Crítica da Razão Tupiniquim

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  • CRTICA DA RAZO TPINIQIM Roberto Gomes

    lOt EDIO

    i l i FTD

  • Copyright ( c ) Roberto Gomes, 1990 Todos os direitos de edio reservados

    EDITORA FTD S.A. MATRIZ Rua Rui Barbosa 156 (Bela Vista) So Paulo

    CEP 01326-010 Tel. 253.5011 FAX (011)288 0132

    Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP) (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

    Gomes, Roberto, 1944-Crtica da razo tupiniquim / Roberto Gomes. 11. ed.

    So Paulo : FTD, 1994. (Coleo prazer em conhe-cer)

    ISBN 85-322-0333-7 1. Filosofia - Brasil 2. Filosofia brasileira I. Ttulo. II.

    Srie.

    94-0590 CDD-199.81 ndices para catlogo sistemtico:

    1. Brasil : Filosofia 199.81 2. Filosofia brasileira 199.81

    Editor: Jorge Cludio Ribeiro Coordenador de reviso: Adolfo Jos Facchini Editor de arte: Cludio Cuellar Capa: Criao - Roberto Soeiro

    Execuo - Chromo Digital, Design Grfico Ilustrador: L u i z Carneiro Produo e Diagramao: Reginae Crema Editorao eletrnica: Paulo Lopes da S i l v a

  • ndice Capitulo 1 - Um ttulo 4 Capitulo 2 - A srio: a seriedade 9 Capitulo 3 - Uma Razo que se expressa 17 Capitulo 4 - Filosofia e negao 26 Capitulo 5 - O mito da imparcialidade: o ecletismo 32 Capitulo 6 - O mito da concrdia: o jeito 41 Capitulo 7- Originalidade e jeito 48 Capitulo 8 - A Filosofia entre-ns 55 Capitulo 9 - A Razo Ornamental 69 Capitulo 10- A Razo Afirmativa 82 Capitulo 11 - Razo Dependente e negao 95 Sugestes de atividades didticas 111 O autor 117 Bibliografia 117

  • Captulo 1 Um ttulo

  • Um ttulo 5

    POESIA COM LAMENTAO DO LOCAL DE NASCIMENTO

    Tudo o que eu digo, acreditem, teria mais solidez se em vez de carioquinha eu fosse um velho chins.

    MUXR FERNANDES (Papverum Millc)

    Oque pode significar isso: Razo Tupiniquim? Tratando-se de ttulo de um livro, supe-se que denuncie um te-ma. Ocorre que este tema jamais foi explicitado, no existindo. Fcil constatar que entre ns esta Razo esta-r adormecida ou pulverizada em mil manifestaes que

    seria problemtico reunir num nico n com a virtude da sntese. Talvez seja impossvel o tema deste livro, embora seu ttulo

    possa ser at sugestivo. No fcil escrever sobre algo que s exis-tir caso seja inventado. Uma Razo Brasileira, no existindo atual-mente, precisaria antes do mais ser providenciada, vindo tona. Ento, das duas uma: ou este livro no pode ser escrito ou ser uma tentativa de "inventar" esta Razo, seguindo vestgios espar-sos no romance, na poesia, na msica popular e at - pois ca-paz de que mesmo a transparea - nalguns livros de Filosofia.

  • 6 Um ttulo

    Mas estas alternativas devem ser rejeitadas. Primeiro, me impossvel no escrever este livro. Segundo, absurda a pretenso de "inventar", aqui, seu tema. Outra ser sua pretenso.

    Partamos de algo pacfico: mal sabemos o que seja uma Ra-zo Tupiniquim. Uma piada, talvez. Hiptese que nos causaria gran-de prazer. Gostamos muito de piadas. H todo um esprito brasi-leiro que se delicia com a prpria agilidade mental, esta capacida-de de ver o avesso das coisas revelado numa palavra, frase, fato. Somos, os brasileiros, muito bem-humorados. Conseguimos rir de tudo. Do governo que cai e do governo que sobe. Das instituies que deveriam estar a nosso servio, dos dirigentes que deveriam representar nossos interesses. E no s. Chegamos a fazer pia-das sobre nossa capacidade de fazer piadas. Nada mais ilustrativo do que a srie de piadas onde representantes de outros pases so ridicularizados pelo desconcertante "jeitinho" de um brasileiro. Neste plano, seja dito, nos movemos com facilidade gritante.

    Desta atitude seria til extrair o avesso. Embora tenhamos uma imensa mitologia construda em cima de nosso jeito piadsti-co, no momento de pensar no admitimos piada. Queremos a coi-sa sria. Frases na ordem inversa, palavras raras, citaes latinas -e impossvel qualquer piada em latim, creio. Isto criou situaes constrangedoras, como as fteis crticas srias a Oswald de Andra-de, acusado de mero piadista. Estranha gente, esta. Gaba seu ini-mitvel jeito piadstico, mas na hora das coisas "culturais" mergu-lha num escafandro greco-romano. j Creio que a existncia de uma piada tipicamente brasileira deveria ser objeto de estudo mais aprofundado. Possuir caracte-rsticas especficas? Que atitudes bsicas revela? Uma saudvel maneira de suportar um existir humilhado? Um modo de estar aci-ma daquilo que amesquinha nosso dia a dia? Talvez sim. Certa-mente sim. Uns reagem com dramaticidade, tragdia e muito san-gue - ocorreu-nos reagir com o riso.

    Talvez uma posio existencial muito nossa. O riso - um cer-to tipo de riso, o nosso - nos salva, tiraniza o tirano, amesquinha quem nos tortura, exorciza nossas angstias. No creio, aqui de

  • Um ttulo 7

    meu ponto de vista brasileiro - e que outro ponto de vista poderia me importar? - que pudssemos ter feito melhor.

    H um perigo, porm. Sempre h um perigo. A mesma pia-da que salva pode mascarar-se em alienao. Como qualquer cria-o humana, tambm a piada deve ser essencialmente crtica, j que de sua pretenso ser isso: uma forma de conhecimento. Ora, quando o riso se perde em pura facilidade, em distrao, morre a atitude crtica. E o "jeito piadstico" estar a servio de nossa inau-tenticidade. H indcios, entre ns, de tal coisa: deixar como est pra ver como que fica; no esquentar a cabea; analisa no; d-se um jeito.

    O conformismo brasileiro encontra a seu terreno de eleio. Justificar, por exemplo, sua prpria condio - dependncia, insol-vncia poltica, jogos de privilgios - atravs de um simples "o bra-sileiro assim mesmo", eis o que impede seja criada entre ns uma atitude tipicamente brasileira ao nvel da reflexo crtica, pro-posta e assumida como nossa. Desconhecendo-se, mal sabendo de uma Razo Tupiniquim, o brasileiro aliena-se de dois modos: rindo de sua sem-importncia ou delirando em torno do "pas do futuro", em variados "anaus". Na verdade, conformismo e ausn-cia de poder crtico, pois nos dois casos h um abandono - "dei-xa como est para ver como que fica" - e uma esperana mgi-ca - "d-se um jeito".

    Mergulhado num escafandro greco-romano - embora no se-ja nem grego nem romano - , o brasileiro foge de sua identidade. Tem sido na Filosofia que o esprito humano tem buscado sua au-to-revelao. Porm, autocomplacente e conformista, sujeito srio, o brasileiro ainda no produziu Filosofia. Assim, necessrio ad-vertir que um pensamento brasileiro jamais esteve l onde tem si-do procurado: teses universitrias, cursos de graduao e ps-gra-duao, revistas especializadas - e logo se ver por qu. No bolor de nosso "pensamento oficial" no se encontra qualquer sinal de uma atitude que assuma o Brasil e pretenda pens-lo em nossos termos. Alm do palavrrio aridamente tcnico e estril, das idias

  • 8 Um ttulo

    gerais, das teses que antecipadamente sabemos como vo concluir, das idias bem pensantes, nada encontramos que possa denunciar a presena de um pensamento brasileiro entre nossos "filsofos oficiais", vtimas de um discurso que no pensa, delira.

    Este livro invivel comea, pois, com uma srie de advertn-cias. A questo de um pensamento brasileiro dever brotar de uma realidade brasileira - no do "pensamento" e da "realidade" oficiais. Deve inventar seus temas, ritmo, linguagem. E inventar seus pontos de vista. Obras como as de Mrio de Andrade, Os-wald de Andrade, Machado de Assis, Lima Barreto, Srgio Buar-que de Holanda, Noel, Chico Buarque, alm daquilo que se tem feito no campo das cincias humanas nos ltimos anos, tm mais a nos dizer do que as maantes teses universitrias nas quais a Filo-sofia se mascara no Brasil. O mesmo se diga do torcedor de fute-bol, da porta-estandarte e do homem da rua em geral

    Mas no ser apenas isso que ir tornar vivel este livro. Uma Razo no se faz com um livro. Provisoriamente, permanea-mos em nossos limites. No se trata de "inventar" uma Razo Tu-piniquim, mas de propor um projeto, um certo tipo de pretenso certamente quixotesca e evidentemente absurda: pensar o que se , como se .

  • Captulo 2 A srio: a seriedade

  • 10 A sno: a seriedade

    Alis muito difcil nesta prosa saber onde termina a blague onde principia a seriedade. Nem eu sei.

    MRIO DE ANDRADE (Prefcio Interessantssimo)

    No captulo anterior levantou-se um tema para um ttulo. necessrio no desperdiar ttulo to sugestivo. Cabe agora perguntar: trata-se de tema "srio"?

    Pelo que ficou dito, prope-se ser srio, no uma piada. Quero que me entendam: no uma piada em seu

    sentido alienante. tema que dever ser "seriamente" considera-do. Mas: conseguiremos pensar "a srio"? Razo Tupiniquim? No coisa no que se pense - e sobretudo nestes termos. S po-de ser brincadeira, jamais um tema "srio". Quer dizer: no cons-ta de nenhuma tese defendida na Sorbonne ou em Freiberg.

    Prestando ateno, vemos que h vrios empregos possveis para a palavra "srio" e, conseqentemente, vrios sentidos para a "seriedade". Creio que isso fique claro se considerarmos estas duas ocorrncias: "Fulano de Tal um homem srio" e "Fulano de Tal leva a srio seu trabalho".

    Entre os dois empregos no h apenas o acrscimo de uma letra, mas uma mudana de perspectiva e de acentuao. Mudou o carter da seriedade em questo. No primeiro caso queremos dizer que Fulano de Tal um homem que zela pela seriedade das japarncias. respeitador das normas e convenes sociais. Seria incapaz de "sair da linha". Dele no se esperam coisas que fujam

  • A sno: a seriedade 11

    ao normal estatstico. Isto vale dizer: Fulano de Tal um homem respeitador e respeitvel.

    Na segunda ocorrncia, a seriedade em questo remete-se a outra gama de significaes. Levar a srio, seja um trabalho, um lugar ou um amor, no consiste no zelo pela vigncia de normas sociais. Ao contrrio. O acento faz com que toda carga significati-va recaia sobre o