Dissertacao Tomas

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    29-Oct-2015

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<ul><li><p>TOMS COELHO GARCIA </p><p>Denncias pblicas contra a violncia policial no Rio de Janeiro </p><p>Dissertao apresentada ao Instituto Universitrio de Pesquisas do Rio de Janeiro como requisito parcial para a obteno do ttulo de Mestre em Cincias Humanas: Sociologia </p><p>Rio de Janeiro 2009 </p></li><li><p>Agradecimentos </p><p>De incio gostaria de agradecer ao companheirismo que d fora para a realizao de qualquer atividade. Acima de tudo minha me, Maria Clia Coelho, meu exemplo mais prximo de coragem e superao. Agradeo tambm o carinho da minha namorada, Lvia Jacob, de todos os meus familiares e amigos. Minha vida inteira um agradecimento ento no me peam para citar todos os nomes. Aos que tiveram contribuio direta nesta dissertao e que poderei citar neste curto espao agradeo primeiro pacincia do meu orientador Luis Antnio Machado da Silva. E aos membros da banca com os quais tive o prazer de ser aluno: Jussara Freire e Frdric Vandemberghe. O grupo de orientandos do Machado, vulgos machadetes, contriburam com todas as suas criticas e sugestes. Particularmente, agradeo aos comentrios, dicas e apresentaes feitos por Juliana Faria, Thais Duarte, Roberta Pedrinha, Alexis Cortes, Paloma Menezes, Alexandre Magalhes e Fbio Araujo. Contribuies importantes vieram dos professores Roberto Kant, Glaucia Mouzinho, que ministraram a disciplina Cultura, Poltica e Direito, de Natasha Neri e demais participantes do curso. Carolina Santos ajudou-me com minhas dvidas jurdicas. No trabalho de campo tive grande ajuda de Isabel Mansur, Taiguara Soares, Patrcia Oliveira, Leonardo Chaves e Marcelo Freixo. De todas as fontes que se tornaram acessveis a partir destas pessoas, foram as entrevistas que me permitiram que melhor sugeriram caminhos para a investigao. Agradeo novamente a Lvia Jacob e ao meu pai, Raymundo Cota, por terem tido a pacincia de revisar a dissertao. Agradeo ao Iuperj como um todo e todas as conversas com seus professores funcionrios e alunos, muitos dos quais vieram a se tornar meus amigos. Agradeo por fim o financiamento da Capes que me permitiu estar disponvel realizao do mestrado. </p></li><li><p>Resumo </p><p>Esta dissertao tem por objetivo investigar a construo social de uma crtica polcia que segue os princpios cvicos dos Direitos Humanos. Seguindo os marcos tericos da Sociologia Pragmtica Francesa de Luc Boltanski, Laurent Thvenot e outros, investigou-se estratgias para tornar pblica uma denncia contra polcia. A pesquisa constituiu em duas fases. Num primeiro momento utilizou-se o conceito de gramtica para a modelizao de dois modos coletivos de construo do problema da segurana pblica: a gramtica da violncia urbana, investigada nos estudos de Luiz Antnio Machado da Silva e seus colaboradores; e a gramtica cvica conceituada a partir da anlise de relatrios de Direitos Humanos publicados nos anos 2000. Os relatrios revelaram-se de extrema importncia para a identificao de diversos dispositivos importantes para a definio de uma situao que envolva a polcia como injusta situao de violncia policial. Num segundo momento, estudou-se condies concretas e situadas de denncia de casos de violncia policial. Para isto utilizaremos o conceito de forma caso (affaire), desenvolvido por Elizabeth Claverie, articulado com os estudos antropolgicos de Roberto Kant de Lima acerca do sistema de inqurito brasileiro. Com base em pesquisas documentais e entrevistas, dois casos foram comparados: o assassinato de 19 pessoas na Mega-Operao no Complexo do Alemo no dia 27 de junho de 2007 (a partir de agora, Caso Alemo); e o caso do assassinato dos trs jovens no Morro da Providncia no dia 14 de junho de 2008 (Caso Providncia). </p><p>Palavras chave </p><p>Violncia policial, Direitos Humanos, Segurana Pblica, teoria da justificao, sociologia pragmtica, regime de justificao, violncia urbana, polcia, movimentos sociais e problemas pblicos. </p></li><li><p>Sumrio </p><p>Introduo ......................................................................................................................... 5 Captulo 1 A violncia policial como causa cvica .................................................... 7 </p><p>1.1 Denncias Pblicas .............................................................................................. 7 1.2 Os princpios de equivalncia. ............................................................................. 9 1.3 Modelizao e gramtica ................................................................................... 12 1.4 A gramtica da violncia urbana ....................................................................... 13 1.5 A Gramtica Cvica ........................................................................................... 16 </p><p>1.5.1 O mundo cvico no livro De la Justification .............................................. 16 1.5.2 A segurana pblica no mundo cvico ........................................................ 18 1.5.3 Os Direitos Humanos.................................................................................. 19 1.5.4 Falhas institucionais ................................................................................... 21 1.5.5 O Desvelamanto da violncia policial .................................................... 25 1.5.6 Quem so as vtimas da polcia .................................................................. 27 </p><p>Captulo 2 Comparao de dois casos de violncia policial ........................................ 30 2.1 O nascimento da forma caso .............................................................................. 30 2.2 O Sistema de inqurito ...................................................................................... 33 2.3 Estratgias de des-singularizao ...................................................................... 35 2.4 Relao entre processo e caso ........................................................................... 37 2.5 O Caso Alemo .................................................................................................. 39 </p><p>2.5.1 A Mega-Operao do Complexo do Alemo ............................................. 39 2.5.2 Os Fatos .................................................................................................. 40 2.5.3 Execues Sumrias ................................................................................... 42 2.5.4 Processo Penal ........................................................................................... 44 2.5.5 A Formulao do Caso ............................................................................... 45 </p><p>2.6 Caso Providncia ............................................................................................... 47 2.6.1 O projeto Cimento Social ........................................................................... 47 2.6.2 Assassinato dos trs jovens......................................................................... 49 2.6.3 Crticas ao Exrcito .................................................................................... 50 2.6.4 Inqurito e denncia ................................................................................... 52 2.6.5 Formao do Caso ...................................................................................... 55 </p><p>2.7 Comparao dos dois casos ............................................................................... 57 2.8 Forma caso e generalizao ............................................................................... 60 2.9 Confronto entre gramticas ............................................................................... 62 </p><p>Consideraes finais ....................................................................................................... 64 Bibliografia ..................................................................................................................... 67 </p></li><li><p>5 </p><p>Introduo </p><p>A polcia no Rio de Janeiro um assunto polmico. possvel afirmar que todos os moradores tm uma opinio sobre o tema, pois est constantemente nos veculos de comunicao e em conversas cotidianas. No entanto, nem todas as opinies sobre a polcia conformam uma opinio pblica. O sentido que utilizaremos deste termo segue a tradio sociolgica chamada de Sociologia Pragmtica e, numa primeira apresentao, podemos afirmar que pblico est associado idia de generalidade. A maioria das vezes em que se fala de polcia trata-se de considerar uma atuao singular de um determinado policial ou grupo de policiais numa determinada situao. Por outro lado, possvel falar da polcia em geral e discutir seu papel na sociedade, entendido como uma totalidade. Trata-se de discusses sobre a segurana pblica. Um terceiro modo de falar sobre a polcia discutir uma determinada situao em que um policial age ou agiu e tomar como um exemplo de como a polcia (em geral) deve ou no agir. Esquematicamente, estes so trs modos de falar e opinar sobre a polcia; outros modos de agir perante ela no implicam necessariamente emitir uma opinio sobre ela, como se calar, confrontar, obedecer, etc. </p><p>Dos trs modos de falar sobre a polcia, o primeiro falar de um policial numa situao particular tende a no ser pblico, pois considera apenas a relao entre o policial e o que fala sobre ela, pouco dizendo sobre outras pessoas em outras situaes. Os outros modos esboam tentativas de superar uma situao de singularidade des-singularizar-se e colocar a polcia como uma discusso pblica (geral, que diz respeito a todos). A discusso pblica pressupe certo nvel de abstrao (no sentido metafsico da palavra), ou seja, dividir a discusso em dois nveis: a atuao da polcia em um conjunto de prticas singulares e a referncia ao seu papel na sociedade em geral. importante notar que a prpria organizao da polcia pressupe esta abstrao, no s porque policiais precisam falar sobre si mesmos, mas tambm porque eles precisam ser reconhecidos perante diversas pessoas como algo que diz respeito a todos como representantes da lei, da ordem, da autoridade, etc. Definimos o conjunto de opinies relativo polcia que consideram sua atuao em geral como uma opinio pblica sobre a polcia. Do ponto de vista que muitas destas opinies podem criticar ter o sentido de modificar o comportamento da </p></li><li><p>6 </p><p>polcia, podemos afirmar que a polcia corresponde a um problema pblico. Estas definies tm um carter formal, pois no especificam quais so as crticas polcia numa situao concreta ainda menos no caso do Rio de Janeiro que buscaremos estudar. Esta dissertao tem por objetivo estudar a construo social de uma crtica polcia que segue os princpios cvicos dos Direitos Humanos. Aqueles que mobilizam os argumentos desta crtica esto preocupados com a capacidade de a polcia agir seguindo a lei. No faremos um estudo propriamente da polcia, mas sim das estratgias de diversos atores para denunciar que uma determinada ao policial se caracterizou como injusta e que ela no est em conformidade com as normas legais. Estratgias para tornar uma denncia pblica, ou seja, fazer que todos as pessoas envolvidas ou no na situao se sintam afetadas pela injustia. Assim procuraremos explicitar de que modo atualmente a polcia carioca vem constituindo um problema pblico. </p><p>No primeiro captulo apresentaremos os pressupostos tericos desta pesquisa. A noo de pblico que apresentamos nos pargrafos iniciais refere-se aos desenvolvimentos tericos da chamada sociologia pragmtica francesa, particularmente ao Grupo de Sociologia Poltica e Moral coordenado por Luc Boltanski. Os principais conceitos que utilizaremos para este trabalho sero de gramtica, de regime de justia e de mundo cvico. No mesmo quadro terico, utilizaremos os estudos recentes de Luiz Antnio Machado da Silva e seus colaboradores a respeito da gramtica da violncia urbana. Sero analisados relatrios de Direitos Humanos, que se revelaram de extrema importncia para a identificao de diversos dispositivos importantes para a definio de uma situao que envolva a polcia como injusta situao de violncia policial. </p><p>No segundo captulo estudaremos condies concretas e situadas de denncia de casos de violncia policial. Para isto utilizaremos o conceito de forma caso (affaire), desenvolvido por Elizabeth Claverie, articulado com os estudos antropolgicos de Roberto Kant de Lima acerca do sistema de inqurito brasileiro. Dois casos sero comparados: o assassinato de 19 pessoas na Mega-Operao no Complexo do Alemo no dia 27 de junho de 2007 (a partir de agora, Caso Alemo); e o caso do assassinato dos trs jovens no Morro da Providncia no dia 14 de junho de 2008 (Caso Providncia). Por fim, faremos um conjunto de consideraes finais acerca da contribuio desta pesquisa para futuros estudos no quadro de pesquisa da sociologia pragmtica, particularmente no que diz respeitos s gramticas da violncia urbana e cvica, situaes concretas no Rio de Janeiro. </p></li><li><p>7 </p><p>Captulo 1 A violncia policial como causa cvica </p><p>1.1 Denncias Pblicas </p><p> Desde da passagem dos anos 1970 para os anos 1980, quando Luc Boltanki e seus colegas, do que viria a se o Grupo de Sociologia Poltica de Moral (GSPM), passaram estudar temas referentes a noo de pblico, este conceito j vinha associado ao conceito de justia. O objeto de estudos deste perodo era a construo social de denncias pblicas, ou seja, como diferentes atores denunciam uma situao como injusta. </p><p>Este perodo foi de rompimento com a problemtica sociolgica Bourdiana, qual os socilogos estavam vinculados, e de definio de uma problemtica sociolgica que poderamos chamar de situacionista ou pragmtica. Em termos metodolgicos podemos indicar que nos estudos deste perodo desaparecem conceitos como habitus e campo em prol de novos conceitos de ao e (em) situao. </p><p>O artigo La denuncia pblica de Boltanski de 1884 e republicado em 2000 j tem em vista um objetivo terico grandioso de superar oposies clssicas da sociologia: indivduo/sociedade e micro/macro. A construo de uma denncia pensada como uma situao de passagem entre o singular e o geral. Mas esta passagem se faz em condies de incerteza. Na demarcao terica que estava sendo desenvolvido neste perodo, o socilogo deve recusar qualificar previamente um ator e a acusao que ele faz como singular ou geral, grande ou pequeno, assim como buscar compreender no prprio decurso da situao se a passagem bem ou mal sucedida. </p><p>O material emprico utilizado na pesquisa foi um conjunto de cartas recebidas pelo jornal Le Monde nos anos de 1979-81. A escolha do material justificada por ser um jornal de grande circulao na Frana. Isso permite que, uma vez que uma carta publicada, uma denuncia possa ser julgada pela opinio pblica. Por outro lado, Boltanski teve acesso s cartas no publicadas, o que permitiu tambm investigar casos em que a passagem do singular ao geral no fosse assegurada. </p><p>Observar as condies de sucesso e frustrao em situao segue um objetivo metodolgico mais geral de construir uma gramtica da denncia. Gramtica entendida neste artigo como un conjunto de coacciones que se imponen a todos de la protesta contra la injusticia y en la acusacin que le es inherente (Boltanski, 2000, p. 22). As coaes que se impem den...</p></li></ul>