Cooperação e investimentos do Brasil na África

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  • Cooperao einvestimentos doBrasil na fricaO caso do ProSavanaem MoambiqueSergio Schlesinger

  • Cooperao einvestimentos doBrasil na fricaO caso do ProSavanaem MoambiqueSergio Schlesinger

    1 edioMaputo, 2013

  • Cooperao e investimentosdo Brasil na fricaO caso do ProSavana em Moambique

    FASE Federao de rgos para AssistnciaSocial e Educacional

    TEXTOSergio Schlesinger

    PUBLICAOFASE Federao de rgos para Assistncia Social e Educacional

    COORDENAOFtima Mello - FASE

    COMENTRIOS FINAISFtima Mello, com a colaborao deAbel Sainda ORAMSergio SchlesingerVicente Adriano - UNAC

    APOIOOxfam

    PROJETO GRFICOMais Programao Visualwww.maisprogramacao.com.br

    CAPAArte sobre foto de Sergio Schlesinger

    TIRAGEM1.500 exemplares

    Os contedos da publicao no representam necessariamenteos pontos de vista da Oxfam.

    Copyleft: permitida a reproduo total ou parcial dos textosaqui reunidos, desde que seja citado o autor e se inclua a refernciaao artigo original.

  • Sumrio

    Introduo ...................................................................................................................... 5Poltica externa brasileira e a Cooperao Sul-Sul ............................................... 7Cooperao em Moambique .................................................................................... 12O ProSavana ................................................................................................................ 16O PAA frica ................................................................................................................. 32O ProSavana e os interesses do agronegcio brasileiro .................................... 34Camponeses moambicanos em alerta .................................................................. 36O modelo agrcola do Cerrado brasileiro ............................................................... 37O Prodecer ................................................................................................................... 38Outros programas desenvolvidos com o Japo no perodo ................................. 40A JICA ............................................................................................................................ 41Programa de Parceria Japo-Brasil (PPJB) ........................................................... 42A cadeia produtiva do agronegcio ........................................................................ 43Comentrios finais ..................................................................................................... 44Referncias ................................................................................................................. 49Anexo ............................................................................................................................ 50

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    Introduo

    Este estudo integra o conjunto de aes desenvolvidas em parceria entre organizaes e movimentossociais de Moambique e do Brasil, visando fortalecer em ambos os pases as lutas por justia,direitos, segurana e soberania alimentar, e incidir sobre a cooperao e investimentos brasileiros emMoambique que afetam estas lutas. O estudo aqui apresentado analisa as motivaes e as prticasda cooperao e investimentos do Brasil na frica. Para tal, apresenta dados, informaes e anlisessobre a cooperao e investimentos do Brasil na frica em agricultura. Toma como referncia aparceria entre o Brasil e o Japo com o governo de Moambique, com destaque para o ProSavana,particularmente no que diz respeito implantao de um sistema de produo agrcola baseado nomonocultivo de commodities como a soja, o milho e outras, inspirado no modelo hoje dominante noCerrado brasileiro.

    O estudo foi realizado pela FASE em consulta e parceira permanente com a UNAC (Unio Nacionalde Camponeses) e a ORAM (Associao Rural de Ajuda Mtua), organizaes que representam cam-poneses de Moambique. A UNAC foi fundada em abril de 1987 com o objetivo de representar oscamponeses e suas organizaes para assegurar seus direitos sociais, econmicos e culturais, atravsdo fortalecimento das organizaes camponesas, participao na definio de polticas pblicas eestratgias de desenvolvimento, visando garantir a soberania alimentar. A ORAM, criada em 1992, uma organizao com forte carter associativo de referncia em questes de terra, recurso naturais,promovendo os direitos e interesses dos camponeses, contribuindo para o desenvolvimento associativoe comunitrio, com vista a assegurar a posse e o uso sustentveis dos recursos da terra pelascomunidades rurais, fortalecendo-as para que sejam atores principais no movimento rural, com capa-cidade de promover estratgias de desenvolvimento comunitrio, posse e uso sustentveis da terra ede recursos naturais.1

    Em sua trajetria de 51 anos de atuao na sociedade brasileira, a FASE tem trabalhado junto commovimentos sociais que lutam pela terra, Justia Ambiental, segurana e soberania alimentar tantoem nvel nacional como nas diversas regies onde tem atuao local: Par, Mato Grosso, Pernambuco,Bahia, Esprito Santo e Rio de Janeiro. As dinmicas locais e regionais onde a FASE est inserida sofortemente influenciadas por processos nacionais e internacionais, como o caso das negociaesagrcolas no comrcio internacional: os interesses defendidos pelo Brasil nestas negociaes tmuma relao direta com o modelo agrcola predominante no pas, baseado em extensos monocultivosvoltados para exportao. Este o caso do Mato Grosso, marcado pela hegemonia do modeloagroexportador de commodities, de um lado, e pela resistncia social e produtiva de agricultoresfamiliares e camponeses, de outro. Este modelo agrcola adotado no Brasil se reflete na cooperaoe investimentos internacionais do pas, conforme ser demonstrado neste estudo.

    1. ORAM (2009). Plano Estratgico: ORAM Maputo.

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    Poltica externa brasileirae a Cooperao Sul-Sul

    Ao longo da ltima dcada, a cooperao internacional para o desenvolvimento e os investimentosque a acompanham esto passando por profundas e aceleradas transformaes. Expressando asmudanas na correlao de foras no sistema internacional, que se encontra em transio para umaconfigurao multipolar, a cooperao Sul-Sul tem ampliado seu papel na dinmica da cooperaointernacional. Pases como o Brasil, China e ndia tm acionado seus mecanismos de cooperao einvestimentos como parte da disputa por um novo equilbrio de poder. A cooperao Sul-Sul tem secaracterizado pela sua dimenso econmica e poltica, como o caso das iniciativas levadas a cabono mbito dos BRICS (Brasil, Rssia, ndia, China e frica do Sul) e do Frum de Dilogo ndia-Brasil-frica do Sul (IBSA).

    No Brasil, se intensifica o debate sobre o lugar da cooperao e dos investimentos internacionaiscomo parte constitutiva de novas diretrizes da poltica externa do pas. A maior parte dos projetos decooperao desenvolvidos atualmente pelo Brasil concentrase na Amrica Latina e na frica. Maiornfase tem sido dada a pases da frica Subsaariana. Em 2010, a frica foi o destino de quase 60%dos desembolsos da Agncia Brasileira de Cooperao (ABC), que coordena os projetos de assistn-cia internacional do pas. Sinalizando a importncia que a cooperao brasileira est adquirindo nafrica, em especial com iniciativas da magnitude do ProSavana, pela primeira vez a ABC alocou umCoordenador no Exterior em Moambique. Foi criado um Grupo frica, sob a coordenao da CasaCivil, visando coordenar as aes do governo no continente.

    A cooperao e os investimentos do Brasil na frica se do sob diversas modalidades, envolvendotanto o governo federal quanto empresas privadas, seja sob a forma de assistncia tcnica, investi-mento direto ou emprstimos governamentais. A cooperao canalizada por meio de contribuiesa instituies multilaterais e pela via de acordos trilaterais, bilaterais e regionais, abrangendo emespecial as reas tcnica, financeira e humanitria.

    Investimentos brasileiros em projetos internacionais dedesenvolvimento, participao por continente, 200910

    Fonte: ABC 2009 e 2011.

    Obs.: Os valores totais em 2009 e 2010 foram, respectivamente,US$ 2.012.682 e US$ 2.082.674 para a sia e o Oriente Mdio;US$ 7.575.235 e US$ 14.437.785 para a Amrica Latinae US$ 9.608.816 e US$ 22.049.368 para a frica.

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    Cooperao internacional brasileiraCooperao tcnica: distribuio dos recursos segundo reastemticas, 2003-2010

    Extrado de Ldia Cabral Cooperao Brasil-frica para o desenvolvimento:caracterizao, tendncias e desafios, Textos Cindes N26, dezembro de 2011.

    Cooperao tcnica com a frica: execuo do oramento anual, 2003-2010

    Fonte: ABC (2011).Ldia Cabral, op. cit.

    Cooperao tcnica com a frica: principais parceiros segundo onmero de projetos em execuo

    Fonte: ABC (2011).Ldia Cabral, op. cit.

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    COOPERAO E INVESTIMENTOS DO BRASIL NA FRICA O CASO DO PROSAVANA EM MOAMBIQUE

    Cooperao, investimentos e comrcio:um trio inseparvelAo mesmo tempo em que crescem as atividades de cooperao entre o Brasil e a frica, aumentatambm o volume de investimentos e do comrcio de bens e servios. A corrente comercial entre oBrasil e os pases africanos cresceu de US$ 4,3 bilhes em 2002 para US$ 27,6 bilhes em 2011.

    Dados revelam as disparidades em termos de volumes entre os recursos mobilizados por um lado pelacooperao e por outro os investimentos que apoiam em geral a internacionalizao das empresasbrasileiras e viabilizam os ganhos econmicos das multinacionais que a elas se associam. crescentea presena de empresas brasileiras, tanto as de capital privado quanto as estatais naquele continente.Atravs do Banco Nacional de Desenvolvimento Econmico e Social (BNDES), o governo brasileirofinancia tambm uma srie de obras de engenharia que facilitam a celebrao de contratos de obrasdas mais diversas modalidades. Ao mesmo tempo, fundos de investimento buscam captar recursosfinanceiros para vi