre eles. Deste modo, so erigidos construtos de semelhana e contraste. Somente por este acto de estruturao o mundo ganha sentido. Reconhecemos as semelhanas entre os eventos e usamo-las para prever acontecimentos em novas situaes. A predio significa que nas interpretaes elaboradas pela pessoa existem aspectos replicativos dos acontecimentos futuros que podem ser previstos com segurana. Construto um termo especificamente definido por G. Kelly, para o qual no existe sinnimo. Pode ser descrito como a unidade mais fundamental na sua teoria, no existindo isoladamente, mas integrado num sistema pessoal de construtos. Consiste numa forma atravs da qual algum discrimina e interpreta os elementos da sua experincia.

2. Corolrio da Individualidade

As pessoas diferem na sua forma de construir os acontecimentosBasicamente, o que este corolrio afirma que as pessoas tm diferentes abordagens para anteciparem os mesmos acontecimentos. Isto no significa que no haja lugar para a partilha de experincias: cada pessoa poder construir os acontecimentos nos quais est envolvida em conjunto com outros com quem no est envolvida, por exemplo por relaes de pertena a uma mesmo grupo scio-cultural.

3. Corolrio da Organizao

Cada pessoa desenvolve, caracteristicamente e para a sua convenincia na antecipao de acontecimentos, um sistema de construo que implica relaes ordenadas entre construtosO sistema de construtos pessoais hierarquizado, podendo existir dentro de um sistema pessoal muitos nveis de relao ordenada. No nvel superior situam-se construtos nucleares, mais resistentes mudana e que mantm e protegem o sistema, na base encontram-se os construtos perifricos, mais permeveis, mais facilmente mutveis, portanto facilitadores da mudana do sistema (Fernandes, 2001). Com o termo caracteristicamente, Kelly pretende enfatizar a natureza pessoal do processo. No s os construtos so pessoais, como tambm o sistema hierrquico pessoal. Este

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arranjo sistemtico caracteriza a personalidade, mais ainda do que as diferenas entre construtos individuais (Kelly, 1955/2001). Dado que o sistema de construo no se mantm indefinidamente sem mudar, a personalidade est continuamente a tomar novas formas. A razo pela qual o homem hierarquiza os construtos a sua convenincia para antecipar acontecimentos: a organizao permite que incompatibilidades e inconsistncias de predio sejam minimizadas.

4. Corolrio da Dicotomia

O sistema de construo de uma pessoa composto por um nmero finito de construtos dicotmicosA base de formao de construtos est no estabelecimento de relaes de similaridade e diferena que a pessoa efectua relativamente aos elementos da sua experincia, sejam estes eventos ou pessoas. Enquanto operao psicolgica bsica consiste numa comparao que se realiza nos seguintes termos: existe um aspecto entre trs elementos em relao ao qual dois desses elementos so semelhantes e o terceiro elemento contrastante. Esse aspecto no reside nas coisas em si, uma categoria criada, que inerente, por semelhana e contraste, a todos aqueles elementos. Por exemplo, atravs do construto bom mau, pessoas ou situaes da vida podem ser caracterizados, uma pessoa A pode ser construda como m, enquanto a pessoa B como boa, contudo uma terceira pessoa C ter de ser construda como semelhante a A e diferente de B, ou vice-versa, para que bom mau seja constitudo como construto. Todos os construtos tm esta forma dicotmica, sendo que qualquer dos seus termos em oposio tanto relevante quanto necessrio para o sentido intrnseco do construto. O nmero de construtos pessoais finito, porque o pensamento no completamente fluido, mas canalizado. Embora possa sempre sofrer transformao, a estrutura do pensamento limita o acesso a outras ideias.

5. Corolrio da Escolha

Num construto dicotmico, uma pessoa escolhe a alternativa atravs da qual antecipa uma maior possibilidade de extenso e de definio do seu sistemaUma pessoa escolher a alternativa que o conduz a uma certeza imediata, ou aquela que lhe poder fornecer um maior sentido de coerncia pessoal? Kelly considera que a pessoa faz

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sempre a escolha de modo a alcanar antecipao, qualquer que seja a sua escolha, a deciso essencialmente elaborativa de extenso ou de definio do sistema pessoal. O princpio da escolha elaborativa implica a tendncia da pessoa para se orientar para aquilo que lhe parece fazer com que o seu sistema se torne mais explcito e claro: as escolhas elaborativas so feitas com o intuito de definir ou estender o sistema que a pessoa considera til para a antecipao dos acontecimentos. Podemos chamar a isto uma busca de autoproteco ou de preservao da prpria integridade: as escolhas so feitas com o intuito de promover um sistema que, funcionalmente, antecipa acontecimentos. A extenso do sistema inclui torn-lo mais compreensivo, aumentar o seu foco, tornar as experincias de vida cada vez mais com sentido.

6. Corolrio do mbito

Um construto conveniente apenas para a antecipao de um mbito definido de acontecimentosTal como uma teoria cientfica tem um foco de aplicao, tambm um construto tem um mbito de convenincia limitado. Tudo o que fica fora da rea de convenincia de um construto considerado com uma rea de irrelevncia.

7. Coro