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2018 16 ª edição | revista, atualizada e ampliada Renato Saraiva Aryanna Linhares Curso de DIREITO PROCESSUAL DO TRABALHO

DIREITO PROCESSUAL DO TRABALHO · justificar a divisão e autonomia do Direito Processual do Trabalho, do direito processual civil e do direito processual penal. Neste contexto, para

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2018

16 edio | revista, atualizada e ampliada

Renato Saraiva Aryanna Linhares

Curso deDIREITO

PROCESSUAL DO TRABALHO

26 CURSO DE DIREITO PROCESSUAL DO TRABALHO Renato Saraiva e Aryanna Linhares

1.1. DIREITO PROCESSUAL DO TRABALHO EVOLUO NO BRASIL

Os primeiros rgos criados no Brasil objetivando solucionar os conflitos trabalhistas foram os Conselhos Permanentes de Conciliao e Arbitragem, os quais, embora no efetivamente implantados, foram institudos pela Lei 1.637, de 05.11.1911, cujo art. 8. dispunha que os sindicatos que se constiturem com o esprito de harmonia entre patres e operrios, como os ligados por conselhos permanentes de conciliao e arbitragem, destinados a dirimir as divergncias e contestaes entre o capital e o trabalho, sero considerados como representantes legais da classe integral dos homens do trabalho e, como tais, podero ser consultados em todos os assuntos da profisso.

Posteriormente, a Lei 1.869, de 10.10.1922, criou, em So Paulo, os denominados Tribunais Rurais, de composio paritria (composto por um juiz de direito da comarca, um representante dos trabalhadores e outro, dos fazendeiros), com funo de dirimir conflitos at o valor de quinhentos mil ris, decorrentes da interpretao e execuo dos contratos de servios agr-colas. Todavia, os Tribunais Rurais no produziram resultados satisfatrios.

Em verdade, esses primeiros rgos criados praticamente no exerceram suas funes, pois, como esclarece Jos Augusto Rodrigues Pinto, Processo trabalhista de conhecimento, p. 35, sendo caixas de ressonncias dos conflitos que cuidavam e inexistindo, sua poca, ambiente propcio sua formao, atrofiaram-se por esvaziamento natural de funes e finalidade.

Dois fatores contriburam, de forma decisiva, na institucionalizao da Justia do Trabalho no Brasil, quais sejam: o surgimento das convenes coletivas de trabalho e a influncia da doutrina da Itlia, visto que nosso sistema acabou por copiar, em vrios aspectos, o sistema italiano da Carta del Lavoro, de 1927, de Mussolini (regime corporativista).

J na era Vargas, em 1932, foram criadas as Juntas de Conciliao e Julgamento e as Comisses Mistas de Conciliao, que atuavam como rgos administrativos, julgando, respectivamente, os dissdios individuais e coletivos do trabalho.

Amauri Mascaro Nascimento, Curso de direito processual do trabalho, p. 28, sobre o tema, leciona que:

A conveno coletiva do trabalho entrou definitivamente no elenco das instituies jurdicas brasileiras, margem da organizao judiciria, e, com funes especficas, se erigiram as Comisses Mistas de Conciliao (Waldemar Ferreira). Essas comisses nasceram subsequentemente e como consequncia direta da introduo das convenes coletivas (1932) e para atender necessidade de um rgo para decidir e interpretar as questes delas oriundas. Assim, nos municpios ou localidades onde

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existissem sindicatos ou associaes profissionais de empregadores ou empregados, foram criadas as Comisses Mistas de Conciliao (1932), com a funo, segundo Waldemar Ferreira, especificamente jurisdicional, lanando as linhas de um autntico tribunal trabalhista, em cuja formao se encontrem representantes, em igual nmero, de empregadores e empregados, decidindo, sob a presidncia de pessoa estranha aos interesses profissionais, de preferncia membros da Ordem dos Advogados do Brasil, magistrados e funcionrios federais, estaduais ou municipais, escolhidos aqueles por sorteio de nomes constantes de listas apresentadas pelos sindicatos ou associaes profissionais.

Todavia, as Comisses Mistas de Conciliao, que tinham como funo primeira julgar os dissdios coletivos, funcionaram de forma precria e espo-rdica, visto que, poca, eram raros os conflitos coletivos.

As Juntas de Conciliao de Julgamento, tambm criadas em 1932, ti-nham a funo de dirimir os dissdios individuais de trabalho, onde somente os empregados sindicalizados possuam o direito de ao. Estas se consti-tuam em instncia nica de julgamento e suas decises valiam como ttulo de dvida lquida e certa para execuo judicial. No entanto, o Ministro do Trabalho, Indstria e Comrcio podia avocar qualquer processo, no prazo de seis meses, a pedido do interessado, nos casos de flagrante parcialidade dos julgadores ou violao do direito. Na poca, as Juntas eram compostas de um presidente, em geral membro da OAB, e de dois vogais, um representante dos empregados e outro dos empregadores.

Wilson de Souza Campos Batalha, Tratado de direito judicirio do trabalho, p. 167, a respeito do funcionamento das juntas de Conciliao e Julgamento poca, esclarece que:

(...) o funcionamento desses rgos, entretanto, era precarssimo. As Juntas de Conciliao e Julgamento no eram autnomas, nem em face da Justia comum, nem em face do titular da Pasta do Trabalho. Este podia revogar as decises das Juntas mediante avocatrias, espcie de recurso com finalidades amplas e largussimo prazo de interposio. As Juntas eram rgos amputados; faltava-lhes o poder de executar suas prprias decises e estas eram passveis de anulao na fase executria que se processava perante a magistratura comum. Outorgava-lhes a lei notio limitada; negava-lhes, porm, o imperium.

Aps 1932, surgiram outras organizaes no pertencentes ao Poder Judicirio, dotadas tambm de poder de deciso, dentre as quais podemos citar: Juntas que funcionavam perante a Delegacia de Trabalho Martimo (1933), o Conselho Nacional do Trabalho (1934) e uma jurisdio adminis-trativa para frias (1933).

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A Justia do Trabalho somente surgiu como rgo autnomo em 01.05.1941, quando entrou em vigor o Decreto-lei 1.237, de 02.05.1939, e o respectivo regulamento aprovado pelo Decreto 6.596, de 12.12.1940.

Apesar de ainda no pertencer ao Poder Judicirio, a partir de 1941, a Justia do Trabalho passou a exercer funo jurisdicional, com poder de executar as prprias decises. A nova organizao implementada dotou a Justia Laboral de trs rgos, a saber: Juntas de Conciliao e Julgamento ou Juzes de Direito (nas localidades desprovidas de Juntas), compostas de um presidente bacharel em direito, nomeado pelo Presidente da Repblica e dois vogais, representantes dos empregados e empregadores; Conselhos Regionais do Trabalho, equivalentes, atualmente aos Tribunais Regionais do Trabalho, sediados em diferentes regies do Pas, e com competncia para decidir os recursos das decises das Juntas, e, originariamente, os dissdios coletivos nos limites da sua jurisdio; Conselho Nacional do Trabalho, cor-respondente, atualmente, ao Tribunal Superior do Trabalho, rgo de cpula que funcionava com duas Cmaras, a Cmara da Justia do Trabalho e a Cmara de Previdncia Social.

Em 1943 entrou em vigor a Consolidao das Leis do Trabalho, a qual dedicou dois ttulos organizao judiciria (Ttulo VIII Da Justia do Trabalho e Ttulo IX Do Ministrio Pblico do Trabalho) e um terceiro, dedicado ao Processo do Trabalho (Ttulo X Do Processo Judicirio do Trabalho).

Com o Decreto-lei 9.797, de 09.09.1946, foram conferidas aos juzes do trabalho, nomeados pelo Presidente da Repblica, as garantias semelhantes s de magistratura ordinria, organizando-se a carreira, com ingresso mediante concurso pblico de provas e ttulos, sendo as promoes realizadas de acordo com os critrios de antiguidade e merecimento.

Finalmente, a Constituio de 1946, concluindo a evoluo da Justia Laboral, integrou, definitivamente, a Justia do Trabalho como rgo do Po-der Judicirio, constituda de Juntas de Conciliao e Julgamento, Tribunais Regionais do Trabalho (substituindo os Conselhos Regionais do Trabalho) e o Tribunal Superior do Trabalho (antigo Conselho Nacional do Trabalho).

Aps a promulgao da Carta de 1946, vrias leis relacionadas com o Processo do Trabalho foram editadas, destacando-se:

O Decreto-lei 779/1969, que dispe sobre a aplicao de normas processuais trabalhistas Unio, Estados, Distrito Federal, Municpios, Autarquias e Fundaes Pblicas;

A Lei 5.584/1970, que, alm de unificar os prazos recursais no mbito laboral, tambm tratou de vrios aspectos processuais trabalhistas, bem como disciplinou a concesso e prestao da assistncia judiciria na Justia do Trabalho;

Cap. 1 PRINCPIOS E FONTES FORMAIS DO DIREITO PROCESSUAL DO TRABALHO 29

A Lei 7.701/1988, que versou sobre a competncia dos processos no Tribunal Superior do Trabalho e a especializao dos tribunais trabalhistas em processos coletivos;

A EC 24/1999, que extinguiu a representao classista em todas as instncias, transformando as Juntas de Conciliao e Julgamento em Varas do Trabalho;

A Lei 9.957/2000, que instituiu o procedimento sumarssimo no Processo do Tra-balho, para as causas cujo valor no ultrapassem a 40 salrios-mnimos;

A Lei 9.958/2000, que criou as denominadas Comisses de Conciliao Prvia, de composio paritria, objetivando tentar conciliar os dissdios individuais do trabalho.

1.2. DIREITO PROCESSUAL DO TRABALHO CONCEITO E AUTONOMIA

Direito Processual do Trabalho o ramo da cincia jurdica, dotado de normas e princpios prprios para a atuao do direito do trabalho e que disciplina a atividade das partes, juzes e seus auxiliares, no processo indivi-dual e coletivo do trabalho.

Carlos Henrique Bezerra Leite, Curso de direito processual do trabalho, p. 77, em feliz conceito, leciona que:

Conceituamos o direito processual do trabalho como ramo da cincia jurdica, constitudo por um sistema de princpios, normas e instituies prprias, que tem por objeto promover a pacificao justa dos conflitos decorrentes das relaes jurdicas tuteladas pelo direito material do trabalho e regular o funcionamento dos rgos que com-pem a Justia do Trabalho.

Coqueijo Costa, Direito processual do trabalho, p. 12-13, tambm cita o conceito de direito processual do trabalho de vrios doutrinadores. Vejamos:

E assim surgiu o Direito Processual do Trabalho consagrado em 1930, quando Carnelutti proclamou-o diverso do Direito Processual Comum e que, na sntese feliz de Nicola Jaeger, o complexo sistemtico de nor-mas que disciplinam a atividade das partes, do juiz e de seus auxiliares, no processo individual, coletivo e intersindical no coletivo do trabalho.

Ou, nas palavras de Luigi de Litala, o ramo da cincia jurdica que dita as normas instrumentais para a atuao do Direito do Trabalho e que disciplina a atividade do juiz e das partes, em todo o procedimento concernente matria de trabalho. Ou ainda, mais simplificadamente, aquele setor do direito objetivo que regula o processo do trabalho, entendendo-se por processo do trabalho aquele que tem como objeto ou matria um litgio fundado numa relao de trabalho (Jos A. Arlas,

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Caracteres generales del regimen procesal laboral de la Ley n. 14.188, Nuevo proceso laboral uruguayo, p. 17).

Em relao autonomia do Direito Processual do Trabalho perante o direito processual comum, ainda existem divergncias na doutrina, nascendo duas teorias, a monista e a dualista.

A teoria monista, minoritria, preconiza que o direito processual unitrio, formado por normas que no diferem substancialmente a ponto de justificar a diviso e autonomia do Direito Processual do Trabalho, do direito processual civil e do direito processual penal.

Neste contexto, para a teoria monista, o Processo do Trabalho no seria regido por leis e estruturas prprias que justificassem a sua autonomia em relao ao processo civil, constituindo-se o direito instrumental laboral em simples desdobramento do direito processual civil.

A teoria dualista, significativamente majoritria, sustenta a autonomia do Direito Processual do Trabalho perante o direito processual comum, uma vez que o direito instrumental laboral possui regulamentao prpria na Consolidao das Leis do Trabalho, sendo inclusive dotados de princpios e peculiaridades que o diferenciam, substancialmente, do processo civil. Frise--se, tambm, que o prprio texto consolidado que determina a aplicao,apenas subsidiria, das regras de processo civil, em caso de lacuna da normainstrumental trabalhista (art. 769 da CLT).

Jos Augusto Rodrigues Pinto, em obra j citada neste captulo, defen-dendo a autonomia do processo laboral, leciona que:

Os caminhos para a autonomia do Direito Processual do Trabalho, em face do processo comum, no poderiam ser diversos dos seguidos por todos os ramos que obtiveram sua identidade prpria, dentro da unidade cientfica do Direito. Foram por ele observados os estgios clssicos da formao de princpios e doutrina peculiares, legislao tpica e aplicao didtica regular.

Todos esses estgios esto cumpridos, no Brasil, sucessivamente, pelo Direito Processual do Trabalho. Acha-se ele sustentado por princpios peculiares, ainda que harmonizados com os gerais do processo, por ampla construo doutrinria, que se retrata em consistente referncia bibliogrfica, e por um sistema legal caracterstico, incluindo-se, alm do mais, nos currculos de graduao em Direito, na condio de disciplina nuclear. Aduza-se, ainda, a observao de Coqueijo Costa sobre ter juiz prprio, ou seja, jurisdio especial, o que nem chega a ocorrer em todos os pases do mundo ocidental industrializado.

Em ltima anlise, embora seja verdade que a legislao instrumental trabalhista ainda modesta, carecendo de um Cdigo de Processo do Tra-

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balho, definindo mais detalhadamente os contornos do processo laboral, no h dvida que o Direito Processual do Trabalho autnomo em relao ao processo civil, uma vez que possui matria legislativa especfica regulamentada na Consolidao das Leis do Trabalho, sendo dotado de institutos, princpios e peculiaridades prprios, alm de independncia didtica e jurisdicional.

1.3. EFICCIA DA LEI PROCESSUAL TRABALHISTA NO TEMPO E NO ESPAO

1.3.1. Eficcia da lei processual trabalhista no tempo

Estabelece o art. 1. da Lei de Introduo s normas do Direito Brasileiro que, salvo disposio contrria, a lei comea a vigorar em todo o pas 45 (quarenta e cinco) dias depois de oficialmente publicada.

Em regra, as disposies do Direito Processual do Trabalho entram em vigor a partir da data de publicao da lei, com eficcia imediata, alcanando os processos em andamento.

O processo, de maneira ampla, compreende uma srie de atos processuais que se coordenam e se sucedem no curso do procedimento, iniciando-se com a petio inicial at o trnsito em julgado da sentena.

Neste diapaso, o direito processual ptrio adota o sistema denomi-nado isolamento dos atos processuais, o qual estabelece que, estando em desenvolvimento um processo, a lei processual nova regular apenas os atos processuais que sero praticados aps sua vigncia, no alcanando os atos j realizados sob a gide da lei anterior, os quais sero considerados vlidos, produzindo todos os regulares efeitos previstos pela lei velha.

Neste sentido, podemos destacar o art. 912 da CLT, o qual estabelece que os dispositivos de carter imperativo tero aplicao imediata s relaes iniciadas, mas no consumadas, antes da vigncia desta Consolidao.

Logo, os atos processuais j praticados antes da entrada em vigor da lei processual nova estaro resguardados, por constiturem ato jurdico perfeito e acabado, ou seja, os atos processuais praticados sob vigncia da lei revogada mantm plena eficcia depois de promulgada a lei nova, mesmo que esta estabelea preceitos de contedos diferentes.

Nesta esteira, os atos processuais no so atingidos pelo atual dispositivo legal, tendo em vista o princpio da irretroatividade da norma processual. Todavia, no caso de lei processual nova, cujo contedo envolva disposies atinentes jurisdio e competncia, ter a mesma aplicao imediata, regendo o processo e julgamento de fatos anteriores sua promulgao.

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Este sistema tambm era adotado pelo Cdigo de Processo Civil de 1973, que dispunha em seu art. 1.211 que: Este Cdigo reger o processo civil em todo o territrio brasileiro. Ao entrar em vigor, suas disposies aplicar-se-o desde logo aos processos pendentes.

Nesta perspectiva, o Cdigo de Processo Civil dispe em seu art. 1.046: Ao entrar em vigor este Cdigo, suas disposies se aplicaro desde logo aos processos pendentes, ficando revogada a Lei 5.869, de 11 de janeiro de 1973.

Por fim, o art. 915 consolidado estabelece que no sero prejudicados os recursos interpostos com apoio em dispositivos alterados ou cujo prazo para interposio esteja em curso data da vigncia da Consolidao das Leis do Trabalho.

Em outras palavras, ao propor uma ao trabalhista, a parte ainda no possui direito adquirido ao recurso, mas, sim, mera expectativa de direito. O direito ao recurso ser exercido de acordo com a lei vigente no momento da publicao da deciso de que se pretende recorrer.

Frise-se, outrossim, que os prazos iniciados na vigncia da lei anterior por ela continuaro a ser regulados, correndo at o seu termo final.

1.3.2. Eficcia da lei processual trabalhista no espao

A eficcia da lei processual no espao diz respeito ao territrio em que vai ser aplicado o dispositivo legal.

No Brasil, prevalece o princpio da territorialidade, vigorando a lei pro-cessual trabalhista em todo o territrio nacional, sendo aplicada tanto aos brasileiros quanto aos estrangeiros residentes no Brasil.

Destaque-se, todavia, que a execuo da sentena estrangeira no Brasil depende de homologao do Superior Tribunal de Justia, nos termos do art. 105, I, i, da CF/1988, com redao dada pela EC 45/2004, conhecida esta homologao como juzo de delibao.

1.4. PRINCPIOS CONSTITUCIONAIS APLICVEIS AO PROCESSO DO TRABALHO

As normas fundamentais esto previstas na Constituio, na Consolida-o das Leis do Trabalho e tambm no Cdigo de Processo Civil, que, alis, destinou um captulo inteiro, compostos pelos seus 12 primeiros artigos, para delas tratarem.

Algumas normas fundamentais, previstas no Cdigo de Processo Civil, so tambm aplicadas na Constituio, como o princpio da inafastabilidade da jurisdio disposto no art. 3. do CPC, que consiste na mera repetio

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do texto constitucional (art. 5., XXXV, CF). Outras, no prprio Cdigo de Processo Civil, como o dever de observncia dos precedentes judiciais, e ainda na Consolidao das Leis do Trabalho.

Princpios so proposies genricas, abstratas, que fundamentam e inspiram o legislador na elaborao da norma.

Os princpios tambm atuam como fonte integradora da norma, suprindo as omisses e lacunas do ordenamento jurdico.

Exercem ainda os princpios importante funo, atuando como instrumento orientador na interpretao de determinada norma pelo operador do direito.

Os princpios, portanto, desempenham uma trplice funo: informativa, normativa e interpretativa.

Passemos a destacar os princpios aplicveis ao Processo do Trabalho e suas peculiaridades:

1.4.1. Princpio do devido processo legal

O princpio do devido processo legal (due process of law) , sem dvida, um dos mais importantes princpios constitucionais, encontra-se previsto, expressamente, no art. 5., LIV, da CF/1988, dispondo que ningum ser privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal.

O atual CPC faz referncia expressa a esse princpio em seus arts. 26, I, e 36.Alguns princpios encontram sua base legal no prprio princpio do

devido processo legal. Dentre eles, podemos citar: o princpio do juiz e do promotor natural, a proibio de tribunais de exceo, o duplo grau de jurisdio, a motivao das decises, a s admissibilidade de provas lcitas no processo, o contraditrio, a ampla defesa, a publicidade do processo etc.

1.4.2. Princpio da dignidade da pessoa humana

O princpio da dignidade da pessoa humana est previsto no art. 8. do CPC e impe ao julgador o dever de resguardar e promover a dignidade da pessoa humana. Observe:

Ao aplicar o ordenamento jurdico, o juiz atender aos fins sociais e s exigncias do bem comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a publicidade e a eficincia.

Resguardar significa aplicar adequadamente a norma jurdica e no violar a dignidade. J promover, que o julgado dever agir para assegurar a dignidade da pessoa humana, como, por exemplo, determinar a tramitao

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preferencial do feito em processo em que seja parte pessoa portadora de doena grave que no esteja no rol do art. 1.048, I, do CPC.

Na viso de Fredie Didier Junior1, o princpio da dignidade da pessoa humana pode revelar-se de duas maneiras: a) na construo de normas ju-rdicas processuais, que visem mais diretamente proteo da dignidade da pessoa. O CPC preocupou-se com isso claramente em diversos dispositivos, quase todos eles novidades no direito processual civil brasileiro. Eis alguns bons exemplos: direito do portador de deficincia auditiva, a comunicar-se em audincia por meio da Lngua Brasileira de Sinais (art. 162, III, do CPC); consagrao da atipicidade da negociao processual (art. 190 do CPC); direito das pessoas com deficincia acessibilidade aos meios eletrnicos de comuni-cao processual (art. 199 do CPC); direito ao silncio no processo civil (art. 388 do CPC); proibio de pergunta vexatria testemunha (art. 459, 2., do CPC); humanizao do processo de interdio (arts. 751, 3., e 755, II, do CPC); impenhorabilidade de certos bens (art. 833 do CPC): neste rol, a nica que no novidade legislativa; tramitao prioritria de processos de pessoas idosas ou portadoras de doena grave. (...) b) na reconstruo do sentido de alguns artigos do CPC, como as disposies sobre impenhora-bilidade, que podem ser interpretadas extensivamente para abranger outros bens cuja penhora comprometa a dignidade da pessoa humana: prteses, jazigos, co-guia de um cego etc.

Por fim, o princpio da dignidade da pessoa humana aplica-se no apenas s pessoas naturais, mas tambm s pessoas jurdicas, aos condomnios, aos nascituros, aos rgos pblicos etc.

1.4.3. Princpio do contraditrio

A CF/1988, em seu art. 5., LV, assegura aos litigantes, em processo judicial ou administrativo (inclusive no mbito trabalhista), e aos acusados, em geral, o contraditrio e a ampla defesa, com os meios e recursos a eles inerentes.

O Cdigo de Processo Civil assegura o princpio do contraditrio com o mesmo vis da Constituio, em seus arts. 9., 7. e 10. Perceba:

Art. 9. No se proferir deciso contra uma das partes sem que ela seja pre-viamente ouvida. Pargrafo nico. O disposto no caput no se aplica: I tutela provisria de urgncia;

1 DIDIER JUNIOR., Fredie. Curso de direito processual civil: introduo ao direito processual civil, parte geral e processo de conhecimento. 17. ed. Salvador: Juspodvm. v. 1,p. 77-78.

Cap. 1 PRINCPIOS E FONTES FORMAIS DO DIREITO PROCESSUAL DO TRABALHO 35

II s hipteses de tutela da evidncia previstas no art. 311, incisos II e III; III deciso prevista no art. 701.Art. 7. assegurada s partes paridade de tratamento em relao ao exerccio de direitos e faculdades processuais, aos meios de defesa, aos nus, aos deve-res e aplicao de sanes processuais, competindo ao juiz zelar pelo efetivo contraditrio. Art. 10. O juiz no pode decidir, em grau algum de jurisdio, com base em fundamento a respeito do qual no se tenha dado s partes oportunidade de se manifestar, ainda que se trate de matria sobre a qual deva decidir de ofcio.

A nova noo de contraditrio distancia-se da viso simplista de que consiste apenas no direito das partes cincia dos atos processuais e de manifestao quanto a eles.

O contraditrio passa a ser a garantia de efetiva participao das partes no desenvolvimento de todo o litgio, mediante a possibilidade de influrem, em igualdade de condies, no convencimento do magistrado. O contradit-rio, portanto, garante s partes o direito de se manifestarem sobre qualquer questo relevante do processo, mesmo que o juiz possa conhecer de ofcio.

Assim, por exemplo, se o juiz entender que as partes so ilegtimas, antes de se pronunciar a respeito, cumpre-lhe intim-las para que se manifestem. Da mesma forma, o juiz pode pronunciar a incompetncia absoluta de ofcio, mas no antes de oportunizar a manifestao das partes. Consoante a nova noo de contraditrio, ainda que caiba ao magistrado conhecer de ofcio da matria, deve permitir que as partes colaborem com a formao do seu convencimento. Pretende-se que profira uma deciso legtima, aprimorada e justa, resultado de uma atividade conjunta, em que h participao efetiva dos sujeitos do processo. No se admitir mais a chamada deciso surpresa.

A IN 39/2016 do TST, que versa sobre as normas do Cdigo de Processo Civil de 2015 aplicveis e inaplicveis no Processo do Trabalho, deixa claro o princpio do contraditrio, em especial os arts. 9. e 10, que vedam a deciso surpresa, so compatveis com a seara trabalhista.

A mesma instruo normativa, em seu art. 4, define o que se considera por deciso surpresa:

Art. 4 Aplicam-se ao Processo do Trabalho as normas do CPC que regulam o princpio do contraditrio, em especial os artigos 9. e 10, no que vedam adeciso surpresa. 1. Entende-se por deciso surpresa a que, no julgamento final do mrito dacausa, em qualquer grau de jurisdio, aplicar fundamento jurdico ou embasar--se em fato no submetido audincia prvia de uma ou de ambas as partes. 2. No se considera deciso surpresa a que, luz do ordenamento jurdiconacional e dos princpios que informam o Direito Processual do Trabalho, as partes

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tinham obrigao de prever, concernente s condies da ao, aos pressupostos de admissibilidade de recurso e aos pressupostos processuais, salvo disposio legal expressa em contrrio.

O disposto no art. 10 do CPC de 1973 foi repetido por este Cdigo em seus arts. 493, pargrafo nico, 933 e 927, 1.:

Art. 493. Se, depois da propositura da ao, algum fato constitutivo, modificativo ou extintivo do direito influir no julgamento do mrito, caber ao juiz tom-lo em considerao, de ofcio ou a requerimento da parte, no momento de proferir a deciso. Pargrafo nico. Se constatar de ofcio o fato novo, o juiz ouvir as partes sobre ele antes de decidir. Art. 933. Se o relator constatar a ocorrncia de fato superveniente deciso recorrida ou a existncia de questo aprecivel de ofcio ainda no examinada que devam ser considerados no julgamento do recurso, intimar as partes para que se manifestem no prazo de 5 (cinco) dias. Art. 927. Os juzes e os tribunais observaro: I as decises do Supremo Tribunal Federal em controle concentrado de cons-titucionalidade; II os enunciados de smula vinculante; III os acrdos em incidente de assuno de competncia ou de resoluo de demandas repetitivas e em julgamento de recursos extraordinrio e especial repetitivos; IV os enunciados das smulas do Supremo Tribunal Federal em matria consti-tucional e do Superior Tribunal de Justia em matria infraconstitucional; V a orientao do plenrio ou do rgo especial aos quais estiverem vinculados. 1. Os juzes e os tribunais observaro o disposto no art. 10 e no art. 489, 1., quando decidirem com fundamento neste artigo.

Observe que o art. 933 do CPC refora o dever de consulta no mbito dos tribunais, sendo que a sua inobservncia poder acarretar a nulidade da deciso por violao ao contraditrio. Por sua vez, o art. 927, 1., do CPC determina a aplicao do disposto no art. 10 do CPC no momento da for-mao dos precedentes, estabelecendo que todos os fundamentos relevantes para a sua formao devem observar o contraditrio.

Ressalte-se, por fim, que o art. 9. do CPC institui que no se profe-rir deciso contra algum sem que ela seja ouvida, o que significa que possvel que isso ocorra quando a deciso for a seu favor, como na hiptese de improcedncia liminar do pedido (art. 332 do CPC2). O art. 9. tambm

2 Art. 332. Nas causas que dispensem a fase instrutria, o juiz, independentemente da citao do ru, julgar liminarmente improcedente o pedido que contrariar:

Cap. 1 PRINCPIOS E FONTES FORMAIS DO DIREITO PROCESSUAL DO TRABALHO 37

deixa claro que no se faz necessria a oitiva da parte quando a deciso provisria, por exemplo, nas hipteses citadas em seu pargrafo nico: tutela provisria de urgncia, nas hipteses de tutela de evidncia previstas no art. 311, incisos II e III, e quanto deciso estabelecida no art. 701 do CPC.

Referente ao tema, o seguinte julgado deve ser verificado:

CERCEAMENTO DE DEFESA. INDEFERIMENTO DA OITIVA DE TES-TEMUNHA. No Direito Processual moderno, o contraditrio impe a conduo dialtica do processo, garantindo a bilateralidade dos atos do processo, bem como a possibilidade de contrari-los. Da se pode afirmar que a pretenso tutela jurdica, que corresponde exatamen-te garantia consagrada no art. 5., LV, da CF, contm o direito das partes em influenciar a formao da convico judicial. A dialtica o meio verdadeiro para a busca do conhecimento. Em outras palavras, o objeto do conhecimento deve ser debatido entre os interlocutores, de sorte que as questes fticas em discusso nos autos devem primor-dialmente ser objeto de discusso. Dilogo, argumentao e persuaso apresentam-se como componentes indissociveis do caminho que leva ao conhecimento da verdade ou o mais prximo dela possvel, sendo certo que os meios de prova se apresentam, sob esse aspecto, como um meio retrico indispensvel neste sistema. Caracteriza o cerceamento de defesa o indeferimento da oitiva de testemunha presente sesso ao fundamento de que move ao contra a r e que o autor foi arrolado como testemunha naquela ao, se demonstrado ficou que o autor sequer prestou depoimento. Preliminar que se acolhe para determinar a reabertura da instruo processual (TRT/SP Recurso Ordinrio 0000282-27.2014.5.02.0047 17. T. Rel. Flvio Villani Macdo j. em 25.06.2015 Data de Publicao: 03.07.2015).

1.4.4. Princpio da ampla defesa

O contraditrio e a ampla defesa se completam (art. 5., LV, CF).

I enunciado de smula do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justia; II acrdo proferido pelo Supremo Tribunal Federal ou pelo Superior Tribunal de Justia em julgamento

de recursos repetitivos; III entendimento firmado em incidente de resoluo de demandas repetitivas ou de assuno de competncia; IV enunciado de smula de tribunal de justia sobre direito local. 1. O juiz tambm poder julgar liminarmente improcedente o pedido se verificar, desde logo, a ocor-

rncia de decadncia ou de prescrio. 2. No interposta a apelao, o ru ser intimado do trnsito em julgado da sentena, nos termos do

art. 241. 3. Interposta a apelao, o juiz poder retratar-se em 5 (cinco) dias. 4. Se houver retratao, o juiz determinar o prosseguimento do processo, com a citao do ru, e, se no

houver retratao, determinar a citao do ru para apresentar contrarrazes, no prazo de 15 (quinze) dias. IOR

38 CURSO DE DIREITO PROCESSUAL DO TRABALHO Renato Saraiva e Aryanna Linhares

Citando Delosmar Mendona Junior,3 Fredie Didier4 bem explica essa conexo entre o contraditrio e a ampla defesa: So figuras conexas, sendo que ampla defesa qualifica o contraditrio. No h contraditrio sem defesa. Igualmente lcito dizer que no h defesa sem contraditrio (...) O con-traditrio o instrumento de atuao do direito de defesa, ou seja, esta se realiza atravs do contraditrio.

1.4.5. Princpio da durao razovel do processo

O princpio da durao razovel do processo corolrio do princpio do devido processo legal. Processo devido processo com durao razovel.

A primeira a prever a durao razovel do processo foi a Conveno Americana de Direitos Humanos, no Pacto de So Jos da Costa Rica, em seu art. 8, 1:

Toda pessoa tem direito a ser ouvida com as devidas garantias e dentro de um prazo razovel, por um juiz ou tribunal competente, independente e imparcial, estabelecido anteriormente por lei, na apu-rao de qualquer acusao penal formulada contra ela, ou para que se determinem ou seus direitos e obrigaes de natureza civil, trabalhista, fiscal ou de qualquer outra natureza.

O Congresso Nacional editou o Decreto 27, de 26 de maio de 1992 aprovando o texto do Pacto, e em 25 de setembro do mesmo ano o Governo Federal depositou a carta de adeso ao referido Pacto.

A Constituio de 1988 confere hierarquia de norma constitucional aos direitos enunciados em tratados internacionais de que o Brasil parte.

A EC 45/2004 assegurou expressamente o direito durao razovel do processo em seu art. 5., LXXVIII:

A todos, no mbito judicial e administrativo, so assegurados a razovel durao do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitao.

O CPC refirmou este princpio em seu art. 4., ressaltando sua aplicao inclusive na fase executiva e, tambm, em seu art. 139, II:

3 MENDONA JUN., Delosmar. Princpios da ampla defesa e da efetividade no processo civil brasileiro. So Paulo: Malheiros. 2001. p. 55.

4 Op. cit., p. 85.

Cap. 1 PRINCPIOS E FONTES FORMAIS DO DIREITO PROCESSUAL DO TRABALHO 39

Art. 4. As partes tm direito de obter em prazo razovel a soluo integral do mrito, includa a atividade satisfativa.Art. 139. O juiz dirigir o processo conforme as disposies deste Cdigo, incumbindo-lhe: (...)II velar pela durao razovel do processo.

Para definir se o processo tem ou no durao razovel, a Corte Europeia dos Direitos Humanos fincou trs critrios: a complexidade do assunto; b) o comportamento dos litigantes e de seus procuradores ou da acusao e dadefesa no processo; e c) a atuao do rgo jurisdicional. No Brasil, pode seracrescentado um quarto critrio: a anlise da estrutura do rgo judicirio.5

Fredie Didier Junior6 cita como exemplo algumas medidas para o combate da violao ao princpio da durao razovel do processo: a) representao por excesso de prazo, com possvel perda da competncia do juzo em razo da demora (art. 235 do CPC); b) mandado de segurana contra a omisso judicial caracterizada pela no prolao da deciso por tempo no razovel, cujo pedido ser a cominao de ordem para que se profira a deciso; c) se a demora injusta causar prejuzo, ao de responsabilidade civil contra o Estado, com possibilidade de ao regressiva contra o juiz. A EC 45/2004 tambm acrescentou a alnea e ao inciso II do art. 93 da CF/1988, estabelecendo que no ser promovido o juiz que, injustamente, retiver os autos em seu poder, alm do prazo legal, no podendo devolv-los ao cartrio sem o devido despacho ou deciso. O pargrafo nico do art. 7. da Lei 4.717/1965 (Lei da Ao Popular) tambm possui regra que serve a esse direito fundamental: O proferimento da sentena alm do prazo estabelecido privar o juiz da incluso em lista de merecimento para promoo, durante 2 (dois) anos, e acarretar a perda, para efeito de promoo por antiguidade, de tantos dias quantos forem o de retardamento, salvo motivo justo declinado nos autos e comprovado perante o rgo disciplinar competente.

1.4.6. Princpio da primazia da deciso de mrito

O Cdigo de Processo Civil inova ao prestigiar a primazia da deciso de mrito, assegurando s partes o direito soluo integral do mrito e, assim, determinando ao juzo, em qualquer fase do processo, que priorize a deciso de mrito.

5 Idem, op. cit., p. 95.6 Op. cit., p. 85.

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Tal princpio aplicvel ao Processo do Trabalho e est expressamente consagrado no art. 4. do CPC:

Art. 4. As partes tm o direito de obter em prazo razovel a soluo integral do mrito, includa a atividade satisfativa.

O princpio da primazia da deciso de mrito foi repetido em outros artigos do mesmo Cdigo, mormente nos arts. 76, 1., 139, IX, 282, 2., 317, 321, 485, 7., 488, 932, pargrafo nico e 1.029, 3.:

Art. 76. Verificada a incapacidade processual ou a irregularidade da representa-o da parte, o juiz suspender o processo e designar prazo razovel para que seja sanado o vcio. 1. Descumprida a determinao, caso o processo esteja na instncia originria: I o processo ser extinto, se a providncia couber ao autor; II o ru ser considerado revel, se a providncia lhe couber; III o terceiro ser considerado revel ou excludo do processo, dependendo do polo em que se encontre.Art. 139. O juiz dirigir o processo conforme as disposies deste Cdigo, incumbindo-lhe: IX determinar o suprimento de pressupostos processuais e o saneamento de outros vcios processuais;Art. 282. Ao pronunciar a nulidade, o juiz declarar que atos so atingidos e ordenar as providncias necessrias a fim de que sejam repetidos ou retificados. 2. Quando puder decidir o mrito a favor da parte a quem aproveite a de-cretao da nulidade, o juiz no a pronunciar nem mandar repetir o ato ou suprir-lhe a falta. Art. 317. Antes de proferir deciso sem resoluo de mrito, o juiz dever con-ceder parte oportunidade para, se possvel, corrigir o vcio. Art. 321. O juiz, ao verificar que a petio inicial no preenche os requisitos dos arts. 319 e 320 ou que apresenta defeitos e irregularidades capazes de dificultar o julgamento de mrito, determinar que o autor, no prazo de 15 (quinze) dias, a emende ou a complete, indicando com preciso o que deve ser corrigido ou completado. Pargrafo nico. Se o autor no cumprir a diligncia, o juiz indeferir a petio inicial. Art. 485. O juiz no resolver o mrito quando: (...) 7. Interposta a apelao em qualquer dos casos de que tratam os incisos deste artigo, o juiz ter 5 (cinco) dias para retratar-se. Art. 488. Desde que possvel, o juiz resolver o mrito sempre que a deciso for favorvel parte a quem aproveitaria eventual pronunciamento nos termos do art. 485.Art. 932. Incumbe ao relator:

Cap. 1 PRINCPIOS E FONTES FORMAIS DO DIREITO PROCESSUAL DO TRABALHO 41

Pargrafo nico. Antes de considerar inadmissvel o recurso, o relator conceder o prazo de 5 (cinco) dias ao recorrente para que seja sanado vcio ou comple-mentada a documentao exigvel. Art. 1.029. O recurso extraordinrio e o recurso especial, nos casos previstos na Constituio Federal, sero interpostos perante o presidente ou o vice-presidente do tribunal recorrido, em peties distintas que contero: 3. O Supremo Tribunal Federal ou o Superior Tribunal de Justia poder des-considerar vcio formal de recurso tempestivo ou determinar sua correo, desde que no o repute grave.

1.4.7. Princpio da igualdade

O princpio da igualdade extrai-se do art. 5., caput, da CF, segundo o qual todos so iguais perante a lei, assegurando s partes na relao proces-sual a paridade de armas,7 ou seja, que tenham as mesmas oportunidades no processo.

A igualdade no significa tratar todas as pessoas da mesma forma, mas tratar os iguais na medida das suas igualdades e os desiguais na exata medida das suas desigualdades8.

O Cdigo de Processo Civil prev expressamente a igualdade em seu art. 7.:

assegurada s partes paridade de tratamento em relao ao exerccio de direitos e faculdades processuais, aos meios de defesa, aos nus, aos deveres e aplica-o de sanes processuais, competindo ao juiz zelar pelo efetivo contraditrio.

Na concepo de Fredie Didier Junior,9 a igualdade processual deve observar quatro aspectos:

a) imparcialidade do juiz (equidistncia em relao s partes);b) igualdade no acesso justia, sem discriminao (gnero, orien-

tao sexual, raa, nacionalidade etc.);c) reduo das desigualdades que dificultem o acesso justia, como

a financeira (ex.: concesso do benefcio da gratuidade da justia, arts. 98-102, CPC), a geogrfica (ex.: possibilidade de sustentao oral por videoconferncia, art. 937, 4., CPC), a de comunicao (ex.: garantir a comunicao por meio da Lngua Brasileira de Sinais, nos casos de partes e testemunhas com dificuldade auditiva, art. 162, III, CPC) etc.;

d) igualdade no acesso s informaes necessrias ao exerccio do contraditrio.

7 Paridade de armas uma expresso de Ada Pellegrini Grinover. 8 NERY JNIOR, Nelson. Cdigo de processo civil comentado. 10. ed. So Paulo: RT, 2007. p. 384.9 Op. cit., p. 97.

42 CURSO DE DIREITO PROCESSUAL DO TRABALHO Renato Saraiva e Aryanna Linhares

No Processo do Trabalho, podemos mencionar alguns exemplos de aplica-o do princpio da igualdade: a) obrigatoriedade de intimao do Ministrio Pblico do Trabalho nos casos que envolvam interesses de incapazes (art. 178, II, do CPC); prazo em dobro para os entes pblicos manifestarem-se nos autos (art. 183 do CPC); iseno de custas processuais para os beneficirios da justia gratuita (art. 790-A da CLT); iseno de cauo para os trabalha-dores; iseno de pagamento dos honorrios periciais paras os beneficirios da justia gratuita (art. 790-B da CLT); tramitao prioritria do feito que envolva idoso, portadores de doena grave e, tambm, para as causas que versem apenas sobre salrios e originrias da falncia do empregador (arts. 1.048, CPC e 652, pargrafo nico, CLT).

1.4.8. Princpio da boa-f processual

O princpio da boa-f est expressamente previsto no atual Cdigo de Processo Civil, em seu art. 5., o que no ocorria no Cdigo de 1973:

Art. 5. Aquele que de qualquer forma participa do processo deve comporta-se de acordo com a boa-f.

A boa-f subdivide-se em objetiva e subjetiva. A boa-f objetiva caracte-riza-se pelo agir de acordo com a tica e moral, ou seja, analisam-se as suas aes, mas no a sua inteno. J a boa-f subjetiva a crena do sujeito de que est agindo licitamente. Muitas vezes, o sujeito age contrrio moral, por exemplo, cobrando dvida j paga, mas porque acreditava que ainda no havia sido quitada, isto , viola-se a boa-f objetiva, mas no a subjetiva.

A boa-f referida no art. 5. do CPC a objetiva, quer dizer, para sua verificao no se investiga a inteno do sujeito, mas a sua conduta objeti-vamente considerada. O princpio o da boa-f objetiva. No h princpio da boa-f subjetiva.

O princpio da boa-f uma clusula geral processual, ou seja, as hip-teses que a caracterizam so indeterminadas, cabendo aos tribunais definir os comportamentos com base no princpio da boa-f. Nota-se que o legislador acertou ao no limitar o rol de condutas que contrariam a boa-f, j que inmeras situaes podem surgir com a prtica, no dia a dia.

A doutrina alem elencou quatro casos de aplicao do princpio da boa-f no processo: a) proibio de comportamento doloso, uma vez que este caracteriza ato ilcito, como, por exemplo: requerer dolosamente a cita-o por edital do reclamado (art. 841, 1., da CLT), incorrer nas condutas de litigncia de m-f (art. 80, CPC); b) proibio da venire contra factum proprium, isto , veda-se a conduta contrria praticada anteriormente, assim

Cap. 1 PRINCPIOS E FONTES FORMAIS DO DIREITO PROCESSUAL DO TRABALHO 43

se a prtica de um ato gera no outro a expectativa de coerncia de atuao e ele frustrado, ele contrrio boa-f, como, por exemplo, quando o exe-cutado oferece um bem penhora e depois alega a sua impenhorabilidade; c) proibio do abuso de direito. Abuso de direito considerado ato ilcito,como, por exemplo: o terceiro que adquire coisa litigiosa tem o direito desuceder ao ru no processo, desde que mediante a concordncia do autor.Este, entretanto, no pode discordar por mero capricho, sem nenhuma jus-tificativa, pois do contrrio viola a boa-f; d) supressio processual, ou seja,perda de um direito por no t-lo exercido em tempo, tal que gerou nooutro a expectativa de que no o exerceria, como, por exemplo: a extinodo processo sem resoluo do mrito aps 10 anos de tramitao regulardo feito viola o princpio da boa-f, pois gerou nas partes a expectativa deque estava regular.10

Todas as decises e postulaes devem pautar-se no princpio da boa-f, impondo s partes deveres de cooperao.

1.4.9. Princpio da cooperao

O princpio da cooperao est expressamente previsto no art. 6. do CPC:

Art. 6. Todos os sujeitos do processo devem cooperar entre si para que se obtenha, em tempo razovel, deciso de mrito justa e efetiva.

O princpio em questo destina-se a todos os sujeitos do processo e visa torn-lo cooperativo, ou seja, em equilbrio, criando um ambiente em que as partes atuem com lealdade.

Trata-se de um modelo que fica entre dois extremos: a) o modelo publi-cista, em que o juiz preponderante no processo, mostrando-se distante das partes e em posio de superioridade durante todo o processo; e b) modelo adversarial, em que a proeminncia das partes, a quem se confere a conduo do processo, enquanto ao juiz cabe decidir. O modelo cooperativa prope um dilogo entre as partes e o juiz, devendo a tramitao do processo ser conduzida por ambos com lealdade. Este um sistema pautado no princpio da boa-f.

So quatro os deveres decorrentes do princpio da cooperao, e estes se aplicam a todos os sujeitos do processo: a) dever de consulta; b) dever de preveno; c) dever de esclarecimento e d) dever de auxlio.

Em relao ao rgo jurisdicional, os referidos deveres podem ser com-preendidos da seguinte forma:

10 Idem, op. cit., p. 111-112.

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O dever de consulta est previsto no art. 10 do CPC, segundo o qual o juiz no pode decidir, em grau algum de jurisdio, com base em funda-mento a respeito do qual no se tenha dado s partes oportunidade de se manifestar, ainda que se trate de matria sobre a qual deva decidir de ofcio.

O dever de preveno caracteriza-se por impor ao juiz convidar as partes ao aperfeioamento de suas peties ou alegaes sempre que o uso inadequado do processo possa frustrar as suas pretenses, como exemplo: a) o juiz deve perguntar parte se esqueceu de ouvir uma das testemunhas ou se de fato desistiu da mesma; e b) no deve indeferir a prova e depois julgar o pedido improcedente por falta de prova:

Art. 77, 1., do CPC. (...)

1. Nas hipteses dos incisos IV e VI, o juiz advertir qualquer das pessoas mencionadas no caput de que sua conduta poder ser punida como ato atenta-trio dignidade da justia. Art. 321 do CPC: O juiz, ao verificar que a petio inicial no preenche os re-quisitos dos arts. 319 e 320 ou que apresenta defeitos e irregularidades capazes de dificultar o julgamento de mrito, determinar que o autor, no prazo de 15 (quinze) dias, a emende ou a complete, indicando com preciso o que deve ser corrigido ou completado. Pargrafo nico. Se o autor no cumprir a diligncia, o juiz indeferir a petio inicial. Art. 772, II, do CPC. Impe ao juiz que, em qualquer momento da fase executiva, advirta o executado que o seu procedimento constitui ato atentatrio dignidade da justia, o que acarreta multa de at 20% do valor da causa, de acordo com a gravidade da conduta. Antes de punir o executado, o juiz deve adverti-lo quanto ao comportamento aparentemente temerrio, para que a parte possa explicar-se.

Por sua vez, o dever de esclarecimento por um lado impe ao juzo o dever de proferir uma deciso clara e, por outro, determina ao mesmo esclarecer-se junto s partes quando no compreender suas postulaes.

Por ltimo, o dever de auxlio institui ao juiz afastar os obstculos que impeam a parte do exerccio de um direito ou faculdade.

No direito portugus, o dever de auxlio permite ao juiz sugerir a alterao do pedido para torn-lo mais de acordo com o entendimento jurisprudencial. No direito brasileiro no chegamos a tanto, essa tarefa do representante judicial: advogado ou defensor. No Brasil significa que o juiz deve afastar os obstculos para a obteno de um documento.

nesse sentido a opinio de Fredie Didier:

No Direito Portugus, a doutrina identifica a existncia de um dever de o juiz auxiliar as partes: o tribunal tem o dever de auxiliar as partes

Cap. 1 PRINCPIOS E FONTES FORMAIS DO DIREITO PROCESSUAL DO TRABALHO 45

na superao de eventuais dificuldades que impeam o exerccio de di-reitos e faculdades ou o cumprimento do nus ou deveres processuais. Cabe ao rgo julgador providenciar, sempre que possvel, a remoo do obstculo. Para cumprir esse dever poderia o rgo julgador, por exemplo, sugerir a alterao do pedido, para torn-lo mais conforme o entendimento jurisprudencial para casos como aquele.

(...) No nos parece possvel defender a existncia deste dever no direito

processual brasileiro. A tarefa de auxiliar as partes do sei representante judicial: advogado ou defensor pblico. No s no possvel como tambm no recomendvel. simplesmente imprevisvel o que pode acontecer se se disser ao rgo julgador que ele tem um dever atpico de auxlio das partes. possvel, porm, que haja deveres tpicos de auxlio, por expressa previso legal.

1.4.10. Princpio do respeito ao autorregramento da vontade das partes

O poder de se autorregrar decorre do prprio princpio da liberdade e ele no pode ficar afastado do processo. O melhor desfecho para um feito certamente aquele em que as partes participam da soluo e no aquele em que a uma delas se impe a sucumbncia ou a ambas a sucumbncia recproca. Isso no significa que o autorregramento no tem limites, ele tem sim, como ocorre em qualquer ramo do direito.

Muito embora no estejam referidos nos 12 primeiros artigos do CPC, que tratam das normas fundamentais, o Cdigo de Processo Civil prestigia o princpio do respeito ao autorregramento da vontade em diversos artigos e, muitos deles, podem ser aplicveis ao Processo do Trabalho, como, por exemplo: a) o calendrio processual, previsto no art. 191 do CPC, ou seja, de comum acordo, as partes e o juiz podero fixar a data para a prtica dos atos processuais, como audincias, prazo para manifestaes, prazo para a entrega de laudo pericial. Em relao a tais atos no haver intimao; b) escolha consensual do perito (art. 471 do CPC) etc.

Outro exemplo de aplicao do princpio do respeito ao autorregramento da vontade a clusula geral de negociao processual, prevista no art. 190 CPC, o qual estabelece que versando o processo sobre direitos que admitam autocomposio, lcito s partes plenamente capazes estipular mudanas no procedimento para ajust-lo s especificidades da causa e convencionar sobre os seus nus, poderes, faculdades e deveres processuais, antes ou durante o processo. Isso significa que as partes podero estabelecer mudanas de rito, como, por exemplo, ampliar o nmero de testemunhas do procedimento su-marssimo de 2 para 3 e, tambm, determinar que as custas processuais sejam