DA ADMISSIBILIDADE DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA .2 da admissibilidade do princÍpio da insignificÂncia

  • View
    216

  • Download
    0

Embed Size (px)

Text of DA ADMISSIBILIDADE DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA .2 da admissibilidade do princÍpio da...

  • 2

    DA ADMISSIBILIDADE DO PRINCPIO DA INSIGNIFICNCIA COMO EXCLUDENTE DE

    TIPICIDADE E O ENTENDIMENTO DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIA

    Erica Carine Lima Zafalon

    Advogada. Especialista em Direito Penal e Direito Processual

    Penal da UNILAGO Docente do Curso de Direito da UNILAGO

    RESUMO O Princpio da Insignificncia assunto comumente debatido ante as novas Polticas Criminais adotadas pelo Direito Penal com o intuito de desafogar o Judicirio que se encontra assoberbado com aes que no merecem guarida pela tutela penal, justamente por no possurem relevncia jurdica suficiente para tanto. Com a adoo do referido princpio, visa-se uma nova Poltica Criminal e uma significativa diminuio do nmero de processos a serem apreciados e julgados pelo Judicirio. O Supremo Tribunal Federal, por sua vez, j faz uso do princpio em comento e firma posicionamentos a ponto de considerar determinado fato como atpico quando o resultado produzido de pouca ou nenhuma relevncia, haja vista que o aparato jurisdicional no deve ser movimentado injustificadamente.

    Palavras-chave: Princpio da Insignificncia; teor; conduta atpica; aplicao.

  • 3

    INTRODUO

    O presente artigo tem o objetivo de apresentar

    um breve estudo acerca do princpio da insignificncia

    no ordenamento jurdico penal, haja vista que, referido

    princpio considera atpica a conduta ilcita que no

    traga consigo relevante prejuzo ao bem jurdico

    protegido, e nesse sentido que se busca ressaltar que

    o Direito Penal no deve dedicar ateno questes

    irrelevantes, que no venham a gerar qualquer prejuzo

    significativo, de modo a desafogar o Poder Judicirio

    das inmeras demandas judiciais irrelevantes, abrindo

    espao para maior agilidade na apreciao e

    julgamento de casos que so merecedores de

    apreciao, ou seja, que gerem prejuzo ao bem

    jurdico protegido.

    Importante ressaltar a importncia da

    aplicao do Princpio da Insignificncia no Direito

    Penal, no ordenamento jurdico brasileiro,

    principalmente nos tempos atuais diante das inmeras

    modificaes sociais e culturais.

    Destarte, primordial que o Direito

    acompanhe a evoluo, e no fique estagnado e

    interligado a situaes passadas que no trazem e

    sequer acompanham a viso atual da sociedade.

  • 4

    necessrio analisar a localizao do

    Princpio da Insignificncia dentro da teoria do crime, e

    estudar sua aplicao como mecanismo de poltica

    criminal e excludente de tipicidade, de modo a atuar

    como instrumento que possibilite a interpretao

    restritiva e limitadora do ordenamento jurdico penal.

    Nesse mesmo sentido, preciso que o juzo

    de tipicidade para ser reconhecido no realize somente

    verificao da tipicidade formal, que por si consiste na

    subsuno do fato ao tipo abstrato, mas tambm a

    tipicidade material, ou seja, a efetiva leso ao bem

    jurdico tutelado, pois o Direito Penal no deve ocupar-

    se de bagatelas.

    Desse modo, a aceitao do Princpio da

    Insignificncia no ordenamento jurdico brasileiro

    representa de maneira gloriosa uma forma de

    atualizao do Direito Penal, ou seja, uma significativa

    evoluo no mbito legal.

  • 5

    1 CONCEITO DE PRINCPIO DA INSIGNIFICNCIA

    NO DIREITO PENAL

    Primordial se torna relembrar as memorveis

    palavras do nobre jurista, Celso Antnio Bandeira de

    Mello (2005, p. 748) ao conceituar princpio:

    Princpio , por definio, mandamento nuclear de um sistema, verdadeiro alicerce dele, disposio fundamental que se irradia sobre diferentes normas, compondo-lhes o esprito e servindo de critrio para sua exata compreenso e inteligncia, exatamente por definir a lgica e a racionalidade do sistema normativo, no que lhe confere a tnica e lhe d sentido harmnico.

    Princpio, por vez, como o prprio nome j diz,

    nos remota ao raciocnio de nascedouro, incio, de onde

    provm determinada matria, assunto ou ainda a

    prpria humanidade.

    Assim, quando da aplicao da lei no caso

    concreto, obviamente que se deve levar em conta a lei

    propriamente dita, contudo no se pode esquecer os

    mandamentos iniciais, quais sejam, os princpios, haja

    vista que, so esses que iro auxiliar na soluo dos

    litgios quando a lei for omissa, de modo que dada a

    devida ateno a estes no ocorrer abusos ou

    dvidas.

  • 6

    Os princpios so mandamentos gerais,

    verdades tidas como irrefutveis, em torno da qual se

    norteiam os legisladores para elaborao de leis que

    venham a garantir a proteo a direitos tidos como

    essenciais.

    Para Miguel Reale (1986, p. 60) princpios

    so:

    Verdades ou juzos fundamentais, que servem de alicerce ou de garantia de certeza a um conjunto de juzos ordenados em um sistema de conceitos relativos a dada poro da realidade. s vezes, tambm se denominam princpios, certas proposies que, apesar de no serem evidentes ou resultantes de evidncias, so assumidas como fundantes de validez de um sistema particular de conhecimentos, como seus pressupostos necessrios.

    Os princpios so a base sobre a qual esto

    alicerados os sistemas jurdicos, por isso a grande

    importncia dada a eles pelos juristas e doutrinadores.

    Oportuno mencionar que a legislao

    brasileira por vez, no veio a consagrar o conceito do

    princpio da insignificncia, cabendo esta misso a

    doutrina, neste sentido tem-se na lio de diversos

    doutrinadores como Jos Guaracy Rbelo (2000, p.61-

    67):

  • 7

    O princpio da insignificncia se ajusta equidade e correta interpretao do Direito. Por aquela, acolhe-se um sentimento de justia, inspirado nos valores vigentes em sociedade, liberando-se o agente, cuja ao, por sua inexpressividade, no chega a atentar contra os valores tutelados pelo Direito Penal.

    Desta forma, diante da lio do nobre

    doutrinador acima mencionado, plenamente possvel

    a excluso dos ilcitos penais de pouca ou nenhuma

    importncia, aqueles que de fato no venham a atingir

    o bem jurdico tutelado pelo Direito Penal.

    O propsito central do princpio da

    insignificncia est no fator da proporcionalidade entre

    o ilcito cometido e a pena a ele imposta, ao se

    contrapor a ao e ao resultado, de modo a eliminar do

    judicirio os delitos de pouca monta ou insignificante

    prejuzo.

    Ademais, o delito de bagatela um ataque ao

    bem jurdico sem relevncia, e que, por conseguinte,

    no requer a tutela penal, haja vista que, referida

    interveno seria desproporcional.

    O princpio da insignificncia pauta-se nos

    iderios de igualdade, dignidade e liberdade, bem como

    nos princpios da legalidade e proporcionalidade, sendo

    guiado pela ideia de justia social, e sem dvida,

  • 8

    manifesta-se contrariamente ao uso excessivo da

    sano penal.

    Portanto, ressalte-se que, devem ser

    consideradas atpicas as aes ou omisses que no

    gerem agresso relevante ao bem jurdico, de modo

    que a leso nfima no justifique a imposio de uma

    penalidade.

    Nas lies de Cssio Vinicius D. C.V. Lazzari

    Prestes (2003, p. 66/67), o Princpio da Insignificncia

    pode ser assim entendido:

    uma medida de poltica criminal que restringe a competncia da justia criminal ao retirar de seu alcance a grande gama de casos de crimes bagatelares, desafogando-a e abrindo espao para que haja uma eficiente persecuo e tutela jurisdicional dos casos mais graves. Com a adoo a soluo repassada para outros instrumentos de controle de conflitos sociais e assim tambm se mostra justificada, do ponto de vista jurdico, a indiferena do Direito Penal relativamente a casos insignificantes.

    Portanto, o exerccio do jus puniendi somente

    poder ser utilizado quando tiver por funo for reprimir

    condutas materialmente lesivas ao bem jurdico

    tutelado.

    A corroborar a argumentao outrora exposta,

    tem-se a lio de Maurcio Antonio Ribeiro Lopes

  • 9

    (2000, p. 61), que entende ser o Direito cincia de

    cunho social:

    [...] que lida com valores humanos e por isso no pode ser interpretado de modo inflexvel, com base na lgica pura. O silogismo, do ponto de vista judicirio, tem repercusso das mais diversas. Se o Juiz aplica o Direito de forma matemtica, com um formalismo intransigente, fazendo justia mesmo que perea o mundo, distancia-se destarte da realidade humana. O silogismo, em hiptese alguma, pode ser rgido. necessrio um perfeito equilbrio na sua atuao e na utilizao nas sentenas judicirias.

    A assertiva acima nos permite concluir que a

    Poltica Criminal atua no sentido de inovar o Direito,

    tonando-o flexvel quando necessrio for, de modo a

    desconsiderar a tipicidade de fatos que, por sua

    inexpressividade venham a constituir aes de

    bagatelas, que acabam afastadas do campo da

    reprovabilidade, chegando ao ponto de no merecem

    guarida jurdica, ou seja, apreciao e aplicao da

    norma penal.

    Obviamente que cada ao ou omisso

    irrelevante ao ordenamento jurdico penal, deve ser

    apreciada minuciosamente para que possa ser inserido

    no rol da insignificncia, e ainda, para se chegar a esta

    concluso, deve seguir-se o mesmo caminho obtido

  • 10

    para o conceito analtico de crime, qual seja, fato tpico,

    antijurdico e culpvel. Em sendo o ilcito irrelevante,

    no h conduta tpica, logo, no h crime quando

    observada e aplicada a insignificncia do ato.

    Oportuno nessa ocasio mencionar os

    ensin