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Desenvolvimento e estrutura da indústria automotiva no Brasil

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  • Nota Tcnica Nmero 152 dezembro 2015

    Desenvolvimento e estrutura da indstria automotiva no Brasil

  • Desenvolvimento e estrutura da indstria automotiva no Brasil 2

    Desenvolvimento e estrutura da indstria automotiva no Brasil

    1

    Histrico

    No primeiro momento da indstria automotiva nacional (antes da 2 Guerra Mundial), o

    mercado, o estgio tecnolgico e a prpria estratgia de desenvolvimento de Estado no atraram

    unidades fabris de produo no pas. As empresas que aqui se instalaram - Ford (1919), GM (1925)2

    - montavam o veculo a partir de peas e componentes importados.

    No ps-guerra, com a mudana da estratgia de desenvolvimento do pas e a implantao de

    empresas de base (siderurgia, motores e petroleira) nacionais, a indstria automotiva inicia uma

    nova fase.

    Em 1952, foi inaugurada - em So Bernardo do Campo, So Paulo - a primeira fbrica de

    caminhes com motor nacional: a Mercedes-Benz. Vieram em seguida a alem DKW, a francesa

    Simca, a norte-americana Willys e a alem VW, em 1956. Chevrolet e Ford, que apenas montavam

    a partir de peas importadas, em 1968 iniciaram a produo de automveis. No final dos anos 1960,

    o Brasil j atingia a marca de 60 mil veculos produzidos, constituindo-se no principal polo

    automotivo da Amrica Latina.

    Fechando esta etapa da indstria automotiva brasileira, a Fiat se instala em Betim, Minas

    Gerais, em 1976.3

    Nos anos 1980, com a contrao econmica por que passou o pas, o setor automotivo no

    Brasil andou de lado. Mesmo conseguindo com certa independncia viabilizar projetos nacionais4

    em razo de o mercado sul-americano no fazer parte das preocupaes das matrizes da

    Volkswagen, Ford, GM e Fiat, as subsidirias brasileiras pouco conseguiram no que se refere

    alterao do quadro j instalado..

    1 Este texto uma adaptao do captulo Diagnstico do segmento automotivo in As faces da indstria

    metalrgica no Brasil: uma contribuio luta sindical; DIEESE e CNM-CUT, So Paulo, 2015, de A indstria

    automobilstica no Brasil - diagnstico do setor e anlise do novo Regime Automotivo; DIEESE e CNM-CUT, So

    Paulo, 2012 e Novo Regime Automotivo: Propostas dos Metalrgicos do ABC; DIEESE e Sindicato dos

    Metalrgicos do ABC, So Paulo, 2011. 2 SANTOS, Angela M. Medeiros M.; BURITY, Priscilla. Complexo automotivo. BNDES Setorial Edio

    Especial, 1997. 3 BARROS, Daniel Chiari; PEDRO, Luciana Silvestre. O papel do BNDES no desenvolvimento do setor

    automotivo brasileiro. 2012. 4 SCAVARDA L. F. R.; HAMACHER, S. Evoluo da cadeia de suprimentos da indstria automobilstica no

    Brasil. 2001.

  • Desenvolvimento e estrutura da indstria automotiva no Brasil 3

    Foi s nos anos 1990, com a abertura comercial e o crescimento das importaes de

    automveis, que o setor voltou ao centro do debate. Com as discusses ocorridas nas Cmaras

    Setoriais5 que colocaram governo, trabalhadores e empresas em negociao, diversas medidas

    foram editadas e o complexo automotivo voltou a ser alvo de poltica industrial, crucial para sua

    transformao.

    Em 1995, foi criado o Regime Automotivo Brasileiro6, com o propsito de modernizar o

    parque industrial, acelerar o investimento e ampliar a competitividade externa do segmento,

    consolidando-o no Mercosul. Concedia incentivos fiscais para as empresas que decidissem se

    instalar no Brasil, e incentivos diferenciados para aquelas que optassem por implantar fbricas nas

    regies menos desenvolvidas, o que acabou impulsionando a vinda de outros fabricantes como a

    Renault, Peugeot, Citron, com indstrias prprias em territrio brasileiro, enquanto outras marcas

    iam sendo incorporadas, como a Dodge pela Chrysler do Brasil.

    Foi, tambm, o perodo de implantao da rede de fornecedores globais que aos poucos

    foram tomando o lugar da maioria dos fornecedores locais (adquirindo-os ou forando-os a se

    retirar do mercado devido intensidade da competio), tanto no setor de autopeas quanto no de

    mquinas e equipamentos.

    Em um contexto de crises internacionais, de elevao das taxas de juros e inflao, o sculo

    XX encerra-se com o setor automotivo brasileiro com vendas novamente estagnadas e os

    investimentos direcionados reestruturao e modernizao das fbricas.

    Em 2003, com o governo Lula, inicia-se um processo de crescimento do pas focado na

    superao da misria, no aumento do consumo e na expanso do crdito. Essa nova etapa do

    desenvolvimento nacional impulsiona significativamente o mercado interno automobilstico,

    alando-o a posio de quarto maior mercado em vendas de veculos leves do mundo, atrs de

    China, Estados Unidos e Japo.

    Com o crescimento do mercado automotivo brasileiro, a crise nos pases centrais e a

    expanso da China como produtora de veculos para o mundo, os volumes de importao de

    veculos montados, peas e componentes cresceram vertiginosamente, colocando, para os diferentes

    agentes, desafios diversos dos vividos at aquele momento. Isso culminou com o estabelecimento

    de uma negociao entre governo, indstria e trabalhadores/as, que resultou, em 2012, no novo

    regime automotivo.

    5 As cmaras setoriais foram instaladas no final dos anos 80 com o objetivo de discutir a poltica industrial:

    estabelecer diagnsticos de competitividade setorial, identificar causas de distores existentes e indicar as estratgias

    para resolver os problemas. 6 Tratava-se de um programa de investimento e de exportao com regime especial de importao. Isto , a

    empresa industrial instalada no Pas, ou com interesse em se instalar (newcomer) assume junto ao governo o

    compromisso de investir/exportar e ter, em contrapartida, a autorizao para importar bens de capital, insumos e

    veculos com reduo do Imposto de Importao (MDIC, 1999).

  • Desenvolvimento e estrutura da indstria automotiva no Brasil 4

    As marcas globais e o Brasil

    O projeto implantado no setor automobilstico no Brasil atrelou o desenvolvimento da

    cadeia do automvel s grandes marcas globais, em detrimento da consolidao de uma montadora

    nacional.

    Assim, o Brasil no define a estratgia das montadoras aqui instaladas, nem o papel que

    assumem na disputa pela produo mundial, os quais so estabelecidos nas matrizes.

    Tendo como foco a maximizao das vantagens de produo e mercado de suas unidades

    espalhadas pelo mundo, Estados Unidos, Unio Europeia e Japo - sedes das principais marcas -

    concentram as decises e o desenvolvimento automotivo mundial.

    No que se refere ao mercado, h uma clara deciso das principais montadoras de disputar

    preferencialmente os mercados centrais. Com a retrao desses mercados em consequncia da crise

    internacional, a sia aparece como alternativa.

    Assim, a China, maior mercado mundial e com o maior potencial de crescimento, se

    estabelece como prioridade das diferentes montadoras e, tambm, comea a despontar com suas

    marcas prprias como concorrente global.

    Neste cenrio, as principais montadoras aqui estabelecidas e, mesmo as novas que aqui esto

    se instalando, destinam ao Brasil o papel de mercado e de produtor complementar de suas marcas

    no mundo.

    Como produtor complementar, destinada, ao Brasil, a produo para atender as

    especificidades do prprio mercado interno e exportar para a Amrica Latina os produtos que

    tenham escala a partir do mercado brasileiro.

    J os segmentos de menor participao no volume de vendas no Brasil, normalmente com

    maior valor agregado e maior taxa de retorno, so atendidos por produtos globais produzidos em

    outras partes do mundo: nas plantas das matrizes ou nos polos destinados exportao.

    Deste modo, o mercado latino americano complementa as vendas dos mercados prioritrios,

    principalmente, em momentos de crise das economias centrais.

    Com essa segmentao do mercado, o Brasil passou a desempenhar importante papel na

    produo de automveis do segmento B (hatch bsico e mdio) com um pacote tecnolgico e de

    segurana bsicos, bem aceito no mercado interno, em diversos mercados da Amrica Latina e,

    eventualmente, em alguns mercados emergentes. Essa posio , novamente, complementar aos

    mercados centrais que tm a preferncia nos segmentos C e D (sedans mdios e de luxo).

    Com isso, percebe-se que as principais inovaes no setor automotivo - que esto ligadas

    introduo de eletrnica embarcada, equipamentos de segurana e design - chegam aqui atrasadas, e

    seguindo o seguinte ciclo: entram por meio dos veculos importados nos segmentos de luxo,

  • Desenvolvimento e estrutura da indstria automotiva no Brasil 5

    caminham para os seds mdios e vo se incorporando gradativamente aos veculos de entrada, de

    acordo com a demanda e a capacidade de pagamento do mercado interno.

    Esse papel conferido pelas matrizes para o Brasil vem definindo, nos ltimos 20 anos, o

    lugar do setor de autopeas no pas, que, em funo da globalizao da cadeia de fornecedores e da

    longa ausncia de uma poltica nacional para o fortalecimento e proteo do setor, se

    desnacionalizou. No atual contexto, o setor de autopeas tambm tem as estratgias atreladas s

    empresas multinacionais, que decidem de forma semelhante s montadoras.

    Ao setor de autopeas nacional, restou papel auxiliar frente aos fornecedores dos sistemas

    globais, j que caracteriza-se pela baixa capacidade de competir e de investir em pessoas, tecnologia

    e inova

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