DIREITO INTERTEMPORAL E HONORRIOS ADVOCATCIOS DE ... â€‌ Humberto Theodoro Jnior, Curso de

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Revista Jurdica da Escola Superior de Advocacia da OAB-PR

EDIO ESPECIAL - Ano 3 - Nmero 1 - Maio de 2018

DIREITO INTERTEMPORAL E HONORRIOS ADVOCATCIOS DE SUCUMBNCIA NO CPC/15

Clayton MaranhoDesembargador titular da 8 Cmara C-vel do Tribunal de Justia do Paran. Ba-charel, Mestre e Doutor em Direito pela UFPR. Frequentou o Curso de Direito Processual Civil na Universidade de Mi-lo. Professor Adjunto e Coordenador do Departamento de Direito Civil e Proces-sual Civil da UFPR. Membro da Comisso Permanente de Regimento Interno do Tribunal de Justia.

1. Da natureza jurdica dos honorrios de su-cumbncia

No que se refere aos honorrios advocatcios de su-cumbncia, a legislao processual civil traz inovaes substanciais, surgindo o problema relativo definio da regra aplicvel ao processo em curso, como tambm aps o trnsito em julgado.

certo que na nova codificao o legislador andou melhor que outrora em termos de disposies de direito intertemporal, no se limitando regra geral e, assim, pro-

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curando regular com especificidade alguns institutos pro-cessuais atingidos pela ultra atividade da lei velha ou pela imediata aplicao da lei nova.

Porm, apesar das densas inovaes na matria de ho-norrios advocatcios de sucumbncia, de ampla aplicao no dia a dia forense, nenhuma ateno foi dispensada ao perodo de transio, relegando-a s regras gerais. Por isso, antes mesmo da entrada em vigor do CPC/15 j se notava sria divergncia doutrinria acerca do tema, a qual certa-mente exigir da jurisprudncia a construo de um enten-dimento coerente e ntegro, na forma do novo art. 926, sob pena de ofensa isonomia e segurana jurdica.

Deveras, dada a relevncia do tema, seria desejvel que o CPC/15 tivesse regulao especfica tanto quanto, de modo a obviar questionamentos no que tange incidncia ou no da lei nova aos processos pendentes, inclusive no tocante majorao dos honorrios em sede recursal.

Em vista disso, algumas premissas devem ser aqui es-tabelecidas. Inicialmente, cumpre definir se os honorrios advocatcios de sucumbncia decorrem de norma de direi-to material ou processual.

A respeito, Marcelo Barbi Gonalves posicionou-se pelo carter material da norma do art. 85 do CPC/15, ar-gumentando que esta responsvel por atribuir um bem da vida, trazendo critrio para soluo do conflito de in-teresses representado pela responsabilidade das despesas processuais, constituindo os honorrios uma extenso

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do objeto litigioso para alm da vontade da parte. Deste modo, entende que a lei vigente poca do ajuizamento da ao que deveria pautar a condenao a ttulo de honor-rios advocatcios de sucumbncia. Interessante notar que, segundo esse ponto de vista, mesmo considerada como norma processual e aplicada a teoria do isolamento dos atos, a verba seria consectrio da propositura da ao, j que a ela reportar-se-ia a causalidade, a qual reputa como norteadora da matria.1

Em linha semelhante, colhe-se entendimento no sen-tido de que por contemplar caractersticas de direito ma-terial e processual a norma do art. 85 de direito proces-sual material, em transposio do conceito desenvolvido por Cndido Rangel Dinamarco, de sorte que sua aplicao seguiria o critrio de solues de conflitos intertemporais relativos ao direito material.2

1 (...) resulta inequvoco que o captulo que disciplina os honorrios ad-vocatcios no NCPC no de direito processual, pois responsvel por, primariamente, atribuir um bem da vida. Traz, por conseguinte, um critrio para a soluo do conflito de interesses representado pela responsabilida-de pelas despesas processuais. Ressalte-se, ademais, que esse critrio no como por vezes se supe, e at mesmo pode decorrer de uma leitura aodada do cdigo o da sucumbncia. O real parmetro para de-terminao do dever (no nus, como tambm equivocadamente se diz) de custear as despesas processuais em sentido lato advm da causalidade, sendo certo que a sucumbncia apenas um indcio daquela. Marcelo Barbi Gonalves, Honorrios advocatcios e Direito Intertemporal, p. 3.2 Nesta linha de raciocnio, Lucas Rister de Souza Lima discorre que quando se estiver diante dos chamados direitos processuais materiais, que se tratam de institutos que contemplam caractersticas tanto da lei processual como da lei material, aplicar-se- para fins de direito in-tertemporal o mesmo efeito imediato previsto para a legislao civil,

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Importante destacar que os honorrios advocatcios de sucumbncia se prestavam, inicialmente, a ressarcir a parte pelo dispndio com a contratao de advogado para defend-la em juzo contra a indevida resistncia sua pretenso material. Tratava-se, portanto, de espcie de indenizao parte vencedora, no de remunerao ao advogado. Tinham, assim, certamente natureza de direito material.

Todavia, especialmente a partir do art. 23 da Lei n 8.906/19943, os honorrios de sucumbncia passaram a ser verba devida ao advogado da parte, inclusive com natureza

pois o processo seria considerado como o prprio direito material, dada a proximidade entre este e aquele. Lucas Rister de Sousa Lima, Direito Intertemporal e Honorrios Advocatcios Sucumbenciais no Novo CPC, p. 183. Calha a observao de Bruno Vasconcelos Carrilho Lopes no sentido de que (...) Dinamarco no inclui os honorrios advocatcios entre os ins-titutos de natureza processual material e, dos argumentos expostos para traar esta disciplina diferenciada, conclui-se que ela no deve ser aplica-da a esse instituto. A ao, a competncia e a prova esto relacionadas ao reconhecimento do direito material, a coisa julgada e sua estabilidade e a responsabilidade patrimonial sua satisfao. Ou seja, tais institutos esto voltados atuao do direito material em juzo. Os honorrios advo-catcios no interferem no modo como a tutela jurisdicional ser prestada no processo. (...) Trata-se, no entanto, de condenao imposta em face de situao diversa daquela discutida no mrito do processo, que se sujeita a fatos constitutivos distintos e d azo formao de outro direito material, pertencente ao advogado e no parte. Bruno Vasconcelos Carrilho Lo-pes, O direito intertemporal e as novidades do novo Cdigo de Processo Civil em tema de honorrios advocatcios, p. 106.3 Art. 23. Os honorrios includos na condenao, por arbitramento ou sucumbncia, pertencem ao advogado, tendo este direito autnomo para executar a sentena nesta parte, podendo requerer que o precatrio, quando necessrio, seja expedido em seu favor.

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alimentar como expressamente consagrado no art. 85, 14, do CPC/15. Criou-se, desde ento, um nus parte, decor-rente to somente do processo, sem relao direta com o direito substancial objeto do litgio e com os honorrios contratuais - ainda que excepcionalmente o princpio da causalidade influa na distribuio deste nus.

Neste prisma, tanto o art. 20 do CPC/73,4 como o art. 85 do CPC/15, traduzem a mesma ideia, segundo a qual a sentena condenar o vencido a pagar honorrios (...), sendo, portanto, os honorrios advocatcios uma conse-quncia da sucumbncia definida na sentena. V-se, pois, que foi mantida a sucumbncia como princpio norteador. De forma secundria que se adota a causalidade, seguin-do a linha de entendimento doutrinrio5 e jurisprudencial

4 Discorrendo acerca da norma disposta no Cdigo de 1973, leciona Humberto Theodoro Junior: Adotou o Cdigo, assim, o princpio da su-cumbncia, que consiste em atribuir parte vencida na causa a respon-sabilidade por todos os gastos do processo. Assenta-se ele na ideia fun-damental de que o processo no deve redundar em prejuzo da parte que tenha razo. Por isso mesmo, a responsabilidade financeira decorrente da sucumbncia objetiva e prescinde de qualquer culpa do litigante derro-tado no pleito judicirio. Para sua incidncia basta, portanto, o resultado negativo da soluo da causa, em relao parte (...). que o pagamento dessa verba (honorrios de advogado) no o resultado de uma ques-to submetida ao juiz. Ao contrrio, uma obrigao legal, que decorre automaticamente da sucumbncia, de sorte que nem mesmo ao juiz permitido omitir-se frente sua incidncia. Humberto Theodoro Jnior, Curso de Direito Processual Civil: Teoria geral do direito processual civil e processo de conhecimento, p. 205-208. 5 Como se pode notar da redao do dispositivo o Novo Cdigo de Pro-cesso Civil, a exemplo do que j fazia o CPC/1973, continua a consagrar a sucumbncia como critrio determinante da condenao ao pagamento de honorrios advocatcios. Ocorre, entretanto, que nem sempre a su-

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para hipteses especficas de demandas repetitivas.6

Nesta perspectiva, diferentemente de quando se pres-tavam a indenizar a parte vencedora, os honorrios no se constituem em um direito material objeto do litgio, mas mera consequncia da sucumbncia no processo, apenas como regra do processo.

Alm disso, ainda que considerada norma de direi-to material, tem-se nesta perspectiva como fato gerador o pronunciamento judicial no qual fixada a sucumbncia e, por consequncia, a verba honorria. No h direito ad-quirido aos honorrios com a simples propositura da ao,

cumbncia determinante para a condenao, devendo ser tambm apli-cado a determinadas situaes o princpio de causalidade, de forma que a parte, mesmo vencedora, seja condenada ao pagamento de honorrios ao advogado da parte vencida por ter sido o responsvel pela e