Desenv Liberdade

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  • Faculdade de Economia do Porto Programa de Doutoramento em Economia

    Amartya Sen

    Desenvolvimento como Liberdade

    Joo Oliveira Correia da Silva

  • PREFCIO Situao Actual Pontos positivos:

    - abundncia nunca vista; - governo democrtico e participativo; - direitos humanos e liberdade poltica no discurso dominante; - esperana de vida elevada; - grande interaco entre as diferentes zonas do globo.

    Situao Actual Pontos negativos:

    - persistncia da pobreza e necessidades elementares insatisfeitas; - fome e subnutrio; - violaes das liberdades polticas e das liberdades bsicas; - desprezo pelos interesses e actividades das mulheres; - ameaas ao ambiente e sustentabilidade da nossa vida econmica e

    social; A superao destes problemas central ao exerccio do desenvolvimento. A aco individual essencial nesse sentido, mas a sua liberdade de aco condicionada pelas oportunidades sociais, polticas e econmicas. Existe uma complementaridade entre aco individual e agenciamentos sociais. A expanso da liberdade o fim prioritrio e, simultaneamente, o meio principal do desenvolvimento. O desenvolvimento consiste na remoo de vrios tipos de restries que deixam s pessoas pouca escolha e pouca oportunidade para exercerem a sua aco racional. Certas liberdades tm um papel instrumental na promoo de liberdades de outras espcies. As liberdades econmica e poltica reforam-se uma outra. Oportunidades sociais de educao e sade complementam as oportunidades individuais de participao econmica e poltica, e estimulam as nossas iniciativas no sentido de superar privaes. O ponto de partida desta abordagem reside na identificao da liberdade como o principal objecto do desenvolvimento; o alcance da anlise poltica consiste em estabelecer os nexos que tornam este ponto de partida coerente e consistente. Configura-se a necessidade de uma anlise integrada das actividades econmicas, sociais e polticas, particularmente das interaces entre certas cruciais liberdades instrumentais:

    - oportunidades econmicas; - liberdades polticas; - servios sociais; - garantias de transparncia; - segurana protectora.

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  • INTRODUO Desenvolvimento como liberdade O desenvolvimento pode ser encarado como um processo de alargamento das liberdades reais de que uma pessoa goza. A tnica nas liberdades humanas contrasta com perspectivas mais restritas de desenvolvimento, que o identificam com o crescimento do produto nacional bruto, com o aumento das receitas pessoais, com a industrializao, com o progresso tecnolgico, ou com a modernizao social. Considerar o desenvolvimento como expanso das liberdades substantivas orienta a aco para os fins que tornam o desenvolvimento algo importante, mais do que para os meios que desempenhem papis de relevo. Eficcia e interligaes A liberdade nuclear ao processo de desenvolvimento por duas ordens de razes:

    1. Avaliao: a apreciao do progresso tem de ser feita em termos do alargamento das liberdades das pessoas;

    2. Eficcia: a eficcia do desenvolvimento depende da aco livre das pessoas.

    O que as pessoas podem efectivamente realizar influenciado pelas oportunidades econmicas, pelas liberdades polticas, pelos poderes sociais e por condies de possibilidade como a boa sade, a educao bsica, e o incentivo e estmulo s suas iniciativas. Alguns exemplos: liberdade poltica e qualidade de vida A natureza radical da concepo do desenvolvimento como liberdade pode evidenciar-se com alguns exemplos elementares. frequentemente questionado se certas liberdades polticas e sociais (como a liberdade de participao ou discordncia polticas, ou as oportunidades de receber educao bsica) so, ou no, indutoras de desenvolvimento. Esta forma de colocar as questes passa ao lado da compreenso capital de que estas liberdades so constituintes do desenvolvimento. Estas liberdades so eficazes como contributo para o progresso econmico, mas essa justificao das liberdades vem depois de e sobre o papel directamente constitutivo destas liberdades para o desenvolvimento. O rendimento e a liberdade de viver bem e por muito tempo divergem. Os cidados do Gabo, da frica do Sul ou do Brasil podem ser, em termos de PIB per capita, muito mais ricos do que os cidados do Sri Lanka, da China,

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  • ou do estado indiano de Kerala. Mas os ltimos tm uma esperana de vida substancialmente superior. frequentemente realado o facto de os afro-americanos nos Estados Unidos, sendo relativamente pobres, so muito mais ricos do que os povos do terceiro mundo. No entanto, tm absolutamente menos hipteses de alcanar uma idade avanada do que povos de muitas sociedades do terceiro mundo, como a China, o Sri Lanka, ou algumas partes da ndia. Transaces, mercados e restries econmicas A capacidade dos mecanismos de mercado para contriburem para um elevado crescimento econmico e para um progresso econmico global tem sido largamente, e correctamente, reconhecido na literatura contempornea sobre o desenvolvimento. Mas esta liberdade no apenas um meio. Como Adam Smith salientou, a liberdade de troca e transaco , em si mesma, parte e poro das liberdades bsicas a que as pessoas, justificadamente, atribuem valor. A no aceitao da liberdade de participar no mercado de trabalho uma das maneiras de conservar as pessoas em servido e cativeiro, e a luta contra a explorao do trabalho forado em muitos pases do terceiro mundo , hoje, importante por razes semelhantes s que tornaram imperiosa a guerra civil americana. O elogio do capitalismo em Karl Marx e a caracterizao que, em O Capital, faz da guerra civil americana, aquele grande acontecimento da histria contempornea, esto relacionados com a importncia da liberdade de contrato de trabalho, em oposio escravatura. A liberdade de participar nas trocas econmicas tem um lugar bsico na vida social. A abordagem do desenvolvimento como liberdade proporciona uma perspectiva mais lata e mais inclusiva dos mercados do que a que frequentemente invocada quando se defendem ou quando se vituperam os mecanismos do mercado. Organizaes e valores A viso do desenvolvimento como um processo integrado de expanso de liberdades concretas imbricadas umas nas outras permite a apreciao simultnea do papel vital de muitas instituies diferentes, incluindo mercados e organizaes relacionadas, governos e autoridades locais, partidos polticos e instituies cvicas, sistemas educacionais, meios de comunicao, etc. Tal abordagem permite-nos reconhecer o papel dos valores sociais e dos valores dominantes, que influenciam as liberdades de que as pessoas gozam e justificadamente resguardam. Normas partilhadas influem nas realizaes

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  • sociais, como a igualdade dos gneros, a natureza dos cuidados infantis, o planeamento familiar e os modelos de procriao, ou o modo como se lida com o ambiente. Os valores dominantes e os costumes sociais afectam tambm a presena e ausncia da corrupo e o papel da confiana nas relaes econmicas, sociais e polticas. O exerccio da liberdade mediatizado por valores, mas, por sua vez, os valores so influenciados pelo debate pblico e pelas interaces sociais, estes mesmos influenciados pelas liberdades de participao. O grande racionalista do sculo XVIII, Condorcet, esperava que as taxas de fertilidade baixassem com o progresso da razo, pois uma maior segurana, melhor educao, e mais liberdade restringiriam o crescimento populacional. Em oposio, o seu contemporneo Thomas Malthus defendia que no h qualquer razo para supor que algo, a no ser a dificuldade de obter o tanto quanto adequado s necessidades da vida, poderia quer evitar que um grande nmero de pessoas se casasse mais cedo, quer impedi-las de criar saudavelmente famlias numerosas. Esta controvrsia particular apenas um exemplo do debate, em matria de desenvolvimento, entre as abordagens pr e contra a liberdade. Instituies e liberdades instrumentais So cinco as espcies de liberdade, vistas sob uma perspectiva instrumental:

    - liberdades polticas; - disponibilidades econmicas; - oportunidades sociais; - garantias de transparncia; - proteco da segurana.

    Na perspectiva do desenvolvimento como liberdade, as liberdades instrumentais ligam-se umas s outras e com os fins de plenitude da liberdade humana em geral. Nota conclusiva As liberdades no so apenas o fim primordial do desenvolvimento, contam-se tambm entre os meios principais. As liberdades polticas (sob a forma de livre expresso e eleies) ajudam a promover a segurana econmica. As oportunidades sociais (sob a forma de servios de educao e de sade) facilitam a participao econmica. Os dispositivos econmicos (sob a forma de oportunidade de participar no comrcio e na produo) podem ajudar a gerar tanto a riqueza pessoal como os recursos pblicos destinados a servios sociais. As liberdades de diferentes espcies podem reforar-se umas s outras.

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  • CAP. 1 A perspectiva da liberdade No texto snscrito Brihadaranyaca Upanishad, uma mulher chamada Maytreyee e o seu marido Yajnavalkya discutem uma questo mais vasta do que a relativa aos meios de obter riqueza: qual a dimenso da riqueza que nos ajudar a obter o que queremos? Nesta discusso Maytreyee faz uma famosa pergunta retrica: Para que me serve algo atravs de qu no me torno imortal? Interessante para a economia, e para compreendermos a natureza do desenvolvimento, a relao entre recursos e realizaes, entre bens e potencialidades, entre a nossa riqueza econmica e a capacidade para vivermos como gostaramos. Como notava Aristteles em tica a Nicmaco, a riqueza no manifestamente o bem que buscamos; pois ela meramente utilitria, em vista de outra coisa. Os ganhos e a riqueza so meios genricos de perseguirmos o tipo de vida que razoavelmente valorizamos. to importante reconhecer o papel central da riqueza na determinao das condies e da qualidade de vida como compreender a natureza especfica e contingente