Deus e o Diabo na política: compaixão e vocação profé ?· Deus e o Diabo na política: compaixão…

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Deus e o Diabo na poltica: compaixo e vocao proftica

God and the devil in politics: Compassion and prophetic vocation

Resumo

O texto se inspira no uso das figuras de Deus e do Diabo na atual conjuntura poltica do Brasil e do mundo. Abre a reflexo para uma fenomenologia filosfica a partir da qual se pode apreender esses fenmenos como presentes na produo de sentido que prpria da maioria das culturas. Deus e o Diabo misturados em ns, como expresso de nossos medos e de nossa prpria busca de sentido. A compaixo e o profetismo inscrevem-se nessa mesma linha de um querer o bem e evitar o mal, convidando-nos a ir alm dos conceitos preestabelecidos e a buscar os sentidos no caminho cotidiano.

Palavras-Chave: Deus; Diabo; Poltica; Mistura; Compaixo.

Abstract

The text is inspired by the use of the figures of God and the devil in the present political context of Brazil and the world. It opens reflection up to a philosophical phenomenology based on which one can grasp these phenomena as present in the production of meaning peculiar of most cultures. God and the devil mixed in us, an expression of our fears and our own search for meaning. Compassion and prophetism are inscribed in this same line of wanting good and avoiding evil, inviting us to go beyond the pre--established concepts and look for meanings in the daily path.

Keywords: God; Devil; Politics; Mixture; Compassion.

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Deus e o Diabo na poltica: compaixo e vocao proftica

Ivone GebaraCongregao das Irms de Nossa Senhora

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Cadernos Teologia Pblica uma publicao impressa e digital quinzenal do Instituto Humanitas Unisinos IHU, que busca ser uma contribuio para a relevncia pblica da teologia na universidade e na sociedade. A teologia pblica pretende articular a reflexo teolgica e a participao ativa nos debates que se desdobram na esfera pblica da sociedade nas cincias, culturas e religies, de modo interdisciplinar e transdisciplinar. Os desafios da vida social, poltica, econmica e cultural da sociedade, hoje, constituem o horizonte da teologia pblica.

UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS UNISINOSReitor: Marcelo Fernandes de Aquino, SJVice-reitor: Pedro Gilberto Gomes, SJ

Instituto Humanitas UnisinosDiretor: Incio Neutzling, SJ

Gerente administrativo: Jacinto Schneider

www.ihu.unisinos.br

Cadernos Teologia PblicaAno XV Vol. 15 N 129 2018ISSN 1807-0590 (impresso)ISSN 2446-7650 (Online)

Editor: Prof. Dr. Incio Neutzling

Conselho editorial: MS Ana Maria Casarotti; Profa. Dra. Cleusa Maria Andreatta; MS Rafael Francisco Hiller; Profa. Dra. Susana Rocca.

Conselho cientfico: Profa. Dra. Ana Maria Formoso, Pontificia Universidad Catlica de Valparaso, doutora em Educao; Prof. Dr. Christoph Theobald, Faculdade Jesuta de Paris--Centre Svres, doutor em Teologia; Prof. Dr. Faustino Teixeira, UFJF-MG, doutor em Teologia; Prof. Dr. Felix Wilfred, Universidade de Madras, ndia, doutor em Teologia; Prof. Dr. Jose Maria Vigil, Associao Ecumnica de Teolgos do Terceiro Mundo, Panam, doutor em Educao; Prof. Dr. Jos Roque Junges, SJ, Unisinos, doutor em Teologia; Prof. Dr. Luiz Carlos Susin, PU-CRS, doutor em Teologia; Profa. Dra. Maria Ins de Castro Millen, CES/ITASA-MG, doutora em Teologia; Prof. Dr. Peter Phan, Universidade Georgetown, Estados Unidos da Amrica, doutor em Teologia; Prof. Dr. Rudolf Eduard von Sinner, EST-RS, doutor em Teologia.

Responsveis tcnicos: Profa. Dra. Cleusa Maria Andreatta; MS Rafael Francisco Hiller.

Reviso: Carla Bigliardi

Imagem da capa: Patrcia Kunrath Silva

Editorao: Gustavo Guedes Weber

Impresso: Impressos Porto

Cadernos teologia pblica / Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Instituto Humanitas Unisinos. Ano 1, n. 1 (2004)- . So Leopoldo: Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2004- .

v.

Irregular, 2004-2013; Quinzenal (durante o ano letivo), 2014.

Publicado tambm on-line: .

Descrio baseada em: Ano 11, n. 84 (2014); ltima edio consultada: Ano 11, n. 83 (2014).

ISSN 1807-0590

1. Teologia 2. Religio. I. Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Instituto Humanitas Unisinos.

CDU 2

Bibliotecria responsvel: Carla Maria Goulart de Moraes CRB 10/1252

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Solicita-se permuta/Exchange desired.As posies expressas nos textos assinados so de responsabilidade exclusiva dos autores.

Toda a correspondncia deve ser dirigida Comisso Editorial dos Cadernos Teologia Pblica:Programa Publicaes, Instituto Humanitas Unisinos IHUUniversidade do Vale do Rio dos Sinos UnisinosAv. Unisinos, 950, 93022-750, So Leopoldo RS BrasilTel.: 51.3590 8213 Fax: 51.3590 8467Email: humanitas@unisinos.br

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Deus e o Diabo na poltica: compaixo e vocao proftica1

Ivone GebaraCongregao das Irms de Nossa Senhora

Lme entre lange et le dmon Abbaye de Saint-Benot sur Loire.(A alma entre o anjo e o demnio)

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Introduo: qual o problema? 1

No atual momento da conjuntura nacional e mundial, algumas Igrejas crists se preocupam em com-preender algo mais sobre o uso das palavras Deus e Dia-bo, especialmente na Poltica. Afinal, o que significam? H uma abundncia de discursos, justificaes, invoca-es, motivaes com implicaes nas diferentes deci-ses polticas que sempre terminam clamando por Deus ou acusando o Diabo pelos acontecimentos hodiernos. Estes dois substantivos Deus e o Diabo tm mltiplos sentidos, origens e histrias.

Hoje, seu emprego nos causa espanto porque muitos de ns imaginvamos que o uso delas como jus-tificaes de nossos atos j estava superado pela razo humana contempornea. Imaginvamos que possesses demonacas e exorcistas haviam quase desaparecido frente ao extraordinrio desenvolvimento da cincia psi-quitrica e da medicina. Imaginvamos o Diabo aposen-tado e que Deus, na sua infinita bondade, reinava agora

1 O artigo a ntegra da conferncia proferida aos membros do Con-selho Nacional de Igrejas Crists - CONIC agosto de 2017, em Braslia.

tranquilo na diversidade das pessoas que o invocam. Mas no isso que est acontecendo.

O palco nacional e internacional tem revelado a volta dos conflitos entre Deus e o Diabo no palco da Histria Maior, e essa volta envolve no s as limitadas vidas de muitos indivduos, mas a histria atual de nossa Repblica. Por isso, refletir sobre Deus e o Diabo tema da atualidade e merece uma reflexo de tipo filosfico e teolgico.

Desde tempos antigos, muitas pessoas identifi-caram as palavras Deus e Diabo, este ltimo tambm nomeado de Demnio, Lcifer ou Satans, a persona-gens ou foras mticas conhecidas em sua tradio. Co-mumente os usaram como conceitos recebidos de sua cultura, particularmente religiosa, para explicar as mais variadas situaes que pareciam fugir habitual cotidia-nidade das coisas. No era possvel aceitar que todo o bem e todo o mal moral viessem somente do indivduo. A crueldade que nos caracteriza no pode ser apenas nossa. Assim, a introduo de foras externas obedecia a uma lgica compreensvel a partir da constatao da limitao humana.

Podemos dizer que essas foras expressas de di-ferentes formas existiram e de certa forma existem na

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maioria das culturas e expresses religiosas. Elas tm a ver com algo prprio do comportamento humano que indica o que parece ser bom para o grupo ou para o indi-vduo e o que parece prejudic-los. Indicam igualmente a existncia de uma fora exterior do mal e uma fora exterior do bem que parecem decisivas na escolha dos caminhos humanos. Em outros termos, o bem e o mal que fazemos no apenas nosso, mas tm a ver tambm com algo exterior a ns que nos influencia e ao qual ade-rimos ou recusamos a adeso.

Essas foras, embora ajam em ns, aparecem quase sempre como superiores a ns. Poderamos at falar delas como imagens ou figuras que orientam o agir humano e se apresentam como uma espcie de cons-tante antropolgica pr-cientfica ou para alm do cien-tfico. Elas nos caracterizam e se manifestam atravs de formas e expresses diferentes, embora tenham um fun-do comum. Alm disso, h tambm nelas algo de extre-mamente criativo e sbio, que a constatao de uma enorme interdependncia em nossas formas de atuar no mundo.

Essa interdependncia revelaria o fato de que ne-nhuma ao totalmente isolada ou individual, embo-ra as gradaes de interdependncia sejam diferentes e

tambm observveis. Dizer que o bem e o mal esto em ns e exteriores a ns fruto de uma observao hones-ta sobre ns e nosso vasto mundo.

Creio que o problema no est exatamente nas palavras e imagens que usamos, mas na maneira como ns as interpretamos e as vivemos, uma maneira que en-cerra grandes limites e grandes consequncias. A grande questo que, quase sempre, para nos orientarmos na vida social, acreditamos que essas foras malignas e be-nignas esto apenas fora de ns. Em relao ao mal, ao diablico, ao nefasto, acreditamos particularmente que estejam sobretudo nos outros; alm disso, que elas so foras existentes em si mesmas, ou seja, foras com vida prpria e com aes prprias reconhecveis.

De fato, podemos compreender porque ns, seres humanos, nos interpretamos dessa maneira, visto que atravs de uma experincia de certa forma exterior a ns que os malefcios nos atingem. algum que me fere com uma faca, me agride, me escraviza e pode at me matar. o outro grupo que faz guerra ao meu, o ditador que manda matar, o patro que suprime meu emprego, o policial que me prendeu, o hospital que no me atende, a priso que me ameaa.