Da penhorabilidade do bem de família legal em razão dos créditos

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  • Revista Eletrnica da Escola Judicial do TRT da 13 Regio Joo Pessoa, v. 1, n. 1, p. 49-82, jan./jun. 2016 49

    Da penhorabilidade do bem de famlia legal em razo dos crditos do

    empregado domstico: uma anlise acerca da possibilidade de reduo

    equitativa do quantum executrio

    Amanda Sinfronio Jacob1 Jailton Macena de Arajo2

    RESUMO: O presente trabalho toma por base a mitigao regra da impenhorabilidade do bem de famlia legal, insculpida no inciso I do artigo 3 da Lei n 8.009/1990, quando em jogo crditos trabalhistas do empregado domstico. Analisa-se o dever de contraprestao do empregador frente ao contrato de trabalho, j que o descumprimento pode gerar uma execuo, com a consequente penhora do bem de famlia. Por fim, avalia-se a possibilidade de transferncia, mutatis mutandis, da tese civilista, relativa de reduo do quantum indenizatrio pelo juiz, para o processo do trabalho - no caso, executrio -, mais especificamente para a exceo supramencionada, referente aos crditos do empregado domstico. Pretende-se, desta forma, responder aos questionamentos levantados, destacando que a coliso entre princpios algo corriqueiro em qualquer ordenamento jurdico, principalmente quando o caso concreto se reveste de complexidade, j que envolve duas vertentes da prpria dignidade humana, fazendo-se necessrio demonstrar como se d o uso da tcnica da ponderao, a fim de solucionar estes impasses, sem que nenhum direito seja expurgado do mundo jurdico.

    PALAVRAS-CHAVE: Bem de famlia. Empregado domstico. Lei n 8.009/1990. Tcnica da ponderao. Reduo do quantum executrio.

    1 Graduada em Direito pela Universidade Federal da Paraba.

    2 Doutorando e Mestre em Direito pela Universidade Federal da Paraba (UFPB). Orientador da pesquisa

    Da penhorabilidade do bem de famlia legal em razo dos crditos do empregado domstico: uma

    anlise acerca da possibilidade de reduo equitativa do quantum executrio realizada no CPJ do

    Tribunal Regional do Trabalho da 13 regio.

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    The garnishment of the family asset when domestic servants labour

    credits are endangered: an analysis about the possibility of an equitative

    enforcement quantum reduction

    ABSTRACT: The present work has as its base the mitigation of the unseizability of the family asset when domestic servant's labour credits are endangered, pursuant to Art. 3rd, Item I of Law n 8.009/1990. An analysis of the employer's duty of consideration in face of the employment agreement is made, for the non-compliance of the latter may generate an execution of contract with an ensuing garnishment of the family asset. Finally, the possibility of implementation mutatis mutandis of the quantum indemnity reduction principle, applicable within Civil Law, to the Labour Procedure Code is evaluated in the aforementioned situation. This aims to answer some of the raised questions while emphasizing the contraposition aspect of the matter, a commonplace scenario within any legal framework, especially when the concrete case involves two vital branches of human dignity which require forethought mechanisms capable of solving such predicaments without purging any laws from the juridical world. KEYWORDS: Family Asset. Domestic servant. Law n 8009/1990. Forethought mechanisms. Enforcement quantum reduction.

    1 INTRODUO

    O bem de famlia surge com o escopo de assegurar o mnimo necessrio

    manuteno da clula familiar, haja vista que o direito moradia um dos pilares da

    prpria dignidade humana. Vale salientar que o instituto, no Brasil, s passou a ser

    eficaz com a edio da Lei n 8.009/1990, tratando da impenhorabilidade desse bem,

    posto que desprovida da burocracia imposta pelo Cdigo Civil de 1916.

    Apesar da lei se voltar regra da impenhorabilidade do bem de famlia legal,

    trouxe em seu bojo, situaes excepcionais que a mitigam, a exemplo do inciso I do

    artigo 3 da Lei n 8.009/1990, quando estiverem em jogo crditos oriundos da relao

    empregatcia domstica.

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    Portanto, o artigo 3 da Lei n 8.009/1990, que mitiga a regra da

    impenhorabilidade, em outros termos, passa a refletir a busca pelo equilbrio entre os

    desiguais, emergindo, assim, como meio de fomento justia social, estando esta

    baseada, preponderantemente, na igualdade de direitos e na solidariedade coletiva.

    A temtica dos domsticos voltou tona, muito recentemente, com a Emenda

    Constitucional n 72, que ampliou de forma considervel os direitos dessa categoria, to

    marginalizada ao longo do tempo. Todavia, com a ampliao do rol protetivo, e o

    consequente aumento dos encargos, inevitvel se tornou o temor s execues

    trabalhistas, pois as exigncias contratuais foram alargadas.

    Nesse nterim, ser analisado, no decorrer do trabalho, dentre outras coisas, o

    dever de contraprestao do empregador, de forma mais direcionada ao domstico,

    pois, tamanha a sua importncia, que o legislador previu a possibilidade de penhora do

    bem de famlia legal para saldar crditos oriundos desta relao de emprego.

    No embate entre direito moradia do empregador e o direito do empregado

    domstico a receber seus crditos trabalhistas, optou o legislador, ao excepcionar a

    regra da impenhorabilidade do bem de famlia legal, conforme j fora dito, pela

    prevalncia do direito do empregado domstico. Diante disto, indaga-se: O juiz, em

    momento posterior, ante um caso concreto, poderia, ao colocar tais direitos novamente

    na balana, decidir pela reduo do quantum executrio, tal qual acontece na seara

    cvel, nas hipteses que circundam os pargrafos nicos dos artigos 944 e 928 do

    Cdigo Civil? Ou de forma simplificada, poderia o julgador adotar uma posio central,

    privilegiando, de certa forma, os dois lados, mesmo com o direcionamento legal j

    imposto?

    O presente artigo est dividido em trs partes inter-relacionadas. Primeiro, lana-

    se luz sobre o instituto do bem de famlia legal, voltando-se Lei n. 8009/1990 e s

    suas flexibilizaes, realando a hiptese referente aos crditos do empregado

    domstico.

    Em sua segunda parte, pretende-se expor a responsabilidade do empregador

    domstico frente ao contrato de trabalho, pormenorizando o dever de contraprestao e

    enfocando a dignidade sob a tica do trabalhador domstico.

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    Por fim, ao tentar elucidar os questionamentos propostos, destacar-se- que a

    coliso entre princpios algo comum em qualquer ordenamento jurdico,

    principalmente quando o caso envolve duas vertentes da dignidade humana, fazendo-

    se necessrio demonstrar como se d o uso da tcnica da ponderao, a fim de

    solucionar estes impasses, sem que nenhum direito seja expurgado do mundo jurdico.

    2 BREVES APONTAMENTOS SOBRE O BEM DE FAMLIA DA LEI N 8.009/1990 E A POSSIBILIDADE DE PENHORA EM RAZO DOS CRDITOS DO EMPREGADO DOMSTICO

    A importncia do bem de famlia inegvel, haja vista que, por proteger o rgo

    familiar, em ltima instncia, fundamenta a prpria estrutura do Estado, condicionada,

    muitas vezes, estabilidade e proteo da famlia. Trata-se, portanto, de um

    instrumento assecuratrio do mnimo necessrio sua existncia e manuteno.

    Nos dizeres de Azevedo (2010, p. 2), o bem de famlia, da forma como chegou

    at ns, entretanto, no representa o indispensvel a assegurar a estabilidade

    existencial devida ao grupo familiar, necessitando de uma reestruturao basilar, para

    impor-se, por sua real utilidade, coletividade brasileira.

    Fato que a burocracia exigida pelo Cdigo Civil de 1916 impedia a plenitude do

    instituto, pois deixava, unicamente, o registro ao encargo do indivduo.

    Nesse cenrio, surgiu a figura do bem de famlia legal, pela Lei n 8.009/1990,

    incrementando, substancialmente, a defesa da famlia brasileira, posto que desprovido

    da burocracia imposta pelo Cdigo Civil.

    Vale salientar que o instituto em comento facilmente se justifica pelo princpio

    fundamental da dignidade humana, to irradiado na Constituio Federal de 1988, haja

    vista que toda pessoa deve ter o mnimo necessrio para viver dignamente, estando a

    moradia includa como direito social expresso no artigo 6 da Constituio Federal.

    Corroborando com este pensamento, Silva (2009, p. 314) configura o direito

    moradia como uma habitao de dimenses adequadas, em condies de higiene e

    conforto e que se preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar, como se prev

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    na Constituio portuguesa (art.65). Em suma, que seja uma habitao digna e

    adequada [...].

    Ocorre que, a prpria lei no se engessou na ideia de impenhorabilidade do bem

    de famlia, excepcionando tal regra, quando existente alguma situao ftico-jurdica

    que a impedisse, ou em outras palavras, quando houvesse choque de direitos.

    Nesse nterim, dentre as vrias excees trazidas pela legislao ora em

    comento, a que se refere aos crditos dos trabalhadores domsticos ganha destaque

    no presente artigo, posto ter o legislador conferido privilgio especial a essa categoria,

    prevendo a possibilidade de penhora do bem d