Crime e Libertação. Um Estudo de a Maçã No Escuro

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Clarice Lispector: A maça no escuro

Text of Crime e Libertação. Um Estudo de a Maçã No Escuro

  • CRIME E LIBERTAO:

    Um estudo de A Ma no Escuro, de Clarice

    Lispector

    UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MONTES CLAROS

    MONTES CLAROS

    Junho/2011

  • JLIO CSAR VIEIRA

    CRIME E LIBERTAO:

    Um estudo de A Ma no Escuro, de Clarice

    Lispector

    Dissertao de mestrado apresentada ao

    Programa de Ps-Graduao em Letras:

    Estudos Literrios, da Universidade Estadual

    de Montes Claros, como parte dos requisitos

    para obteno do ttulo de Mestre em Letras

    Estudos Literrios.

    rea de concentrao: Literatura Brasileira

    Linha de Pesquisa: Tradio e Modernidade

    Orientador: Dr. Osmar Pereira Oliva

    UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MONTES CLAROS

    MONTES CLAROS

    Junho/2011

  • Catalogao Biblioteca Central Professor Antnio Jorge

    V658c

    Vieira, Jlio Csar. Crime e libertao [manuscrito] : um estudo de A ma no escuro, de Clarice Lispector / Jlio Csar Vieira. 2011. 81 f. Bibliografia: f. 80-81.

    Dissertao (mestrado) - Universidade Estadual de Montes Claros

    - Unimontes, Programa de Ps-Graduao em Letras: Estudos

    Literrios/PPGL, 2011.

    Orientador: Prof. Dr. Osmar Pereira Oliva. 1. Literatura brasileira - Romance. 2. Moral. 3. Lispector, Clarice, 1925-1977. I. Oliva, Osmar Pereira. II. Universidade Estadual de Montes Claros. III. Ttulo. IV. Ttulo: Um estudo de A ma no escuro, de Clarice Lispector.

  • Dedico este trabalho a minha Ana Ceclia,

    minha luz e inspirao. A meu pai, minha

    madrasta, meus irmos. Dedico tambm aos

    meus alunos do Instituto Federal de Educao,

    Cincia e Tecnologia do Norte de Minas

    Gerais, a Fbio, Jber e Marcelo, meus irmos

    de Araua. Ao meu orientador, Dr. Osmar

    Oliva, e a todos os professores e colegas do

    curso de Mestrado em Letras.

    memria de minha me.

  • AGRADECIMENTOS

    Agradeo em primeiro lugar a minha Ana Ceclia, por viver comigo e por ter-me

    presenteado com um livro to intrigante. A minha famlia, pelo apoio e incentivo. A tia

    Ju, pela ajuda nos momentos difceis desta pesquisa. A Dona Terezinha, pelos cafs,

    chs e carinho a mim dedicado como a um filho. Ao Dr. Osmar Oliva, agradeo a

    pacincia, as valiosas orientaes e o fundamental apoio que fez com que este trabalho

    acontecesse. Aos professores e colegas do Mestrado, tambm incentivadores da

    realizao deste trabalho. s professoras Dr. Maria Generosa e Dr. Aurora Quadros,

    pelas valiosas contribuies na qualificao. Agradeo Direo do Instituto Federal de

    Educao, Cincia e Tecnologia do Norte de Minas Gerais Campus Araua, pelos prazos concedidos e pela compreenso nas ausncias. Um agradecimento especial a

    todos os colegas professores do IFNMG, pela prontido com que atenderam as minhas

    necessidades de substituio nas necessrias ausncias. Agradeo a meus alunos, por

    ainda sorrirem para mim mesmo aps os dias em que a tenso se torna mau humor. Por

    fim, agradeo a Clarice Lispector, por traduzir to bem estados de alma.

  • Aos nossos crimes inexplicveis (Clarice Lispector, A Ma no

    Escuro)

    Sofrimento conhecimento:

    aqueles que mais sabem devem

    prantear mais profundamente a

    verdade fatal, a rvore do

    conhecimento no a rvore da

    vida. (Byron, in Nietzsche,

    Humano, demasiado humano)

  • RESUMO

    Os romances de Clarice Lispector, normalmente, apresentam personagens

    transgressores, marcados por uma notvel individualidade, nos quais a existncia se

    apresenta como fonte substancial de todos os conflitos, desgastando a crosta protetora

    de sentimentos e atitudes criados pelo hbito e pela cultura. Nesse sentido, tendo como

    objeto de investigao o romance A Ma no Escuro, de Clarice Lispector, pretendemos

    analisar a construo da narrativa e as ressonncias nietzschianas sobre a moral, com

    base em conceitos advindos da filosofia, a partir da anlise da trajetria da personagem

    Martim, protagonista do romance. A principal hiptese que se apresenta aponta no

    sentido de identificar, na trajetria da personagem central do romance, Martim,

    ressonncias da concepo de moral nietzschiana. Quanto construo da narrativa,

    pretendemos demonstrar como o romance em questo tensiona a definio do gnero

    romance, na medida em que reflete as transformaes sofridas pela forma romanesca.

    Analisaremos, ainda, as representaes do feminino apresentadas no romance, buscando

    perceber a relao estabelecida entre essas personagens e o protagonista.

    PALAVRAS-CHAVE: Literatura brasileira, Clarice Lispector, Romance, Moral,

    Feminino.

  • ABSTRACT

    Clarice Lispector's novels usually have transgressors, marked by a notable individuality,

    in which existence is presented as a substantial source of all conflicts, wearing

    protective crust of feelings and attitudes created by habit and culture. Accordingly, as

    the object of research the novel A Ma no Escuro by Clarice Lispector, we intend to

    analyze the construction of narrative and resonances on Nietzschean morality, based in

    concepts from philosophy, from the trajectory analysis of the character Martin,

    protagonist of the novel. Leading hypothesis suggests that presents itself in order to

    identify the trajectory of the novel's central character, Martin, echoes the Nietzschean

    conception of morality. As for the construction of the narrative, intended to demonstrate

    how the novel in question tensions the definition of the romance genre, in that it reflects

    the transformations undergone by the novel form. We will review also the

    representations of women presented in the novel, trying to discern the relationship

    between these characters and the protagonist.

    KEYWORDS: Brazilian Literature, Clarice Lispector, Novel, Moral, Female.

  • SUMRIO

    INTRODUO ............................................................................................................. 9

    CAPTULO 1 UMA TENTATIVA DE RENOVAO ........................................12

    1.1 A recepo crtica de A Ma no Escuro .................................................. 18

    1.2 A Ma no Escuro: conto, romance, livro de palavras .............................. 23

    1.3 A voz no escuro: o foco narrativo de Clarice Lispector ............................ 34

    CAPTULO 2 CRIME E LIBERTAO .............................................................. 40

    2.1 Inscries do mal ....................................................................................... 42

    2.2 Fugindo da linguagem ............................................................................... 50

    2.3 Crime e corporalidade ............................................................................... 56

    CAPTULO 3 REPRESENTAES DO FEMININO ........................................ 63

    3.1 Ermelinda .................................................................................................. 66

    3.2 Vitria ........................................................................................................ 71

    3.3 Do feminino ao feminino ........................................................................... 74

    CONSIDERAES FINAIS ...................................................................................... 77

    REFERNCIAS ........................................................................................................... 79

  • 9

    INTRODUO

    A leitura de A Ma no Escuro, quarto romance de Clarice Lispector, publicado

    pela primeira vez em 1961, impe-se primeiramente como um desafio. O leitor

    desavisado, acostumado linearidade do enredo da narrativa tradicional, tende a

    encontrar dificuldades em seguir o andamento deste que a prpria autora afirmou ser

    seu livro mais bem estruturado. Olga de S, em Clarice Lispector A travessia do

    oposto, afirma que o leitor esperado por este romance o leitor de fruio. Que leia

    tudo, sem pressa, pois o que chega linguagem no chega ao discurso (S, 2004, p.

    69). O leitor-modelo, para usar o termo apresentado por Umberto Eco (2004, p. 35-49),

    do romance em questo deve estar preparado para acompanhar um movimento lento,

    marcado pela reflexo, qual o leitor deve estar atento, a fim de perceber a riqueza do

    texto que se apresenta.

    O romance narra a fuga de Martim, aps o suposto cometimento de um crime,

    que, mais tarde saberemos, no se concretiza. Com a crena no assassinato da esposa, o

    protagonista se lana a uma jornada de isolamento e autoconhecimento, em que se

    questiona acerca dos valores da existncia anterior ao crime. A trajetria da personagem

    estabelece uma circularidade, uma vez que Martim parte de uma negao civilizao,

    rumo natureza e animalizao, para, no final da narrativa, dar-se a volta norma,

    representada pelos quatro homens da lei que vo buscar a personagem na fazenda de

    Vitria.

    A leitura que propomos pretende abordar tanto aspectos formais quanto temticos

    envolvidos na compreenso desse romance de Clarice Lispector. Partiremos, em

    primeiro lugar, da anlise de alguns textos da recepo crtica do romance. No se trata

    de um levantamento completo, o que j foi realizado por outros pesquisadores da fico

    clariciana, mas de uma tentativa de mostrar os caminhos mais comuns da recepo

    crtica de A Ma no Escuro.

    Realizado esse intento, passaremos a uma explorao da forma do romance. Se

    este o livro mais bem estrut