Dante. Allighieri!Da Linguagem Vulgar

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DA LINGUAGEM VULGAR Dante AlighieriTraduo de Paulo Costa Galvo

NDICELIVRO PRIMEIRO I II III IV V VI VII VIII

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IX X XI XII XIII XIV XV XVI XVII XVIII XIX LIVRO SEGUNDO I II III IV V VI VII VIII IX X XI XII XIII XIV Esta edio

LIVRO PRIMEIROI 1. No encontrando ningum que, antes de ns, tivesse falado sobre a doutrina da eloqncia vulgar, e vendo que a eloqncia necessria a quase todas as pessoas, e no apenas os homens, mas tambm as mulheres e as crianas procuram conquist-la se a natureza o permite; e tambm desejando iluminar as inteligncias das pessoas que andam pelas ruas como cegas, a maioria achando que as coisas anteriores so posteriores; inspirado pelo Verbo divino, tentaremos ser til linguagem do vulgo: no apenas utilizando a gua de nosso engenho para fazer a bebida, mas adquirindo e compilando dos outros, dando coisas melhores para beber, para podermos da servir o hidromel dulcssimo. 2. Porm, no sendo preciso provar cada doutrina, mas esclarecer a sua idia, para que todos saibam do que se trata, dizemos, de imediato reagindo, que chamamos lngua vulgar que as crianas aprendem com seus familiares, to logo balbuciam as primeiras palavras: ou, abreviando, chamamos de vulgar a linguagem que adquirimos sem nenhuma regra, apenas imitando a ama. 3. Tambm existe uma outra linguagem, para ns secundria, que os Romanos chamam de "gramtica".

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Tambm os Gregos e outros, mas no todos, possuem esta linguagem secundria; mas poucos conseguem habituar-se a ela, pois somente o tempo e a assiduidade no estudo nos preparam para ela, e desta forma a aprendemos. 4. Entretanto a vulgar a mais nobre das duas, ou porque foi a primeira usada pelo gnero humano, ou por todos a empregarem, embora dividida em vocbulos e construes diversas, ou ainda porque ela nos natural, sendo a outra de preferncia artificial. Nossa inteno tratar da linguagem vulgar, a mais nobre. II 1. Esta a primeira linguagem, e verdadeira: mas nem toda linguagem pode ser chamada "nossa", pois h uma outra linguagem, que no a do homem; mas de todos os seres que existem, somente ao homem foi permitido falar, pois s ao homem foi a fala necessria. No houve necessidade de que os Anjos e os animais inferiores falassem, pois seria intil lhes conceder este privilgio, e a natureza tem averso a gestos inteis. 2. Mas se considerarmos com ateno nosso objetivo quando falamos, veremos ser ele apenas esclarecer aos outros os conceitos da nossa mente. Por terem os Anjos uma suficincia intelectual mui pronta e inefvel para exprimir suas concepes gloriosas, pela qual se manifestam reciprocamente per se totalmente, ou pelo menos por aquele espelho fugidio no qual todos se refletem muito belos, e miram-se com deleite, parece no terem nenhuma preciso de linguagem. 3. E se algum objetar com o argumento dos espritos que prevaricaram, podemos responder de duas maneiras. Primeiro: quando tratamos do que necessrio ao bem estar do homem, devemos deixar de lado estes maus espritos, porque no aceitaram a tutela divina. O segundo argumento, melhor, que os prprios demnios, para manifestar entre si a sua perfdia, precisam saber apenas alguma coisa deles mesmos , por que existem, sua quantidade; e o sabem, pois se conheceram uns aos outros antes de sua queda. 4. Nem foi preciso dar uma linguagem aos animais inferiores, por serem eles guiados somente pelo instinto natural; so da mesma espcie os atos e paixes comuns a todos; e os alheios so conhecidos pelos prprios. E para os que so de espcies diferentes, no apenas a fala foi desnecessria, mas ela seria prejudicial, porque no h entre eles relao amigvel. 5. E se algum objetar com a serpente que primeiro falou mulher, ou com a Burra de Balao, que falou tambm, responderemos que nesta ltima atuou um anjo, e na primeira um diabo, e os animais s fizeram seus rgos funcionar, de modo que a voz se produziu clara, como fala verdadeira, e no como o zurrar da burra ou o chiar da serpente. 6. Mas se algum pelo contrrio argumentar com o que diz Ovdio no quinto captulo das Metamorfoses , sobre os peixes que falavam, afirmamos que ele usou linguagem figurada, dando a entender outra coisa. E se algum disser que as pegas ou algumas outras aves falam, respondemos que falso; pois tal ato no elocuo, mas imitao do som da voz humana. Portanto, se algum dissesse "pega" e o eco repetisse "pega", seria apenas representao ou imitao do som antes emitido. 7. Fica assim claro que o falar foi conferido somente ao homem. E vamos em breve procurar dizer por que isto lhe foi necessrio.

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III 1. Por no ser conduzido pelo instinto natural, mas pela razo, e sendo esta razo diferente em cada um, quanto discrio, ao juzo ou escolha; e parece que cada indivduo sente-se bem em sua prpria espcie; julgamos que nenhum ser reage mais em funo de impulsos ou paixes quanto o animal irracional; nenhum outro mais do que pela especulao espiritual como o Anjo; acontece que um penetra o outro; e o esprito humano obscurecido pela extenso e pela sombra do corpo humano. 2. Foi portanto conveniente que os integrantes do gnero humano, para comunicar suas concepes entre si, tivesse alguma caracterstica racional e sensvel; e tendo que receber da razo e conduzir razo, esta caracterstica devia ser racional necessariamente; e tambm sensvel, porque nada se pode transmitir de uma razo a outra, seno por um meio sensvel; porque sendo apenas racional, a palavra no poderia se transmitir; e sendo apenas sensvel, seria impossvel ela provir da razo ou ser levada a ela. 3. Na verdade, esta condio o prprio sujeito nobre que mencionamos; sensvel enquanto som; racional, enquanto parece significar algo que agrada. IV 1. A fala foi concedida somente ao homem, conforme ficou claro pelo que j dissemos. Agora devemos indagar que espcie de articulao foi dada primeiro ao homem, e o que ele falou, e a quem, e onde, e quando, e em que idioma proferiu sua primeira locuo. 2. Entretanto pelo que se l no princpio do Gnesis, onde a escritura sacratssima trata dos primrdios do mundo, vemos que a mulher falou antes de todos os seres, ou seja, a mui presunosa Eva, respondendo pergunta do demnio: "Ns nos alimentamos dos frutos das rvores no paraso: mas Deus nos proibiu de comer o fruto da rvore que est no centro do paraso, e de toc-lo, para no morrermos". 3. Embora na escritura achemos a mulher falando primeiro, todavia razovel pensar que o homem foi o primeiro a falar: no parece conveniente que um ato de tamanha importncia para o gnero humano fosse realizado pela mulher antes que pelo homem. Portanto, julgamos com muita razo que a fala foi dada primeiro a Ado, e por Aquele que o plasmara. 4. O que a voz do homem primeiro falou, no duvido estar claro que foi o que Deus , ou seja, ELE, como pergunta ou como resposta. Pois parece absurdo razo, que o homem proferisse algo que no "Deus", tendo o homem sido feito por Ele e por meio d'Ele. Porque, assim como aps a queda do gnero humano, todo exrdio comea por ai!, razovel pensar que antes o que se passou comeasse por exclamao de alegria: e como nenhuma alegria existe fora de Deus, mas toda alegria est em Deus, sendo o prprio Deus toda a alegria, entende-se que em primeiro lugar e antes de tudo, o homem disse: "Deus"! 5. Agora temos a questo antes mencionada, isto , que o primeiro homem proferiu de incio uma resposta: foi resposta para Deus? E, se foi para Deus, ento Ele se manifestou falando, o que nos parece contrariar o que antes se afirmou. Respondemos que Ado bem poderia estar dando resposta a uma interrogao de Deus, mas Deus no falou necessariamente com linguagem humana. Pois quem duvida de que tudo o existente est sujeito s ordens de Deus? E que com Ele todas as coisas foram feitas e governadas? Portanto, estando o ar sujeito a tantas alteraes pelo poder da natureza inferior, que serva e realizadora da vontade de Deus, que faz ribombar os troves, brilhar o raio, gemer as guas,

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espalhar-se a neve, bater o granizo; no ser o ar levado, por ordem de Deus, a pronunciar algumas palavras, ele prprio as tornando distintas, assim como distinguiu coisas maiores? E por que no? Portanto julgamos serem estas razes suficientes para esta e outras coisas. V 1. Entretanto julgando ( no sem razo, mas com argumentos superiores ou inferiores) que o primeiro homem dirigiu sua palavra antes de tudo ao Senhor, dizemos com razo que ele comeou a falar tudo de imediato, pelo sopro da virtude que o animara. Pois cremos que, no homem, ser percebido mais humano que perceber, contanto que ele perceba e seja percebido como homem. Portanto se o artfice, amante e princpio da perfeio, dando vida alma, dotou o homem de toda a perfeio, a ns parece-nos razovel concluir que este nobilssimo animal comeou antes a ser percebido do que a perceber. 2. Entretanto se algum por objeo dissesse que no era necessrio ao homem falar, pois somente ele existia, e Deus manifestava todos os nossos segredos sem palavras, ainda antes de ns: afirmamos com a reverncia exigida, quando algo considerado verdade eterna que, no obstante Deus conhecer, ou melhor, ter prescincia (o que o mesmo com relao a Deus) dos conceitos que tinha o primeiro falante, Deus quis que ele falasse, para ser glorificado na exibio de tal dote. Ele, que havia concedido esse dote ao homem, grtis. E, por tal razo, devemos crer que em ns existe algo de divino, porque nos alegramos com o ato ordenado aos nossos afetos. 3. Podemos com certeza daqui deduzir o lugar onde primeiro se emitiu a palavra; pois se o homem foi animado fora do paraso, ento foi fora dele; mas se foi no paraso, deduzimos que o local da primeira palavra foi o paraso. VI 1. Considerando que as relaes humanas realizam-se em vrios e diferentes idiomas, de maneira que muitos sejam compreendidos por muitos seus pares, por meio de palavras ou sem elas, conveniente tratarmos agora do idioma, usado como se julga pelo homem sem me, o homem sem leite, aquele que no conheceu a idade infantil nem a