DESCOLONIZAÇÃO CURRICULAR A Filosofia ?· Descolonização Curricular: a Filosofia Africana ... questão…

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  • DESCOLONIZAO CURRICULAR

    A Filosofia Africana no Ensino Mdio

  • Lus Thiago Freire Dantas

  • Descolonizao Curricular: a Filosofia Africana no ensino mdio

    Lus Thiago Freire Dantas

    DESCOLONIZAO CURRICULAR

    A Filosofia Africana no Ensino Mdio

    1 Edio - 2015

    So Paulo

  • Lus Thiago Freire Dantas

    Copyleft

    Este livro ou parte dele pode ser copiado e reproduzido desde que sua

    utilizao seja para fins estritamente educacionais e/ou acadmicos, a

    autoria deve ser citada. Para fins mercadolgicos ou pessoais necessria a

    autorizao do autor.

    Catalogao na publicao (CIP). Ficha catalogrfica feita pelo autor. Smbolo Denkyemfunefu extrado de Adinkra: sabedoria em smbolos africanos, livro de autoria de Elisa

    Larkin Nascimento e Luis Carlos G, cujo significado a democracia e unidade. Reviso: Dbora Cristina de Araujo Capa: Lus Thiago Freire Dantas

    Esta obra resultado de um texto que foi originalmente escrito para a

    monografia de concluso do Curso de Especializao em Educao das

    Relaes tnico-Raciais, promovido pelo NEAB UFPR e sofreu alteraes

    para melhor se adaptar ao formato.

    D192 Dantas, Lus Thiago Freire. Descolonizao Curricular: a Filosofia Africana

    no ensino mdio / Lus Thiago Freire Dantas. So Paulo: Editora PerSe, 2015.

    118 f.

    ISBN: 978-85-8196-949-7

    1. Filosofia Estudo e ensino 2. Filosofia Africana.

    3. Currculo Escolar 4. Estudos Descoloniais I. Ttulo.

    CDD: 107

    CDU: 37.06/09

  • Descolonizao Curricular: a Filosofia Africana no ensino mdio

    Dedico este trabalho s professoras e

    aos professores de filosofia que fazem

    do ensino mdio o seu campo de

    experincia.

  • Lus Thiago Freire Dantas

  • Descolonizao Curricular: a Filosofia Africana no ensino mdio

    AGRADECIMENTOS

    A produo deste livro foi possibilitada pelas diversas

    pessoas que contriburam de algum modo para a

    produo desse trabalho:

    Dbora Cristina de Araujo, cujo amor, companheirismo

    e incentivo me ajudaram e ajudam na crena que o

    caminho pode ser repleto de alegrias.

    Prof. Dr. Hector Guerra, cuja orientao trouxe-me

    enormes contribuies para o desenvolvimento do tema.

    Os professores, as professoras e colegas da

    especializao em Educao tnico-Racial do NEAB-

    UFPR que proporcionaram novos questionamentos e

    conversas gratificantes.

    Minha av, Maria Anita (in memoriam) smbolo de f e

    otimismo para vida.

    Minha me, Maria Tereza, com amor nutriu esperana

    para o florescimento do carter e perseguio dos

    objetivos. Os demais familiares que sempre torcem pelo

    meu sucesso.

    Amigos e colegas, Daniel Galantin, Marcus Paranhos,

    Gustavo Fontes, Gustavo Jugend, Marco Antnio

    Valentim, Paulo Ugolini, Roberto Jardim, Renato

    Noguera, Srgio Nascimento, Wagner Bitencourt.

    NEAB/UFPR por realizar a especializao que ajuda a

    construir cidados conscientes do panorama tnico-

    racial do Brasil;

    Ogun por me proteger e guiar-me pelos caminhos que

    abriram na minha vida.

  • Lus Thiago Freire Dantas

  • Descolonizao Curricular: a Filosofia Africana no ensino mdio

    certo que nem o conhecimento racional uma

    propriedade privada do pensamento ocidental

    moderno, nem tampouco a superstio uma

    peculiaridade das populaes africanas.

    WIREDU, KWASI

  • Lus Thiago Freire Dantas

    Prefcio 11

    Introduo 19

    Captulo 1

    O eurocentrismo e seus crticos 36

    1.1 Europa: uma inveno ideolgica 36

    1.2 Colonialidade do poder 42

    1.3 A desobedincia do conhecimento marginal 47

    Captulo 2

    O conhecimento de fronteira 54

    2.1 Identidade em filosofia: Towa e Heidegger 55

    2.2 O conceito Ubuntu de justia 66

    2.3 Aspectos do afrocentricidade 77

    Interldio: sntese dos captulos 1 e 2 90

    Captulo 3

    Currculo Afroperspectivista 92

    3.1 Diretrizes Curriculares de Filosofia do Paran 93

    3.2 Enegrecendo o currculo de filosofia 105

    Em-fim um novo horizonte? 117

    Referncias 119

  • Descolonizao Curricular: a Filosofia Africana no ensino mdio

    PREFCIO

    possvel uma filosofia fora dos preceitos

    eurocentrados?

    Prof. Dr. Hector Guerra Hernandez

    Departamento de Histria

    Universidade Federal do Paran

    PRESENTE trabalho prope responder

    esta pergunta, sua resposta vai depender

    da reflexo e abertura s leituras eclticas e ainda no

    padronizadas dos leitores e das leitoras. O desafio de

    questionar os regimes de verdade que sustentam a

    produo de conhecimento e, desta maneira, apostar

    por uma ressignificao crtica do lugar de enunciao

    epistmico, mesmo sabendo que o marco conceitual e

    sistemas de categorizao esto determinados pela

    ordem epistemolgica ocidental que se pretende

    criticar1, constitui o mrito desta obra. Mesmo

    condicionado pelo dito marco conceitual,

    Descolonizar o conhecimento deveria ser uma prtica

    1 Esta uma preocupao, seja como crtica ou oportunidade,

    aparece na reflexo de muitos autores na frica como em sia e Amrica latina, aqui resgato a reflexo de Valentin Mudimbe: A questo em causa que, at agora, tanto interpretes ocidentais como analistas africanos tm vindo a usar categorias de anlise e sistemas conceituais que dependem de uma ordem epistemolgica ocidental. Mesmo nas mais evidentes descries afrocntricas, os modelos de anlise utilizados referem-se, direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente mesma ordem. (MUDIMBE, V. 2013, p. 10).

    O

  • Lus Thiago Freire Dantas

    instaurada no ethos das nossas instituies de

    formao. Infelizmente, continuamos lidando com o

    exerccio da repetio de um dispositivo hegemnico

    de transferncia de conhecimento formatado pelo que

    Ramn Grosfoguel (2014) definiu como "sistema-

    mundo ocidentalizado moderno/colonial cristo-

    cntrico capitalista/patriarcal2. Na contramo deste

    exerccio de repetio que se coloca a proposta de

    Lus Thiago Dantas abrindo mo de dcadas de

    debates cruzados e teorias indisciplinadas

    (RICHARD, 1998)3 produzidas por autores e autoras

    que, por motivos de espao, reduziremos a definir

    como ps-coloniais4.

    2 E como o autor mesmo esclarecer o uso desta definio um tanto comprida e complexa: An a riesgo de sonar ridculo, preferimos utilizar una frase extensa como sta para caracterizar la actual estructura heterrquica (mltiples jerarquas de poder enredadas entre s de maneras histricamente complejas) del sistema-mundo, antes que la limitada caracterizacin de una sola jerarqua llamada 'sistema-mundo capitalista'(GROSFOGUEL, 2014, p. 84). 3 Sobre a ideia de indisciplina na teorizao, vide Richard, 1997. 4 Sob o termo "ps-colonial" poderamos aceitar que inicialmente estariam reunidas um conjunto de estudos socioculturais e histricos que vo desde a crtica do colonialismo europeu na dcada de 40 e 50, passando pela teoria do imperialismo dos 70, at as confrontaes temticas sobre os fenmenos da dispora, migrao e racismo dos anos 80 e 90 (GUTIERREZ, 2003). Para Mignolo (2005), o termo ps-colonial seria uma expresso no mnimo ambgua, perigosa e confusa. Ambgua, porque abrange e homogeniza diversas histrias coloniais e processos de descolonizao, localizados em diversos espaos e tempos. Perigosa, porque esconde a potencialidade discursiva de constituir-se como uma oposio hierarquia estabelecida na circulao e distribuio de conhecimento. Mas confusa, tambm, porque cria a

  • Descolonizao Curricular: a Filosofia Africana no ensino mdio

    Autores e autoras oriundos/as de um sul

    global que optaram a produzir diferentes

    possibilidades heursticas e de anlise, movidos/as

    por uma desconfiana frente a um discurso

    eurocentrado (ps-moderno) que anunciara dcadas

    atrs o colapso das pretenses universalizantes do

    modelo ocidental dominante e seu legado de

    transcendncia e finalismos histricos. Situao que

    supostamente abriria as possibilidades para uma

    crtica pluriversal que tendiam a revalorizar as

    margens construdas historicamente em torno deste

    modelo. Esta desconfiana se fundou precisamente

    em torno deste discurso sobre descentramentos, pois,

    ao invs de promover a incluso de outros saberes e

    conhecimentos, tem transformando essa crise

    paradigmtica em uma nova e grande narrativa,

    incapaz de desafiar as estruturas de poder existentes,

    nem as hierarquias e violncias que continua

    reproduzindo.

    Em nossas regies ainda paira a ideia de que a

    epistemologia moderna, e dentro dela a prpria

    filosofia, seria o produto de processos histricos

    constitutivos que iriam desde o renascimento

    expanso do cristianismo ps-reforma, junto com o

    capitalismo e a emergncia do circuito comercial do

    ideia de excepcionalidade, sobretudo porque com categorias como hibridizao, mestiagem, entre tantas outras, sugere-se a ideia de descontinuidade entre a configurao colonial do objeto de estudo e a posio ps-colonial do lugar da teoria.

  • Lus Thiago Freire Dantas

    Atlntico. No entanto, as histrias e processos que

    participaram na constituio do