Criminologia I

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  • Criminologia e Psicologia Criminal

    Nestor Sampaio Penteado Filho Delegado de

    Polcia, Mestre em Direito Processual Penal,

    Professor no Curso Marcato, na Faculdade de

    Jaguarina (FAJ), e na Academia de Polcia Civil de

    So Paulo. Autor de diversas obras na rea jurdica.

    I CRIMINOLOGIA

    1. Conceito, mtodos, objetos e finalidade da Criminologia. 1.1. Conceito de Criminologia Etimologicamente criminologia vem do latim crimino (crime) e do grego logos (estudo, tratado), significando o estudo do crime. Entretanto, a criminologia no estuda apenas o crime, como tambm as circunstncias sociais, a vtima, o criminoso etc. Criminologia a cincia emprica (baseada na observao e experincia) e interdisciplinar que tem por objeto de anlise a personalidade do autor do comportamento no delito, da vtima e do controle social das condutas criminosas. A palavra criminologia foi pela primeira vez usada em 1883 por Topinard e aplicada internacionalmente por Rafael Garfalo, em seu livro Criminologia.

    1.2. Objeto do estudo da criminologia

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    A criminologia tem mltiplo aspecto de aplicao e estudo, porm nos primrdios ocupava-se de definir o crime (dcada de 30, Paris). Apesar de o direito penal e a criminologia estudarem o crime, cada qual o faz de seu modo: direito penal (cincia normativa crime como regra anormal de comportamento); criminologia (cincia causal-explicativa crime, criminoso, esquemas de combate criminalidade, preveno, vtima e teraputicas ressocializantes). Objeto tudo o que se relacionar com o crime e o criminoso, a saber: conduta do criminoso; forma de execuo do crime; tempo e lugar de execuo; caractersticas do delinqente (idade, sexo etc); exame da vida pregressa; papel da vtima; mecanismos de controle etc. Assim: delito, delinqente, vtima e controle social.

    1.3. Mtodos na criminologia Mtodo o meio empregado pelo qual o raciocnio humano procura desvendar um fato, referente natureza, ou sociedade ou ao prprio homem. No campo da criminologia essa reflexo humana deve estar apoiada em bases cientficas, sistematizadas por experincias, comparadas e repetidas, visando buscar a realidade que se quer alcanar. No campo da criminologia recorre-se aos mtodos biolgico e sociolgico. Observando com mincias o delito, a criminologia, portanto, usa de mtodo cientfico nos seus estudos.

    1.4. Finalidade da Criminologia

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    Os fins bsicos da criminologia so informar a sociedade e os poderes constitudos acerca do crime, do criminoso, da vtima, e dos mecanismos de controle social. Ainda: uma luta contra a criminalidade (controle e preveno criminal). A criminologia tem enfoque multidisciplinar porque se relaciona com o direito penal, com a biologia, a psiquiatria, a psicologia, a sociologia, etc.

    Unicidade da Criminologia: necessidade de juno da criminologia clnica e sociolgica, com mtodos prprios e unificados, criminologia integral.

    2. Histrico da Criminologia Cdigo de Hamurabi (punio de funcionrios corruptos); Homero (Ilada e Odissia, relao entre crimes, guerras e crueldades a seu tempo); Hipcrates (460 377 a.c.; alterao da sade mental pelos humores); Protgoras (485 410 a.c.; o homem a medida de todas as coisas, lutou para que a pena pudesse corrigir e intimidar); Digenes (desprezo s riquezas e convenes); Confcio (desigualdades sociais impossibilitam o governo do povo); Plato (a Repblica, reeducar o criminoso se possvel, se no, deveria ser expulso do pas - primeiros traos do direito penal do inimigo); Aristteles (causas econmicas do delito). Telogos: So Jernimo (vida o espelho da alma); Santo Toms de Aquino (pobreza gera o roubo, justia distributiva). Filsofos e humanistas: Tomas Morus (utopia ideal, o ouro a causa de todos os males); Hobbes (governantes devem dar segurana aos sditos); Montesquieu (o legislador deveria evitar o delito em vez

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    de castigar, liberdade dentro da lei, separao de poderes); Voltaire (pobreza e misria como fatores crimingenos); Rousseau (pacto social, indivduo submetido vontade geral). Penlogos: John Howard (criador do sistema penitencirio em 1777); Jeremias Bentham (utilitarismo, vigilncia severa dos presos); Jean Mabilon (prises em monastrios, 1632). Fisionomistas (estudo do carter das pessoas): Della Porta (1586, o homem de bem teria escassez de sinais fsicos); Kaspar Lavater (sculo XVIII, o criminoso traz os sinais ou marcas no rosto). Frenlogos (medidas do crnio): Franz Gall (precursor de Lombroso, associava s dimenses do crnio certos tipos de delitos); P. Lucas (bases hereditrias do crime). Psiquiatras: analisam as eventuais doenas cerebrais e sua repercusso na imputabilidade do ru. Felipe Pinel: moderna psiquiatria, o louco era doente; Domingo Esquirol: loucura moral, relao entre loucura e crime. Mdicos: Henry Mausdeley (zona cinzenta); Charles Darwin (evoluo natural); Cesare Lombroso (gnese do delinqente, precursor da escola positiva).

    2.1. Escolas Criminolgicas 2.1.1. Escola Clssica (Cesare Beccaria, Francesco Carrara, Carmigniani): responsabilidade penal do criminoso baseia-se na responsabilidade moral; livre arbtrio e o crime um ente jurdico, uma infrao; penas proporcionais ao delito, acusaes no podem ser secretas; a atrocidade das penas se ope ao bem pblico; ao juiz no dado interpretar as leis penais; a tortura inadmissvel; a preveno

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    muito melhor que a represso delitiva; o indulto penal fruto de leis imperfeitas; as penas so castigos queles que violam a lei, como uma retribuio ao mal causado.

    2.1.2. Escola Positiva (Cesare Lombroso, Enrico Ferri e Rafael Garofalo): tambm chamada de escola antropolgica; o crime fenmeno social e sintoma do agente. luta contra o absolutismo;

    importncia do evolucionismo e da sociologia;

    determinismo humano e responsabilidade social (pena como defesa social). Lombroso: fase antropolgica, com o estudo do criminoso nato, mtodo experimental, influncia de fatores biofsicos, atavismo, o delito uma conseqncia da organizao moral e fsica do criminoso etc.

    Ferri: pai da sociologia criminal, acrescentou aos fatores biolgicos a influncia de fatores sociais no criminoso; fatores antropolgicos + fsicos + sociais. Os criminosos deveriam ser afastados da sociedade com base na periculosidade que representam. Garfalo: criou o termo criminologia, sob trplice aspecto (criminalidade, delito e pena), partiu da idia de criminosos nato, delito natural e legal, afasta os preceitos morais.

    2.1.3. Escola Ecltica (Lacassagne; Von Lizt; Turatti): tambm chamada de Terza Scuola, a sociedade tem os criminosos que merece.

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    substitui o livre arbtrio pela voluntariedade das aes; delito como fenmeno individual e social; responsabilidade moral e a pena tem carter aflitivo/tico com vistas defesa da sociedade.

    2.1.4. Escola Sociolgica Francesa: exame psicolgico do criminoso quando da execuo do delito; desvalor do resultado material e valorao da vontade delitiva; s repercutiu na prpria Frana.

    2.1.5. Escola Moderna Alem: crime fato jurdico que nasce de fatores humanos e sociais; h

    causas fsicas, sociais e econmicas do crime; imputabilidade relaciona-se capacidade de autodeterminao das pessoas; a pena baseia-se na culpa e se justifica pela necessidade de manuteno da ordem pblica; medida de segurana como fator preventivo dada a periculosidade do criminoso.

    2.1.6. Escola do Tecnicismo Jurdico separao entre direito penal e qualquer investigao de valores do sistema; recusa admitir o livre arbtrio;

    responsabilidade moral dos delinqentes;

    o crime uma relao jurdica; pena como retribuio e expiao; imputveis (pena) e inimputveis (medida de segurana).

    2.1.7. Escola Correlacionista

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    o Estado deve reintegrar o criminoso; Pena de durar o tempo necessrio readaptao; carter profiltico da pena, pois protegia o grupo e recuperava o criminoso.

    2.2. A Moderna Criminologia Cientfica a criminologia mais moderna defende o uso de tratamentos no institucionais, porque haveria inequvoco prejuzo ao indivduo com a restrio de sua liberdade ou afastamento de seu meio. Nesse contexto ressalta-se a importncia da anlise bio-psico-social da criminologia. A biologia criminal (aspectos genticos, anatmicos, fisiolgicos etc) cuida da criminogenese, ou seja, da presena de tendncias de etiologia gentica associada psicologia criminal (estudo do comportamento humano e da sade mental) e ainda sociologia criminal (fenmenos sociais).

    3. Teorias Criminolgicas

    3.1. Teorias da Reao Social reao social a resposta da sociedade ao crime praticado, que pode vir de um grupo ou de uma entidade jurdica institucional; reao pode gerar a preveno, represso, bem como despenalizao, descriminalizao e desprisionalizao.

    3.1.1. Estigmatizao A maior condio de criminalidade resulta da atribuio negativa dada pelos mecanismos de controle social (policiais, juzes,

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    promotores), diferenciando delinqentes de no delinqentes, surgindo assim, criminosos, prostitutas, homossexuais etc.

    3.1.1.1. Interacionismo o exerccio do controle social se realiza com as reaes que reprovam e demonstram a resistncia da ordem violada por meio do processo penal (ao criminosa x reao processual).

    3.1.1.2. Escola de Chicago oriunda dos anos 20 e 30, abrangeu as teorias culturalistas, simplificando a sociologia americana, alegando modelo ecolgico equilibrado (criminologia ecolgica). priorizar as aes preventivas (programas sociais), reduzindo a represso. influncia do todo construdo (cidades). poltica criminal aliada ao estudo da criminalidade das cidades.

    3.1.2. Tcnica do Labeling Approach (Becker, Tannenbaum) crime e criminalidade no so fenmenos ontolgicos; incriminao no segue a padres objetivos, mas, sim, decorre de