CULTURA INDÍGENA, TERRITORIALIDADE E CONFLITOS: .município tem vivenciado conflitos com os indígenas

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CULTURA INDGENA, TERRITORIALIDADE E CONFLITOS: desafios da aplicao da Lei n 11.645/08 frente a invisibilidade histrica em Graja-Maranho

Cynthia Helena Chaves Oliveira1

Karina Arajo Lopes2

Resumo O presente artigo tem por objetivo geral analisar como a cultura indgena se estabelece na cidade de Graja-Maranho. Por objetivos especficos se prope contextualizar a diversidade/colonialidade no municpio, bem como, demonstrar os desafios ao se aplicar a Lei 11.645/08 nas escolas. Para dar fundamento s informaes coletadas, norteou-se principalmente em: Alcntara (2015), Coelho (2002), Quijano (2010), Raffestin (1993) e Santos (2010). Os procedimentos metodolgicos se pautaram na aplicao de questionrio aberto com professores da rede pblica e levantamento bibliogrfico. Atravs da pesquisa, foi possvel constatar a invisibilidade indgena na cidade de Graja.

Palavras-chave: Cultura Indgena; Invisibilidade; Escolas.

Abstract

This article aims to analyze how the indigenous culture is established in the city of Graja-Maranho. For specific objectives it is proposed to contextualize the diversity / coloniality in the municipality, as well as to demonstrate the challenges of applying Law 11.645 / 08 in schools. In order to base the information collected, it was mainly based on: Alcntara (2015), Coelho (2002), Quijano (2010), Raffestin (1993) and Santos (2010). The methodological procedures were based on the application of an open questionnaire with public school teachers and a bibliographic survey. Through the research, it was possible to verify the indigenous invisibility in the city of Graja. Keywords: Indigenous Culture; Invisibility; Schools.

1 Graduanda do Curso de Licenciatura em Cincias Humanas/Geografia. Universidade Federal do Maranho (UFMA). E-mail: cynthiahcoliveira@gmail.com 2 Graduanda do Curso de Licenciatura em Cincias Humanas/Geografia. Universidade Federal do Maranho (UFMA). E-mail: karinaraujo14@gmail.com

I. INTRODUO

Este artigo visa problematizar os resultados de uma pesquisa exploratria em

Graja-Maranho acerca da visibilidade/invisibilidade indgena. Segundo Gil (2007) a

pesquisa exploratria tem como objetivo proporcionar maior familiaridade com o problema,

com vistas a torn-lo mais explcito ou a construir hipteses (GIL, 2007 apud SILVEIRA;

CRDOVA, 2009, p. 35). A partir desse vis, buscou-se por objetivo geral, analisar como a

cultura indgena se organiza no espao grajauense. De modo especfico, objetivou-se

contextualizar a diversidade/colonialidade do municpio. E, demonstrar os desafios da

aplicao da lei 11.6453 a partir dos discursos de professores da educao bsica.

Para o desenvolvimento deste artigo, a abordagem da pesquisa se deu de forma

qualitativa, no qual se teve como instrumentos de coletas de dados o levantamento

bibliogrfico e a aplicao de questionrio aberto com dezesseis professores do ensino

pblico da cidade, sendo oito sujeitos de uma escola no povoado Remanso, localizada

17km do permetro urbano de Graja, e, oito sujeitos de uma escola que se encontra no

contorno da cidade. Para dar corpo s informaes coletadas, utilizou-se os respectivos

autores: Alcntara (2015), Coelho (2002), Quijano (2010), Raffestin (1993) e Santos (2010).

O artigo se divide em trs tpicos para um melhor entendimento da pesquisa.

Primeiramente descreve-se o espao geogrfico a qual est inserida a pesquisa, isto , a

cidade de Graja, bem como os conflitos intertnicos entre ndios e no-ndios que esto

envolvidos na histria do municpio. Em um segundo momento, discorre-se sobre a

importncia da cultura indgena na cultura brasileira, contextualizando com sua invisibilidade

histrica. Por fim, traz-se os resultados obtidos mediante a aplicao do questionrio,

visando sua problematizao quanto aos conhecimentos que os professores relataram em

seus discursos acerca da cultura indgena. nesse contexto que abordaremos a lei

11.645/08.

II. GRAJA, TERRITORIALIDADE E CONFLITOS

Para se entender o contexto da diversidade/colonialidade em Graja, faz-se

necessrio compreender os conflitos referente territorialidade que ocorreram durante a

fundao da cidade e posteriormente com a populao habitante do Povoado Remanso.

Para o gegrafo Claude Raffestin (1993, p. 2) o conceito de territrio vai muito alm do

3 Lei que estabelece as diretrizes e bases da educao nacional, para incluir no currculo oficial da

rede de ensino a obrigatoriedade da temtica Histria e Cultura Afro-Brasileira e Indgena (BRASIL, 2008, Art. 26-A).

conceito de espao, dado que o territrio [...] um espao onde se projetou um trabalho,

seja energia e informao, e que, por conseqncia, revela relaes marcadas pelo poder.

O espao a priso original, o territrio a priso que os homens constroem para si. Ou

seja, ao se falar de territrio, estamos lidando diretamente com as relaes de poder

existentes em uma sociedade, o que tambm ser tratado ao longo deste trabalho. Outro

conceito muito importante para esta pesquisa a questo da territorialidade, este, por sua

vez, est para alm do territrio, pois, ainda de acordo com Raffestin,

[...] a territorialidade adquire um valor bem particular, pois reflete a multidimensionalidade do "vivido" territorial pelos membros de uma coletividade, pelas sociedades em geral. Os homens "vivem", ao mesmo tempo, o processo territorial e o produto territorial por intermdio de um sistema de relaes existenciais e/ou produtivistas. Quer se trate de relaes existenciais ou produtivistas, todas so relaes de poder, visto que h interao entre os atores que procuram modificar tanto as relaes com a natureza como as relaes sociais (RAFFESTIN, 1993, p. 14).

Por esta razo, optou-se por utilizar o conceito de territorialidade na tentativa de

explicar uma das razes que levaram adiante os conflitos por terra na cidade de Graja.

A fundao da cidade de Grajau marcada por grandes conflitos intertnicos

entre ndios e no-ndios. Quando os no-ndios chegaram para habitar Graja, os ndios ali

j se encontravam. Coelho (2002) esclarece que a estratgia para o avano da colonizao

em Graja se deu atravs do que eles denominaram de pacificao dos selvagens, a

autora diz ainda, que isso fica bem claro na determinao feita por Silva Gama, presidente

da provncia do Maranho em 1817, no qual explicita:

[...] situar, civilizar e meter em trfico moral os ndios selvagens daquele contorno... Se algumas dessas naes corresponder atraioadamente fiel aliana com que forem tratadas, deve-se depois de esgotados os meios suaves, fazer-lhes reconhecer pela seriedade da punio quanto devem respeitar o poder das nossas foras e como ser proveitoso viverem na nossa aliana e aproveitarem-se fielmente dos subsdios com que lhes procuramos a sua felicidade no gozo daquela paz civil que no conheciam. Todos os ndios que forem aprisionados nestas aes hostis devero ser remetidos para a capital pois no poder ficar um ndio s com a mnima aparncia de escravido para que no entre na isca destes infelizes e desconfiadssimos selvagens que pode caber na magnanimidade e benevolncia de quem os socorre vil proteo de os chamar cativeiro (Of. n. 1.426, 1817, liv. 1, apud COELHO, 2002, p. 106).

O processo civilizatrio, como destaca Coelho (2002, p.134) mantm- se

ancorado nas formas de violncia simblica e de aes brandas. Segundo Alcntara

(2015, p.24), [...] esse sentimento de conquista da civilizao sobre selvagens e

primitivos ressoa at hoje na cidade. Onde ndios ainda so vistos como povos atrasados,

ignorantes, sujos, deseducados, deste modo, possvel analisar que desde o incio, o

municpio tem vivenciado conflitos com os indgenas no seu processo de civilizao, onde

nos dias atuais tem-se uma sociedade marcada por preconceitos para com os ndios. Com

isto, observamos como a colonialidade est presente nesse processo, j que os civilizadores

do territrio grajauense se consideram superiores aos que ali j habitavam. Coelho (2002),

afirma que [...] o atual municpio de Graja foi, quando de sua fundao e conservao,

uma das maiores conquistas da civilizao sobre os indgenas nos sertes do Maranho.

Conflitos estes que se perpetua at os dias de hoje (COELHO, 2002, p.105 apud

ALCNTARA, 2015, p.24).

Outro conflito marcante na histria de Grajau, refere-se ao realojamento da

populao de So Pedro dos Cacetes, revelada por acontecimentos conflituosos, tambm

envolvendo ndios e brancos. Segundo Barros (1992, p. 16) O povoado de so Pedro dos

Cacetes teve incio nos anos quarenta, formada por alguns imigrantes cearenses, a disputa

pela terra ficou popularizada entre os Guajajaras e os moradores de So Pedro, onde

ambos lutavam pela garantia de territrio, essa disputa por terra, est intimamente ligada

com a ideia de territorialidade pensada por Raffestin (1993), pois, abrange um sentimento de

pertencimento ao territrio que encontra-se no campo do espao vivido. Sendo assim,

podemos afirmar que a luta pela permanncia no territrio de So Pedro dos Cacetes

significa muito mais do que a luta para conseguir um espao, mas envolve-se numa relao

de produo e sentimentos pelas terras. De acordo com Barros (1992, p.16) [...]foi em 1985

que a situao litigiosa atingiu o seu pice. Nesse mesmo ano assembleia legislativa

elaborou o projeto de lei 045/85 que trabalha em