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Curso Biblico

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Curso Biblico

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ESCOLA MATER ECCLESIAE

PARQUIA SO PIO XDicono Aparecido Fernandes Neves

2012LXICO BBLICO

Na elaborao de nossos estudos, resolvemos adotar uma linguagem acessvel ao grande pblico, mas enriquecida por vocbulos tcnicos, especficos do linguajar exegtico bblico. Tais vocbulos so, por vezes, insubstituveis; da a necessidade de utiliz-los. Conhec-los exigir do estudioso um certo esforo, esforo, porm, bem compensado. Eis por que publicamos a seguir um pequeno Vocabulrio ou Lxico bblico, que poder valorizar a cultura bblica de nossos leitores e servir de instrumental para acompanhar nossos estudos.

Amanuense: a pessoa que escreve quanto lhe ditado por outrem, sem colocar algo de prprio.

Apcrifo: em grego, apkryphos quer dizer oculto. Tal era o livro no lido em assemblia pblica de culto, mas reservado leitura particular. Apcrifo ope-se a cannico, pois cannico era o livro lido no culto pblico, porque era considerado Palavra de Deus inspirada aos homens.

Apcrifo no tem nessesariamente sentido pejorativo. simplesmente o texto que, por um motivo qualquer, no era de uso pblico; pode conter verdades histricas, como a da Assuno corrporal de Maria SS. aos cus. Apocalipse: do grego apoklypsis, revelao, um gnero literrio ou um modo de redigir escritos que tem as seguintes caractersticas: imagina o fim da histria, por ocasio do qual o Senhor vir terra sensivelmente para julgar os homens e restaurar a ordem violada. Esse aparecimento de Deus assinalado por sinais no mundo, abalo da natureza; catstrofes... Tal gnero literrio recorre frequentemente a simbolos e imagens, que devem ser interpretados segundo critrios objetivos ou de acordo com a mentalidade dos escritores antigos. Determinado smbolo podia significar uma coisa para os antigos e pode significar outra para os modernos. Apocalipse de So Joo o nome de um apocalipse, que vem a ser o ltimo livro da Bblia. H, entre os apcrifos, o Apocalipse de Henoque, o de Elias... Aramaico: lngua dos filhos de Aram muito prximo do hebraico Tornou-se lngua diplomtica ou internacional no Oriente antigo a partir do sculo V a.C. Os judeus aps o exlio (587-538 a.C.) a adotaram como lngua corrente, reservando o hebraico, para o culto sagrado. Havia o dialeto aramaico de Jerusalm e o da Galilia Pouco depois, os que ali estavam aproximaram-se de Pedro e disseram: Sim, tu s daqueles; teu modo de falar te d a conhecer Mt 26,73. Jesus e seus discpulos falavam aramaico.

Cnon: do grego kann, canio. Significa medida, rgua; em sentido metafrico, designa regra ou norma de vida A todos que seguirem esta regra, a paz e a misericrdia, assim como ao Israel de Deus Gl 6,16. Os antigos falavam do cnon da f ou da verdade, para designar a doutrina revelada por Deus, que era critrio para julgar qualquer doutrina humana e para nortear a vida dos cristos. Derivadamente cnon significava tambm catlogo, tabela, registro; neste ltimo sentido os cristos passaram a falar do cnon bblico ou da Bblia (= catlogo dos livros bblicos).

Protocannico: o livro que sempre pertenceu ao cnon ou catlogo. Deuterocannico o escrito que primeiramente foi controvertido e s depois entrou definitivarnente no cnon sagrado. Prton = primeiro (da primeira hora), Duteron = segundo (em segunda instncia). Carisma: do grego chrisma, quer dizer dom em geral. J nas epstolas de So Paulo carisma dom para tal ou qual tipo de servio; A cada um dada a manifestao do Esprito para proveito comum 1Cor 12,7; Em suma, que dizer, irmos? Quando vos reunis, quem dentre vs tem um cntico, um ensinamento, uma revelao, um discurso em lnguas, uma interpretao a fazer - que isto se faa de modo a edificar. Se h quem fala em lnguas, no falem seno dois ou trs, quando muito, e cada um por sua vez, e haja algum que interprete Se no houver intrprete, fiquem calados na reunio, e falem consigo mesmos e com Deus. Quanto aos profetas, falem dois ou trs, e os outros julguem. Se for feita uma revelao a algum dos assistentes, cale-se o primeiro. Todos, um aps outro, podeis profetizar, para todos aprenderem e serem todos exortados. 1Cor 14,26-31. Existem os carismas da profecia, das curas, do governo, do apostolado... Mas o melhor carisma o da caridade (gape), que no produz espalhafato, mas tudo perdoa, tudo cr, tudo suporta Tudo desculpa, tudo cr, tudo espera, tudo suporta 1Cor 13, 7). Muitos carismas nada tm de portentoso: o de assistir aos enfermos, o de educar crianas, o de instruir os ignorantes, o de liderar um grupo.

Cheol: os judeus chamavam cheol um lugar subterrneo, por eles imaginado, onde estariam, inconscientes ou adormecidos, todos os indivduos humanos aps a morte. A terra era tida como mesa plana, debaixo da qual se encontraria a manso dos mortos; esta em grego era chamada Hades; em latim, inferni (da preposio infra, que significa abaixo; donde inferni = inferiores lugares).Em consequncia, os antigos judeus no podiam admitir retribuio pstuma nem para os homens bons nem para os infiis, pois todos se achavam inconscientes; ver, por exemplo: Com efeito, no a morada dos mortos que vos louvar, nem a morte que vos celebrar. O que desce sepultura no espera mais em vossa bondade Is 38,18; Porque no seio da morte no h quem de vs se lembre; quem vos glorificar na habitao dos mortos? SI 6,6. A justia divina, segundo tal concepo, devia exercer-se no decorrer mesmo da vida presente; os homens fiis seriam recompensados com sade, vida longa, dinheiro,... ao passo que os pecadores sofreriam doenas, morte prematura, misria...Com o tempo, as concepes antropolgicas dos judeus foram-se esclarecendo, de modo que j no sculo II a.C. admitiam a ressurreio dos mortos e a retribuio final para bons e maus depois da morte. Dn 12,2-3: Muitos daqueles que dormem no p da terra, despertaro uns para uma vida eterna, outros para o oprbrio, para o horror eterno. Os que tiverem sidos inteligentes fulgiro com o brilho do firmamento, e os que tiverem introduzidos muitos (nos caminhos) da justia luziro, como as estrlas, com um perptuo resplendor. 2Mac 7,9.11.14: Prestes a dar o ltimo suspiro, disse ele: Maldito, tu nos arrebatas a vida presente, mas o Rei do universo nos ressuscitar para a vida eterna, se morrermos por fidelidade s suas leis. Pronunciou em seguida estas nobres palavras: Do cu recebi estes membros, mas eu os desprezo por amor s suas leis, e dele espero receb-los um dia de novo. E este disse, quando estava a ponto de expirar: uma sorte desejvel perecer pela mo humana com a esperana de que Deus nos ressuscite; mas, para ti, certamente no haver ressurreio para a vida.

No tempo de Jesus, os judeus j admitiam sorte pstuma diferente para os bons e os maus; veja-se, por exemplo, a parbola do ricao e do pobre Lzaro, em Lc 16,19-31, onde aparece a separao de uns e outros. Na terminologia crist latina, a palavra infernos ficou reservada para designar a sorte pstuma dos condenados. Todavia a topografia do alm, supondo terra plana e compartimentos subterrneos para bons e maus, est superada. A f crist professa a realidade da vida pstuma ou a subsistncia da alma humana aps a morte, mas no pode indicar Iugar determinado para o cu e o inferno (o que no esvazia em absoluto os conceitos respectivos) Escatologia: a doutrina referente ao eschatn ou aos ltimos acontecimentos ou ainda consumao da histria. Esta pode ser coletiva (a consumao da histria da humanidade ou o fim do mundo), como pode ser individual (a consumao da histria terrestre ou da peregrinao de determinada pessoa).

Escatolgico o que se refere aos ltimos acontecimentos. Perspectiva escatolgica, por exemplo, a considerao dos fatos presentes luz da eternidade ou da consumao para a qual tendem. Bens escatolgicos so os bens definitivos j presentes em meio ao tempo.Exegese: do grego exgesis, explicao, explanao. a arte de expor ou explicar o sentido de determinado texto, especialmente da Bblia; para ser rigorosamente conduzida, requer o estudo de lnguas, histria, arqueologia... orientais. Segundo So Joo, Jesus o Grande Exegeta do Pai, pois Ele nos revelou o Pai. Ningum jamais viu Deus. O Filho nico, que est no seio do Pai, foi quem o revelou Jo 1,18. Exegeta a pessoa que cultiva a exegese.

Geena: vem de ge-hinnam, em aramaico. Nos arredores de Jerusalm havia um vale (ge, em hebraico) pertencente aos filhos de Hinnom (bon-hinnom). Donde ge-ben-hinnom ou gehinnom, em hebraico. Nesse vale se sacrificavam crianas ao deus Moloc da Babilnia;. Chegou at a passar seu filho pelo fogo, segundo o abominvel costume dos povos que o Senhor tinha expulsado de diante dos filhos de Israel 2Rs 16,3; Manasss derramou tambm tanto sangue inocente que inundou Jerusalm de uma extremidade outra, sem falar dos pecados com que tinha feito pecar Jud, levando-o a fazer o mal aos olhos do Senhor 2Rs 21,6; Ergueram altares a Baal no vale do Filho de Hinon, para a queimarem os filhos e as filhas em honra de Moloc, o que no lhes havia ordenado nem jamais me tinha passado pela mente: cometer tal infmia e tornar Jud culpado de semelhante crime! Jr 32,35. Depois do exlio (587-538 a.C.), os judeus l queimavam seu lixo. Por isto, o gehinnom ou a ge-hinnam era um lugar de fogo. Jesus se serviu do vocbulo para designar a sorte pstuma dos que renegam a Deus; Se a tua mo for para ti ocasio de queda, corta-a; melhor te entrares na vida aleijado do que, tendo duas mos, ires para a geena, para o fogo inextinguvel. [onde o seu verme no morre e o fogo no se apaga]. Se o teu p for para ti ocasio de queda, corta-o fora; melhor te entrares coxo na vida eterna do que, tendo dois ps, seres lanado geena do fogo inextinguvel. [onde o seu verme no morre e o fogo no se apaga]. Se o teu olho for para ti ocasio de queda, arranca-o; melhor te entrares com um olho de menos no Reino de Deus do que, tendo dois olhos, seres lanado geena do fogo Mc 9,43-47.Hermenutica: arte de interpretar (hermeneuen, em grego). Interpretar procurar compreender e explicar - o que tem de ser feito segundo critrios objetivos e no conforme opinies ou pareceres subjetivos. Embora a Bblia seja Palavra de Deus, que tem eficcia santificadora prpria, ela a Palavra de Deus encarnada na palavra do homem; por isto precisa de ser entendida primeiramente com o instrumental das cincias histricas e lingusticas para se perceber o sentido da roupagem que a Palavra de Deus quis assumir. S depois de depreender o que o autor sagrado tinha em vista exprimir com sua linguagem, possvel passar para o plano da f e da teologia.

Inspirao bblica: distingue-se da inspirao no sentido usual da palavra, pois no ditado mecnico nem comunicao de idias que o homem ignorava. Inspirao bblica a iluminao da mente de um escritor para que, sob a luz de Deus, possa escrever, com as noes religiosas e profanas que possui, um livro portador de autntica mensagem divina ou um livro que transmite fielmente o pensamento de Deus revestido de linguajar humano. A finalidade da inspirao bblica religiosa, e no da ordem das cincias naturais. Toda a Bblia inspirada de ponta a ponta, em qualquer de suas partes. Certas passagens bblicas, alm de inspiradas, so tambm portadoras de revelao ou da comunicao de doutrinas que o autor sagrado no conhecia atravs da sua cultura (Deus Pai e Filho e Esprito Santo, chamou-nos para o consrcio da sua vida, mandou-nos o Filho como Redentor, etc.).

A distino entre inspirao bblica e revelao se faz muito clara no livro de J. Este trata do sofrimento do homem justo; por que abatido pela doena? O autor sagrado s tinha noo do cheol; ignorava a retribuio pstuma; Deus, no lhe quis revelar a vida pstuma consciente; mas quis inspir-lo para escrever o livro de J. Isto quer dizer que o autor procurou dentro dos limites da vida presente uma resposta para a questo do sofrimento dos justos. No a encontrou, porque s se elucida luz da ressurreio e da vida pstuma, consciente. Em consequncia; o hagigrafo apenas pde dizer que o sofrimento nem sempre supe pecados pessoais, como se fosse um castigo (o que j era um progresso na mentalidade de Israel); quanto ao mais, terminou pedindo o silncio do homem diante do mistrio da dor; certo que Deus mais sbio do que o homem e no se engana, mas o homem no capaz de abarcar os desgnios de Deus. Esta concluso plenamente vlida, digna de um livro inspirado; mas no contm a revelao da ressurreio dos mortos e da vida pstuma consciente, que s mais tarde teria lugar em Israel. Por ltimo, Jesus nos revelou que o sofrimento, aceito em unio com Ele, Pscoa ou passagem para a ressurreio e a glria definitiva.Algo de semelhante se deu com o livro do Eclesiastes: inspirado de ponta a ponta, mas no traz a revelao da vida pstuma consciente; sem a qual impossvel debater o problema da felicidade, que o hagigrafo encara. No obstante, a concluso do livro verdica no s para um judeu, mas para um leitor cristo. Em concluso: tudo bem entendido, teme a Deus e observa seus preceitos, este o dever de todo homem. Deus far prestar contas de tudo o que est oculto, todo ato, seja ele bom ou mau. Ecl 12,13-14.

Messias: vocbulo grego que significa Ungido, foi traduzido para o grego por Christs. Eram ungidos os reis de Israel (1Sm 10,1 Samuel tomou um pequeno frasco de leo e derramou-o na cabea de Saul; beijou-o e disse: O Senhor te confere esta uno para que sejas chefe da sua herana), que por isto traziam o nome de Ungidos de Jav. A uno significa relao particular entre o Senhor Deus e o ungido, que assim era revestido de autoridade especial e inviolvel. 1Sm 24,7 E disse aos seus homens: Deus me guarde de jamais cometer este crime, estendendo a mo contra o ungido do Senhor, meu senhor, pois ele consagrado ao Senhor!. Ungidos eram tambm os sacerdotes em Israel. Ex 28,41 Revestirs desses ornamentos teu irmo Aaro e seus filhos e os ungirs, os empossars e os consagrars, a fim de que sejam sacerdotes a meu servio. Aos profetas se aplicava uma uno no em sentido prprio, mas em sentido metafrico. 1Rs 19,19 Elias, partindo dali, encontrou Eliseu, filho de Safat, lavrando com doze juntas de bois diante dele; ele mesmo conduzia a duodcima junta. Elias aproximou-se e jogou o seu manto sobre ele. Visto que o Salvador prometido desde Gn 3,15 seria Rei, filho de Davi (2Sm 7,12-16), Sacerdote (Hb 7,1-25; Gn 14,17-20) e Profeta, o ttulo de Ungido lhe foi atribudo na literatura judaica e nos esctitos do Novo Testamento. (Jo 1,41 Foi ele ento logo procura de seu irmo e disse-lhe: Achamos o Messias (que quer dizer o Cristo; Jo 4,25 Respondeu a mulher: Sei que deve vir o Messias (que se chama Cristo); quando, pois, vier, ele nos far conhecer todas as coisas!.). Jesus foi ungido com o Esprito Santo e com poder (At 10,38 Vs sabeis como Deus ungiu a Jesus de Nazar com o Esprito Santo e com o poder, como ele andou fazendo o bem e curando todos os oprimidos do demnio, porque Deus estava com ele). Ele mesmo aplicou a Si o texto de Is 61,1, apresentando-se como o Ungido que veio anunciar aos povos a Boa-Nova (Lc 4,18-21).Com o tempo, a palavra Ungido, que era um adjetivo prprio para significar uma funo, tornou-se nome prprio, justaposto a Jesus; donde Jesus Cristo, e no Jesus o Cristo.Midraxe uma narrao de fundo histrico, ornamentada pelo autor sagrado para servir instruo teolgica e edificao dos seus leitores. O autor conta o fato de modo a pr em relevo o valor ou o significado religioso desse fato. A sua inteno no estritamente a de um cronista, mas de um catequista ou telogo. Como exemplo, citemos o caso do man: em Nm 11,4-9 A populao que estava no meio de Israel foi atacada por um desejo desordenado; e mesmo os israelitas recomearam a gemer: Quem nos dar carne para comer?, diziam eles. Lembramo-nos dos peixes que comamos de graa no Egito, os pepinos, os meles, os alhos bravos, as cebolas e os alhos. Agora nossa alma est seca. No h mais nada, e s vemos man diante de nossos olhos. O man assemelhava-se ao gro de coentro e parecia-se com o bdlio.O povo dispersava-se para colh-lo; moa-o com a m ou esmagava-o num pilo, cozia-o numa panela e fazia bolos com ele, os quais tinham o sabor de um bolo amassado com leo. Enquanto de noite caa o orvalho no campo, caa tambm com ele o man apresentado como alimento inspido e pouco atraente; mas em Sb 16,20-21 Mas, pelo contrrio, foi com o alimento dos anjos que alimentastes vosso povo, e foi do cu que, sem fadiga, vs lhe enviastes um po j preparado, contendo em si todas as delcias e adaptando-se a todos os gostos. Esta substncia que dveis se parecia com a doura que mostrveis a vossos filhos. Ela se adaptava ao desejo de quem a comia, e transformava-se naquilo que cada qual desejava, tido como cheio de sabor, adaptando-se ao paladar dos que comiam. Parece haver contradio; na verdade no h: o autor de Nm escreve uma narrao de cronista, ao passo que o de Sb nos apresenta o sentido teolgico do man num midraxe: o man era po delicioso no por seu paladar, mas porque era o penhor da entrada do povo na Terra Prometida; visto no contexto da histria da salvao, o man foi delicioso.Revelao: a Bblia nos d a saber que Deus falou aos homens comunicando-lhes o mistrio da sua vida trinitria e o seu desgnio de salvao, centrado em Cristo Jesus. Nunca os homens chegariam por si a conhecer tais verdades. Por isto o judasmo e o Cristianismo so, religies reveladas. A Bblia contm a revelao de Deus aos homens.

Teofania: etimologicamente, manifestao de Deus, em grego. Ocorre, por exemplo, na sara ardente em favor de Moiss (Ex 3,2 O anjo do Senhor apareceu-lhe numa chama (que saa) do meio a uma sara. Moiss olhava: a sara ardia, mas no se consumia.), no final do livro de (J 38,1 Ento, do seio da tempestade, o Senhor deu a J esta resposta: Quem aquele que obscurece assim a Providncia com discursos sem inteligncia?..., antes da Paixo de Jesus (Jo 12,28-30 Pai, glorifica o teu nome! Nisto veio do cu uma voz: J o glorifiquei e tornarei a glorific-lo. Ora, a multido que ali estava, ao ouvir isso, dizia ter havido um trovo. Outros replicavam: Um anjo falou-lhe. Jesus disse: Essa voz no veio por mim, mas sim por vossa causa).

Testamento: A Bblia consta de dois Testamentos: o Antigo e o Novo. A razo desta diviso e nomenclatura a seguinte: Os judeus, movidos pelo prprio Deus, designavam as suas relaes com Jav como sendo um Berith (= aliana); por isto falavam dos livros da Aliana. Todavia nos sculos III/II a. C., quando se fez a verso da Bblia hebraica para o grego em Alexandria, os intrpretes traduziram Berith por diatheke (= disposio); queriam desta maneira ressalvar a unicidade e soberania de Deus; na verdade, quem faz aliana com algum, par ou igual a esse algum, ao passo que quem faz uma disposio soberano ou Senhor. Assim os livros sagrados de Israel foram chamados livros da diatheke ou da disposio (de Deus em favor dos homens). Quando a palavra diatheke foi traduzida para o latim entre os cristos, estes usaram o vocbulo testamentum (= disposio que se torna vlida em caso de morte do testador). Recorreram palavra testamentum, porque ficou comprovado que a disposio de Deus em favor dos homens s se tornou plenamente vlida e eficiente mediante a morte de Cristo. Assim os livros sagrados, entre os cristos, foram distribudos em duas categorias: os da Aliana (ou Testamento) antiga e os da nova Aliana ou do novo Testamento; (2Cor 3,14-15 Em conseqncia, a inteligncia deles permaneceu obscurecida. Ainda agora, quando lem o Antigo Testamento, esse mesmo vu permanece abaixado, porque s em Cristo que ele deve ser levantado. Por isso, at o dia de hoje, quando lem Moiss, um, vu cobre-lhes o corao).Tradues gregas do Antigo Testamento. Alm da traduo dita dos Setenta, devem ser mencionadas as de Teodocio, quila e Smaco.Teodocio um proslito ou pago convertido ao judasmo, que traduziu o Antigo Testamento para o grego no sculo II d. C. a fim de tentar extinguir o uso do texto dos LXX. Esta traduo, realizada em Alexandria entre 250 e 100 a. C., era muito utilizada pelos cristos para provar a messianidade de Jesus. Visto que isto desagradava aos judeus, Teodocio se disps a fazer nova verso, que mais propriamente uma reviso retocada do texto dos LXX. O texto de Teodocio teve importncia para os cristos, pois a partir dele se fez a traduo latina das partes deuterocannicas do livro de Daniel.quila, tambm no sculo lI, fez uma autntica traduo grega do A. T. O seu texto se prende muito letra do hebraico, esforando-se por guardar em grego expresses tipicamente semitas.Smaco o terceiro tradutor do Antigo Testamento para o grego. A sua verso mais livre do que as anteriores; procura levar em conta o esprito e as peculiaridades da lngua grega. Tanto Smaco como quila tentavam suplantar o uso dos LXX. Vulgata a traduo latina da Bblia que se deve a So Jernimo (+421). No sculo IV era grande o nmero de tradues latinas das Escrituras, todavia apresentavam grandes deficincias de forma e de contedo. Por isto o Papa So Dmaso pediu a So Jernimo preparasse uma verso nova e fiel dos livros sagrados. Este sbio, de grande erudio na sua poca aplicou-se tarefa entre 384 e 406. No chegou a traduzir de novo o texto do Novo Testamento, mas fez a reviso dos textos j existentes cotejando-os com bons manuscritos gregos. Para traduzir o Antigo Testamento, Jernimo estabeleceu-se na Terra Santa, onde aprendeu o hebraico com os rabinos e traduziu em Belm todo o Antigo Testamento, menos Br, 1Mac e 2Mac, Eclo e Sb.A traduo de So Jernimo aos poucos substituiu as anteriores de modo a chamar-se VuIgata editio ou edio divulgada.Tornou-se a traduo oficial da Igreja at o Conclio do Vaticano II(1962-65). Todavia a traduo de So Jernimo mais tarde foi enriquecida, pois foi feita em poca na qual no havia os recursos arqueolgicos, histricos, lingusticos... de nossos tempos. Por isto, aps o Conclio do Vaticano II, Paulo VI mandou refazer a traduo latina dos livros sagrados, que, uma vez pronta, chamada a Neo-Vulgata.

INSPIRAO BBLICA

O estudo da Bblia deve comear pela prerrogativa que cristos e judeus reconhecem a este livro: a Palavra de Deus inspirada. Por causa disto que tanto a estimamos. a) Mas, quando se fala de inspirao bblica, talvez aflore mente a noo de ditado mecnico, semelhante ao que o chefe de escritrio realiza junto sua datilgrafa; esta possivelmente escreve coisas que no entende e que so claras apenas ao chefe e sua equipe. Ora tal no a inspirao bblica. Ela no dispensa certa compreenso por parte do autor bblico (= hagigrafo) nem a sua participao na redao do texto sagrado. b) A inspirao bblica tambm no revelao de verdades que o autor humano no conhea. Existe, sim, o carisma (= dom) da Revelao, que toca especialmente aos Profetas, mas diverso da inspirao bblica; esta se exercia, por exemplo, quando o hagigrafo descrevia uma batalha ou outros fatos documentados em fontes histricas, sem receber revelao divina. c) Positivamente, a inspirao bblica a iluminao da mente do autor humano, para que possa, com os dados de sua cultura religiosa e profana, transmitir uma mensagem fiel ao pensamento de Deus. Alm de iluminar a mente, o Esprito Santo fortalece a vontade e as potncias executivas do autor para que realmente o hagigrafo escreva o que ele percebeu; (2Pd 1,21 Porque jamais uma profecia foi proferida por efeito de uma vontade humana. Homens inspirados pelo Esprito Santo falaram da parte de Deus). As pginas que assim se originam, so todas humanas (Deus em nada dispensa a atividade redacional do homem) e divinas (pois Deus acompanha passo a passo o trabalho do homem escritor). Assim diz-se que a Bblia um livro divino-humano, todo de Deus e todo do homem; transmite o pensamento de Deus em roupagem humana; assemelha-se ao mistrio da Encarnao, pelo qual Deus se revestiu da carne humana, pois na Bblia a palavra de Deus se revestiu da palavra do homem (judeu, grego, com todas as suas particularidades de expresso).

d) Notemos agora que a finalidade da inspirao bblica estritamente religiosa. Os livros sagrados no foram escritos para nos ensinar dados de cincias naturais (pois, estas, o homem as pode e deve cultivar com seus talentos), mas, sim, para nos ensinar aquilo que ultrapassa a razo humana, isto , o plano de salvao divina, o sentido do mundo, do homem, do trabalho, da vida, da morte.., diante de Deus. No h, pois, contradio entre a mensagem bblica e a das cincias naturais, nem se devem pedir Bblia teorias de ordem fsica ou biolgica... Mesmo no Gnesis 1--3 no pretende ensinar como, nem quando o mundo foi feito.Pergunta-se ento: a Bblia s inspirada quando trata de assuntos religiosos? Haveria pginas da Bblia no inspiradas?Toda a Bblia em qualquer de suas partes, inspirada; ela , por inteiro, Palavra de Deus; (2Tm 3,15-16 E desde a infncia conheces as Sagradas Escrituras e sabes que elas tm o condo de te proporcionar a sabedoria que conduz salvao, pela f em Jesus Cristo. Toda a Escritura inspirada por Deus, e til para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justia). Mas h passagens bblicas que so inspiradas por si, diretamente, e h outras que s indiretamente so inspiradas. Em outros termos: a mensagem religiosa que Deus quer comunicar diretamente aos homens, tem que aludir a este mundo e s suas diversas criaturas (cu, terra, mar, aves, peixes...); ela o faz, porm, em linguagem familiar pr-cientfica, que costuma ser bem entendida no trato quotidiano. Tambm ns usamos de linguagem familiar, que, aos olhos da cincia, estaria errada, mas que no leva ningum ao erro porque todos entendem que essa linguagem familiar no pretende ensinar matria cientfica. Tenham-se em vista as expresses nascer do sol, pr do sol, Oriente e Ocidente: supem o sistema geocntrico, a terra fixa e o sol girando em torno da terra (ultrapassado), mas no so censuradas como mentirosas, porque, quando as usamos, todos sabem que no intencionamos definir assuntos de astronomia. Assim, quando a Bblia diz que o mundo foi feito em seis dias de vinte e quatro horas, com tarde e manh..., quando diz que a luz foi feita antes do sol e das estrelas, ela no ensina alguma teoria astronmica, mas alude ao mundo em linguagem dos hebreus antigos para dizer que o mundo todo criatura de Deus; Gn 1,1-2,4. A Bblia no poderia transmitir esta mensagem de ordem religiosa sem recorrer a algum linguajar humano, que, no caso, mero veculo ou suporte da mensagem religiosa.

Por conseguinte, todas as pginas da Bblia so inspiradas, qualquer que seja a sua temtica.

Acrescentemos que tambm as palavras da Escritura so inspiradas. A razo disto que os conceitos ou as idias do homem esto sempre ligadas a palavras; no h conceitos, mesmo no expressos pelos lbios, que no estejam, em nossa mente, ligados a palavras. Por isto, quando o Esprito Santo iluminava a mente dos autores sagrados, para que vissem com clareza alguma mensagem, iluminava tambm as palavras com as quais se revestia essa mensagem na mente do hagigrafo. por isto que os prprios autores sagrados fazem questo de realar vocbulos da Bblia; Hb 8,13 Se Deus fala de uma aliana nova que ele declara antiquada a precedente. Ora, o que antiquado e envelhecido est certamente fadado a desaparecer; Mc 12,26-27 Mas quanto ressurreio dos mortos, no lestes no livro de Moiss como Deus lhe falou da sara, dizendo: Eu sou o Deus de Abrao, o Deus de Isaac e o Deus de Jac (Ex 3, 6)? Ele no Deus de mortos, seno de vivos. Portanto, estais muito errados.

Observemos, porm, que somente as palavras das lnguas originais (hebraico, aramaico, grego) foram assim iluminadas. As tradues bblicas no gozam do carisma da inspirao. Por isto, quando desejamos estudar a Bblia, devemos certificar-nos de que estamos usando uma traduo fiel e equivalente aos originais. Alm disto, absolutamente necessrio levarem em conta o gnero literrio do respectivo texto, como se ver abaixo. Gneros literrios

Se a Bblia a Palavra de Deus revestida da linguagem humana, entende-se que ela utiliza os gneros literrios ou os artifcios do linguajar dos homens. Gnero literrio o conjunto de normas de vocabulrio e sintaxe que se usam habitualmente para abordar algum assunto. Assim o assunto leis tem seu gnero literrio prprio (claro e conciso, para que ningum se possa desculpar por no haver entendido a lei); a poesia tem seu gnero literrio antittico ao das leis ( metafrica, reticente, subjetiva...); uma crnica tem seu gnero prprio, que diferente do de uma carta; uma carta comercial diferente de uma carta de famlia, uma fbula diferente de uma pea histrica, etc,

Ora na Bblia temos os gneros literrios dos antigos judeus e gregos. Se cada gnero literrio supe regras prprias de vocabulrio e redao, compreende-se que cada qual tem tambm suas regras de interpretao prprias. No me lcito entender uma poesia (cheia de imagens) como entendo uma lei (que deve ser clara e sem imagens). Uma das principais causas de erros na interpretao da Bblia est em que muitas pessoas querem tomar tudo ao p da letra ou tomar tudo em sentido figurado. Antes da interpretao ou da utilizao de algum livro sagrado, devo certificar-me do respectivo gnero literrio: estou diante de uma poesia?... diante de uma crnica? Crnica de guerra? Crnica de famlia? Crnica de corte real? Por exemplo: Gn 1,1--2,4 poesia ou hino litrgico, e no um relato cientfico. Estou obrigado a no tomar essa seo ao p da letra para no trair o autor ou no lhe atribuir o que ele no queria dizer. Mas Mt 26,17-29 No primeiro dia dos zimos, os discpulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram-lhe: Onde queres que preparemos a ceia pascal?... relato histrico, que tenho de entender ao p da letra para no trair o autor.

No lcito, de antemo ou antes da abordagem criteriosa do texto, definir o respectivo gnero literrio, como quem diz: Eu acho que isto poesia, ou Para mim, isto uma tradio folclrica. Mas preciso que o leitor se informe objetivamente a respeito do gnero literrio do livro que est para ler, a fim de entender o livro segundo os critrios de redao adotados pelo autor. Tal informao pode ser colhida nas introdues que as edies da Bblia apresentam antes de cada livro sagrado. No necessrio que todo leitor da Escritura conhea as lnguas originais e sua variedade de expressionismos, mas basta que leia a Escritura com alguma iniciao, que pode ser facilmente encontrada. Todos compreendero que no se pode ler a Bblia escrita do sculo XIII antes de Cristo at o sculo I depois de Cristo como se leria um jornal de hoje. Veracidade da Bblia

Se a Bblia a Palavra de Deus feita palavra do homem, entende-se que ela deva ser inerrante (sem erro de espcie alguma) ou veraz (portadora da verdade).Mas como se pode sustentar isto, se a Escritura, primeira vista, est cheia de erros? O sol ter parado no seu curso em torno da terra, conforme Js 10,12-14; Is 38,7-8... Nabucodonosor era rei de Nnive, segundo Jt 1,5; Dario ter sido filho de Assuero, conforme Dn 9,1...

Eis a resposta:

1) isento de erro ou veraz tudo aquilo que o hagigrafo como tal afirma;

2) No sentido em que o hagigrafo o entendeu. O autor sagrado pode afirmar algo em seu nome, como pode afirmar em nome de outrem. Por exemplo, em Jo 1,18, o Evangelista afirma que Jesus nos revelou Deus Pai. Mas no salmo 52,1 se l: Deus no existe, Como explicar a contradio? Em Jo 1,18 o autor sagrado como tal quem afirma; a sua afirmao absolutamente verdica; mas no SI 52,1, o salmista apenas afirma que o insensato diz em seu corao: Deus no existe. Quem diz que Deus no existe, no o autor sagrado; este apenas afirma (e afirma com plena veracidade) que o insensato nega a existncia de Deus (o insensato erra ao neg-la; o salmista apenas verifica o fato).No sentido em que o hagigrafo o entendeu. Com outras palavras:...de acordo com o gnero literrio adotado pelo autor bblico. Se este quis usar de metfora, no deverei tom-lo ao p da letra; se quis usar de gnero estritamente narrativo, no deverei entend-lo metaforicamente.Quando Js 10,12-14 diz que Josu mandou parar o sol, o gnero de poesia lrica; h, pois, uma imagem literria, segundo a qual o estacionamento do sol quer dizer escurecimento da atmosfera, clima de tempestade de granizo. Quando os livros de Judite e Daniel parecem errar na cronologia dos reis, esto recorrendo ao gnero do midraxe, que intencionalmente no pretende ser crnica, mas apresenta a histria como veculo de edificao religiosa, Quando Mateus 1,17 diz que de Abrao at Cristo houve 42 geraes (na verdade houve mais do que isto), quer jogar com a simbologia do nmero 42 o que tambm pertence ao gnero midrxico.

V-se, pois, que a Bblia isenta de erro em todas as suas pginas, mesmo quando fala de assuntos no religiosos. Qualquer erro atribudo Bblia, recairia sobre o prprio Deus. Todavia a veracidade ou a mensagem de cada passagem da Bblia dever ser depreendida do respectivo gnero literrio: a poesia tem veracidade diversa da veracidade da lei, ou da veracidade do midraxe. Ademais, notemos que a Bblia s pretende afirmar categoricamente verdades de ordem religiosa. Em assuntos no religiosos, ela no comete erros, mas adapta-se ao modo de falar familiar ou pr-cientfico dos homens que, devidamente entendido, no portador de erro, como atrs foi dito.Diante das dvidas no entendimento da Sagrada Escritura, o cristo rezar com Santo Agostinho: Faze-me ouvir e descobrir como no comeo criaste o cu e a terra. Assim escreveu Moiss, para depois ir embora, sair deste mundo, de Ti para Ti. Agora no posso interrog-lo. Se pudesse, eu o seguraria, implor-lo-ia, esconjur-lo-ia em teu nome para que me explicasse estas palavras,... mas no posso interrog-lo; por isto dirijo-me a Ti, Verdade, Deus meu, de que estava ele possudo quando disse coisas verdadeiras; dirijo-me a Ti: Perdoa meus pecados. E Tu, que concedeste a teu servo enunciar estas coisas verdadeiras, concede tambm a mim compreend-lasO CNON BBLICO

Vimos que Deus quis falar aos homens, dando origem Sagrada Escritura. Perguntamos agora: quantos e quais so os livros sagrados? Qual o seu catlogo?Nomenclatura

Notemos os termos habitualmente utilizados neste estudo:

1) Cnon, do grego kann = regra, medida,catlogo.

2) Cannico = livro catalogado o que implica seja inspirado.

3) Protocannico = livro catalogado prton, isto , em primeiro lugar ou sempre catalogado. 4) Deuterocannico = livro catalogado duteron ou em segunda instncia, posteriormente (aps ter sido controvertido). 5) Apcrifo, do grego apkryphon = livro oculto, isto , no lido nas assemblias pblicas de culto, reservado leitura particular. Em consequncia, livro no cannico ou no catalogado, embora tenha aparncia de livro cannico (Evangelho segundo Tom, Evangelho da Infncia, Assuno de Moiss...).

Os apcrifos, embora tenham sido, durante sculos, tidos como desprezveis portadores de lendas, so ultimamente reconhecidos como valiosos para a histria do Cristianismo, porque 1) atravs de suas afirmaes referem o modo de pensar dos judeus e cristos dos sculos pouco anteriores e pouco posterioes a Cristo (sculo II a.C. at sculo V d.C); 2) podem conter proposies verdadeiras que no foram consignadas pelos autores sagrados (os nomes dos genitores de Maria SS., a Apresentao de Maria no Templo, a Assuno corporal de Maria aps a morte...); O Cnon catlico compreende 46 livros do Antigo Testamento. No Novo Testamento h 27 livros o que perfaz 73 livros sagrados ao todo.Histria do Cnon do Antigo Testamento

As passagens bblicas comearam a ser escritas esporadicamente desde os tempos anteriores a Moiss; de notar que a escrita era uma arte rara e cara na antiguidade. Moiss foi o primeiro codificador das tradies orais e escritas de Israel, no sculo XIII a.C. Essas tradies (leis, narrativas, peas litrgicas) foram sendo acrescidas aos poucos por outros escritos no decorrer dos sculos, sem que os judeus se preocupassem com a catalogao das mesmas. Assim foi-se formando a biblioteca sagrada de Israel.

Todavia, no sculo I da era crist, deu-se um fato importante: comearam a aparecer os livros cristos (cartas de So Paulo, Evangelhos...), que se apresentavam como a continuao dos livros sagrados dos judeus. Estes, porm, no tendo aceito o Cristo, trataram de impedir que se fizesse a aglutinao de livros judeus e livros cristos. Por isto, segundo bons autores modernos, vrios rabinos reuniram-se no snodo de Jmnia ou Jabnes ao Sul da Palestina, por volta do ano 100 d.C., a fim de estabelecer as exigncias que deveriam caracterizar os livros sagrados ou inspirados por Deus. Foram estipulados os seguintes critrios:

1) o livro sagrado no pode ter sido escrito fora da terra de Israel;

2) no em lngua aramaica ou grega, mas somente em hebraico;

3) no depois de Esdras (458-428 a.C); 4) no em contradio com a Tor ou Lei de Moiss. Em consequncia, os judeus da Palestina fecharam o seu cnon sagrado sem reconhecer livros e escritos que no obedeciam a tais critrios. Acontece, porm, que em Alexandria (Egito) havia prspera colnia judaica, que, vivendo em terra estrangeira e falando lngua estrangeira (o grego), no adotou os critrios nacionalistas estipulados pelos judeus de Jmnia. Os judeus de Alexandria chegaram a traduzir os livros sagrados hebraicos para o grego entre 250 e 100 a.C., dando assim origem verso grega dita Alexandrina ou dos Setenta Intrpretes. Essa edio grega bblica encerra livros que os judeus de Jmnia no aceitaram, mas que os de Alexandria liam como Palavra de Deus; assim os livros de Tobias, Judite, Sabedoria, Baruque, Eclesistico (ou Siracides), 1 e 2 Macabeus, alm de Ester 10,4-16,24; Daniel 3,24-90;13-14.Podemos, pois, dizer que havia dois cnones entre os judeus no incio da era crist: o restrito da Palestina, e o amplo de Alexandria.Ora acontece que os Apstolos e Evangelistas, ao escreverem o Novo Testamento em grego, citavam o Antigo Testamento, usando a traduo grega de Alexandria, mesmo quando esta diferia do texto hebraico; tenham-se em vista Mt 1,23 (Is 7,14); Hb 10,5 (Sl 39,7); Hb 10,37-38 (Hab 2,3-4); At 15,16-17 (Am 9,12-12). O texto grego tornou-se a forma comum entre os cristos; em consequncia, o cnon amplo, incluindo os sete livros e os fragmentos citados, passou para o uso dos cristos.Verificamos tambm que nos escritos do Novo Testamento h citaes implcitas dos livros deuterocannicos. Assim, por exemplo, Rm 1,19-32 ( Sb 13,1-9); Rm 13,1(Sb 6,3); Mt 27,43 (Sb 2,13.18). Deve-se, por outro lado, notar que no so (nem implicitamente) citados no Novo Testamento livros que, de resto, todos os cristos tm como cannicos; assim Eclesiastes, Ester, Cntico dos Cnticos, Esdras, Neemias, Abdias, Naum, Rute, Provrbios.Nos mais antigos escritos patrsticos so citados os deuterocannicos como Escritura Sagrada: Clemente Romano (em cerca de 95), na epstola aos Corntios, recorre a Jt, Sb, fragmentos de Dn, Tb e Eclo; o Pastor de Hermas, em 140, faz amplo uso do Eclo e do 2Mac; Hiplito (+235) comenta o livro de Daniel com os fragmentos deuterocannicos; cita como Escritura Sagrada Sb, Br e utiliza Tb, 1 e 2 Mac.Nos sculos II/IV houve dvidas entre os escritores cristos com referncia aos sete livros, pois alguns se valiam da autoridade dos judeus de Jerusalm para hesitar; outros deixavam de lado os deuterocannicos, porque no serviam para o dilogo com os judeus. Finalmente, porm, prevaleceu na Igreja a conscincia de que o cnon do Antigo Testamento deveria ser o de Alexandria, adotado pelos Apstolos; sabemos que, das 350 citaes do Antigo Testamento no Novo, 300 so tiradas da verso dos Setenta. Em consequncia, os Conclios regionais de Hipona (393), Cartago III (397), Cartago IV (419), Trulos (692) definiram sucessivamente o Cnon amplo como sendo o da Igreja. Esta definio foi repetida pelos Conclios ecumnicos de Florena (1442), Trento (1546). Vaticano I (1870).Durante a Idade Mdia pode-se dizer que houve unanimidade entre os cristos a respeito do cnon.No sculo XVI, porm, Martinho Lutero (1483-1546), querendo contestar a Igreja, resolveu adotar o cnon dos judeus da Palestina, deixando de lado os sete livros e os fragmentos deuterocannicos que a Igreja recebera dos judeus de Alexandria. esta a razo pela qual a Bblia dos protestantes no tem sete Iivros e os fragmentos que a Bblia dos catlicos inclui. Para dirimir as dvidas, observamos que os critrios adotados pelos judeus de Jmnia para no reconhecer certos livros sagrados eram critrios nacionalistas; tal nacionalismo decorria do fato de que desde 587 a.C. os judeus estavam sob domnio estrangeiro, que muito os aborrecia; o Esprito Santo quem guia a Igreja de Cristo e fez que, aps o perodo de hesitao (sc. I/IV), os cristos reconhecessem como vlido o cnon amplo.Alis, o prprio Lutero traduziu para o alemo os livros deuterocannicos: na sua edio alem datada de 1534 o catlogo o dos catlicos o que bem mostra que os deuterocannicos eram usuais entre os cristos. No foi o Concilio de Trento que os introduziu no cnon. De resto, as Sociedades Bblicas protestantes at o sc. XIX incluiam os deuterocannicos em suas edies da Bblia. Para os catlicos, os livros deuterocannicos do Antigo Testamento so to valiosos como os protocannicos; so a Palavra de Deus inerrante, que, alis, os prprios judeus da Palestina estimavam e liam como textos edificantes. Por exemplo, os prprios rabinos serviam-se do Eclesistico at o sc. X como Escritura Sagrada; o 1Mac era lido na festa de Encnia, ou da Dedicao do Templo. Baruque era lido em alta voz nas sinagogas do sc. IV d.C., como atestam as Constituies Apostlicas. De Tobias e Judite temos comentrios em aramaico, que atestam como tais livros eram lidos na sinagoga. Histria do Cnon do Novo Testamento

O catlogo dos livros do Novo Testamento tambm foi objeto de dvidas na Igreja antiga, mas hoje unanimemente reconhecido por catlicos e protestantes, Os livros controvertidos e, por isto, chamados deuterocannicos do Novo Testamento so os seguintes: Hb, Ap, Tg, 2Pd, Jd, 2 e 3 Jo. Vejamos o porqu das hesitaes: Hebreus: a carta no indica nem autor nem destinatrios. Os cristos orientais a tinham como paulina, ao passo que os ocidentais no. Entre os latinos, em meados do sc. III, os novacianos rigoristas (que ensinavam haver pecados irremissveis) valiam-se de Hb 6,4-8 para propor sua tese errnea. Por isto, os autores ortodoxos relegaram Hebreus para o esquecimento at a segunda metade do sc. IV, quando Santo Ambrsio e Santo Agostinho a reconsideraram. Hoje todos os cristos a reconhecem como carta cannica (= Palavra de Deus), embora reconheam que no diretamente da autoria de So Paulo.

Apocalipse: nos primeiros sculos discutia-se a autoria joanina deste livro entre os orientais. Tambm ocorria que uma faco dita milenarista apelava para Ap 20,1-15 a fim de afirmar um reino milenar e pacfico de Cristo sobre a terra antes da consumao da histria. Por isto o Apocalipse foi objeto de suspeitas, que cederam ao reconhecimento unnime no sc. IV.Tiago: tambm foi discutida a autoria deste escrito, que, alm do mais, parecia contradizer a So Paulo em Rm e GI: a f sem as obras seria morta (Tg 2,14-24). Prevaleceu, porm, a conscincia de que escrito cannico, perfeitamente concilivel com So Paulo: ao passo que este afirma que a f sem obras (sem mritos do indivduo) basta para entrarmos na amizade com Deus (ningum compra a amizade). So Tiago quer dizer que ningum persevera na graa se no pratica boas obras ou se no vive de acordo com a f.

Judas: tambm foi discutida a autoria desta carta. Ademais cita os apcrifos Assuno de Moiss (v. 9) e Apocalipse de Henoque (v. 14-15) o que a tornou suspeita. Este fato, porm, nada significa, porque So Paulo cita os escritores gregos Epimnides e Aratos, em Tt 1,12 e At 17,18 respectivamente, sem que Tt e At tenham sido excluidos do cnon por causa disto.A 2Pd, as 2 e 3Jo tambm foram controvertidas nos trs primeiros sculos por motivos de pouca monta. A 2Pd aparentemente uma reedio ampliada de Jd; por isto, ter sofrido a sorte deste escrito. As 2 e 3Jo, sendo bilhetes pequenos, de pouco contedo teolgico, nem sempre foram consideradas cannicas.

Como dito, porm, em 393 o Concilio de Hipona definiu o cnon completo da Bblia, incluindo os sete escritos controvertidos ou deuterocannicos do Novo Testamento.A prpria Bblia no define o seu catlogo. Portanto, este s pode ser depreendido mediante a Tradio (= transmisso) oral, que de gerao em gerao foi entregando os livros sagrados ao povo de Deus, indicando-os, ao mesmo tempo, como livros inspirados e, por conseguinte, cannicos. Essa tradio oral viva fala at hoje pelo magistrio da Igreja, que no seno o eco autntico da Tradio oral.

So palavras do Conclio do Vaticano II: Pela Tradio torna-se conhecido Igreja o cnon completo dos livros sagrados. As prprias Sagradas Escrituras so, mediante a Tradio, cada vez mais profundamente compreendidas e se fazem, sem cessar, atuantes. Assim o Deus que outrora falou, mantm um permanente dilogo com a esposa de seu dileto Filho, e o Esprito Santo, pelo qual a voz viva do Evangelho ressoa na Igreja, leva os fiis a toda verdade e faz habitar neles copiosamente a Palavra de Cristo (Dei Verbum n 8). HISTRIA DO TEXTO SAGRADO

A Escrita Bblica

Trs so as lnguas bblicas: 1) o hebraico, no qual foram escritos todos os livros protocannicos do Antigo Testamento; 2) o aramaico, lngua vizinha do hebraico, na qual foram redigidos trechos de livros protocannicos do Antigo Testamento, como Esdr 4,8-6,18; 7,12-26; Dn 2,4-7,28; uma frase em Jr 10,11; alm disto, tambm o original de So Mateus (hoje perdido); 3) o grego, em que foram redigidos os livros do Novo Testamento (de Mt temos uma traduo grega antiga), Sb, 2Mac. Alm disto, os livros e fragmentos deuterocannicos do Antigo Testamento cujos originais se perderam, encontram-se em traduo grega. O conhecimento destas lnguas por parte dos estudiosos de grande importncia, pois cada qual tem seu gnio e suas particularidades, que o bom tradutor deve saber reconhecer. Vejamos algumas peculiaridades das lnguas bblicas: 1) o hebraico era escrito somente com consoantes, sem vogais, at o sculo VIII d.C. Isto quer dizer que o leitor devia mentalmente colocar as vogais entre as consoantes das palavras hebraicas; visto que podia enganar-se, compreende-se que no texto hebraico antigo haja oscilaes, como as haveria em portugus se quisssemos completar com vogais o grupo l m poder-se-ia ler (lama, leme, lume, lima...). Por exemplo, q r em hebraico pode ser lido como qaran (= brilhar) e qeren (= chifre); por isto Moiss, que tinha o rosto a brilhar (qaran). Mais: o hebraico era pobre em vocabulrio, de modo que, por exemplo, a mesma palavra ah podia significar irmo e primo (Mc 6,3); bekor podia significar primognito e bem-amado (Lc 2,7). Alm disto, note-se que o hebraico no tinha termos de comparativo e de superlativo; escrevia os nmeros usando consoantes; no separava as palavras entre si costumes estes que viriam a ser fontes de numerosos erros na transmisso do texto sagrado.2) O aramaico, muito semelhante ao hebraico, tornou-se lngua internacional, adotada pelo povo judeu a partir do sculo V a.C. Foi a lngua falada por Jesus Cristo.3) O grego era lngua de um povo inteligente. Na Bblia aparece impregnado de semitismos (vocbulos e construes hebraicas e aramaicas), pois foi utilizado por escritores hebreus.

Os manuscritos da Bblia mais antigos apresentam muitas letras trocadas (eram semelhantes umas s outras), muitas palavras escritas abreviadamente, falta de pontuao o que dificultou a transmisso do texto sagrado por meio dos copistas da antiguidade.A atual diviso do texto em captulos deve-se a Estvo Langton (sc. XIII d.C.), os captulos do Novo Testamento foram divididos em versculos por Roberto Estvo, tipgrafo francs, em 1551.O material utilizado para escrever era papiro (junco cortado em tiras) ou pergaminho (couro de animais). Este material era caro e raro, de modo que pouco se escrevia na antiguidade; o ensinamento era feito por via oral mediante recursos mnemotcnicos, que procuravam dar cadncia frase, para que se gravasse melhor na memria; nos livros bblicos encontram-se ecos escritos desse cadenciamento. Dada a fragilidade do papiro e do pergaminho, entende-se que no se tenha conservado nenhum dos autgrafos (textos sados das mos dos autores sagrados) da Bblia. Todavia, se os autgrafos se perderam e s temos cpias dos mesmos, podemos crer que se tenha conservado o teor original da Bblia? o que veremos a seguir.

Histria do texto hebraico do Antigo Testamento

Sabe-se que nos sculos anteriores a Cristo o texto hebraico do Antigo Testamento oscilava multo. Isto se compreende bem desde que se tenha em vista a maneira como se escrevia antigamente: falta de vogais, ocasies mltiplas de confundir letras e nmeros...Todavia a partir dos sculos I/IV d . C. a difuso dos escritos cristos (Evangelhos, epistolas...) obrigou os judeus a cuidar da forma do texto bblico; os cristos argumentavam a favor de Cristo utilizando passagens do Antigo Testamento. Julga-se que no sculo II d . C. j havia quase um texto oficial do Antigo Testamento entre Judeus.

Quanto aos manuscritos, notemos que at 1948 no possuiamos cpias do texto hebraico anteriores aos sculos IX/X depois de Cristo. Naquela data, porm, foram descobertos os manuscritos de Qumran (stio arqueolgico localizado na margem noroeste do Mar Morto, a 12 km de Jeric, a cerca de 22 quilmetros a leste de Jerusalm na costa do Mar Morto, em Israel), que datam dos sculos I a.C. e I d.C. Foi possvel assim recuar mil anos na histria da tradio manuscrita; verificou-se ento que h identidade entre os manuscritos medievais e aqueles de Qumran o que quer dizer que o texto se foi transmitindo fielmente atravs dos sculos. Hoje em dia existem edies crticas do texto hebraico do Antigo Testamento, que permitem ao estudioso confrontar entre si as fontes do texto e certificar-se de que est lidando com a face autntica do texto do Antigo Testamento. A histria do texto grego do Novo Testamento

Existem hoje mais de cinco mil cpias manuscritas do Novo Testamento datadas dos dez primeiros sculos. Algumas so papiros, que remontam aos sculos II/III. O mais antigo de todos o papiro de Rylands, conservado em Manchester (lnglaterra); data do ano120 aproximadamente e contm os versculos de Jo 18,31-33.37.38; se consideramos que o Evangelho segundo Joo foi escrito por volta do ano 100, verificamos que dele temos um manuscrito que , por assim dizer, cpia do autgrafo.

A multido de cpias do Novo Testamento, apresenta, sem dvida, numerosas variantes na transmisso do texto: cerca do 200.000.

Os manuscritos do Novo (e tambm do Antigo) Testamento encontram-se atualmente em diversas bibliotecas de Paris, Londres, Berlim, Moscou, Madri, Vaticano...; podem ser consultados por qualquer pesquisador. Os manuscritos bblicos so patrimnio da humanidade e no pertencem apenas Igreja Catlica.

As tradues dos LXX e da VulgataQuem utiliza uma boa edio brasileira da Bblia, encontra nela referncias s tradues dos LXX e da Vulgata. Da a necessidade de abordarmos tambm estes termos.

Os LXX

Os judeus se estabeleceram na cidade de Alexandria (Egito) nos sculos IV/III a.C., l constituindo prspera colnia. Adotaram a lngua grega, de modo que tiveram a necessidade de traduzir a Bblia do hebraico para o grego o que foi feito devagar entre 250 e 100 a. C. Chama-se esta a traduo alexandrina da Bblia. Diz-se que esta traduo teve origem milagrosa, a saber: o rei Ptolomeu II (285-247) a. C. querendo possuir na sua biblioteca um exemplar grego dos livros sagrados dos judeus, ter pedido ao sumo sacerdote Elezaro de Jerusalm os tradutores respectivos. Elezaro ter enviado seis sbios de cada uma das doze tribos de Israel (portanto 72 sbios) para Alexandria; estes tero sido encerrados em 72 cubculos isolados e, no obstante, havero produzido o mesmo texto grego do Antigo Testamento o que s podia ser milagre. Esta verso, hoje bem reconhecida como tal, faz que a traduo alexandrina fosse tambm chamada dos Setenta Intrpretes. importante, porque nos refere o modo como os judeus liam a Bblia nos sculos III/II a. C.

A Vulgata

Entre os cristos do Ocidente, havia no sculo IV tantas tradues latinas da Bblia que os leitores se viam confusos a respeito. Foi por isto que o Papa So Dmaso (366-384) pediu a So Jernimo fizesse uma reviso dessas tradues.So Jernimo revisou o texto grego do Novo Testamento e traduziu o hebraico do Antigo Testamento, dando Igreja um texto latino que logo se propagou e foi chamado Vulgata latina (forma di-vulgada latina). A Vulgata de So Jernimo gozou de grande autoridade at o Conclio do Vaticano II hoje em dia existe a Neo-Vulgata, traduo latina dos originais realizada com mais recursos lingusticos e arqueolgicos do que a Vulgata de So Jernimo.INTERPRETAO DO TEXTO

Livro humano e divino

Nas lies sobre a inspirao bblica dizia-se que a Sagrada Escritura , toda ela, Palavra de Deus feita palavra do homem. Disto se segue uma verdade muito importante: para entender a Escritura, duas etapas so necessrias: o reconhecimento da sua face humana, para que, depois, possa haver a percepo da sua mensagem divina. impossvel penetrarmos no contedo salvfico da Palavra bblica se no nos aplicamos primeiramente anlise da roupagem humana de que ela se reveste. Isto quer dizer: no se pode abordar a Sagrada Escritura somente em nome da mstica, procurando a proposies religiosas pr-concebidas; preciso um pouco de preparo ou de iniciao humana para perceber o sentido religioso da Bblia. Doutro lado, no se podem utilizar apenas os critrios cientfcos (lingusticos, arqueolgicos...) para entender a Bblia; necessrio, depois do exame cientfco do texto, que o leitor procure o significado teolgico do mesmo.

Examinemos mais detidamente cada qual das duas etapas acima assinaladas.Livro humano

1. A Bblia no um livro cado do cu, mas um livro que passou por mentes humanas de judeus e gregos existentes numa faixa de tempo que vai do sc. XIV a.C.ao sculo I d.C. Por conseguinte, o primeiro cuidado do bom intrprete o de tomar conhecimento da face humana da Bblia mediante recursos cientficos, a fim de poder averiguar o que os autores bblicos queriam dizer mediante as suas expresses.Isto no quer dizer que todo leitor da Bblia deva ser um intelectual, perito em lnguas, histria e geografia do Oriente, mas significa que - necessrio usar uma traduo verncula feita a partir dos originais segundo bons critrios cientficos;

- preciso que o leitor procure uma iniciao no livro que est para ler, a fim de conhecer o gnero literrio, as expresses caractersticas, a finalidade, o fundo de cena de tal livro. Podem bastar-as pginas introdutrias que as boas edies da Bblia trazem; s vezes, porm, requer-se um livro ou um curso de Introduo na Bblia (h livros e cursos de diversos graus, para as diversas exigncias do pblico);- preciso ter certo senso crtico diante das mltiplas interpretaes da Bblia que circulam. Com efeito; faz-se necessrio perguntar sempre: tm fundamento no texto original da Sagrada Escritura? Ou so a expresso de teses do intrprete que no so as teses do autor sagrado?Demos alguns exemplos:1) Em Ap 13,18 l-se que o nmero da besta 666. Isto quer dizer que o leitor tem que procurar um nome de homem cujas letras (dotadas de valor numrico) perfaam o total de 666. Tal procura tem que ser efetuada no ambiente histrico e geogrfico de So Joo e dos primeiros leitores do Apocalipse; teremos que indagar na sia Menor e no sculo I da era crist que personagem poderia ser esse. A concluso mais provvel que se trata do Imperador Nero (54-68), primeiro perseguidor da Igreja, cujos feitos malvados os cristos ainda estavam experimentando no fim do sculo I; So Joo deve ter intencionado revelar discretamente esse nome aos seus leitores, a fim de lhes dizer que o perseguidor pereceria. Por conseguinte, despropositado dizer que o Papa a besta do Apocalipse, porque (assim afirmam sem fundamento) traz na cabea a inscrio VICARIUS FILII DEI; So Joo e os primeiros leitores do Apocalipse no sabiam latim, que ainda era uma lngua ocidental quando tal livro foi escrito; no adiantaria aos leitores propor-lhes um nome que eles no pudessem perceber atravs da linguagem cifrada de Ap 13,18. Outro exemplo: quando as tradues vernculas falam de irmos de Jesus, no usam esta expresso no sentido moderno, mas no sentido semita de parente, familiar. A Bblia est cheia de exemplos do uso de irmo (ah) para designar tio e sobrinho (Gn 13,8; 29,15), primos (1Cr 23,21-22), familiares (Lv 10,4; 2Sm 19,12-113).Ainda mais: quando as tradues vernculas da Bblia falam de sbado, tm em vista no o que ns entendemos em portugus por sbado, mas o que os hebreus entendiam por shabat e sheb = stimo (dia) e repouso. Em consequncia, os cristos, no seu servio a Deus, no tm a obrigao de ficar presos ao dia que o portugus chama sbado, e o ingls chama saturday (dia de saturno), mas compreenda que observar o sbado observar todo stimo dia mediante repouso sagrado.2) A partir de quanto foi dito, tambm se compreende que a interpretao de certos textos da Bblia tenha mudado nos ltimos decnios. Neste perodo, sim, foram descobertos alfabetos, peas literrias e monumentos arqueolgicos de povos orientais vizinhos do povo judeu. Foi possvel, ento, recolocar melhor a Bblia no seu ambiente originrio, de modo a compreender mais autenticamente as suas expresses; a interpretao da decorrente , por vezes, diferente da clssica, mas a interpretao certa. Tenha-se em vista o caso de Gn 1,1-2,4a: hoje entendido como hino da liturgia judaica que tencionava incutir muito calorosamente o preceito do repouso no stimo dia, dando-lhe por fundamento imaginrio o comportamento do prprio Deus, que teria criado tudo em seis dias e descansado no stimo; intencionava tambm relacionar todas as criaturas com Deus, sem entrar em questes modernas de evolucionismo e fixismo. As novas interpretaes no alteram o Credo, mas referem-se a pontos que nunca foram tidos como objeto de f na Igreja e por isto so sujeitos a reviso desde que haja motivos plausveis para isto.Livro divino

Uma vez entendido o texto bblico com o instrumental das cincias humanas que permitem compreender o que o autor sagrado queria significar, faz-se mister procurar a mensagem teolgica do respectivo texto. Como dito, a mensagem bblica , antes do mais, religiosa.Para perceber essa mensagem teolgica, dever o intrprete levar em considerao a analogia da f (Rm 12,6 Temos dons diferentes, conforme a graa que nos foi conferida. Aquele que tem o dom da profecia, exera-o conforme a f), ou o conjunto das verdades da f, de modo a nunca atribuir ao texto sagrado uma interpretao destoante das verdades da f, mas, ao contrrio, entend-lo segundo as demais proposies da f. Por exemplo, as palavras de Jesus o Pai maior do que eu (Jo 14,28) no podero ser entendidas como se Jesus fosse simplesmente inferior ao Pai, em desacordo com a f, que diz ser Jesus consubstancial ao Pai ou uma s substncia com o Pai (Jo 14,10-11; Jo 10,30); ser preciso reconhecer que Jesus, como Deus, igual ao Pai, mas, como homem, -lhe inferior.

A analogia da f leva-nos a pensar na Igreja e no seu magistrio. A Palavra de Deus escrita no pode ser entendida plenamente seno em consonncia com a Palavra de Deus oral, que anterior escrita e que continua a ressoar viva dentro da Igreja atravs do magistrio desta. a Igreja, em ltima anlise, quem nos entrega as Escrituras e nos orienta na interpretao autntica das mesmas. Quem assim pensa, evita o subjetivismo arbitrrio (eu acho que..., parece-me que...), subjetivismo ilusrio, no qual incorre quem queira praticar a interpretao da Bblia segundo critrios pessoais (por mais bem intencionados que sejam). O magistrio da Igreja no est acima da Escritura, nem um canal prprio pelo qual Deus revelaria novas verdades aos homens, mas simplesmente a expresso genuna da Tradio oral, que berou a Tradio escrita (Bblia) e que jamais poder ser separada desta. Tipo e acomodao

Na Escritura, Deus nos fala no somente por palavras, mas tambm por pessoas, coisas e fatos, que so imagens ou tipos de realidades futuras. Assim ele quis fazer do primeiro Ado um esboo ou urna figura (tipo) do segundo Ado, Jesus Cristo, conforme Rm 5,14 No entanto, desde Ado at Moiss reinou a morte, mesmo sobre aqueles que no pecaram imitao da transgresso de Ado (o qual figura do que havia de vir); o primeiro Ado, qual homem compendioso, recapitula toda a humanidade, como Jesus Cristo a recapitula. Melquisedec (Gn 14,17-20) tambm figura de Cristo, conforme Hb 7,1-25; o cordeiro de Pscoa (Ex 12,1-14) figura de Cristo, conforme 1Cor 5,7; a serpente de bronze igualmente, segundo Jo 3,14-15; Nm 21,4-9. Quando as Escrituras do Novo Testamento apontam trechos do Antigo Testamento como portadores de figuras, diz-se que tais textos tm sentido tpico. Outra coisa a acomodao de textos bblicos, que ocorre frequentemente na prtica dos cristos. Imaginemos que a Sagrada Escritura nos apresente determinado sujeito (S) com algum predicado (P): A sabedoria (S) a rne do belo amor, do temor, do conhecimento e da esperana (Eclo 24,24). Ora o leitor v, no seu mundo cristo, um sujeito (S1) semelhante ao sujeito bblico (S), ao qual podem convir os predicados atribudos pela Bblia a S; ento faz a acomodao ou a adaptao de tais predicados a S1. Se, por exemplo, me parece que Maria, por ser a sede da Sabedoria Divina, pode ser dita tambm Me do belo amor. . . e da esperana, fao a acomodao do Eclo 24,24 a Maria. Os prprios autores bblicos fizeram tais acomodaes; por exemplo, So Paulo em Rm 10,15.18 E como pregaro, se no forem enviados, como est escrito: Quo formosos so os ps daqueles que anunciam as boas novas (Is 52,7) Pergunto, agora: Acaso no ouviram? Claro que sim! Por toda a terra correu a sua voz, e at os confins do mundo foram as suas palavras (Sl 18,5) faz a acomodao, aos Apstolos, de textos que no visavam diretamente aos Apstolos (Is 52,7 e Sl 18,5).

Os cristos costumam fazer acomodao ou adaptao de textos bblicos aos fatos da sua vida cotidiana. Tal procedimento pode ser vlido, se de fato h semelhana entre o sujeito bblico e o sujeito no bblico (entre Jeremias desolado, por exemplo, em Jr 15,18 Por que no tem fim a minha dor, e no cicatriza a minha chaga, rebelde ao tratamento? Ai! Sereis para mim qual riacho enganador, fonte de gua com que no se pode contar?, e o cristo perseguido); mas ser condenvel, se servir para brincadeiras ou aplicaes irreverentes da Bblia (como s vezes ocorrem nos cartazes de publicidade, no rdio e na televiso).

INTRODUO AOS EVANGELHOS

Generalidades

1. A palavra Evangelho vem do grego evanglion, o que significa Boa Noticia.

Entre os cristos, este vocbulo passou a designar a mensagem de Jesus Cristo, aquilo que Jesus fez e disse (At 1,1 Em minha primeira narrao, Tefilo, contei toda a seqncia das aes e dos ensinamentos de Jesus). Da fez-se a expresso Evangelho de Cristo, que significa o Evangelho pregado por Jesus Cristo e a mensagem que Ele nos trouxe da parte do Pai.

O Evangelho, segundo a linguagem do Novo Testamento, mais do que uma doutrina; fora renovadora do mundo e do homem; produz uma nova criao, como se deduz das palavras de Jesus: Ide e contai a Joo o, que ouvistes e vistes: os cegos vem, os coxos andam, os leprosos so curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres so evangellzados (Mt 11,4-6). O membro final da frase os pobres so evangelizados resume os antecedentes: o Evangelho, levado a todos os carentes, implica a instaurao de nova ordem de coisas; o homem ferido pelo pecado redimido deste e das consequncias deste, das quais a mais grave a morte (ver penItimo membro da frase citada).

2. A Igreja reconhece quatro narraes do Evangelho ou quatro Evangelhos cannicos: os de Mateus, Marcos, Lucas e Joo. Destes, os trs primeiros so chamados sinticos porque podem ser lidos em sinopse ou em trs colunas paralelas; o quarto Evangelho segue roteiro assaz, diferente do dos anteriores. .

Existem tambm Evangelhos apcrifos (de Tom, Tiago, Nicodemos...) que a conscincia crist no reconheceu como Palavra de Deus; contm traos de histrias e verdade, ao lado de sees fantasiosas e herticas. Quem compara o texto dos apcrifos com o dos Evangelhos cannicos, verifica que aqueles so exuberantes, tendentes a mostrar um Jesus maravilhoso, ao passo que os Evangelhos cannicos so muito sbrios; no precisam de ornamentar a figura de Jesus, porque o sabem aceito por seus leitores.3. Os Evangelhos so simbolizados pelos animais descritos em Ez 1,10 e Ap 4,6-8: o leo (Mc) o touro (Lc), o homem (Mt), a guia (Jo). A tradio crist adaptou esses smbolos aos autores sagrados !evando em conta o incio do cada Evangelho: visto que Mateus comea apresentando a genealogia de Jesus, simbolizado pelo homem; Marcos tem incio com Joo Batista no deserto. Deserto que tido como morada do leo; Lucas se abre com Zacaras a sacrificar no templo; por isto simbolizado pelo vitelo, vtima do sacrifcio; Joo comea apresentando o Verbo preexistente que se fez carne, semelhana de urna guia qua voa muito alto para, depois, dar o bote na terra. Esta atribuio de smbolos aos evangelistas no se deve, aos autores de Ez e do Ap, mas obra de escritores cristos dos sculos II/IV.

De Jesus ao texto dos Evangelhos Sabemos que Jesus pregou entre 27 e 30 sem nada deixar por escrito. Tambm no mandou os Apstolos escreverem; consequentemente, o Evangelho foi primeiramente anunciado de viva voz, e s aos poucos consignado por escrito. H, pois, um intervalo de 20, 30 ou mais anos entre Jesus e o texto definitivo dos Evangelhos. Depois de muito estudar o texto sagrado e a histria da Igreja nascente, os bons autores (e, com eles, a Igreja na sua Instruo Sancta Mater Ecclesia, de 21/04/1964) admitem trs etapas nesse perodo de tempo:1) De Jesus aos Apstolos. Jesus pregava a Boa-Nova utilizando recursos de linguagem dos rabinos, como so as parbolas. Antes de Pscoa, a compreenso dos ouvintes era lenta; mas depois de Pscoa-Pentecostes, os Apstolos, guiados pelo Esprito Santo, penetraram profundamente na mensagem do Senhor. 2) Dos Apstolos s comunidades crists antigas. A mensagem de Jesus foi levada de Jerusalm (aps Pentecostes) para a Samaria, a Galilia, a Sria, a sia Menor, a Grcia, Roma... O ncleo da pregao era sempre a vitria de Jesus sobre o pecado e a morte obtida na Pscoa: a este ncleo se acrescentavam as narraes de milagres (para comprovar o poder de Jesus), de parbolas (para manifestar a doutrina de Jesus sob forma de catequese), de disputas com os fariseus, de profecias, etc. A pregao devia adaptar-se aos diversos ambientes nos quais ela se realizava, a fim de tornar-se viva e signifcativa ou ter seu (lugar na vida dos ouvintes). Isto no quer dizer que a doutrina ia sendo deturpada. No; os Apstolos eram muito ciosos da fidelidade a Jesus e ao passado; no queriam ser seno testemunhas (At 1,8.22; 2,32; 3,15; 5,32; 10,29.41; 13,31; 20,24...); sempre que alguma inovao estranha se quisesse introduzir na mensagem, condenavam-na (Gl 1,8-9; 2Ts 2,1-2; 1Tm 4,1-3; Tt 2,1.8). Ademais sabemos que o Senhor no abandonou sua mensagem ao bel-prazer dos homens, mas acompanhou-a enviando o Esprito Santo Igreja para que orientasse os Apstolos na fiel pregao do Evangelho. Este se foi desabrochando homogeneamente, mostrando suas consequncias na vida dos fis, como a semente se abre homogeneamente, passando a ser grande rvore, cujas virtualidades so as da prpria semente.

Ao propagar-se, a mensagem foi tomando formas literrias diversas, como a da catequese sistemtica, a da orao litrgca, a da apologtica (destinada a provar a Divindade e a Messianidade de Jesus), a da controvrsia (destinada a desfazer dvidas dos ouvintes). medida que iam pregando o Evangelho, os Apstolos experimentaram a necessidade de consignar por escrito ao menos algumas partes do mesmo, a fim de facilitar a aprendizagem dos discpulos. Como a arte de escrever fosse rara e difcil na antiguidade, a escrita era espordica: escreviam-se sries de parbolas, de milagres, de profecias, de ensinamentos, as narrativas da Paixo e Ressurreio... com fins estritamente didticos, ou seja, para promover a transmisso das verdades da f. 3) Das comunidades crists aos Evangelistas. Aos poucos, os cristos perceberam a vantagem de compilar num s todo sistemtico esses fragmentos da pregao evanglica. Esta tarefa foi empreendida por diversos discpulos, como atestava So Lucas entre 70 e 80: Muitos se propuseram escrever uma narrao dos fatos que ocorreram entre ns como n-los transmitiram os que deles foram testemunhas oculares desde o comeo e, depois, se tornaram ministros da Palavra (Lc 1,1-2).Das diversas compilaes assim feitas, quatro foram reconhecidas pela Igreja como cannicas, ou seja, como autntica Palavra de Deus: as de Mateus, Marcos, Lucas e Joo. Os trs primeiros esto em dependncia entre si, de acordo com o seguinte esquema:Mt aramaico 50

Mc grego 55/70

Lc grego 75

Mt grego 80

Joo grego 100 As datas acima so aproximadas, mas muito provveis. A primeira redao do Evangelho deu-se por obra de Mateus na terra de Israel e, por isto, em aramaico. Esta redao serviu de modelo para Marcos e Lucas, que utilizaram o esquema de Mateus, acrescentando-lhe caractersticas pessoais. O texto de Mateus foi traduzido para o grego, visto que o aramaico entrou em desuso quando Jerusalm caiu em 70; o tradutor, desconhecido a ns, retocou e ampliou o texto aramaico servindo-se de Marcos. Isto quer dizer que o texto grego de Mateus (nico existente, porque o aramaico se perdeu) , segundo alguns aspectos, o mais arcaico, e, segundo outros aspectos, o mais recente dentre os sinticos. A fidelidade histrica dos Evangelho

Muito se tem perguntado se os Evangelhos, resultantes de tal processo, so o eco fiel da verdade histrica. H quem diga que, ao passar de instncia a instncia antes de ser redigida de modo definitivo, a mensagem foi deturpada.1) A mensagem de Jesus Cristo no se propagou a esmo ou sem o acompanhamento dos Apstolos. Lembremo-nos, por exemplo, de que quando os apstolos souberam em Jerusalm que a Samaria tinha recebido a palavra de Deus, enviaram Pedro e Joo para l (At 8,14), afim de formar a comunidade respectiva. Pedro viajava por toda a parte na terra de lsrael, a fim de atender s necessidades dos cristos (At 9,32). Paulo mantinha intercmbio com as comunidades da sia Menor, da Grcia e de Roma, recebendo rnensageiros e enviando cartas s mesmas. O mesmo se diga a respeito de outros apstolos cujos escritos atestam o zelo pela conservao ntegra da doutrina de Jesus Cristo: S. Mateus, S. Joo, S. Judas, S. Tiago... Vejam-se tambm At 11,27-29; 15,2; 18,22; 1Cor 16,3; 2Cor 8,14, textos que mostram o contato constante das novas comunidades com a Igreja me de Jerusalm.2) Os Apstolos tinham conscincia de lidar com uma tradio santa e intocvel. Por isto, dizia S. Paulo aos corntios a propsito da ressurreio e da Eucaristia: Eu vos transmiti aquilo que eu mesmo recebi (1Cor 15,3; 11,23). O Evangelho que ele pregava aos gentios, fora autenticado pelos grandes Apstolos de Jerusalm (Gl 2,7-9 Ao contrrio, viram que a evangelizao dos incircuncisos me era confiada, como a dos circuncisos a Pedro (porque aquele cuja ao fez de Pedro o apstolo dos circuncisos, fez tambm de mim o dos pagos). Tiago, Cefas e Joo, que so considerados as colunas, reconhecendo a graa que me foi dada, deram as mos a mim e a Barnab em sinal de pleno acordo). Em consequncia, os tessalonicenses erarm exortados a manter a tradio recebida e a afastar-se de quem no a seguisse (2Ts 2,15; 3,6). Insiste So Paulo: 1Ts 2,13; GI 1,11-12; Cl 2, 6-8). Antes de morrer, o Apstolo recomenda a Timteo transmita o depsito santo a homens de confiana que sejam capazes de o passar a outros: cf. 2Tm 2;2. dever fundamental dos ministros de Cristo que sejam fiis; 1Cor 4,1-2; 7,25; 1Ts 2,4.

3) No h dvida, na Igreja nascente houve tentativas de deteriorar a mensagem evanglica. So Paulo se refere a fbulas, erros herticos, que ele compreendia sob a palavra grega mytoi, mitos; e cuidou fortemente de que tais mitos no se mesclassem com a autntica doutrina de Cristo chamada lgos, Rm 10,8; Tg 1,22-23; a palavra da salvao, At 13,26; da verdade, 2Tm 2,15; de Deus, 1T 2,13; 2Tm 2,9; Tt 2,5; da vida, 1Jo 1,1. Observemos como So Paulo tem conscincia de que mitos no fazem parte da mensagem evanglica e, por isto, devem ser banidos da pregao: 1Tm 1,4; 4,7; 2Tm 4,4;Tt 1,14; 2Pd 1,16. Donde se v que no se deve admitir tenha sido a mensagem crist penetrada por mitos e confundida com eles. 4) Os muitos erros e desvios ocorridos na pregao da mensagem crist dos primeiros sculos foram recolhidos na chamada literatura apcrifa, cujo estilo evidentemente imaginoso e fictcio. A Igreja teve a assistncia do Esprito Santo para discernir claramente o autntico e o no autntico na caudal de doutrinas propostas aos cristos dos primeiros decnios.5) Os mitos todos tm estilo vago, do ponto de vista da cronologia e da topografia; no podem propor quadro geogrfico e histrico preciso; o que os isenta de controle. Ora, d-se o contrrio nos Evangelhos: como se ver, a topografia da Palestina por estes minuciosamente mencionada; tambm a cronologia assaz exata, como se depreende das menes de Csar Augusto (Lc 2,1), Tibrio Csar, Pncio Pilatos, Herodes, Filipe, Lisnias... (Lc 3,1-2). 6) Nenhum criador de mitos teria inventado o mito do Evangelho, cujos traos so desafiadores e exigentes para a mente humana: a mensagem de Deus feito homem e, mais, crucificado era escndalo para os judeus e loucura para os gregos (1Cor 1,23); a promessa de ressurreio era contrria ao pensamento grego; a moral crist, que valorizava a mulher, a criana mesmo indesejada, a famlia, o trabalho manual, o escravo, a estrita monogamia... s podia encontrar oposio da parte da filosofia greco-romana.Donde se v que a mensagem do Evangelho de origem divina e no pode ter sido produto do ficcionismo de judeus ou de pagos da antiguidade.Estes dados sumrios nos preparam para entrar no estudo de cada Evangelho em particular.EVANGELHO SEGUNDO MATEUS

Mateus, autor do 1 Evangelho

1. Mateus, tambm dito Levi, era publicano ou cobrador de impostos. Chamado por Jesus, logo deixou tudo; Mt 9,9-13; Mc 2,14-17; Lc 5,27-32. Nada mais nos dizem os Evangelhos sobre Mateus. Afirmam outras fontes que, aps a Ascenso de Jesus, se dedicou ao apostolado entre os judeus; depois, ter pregado aos pagos da Etipia, onde deve ter morrido mrtir. 2. A tradio atribui a Mateus a redao do primeiro Evangelho. Tenha-se em vista o mais antigo testemunho, que o de Ppias, bispo na Frgia, datado de 130 aproximadamente: Mateus, por sua parte, ps em ordem os logia (dizeres) na lngua hebraica, e cada um depois os traduziu (ou interpretou) como pde.Neste texto Ppias designa o primeiro Evangelho como dizeres, logia, visto que realmente nesse livro chamam a ateno os discursos de Jesus, dispostos de maneira ordenada ou sistemtica. Este Evangelho, escrito em lngua aramaia, foi logo por diversos pregadores traduzido para o grego. Mateus escreveu no prprio pas de Jesus, tendo em vista leitores cristos convertidos do judasmo. S. lrineu (+ 200 aproximadamente) tambm testemunha: Mateus comps o Evangelho para os hebreus na sua lngua, enquanto Pedro e Paulo em Roma pregavam o Evangelho e fundavam a IgrejaOutros testemunhos poderiam ser citados. Procuremos, porm, no primeiro Evangelho indcios da personalidade, do seu autor: Que diz o texto? a) Observemos o catlogo dos apstolos como se acha em Mc 3,16-19; Lc 6,14-16 e Mt 10,2-4. Verificaremos que os nomes se dispem em pares; ora, no quarto par, Mateus vem antes de Tom, conforme Mc e Lc; mas vem depois de Tom, segundo Mt. Note-se ainda que somente em Mt o apstolo mencionado com o aposto cobrador de impostos ou publicano, o que era pouco honroso para um judeu. Quem ter tratado Mateus dessa maneira se no o prprio Mateus? Em Mt 22,19, ao narar a disputa de Jesus com os fariseus a propsito do tributo a ser pago a Csar, Mt usa termos tcnicos em grego, que Mc e Lc no utilizam. Mt o nico a narrar o episdio do imposto, em Mt 17,24-27, o que demonstra o interesse do autor pelos tributos.Em concluso, compreende-se que, se havia no grupo dos Apstolos um homem, e um s, habituado arte de escrever; caIcuIar e dispor dados, este tenha sido o primeiro indicado (talvez mesmo pelos outros Apstolos) para redigir um resumo da catequese pregada pelos Apstolos. Os outros estavam acostumados pesca: tinham as mos mais adaptadas s redes, aos remos e ao barco do que ao estilete e ao pergaminho.Mt, Evangelho para os judeus1. So Mateus escreveu para os judeus convertidos ao Cristianismo, querendo mostrar-lhes que Jesus realmente o Messias que cumpriu as profecias. Esta destinao de Mt se percebe claramente atravs de um exame do texto respectivo:a) O autor supe que seus leitores conheam exatamente a lngua aramaica, os costumes dos judeus e a geografia da Palestina, de modo que alude a esses elementos sem acrescentar alguma explicao. Ao contrrio, Marcos e Lucas, que escreveram para no judeus, tiveram o cuidado de acrescentar a esses dados o necessrio esclarecimento. Vejamos, por exemplo,Mt 15,1-2 e Mc 7,1-5. Ao falar das purificaes dos judeus, Marcos abre longo parnteses para indicar o que isso significa;Mt 27,62 e Mc 15,42. Marcos explica o que quer dizer Preparao, vocbulo tcnico do ritual judaico; Lc 8,26 localiza a regio dos gerasenos, qual Mt 8,28 alude brevemente.b) Alm disto, Mt emprega grande nmero de semitismos ou expresses prprias do judasmo, que um no-judeu no entenderia: Reino dos Cus (= Reino de Deus), Cidade Santa (= Jerusalm), Casa de Israel (= povo judeu), consumao do sculo (= fim do mundo), Filho de Davi (= Jesus).Em consequncia, Mt , dentre os evangelistas, o que mais nos aproxima do sabor primitivo dos sermes de Jesus. O sermo da montanha (Mt 5-7), por exemplo, uma pea na qual ressoa vivamente o linguajar semita de Jesus; tenhamos em vista o esquema dentro do qual encaixado o ensinamento sobre a esmola, a orao e o jejum: Mt 6,1-18; temos a frmulas que voltam constantemente para ajudar a recitao de cor, muito caracterstica das escolas judaicas e crists antigas:No faais como os hipcritas... .

Quanto a ti, quando deres esmola (orares ou jejuares), faze assim.

E teu Pai, que v s ocultas, te recompensar.

2. Escrevendo na Palestina para judeus convertidos, Mateus deve ter redigido seu Evangelho por volta do ano 50. Este livro ter gozado de grande autoridade, pois continha a catequese oficial dos Apstolos. Mas o fato de estar redigido em aramaico criava obstculo sua difuso; sim, o aramaico s era falado pelos judeus da Palestina; fora deste pas, a lngua comum era o grego. Por isto os pregadores iam traduzindo para o grego trechos ou a obra inteira de Mt, todavia nem todos com a devida competncia. Para evitar a desfigurao do texto de Mt, a Igreja deu preferncia a uma das tradues, que se tornou oficial e a forma cannica do texto. Quanto s demais tradues, perderam-se. O mesmo aconteceu com o texto original aramaico o que bem se compreende: em 70, Jerusalm foi destruda e os judeus se viram dispersos para fora da Palestina, onde aos poucos passaram a falar o grego; em consequncia, deixou de ser utilizado o texto aramaico de Mt, que assim veio a desaparecer. No se pode indicar o nome do tradutor grego de Mt aramaico. Trabalhou por volta de 80 e certamente fez mais do que traduzir; procurou tornar o texto sagrado ainda mais til catequese. O fato de que a autoridade da Igreja adotou esse texto retocado fornece-nos a garantia de que a traduo substancialmente idntica ao original. Alis, os judeus reconheciam aos tradutores o direito de retocar os originais de acordo com a mente do autor; foi o que se deu tambm com o texto do Eclesistico (escrito em aramaico e traduzido para o grego por volta de 130 a.C.).A mensagem de Mt

Os quatro evangelistas apresentam a mesma figura e a mesma Boa-Nova de Jesus Cristo. Cada qual, porm, reala traos que mais importantes lhe parecem para o seu pblico. Tal , certamente, o caso de So Mateus, cujas particularidades de mensagem passamos a considerar.Mt o Evangelho sistemtico por excelncia

A ordem concatenada dos temas era mais importante para Mateus do que a sequncia cronolgica dos acontecimentos. Por isto o Evangelista agrupou, em blocos, acontecimentos ou sermes de Jesus que, segundo a ordem histrica, deveriam estar muito distantes uns dos outros, mas que, reunidos, melhor ajudam o leitor a compreender a mensagem do Mestre.

a) Mt apresenta cinco longos sermes de Jesus, que constituem como que as pilastras do seu Evangelho; tm por tema central o Reino dos cus: a Magna carta, fundamental, do Reino: Mt 5-7; o sermo dos missionrios do Reino: Mt 10; o sermo das sete parbolas do Reino: Mt 13; o sermo comunitrio do Reino: Mt 18; o sermo da consumao do Reino: Mt 24-25. possvel que o evangelista, ao propor esses cinco sermes, tenha tido em vista aludir aos cinco livros da Lei de Moiss. Principalmente no sermo da montanha (Mt 5-7), Jesus se mostra como o novo Moiss ou o novo Legislador do povo de Deus. Logo aps o sermo sobre a montanha Mateus quis reunir dez milagres de Jesus (Mt 8-9), que, segundo a mente do evangelista, devem servir de comprovante autoridade do Mestre: 8,1-4 (cura do leproso); 8,5-13 (cura do servo do centurio); Mt 8,14-17 (cura da sogra de Pedro); 8,23-27 (a tempestade acalmada); 8,28-34 (libertao de dois possessos); 9,1-8 (cura do paraltico); 9,18-26 (a filha do chefe da sinagoga ressuscitada e a hemorrossa curada); 9,27-31 (dois cegos recuperam a vista); 9,32-34 (o possesso mudo libertado).b) A rvore genealgica de Jesus dispe-se em trs sries de quatorze geraes cada uma o que d um total de 42 nomes; Mt 1,1-17. Para assim chegar de Abrao at Jesus, Mateus teve que omitir alguns nomes dos antepassados de Cristo. E por que o fez? Porque 14 o valor numrico correspondente soma das letras do nome hebraico de Davi, DVD (daleth = 4; vau = 6; daleth 4); donde 3 X 14 significava para o judeu a plenitude dos ttulos que ornavam Davi; Jesus, portanto, caracterizado pelo nmero 42 (3 X 14) seria designado como o Filho de Davi, o Rei messinico, por excelncia. Para Mateus, que tinha esta finalidade catequtica, est claro que a enumerao completa dos nomes da lista genealgica perdia importncia. c) O emprego artificioso dos nmeros tambm caracterstico de Mt: so sete as peties do Pai-Nosso (Mt 6,9-13), oito as bem-aventuranas (Mt 5,3-12); oito as advertncias aos fariseus (Mt 23,13-32); sete as parbolas do Reino(Mt 13,4-50); setenta vezes sete seja o perdo concedido ao irmo pecador (Mt 18,22 e Lc 17,4).O nmero trs marca a estrutura de muitas passagens, como Mt 5,22.34-35; 6,2-6.16-18; 7,7.22. 25.27; 8,9; 10,40-41; 17,1-9; 23,8-10.34.Mt o Evangelho dos judeus

Dirigindo-se a judeus convertidos ao Cristianismo, So Mateus procurou apresentar a doutrina de Jesus de modo especialmente significativo, para os hebreus.a) Mateus recorre frequentemente s Escrituras do Antigo Testamento para mostrar que Jesus o Filho de Davi, Filho de Abrao (Mt 1,1), o Rei dos judeus (2,2), que veio salvar seu povo (1,21). Mateus, cita dezenove vezes as profecias, ao passo que Marcos apenas cinco, e Lucas oito. caracterstica do estilo de Mt a frmula: isto aconteceu para que se cumprisse o que foi dito por.... (Mt 1,22; 2,15. 17.23).Algumas vezes o texto da profecia influi sobre a redao do Evangelho. Por exemplo, Mateus diz que Jesus se serviu de uma jumenta e de seu filhote para entrar em Jerusalm (21,2-7), ao passo que os outros evangelistas mencionam apenas o jumentinho (Mc 11,2-7; Lc 19,29-35; Jo 12,14-15); assim procedendo, Mateus quis simplesmente adaptar-se s palavras da profecia de Zc 9,9-10, que ele cita e cujo cumprimento ele queria incutir ao leitor. Mateus tambm o nico dos evangelistas que menciona o preo pelo qual Judas vendeu o Senhor (trinta moedas de prata), e isto porque o profeta Zacarias(11,12; Mt 27,9) menciona a quantia; comparar Mt 26,15 com Mc14,11 e Lc 22,5. b) De modo especial Mateus se refere Lei de Moiss. Assim em Mt, 5,21-48 Jesus alude a seis preceitos de Moiss para os aperfeioar, aparecendo assim como o novo Moiss ou Moiss levado plenitude.

Observemos tambm que o primeiro versculo do texto grego do Evangelho se abre com as palavras Biblos Genseos... Estas lembram o ttulo grego do primeiro livro do Antigo Testamento (Gnesis); talvez para indicar que nova criao e nova vida entraram no mundo por obra de Jesus Cristo.

Em suma, Jesus no veio abolir a Lei de Moiss, mas lev-la plenitude, isto , cumprir todas as promessas e profecias nela contidas (Mt 5,17).

c) de notar que a catequese habitual dos Apstolos devia comear pelo Batismo de Jesus e terminar pela Ascenso do Senhor; foi assim que So Pedro concebeu os seus primeiros sermes (At 1,21-22; 10,37-41). O Evangelho de Marcos se enquadra perfeitamente nesses termos. So Mateus e So Lucas, porm, julgaram oportuno propor no incio das suas narraes algumas notcias sobre a infncia de Jesus. Ora observa-se que em Mateus a figura predominante dos captulos 12 So Jos (Mt 1,18-21.24-25; 2,13-15.19-23), ao passo que em Lucas a figura mais saliente Maria. Isto permite concluir que os principais informantes de Mateus, no caso, foram os familiares de So Jos e parentes de Jesus, que eram particularmente zelosos das tradies de Israel.Mt o Evangelho da Igreja

Mateus quis mostrar que o Reino do Messias, muito radicado nas profecias e nos costumes do povo de Israel, , no obstante, um reino universal catlico. Por isto ps em relevo os traos de universalismo da mensagem de Jesus.a) A genealogia de Jesus em Mt 1,1-17, alm da simetria de seus nmeros, apresenta quatro nomes de mulheres, contrariando o estilo das genealogias: Raab, meretriz de Jeric (1,5); Tamar, pouco honesta e provavelmente canania (1,3); Rute, moabita (1,5) e Betsab, esposa de Urias, hitita como seu marido (1,6). Note-se que so nomes de mulheres estrangeiras ou de m vida. Por que o Evangelista, quebrando o estilo das genealogias, quis incluir essas mulheres entre os antepassados de Jesus? Precisamente para mostrar que Ele o Salvador no apenas de Israel, mas tambm dos estrangeiros e pecadores: Ele veio para salvar a todos indistintamente, pois em suas veias corria o sangue de judeus e de pagos. b) O termo Igreja (ekklesa, em grego) s ocorre em Mt 16,18; 18,17 dentro dos escritos dos evangelistas. Mateus tambm o nico a descrever a cena da promessa do primado a Pedro (Mt 16,13-20). A Igreja consta no apenas de judeus, mas tambm de pagos convertidos (Mt 8,11; 28,16-20).Alis, todo o mistrio da Igreja est contido no episdio dos magos (Mt 2,1-12), que s Mateus refere; conduzidos de longe por uma estrela e orientados pelos prprios judeus, os pagos reconheceram e adoraram o Messias, ao passo que o rei Herodes e sua corte o quiseram matar.A So Pedro Mateus dedica especial reverncia, como se depreende dos episdios prprios: Mt 14,28-32; 16,17-19; 17,24-26. Compare-se Mt 26,40 com Mc 14,37.Assim concebido, o Evangelho segundo Mateus tornou-se o livro mais importante da histria universal, o livro inseparvel das primeiras geraes crists. EVANGELHO SEGUNDO MARCOSMarcos, autor do 2 Evangelho1. Marcos no foi dos doze apstolos, mas discpulo destes, especialmente de Pedro, que o chama seu filho (1Pd 5,13) talvez porque o tenha batizado.A tradio lhe atribui a redao do segundo Evangelho. A propsito o testemunho mais importante o de Ppias (+ 135), bispo de Hierpolis (sia Menor), de grande autoridade:Marcos, intrprete de Pedro, escreveu com exatido, tudo aquilo que recordava das palavras e das aes do Senhor; no tinha ouvido nem seguido o Senhor, mas, mais tarde,... Pedro. Ora, como Pedro ensinava adaptando-se s vrias necessidades dos ouvintes, sem se preocupar com oferecer composio ordenada das sentenas do Senhor, Marcos no nos enganou escrevendo conforme se recordava; tinha somente esta preocupao: nada negligenciar do que tinha ouvido, e nada dizer de falso. So Marcos foi companheiro de So Paulo no comeo de sua primeira viagem missionria (At 13,5), mas no prosseguiu at o fim (At 13,13). Por isto o Apstolo no o quis levar em sua segunda expedio missionria (At 15,37-40). Todavia Marcos reaparece como colaborador de So Paulo no primeiro cativeiro romano do Apstolo (Cl 4,10; Fm 23-24); no fim da vida, So Paulo lhe faz um elogio: -me til no ministrio (2Tm 4,11).2. Este depoimento a respeito da autoria de Marcos corroborado pelo exame do texto do prprio Evangelho. Assim, por exemplo: Os limites do Evangelho so exatamente os limites propostos pelos discursos de Pedro em At 1,21 e 10,37: desde o batismo ministrado por Joo at a glorificao de Jesus, sem tocar em cenas da infncia do Senhor (Mc 1,1-4 e 16,19-20). Pedro ocupa lugar saliente em Marcos; (Mc 1,29-31.36; 5,37; 9,2-6; 11,21; 14,33). Pedro explicitamente nomeado em Marcos, enquanto nas passagens paralelas Mt e Lc o silenciam; comparemos entre si Mt 21,20 e Mc 11,21; alm disto, Mt 24,3; Lc 21,7 e Mc 13,3; tambm Mt 28,7 e Mc 16,7. De modo especial, em Marcos as falhas de Pedro so salientadas (Mc 8,32-33; 14,37.66-72) e silenciado o que redundaria em honra de Pedro (caminhar sobre as guas, Mt 14,28-31, e a promessa do primado, Mt 16,17-19) o que s se explica bem se a pessoa de Pedro indiretamente a responsvel pela redao do Evangelho de Marcos.

O 2 Evangelho se compraz em citar alguns termos aramaicos, guardando o sabor original da catequese dos Apstolos: assim Boanerges (Filhos do Trovo), em 3,17; Talitha Koum (menina, levanta-te), em 5,41; Ephphata (Abre-te), em 7,34; Abba (Pai), em 14,36; Elo, Elo, lama sabachthani (Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?), em 15,34. Isto revela que o autor do 2 Evangelho era um judeu que transmitia uma catequese outrora concebida em aramaico.O estilo de Marcos muito simples, quase no recorrendo subordinao de frases o que bem corresponde ao gnio literrio dos semitas.

Os destinatrios de Mc1. Marcos escreveu no para judeus, mas para pagos convertido