COTIDIANO ESCOLAR, FAMÍLIA E COMUNIDADE: UM .Quando a família é presente, e quando essa parceria

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    COTIDIANO ESCOLAR, FAMLIA E COMUNIDADE: UM ESTUDO EM UMA

    ESCOLA PBLICA DE PERODO INTEGRAL

    RESUMO: O presente artigo tem como objetivo colaborar com a reflexo e a discusso sobre a relao da famlia/comunidade com a escola, analisando o quanto essas relaes afetam o processo educacional dos alunos, uma vez que a participao da famlia na instituio um importante segmento para a construo de uma escola de qualidade. Aborda uma pesquisa realizada em uma escola pblica da rede estadual de ensino fundamental de perodo integral, discutindo a prtica cotidiana escolar e sua relao com as famlias envolvidas no interior da escola colhendo impresses de algumas delas sobre esta relao. O trabalho teve como metodologia um estudo qualitativo, atravs da aplicao de questionrios em 108 famlias de alunos de 4 salas escolhidas aleatoriamente 1 ano A, 2 ano A, 2 ano B e 4 srie A. A direo escolar tambm respondeu a um questionrio referente s relaes entre famlia e escola. O estudo tambm contou com observao de campo durante o primeiro semestre de 2011 e conversas informais com algumas famlias e professoras. O que chamou a ateno foi a pequena participao efetiva das famlias na escola pesquisada, sendo que as mesmas no esto preocupadas com a melhoria da qualidade de ensino desta instituio mas sim, preocupadas em ter um lugar para deixar seu filho durante oito ou nove horas por dia em um lugar seguro. As relaes entre escola, famlia e comunidade tem importante papel no processo educacional dos alunos. Famlia atuando juntamente com a escola refora os laos emocionais e afetivos das crianas. A necessidade de se construir essa relao estabelece compromissos entre as partes e torna-se possvel alcanar o maior objetivo: o desenvolvimento integral da criana e assim uma educao de qualidade para elas.

    PALAVRAS-CHAVE: Cotidiano escolar, Famlia, Comunidade, Escola de Perodo Integral.

    INTRODUO

    O presente artigo tem como objetivo colaborar com a reflexo e a discusso

    sobre a relao da famlia/comunidade com a escola, analisando o quanto essas relaes

    afetam no processo educacional dos alunos, uma vez que a participao da famlia na

    escola um importante segmento para a construo de uma escola de qualidade.

    O texto pretende abordar questes sobre o conceito de escola e de famlia

    construdos historicamente e discutir a importncia do papel da famlia na escola.

    Pontuamos alguns aspectos que influenciam a participao da famlia na escola atravs

    das Polticas Pblicas e por consequncia influencia na qualidade da educao.

    XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didtica e Prticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012

    Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001572

    Daniela Cristina De Menezes Cosso

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    Tambm discute a prtica cotidiana escolar e sua relao com as famlias envolvidas no

    interior da escola, atravs de uma pesquisa realizada em uma escola da rede estadual de

    ensino de perodo integral colhendo impresses de algumas famlias sobre suas relaes

    com a escola, atravs de questionrios, observao de campo e conversas informais com

    algumas famlias e professoras.

    ESCOLA E FAMLIA: INSTITUIES HISTORICAMENTE CONSTRUIDAS

    Desde os primeiros tempos da civilizao, sempre houve formas de educao.

    Porm, eram formas de ensino espontneas, os conhecimentos eram transmitidos

    oralmente para os jovens em qualquer hora ou lugar, sem instituies. Na Grcia Antiga

    os sofistas gregos cuidavam da educao de seus discpulos de forma mais organizada e

    sistematizada. A Escola Elementar, como era chamada na Grcia Antiga, no tinha um

    espao, um prdio. Acontecia nas ruas, nas praas, na entrada de templos. J os

    romanos, criaram o edifcio chamado escola. Preocupados em impor seus costumes e

    valores aos povos dominados, construram espaos onde as crianas se reuniam para

    receber a tpica educao romana. Durante a Idade Mdia, a educao estava restrita s

    igrejas, o conhecimento era reservado a um nmero pequeno de clrigos e misturavam-

    se as diferentes idades. Philipe Aris acredita que a instituio escolar, aps a Idade

    Mdia, servia para adestrar as crianas no sentido de separ-las dos adultos, assim, a

    escola e o colgio, segundo este autor:

    se tornaram no incio dos tempos modernos um meio de isolar cada vez mais as crianas durante um perodo de formao tanto moral como intelectual, de adestr-las, graas a uma disciplina mais autoritria, e, desse modo, separ-las da sociedade dos adultos (P. 107, 1987).

    Durante muito tempo a escola permaneceu indiferente distino das idades,

    pois seu objetivo essencial no era a educao da infncia. At o sculo XVIII o papel

    da educao de formao moral e social no existia e as idades eram misturadas dentro

    de cada classe, frequentado ao mesmo tempo por crianas de 10 a 13 anos e

    adolescentes de 15 a 20 anos. As mulheres eram excludas, s iam para o colgio os

    homens. Alm da aprendizagem domstica, as meninas no recebiam nenhuma

    educao.

    A instituio ideal do sculo XIX era o internato, quer fosse um liceu, um

    pequeno seminrio, um colgio religioso ou uma escola normal (nesse caso eram

    escolas para meninas). Tambm no sculo XIX escola e colgio eram instituies

    XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didtica e Prticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012

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    voltadas no somente para a diviso das idades, mas a uma condio social: o Liceu ou

    o colgio para os burgueses (o secundrio) e a escola para o povo (o primrio).

    Importante destacar a discusso sobre a histria da escola pblica, j que

    polticas pblicas para educao tem como prioridade atender a escola pblica e o

    objeto de pesquisa deste trabalho se d em uma escola pblica. Nesse sentido, a palavra

    pblico no est relacionada somente como oposio escola privada ou particular,

    mas muito mais que isso, no sentido de um lugar coletivo destinada a todas as pessoas.

    Demerval Saviani (2005) discute a histria da escola pblica e salienta que esta

    organizada e mantida pelo Estado e abrange todos os graus e ramos do ensino (p. 4).

    Assim, cabe ao Poder Pblico se responsabilizar por elas, o que implica a garantia de

    suas condies materiais e pedaggicas (caractersticas da escola do sculo XX). Hoje a

    estrutura da escola continua a mesma dos seus primrdios. Um prdio, dividido em

    classes, com carteiras enfileiradas onde as crianas sentam-se umas atrs das outras. O

    que realmente mudou ao longo dos sculos foi o pensamento das pessoas que fazem e

    frequentam a escola. A funo da escola hoje social e de transmisso moral e cultural.

    Deixou de ser apenas o centro de transmisso de conhecimento para se tornar tambm

    responsvel pela manuteno de valores e normas de conduta (antigamente de

    responsabilidade da famlia). Nas ltimas dcadas, especialmente a partir dos anos

    1980, no Brasil tem-se verificado uma tendncia de democratizao da escola pblica

    acompanhada da universalizao da escola pblica para o alcance de todos.

    A anlise iconogrfica (uma forma de linguagem visual que utiliza figuras para

    relacionar alguns temas), segundo Aris, nos permite acompanhar a ascenso de um

    sentimento novo: o sentimento da famlia. O sentimento era novo, mas no a famlia

    (p.152). Leva-nos a concluir que o sentimento da famlia era desconhecido da Idade

    Mdia e nasceu nos sculos XV e XVI, para se exprimir definitivamente no sculo

    XVII. Nessa mesma poca ocorreram mudanas importantes na atitude da famlia para

    com a criana. A famlia transformou-se profundamente na medida em que modificou

    suas relaes internas com a criana.

    Assim, na famlia do sculo XVIII a criana tornou-se um elemento

    indispensvel da vida cotidiana, e os adultos passaram a se preocupar com sua

    educao, carreira e futuro. A famlia moderna separa-se do mundo e ope sociedade

    o grupo solitrio dos pais e filhos.

    O tema sobre a origem da famlia tambm aparece nos estudos de Friedrich

    Engels (1984) o qual estuda a origem da famlia, da propriedade privada e do estado em

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    uma concepo materialista da histria (formulada por Marx). Para o presente estudo, a

    concepo de Engels sobre a origem da famlia nos ajuda a pensar sobre a formao das

    sociedades e da famlia estruturadas sob a tica da propriedade privada (dominao do

    homem pelo prprio homem). No prefcio da primeira edio/1884, Engels nos deixa

    claro que na concepo materialista o regime familiar est completamente submetido s

    relaes de propriedade e o fator decisivo na histria a produo e a reproduo da

    vida imediata (p. 34). A produo responsvel pela gerao de riqueza atravs do

    trabalho, a reproduo imediata a continuao da espcie, atravs da famlia. atravs

    dos laos de parentesco e da famlia que a sociedade evolui na produo de bens

    materiais surgindo a propriedade privada. Essa dependncia de um ser humano em

    relao ao outro, leva ao surgimento das classes sociais (ENGELS, p. 34).

    Desse modo, a histria da famlia est interligada evoluo do processo

    educacional, pois nossas polticas pblicas educacionais acabam se voltando discusso

    de polticas voltadas s classes sociais e s diferenas de riquezas (escola pblica X

    escola privada, por exemplo).

    Depois da famlia, na escola que as crianas permanecem mais tempo e as

    expectativas em relao ao seu desempenho escolar aumentam assumindo maior