De Mauss a Claude Lévi-Strauss - M. Merleau-Ponty

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A sociologia torna-seo que atualmentechamamos antropologia social termo que se difunde na Frana, embora j usual em outros lugares - quando admite que o social,como o prprio homem, tem dois plos ou duas faces: signiflrcante,pode-secompreendlo de dentro, e, ao mesmo tempo, a inteno pessoal encontra-senele generalizada, amortecida, tende para o processo,estnsegundoa clebreexpresso, mediatizadapelascoisas.Ora, na Frana, ningum como Marcel Mauss antecipouessasociologia mais elstica.Sob muitos aspectos, antroa pologia social a obta de Mauss continuandoa viver sob nossosolhos. Aps vinte e cinco anos, o famoso "Ensaio sobre o Dom, forma arcaica da Troca" acabade ser traduzido para os leitores anglo-saxes com um prefcio de pessoas",escreveLvi-Strauss, Evans-Pritchard."Poucas "puderam ler o'Ensaio sobre o Dom' sem ter a certeza ainda indefinvel, mas imperiosa, de assistir a um acontecimento decisivo para a evoluo cientfica." Essa lembrana deixada por aquelemomento da sociologiafaz com que valha a pena rememor-lo. A nova cincia havia pretendido, segundoas palavras bem conhecidasde Durkheim, tratar os fatos sociais como "coisas" e no mais como "sistema de idiasobjetivadas". Mas, to logo tentava precisaro social, s conseguia defini-lo como "psquico". Tratava-se, dizia-se, de "representa$es" que simplesmente eram "coletivas" em vez de seremindividuais.bonde a idia to discutida de uma n'conscincia coletiva", tomada como um ser distinto no corao da histria. A relao entre ela e o indiduo permanecia exterior como se fora a relao entre duas coisas. Aquilo que se outorgava explicao sociolgica era roubado da explicaopsicolgicaou isiolgica e reciprocamente. Alm disso, Durkheim propunha, sob o nome de morfologia social, uma gnese ideal das sociedades pela combinao de sociedades elementares e pela e composiodos compostosentre si. O simples era confundido com o essencial com o antigo. Por sua vez, a.idia, de Lvy-Bruhl a respeitode uma "mentalidadeI As anlisesde Merleau-Pontya respeitodas implica@esepistemolgicas ontolgicasda antropologia e reinanteno que na contmas esperanas o filsofo depositava noo de estruturacom sadapara o impasse pensrmento ocidental desde Descartes,qual seja, a dicotomia coisa-conscincia, sujeito-objeto. Essa ao que esperana, tambmaparece ensaio"O metafisicono homem", leva Merleau-Ponty elogio dos trano que o filsofo compreendera projeto cientfico, seu Este,por sua vez, considerando balhos de Lvi-Strauss. Sauvage, cuj prlogo lemos:"Aqueles que se aproximaramde ns, de Merleauem dedicoulhe La Pense explialgumasdas razesque tornam desnecessrio Ponty e de mim. no decursodos ltimos anos,conhecem car por que estelivro, que desenvolve lhe livremente alguns no temasde meuscursos Colgiode Frana, foi de vivo, como continuao dedicado,E terhe-ia sido dedicadode qualquermaneirase tivessepermanecido de um di{ogocujo comeodata de 1930. . . E visto que a morte o roubou subitamente ns, que estelivro e fique dedicado suamemria,comotestemunho fidelidade,reconhecimento afeto".(N. do T.) de

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pr-lgica" no nos dava uma abertura para o que h de irredutvel nas culturas ditas arcaicasquando confrontadascom a nossa,visto que as congelavaem uma diferenaintransponvel.Das duas maneiras a escolafrancesafalhava no acesso ao outro que, no obstante, a prpria definio da sociologia. Como o compreender outro sem sacrific-lo nossalgicae sem sacrific-laaele?Assimilando muito depressao real a nossasidias ou, ento, declarando-oimpermevel, a sociologia falava como se pudessesobrevoarseu objeto e o socilogo pacienteno objeto e a era um observadorabsoluto.2 Faltava uma penetrao comunicao com ele. Marcel Mauss, ao contrrio, praticou-as instintivamente.Seu ensino e sua obra no polemizam com os princpios da escola francesa.Sobrinho e colaborador de Durkheim, tinha todos os motivos para fazer-lhejustia. A diferena explode na sua maneira de entrar em contato com o social. No estudo da magia, dizia ele, as variaes concomitantes e as correlaes deixam um resduo qtue pois nele se encontramas razesprofundasda crena.Era prepreciso descrever, l-lo ou decifrlo. E estaleiciso, ento,penetrarno fenmenopelo pensamento, tura consiste sempre em aprender o modo de troca que se constitui entre os homens por meio da instituio, as conexes e equivalncias que estabelece,a maneira sistemticacomo regula o empregodos utenslios,dos produtos manufaturados ou alimentcios,das rmulas mgicas, dos ornamentos,cantos, danas, elementosmticos, como a lngua regula o empregodos fonemas,morfemas,vocabulario e sintaxe. Esse fato social, que j no uma regularidade compacta, mas no um sistemaefrcazde smbolosou uma rede de valores simblicos,vai inserir-se profundo. Contudo, a regulaoque circunscreve indiduo no o individual mais o suprime.No h mais que escolherentre o individual e o coletivo. "O verdadeiro", escreve Mauss,"no a precenem o direito, mas o melansio tal ou tal de ilha, Roma, Atenas." Assim, tambm no h mais o simplesabsoluto,nem a pumais ou menos ra soma,mas em toda parte,totalidades conjuntosarticulados ou pretensosincretismoda mentalidadeprimitiva, Mauss observouoposiricos. No es to importantes para elequanto as famosas"participaes".3 Concebendo2 Cf. a mesmacrtica do "pensamento sobrevo"e do "espectador de absoluto" n O Olho e o Esprito,"O indiretae asvozesdo silncio".(N. do T.) metaisico homem" e "A linguagem no 3 Em La Pense Sauvage, Lvi-Strauss, continuandoa linhagemde Mausse da etnologiade Morgane Boas, por participao" que Lvy-Bruhl atribua aos o tambmrecusaa "mentalidadepr-l6gicaz'e "pensamento "primitivos". No captulo 1.o,denominado"A Cincia do Concreto", Lvi-Strausscritica o pressuposto do daquelaatribuio,qual seja,a incapacidade "primitivo" para alcanaro pensamento abstrato.Para dar fornecedois exemplos: uma idia do nvel de abstraoa que o "primitivo" pode chegar,Lvi-Strauss "A proposio:o homemmalvadomatou a pobrecriana,em Chinook seexprimeda seguinte maneira:a maldade do homemmtou a pobrezada criana.E para dizer que uma mulher utiliza um cestomuito pequeno dizse: coloca razesna pequenez um cestopara conchas".E mais adiante,o antroplogoafirma: "Como nas de lnguasdos oficios, a proliferaoconceitualcorresponde uma atenomais detida sobreas propriedades a que se possamfazer. Estegosto pelo conhecimento do real, a um interesse mais despertopara as distirres objetivo constitui um dos aspectos mais esquecidos pensamento do dos que chamamosde 'primitivos'. Se raras vezessedirige para realidades mesmonvel em que se movea cinciamoderna,supeaSes intelecdo tuais e mtodosde observao comparveis. Nos dois casos, universo objeto de pensamento tanto quanto meio para satisfazer necessidades". pensamento O "primitiv" rro pr-lgico- uma lgicado concreto cuja peculiaridade "situar-sea meio caminho entreos preceitose os conceitos",e esteintervalo a regio

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conseguiu encontraro meio para respeitara realidao social como simbolismo" de do indivduo, a do social e a variedadedas culturas sem torn-las impermeveis uma outra. Uma razo alargadadevia ser cap.az penetrar at no irraciode nal da magia e do dom. "Antes de tudo", dizia ele," precisotraar o maior catlogo possvelde categorias; preciso partir de todas aquelasque pudermos saber que foram usadaspelos homens. Ver-se-,ento, que ainda h muitas luas mortas, plidas ou obscurasno firmamento da azo..." Porm, Mauss possuamais essaintuio do social do que uma teoria explcita dele. Talvez seja por isso qqe, no momento de concluir, permanea aqum de sua descoberta.Procura o princpio da troca no Hau e no Mana. Noes enigmticas que tbrnecem menos uma teoria do fato social e mais uma reproduo da teoria indgena. Na realidade,designam apenasuma espciede cimento afetivo entre a multido de fatos que preciso vincular. No entanto, so estes fatos inicialmentedistintos para que se procure reuni-los?A sntese no primeira? O para o indiduo, a evidncia de certas rela$es de Mana no , precisamente, equivalncia entre o que ele d, recebee devolve, a experinciade um certo desvio de si mesmo e do equilbrio institucional com outros, o fato primeiro de uma dupla refernciada conduta a si e ao outro, a exignciade uma totalidade invisvel de que ele e o outro so, aos seusolhos, elementossubstituveis? Neste caso, a troca no seria um efeito da sociedade, mas a prpria sociedade ato. O que h em de luminosono Mana decorreria essncia simbolismoe tornar-se-ia da do acessvel para ns atravs dos paradoxos da palavra e da relao com o outro - anlogo ao "fonema zeo" de que falam os lingistas que, em si mesmo desprovido de valor assinalvel,ope-se ausncia de fonemas, ou ainda, ao "significante flutuante", que nada articula e, no entanto, abre um campo de significao possvel. Contudo, ao falarmos dessamaneira,j estamosseguindoo movimento de Mauss para almdo que ele dissee escreveu, vemo-lo retrospectivamente persna pectiva da antropologia social, j atravessamosa fronteira de outra concepo e de outra abordagem do social, representada brilhantemente por Claude Lvi-Strauss.

A nova concepo vai denominar estrutura maneira como a troca est organizada em um setor da sociedade ou na sociedade inteira. Os fatos sociais no so coisas nem idias: so estruturas. O termo, hoje bastante empregado, tinha, no incio, um sentido preciso. Entre os psilogos servia para designaras configuraesdo campo perceptivo,totalidades articuladas por certas linhas de fora, nas quais e das quais todo fenmeno recebe seu valor local. Tambm na lingstica, a estrutura um sistemaconcreto,encarnado.Quando Saussure dizia que o signo lingstico diacrtico - que opera apenasgraas sua diferena,

do signo,Por isso, Merleau-Ponty frisar que com Lvi-straussa antropologiacontribui para a constituio (N. humanascomo "cinciassemiolgicas". do T.) das cincias

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por uma certa distncia entre ele-e os outros signos e no pela evocao de uma significao positiva - tornava