Deleuze, diagramas, e arte esquizofrênica - Dan O' - Deleuze Diagramas e Arte  ·

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Deleuze, diagramas, e arte esquizofrnica

Eu gostaria de comear explicando o significado de alguns termos deleuzianos; depois, eu gostaria de mostrar-lhes alguns quadros feitos por artistas psicticos, como maneira de sugerir que tipo de relao Deleuze tinha com tal arte, e para mostrar como um entendimento de tal arte pode ajudar a compreender uma ontologia deleuziana. Deleuze e Guattari descrevem um espao de conexes, um planmeno, no qual ocorre a morfognese. Este foco de sua filosofia pode ser descrito como um behaviorismo da matria, mas como pode algum dirigir o foco para o que , por definio, abstrato, virtual e, portanto, irrepresentvel? Deleuze usa a palavra diagrama para denotar os vrios tipos possveis de morfognese mas Manuel DeLanda avisa-nos de que para Deleuze, diagramas no tm conexo intrnseca com representaes visuais1. Sendo fundamentalmente mltiplos, os diagramas de Deleuze no se prestam a figuraes. H, contudo, um conhecido exerccio mental na diagramao deleuziana, emprestado dos fsicos, o de

1 Manuel DeLanda, 'Deleuze, Diagrams, and the Genesis of

Form', Amerikastudien/American Studies 45.1 (2000), 33 - 41 (p. 33).

Palestra dada no Colquio DELEUZE & GUATTARI: Filosofia Prtica, Palcio Gustavo Capanema sede regional do Ministrio da Cultura no Rio de Janeiro, 30 Agosto 2 Setembro 2011. Trad. por Cntia Vieira da Silva, Universidade Federal de Ouro Preto

Dan OHara

Centre for Fine Art Research

Birmingham City University

dan@danohara.co.uk

tentar visualizar simultaneamente todas as dimenses nas quais uma bicicleta tem liberdade de movimento, o movimento dos pedais, o girar do guidon, o giro das rodas, e assim por diante2. Pinturas futuristas tentam algo similar ao tentar representar figuras em movimento, mas os violinistas de muitos dedos de Balla, na verdade, no mapeiam as potencialidades materiais dos estados que se propem a representar.

Figura 1 : La Mano del Violinista, Giacomo Balla, 1912

Antes eles nos mostram a aparncia de tal ente ao olho humano, sujeito a apenas uma dimenso adicional: a do tempo. A maneira Futurista de representao fundamentalmente fenomenolgica, portanto, incapaz de mostrar as dimenses do virtual. Contudo, como

2 Ver Manuel DeLanda, 'Nonorganic Life', Zone 6: Incorporations,

ed. por Jonathan Crary e Sanford Kwinter (New York: Zone, 1992), pp. 128 - 167.

parte de um experimento do pensamento para determinar o que os diagramas deleuzianos no so, tais pinturas futuristas ajudam-nos a defini-lo por eliminao. Como podemos, ento, ver o que acontece no planmeno? Deixe-me primeiro defini-lo. Se por fenmeno entendemos o mundo como nos aparece, e por Noumeno, o mundo tal como , a despeito das aparncias, o planmeno parte do ltimo: a parte do mundo que , e que no tem aparncia.

Figura 2: Os trs nveis do teatro grego

Podemos pensar no planmenos como a rea por trs da cena de um teatro -no a coxia, mas a rea que contm o maquinrio e todas as propriedades do palco. O planmeno no o prprio maquinrio, mas, por necessidade, deve haver um lugar em que o maquinrio fica escondido da vista.

Figura 3: As formas da eccyclema

O que se requer deste espao, para criar todas as iluses que testemunhamos no palco (o mundo dos fenmenos) que ele esteja disponvel para o uso do maquinrio (a mquina abstrata). As duas se aliam na manufatura da pea, da ao (o mundo aparente). Eles so, de fato, as condies de aparecimento das formas que vemos no palco. apenas quando o maquinrio combina com o espao para expressarem um e outro tal possibilidade que uma forma emerge (ou seja, forma as possibilidades combinatrias do processo relacional do phyllum maqunico). O que vemos pode, s vezes, confundir e espantar nosso entendimento, como o faz o deus ex machina, o deus emergindo do vo sobre o palco3.

3 Esta frase, susualmente traduzida como deus da mquina ,

portanto, traduzida com maior propriedade e de maneira mais esclarecedora como o deus do maquinrio. Ver Oliver Taplin, Greek Tragedy in Action (London: Routledge, 1978; repr. 1997), pp. 11-2, 16. Taplin nota que tanto mchan (o instrumento que era possielmente usado para o deus ex machina, e certamente pra o propsito de voar) e ekkyklma (uma plataforma mvel sobre rodas) so ambos "peas de maquinrio de palco" (p. 16), o que implica que maquinrio seja melhor entendido como uma categoria de tcnicas do que como um conjunto de objetos.

Figura 4: Deus ex machina

Mas de uma perspectiva mais ampla, o maquinrio inteiramente real: noumeno contm planmeno e fenmeno. Assim, o planmeno pode ser pensado como o espao que contm o maquinrio; mas o que o maquinrio? O planmeno (CsO) refere-se a um espao que contm o momentum de matria, que a afasta, entropicamente, da organizao. Contudo, h um paradoxo: esforando-se em direo ao caos, tem que exibir intensidades e tendncias dirigidas tais que podem ser apropriadas por propriedades da imanncia inclinadas a criar um ordenamento da matria. Estas outras propriedades, os elementos organizadores, so chamados de mquina abstrata na terminologia deleuziana: um processo imanente que guia a

organizao da matria e a gnese das formas. Esta mquina abstrata, contudo, pode ignorar as formas que pode vir a produzir, assim como o DNA ignora a forma dos corpos: um conjunto massivo de instrues, de diagramas de engenharia, que governa como a matria deveria se comportar. E, como o DNA, tanto um conjunto de instrues, quanto os meios de sua prpria construo e propagao, uma combinao de codificao e territorializao. Deleuze afirma: A mquina abstrata pura funo da matria: um diagrama independente de todas as formas e substncias, expresses e contedos que ir distribuir4. O que Deleuze diz aqui que a matria est sujeito a um processo imanente que gera forma. Tal processo duplo: o esforo de se afastar da forma feito pelo planmeno, que alimenta as capacidades morfogenticas, ou geradoras de forma, da mquina abstrata e prov o espao de pura relao onde a mquina abstrata pode determinar todas as conexes ordenadoras. Na teoria do caos, a tendncia entrpica ao equilbrio , de fato, complementar aos processos geradores de ordem de espaos fsicos oscilantes este o mesmo processo que Deleuze descreve. O poema de Michael Donaghy, Mquinas, refere-se ao paradoxo do movimento de uma bicicleta, sobre a qual um ciclista Apenas por movimento pode equilibrar-se/ apenas por equilbrio pode mover-se5. Esta imagem

4 Gilles Deleuze, Difference and Repetition, trans. by Paul Patton

(London: Athlone, 1994), p. 141.

5 Michael Donaghy, Shibboleth (Oxford: Oxford University Press, 1988; repr. 1990), p. 1.

corresponde nitidamente paradoxal co-dependncia pelos dois termos de Deleuze, pois tanto captura (em seu sentido), quanto imita (em sua forma quiasmtica) a relao precria entre o impulso para longe da organizao (a tendncia do ciclista de cair) e a funo-matria (o diagrama de engenharia da ao que o ciclista aplica para organizar todo o conjunto homem-bicicleta em movimento ordenado). Ento, se impossvel representar diagramas deleuzianos, porque Deleuze foi to apaixonado por pinturas de esquizofrnicos? Em O Anti-dipo, Mil plats, em O que a filosofia?, ele menciona constantemente o dirio de Jean Dubuffet, Les cahiers de L'Art brut, e em Conversaes ele at descreve a si mesmo como um filsofo naf, produzindo uma espcie de art brut. Philosophie brut: filosofia crua. Vou mostrar a vocs algo do que Deleuze prefere em termos de arte esquizofrnica, para ver se pdoemos entender a conexo com sua filosofia.

Robert Gie

Figura 5.: L'homme robot, Robert Gie, c1916

Robert Gie foi um dos artistas a ser publicados em Art brut. Gie, um esquizofrnico, desenhou diagramas ou mapas de dois homens idnticos conectados por uma rede de correntes ou cheiros. As notas do registro do hospital observam que ele provavelmente queria documentar e representar sua dor fsica percebida, alucinatria ou no. Os esquizofrnicos representam a dor fsica em seus desenhos com freqncia, como vemos tambm no caso de Joey, o garoto mecnico, de Bruno Bettelheim, que Deleuze discute em O Anti-dipo. O garoto pintado de Joey, sempre com o trato digestivo esboado como se fosse externalizado embora, claro, anatomicamente o trato gatrointestinal

esteja no interior do corpo - uma representao direta de suas dificuldades com o controle do intestino6.

Figura 6: Joey the mechanical boy, c1955

6 luz das sublinhadas recentes conexes entre autismo e

enfermidades intestinais, preciso considerar se Joey no est, de fato, documentando tambm a dor fsica de uma doena associada mas no diagnosticada e no tratada nos intestinos.

[Joey tambm desenhou uma mquina que o impedia de falar, mas tambm o poupava de perder as tripas ao defecar]

Figura 7: Joey, blinderator, c1955

De maneira similar, Gie representa o torso oco, e, em alguns casos, os membros transparentes, virando o corpo do avesso.

Figura 8: Robert Gie, c1916.

Isto apenas uma mquina imaginria, parte dos delrios de um homem. Mas na verdade exatamente esta mesma mquina aparece em vrias psicoses. Por que?

Figura 9: Proofs, Jakob Mohr, c1910.

O desenho de Jakob Mohr, Proofs, pinta um operador manipulando uma caixa da qual emergem correntes

eltricas pontiagudas; estas linhas atingem e penetram uma figura, em um diagrama, em linha ascendente, em outro, em linha reta sobre as quais esto desenhadas flechas indicando eixos de movimento7.

Figuras 10 & 11: Robert