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que ele era o mais importante e menos compreendido de to-dos os descobridores impor-tantes do Renascimento. E tambm o mais equivocado. Sua primeira viagem bem conhecida, mas as prximas trs viagens que ele fez so igualmente interessantes, tal-vez at mais, e ainda no bem conhecidas. Suas descobertas afetaram tanto o Velho Mun-do quanto o Novo Mundo e vivemos as consequncias de suas viagens at hoje na pol-tica, cultura e no mundo natu-ral, por causa do intercmbio colombiano.

DR - Como Colombo vi-

rou descobridor?Bergreen - Colombo dei-

xou de ser um marinheiro

comercial em Gnova, onde nasceu, e se tornou um des-

cobridor porque ele, como outros marinheiros, ouviram histrias sobre outras terras que poderiam ser exploradas para comrcio. Aps muitos anos de esforo, ele finalmen-te convenceu Fernando de Arago e Isabel de Castela, os reis da Espanha, a apoiarem sua viagem. Com o decorrer do tempo, ele se convenceu de que sua misso foi inspirada por Deus. Alm disso, ele que-ria deixar as terras que desco-briu para seus descendentes.

DR - Como Colombo des-cobriu a Amrica?

Bergreen - Colombo des-cobriu a Amrica por aciden-

Dirio regionalSEGUNDA-FEIRA, 28 DE ABRIL DE 20148u EntrEvista Exclusiva

Fernando de OliveiraChefe de Redaoredacao@diarioregionalrs.com.br

Colombo des-cobriu a Amrica

por acidente. Como todas as

pessoas na Euro-pa, ele no per-cebeu a existn-cia do continente

americano

Cristvo Colombo foi um personagem trgicoRenomado bigrafo norte-americano, Laurence Bergreen fala ao Dirio sobre o navegador genovs,

figura histrica que retrata em seu novo livro lanado no Brasil

Premiado bigrafo e historiador, o norte-americano Laurence Bergreen gosta de escrever sobre des-cobridores. Porque so pes-soas que mudaram o curso da histria no Velho Mundo e no Novo Mundo, para melhor ou para pior. E suas viagens so muito emocionantes, diz.

Aos 64 anos, Bergreen, que casado com uma ce-arense, j se debruou so-bre a vida do italiano Marco Polo (1254-1324), em Marco Polo - De Veneza a Xana-du, e do portugus Ferno Magalhes (1480-1521), em Alm do Fim do Mundo. E, recentemente, mergulhou na histria do genovs Crist-vo Colombo (1451-1506), o controverso descobridor da Amrica, para produzir Co-lombo, As Quatro Viagens.

Esse aclamado livro aca-ba de ser lanado no Brasil pela editora Objetiva. Nele, Bergreen focou nas quatro expedies de Colombo, no-meado pela Coroa espanhola Almirante do Mar Oceano, s Antilhas entre 1492 e 1504 para investigar a conduta do navegador.

Cristvo Colombo foi um personagem trgico, que cometeu uma falha fatal: pen-sar que tinha sido inspirado por Deus, se recusando a reco-nhecer a realidade. Ele se via como um heri e uma pessoa profundamente religiosa. Mas ele tambm era ganancioso e cruel. por isso que a viso sobre Colombo hoje muito dividida. Algumas pessoas o veem como um heri e outras o veem como um vilo, diz Bergreen nesta entrevista ex-clusiva ao Dirio, concedida de Nova York, onde vive.

Dirio Regional - Por que o senhor escreveu sobre Co-lombo?

Laurence Bergreen - Por-

te. Como todas as pessoas na Europa, ele no percebeu a existncia do continente americano e chegou ao Cari-be acreditando que iria para a China. Sua inteno era en-contrar uma rota para a China sobre o Oceano a fim de fazer uma viagem mais rpida que a de Marco Polo. Mas ele no percebeu o quo longe a China era da Europa. Por isso ele fez quatro viagens rumo China. Claro, ele falhou em cada uma delas. E descobriu a Amrica por acidente.

DR - Quais foram as ou-tras principais descobertas de Colombo?

Bergreen - Colombo fez muitas descobertas cientficas, como os ventos alsios, e ob-servaes sobre o clima. Mui-tas de suas descobertas foram acidentais, como as pessoas e alimentos no Novo Mundo. Ele nunca percebeu que des-cobriu a Amrica. Ele sempre estava procura da China.

DR - O senhor conta no livro que Colombo provocou o suicdio de mais de 50 mil nativos. Como foi isso?

Bergreen - Quando Co-lombo chegou ilha Hispanio-la (tambm conhecida como Ilha de So Domingos), os na-tivos, ou ndios, receberam ele e seus homens calorosamente como convidados. Mas ento os homens de Colombo come-aram a reivindicar a terra, to-mar as ndias para si e constru-ram pequenos fortes. Quando os ndios perceberam que os homens de Colombo ficariam permanentemente, caram em desespero. Sentiam que os europeus estavam subverten-do seu futuro e comearam a se envenenar ou saltar de pe-nhascos.

DR - As conquistas de Colombo o tornaram um homem orgulhoso e ines-crupuloso?

Bergreen - Colombo

Gravura de Cristvo Colombo pro-duzida por volta de 1500

Reproduo

mentos para o Novo Mundo. Ele tentou impedir costumes dos ndios como o infantic-dio. Ao mesmo tempo, Co-lombo escravizou os ndios e introduziu o hbito de ex-plorao do Velho Mundo no Novo Mundo.

DR - Qual o maior desafio de escrever sobre um perso-nagem histrico e complexo como Colombo?

Bergreen - O maior de-safio tentar ler e coordenar todos os muitos relatos de pri-meira mo sobre as viagens de Colombo em uma unidade compreensiva. como mon-tar um quebra-cabea com pe-as incontveis.

DR - Qual ser seu prxi-mo livro?

Bergreen - Meu prximo livro ser sobre Giacomo Ca-sanova e o sculo XVIII.

DR - Esse livro ser publi-cado no Brasil?

Bergreen - Sim, a minha biografia de Casanova ser publicada no Brasil em breve.

DR - O Brasil discute atu-almente a lei que restringe biografias no autorizadas. Como o senhor analisa essa questo?

Bergreen - Como a maioria dos norte-america-nos, fiquei surpreso sobre a lei que restringe a pu-blicao de biografias no autorizadas no Brasil. Essa lei no existe nos Estados Unidos, embora se aplicam aqui as leis sobre difama-o. Como no Brasil, os Es-tados Unidos e os escritores norte-americanos defendem o valor da liberdade de ex-presso. Nisso, os dois pa-ses so semelhantes.

DR - Como ser bigrafo nos Estados Unidos?

Bergreen - Biografia um gnero popular e florescente nos Estados Unidos. Meu li-vro sobre Colombo um best-seller aqui.

DR - Qual o papel do bi-grafo?

Bergreen - Existem mui-tas respostas para essa pergun-ta. Em geral, compreender a vida de uma pessoa - e seu tempo - e faz-la ganhar vida para o leitor a fim de mostrar o seu significado.

DR - Afinal, por que o se-nhor se tornou bigrafo?

Bergreen - Porque tenho curiosidade sobre as pessoas,

Dirio regional SEGUNDA-FEIRA, 28 DE ABRIL DE 2014 9u EntrEvista Exclusivasempre foi orgulhoso. De muitas maneiras, ele era um capito do mar tpico de sua poca, habilidoso e cruel. Colombo se convenceu de que Deus queria que ele fi-zesse suas descobertas para a Espanha e que Deus o pro-tegeria. Pensou ter ouvido a voz de Deus falando com ele durante uma tempestade.

DR - Quais foram suas fontes de pesquisa para es-crever Colombo, As Quatro Viagens?

Bergreen - Eu confiei em fontes primrias - revistas, dirios, correspondncias, os registros oficiais de Colom-bo, relatos de seus parceiros e de outros marinheiros e os escritos do frei dominicano Bartolom de Las Casas, que conhecia Colombo e muitas das pessoas envolvidas nas suas expedies. Os livros de histria sobre Colombo evolu-ram com o tempo e a histria de suas descobertas compli-cada e multifacetada.

DR - Quais foram suas principais descobertas sobre Colombo?

Bergreen - Muitas. A pri-meira, que Colombo se tornou mentalmente instvel durante suas ltimas trs viagens, ou-vindo vozes e ficou muito do-ente e mstico. Tambm des-cobri que ele tinha uma vida pessoal mais complicada do que anteriormente essa tivesse sido compreendida.

DR - Percebe semelhanas entre Colombo, Marco Polo e Ferno Magalhes, uma vez que escreveu sobre eles?

Bergreen - Os trs ex-ploradores estavam ligados. As Viagens de Marco Polo, livro famoso, inspirou tanto Colombo quanto Magalhes a fazerem suas viagens com o mesmo propsito: chegar at a China pelo Oceano ao invs de viajar para l por terra. Colombo navegou com uma cpia do livro de Marco Polo nas mos e fez anotaes sobre as coisas que esperava encontrar. Ele usou o relato de Marco Polo como um guia. Magalhes tentou fazer a mesma coisa,

e corrigir erros de navega-o de Colombo, tais como a omisso do Oceano Pacfico!

DR - Por que o senhor es-creve sobre descobridores?

Bergreen - Porque so pessoas que mudaram o curso da histria no Velho Mundo e no Novo Mundo, para melhor ou para pior. E suas viagens so muito emocionantes. Tambm, meu filho um marinheiro, e anos atrs ele me fez ficar interessado em velejar.

DR - Depois de escrever sobre Colombo, como o se-nhor o definiria?

Bergreen - Colombo era um visionrio e um brilhante e destemido marinheiro. Ele tambm foi tragicamente li-mitado em sua viso sobre explorao e sobre os ndios que ele encontrou nos Estados Unidos. Cristvo Colombo foi um personagem trgico, que cometeu uma falha fatal: pensar que tinha sido inspira-do por Deus, se recusando a reconhecer a realidade. Ele se via como um heri e uma pes-soa profundamente religiosa. Mas ele tambm era ganan-cioso e cruel. por isso que a viso sobre Colombo hoje muito dividida. Algumas pes-soas o veem como um heri e outras o veem como um vilo.

DR - Como foi a vida de Colombo depois de suas des-cobertas?

Bergreen - Colombo nun-ca teve uma chance para se aposentar e aproveitar os fru-tos de suas descobertas. Mor-reu na Espanha pouco depois da concluso de sua quarta viagem. Ele era um homem muito doente e fraco na poca.

DR - O senhor disse an-teriormente que vivemos as consequncias das viagens de Colombo at hoje. Ento qual o legado de Colombo?

Bergreen - Seu legado complicado. Amarrou o Velho Mundo inextricavelmente ao Novo