DIVULGAÇÃO VOLUNTÁRIA DA DEMONSTRAÇÃO DOS FLUXOS DE CAIXA .DIVULGAÇÃO VOLUNTÁRIA DA DEMONSTRAÇÃO

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    R. Cont. Fin. USP So Paulo v. 19 n. 48 p. 37 - 49 setembro/dezembro 2008

    DIVULGAO VOLUNTRIA DA DEMONSTRAO DOS FLUXOSDE CAIXA NO MERCADO DE CAPITAIS BRASILEIRO

    BRUNO MEIRELLES SALOTTIProfessor Doutor do Departamento de Contabilidade e Aturia

    da Faculdade de Economia, Administrao e Contabilidadeda Universidade de So Paulo

    E-mail: brunofea@usp.br

    RESUMO

    Este trabalho avalia os motivos da divulgao voluntria da DFC, Demonstrao dos Fluxos de Caixa, no mercado de capitais brasileiro. Para tal, utiliza o referencial terico da Teoria da Divulgao Voluntria. A partir do modelo proposto por Verrecchia (2001), so elaboradas cinco hipteses relacionando a divulgao voluntria da DFC a outras variveis. Essas hipteses so testadas a partir dos dados das companhias abertas com aes listadas na BOVESPA, Bolsa de Valores de So Paulo, as quais divulgaram voluntariamente a DFC no perodo de 2000 a 2004. Utilizam-se testes estatsticos univariados de diferenas de mdias e multivariados, a partir da aplicao do modelo da regresso logstica. As evidncias empricas sugerem que a divulgao voluntria da DFC tem forte correlao positiva com a divulgao voluntria passada da DFC e positiva com a importncia dada pela empresa s percepes dos outsiders. Percebe-se, ainda, correlao positiva com o desempenho da empresa; negativa com os custos de divulgao e negativa com o nvel de assimetria informacional. Tambm empregada uma varivel de controle relacionada participao das empresas nos programas de ADRs, American Depositary Receipts, notando-se uma correlao positiva entre a divulgao da DFC e a participao das empresas nos programas de ADRs.

    Palavras-chave: Demonstrao dos Fluxos de Caixa. Divulgao Voluntria. Mercado de Capitais.

    ABSTRACT

    This paper analyzes companies motives to voluntarily disclose the SCF - Statement of Cash Flows in the Brazilian capital market, using the theoretical frame of Voluntary Disclosure Theory. Based on Verrecchias (2001) model, fi ve hypotheses are constructed to relate voluntary disclosure of SCF to other variables. These hypotheses are tested with data from public companies listed on BOVESPA, Bolsa de Valores de So Paulo, which voluntarily disclosed SCF from 2000 to 2004. Univariate statistical mean difference tests and multivariate logistic regression are used. Empirical evidence suggests a strong positive correlation between voluntary disclosure of SCF and previous voluntary disclosure of SCF; and positive with the weight the fi rm places on outsiders perceptions. A positive correlation is also perceived with company performance; a negative correlation with disclosure costs; and negative with the degree of information asymmetry. A control variable is also used, related to companies that participate in ADRs, American Depositary Receipt Programs. A positive correlation is perceived between disclosure of SCF and companies participation in ADR Programs.

    Keywords: Statement of Cash Flows. Voluntary Disclosure. Capital Market.

    VOLUNTARY DISCLOSURE OF STATEMENT OF CASHFLOWS IN THE BRAZILIAN CAPITAL MARKET

    Recebido em 20.02.2007 Aceito em 11.07.2007 3 verso aceita em 28.10.2008

    * Artigo apresentado no 30 Encontro ANPAD, Salvador-BA, 2006.

    MARINA MITIYO YAMAMOTOProfessora Livre-Docente do Departamento de Contabilidade e Aturia

    da Faculdade de Economia, Administrao e Contabilidadeda Universidade de So Paulo

    E-mail: marinamy@usp.br

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    1 INTRODUO

    Este estudo avalia os motivos da divulgao voluntria da DFC, Demonstrao dos Fluxos de Caixa, no mercado de capitais brasileiro.

    Atualmente, no Brasil, por fora da edio da Lei n 11.638/07, a divulgao da DFC tornou-se obrigatria para as companhias abertas e tambm para outras companhias (sociedades por aes de capital fechado ou sociedades de grande porte) que tenham patrimnio lquido superior a 2 milhes de reais). Porm, de acordo com a realidade brasi-leira, at 2007, a DFC era uma demonstrao contbil cuja divulgao no era obrigatria, diferentemente de outros pases de origem anglo-saxnica, onde tal obrigatoriedade existe h dcadas em alguns casos. Nos EUA e Canad, por exemplo, a divulgao da DFC obrigatria desde a 2 metade da dcada de 80.

    Porm, a observao da divulgao das informaes contbeis das empresas do mercado brasileiro at 2007, quando a divulgao da DFC era voluntria, apontava o crescimento do nmero de empresas que vinham divulgan-do a DFC.

    Portanto, sendo a DFC uma demonstrao cuja divulga-o no era obrigatria no Brasil, esse trabalho se concen-tra em avaliar os motivos da divulgao voluntria dessa demonstrao. Sendo assim, este estudo procura respon-der seguinte questo: por que as companhias abertas que tm aes listadas na BOVESPA divulgavam a DFC, quando essa divulgao era voluntria?

    Para responder a essa pergunta, este trabalho utiliza como referencial terico a Teoria da Divulgao, desenvol-vida desde a dcada de 80 pela pesquisa positiva interna-cional em Contabilidade.

    De acordo com essa teoria, existem diversas hipte-ses empiricamente testveis que justifi cam a divulgao voluntria de informaes contbeis. O presente estudo focaliza-se em tais hipteses a fi m de avaliar se as justi-fi cativas propostas pela teoria so vlidas para explicar os motivos que levavam as empresas do mercado de capitais brasileiro a divulgar a DFC voluntariamente. Tais hipteses so desenvolvidas na seo 4 deste artigo, aps a apresen-tao da Teoria da Divulgao Voluntria.

    Considerado o problema de pesquisa, defi ne-se como objetivo explicar os motivos da divulgao voluntria da DFC no mercado de capitais brasileiro, com base no refe-rencial da Teoria da Divulgao Voluntria.

    Este artigo segue a metodologia positiva, uma vez que visa, a partir da observao de uma determinada re-alidade e com base em um arcabouo terico predefi nido, desenvolver a Teoria da Contabilidade com a fi nalidade de explicar e prever um fenmeno contbil.

    As sees seguintes destinam-se a apresentar a DFC e sua importncia para o Mercado de Capitais, a Teoria da Divulga-o como referencial terico da pesquisa, a Metodologia utili-zada na pesquisa emprica, os resultados e as concluses.

    2 DEMONSTRAO DOS FLUXOS DE CAIXA

    A DFC, nos moldes em que apresentada atualmente, extremamente nova no campo do conhecimento contbil. As suas primeiras aparies datam da dcada de 80 e sur-gem em substituio DOAR, Demonstrao de Origens e Aplicaes de Recursos, que, em ambiente internacional, tambm conhecida como Demonstrao das Mutaes da Posio Financeira.

    Os pases que determinaram tal substituio argumen-tam que o Fluxo de Caixa possui maior utilidade, alm do seu entendimento ser mais simples.

    No Brasil, essa tendncia de substituio da DOAR pela DFC tambm sempre existiu, porm, at 2007, a di-vulgao da DFC ainda no era obrigatria, mas incentiva-da. Esse processo de estimulao foi iniciado pela CVM, Comisso de Valores Mobilirios, no parecer de orientao n 24, de 15 de janeiro de 1992, que j citava a publicao da DFC como uma demonstrao complementar. Com a Lei n 11.638/07, a divulgao da DFC passou a ser obrigat-ria, inclusive substituindo a da DOAR.

    Apesar da no obrigatoriedade da divulgao da DFC at 2007, algumas empresas a divulgavam voluntariamen-

    te e o nmero de empresas que fornecem essa informao vinha crescendo com o passar dos anos.

    De maneira sucinta, o contedo informativo da DFC segregado de acordo com os fl uxos de caixa por tipo de ati-vidade: operacional, de investimento e de fi nanciamento. Esses fl uxos so somados, acarretando a variao lquida do caixa no perodo evidenciado. A esse fl uxo lquido, somado o saldo inicial do caixa, resultando o saldo do fi nal do perodo. Portanto, essa demonstrao explica a variao dos saldos de caixa e equivalentes de caixa (demonstrados nos balanos patrimoniais dos dois perodos).

    Os fl uxos de caixa evidenciados na DFC so informa-es relevantes para uma srie de aplicaes, como, por exemplo, a anlise das demonstraes contbeis da empre-sa1, a anlise da capacidade de pagamento de suas dvidas2 e a avaliao do valor da empresa baseado em fl uxos de caixa futuros.

    Alm disso, diversas pesquisas tm se preocupado em avaliar a relevncia da informao sobre fl uxos de caixa para explicar retornos das aes. Esses estudos so conhecidos na literatura internacional como estudos de value relevance.3

    1 A esse respeito, ver, por exemplo, Gombola e Ketz (1983) e Braga e Marques (2001).2 A esse respeito, ver, por exemplo, Boyd e Cortese-Danile (2000) e Billings e Morton (2002).3 Exemplos desses estudos so: Bowen et al. (1987), Dechow (1994) e Green (1999).

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    4 Essa expresso tem sido utilizada na literatura nacional para representar a expresso inglesa accruals, que por sua vez representa a diferena entre o lucro lquido e o fl uxo de caixa lquido (MARTINEZ, 2001, p. 16).

    Destaque-se, tambm, que a divulgao da DFC, na medida em que evidencia os reais fl uxos de caixa ocorri-dos durante um perodo contbil, permite ao usurio de-tectar as acumulaes4, decorrentes da diferena entre as receitas e despesas, registradas pelo regime de competn-cia, e os efetivos recebimentos e pagamentos efetuados. Desse modo, a prtica de gerenciamento de resultados

    pode ser avaliada de uma maneira mais transparente e objetiva.

    Assim, a divulgao voluntria da DFC no mercado de capitai