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    DA CURATELA DOS INTERDITOS

    FRANCISCO ROBERTO MACHADO Juiz Federal da 6 Vara da SJ/CE

    SUMRIO: 1 - Noes gerais. 2 - Competncia. 3 - Petioinicial, citao, interrogatrio e curadoria provisria; 4 - Prazo deresposta do interditando. 5 - Exame mdico-pericial do interditando.6 - Audincia de instruo e julgamento. 7 - O Ministrio Pblico.8 - A sentena e seus efeitos 9 - Hipoteca legal, balano, prestaode contas e gratificao do curador. 10 - Levantamento da interdi-o.

    1. NOES GERAIS

    Os psicopatas1 , os surdos-mudos sem educao que os habilite a enun-ciar precisamente sua vontade, os prdigos2 e os toxicmanos acometidosde perturbaes mentais, pelo fato de se encontrarem, permanentemente oude modo duradouro, impossibilitados de praticar, pessoalmente, atos da vidacivil (gerir sua pessoa e/ou administrar seus bens), devem ser interditados esujeitos a curatela (art. 5 c.c. art. 446, ambos do CC, Dec. 24.559/34, DL891/38 e art. 1.185 do CPC).

    A curatela dos interditos, portanto, destina-se a proteger pessoas cujaincapacidade no resulta da idade, da porque, a princpio, no pode serrequerida visando a interdio de menores3. esta a lio da jurisprudncia

    1 Loucos de todo o gnero, pela nomenclatura do Cdigo Civil (art. 5, II).

    2 Pessoa cujo comportamento anormal pe em perigo de runa seu patrimnio, em prejuzo de sua famlia e herdeirosnecessrios.

    3 RT 720/111 e JTJ 174/707, apud CPC, Theotnio Negro, 32 edio, pg. 972, nota 1b ao art. 1.177.

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    que, entretanto, deve ser entendida apenas em relao aos impberes (me-nores de 16 anos) porque j absolutamente incapazes (art. 5, I, CC). Se ocaso de menor pbere, cuja idade (maior de 16 e menor de 21 anos) lhegarantiria relativa capacidade, possvel sua interdio em estando ele, defato, enquadrado nas hipteses dos incisos II e III do art. 5 do CdigoCivil4, includo a o acometido de perturbaes mentais pela dependncia desubstncias entorpecentes (toxicmano), da a legitimidade do tutor parapromover a demanda (art. 1.177, I, CPC), de tal sorte que, decretada ainterdio do menor pbere portador de psicopatia ou de surdo-mudez semcapacidade para exprimir sua vontade, torna-se ele absolutamente incapazpara exercer, pessoalmente, atos da vida civil.

    A ao, que segue o procedimento (de jurisdio voluntria) previstonos arts. 1.177 a 1.191 do CPC, tem duplo objeto: a interdio do incapaze a nomeao de curador. Da a nomenclatura utilizada pelo Cdigo: DaCuratela dos Interditos (v. CPC, Livro IV, Ttulo II , Captulo VIII).

    So legitimadas a promover a interdio as pessoas designadas nosarts. 447 do Cdigo Civil e 1.177 do Cdigo de Processo Civil, quais sejam:pai, me, tutor, cnjuge5 ou companheiro6, parente prximo7, ou o Minist-rio Pblico8 9. Importante atentar para a lio da jurisprudncia, segundo a

    4 Psicopatas ou surdos-mudos sem capacidade para exprimir sua vontade.

    5 O cnjuge separado judicialmente no tem legitimidade para requerer a interdio de seu ex-cnjuge (RJTJESP90/171, apud Theotnio Negro, 32 edio, pg. 972, nota 3 ao art. 1.177).

    6 Diante dos expressos termos da CF art. 226 3, pode postular a interdio de seu consorte o concubino que vivaem unio marital estvel (Cdigo de Processo Civil Comentado, Nelson Nery Junior e Rosa Maria Andrade Nery,RT, 2 edio, pg. 1.321, nota II.3 ao art. 1.177).

    7 Pelo Cdigo Civil o parentesco colateral vai at o sexto grau (art. 331). Contudo, somente os parentes colaterais ato 4 grau, porque ligados pelo vnculo da sucesso (art. 1.612, CCiv), so considerados parentes prximos e,portanto, legitimados para promover a interdio (JTJ 170/111, apud CPC, Theotnio Negro, 32 edio, pg. 972,nota 6 ao art. 1.177).

    8 O Ministrio Pblico no pode promover a interdio do prdigo, restrita s pessoas indicadas no art. 460 do CCiv.Poder sempre faz-lo no caso de anomalia psquica e, nos demais casos, se os outros legitimados no puderem ouno tomarem a iniciativa de promov-la (art. 1.178, CPCiv), podendo prosseguir na ao de interdio alvo deeventual desistncia da parte que a ajuizou. Vide lio in CPC comentado, Nelson Nery Jnior e Rosa Maria AndradeNery, RT, 2a edio, 1996, pg. 1.322.

    9 O inc. I do art. 448 do CCiv est revogado pelo inc. I do art. 1.178 do CPCiv, de tal forma que o Ministrio Pblicopode promover a interdio em todos os casos de anomalia psquica e no apenas nos de loucura furiosa, expres-so atcnica e que s confuso gerava (CPC comentado, Nelson Nery Jnior e Rosa Maria Andrade Nery, RT, 2 a

    edio, 1996, pg. 1.322)

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    qual a preferncia para promover a interdio no impede que haja altera-o na ordem enumerada em lei, se ocorrer qualquer motivo que desaconselheo exerccio do mnus por aquele a quem, normalmente, caberia o direitode invocar a tutela judicial10 . A rigor, no se deve confundir legitimidadepara promover a demanda, matria tratada no art. 1.177 do CPC, com or-dem legal de preferncia para o exerccio da curatela, matria regulada noart. 454 do CC. Portanto, nada obsta que a interdio seja promovida, indis-tintamente, por quaisquer das pessoas a tanto legitimadas, pois a curatelanem sempre ser deferida ao prprio autor, podendo recair em terceira pes-soa escolhida pelo juiz, conforme melhor lhe parea consultar os interessesdo interdito, at porque, consoante lio da jurisprudncia, a ordem legaldo art. 454 do Cdigo Civil no absoluta, cedendo ante os interesses dapessoa protegida, tendo em vista o princpio constante do art. 1.109 doCPC11 . Diga-se, por fim, que a interdio do prdigo somente pode serpromovida pelo cnjuge, ascendente ou descendente (art. 460, CC) porquea interdio/curatela, no caso, voltada apenas para proteger seus bens, emproveito da famlia e de seus herdeiros necessrios.

    O procedimento estabelecido pelo Cdigo de Processo Civil para aAo de Interdio e Curatela no pode ser desobedecido. Quer dizer: ojuiz no pode socorrer-se do rito de outra demanda para decidir a questo,salvo a aplicao subsidiria do rito ordinrio (par. nico, art. 272, CPC).Cuidaremos, logo adiante, em linhas gerais, de cada fase desse procedimen-to.

    2. COMPETNCIA

    Embora o domiclio do incapaz seja o de seu representante legal (art.36, CC), a competncia para a ao de curatela dos interditos do juzode famlia do foro de domiclio do interditando, inaplicando-se o art. 98 doCPC12, restrito s demandas contra ele propostas depois de interditado, comcurador j investido no mnus.

    10 RTJE 114/186, apud CPC, Theotnio Negro, 32 edio, pg. 972, nota 5 ao art. 1.177.

    11 JTJ 193/233, apud Theotnio Negro, 32 edio, pg. 974, nota 6 ao art. 1.184.

    12 CPC, Theotnio Negro, 27 edio, pg. 657.

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    3. PETIO INICIAL, CITAO , INTERROGATRIOE CURADORIA PROVISRIA

    Recebendo a inicial, com os requisitos dos arts. 282 e 1.180, ambosdo CPC, o juiz mandar citar o interditando13 para, em local, dia e hora quedesignar, ser interrogado a respeito de sua vida, negcios, bens e do maisque lhe parecer necessrio para ajuizar do seu estado mental (art. 1.181,CPC), o que inclui seu relacionamento com o pretenso curador e o nvel deconfiana e amizade entre ambos, sem descurar de quaisquer outros assun-tos que paream ao juiz necessrios para aquilatar a alegada falta de capaci-dade de fato do interditando. Em outras palavras: sobre a anomalia de quepadece e da convenincia da nomeao deste ou daquele curador. As per-guntas e respostas do interrogatrio sero reduzidas a auto (art. 1.181, CPC),como, de resto, faz-se nas inquiries de partes e testemunhas nos feitosjudiciais. No sabendo ou no podendo assinar, ser aposta sua digital, assi-nando algum a rogo dele. Caso no tenha condies de externar quaisquermanifestaes (falar, ouvir, escrever etcetera), o juiz se limitar a registrarem ata o ocorrido. No podendo comparecer na sede do foro, caber ao juiztomar-lhe o interrogatrio na residncia ou hospital onde se encontre (par.nico, art. 336, CPC), ensinando a jurisprudncia que somente em casosespeciais, de pessoas gravemente excepcionais, inexistente qualquer sinalde risco de fraude, poder-se-, no interesse do interditando, dispensar ointerrogatrio14, ato pessoal do juiz que, portanto, no admite interveno,seno mera assistncia de advogados e do rgo do Ministrio Pblico15 ,cujas presenas no so indispensveis.

    A prtica forense mostra que, na maioria dos casos, o interditando absolutamente incapaz para todos os atos da vida civil, sendo possvel vis-lumbrar-se isto, vista de suas prprias manifestaes externas, j por oca-sio de seu interrogatrio. Logo, especialmente hoje, depois da sistematiza-

    13 Nos procedimentos de jurisdio voluntria a lei utiliza a nomenclatura interessados para referir-se s partes doprocesso, diferente do que ocorre na jurisdio contenciosa, cuja nomenclatura prpria de autor, para o agenteativo, e de ru, para o agente passivo da relao processual (no so prprias as nomenclaturas, utilizadas naprtica forense, tais como promovente e promovido). Especificamente em relao ao de interdio/curatela, ointerditando e o agente passivo da relao processual, deixando-se a nomenclatura interdito para aquele cujasentena j lhe imps a interdio e a curatela.

    14 JTJ 179/166, apud Theotnio Negro, 32 edio, pg. 973, nota 2 ao art. 1.181.

    15 RT 760/377, apud Theotnio Negro, 32 edio, pg. 973, nota 3 ao art. 1.181.

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