DIÁRIOS DA DESCOBERTA DA AMÉRICA - lpm.com.br .nhecer o homem Cristóvão Colombo, nascido em 1451

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    CRISTVO COLOMBO

    DIRIOS DA DESCOBERTADA AMRICA

    AS QUATRO VIAGENS E O TESTAMENTO

    Traduo de MILTON PERSSONIntroduo de MARCOS FAERMAN

    Notas de EDUARDO BUENO

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    Para numerosos viajantes, o cenrio americano esta-va repleto de misteriosas e inegveis possibilidades. Ali, omilagre parecia novamente incorporado natureza: umanatureza ainda cheia de graa matinal, em perfeita harmo-nia e correspondncia com o Criador. O prprio Colombo,sem dissuadir-se de que atingira pelo Ocidente as partes doOriente, julgou-se em otro mundo ao avistar as costas verde-jantes da Amrica, onde tudo lhe dizia estar a caminho doverdadeiro Paraso Terreal.

    As mesmas imagens bblicas, reafirmadas pelos cosm-grafos mais acreditados da poca, acharia Colombo em seudesembarque nas Antilhas: terras de fertilidade inaudita,rvores de copas altssimas, fragrantes e carregadas de fru-tas, a eterna primavera musicada pela alegria dos cantaresde pssaros de mil cores...

    SRGIO BUARQUE DE HOLANDA

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    APRESENTAO

    Algo mais que umrelato de viagem...

    ... descrever cada noite o que suceder durante o dia, ede dia o que navegar durante a noite, tenho a inteno detraar nova carta de navegao..., insere o prprio Colombono incio de seu Dirio, anunciando assim que esse ser maisum dos vrios relatos martimos escritos em plena viagem,dos quais, entretanto, se destaca pelas extraordinrias e ines-peradas conseqncias que dela se derivaram, lanando omundo na Idade Moderna.

    Esta obra do almirante genial no esclarece as discus-ses suscitadas sobre o local de seu nascimento; nem nosleva a uma evidncia palpvel sobre quem estava com a razonos turbulentos pleitos levantados em torno de sua figura,de to funestos resultados para ele, pois acabaram por arrast-lo humilhao e, finalmente, morte na pobreza. A nicacoisa que este Dirio mostra o talento e a personalidade deum homem singular, apesar da objetividade premeditada comque est composto, que induz o autor a anular-se como parti-cipante da ao, aparecendo como mero observador onipo-tente dos fatos e referindo-se a si mesmo como a um persona-gem a mais.

    No se sabe com exatido se Cristvo Colombo foigenovs nem se a sua imprudente administrao nas col-nias teria sido a verdadeira causa daqueles pleitos... Mas queimportncia tm esses detalhes to banais? Por trs do gran-

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    de descobrimento do Novo Mundo estava um homem e esse homem que vamos encontrar aqui, apesar dos erros edas maledicncias.

    As linhas deste Dirio foram escritas pelo mesmo ho-mem que empunhou o leme da Santa Maria. Trata-se de umdocumento valiosssimo, com que gostariam de contar os bi-grafos de to grandes personagens. Passemos, pois, a co-nhecer o homem Cristvo Colombo, nascido em 1451 e fale-cido em 1506, tarimbadssimo marujo e cartgrafo, Almirantedo Mar Oceano e Vice-Rei das ndias, severamente julgadopor seus contemporneos e hoje elevado eminncia dosdescobrimentos geogrficos; admirado pela vontade frrea,pela coragem na luta contra a incompreenso, pelo talento enobre resignao na desgraa: triste poca em que s se pre-ocupou em salvar a dignidade e o prprio nome.

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    A Primeira Viagem(1492-93)

    IN NOMINE D. N. JESU CHRISTI

    Porque, cristianssimos e mui augustos, excelentes e po-derosos soberanos, Rei e Rainha das Espanhas e das ilhas domar, Nossos Monarcas, neste presente ano de 1492, depoisque Vossas Majestades deram fim guerra contra os mourosque dominavam a Europa e por terminados os combates na muigrande cidade de Granada, onde neste mesmo ano, aos doisdias do ms de janeiro, por fora das armas, assisti ao hastea-mento das bandeiras reais de Vossas Majestades na torre deAlfambra1 , fortaleza da referida cidade, e vi o rei mouro sairpelas portas da cidade e beijar as mos reais de Vossas Majes-tades e do Prncipe, meu Soberano, e logo naquele ms indica-do, pela informao que eu tinha dado a Vossas Majestadessobre as terras da ndia e um prncipe, chamado Grande C2 ,que em nosso idioma significa Rei dos Reis, como muitas vezesele e seus antecessores mandaram pedir que Roma lhes envias-se doutores versados em nossa santa f para administrar-lhesos seus ensinamentos e que nunca o Santo Padre os quisatender e que se perdiam tantos povos em crenas idlatras ou

    1. Trata-se do imenso castelo mourisco construdo sobre uma elevaoque domina a cidade, hoje chamado Alhambra. (N. do E.)

    2. Ao regressarem Europa, Nicolas e Marco Polo informaram ao Papaque o imperador da Tartria, conhecido como o Grande C, pedia que lhefossem enviados cem telogos para que assim se iniciasse a conversodos mongis. (N. do E.)

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    acolhendo seitas de perdio, Vossas Majestades, como cat-licos cristos e Soberanos devotos da santa f crist, seusincrementadores e inimigos da seita de Maom e de todas asidolatrias e heresias, pensaram em enviar-me, a mim, CristvoColombo, s mencionadas regies da ndia para ir ver os ditosprncipes, os povos, as terras e a disposio delas e de tudo ea maneira que se pudesse ater-se para a sua converso nossaf; e ordenaram que eu no fosse por terra ao Oriente, por ondese costuma ir, mas pelo caminho do Ocidente, por onde athoje no sabemos com segurana se algum teria passado.Assim que, depois de terem expulso todos os judeus de vos-sos reinos e domnios3 , no mesmo ms de janeiro mandaramVossas Majestades que eu me dirigisse, com suficiente frota,s referidas regies da ndia; e para tanto me concederam gran-des mercs e me enobreceram para que da por diante meintitulasse Dom e fosse Almirante-Mor do Mar Oceano, Vice-Rei e Governador perptuo de todas as ilhas e terra firme quedescobrisse e conquistasse, e que doravante se descobrisseme conquistassem no Mar Oceano, e assim procedesse meufilho mais velho e, da mesma forma, de grau em grau para todoo sempre. E sa eu da cidade de Granada aos doze dias do msde maio do mesmo ano de 1492, em sbado. Vim vila de Palos,que porto martimo, onde equipei trs navios4 bastante aptospara semelhante faanha e parti do citado porto bem abaste-cido de muitssimos mantimentos e de uma boa tripulao aostrs dias do ms de agosto do ano indicado, numa quinta-feira,meia hora antes de raiar o sol, tomando o rumo das ilhas Canrias

    3. Os judeus foram expulsos da Espanha por decreto assinado em 30 demaro de 1492. O prazo para que abandonassem a Espanha se esgotouem 3 de agosto do mesmo ano. (N. do E.)

    4. Os trs navios eram duas caravelas e uma nau. A nau Santa Maria,tambm chamada La Gallega, pertencia ao mestre Juan de la Cosa queacompanhava a viagem, e conduzia o Almirante Colombo. A caravelaPinta tinha como capito Martn Alonso Pinzn, co-proprietrio dobarco junto com Cristbal Quintero. E a Nia era capitaneada porVicente Ynez Pinzn, irmo de Martn. (N. do E.)

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    de Vossas Majestades, situadas no dito Mar Oceano, para daliseguir a rota e navegar tanto que chegasse s ndias e entre-gasse a mensagem de Vossas Majestades queles prncipes,cumprindo o que assim ordenaram; e para isso pensei em des-crever toda esta viagem mui pontualmente, dia aps dia, rela-tando tudo o que fizesse, visse e acontecesse, como adiante sever. Tambm, Senhores Monarcas, alm de descrever cadanoite o que suceder durante o dia, e de dia o que navegardurante a noite, tenho a inteno de traar nova carta de nave-gao, na qual colocarei todo o mar e terras do Mar Oceano emseus devidos lugares, sob os respectivos ventos, e ainda mais,de compor um livro e estabelecer toda a analogia em pintura,por latitude do equincio e longitude do Ocidente; e sobretu-do cumpre muito que esquea o sono e me empenhe em na-vegar, porque assim preciso, o que me dar grande trabalho.

    Sexta-feira, 3 de agosto. Partimos quinta-feira, aos 3dias de agosto de 1492, da barra de Saltes, s oito horas.Avanamos umas sessenta milhas, com grande exaltao ato pr-do-sol, em direo ao sul, o que vem a dar quinze l-guas; depois a sudoeste e, ao sul, quarta do sudoeste, queera o caminho para as Canrias.

    Sbado, 4 de agosto. Avanamos, a sudoeste, quartado sul.

    Domingo, 5 de agosto. Avanamos, sempre na rota,entre dia e noite, mais de quarenta lguas.

    Segunda-feira, 6 de agosto. Quebrou-se ou des-pregou-se o leme da caravela Pinta, que levava Martn AlonsoPinzn, o que se acreditou ou desconfiou ter sido obra de umcerto Gomes Rascn e Cristbal Quintero, a quem pertencia acaravela, porque lhe causava mgoa v-la seguir nessa via-gem; e diz o almirante que, antes da partida, haviam achadoescondidos, socapa, como se diz, os ditos cujos. Viu-se a o

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    Almirante presa de grande perturbao por no poder ajudaressa caravela sem expor-se a perigos e disse que lhe causavapena, pois sabia que Martn Alonso Pinzn era pessoa esfor-ada e de grande habilidade. No fim percorreram, entre dia enoite, vinte e nove lguas.

    Tera, 7 de agosto. Quebrou-se de novo o leme daPinta e, depois de consertado, prosseguiram no rumo da ilhaLanzarote, que uma das Canrias, e percorreram, entre dia enoite, vinte e cinco lguas.

    Quarta, 8 de agosto. Houve, entre os pilotos das cara-velas, opinies divergentes a respeito do lugar onde se en-contravam, e o Almirante chegou mais perto da verdade; egostaria de ir at Grande Canria para deixar a caravela Pin-ta, que ia mal provida de leme e vazando gua, e tambmgostaria de troc-la por outra, se acaso encontrasse. Masnaquele dia no foi possvel.

    Quinta, 9 de agosto. At domingo noite o Almiranteno pde atracar na Gomera e Martn Alonso ficou naquelacosta da Grande Canria por ordem do Almirante, pois nopodia navegar. Depois o Almirante atracou na Canria (ou naTenerife), e consertaram muito bem a Pinta, com grande tra-balho e esforos do Almirante, de Martn Afonso e dos de-mais; e por fim vieram para a Gomera. Avistaram as chamas deum vasto incndio na serra da ilha de Tenerife, que impressionapela