de-bico-verde (Ramphastos dicolorus Linnaeus, 1766)1

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  • Pesq. Vet. Bras. 33(3):399-404, maro 2013

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    RESUMO.- O tucano-de-bico-verde (Ramphastos dicolorus) uma ave encontrada nas florestas tropicais americanas e pertence Ordem Piciforme, Famlia Ramphastidae. Neste trabalho objetivou-se descrever a origem, a ramificao e

    Origem, ramificao e distribuio da artria celaca no tucano--de-bico-verde (Ramphastos dicolorus Linnaeus, 1766)1

    Osrio J. Silva Neto2, Matheus C.B. Rosa2, Thais M.M. Bonifcio2, Adriana Brasil F. Pinto3, Camila S.O. Guimares4 e Gregrio C. Guimares2*

    ABSTRACT.- Silva Neto O.J., Rosa M.C.B., Bonifcio T.M.M., Pinto A.B.F., Guimares C.S.O. & Guimares G.C. 2013. [Origin, ramification and distribution of the celiac artery in the green-billed toucan (Ramphastos dicolorus Linnaeus, 1766).] Origem, ramificao e distribuio da artria celaca no tucano-de-bico-verde (Ramphastos dicolorus Linnaeus, 1766). Pesquisa Veterinria Brasileira 33(3):399-404. Departamento de Medicina Veterin-ria, Universidade Federal de Lavras, Campus Universitrio, Caixa Postal 3037, Lavras, MG 37200-000, Brazil. E-mail: gregorio@dmv.ufla.br

    The green-billed toucan (Ramphastos dicolorus) is a bird found in American tropical fo-rests and belongs to the Order Piciformes, Family Ramphastidae. The aim of this paper is to describe the origin, ramification and distribution of the celiac artery in the green-billed toucan. Three specimens from the Scientific and Cultural Breeding of Poos de Caldas, MG (IBAMA, 2.31.94-00006), donated after death by natural causes, were analyzed. The birds had the right ischiadic artery cannulated for injection of colored latex, and after fixation in 10% formalin solution were dissected. The celiac artery was originated from the descending portion of aorta, giving as the first collateral branch the pro-ventricular dorsal artery. This gave esophageal branches and continued as dorsal gastric artery, with tortuous appearan-ce, ending in anastomosis with the right gastric artery. After a short track, the celiac artery formed two collateral branches, the right and the left. The left branch soon ramified itself to form the ventral pro-ventricular artery with its esophageal branches, left gastric artery, that gave rise to the left hepatic artery, and finally the gastroduodenal artery, which emitted the ventral gastric and duodenal arteries. The right branch of the celiac artery emitted the lienal and right hepatic arteries, continuing as pancreatic-duodenal artery. This gave the dorsal pyloric artery, two right gastric arteries, several duodenal, pancreatic branches and the duodenal-jejunal artery. Thus, the celiac artery in the three specimens of green-billed toucan showed an arrangement resembling that described both in domestic and wild birds.INDEX TERMS: Arterial distribution, green-billed toucan, Ramphastos dicolorus, Ramphastidae, wild birds.

    1 Recebido em 26 de abril de 2012.Aceito para publicao em 5 de novembro de 2012.

    2 Departamento de Medicina Veterinria, Universidade Federal de La-vras (UFLA), Cx. Postal 3037, Lavras, MG 37200-000, Brasil. *Autor para correspondncia: gregorio@dmv.ufla.br

    3 Faculdade de Medicina Veterinria, Pontifcia Universidade Catlica de Minas Gerais (PUC Minas), Av. Padre Francis Cletus Cox 1661, Poos de Caldas, MG 37701-355, Brasil. E-mail: adrianabrasilfp@yahoo.com.br

    4 Disciplina de Patologia Geral, Universidade Federal do Tringulo Mi-neiro (UFTM), Av. Frei Paulino 30, Uberaba, MG 38025-180, Brasil. E-mail: camilasolive@hotmail.com

    a distribuio da artria celaca do tucano-de-bico-verde. Foram utilizados trs espcimes provenientes do Criat-rio Cientfico e Cultural de Poos de Caldas, MG (IBAMA, 2.31.94-00006), doados aps bito por causas naturais. As aves tiveram a artria isquitica direita canulada para inje-o de soluo de ltex corado, e aps fixao em soluo de formol a 10% foram dissecadas. A artria celaca origi-nou-se a partir da poro descendente da aorta, emitindo como primeiro ramo colateral a artria pr-ventricular dorsal. Esta emitiu ramos esofgicos e continuou-se como artria gstrica dorsal, de aspecto tortuoso, terminando em anastomose com a artria gstrica direita. Aps curto traje-to, a artria celaca formou dois ramos colaterais, o esquer-do e o direito. O ramo esquerdo logo se ramificou formando a artria pr-ventricular ventral com seus ramos esofgi-

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    cos, artria gstrica esquerda, que originou a artria hep-tica esquerda, e finalmente a artria gastroduodenal, que emitiu as artrias gstricas ventrais e duodenais. O ramo direito da artria celaca emitiu as artrias lienais e hep-tica direita, continuando-se como artria pancretico-duo-denal. Esta formou a artria pilrica dorsal, duas artrias gstricas direitas, vrios ramos duodenais, pancreticos e a artria duodeno-jejunal. Assim, a artria celaca nos trs espcimes de tucano-de-bico-verde, exibiu um arranjo que se assemelha tanto ao descrito em aves domsticas quanto ao de aves silvestres.TERMOS DE INDEXAO: Distribuio arterial, tucano-de-bico--verde, Ramphastos dicolorus, Ramphastidae, aves silvestres.

    INTRODUOAs espcies da Ordem Piciforme, Famlia Ramphastidae, representam um dos smbolos das florestas tropicais ame-ricanas, estando entre as mais antigas linhagens avirias com descendentes ainda vivos. O agrupamento de indiv-duos nesta Ordem ainda no consensual entre pesquisa-dores, sendo reconhecidas por Galetti et al. (2000) aproxi-madamente 40 espcies de tucanos e araaris. J Piazera & Carvalho Junior (2005) citaram 33 espcies distribudas em seis gneros, ou ainda, de 33 a 41 espcies de acordo com Pires (2008).

    Estas aves so arborcolas, restritas ao neotrpico, distribuem-se desde o Mxico Argentina, vivem em ban-dos e no possuem hbitos migratrios. Atravessam rios e espaos abertos em trajetria ondulada, usualmente em fila indiana, acompanhando a sazonalidade de frutificao das rvores (Guerra 2010). So frugvoras, que se alimen-tam da fruta de figueiras, araazeiros, mandioces, caru-ruzeiros e coquinhos de palmeiras. Sobrevoam cafezais e pomares para comer os frutos ainda verdes e aproveitam tambm aqueles j maduros, que se encontram no solo. Normalmente no deglutem os caroos e so importantes dispersores de sementes. Especialmente os tucanos, po-dem incluir em sua dieta pequenos artrpodes como ara-nhas, cigarras, gafanhotos e filhotes de outras aves ainda no ninho (Sick 1997, Guerra 2010).

    Como caractersticas principais, destacam-se as nari-nas do tipo holorrino, palato desmognato, vmer truncado rostralmente, ps zigodctilos, abertura da glndula uropi-giana circundada por penas, uma hipopena nas penas de cobertura e dez rectrizes. Exibem ainda clavculas curtas, sem fuso na altura do plano mediano, no formando a fr-cula. O trato digestrio curto e no possuem ceco. Alm disso, os Ramphastidae possuem uma morfologia nica e um arranjo tal de suas vrtebras caudais, que os permitem dormir projetando a cauda para frente (Pires 2008).

    O bico dos tucanos possui a borda serreada e, apesar de resistente e com capacidade de lacerar, bem leve. Esse fato ocorre porque se encontram amplas cavidades pneu-mticas em seu interior (Sick 1997, Guerra 2010). Os tu-canos apresentam um dos maiores bicos em relao ao ta-manho corporal entre todas as aves, servindo como caixa de ressonncia, ornamento sexual, alm de ser uma impor-tante rea para a troca de calor, rivalizando com as orelhas

    dos elefantes na sua capacidade de irradiar calor corporal (Tattersall et al. 2009).

    O tucano-de-bico-verde (Ramphastos dicolorus) repre-senta uma espcie de grande importncia ecolgica, tanto na distribuio energtica ao longo da cadeia trfica quan-to na disperso de sementes dentro do sistema ecolgico. Atualmente, a espcie encontra-se ameaada de extino devido degradao e eliminao do seu habitat natural (Piazera & Carvalho Junior 2005).

    A irrigao do trato digestrio das aves, em especial da espcie Gallus gallus domesticus, realizada pelas artrias celaca, mesentrica cranial e mesentrica caudal. A primei-ra responsvel pela irrigao do pr-ventrculo, ventrcu-lo, segmento proximal do intestino delgado, fgado, bao e pncreas (Schwarze & Schrder 1970, Baumel 1981). A se-gunda supre o segmento mdio do intestino, desde uns pou-cos centmetros distalmente flexura duodenojejunal at a regio da juno ileorretal. Da terceira, partem ramos para a parte cranial do reto e cecos, em aves que os possuem, e par-te distal do leo, anastomosando-se com ramos terminais das artrias celaca e mesentrica cranial (Baumel 1981).

    A artria celaca se origina da poro descendente da aorta e possui ramificao muito varivel. Surge entre a 5 e 6 costelas, emite o ramo esofgico, e se divide em dois troncos principais com vrias artrias gstricas para o pr--ventrculo e ventrculo, assim como, uma artria heptica direita e outra esquerda. Entre os dois troncos principais da artria celaca se encontra o bao que recebe duas ou trs artrias lienais. Aps emitir a artria ileocecal que, no pombo (Geeverghese et al. 2012), aparece como artria ile-al, a artria celaca se continua como artria pancretico--duodenal. Em aves domsticas, a artria celaca irriga o es-tmago, o fgado, o bao, o pncreas e o duodeno, tambm o leo e o ceco, com exceo dos elementos situados prximo abertura final do intestino (Schwarze & Schrder 1970).

    Dessa forma, objetivou-se neste estudo, descrever a ori-gem, a ramificao e a distribuio da artria celaca em R. dicolorus, visando fornecer informaes sobre a irrigao dos rgos da cavidade celomtica, responsveis pela ma-nuteno das atividades digestivas. Desse modo, pretende--se contribuir com a anatomia comparada, possibilitando um confronto direto com outros gneros e espcies de aves domsticas e silvestres.

    MATERIAL E MTODOSForam utilizados trs tucanos pertencentes espcie Ramphastos dicolorus. Os espcimes, 1 macho e 2 fmeas, foram doados pelo Cri