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Dialética Da Dependência

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    Primeira edio: Ensaio datado de 1973. No mesmo ano o autor escreveu um textocomplementar, guisa de post-scriptum, segundo ele "para esclarecer algumas questes edesfazer certos equvocos que o texto tem suscitado."Traduo: Marcelo Carcanholo, Universidade Federal de Uberlndia MG. Post-scriptumtraduzido por Carlos Eduardo Martins, Universidade Estcio de S, Rio de Janeiro, RJ.Fonte:Editora Era, Mxico, 1990, 10a edio (Ia edio, 1973). O post-scriptum conforme:Revista Latinoamericana de Cincias Sociales,Flacso, (Santiago de Chile), n 5, junho 1973.Verso digitalizada conforme publicado em "Ruy Mauro Marini: Vida e Obra", EditoraExpresso Popular, 2005. Orgs. Roberta Traspadini e Joo Pedro Stedile. Este documentoencontra-se em www.centrovictormeyer.org.brTranscrio:Diego GrossiHTML:Fernando A. S. Arajo

    Sumrio

    1. A integrao ao mercado mundial

    2. O segredo da troca desigual

    3. A superexplorao do trabalho

    4. O ciclo do capital na economia dependente

    5. O processo de industrializao

    6. O novo anel da espiral

    7. Post-scriptum

    [...] o comrcio exterior, quando se limita a

    repor os elementos (tambm enquanto a seu

    valor), no faz mais do que deslocar as

    contradies para uma esfera mais extensa,

    abrindo para elas um campo maior de

    atuao.

    Marx, O Capital

    Acelerar a acumulao mediante um

    desenvolvimento superior da capacidade

    produtiva do trabalho e aceler-la por meio

    de uma maior explorao do trabalhador, so

    dois procedimentos totalmente distintos.

    Marx, O Capital

    Em sua anlise da dependncia latino-americana, os pesquisadores

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    marxistas incorreram, geralmente, em dois tipos de desvios: a substituio dofato concreto pelo conceito abstrato, ou a adulterao do conceito em nome deuma realidade rebelde para aceit-lo em sua formulao pura. No primeiro caso,o resultado tem sido os estudos marxistas chamados de ortodoxos, nos quais adinmica dos processos estudados se volta para uma formalizao que incapaz de reconstru-la no mbito da exposio, e nos que a relao entre o

    concreto e o abstrato se rompe, para dar lugar a descries empricas quecorrem paralelamente ao discurso terico, sem fundir-se com ele; isso temocorrido, sobretudo, no campo da histria Econmica. O segundo tipo dedesvio tem sido mais frequente no campo da sociologia, no qual, frente dificuldade de adequar a uma realidade categorias que no foram desenhadasespecificamente para ela, os estudiosos de formao marxista recorremsimultaneamente a outros enfoques metodolgicos e tericos; a consequncianecessria desse procedimento o ecletismo, a falta de rigor conceituai emetodolgico e um pretenso enriquecimento do marxismo, que na realidade

    sua negao.

    Esses desvios nascem de uma dificuldade real: frente ao parmetro domodo de produo capitalista puro, a economia latino-americana apresentapeculiaridades, que s vezes se apresentam como insuficincias e outras nem sempre distinguveis facilmente das primeiras como deformaes. No acidental portanto a recorrncia nos estudos sobre a Amrica Latina a noo de"pr-capitalismo". O que deveria ser dito que, ainda quando se traterealmente de um desenvolvimento insuficiente das relaes capitalistas, essa

    noo se refere a aspectos de uma realidade que, por sua estrutura global e seufuncionamento, no poder desenvolver-se jamais da mesma forma como sedesenvolvem as economias capitalistas chamadas de avanadas. por issoque, mais do que um pr-capitalismo, o que se tem um capitalismo suigeneris,que s adquire sentido se o contemplamos na perspectiva do sistemaem seu conjunto, tanto em nvel nacional, quanto, e principalmente, em nvelinternacional.

    Isso verdade, sobretudo, quando nos referimos ao moderno capitalismo

    industrial latino-americano, tal como se tem constitudo nas duas ltimasdcadas. Mas, em seu aspecto mais geral, a proposio vlida tambm para operodo imediatamente precedente e ainda para a etapa da economiaexportadora. bvio que, no ltimo caso, a insuficincia prevalece ainda sobrea distoro, mas se desejamos entender como uma se converteu na outra luz desta que devemos estudar aquela. Em outros termos, o conhecimento daforma particular que acabou por adotar o capitalismo dependente latino-americano o que ilumina o estudo de sua gestao e permite conheceranaliticamente as tendncias que desembocaram nesse resultado.

    Mas aqui, como sempre, a verdade tem um duplo sentido: se certo que oestudo das formas sociais mais desenvolvidas lana luz sobre as formas maisembrionrias (ou, para diz-lo com Marx, "a anatomia do homem um a chave

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    para a anatomia do macaco")(1), tambm certo que o desenvolvimento aindainsuficiente de uma sociedade, ao ressaltar um elemento simples, torna maiscompreensvel sua forma mais complexa, que integra e subordina esseelemento. Como assinala Marx:

    [...] a categoria mais simples pode expressar as relaes dominantes

    de um todo no desenvolvido ou as relaes subordinadas de umtodo mais desenvolvido, relaes que j existiam historicamente

    antes de que o todo se desenvolvesse no sentido expressado por uma

    categoria mais concreta. S ento, o caminho do pensamento

    abstrato, que se eleva do simples ao complexo, poderia corresponder

    ao processo histrico real.(2)

    Na identificao desses elementos, as categorias marxistas devem seraplicadas, isto , realidade como instrumentos de anlise e antecipaes de

    seu desenvolvimento posterior. Por outro lado, essas categorias no podemsubstituir ou mistificar os fenmenos a que se aplicam; por isso que a anlisetem de ponder-las, sem que isso implique em nenhum caso romper com alinha do raciocnio marxista, enxertando-lhe corpos que lhe so estranhos e queno podem, portanto, ser assimilados por ela. O rigor conceitual emetodolgico: a isso se reduz em ltima instncia a ortodoxia marxista.Qualquer limitao para o processo de investigao que dali se derive j notem nada relacionado com a ortodoxia, mas apenas com o dogmatismo.

    1. A integrao ao mercado mundial

    Forjada no calor da expanso comercial promovida no sculo 16 pelocapitalismo nascente, a Amrica Latina se desenvolve em estreita consonnciacom a dinmica do capitalismo internacional. Colnia produtora de metaispreciosos e gneros exticos, a Amrica Latina contribuiu em um primeiromomento com o aumento do fluxo de mercadorias e a expanso dos meios depagamento que, ao mesmo tempo em que permitiam o desenvolvimento do

    capital comercial e bancrio na Europa, sustentaram o sistema manufatureiroeuropeu e propiciaram o caminho para a criao da grande indstria. Arevoluo industrial, que dar incio a ela, corresponde na Amrica Latina independncia poltica que, conquistada nas primeiras dcadas do sculo 19,far surgir, com base na estrutura demogrfica e administrativa construdadurante a Colnia, um conjunto de pases que passam a girar em torno daInglaterra. Os fluxos de mercadorias e, posteriormente, de capitais tm nestaseu ponto de entroncamento: ignorando uns aos outros, os novos pases searticularo diretamente com a metrpole inglesa e, em funo dos

    requerimentos desta, comearo a produzir e a exportar bens primrios, emtroca de manufaturas de consumo e quando a exportao supera as

    importaes de dvidas.(3)

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    a partir desse momento que as relaes da Amrica Latina com os centroscapitalistas europeus se inserem em uma estrutura definida: a divisointernacional do trabalho, que determinar o sentido do desenvolvimentoposterior da regio. Em outros termos, a partir de ento que se configura adependncia, entendida como uma relao de subordinao entre naesformalmente independentes, em cujo marco as relaes de produo das

    naes subordinadas so modificadas ou recriadas para assegurar a reproduoampliada da dependncia. A consequncia da dependncia no pode ser,portanto, nada mais do que maior dependncia, e sua superao supenecessariamente a supresso das relaes de produo nela envolvida. Nestesentido, a conhecida frmula de Andr Gunder Frank sobre o "desenvolvimentodo subdesenvolvimento" impecvel, como impecveis so as concluses

    polticas a que ela conduz(4). As criticas que lhe so dirigidas representammuitas vezes um passo atrs nessa formulao, em nome de precises que sepretendem tericas, mas que costumam no ir alm da semntica.

    Entretanto, e a reside a debilidade do trabalho de Frank, a situao colonialno o mesmo que a situao de dependncia. Ainda que se d umacontinuidade entre ambas, no so homogneas; como bem afirmouCanguilhem, "o carter progressivo de um acontecimento no exclui a

    originalidade do acontecimento".(5) A dificuldade da anlise terica estprecisamente em captar essa originalidade e, sobretudo, em discernir omomento em que a originalidade implica mudana de qualidade. No que serefere s relaes internacionais da Amrica Latina, se, como assinalamos, esta

    desempenha um papel relevante na formao da economia capitalista mundial(principalmente com sua produo de metais preciosos nos sculos 16 e 17,mas sobretudo no 18, graas coincidncia entre o descobrimento de ouro

    brasileiro e o auge manufatureiro ingls),(6)somente no curso do sculo 19, eespecificamente depois de 1840, sua articulao com essa economia mundial se

    realiza plenamente.(7)Isto se expli

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