Conto alice vieira-rosa-minha-irma-rosa_58pag

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  • 1. Alice Vieira Rosa, minha irm RosaEDITORIAL CAMINHO Digitalizao e Arranjo Agostinho CostaPublicado em 19801

2. Captulo 1Quando a minha irm nasceu, o meu desapontamento foi to evidente que a minha me, abafada entre lenis e cobertores da cama do hospital, me disse: - Ela vai crescer num instante! Assim como se me pedisse desculpa nem ela saberia ao certo de qu. Num instante. Num instante? Num instante descia eu a rua para ir a casa da Rita trocar cromos (no te compro mais enquanto no colares na caderneta todos os que tens!, dizia a me tantas vezes), ou para lhe emprestar um livro, ou ela a mim. Num instante bebia eu o leite nos dias em que me atrasava, para apanhar a carrinha da escola, a voz de Margarida nos meus ouvidos: Olhe que por sua causa vamos chegar tarde! Num instante ficava em gua o gelo, em tempo de calor - e o que eu e a Rita tnhamos rido no dia em que a Chica estava cheia de medo que os cubos de gelo entupissem a pia... No, a minha irm no ia crescer num instante. E eu no entendia por que razo a minha me tinha dito aquilo, se ela sabia, to bem como eu, que no era verdade. Desse dia lembro-me ainda que fui dormir a casa da minha av Elisa, que me encheu os bolsos de rebuados, e me deixou ir para a cama mais tarde e sem se importar de saber se eu tinha lavado bem os dentes. J deitada, ouvi o telefone tocar muitas vezes, e sempre a minha av respondia: - outra rapariga... Correu tudo bem... O sono no vinha, por mais que fechasse os olhos com muita fora, como a Rita me ensinara. O colcho da minha cama era rijo (faz bem espinha!, dizia o pai) e o colcho da av era mole, to mole, com uma cova no meio. Alm disso a av Elisa tinha muito medo das constipaes e no me deixava abrir nem uma gretinha da janela. Alm disso... Alm disso faltava-me a voz da me (v, dorme, que amanh tens de te levantar cedo para a escola!), faltavam-me as suas mos a aconchegarem-me ao corpo a roupa da cama. Faltava-me saber que ela estava ao p de mim mesmo que no a visse nem ouvisse. Mas isso eu no dizia a ningum, nem Rita. Toda a gente gritava aos quatro ventos que eu j era crescida, havia de ser bonito se me vissem ali, encolhida na cama, lgrimas nos olhos e na garganta, com saudades de casa e da me. At a Rita havia de rir, com certeza. Mas a verdade que era isso mesmo que eu sentia. Isso mesmo: saudades. E era s por isso que no conseguia adormecer. - Correu tudo bem... E como teria sido se tudo tivesse corrido mal? E o que quereria dizer, ao certo, "correr bem?"2 3. A me e o pai tinham-me explicado como tudo acontece, logo no momento em que a barriga dela comeara a crescer: o pequeno, invisvel gro a colocado pelo pai, o ovo a desenvolver-se dia a dia l dentro, isso eu sabia. Lembro-me que um dia at achei graa ao ver mexer a barriga da me. - o beb a virar-se c dentro - disse ela. - Com tanto pontap at capaz de vir a algum jogador de futebol - disse o pai. Mas tudo agora no passava de palavras, de histrias que me tinham contado. Talvez fosse isso que a Margarida queria dizer todas as vezes que, l na escola, lhe acontecia algum aborrecimento e ela bichanava para a Teresa: - Pois , a gente s sabe dar o valor quando nos toca a ns! Eu no sabia bem o que quereria exactamente ela dizer com essas palavras, mas l que havia coisas que ficavam muito diferentes quando saam dos livros para a nossa vida, l isso havia.3 4. Captulo 2 O Pedro avisou-nos que amanh temos provas de avaliao. A av Elisa diz que no tempo dela no existiam estas coisas: uma pessoa chegava escola, aprendia a ler, a escrever, a contar, e no fim do ano fazia um exame. Por isso ela encolheu os ombros quando Lhe falei nas provas, e ficou toda escandalizada por eu chamar Pedro ao professor. - Se alguma vez isso se admitia no meu tempo! Levvamos logo uma data de reguadas e ficvamos o dia todo no fundo da sala virados para a parede sem podermos falar com os outros... De resto, nem a gente se atrevia, credo! Era "minha senhora", ou "senhor professor", e tudo com grande respeitinho... Mas vocs agora sabem l o que isso ... Reguadas, no sei, no. (E, aqui para ns, no tenho grande pena dessa minha ignorncia.) Mas respeito, sei. S que me parece falar das mesmas coisas com palavras diferentes das que usa a av Elisa. No outro dia ela disse-me: - A tua amiga Rita tem grande respeito ao pai. Eu no respondi porque estava entretida a colar cromos novos na caderneta, mas fiquei a pensar naquilo durante muito tempo. E ainda penso. Sobretudo quando converso com a Rita l em casa. Ainda aqui h poucos dias. - Se eu estivesse na minha sala com um frasco de cola e um pincel, como tu ests, levava logo do meu pai - disse ela. - Levavas o qu? - perguntei eu. - s vezes parece que s parvinha ou que andas a navegar por outros mundos... Levava uma tareia, o que havia de ser? E riu, como se tivesse acabado de contar a histria mais divertida do sculo XX. - Mas levavas uma tareia porqu? - insisti. - Ora... Porque podia sujar a sala, porque a sala para as visitas, sei l por que mais... Por tudo... Por isso que eu fujo logo para o meu quarto mal oio o meu pai entrar em casa. E mesmo assim... Rita, no desarrumes nada!, Rita, no te sujes!... sempre isto, mesmo quando estou quieta no meu canto... A me diz que a casa tem de estar sempre arrumada e que eu desarrumo tudo. - E no desarrumas? - No, no desarrumo. O que acontece que arrumo de outra maneira, e sempre de uma maneira de que a minha me nunca gosta... De resto, as coisas nunca mudam de lugar l em casa. Um dia o meu pai bateu-me porque eu pus o cacto em cima da secretria dele... O cacto era meu, parecia quase uma rosa verde com muitas folhas, e eu pensei que ele gostasse de ter uma planta bonita a fazer-lhe companhia, quando estivesse a trabalhar... Mas ele s disse que eu tinha entornado terra e gua e agora a secretria estava manchada... Nem sequer reparou se o cacto era bonito ou feio... Eu olhei para a mesa e no vi l nada, mas ele teimava que se via4 5. muitssimo bem uma mancha mais clara no stio onde eu tinha posto o vaso... E que mais desastrada que eu no conhecia ningum... Nunca falei nestas coisas Rita, mas penso que medo que ela tem do pai, e no respeito, como pensa a av Elisa. E acho que deve ser horrvel ter medo de algum, sobretudo se esse algum for nosso pai ou nossa me. E tambm acho que deve ser muito triste viver numa casa onde no podemos mexer em nada, numa casa to arrumada como a da Rita. claro que eu gosto de casas arrumadas (a minha irm ir mexer nas minhas coisas?...), mas a casa da Rita cheira a museu, no cheira a casa onde vive gente. Lembro-me de uma tarde ouvir a minha me dizer para o meu pai: - Aquilo um lugar sem vida, quase nem nos atrevemos a respirar l dentro com medo de sujar os vidros. E era da casa da Rita que estavam a falar. Onde a av Elisa diz que h tanto respeito. Talvez no seu tempo fosse assim. Por isso eu gosto de viver agora, apesar de a minha me ainda no estar em casa, apesar de a minha irm no ser nada como eu pensava, apesar das provas de avaliao marcadas para amanh. As tais de que a av Elisa nunca ouviu falar. As provas de texto livre, de desenho, de gramtica, no me assustam. S me assusta um bocadinho a de matemtica. Mas o Pedro disse que eu produzia o suficiente", por isso acho que no vai haver complicaes. Mesmo assim vou ver se trabalho um pouco mais.5 6. Captulo 3 Texto livre A minha irm nasceu h quatro dias. muito feia, tem a cara toda s rugas e eu ainda no estou muito certa se gosto dela ou no. Pelo menos penso que nunca vou gostar dela como gosto da Rita, que mora na minha rua e a minha melhor amiga. Como diz a av Elisa, a famlia aumentou. S que eu gostava que a gente pudesse escolher a nossa famlia tal qual escolhe os amigos. Porque assim eu havia de gostar da famlia inteira. E nela estariam a me, o pai, a av, a Rita, o Pedro, o Sr. Joo da tabacaria, que s vezes me d mais uma carteira de cromos do que aquelas para que chega o dinheiro que levo. Mas no a tia Magda, que s tem boca para palavras azedas, e s gosta de flores caras com nomes complicados, como os antrios e as estrelcias, que a minha me lhe compra no dia dos anos. Quando estou triste, gosto de ter flores ao p de mim. Mas no preciso que cheirem ou que sejam daquelas de ps muito altos a dormir na montra das floristas. S preciso que estejam ao p de mim. Que eu olhe para elas e sinta que estou to acompanhada como se elas fossem pessoas. Sinto que h flores que nunca me poderiam fazer companhia. Os antrios e as estrelcias, por exemplo, a delcia da minha tia Magda. A minha me conta que a primeira vez que me levou a casa da tia eu passei o tempo todo a gritar dentro da alcofa. Ainda hoje, para ser sincera, me apetece gritar quando a vejo. J sou crescida e as pessoas diriam que me estava a portar mal. Mas a verdade que no gosto muito da tia Magda, embora a av Elisa esteja constantemente a meter-me pelos ouvidos dentro que a gente deve sempre gostar da nossa famlia. O que eu no compreendo muito bem. No ano passado, chegaram a minha casa uns primos vindos do Brasil, que eu nunca tinha visto e de quem raramente ouvia falar. Estiveram comigo uns dois ou trs dias e seguiram para o Norte. No voltei a v-los, nem penso neles. E acho que ningum me pode obrigar a gostar deles s pelo facto de serem da minha famlia. No posso gostar de pessoas que no conheo, e de quem nada sei. Mas posso gostar muito de pessoas que no so meus primos, nem tios, nem avs. De pessoas que no me so nada, como costuma dizer a tia Magda para me arreliar. Ento a Rita, por exemplo, no nada para mim? Se eu no posso estar um dia sem a ver, sem brincar com ela, sem conversar com ela - isto no importante? Por isso eu digo que se escolhesse a minha famlia havia de l pr tambm a Rita. E as flores. As que me fazem companhia de gente, nunca os antrios e as estrelcias. E o Zarolho, que nada no aqurio da entrada. E a Zica, j s com um brao, um olho muito claro na cara preta, uma carapinha roda das traas, mas ainda a boneca preferida. E a rvore da minha rua, com o ro