diversidade e variações linguísticas

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Daniela Nogueira de Moraes Garcia

Linguagem & Ensino, Pelotas, v.13, n.1, p.157-182, jan./jun. 2010

Um olhar sociolingustico sobre as interaes doteletandem: diversidade e variaes lingusticas

Daniela Nogueira de Moraes GarciaUniversidade Estadual Paulista

Resumo: Este artigo enfoca a diversidade e as variaes lingusticas nas interaes por e-mails e chats nas parcerias de teletandem. Partindo-se da interface entre aquisio delngua estrangeira e a sociolingustica, abordamos as variantes lingusticas sob a perspectivadas variaes sociais da lngua, em especial com relao norma culta e popular da lnguaportuguesa no contexto teletandem. Buscamos, na Sociolingustica, luz para as anlisese enfoques que pretendemos fazer nas interaes de teletandem e discorremos sobre oProjeto Teletandem Brasil, suas ideias e orientaes tericas, a partir de dados coletados.Os resultados deste estudo revelam que as variaes nas produes dos estrangeiros,aprendizes do portugus, so oriundas de flutuaes entre a norma culta e a coloquial porainda no apresentarem plena competncia comunicativa na lngua-alvo.Palavras-chave: Sociolingustica; teletandem; variao lingustica; adequao lingustica.

INTRODUO

No processo de ensino e aprendizagem de lnguas, questesde diversas naturezas emergem e nos fazem pensar na diversidadeda linguagem e nos aspectos que a constituem. O contexto tandem,que diz respeito troca de conhecimento em lnguas estrangeiras, bastante propcio para que consideremos a diversidade e asvariaes lingusticas por permitir que, com naturalidade, questescomo estas aflorem. No Projeto Teletandem Brasil: lnguasestrangeiras para todos (Telles, 2006), parcerias entre alunosuniversitrios so promovidas pela mensageria instantnea viaaplicativos gratuitos como Windows Live Messenger, Skype e ooVoo,a fim de que o acesso ao conhecimento, s lnguas, falantes e culturaseja proporcionado e que aes de aprender ocorram de formaautnoma e recproca.

Segundo Beline (2002), embora o indivduo possa utilizarvariantes, no contato lingustico com outros falantes de suacomunidade que ele vai encontrar os limites para sua variaoindividual. Como o indivduo vive inserido numa comunidade,dever haver semelhana entre a lngua que ele fala e a que os

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outros membros da comunidade falam. (p. 125). Assim, verificamosque o contexto teletandem ir possibilitar um espao para que osaprendizes da lngua portuguesa percebam semelhanas entre oque aprendem e o que utilizar em quais situaes de comunicaoe tenham conscincia de que certas adequaes, s vezes, seronecessrias.

Nosso estudo investiga pontos pertinentes nas interaesem teletandem, enfocando a diversidade e as variaes lingusticasque surgem na comunicao entre os pares. Buscamos, naSociolingustica, luz para as anlises das interaes. Tambm,abordamos o Projeto Teletandem Brasil, doravante TTB, suas ideiase orientaes tericas e, a partir de dados coletados, fazemosalgumas consideraes.

Desenvolvemos esta pesquisa em duas grandes partes: aprimeira apresenta a fundamentao terica, abordando os estudossociolingusticos e enfocando aspectos da comunicao, variantesdiafsicas, linguagem culta e coloquial. A segunda parte traz aanlise das interaes em teletandem. A seguir, apresentamos areviso bibliogrfica para embasar a reflexo sobre a adequao nalinguagem que se faz necessria na interao entre os aprendizes estrangeiro e brasileiro. importante considerar os fatoressociolingusticos que podem afetar a comunicao em determinadassituaes, nas quais tal adequao necessria para que hajaajustes entre os interlocutores, e a comunicao se d de forma clarae objetiva. Neste estudo, partimos da definio do objeto de estudoda sociolingustica e discutimos as delimitaes do campo deestudos dessa cincia da linguagem. Passamos, agora, a tratar noitem I da unidade e no unidade da lngua; das questes tericas arespeito da sociolingustica no item II; e da variao lingustica noitem III. A seguir, no item IV, mencionaremos brevemente asdiretrizes do projeto Teletandem Brasil e as interaes in-tandem. Apartir disso, passaremos para a anlise dos dados e, por ltimo,para as concluses e encaminhamentos.

UNIDADE E NO UNIDADE DA LNGUA

Ferdinand de Saussure (1916) um precursor que deixoumarcas nas ideias e conceitos concernentes linguagem. Ao buscarum objeto especfico para a lingustica, apresentou as distines

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entre lngua e fala, sincronia e diacronia, forma e substncia. Paraele, a homogeneidade inerente lngua, um sistema de signos.Noam Chomsky (1957, 1965) concebe o conhecimento sobre aslnguas como um conjunto de regras de como formar frases. Estasregras so consideradas como constituindo a competncia dosfalantes, considerados idealmente, ou seja, fora de qualquer situaohistrica particular (Guimares e Orlandi, 2006, p. 150). TantoChomsky como Saussure trouxeram contribuies imensurveispara a construo e consolidao de teorias do conhecimento dalinguagem. Porm, tais autores, firmados na unidade da lngua,no deram conta de elementos importantes para a compreensodos mecanismos e conceitos que permeiam os fenmenoslingusticos. Todavia, desencadearam estudos focados na nounidade da lngua. Para preencher essa lacuna deixada, emerge asociolingustica como importante ramo nos estudos lingusticos.Camacho (2006) reconhece os princpios que tm norteado asdiscusses acerca da definio do objeto de estudo da lingustica.A homogeneidade do sistema lingustico, inicialmente defendidapor Saussure, cai por terra diante de conceitos como variao,sujeito, uso, interao, contexto social, que vo atribuir outraorientao aos fenmenos lingusticos e ao funcionamento dagramtica de uma lngua.

Assim, os conceitos acima mencionados vo reafirmandosua importncia nas prticas de teletandem a partir do momento emque percebemos, nas interaes, relaes sendo construdas almdo saber lingustico. A percepo da heterogeneidade e adinamicidade da lngua permitem que questes prticas de usopossam ser contempladas e tomadas como objeto de estudos. Paraexplicarmos tal heterogeneidade, buscamos fundamentao tericana sociolingustica, item discutido a seguir.

A Sociolingustica

A sociolingustica uma cincia que estuda a linguagemem seu contexto social. Segundo Alkmin (2004, p. 29), o termo foicriado nos Estados Unidos e fixou-se em 1964 com a tradio deestudos voltados para a questo da relao entre a linguagem e asociedade. Os primeiros trabalhos, sob o nome de sociolinguistics,foram publicados em 1966 e abordam os fatores relacionados com

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a diversidade lingustica. Ainda, segundo a autora, a sociolingusticanasce marcada pela interdisciplinaridade e tem como objeto deestudo: a lngua falada observada e descrita em seu contexto social,isto , em situaes reais de uso. Desse modo, segundo a autora(Alkmin, 2004, p. 31), esta cincia lingustica focaliza no apenaspessoas que falam a mesma lngua, mas que se relacionam e queorientam seu comportamento verbal por um conjunto de regraspr-definidas.

Camacho (2003) destaca que, at o incio da sociolingusticamoderna, estudos firmados no axioma da categoricidade, como ode Fisher (1958), Labov (1972) e outros, a partir da dcada de 60, jevidenciavam a heterogeneidade inerente da linguagem e a variaocomo sistemtica, regular e ordenada. Considerando a autonomiado sistema lingustico e, posteriormente, a inter-relao com omundo social, que a sociolingustica vai delimitando seu campode estudos e seu objeto, relaes lngua e sociedade. SegundoAlkmim (2004, p. 31):

(...) o objeto da Sociolingustica o estudo da lngua falada,observada, descrita e analisada em seu contexto social, isto ,em situaes reais de uso. Seu ponto de partida a comunidadelingustica, um conjunto de pessoas que interagem verbalmentee que compartilham um conjunto de normas com respeito aosusos lingusticos.

Anteriormente, a sistematizao da lngua era pensada emtermos somente lingusticos, isolados de quaisquer outros fatores,criando-se, assim, uma redoma de vidro em torno da lnguaconstituindo uma total homogeneidade. Variaes no eramconsideradas e nem sequer situaes de produo e interlocutoreseram levados em conta. A partir dos estudos sociolingusticos, possvel pensarmos em relaes entre formas lingusticas e espaogeogrfico (dialetos), em conceitos como variantes lingusticasenvolvendo componentes fonolgicos, morfolgicos, sintticos elexicais, noes de comunidade lingustica, significados e papissociais.

De acordo com Pagotto (2006, p. 52), (...) o que se faz emsociolingustica buscar lugares de interseco entre o mundosocial e a dimenso lingustica. O autor aponta trs grandes reas,sob o rtulo de sociolingustica, que se fixam em aspectos relevantes

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do funcionamento da lngua em sociedade, a saber: a Teoria daVariao e Mudana que visa (...) discutir de que maneira osistema lingustico afetado pelas relaes com a sociedade...(Ibid., p. 52), pensando na enunciao e na organizao da sociedade,a Etnografia da Fala que foca no (...) conhecimento das regrassociais que norteiam o emprego das formas lingusticas como partedo funcionamento social da comunidade (Ibid., p. 52) e aSociologia da Linguagem, que busca (...) estudar relaesmaiores da lngua com a sociedade (Ibid., p. 52), ocupando-seespecialmente de comunidades plurilngues.

Segundo Beline (2002, p. 125), a sociolingustica a reada cincia da linguagem que procura, basicament