CORDEL DO CARRO ENCANTADO

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folheto adaptado da peça teatral de Tarcísio Pereira

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  • Nos tempos de hoje em dia Com tantos carros no mundo Tem motorista estressado Tem motorista iracundo As infraes acontecem A cada novo segundo. Os carros parecem gente De tanto espao ocupar. Vai para trs, para a frente Faz coisas de arrepiar. Carro corre, carro pula, Carro s falta falar. Aconteceu certa noite Que os veculos falaram. Foi por causa dum acidente Em que eles se atrasaram: Um morto fechou a pista E os carros se rebelaram. Era alta madrugada De uma segunda feira. Nessa hora do descanso Vinha um carro na carreira: Atingiu um pobre homem Ao lado de uma barreira. Por causa dessa barreira Houve um fato inusitado: Ningum encontrou o carro Que atingiu o coitado. Ento surgiu a verso Que o carro estava encantado.

    Quem primeiro comeou A histria do encantamento, Foi um carro turbinado Que apareceu no momento. O Turbinado chegou Depois do acontecimento. Era um carro muito quente De estourar qualquer termmetro! Vinha bbado e correndo No mais veloz do quilmetro. Com certeza, o motorista No passou pelo bafmetro. Freou em cima do morto Que j estava na pista. Seu carro estancou de vez E ele apurou a vista. Mas o dono adormeceu Em silncio fatalista. Por causa disso, o carro Passou a falar sozinho: E disse: Que coisa essa Estirada no caminho? Desesperado, gritava Entre o cap e o focinho:

    Baixe a luz, meu proprietrio, Que o meu farol encandeia. Voc dormiu no volante E a coisa vai ficar feia. Quando a polcia chegar Vai te levar pra cadeia.

  • Mas o motorista estava Em silncio de museu. E o Turbinado gritava: O que foi que aconteceu? No temas, meu proprietrio, No foi voc quem bateu! O dono, naquela hora Andava em outros caminhos, E o carro pensou: No ouve, Os carros falam sozinhos. Se os donos nos escutassem Seriam comportadinhos. Lembrando o que tinha visto Se ps a monologar: Eu no bati nesse homem, O infrator no est. O que bateu, se encantou, Se evaporando no ar. As lembranas lhe chegavam, Ele estava delirando: E disse: Eu testemunhei, Eu vi o carro voando. Capotou umas cinco vezes e depois saiu rolando. Nessa hora em que lembrava Ele viu uma centelha: Era a luz de um carro novo

    Que vinha igual a uma abelha. - Alis, no era novo: Era uma lata velha. E j chegou despeitada, Falando nada suave: Sai da frente, Turbinado! V se liga a tua chave. Voc um carro novo, Mas no nenhuma nave! Vinha to desembestada Que o outro teve receio. Pois ele estava parado Entre a faixa e o meio E a Lata gritou: Se afaste, Pois no tou boa de freio! Alm do freio ser baixo, S tinha um farol aceso. E o carro turbinado Na condio de indefeso, Gritou: No posso sair, O meu dono ficou preso! A lata freou de vez Deixou no cho um rabisco. Turbinado se assustou Depois de sentir o trisco. E a lata disse: Voc me botou num grande risco.

  • Turbinado respondeu, Tambm muito irritado: O risco meu, que sou novo, Que cheiro fabricao; Voc s tem um farol e ainda quer ter razo. Lata Velha no gostou, E manteve a confuso: Eu posso ter um farol mas vinha na minha mo. Tu ts parado na pista, e isso contraveno. Turbinado respondeu O que j estava evidente: Se eu estava parado porque teve acidente. E meu dono, embriagado, no foi para o acostamento. Lata Velha perguntou, Achando aquilo incomum: Que acidente foi esse? No vejo carro nenhum. Turbinado disse: O carro, Se encantou que nem pium! Essa histria do Encantado Deu muito no que falar. A lata velha dizia

    Que ele queria enganar. E o Turbinado queria Se fazer acreditar: Ela disse: Voc mente; Me desculpe, o que eu acho. E Ele: No minto no, Minha palavra de macho. Pare de implicar comigo. O carro est l embaixo. A Lata olhou para baixo Na escurido da barreira. Mas do carro do acidente, No se via nem poeira. Enquanto isso, outro carro Vinha descendo a ladeira. Esse terceiro veculo Chegava na contramo, Pois ele vinha ao contrrio Do acidente em questo. Vinha veloz, agitado, E no buzinava no. Parou fazendo mil gestos, Como quem quer dizer tudo. Mas eram gestos confusos, Mereciam certo estudo. Os outros dois entenderam Que aquele carro era mudo.

  • Turbinado lhe pediu Que tivesse disciplina: Eu no entendo os seus gestos, Nem aqui e nem na China! A Lata disse: Ele mudo Porque no possui buzina. Ficou pertinho do Mudo, E se ps a observar. E ele fazia sinais De quem queria falar. A lata entendeu que ele Tinha um recado pra dar: Eu sei, a sua buzina faz tempos que est quebrada. Isso ruim, pois o seu dono comete grande burrada. A buzina infrao quando est desmantelada. Turbinado concordou, Mas no entendia nada. Disse: Mudo, seja lento, no venha com presepada. Os gestos do Carro Mudo Falavam de capotada. E outras coisas dizia A respeito do acidente. Que viu do retrovisor

    quando estava l na frente. Sua linguagem, porm No era muito evidente. Ele no sabe o que diz! - Gritou logo o Turbinado. Eu disse mais de mil vezes, e no estou enganado, que o carro desse acidente agora est encantado! Depois acusou o Mudo De ser um carro cafona. Disse para a Lata Velha: Esse Mudo uma zona. A Lata disse: L vem Uma moto bem doidona... De fato estava chegando A moto que era pirada. No tinha nem capacete, portanto j vinha errada. Falava com muitas grias E era outra turbinada. Seu nome era Motodoida, Sempre dizia brum-brum. E disse: Saiam da frente, Seno atropelo um! Sou dois fervendo, tou quente; Saiam do meio brum-brum!

  • O Turbinado gritou: Ela vem dispirocada. A Lata Velha tambm Respondeu muito irritada: Eu acho que essa moto Deve estar alcoolizada. Motodoida viu o morto, Mas ficou indiferente. Tentou fazer ziguezague Para prosseguir em frente. E disse: Eu no sou culpada, Se aqui teve um acidente. Ela quis passar fora, Os dois gritaram: No pode. Ela disse ao Turbinado: Me deixa passar, meu brde. Se tu no sair da frente, Vou te arrancar o bigode. A Lata disse: No fuja, Aqui voc no engana. A moto implorou: Me ajude, Lata Velha, minha mana. A polcia vem a e eu no quero entrar em cana. A Lata Velha, porm, No quis nem saber do assunto. Ela foi ao Turbinado,

    Falou baixinho, bem junto: Abra caminho, eu prometo No esmagar o defunto. Veio ento o Carro Mudo, Dando uma de juiz, Sinalizando pra ela, Fez uns gestos de quem diz: Voc, maluca, aqui No passa nem por um triz! A Motodoida, porm, No achou aquilo lindo. E perguntou para o Mudo Se ele estava lhe agredindo: O Mudo disse, com um gesto, Que ela vivia fugindo. Lata Velha traduziu Essa linguagem to bela: O Mudo s est dizendo, Que voc no tem cautela; Faz curvas, faz piruetas, Avana na passarela. Diz que a sua vida torta, Empina a roda, sem meta; E que voc se comporta, Como se fosse um atleta. Disse a moto: Eu no tou morta, Pois eu no sou bicicleta!

  • O Mudo fez novos gestos, Foi assim que se expressou Dizendo pra Motodoida, Que a hora dela chegou. Mas a moto reagiu: Tu tambm s infrator. E disse ainda: Esse Mudo, ele pensa que me empedra... Mas brum-brum, eu no sou tola, Nenhum de vocs me medra. Quem, aqui, no tiver erros, atire a primeira pedra! Dessa vez o Carro Mudo Fez uma cara de aborto. Lata Velha traduziu Seu gesto de desconforto: Lembrou para aquela moto Que havia na pista um morto. Motodoida concordou, Pra respeitar o defunto. E disse: Vamos agir, Mas primeiro eu lhes pergunto: Quem era que estava aqui quando ele virou presunto? E prosseguiu seu inqurito: Quero que fique explicado. Quis saber se foi o Mudo

    Que atropelou o coitado. Mas o Turbinado disse: Quem bateu, t encantado. E antes que explicasse Essa verso esquisita, Um outro carro chegava l na pontinha da pista. O Mudo acenou dizendo: Est chegando visita. Esse carro parou longe, pois era muito medroso. Tinha traumas de acidente Por isso era manhoso. Quando viu a congesto, J foi ficando nervoso. Os outros no entenderam Sua estranha recluso. Ningum sabia por qu Ele estava parado: A moto gritou: Vem c! Ningum aqui ladro. Distante, ele respondeu: Deus me livre, no vou no! Sou um carro bem doente, E no entro em confuso. De batida, eu fico longe. J sou muito amassado.

  • Ele espirrou e tossiu Como quem tem resfriado. E disse que aquela tosse No lhe deixava curado, Que bateram em seus pulmes H muito tempo passado. Brum-brum-brum, no fique assim... (Era a moto lhe dizendo). - O amassado respondeu Com o corpo todo gemendo: Eu tive outras batidas E sempre escapei fedendo. Depois disso, comeou A recuar pelo p... A Motodoida falou: Esse cara um man! Brum-brum, eu no acredito Que ele vai voltar de r. O amassado escutou Aquela ofensa to dura. Andou de costas e disse: Sou um doente sem cura. Percebo que este lugar est me dando tontura. A Lata Velha implorou: No d r, Amassado. A tua traseira vai

    Se enfiar num caminho. Quem anda em pista de r comete contraveno. O Turbinado falou: Deixa o cara, ele quer ir. Lata Velha discordou, E o Mudo quis se exprimir. Foi quando a moto gritou: Espera, que eu vou a! O Amassado foi dizendo Daquele lugar remoto: Por favor, no chegue perto, eu no posso nem ver moto. S de ouvir o barulho, j penso que terremoto. Gritava pelos pulmes, Com medo de um acidente: Eu tenho as minhas razes, So traumas da minha mente; Ainda tenho as leses De uma moto, antigamente... Motodoida lhe acalmou, Com seu famoso brum-brum. Foi mostrando aqueles carros, Apontando de um a um: Percebe aqueles malucos? Correto no h nenhum...

  • Eles fecharam o asfalto, L no passa nem atum. Mas ns dois, embora errados, Temos algo em comum... - O amassado reagiu: No venha com zumzumzum. Motodoida resistiu, Fez a proposta indecente: Voc, assim como eu, Est querendo ir em frente; Qualquer iniciativa Vai ter que partir da gente... Props que sassem juntos Acelerando de vez: Vamos avanar correndo Para afastar os trs. Se a gente ficar aqui, Vamos parar no xadrez. O amassado respondeu: Motodoida, no me enrole. No quero bater nos trs. Eu no arrisco, sou mole. J tive tantas batidas que estou parecendo um fole. Eu sinto dores nos rins, Nas tripas, nos