Da Usucapião Indígena: Explicitações à Modalidade ...· civil da usucapião rememora à Lei das

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    Da Usucapio Indgena: Explicitaes Modalidade consagrada

    no Estatuto do ndio (Lei n 6.001/1973)

    Tau Lima Verdan Rangel1

    Resumo: O artigo em comento objetiva estabelecer uma anlise da usucapio,

    em sua modalidade indgena, utilizando, para tanto, os entendimentos doutrinrios

    acerca do tema, em conjuno com a Lei n 6.001/1973. Um dos aspectos mais

    proeminente do Direito, enquanto cincia, est intimamente atrelado ao seu

    progressivo e constante aspecto de mutabilidade, albergando em seu mago as

    carncias da sociedade, as realidades ftica que possuem o condo de motivar a

    renovao do sedimento normativo. Neste aspecto, cuida salientar que o instituto

    civil da usucapio rememora Lei das Doze Tbuas, de 455 antes de Cristo,

    sendo um instrumento direcionado para a aquisio da propriedade, quer seja de

    bens mveis, quer seja de bens imveis. Para tanto, o nico requisito observado

    concernia posse continuada por um (annus) ou dois anos (biennun). A partir de

    tais iderios, a pesquisa desenvolvida est assentada no mtodo de reviso

    bibliogrfica, conjugado, no decorrer do artigo, da legislao nacional pertinente,

    com vistas a esmiuar os requisitos enumerados.

    Palavras-chaves: Usucapio Indgena. Aquisio Originria. Estatuto do ndio.

    Sumrio: 1 Consideraes Iniciais; 2 Usucapio: Abordagem Histrica; 3

    Usucapio: Abordagem Conceitual do Tema; 4 Da Usucapio Indgena:

    Explicitaes Modalidade consagrada no Estatuto do ndio (Lei n 6.001/1973)

    1 Bolsista CAPES. Mestrando vinculado ao Programa de Ps-Graduao em Sociologia e Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF), linha de Pesquisa Conflitos Urbanos, Rurais e Socioambientais. Especializando em Prticas Processuais Processo Civil, Processo Penal e Processo do Trabalho pelo Centro Universitrio So Camilo-ES. Bacharel em Direito pelo Centro Universitrio So Camilo-ES. Produziu diversos artigos, voltados principalmente para o Direito Penal, Direito Constitucional, Direito Civil, Direito do Consumidor, Direito Administrativo e Direito Ambiental. E-mail: taua_verdan2@hotmail.com

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    mailto:taua_verdan2@hotmail.com

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    1 Consideraes Iniciais

    Em linhas inaugurais, ao se dispensar uma anlise ao tema central do

    presente, necessrio se faz examinar a Cincia Jurdica, assim como suas

    mltiplas e distintas ramificaes, a partir de um vis norteado pelas relevantes

    modificaes que passaram a permear o seu arcabouo terico-doutrinrio, bem

    como seu sedimento normativo. Nesta perspectiva, valorando os aspectos

    caractersticos de mutabilidade que passaram a emoldurar o Direito, plenamente

    possvel grifar que no subsiste a viso na qual a cincia ora aludida era algo

    ptreo e estanque, indiferente gama de situaes produzidas pela coletividade,

    enquanto elemento de convvio entre o ser humano. Como resultante do

    acinzelado, infere que no mais vigota a imutabilidade dos cnones que outrora

    orientavam o Direito, o aspecto estanque achatado pelos anseios e carncias

    vivenciados pela sociedade.

    Ainda nessa trilha de exposio, cogente a necessidade de adotar

    como prisma de avaliao o brocardo jurdico 'Ubi societas, ibi jus', ou seja, 'Onde

    est a sociedade, est o Direito', tornando explcita e cristalina a relao de

    interdependncia que esse binmio mantm2. Com efeito, a utilizao da

    Constituio da Repblica Federativa do Brasil de 1988, como axioma maior de

    sustentao mecanismo proeminente, quando se tem, como objeto de ambio,

    a adequao do texto genrico e abstrato das normas, que integrem o arcabouo

    ptrio, s nuances e complexidades que influenciam a realidade moderna. Ao lado

    disso, h que se citar o voto magistral proferido pelo Ministro Eros Grau, ao

    apreciar a Ao de Descumprimento de Preceito Fundamental N. 46/DF, o direito

    um organismo vivo, peculiar porm porque no envelhece, nem permanece

    jovem, pois contemporneo realidade. O direito um dinamismo. Essa, a sua

    fora, o seu fascnio, a sua beleza3. Com grossos traos e cores fortes,

    2 VERDAN, Tau Lima. Princpio da Legalidade: Corolrio do Direito Penal. Jurid Publicaes Eletrnicas, Bauru, 22 jun. 2009. Disponvel em: . Acesso em: 04 jan. 2015. 3 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguio de Descumprimento de Preceito Fundamental. Empresa Pblica de Correios e Telgrafos. Privilgio de Entrega de Correspondncias. Servio Postal. Controvrsia referente Lei Federal 6.538, de 22 de Junho de 1978. Ato Normativo que regula direitos e obrigaes concernentes ao Servio Postal. Previso de Sanes nas Hipteses

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    prossegue o eminente Ministro Eros Grau abordando que:

    do presente, na vida real, que se toma as foras que lhe conferem vida. E a realidade social o presente; o presente vida --- e vida movimento. Assim, o significado vlidos dos textos varivel no tempo e no espao, histrica e culturalmente. A interpretao do direito no mera deduo dele, mas sim processo de contnua adaptao de seus textos normativos realidade e seus conflitos4.

    Como bem pontuado, o fascnio da Cincia Jurdica jaz, justamente, na

    constante e imprescindvel mutabilidade que apresenta, decorrente do dinamismo que reverbera na sociedade e orienta a aplicao dos Diplomas

    Legais e os institutos jurdicos neles consagrados. Ao lado do esposado, quadra negritar que a viso ps-positivista que passou a permear o Direito, ofertou, por

    via de consequncia, uma rotunda independncia dos estudiosos e profissionais

    da Cincia Jurdica. Por necessrio, h que se citar o entendimento de Verdan, esta doutrina o ponto culminante de uma progressiva evoluo acerca do valor

    atribudo aos princpios em face da legislao5. Destarte, a partir de uma anlise

    profunda de sustentculos, infere-se que o ponto central da corrente ps-

    positivista cinge-se valorao da robusta tbua principiolgica que Direito e, por conseguinte, o arcabouo normativo passando a figurar, nesta tela, como normas

    de cunho vinculante, flmulas hasteadas a serem adotadas na aplicao e

    de Violao do Privilgio Postal. Compatibilidade com o Sistema Constitucional Vigente. Alegao de afronta ao disposto nos artigos 1, inciso IV; 5, inciso XIII, 170, caput, inciso IV e pargrafo nico, e 173 da Constituio do Brasil. Violao dos Princpios da Livre Concorrncia e Livre Iniciativa. No-Caracterizao. Arguio Julgada Improcedente. Interpretao conforme Constituio conferida ao artigo 42 da Lei N. 6.538, que estabelece sano, se configurada a violao do privilgio postal da Unio. Aplicao s atividades postais descritas no artigo 9, da lei. Acrdo proferido em ADPF 46/DF. rgo Julgador: Tribunal Pleno. Relator: Ministro Marcos Aurlio. Julgado em 05 ago. 2009. Disponvel em: . Acesso em 04 jan. 2015. 4 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguio de Descumprimento de Preceito Fundamental.

    Empresa Pblica de Correios e Telgrafos. Privilgio de Entrega de Correspondncias. Servio Postal. Controvrsia referente Lei Federal 6.538, de 22 de Junho de 1978. Ato Normativo que regula direitos e obrigaes concernentes ao Servio Postal. Previso de Sanes nas Hipteses de Violao do Privilgio Postal. Compatibilidade com o Sistema Constitucional Vigente. Alegao de afronta ao disposto nos artigos 1, inciso IV; 5, inciso XIII, 170, caput, inciso IV e pargrafo nico, e 173 da Constituio do Brasil. Violao dos Princpios da Livre Concorrncia e Livre Iniciativa. No-Caracterizao. Arguio Julgada Improcedente. Interpretao conforme Constituio conferida ao artigo 42 da Lei N. 6.538, que estabelece sano, se configurada a violao do privilgio postal da Unio. Aplicao s atividades postais descritas no artigo 9, da lei. Acrdo proferido em ADPF 46/DF. rgo Julgador: Tribunal Pleno. Relator: Ministro Marcos Aurlio. Julgado em 05 ago. 2009. Disponvel em: . Acesso em 04 jan. 2015. 5 VERDAN, 2009, s.p.

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    interpretao do contedo das leis. Gize-se a brilhante manifestao apresentada pelo Ministro Marco Aurlio, que, ao abordar acerca das linhas interpretativas que

    devem orientar a aplicao da Constituio Cidad, exps:

    Nessa linha de entendimento que se torna necessrio salientar que a misso do Supremo, a quem compete, repita-se, a guarda da Constituio, precipuamente a de zelar pela interpretao que se conceda Carta a maior eficcia possvel, diante da realidade circundante. Dessa forma, urge o resgate da interpretao constitucional, para que se evolua de uma interpretao retrospectiva e alheia s transformaes sociais, passando-se a realizar a interpretao que aproveite o passado, no para repeti-lo, mas para captar de sua essncia lies para a posteridade. O horizonte histrico deve servir como fase na realizao da compreenso do intrprete6.

    Nesta toada, os princpios jurdicos so erigidos condio de

    elementos que trazem em seu mago a propriedade de oferecer uma abrangncia

    ampla, contemplando, de maneira nica, as diversas espcies normativas que

    integram o ordenamento ptrio. Em razo do esposado, tais mandamentos

    passam a figurar como supernormas, isto , preceitos que exprimem valor e, por

    tal fato, so como pontos de referncias para as demais, que desdobram de seu

    contedo7. Percebe-se, a partir da teoria em testilha, que os dogmas jurdicos

    so desfraldados como verdadeiros pilares sobre os quais o arcabouo terico

    que compe o Direito se estrutura, segundo a brilhante exposio de Tovar8. Por

    bvio, essa concep