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Dossiê Tecnologia, Trabalho e Desenvolvimento · melhores condições de vida e de trabalho, maior proteção social, maio-res oportunidades de lazer etc. Onde quer que as desigualdades

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Dossi Tecnologia,Trabalho e

Desenvolvimento

Da tradio modernidade

JEAN-JACQUES SALOMON,FRANCISCO SAGASTIe CELINE SACHS-JEANTET

A lgum tipo de cincia sempre existiu em toda sociedade durantetodos os perodos da historia humana. No existe ao, enquan-to fenmeno natural ou social, sem certa quantidade de conhe-cimento racional emprico do mundo fsico, vivo e social. Esse conheci-mento sempre desempenhou papel importante no desenvolvimento dassociedades, quer nas suas conquistas materiais, quer nos seus crescimen-tos institucional e cultural. No entanto, foi nas sociedades industriaismodernas que a cincia e a tecnologia tornaram-se fator crtico no pro-cesso de crescimento econmico e desenvolvimento a longo prazo.Diversas civilizaes e sociedades tm ignorado ou simplesmente dadopouca ateno noo de progresso, apesar de testemunhar certo graude mudana tcnica ocorrida num longo perodo.

Expectativas sobre possibilidades de melhoria dos padres de vidareferem-se a fenmeno bem mais recente, e apareceram muito lenta-mente na era pr-industrial. A idia de progresso surgiu no contexto dacivilizao judaico-crist e desenvolveu-se principalmente com a Revo-luo Cientfica do sculo XVII, o Iluminismo do sculo XVIII e aRevoluo Industrial que ainda permanece. Desde ento, o crescimentoeconmico tornou-se para melhor ou para pior a base da esperanade todas as sociedades para o futuro, e cincia e tecnologia tornaram-secada vez mais o instrumento para a realizao dessas expectativas. Enesse quadro que as polticas a favor e atravs de atividades de pesquisae desenvolvimento (P&D) tornaram-se cada vez mais indispensveispara a concepo, elaborao e implementao de uma poltica maisampla, e de objetivos polticos. Max Weber considerava que o Estadomoderno est definido pela burocracia, de maneira que qualquer proces-so atual de produo poltica pode ser definido como burocracia maiscincia: a maior parte das decises polticas de hoje tm recorrido sdisciplinas cientficas, tais como mtodos, provas, resultados e atmesmo promessas.

A Importncia da Cincia e da Tecnologia

A cincia e a tecnologia tm importncia de fato e, atualmente,cada vez mais. Isso deveria ser evidente por si s, contudo, em muitospases em desenvolvimento, o fato pouco valorizado, tanto entre osque tomam as decises como para o pblico em geral, a ponto de aspessoas no saberem ou no perceberem os benefcios que uma delibe-rada e consistente estratgia de desenvolvimento pode extrair dos meioscientficos e tcnicos. Alm disso, o povo freqentemente subestima ofato de a cincia e a tecnologia s funcionarem satisfatoriamente dentrode ambiente econmico e scio-poltico mais amplo, que proporcionauma combinao efetiva de incentivos no-tcnicos e dados complemen-tares no processo de inovao. Cincia e tecnologia no so fatores ex-genos que determinam a evoluo da sociedade independentemente desua formao histrica, social, poltica, cultural ou religiosa.

Como enfatizou recente relatrio do Conselho Internacional paraEstudos da Cincia Poltica, "mudana tecnolgica e inovao nopodem ter efeitos socialmente benficos se o contexto cultural e polticono estiver preparado para absorv-las e incorpor-las, e para atingir astransformaes estruturais que sero exigidas um processo muitomais difcil e complexo que uma mera transferncia de recursos (nessecaso, cincia e tecnologia ao invs de capital) dos ricos para os pobres,como uma forma de corrigir as desigualdades. Cincia e tecnologia tmprovocado um enorme impacto ao reduzir o peso do trabalho fsico emelhorando o bem-estar social. Essas contribuies s se tornaram pos-sveis atravs do enorme poder metodolgico do pensamento cientfico,que amplia a habilidade humana para criar e desenvolver alternativas.Entretanto, o desenvolvimento da cincia e da tecnologia bem mais doque a aplicao da lgica objetiva. Ele construdo em um consensosocial, sobre metas e valores. Cincia e tecnologia somente existem atra-vs de seres humanos agindo em certos contextos, e, como tal, nopodem ser inteiramente neutras e isentas de valores" (ICSPS,1992).

Inquestionavelmente, o progresso cientfico e tecnolgico temgerado, a longo prazo, muitos benefcios aos pases industrializados e,recentemente, para os pases em desenvolvimento. A evidncia mais fla-grante nos pases industrializados dessa ocorrncia a renda per capitater aumentado quase dez vezes no espao de dois sculos. Alm disso,tal indicativo puramente quantitativo no d idia dos benefcios indivi-duais e coletivos que acompanharam esse enorme aumento de renda:vida mais longa, menor mortalidade infantil, erradicao de certas doen-as, nvel de educao mais alto, meios de comunicao mais rpidos,

melhores condies de vida e de trabalho, maior proteo social, maio-res oportunidades de lazer etc. Onde quer que as desigualdades persis-tam, e embora ainda possam ser encontrados grandes (e algumas vezescrescentes) bolses de pobreza nos pases ricos, o nvel geral de progres-so material manifestamente positivo. Tudo isso mais uma razo parase tentar melhorar a situao corrente da maioria dos pases em desen-volvimento, cujas condies so tais que os benefcios do progressocientfico e tecnolgico no podem contribuir para o seu desenvolvi-mento de igual maneira, nos mesmos nvel e rapidez.

Essa interpretao do progresso tcnico a nica objetiva decorre das cifras escolhidas pelos economistas com o propsito de cal-cular o crescimento do Produto Interno Bruto e da produtividade.Podem levar a concluses irrefutveis a respeito da qualidade e dospadres de vida em uma abordagem econmica, o que j resultadodecisivo. Essa abordagem, porm, no vai alm de fatos quantitativossobre produo, consumo, semana de trabalho, sade e higiene, expec-tativa de vida. To logo assumimos viso mais abrangente, o saldo doprogresso revela-se mais ambguo e torna-se um tema de reaes e deconvices subjetivas. Nossos indicadores econmicos so quase inca-pazes de medir o custo social e os prejuzos (por exemplo, para o meio-ambiente) associados ao crescimento econmico e ao progresso tcnico.Mas tambm so incapazes de avaliar todo o novo conhecimento e know-how tcnico seguramente os produtos do progresso que tm per-mitido aos seres humanos estender seu conhecimento sobre a Naturezae sobre si prprios, reduzir o nvel da superstio e agir mais racional-mente para atingir uma vida melhor. Certamente existem aspectos maissombrios nessa avaliao da cincia e da tecnologia, desde corrida arma-mentista e existncia de arsenal nuclear capaz de liquidar a humanidade,at as questes ambientais globais resultantes de um processo de indus-trializao que abala o futuro de toda a Terra. Ningum pode hoje com-partilhar o otimismo positivista do conceito de progresso iluminista: ocaminho direto para maiores conhecimento e progresso material noleva necessariamente a caminho menos direto felicidade e ao progressomoral.

"Se, como o socilogo Herbert Marcuse ou a escritora Simone deBeauvoir, vemos a tecnologia fundamentalmente como uma forma deescravizao humana e destruio, ou se, como Adam Smith, a vemosbasicamente como a fora libertadora de Prometeu, estamos todosempenhados no seu progresso. Contudo, por mais que o desejemos, nopodemos nos furtar ao seu impacto em nosso cotidiano, nem aos dile-mas morais, sociais e econmicos com os quais ela nos confronta. Pode-

mos amaldio-la ou bendiz-la, mas no podemos ignor-la." Foi as-sim que Christopher Freeman iniciou o seu livro The economics of indus-trial innovation. Realmente, quer gostemos dela ou no, a deciso finalser entre a escolha da pobreza e o caminho para o crescimento. En-quanto Freeman estava preocupado somente com a tecnologia, ns nospreocupamos tanto com a cincia como com a tecnologia.

"Ao rejeitar a cincia moderna e a tecnologia, Simone de Beauvoirc consistente na sua deliberada preferncia pela pobreza. Porm, a maio-ria dos economistas tm tido a tendncia de aceitar, como Marshall, quea pobreza uma das principais causas da degradao de grande parte dahumanidade. Sua preocupao com problemas do crescimento econ-mico surgiu da crena de que a pobreza das massas da sia, frica eAmrica Latina e a menos severa pobreza da Europa e da Amrica doNorte, seriam um mal evitvel que poderia e deveria ser reduzido, ctalvez eventualmente eliminado."

Ainda segundo Freeman, "A inovao importante para o cresci-mento da riqueza das naes, no apenas no sentido estreito do aumentoda prosperidade, mas tambm no mais fundamental sentido de permitira realizao de coisas que jamais haviam sido possveis at ento. cru-cial no apenas para aqueles que desejam acelerar ou sustentar a taxa decrescimento econmico nesse e em outros pases, mas tambm para osque esto horrorizados com a estrita preocupao com a quantidade debens, e desejam alterar a direo do avano econmico, ou concentrar-seem melhorar a qualidade de vida. E fundamental para a conservao dosrecursos, a longo prazo, e para a melhoria do meio ambiente. A preven-o da maior parte das formas de poluio e a reciclagem econmica dosresduos so igualmente dependentes do avano cientfico e tecnol-gico."

Citamos detalhadamente Freeman, a quem foi oferecida a primei-ra ctedra de Cincia Poltica no mundo, e que dirigiu com grande su-cesso a Unidade de Pesquisa em Cincia Poltica da Universidade deSussex, no somente para homenagear o seu trabalho pioneiro, mastambm porque compartilhamos sua convico princpio normativodesta obra como um todo de que no h substitutos para o pensa-mento racional. Podemos aprender a fazer melhor emprego da cincia cda tecnologia, mas no podemos escapar delas a menos, claro, queestejamos preparados para desistir de todas as tentativas de lutarmoscontra dificuldades, tenses e desafios do mundo no qual temos deviver.

Freeman acrescenta: " O famoso primeiro captulo da Riqueza das

Naes, de Adam Smith, coloca imediatamente em discusso os aperfei-oamentos em maquinrio e a maneira pela qual a diviso do trabalhopromove invenes especializadas. O modelo de Marx da economiacapitalista atribui um papel central inovao tcnica dos bens de capital os burgueses no podem existir sem revolucionar constantemente os meiosde produo. Marshall no hesitou em descrever conhecimento como omotor central do progresso na economia."

De Schumpeter a Samuelson, a maioria dos economistas chegahoje mesma concluso. A importncia central da cincia e da tecno-logia para o progresso econmico tambm a principal preocupao dolivro.

Cincia, Tecnologia e Sociedade

Fatores sociais e culturais atitudes e crenas ligadas organi-zao econmica, poltica e social influenciam o papel que a cincia ea tecnologia desempenham em uma dada sociedade. A expanso denovos conhecimentos, produtos e processos derivados do progressocientfico e tecnolgico, por sua vez, transformam estruturas sociais,modos de comportamento e atitudes mentais. O papel da mudana tc-nica no processo do crescimento econmico reconhecido por todas asteorias do desenvolvimento. Mas qual exatamente esse papel? Em par-ticular, qual participao tiveram a cincia e a tecnologia nas transfor-maes econmicas e sociais que acompanharam a Revoluo Industrialdesde seu incio? Responder a essas questes pode no ser feito de formafcil ou rpida, por exigirem anlise sutil, perspectiva histrica de largoespectro e referncia a exemplos extrados de muitas cincias sociais dife-rentes (Braudel, 1979; Rosemberg, 1982).

Hoje ainda menos que anteriormente com carvo e ao, depoiscom fornecimento de eletricidade, petrleo e motor de combusto inter-na as maneiras pelas quais a mudana tcnica transforma atitudes,instituies e sociedades no podem ser reduzidas a simples relaciona-mento linear automtico, isto , determinista. Tecnologia um processosocial entre outros: no uma questo de desenvolvimento tcnico deum lado e desenvolvimento social do outro, como se fossem doismundos ou processos inteiramente diferentes. A sociedade delineadapela mudana tcnica que, por sua vez, definida pela sociedade. Conce-bida pelo homem, a tecnologia foge ao seu controle somente na medidaque ele deseja que ela o faa. Nesse sentido, a sociedade definida notanto por tecnologias que seja capaz de criar, quanto por aquelas escolhi-das para empregar e desenvolver em lugar de outras (Salomon, 1992).

De fato, a situao atual e bastante diferente da expanso da meca-nizao estimulada pelo desenvolvimento das mquinas-ferramentas epelo motor a vapor do sculo XIX. A difuso de novas tecnologias (eletr-nica, computao, telecomunicaes, tanto quanto de novos materiaissintticos e das biotecnologias) gera ainda maiores disparidades do queaquelas existentes entre os pases da Europa no incio da RevoluoIndustrial. Mais ainda, envolve desafios muito maiores com relao aosque as sociedades europias do sculo XIX tinham para resolver (osquais, por sua vez, eram muito mais pr-industriais do que puramenteagrcolas), com pleno sucesso, graas sua longa preparao em funda-mentar sua interpretao dos fenmenos naturais e emprego de tcnicas,entre outras coisas, em matemtica, experimentao, medio, clculo eteste de qualidade (Salomon & Lebeau, 1993). Por um lado, a situaogeopoltica do mundo atual mais complexa, com um fluxo de eventose agentes em constante movimento em escala continental, ampliada pelaexploso dos prprios meios de comunicao. Por outro, as mesmasferramentas (tanto conceptuais como prticas) que nos permitem, aomenos parcialmente, entender o mundo em que.vivemos e manipul-lo em larga escala graas ao espetacular progresso da cincia e da tecno-logia tornam-se cada vez mais sofisticadas e, conseqentemente,difceis de serem dominadas sem habilidades e qualificaes especiali-zadas.

E contra esse quadro geral de crescente complexidade dos proble-mas, bem como dos mtodos, que o choque das novas tecnologias temdeixado perplexas as naes, tanto em desenvolvimento como industria-lizadas. Para as ltimas depois de dificuldades econmicas do inciodos anos 80, taxas bem moderadas de crescimento econmico e persis-tncia de desemprego elevado , o ajuste ao novo sistema tcnico agoracomeando a expandir-se, apresenta problemas no muito diferentesdaqueles que deram origem aos vrios estgios da mecanizao nodecorrer do sculo XIX. Quaisquer que sejam os custos sociais emtermos da no necessidade de mo-de-obra e do desemprego, por maissubstanciais que sejam os bolses de pobreza ainda existentes (algumasvezes ainda crescendo, como resultado da crise e do desenvolvimentodesigual), estamos lidando com sociedades cujas necessidades bsicasesto amplamente satisfeitas; alm disso, os recursos disponveis paratreinar e retreinar a fora de trabalho so considerveis. No por acasoque estas tm sido denominadas sociedades ps-industriais, caracterizadaspor domnio do setor de servios, rapidssimo crescimento das ativi-dades ligadas informao e larga escala de investimentos em educaoe pesquisa.

Contrastando, para a maioria das naes em desenvolvimento, as

necessidades mais bsicas de sobrevivncia alimentao, sade, mora-dia e educao esto longe de terem sido resolvidas, de maneira quecoisas consideradas pelos pases ricos como essenciais podem parecer aospases mais pobres como exibio de luxo ou apelao da sociedade deconsumo. Alm disso, enfrentam a dupla presso do problema popula-cional, cuja soluo parece improvvel antes do fim do sculo, e aquesto da dvida, tornada to dramtica que alguns pases mal podemarcar com o pagamento das taxas de juros. Contra tudo isso, algumaspessoas questionam o fato de as novas tecnologias serem o que muitospases em desenvolvimento deveriam procurar como alta prioridade afim de satisfazer suas necessidades reais. E ainda levando-se em contatanto a crescente interdependncia da economia e a internacionalizaodo mercado de um lado, e do outro as inegveis oportunidades paramodernizar e apropriar-se do oferecido pelas novas tecnologias pare-ce inconcebvel que qualquer pas deva escolher privar-se dos produtose da infra-estrutura, os quais, cada vez mais, definem o sistema nervosodo mundo contemporneo e determinam seu funcionamento (Johnston& Sasson, 1986). Nessa ligao no podem ser subestimados a rele-vncia e o valor da misturei tecnolgica,, isto , a aplicao de novas tecno-logias economicamente dispostas a elevar, modernizar ou desenvolveratividades tradicionais (ou explorar recursos naturais, de outro modono aproveitados) que provoquem ruptura mnima em atividade scio-econmica, hbitos e meios de subsistncia.

A rpida expanso de uma nova tecnologia no implica por si srpida mudana social. Outros fatores esto envolvidos, como polticaseconmicas, sociais e educacionais, negociaes e acordos entre gruposde interesse, costumes enraizados da vida diria e das instituies sociais,valores e tradies da sociedade. Mais uma vez necessrio enfatizar quea cincia e a tecnologia no so variveis independentes no processo dodesenvolvimento, mas partes de contextos humano, econmico, social ecultural configurados pela histria. Nada mais revelador desse pontode vista do que os estudos de caso da mistura tecnolgica, os quaisdemonstram com exatido no ser a aplicao de novas tecnologias emsetores tradicionais to somente fato tecnolgico; antes, refere-se a fatosinstitucional, social e poltico (Bhalla & James, 1988). Esse contexto,acima de tudo, determina as chances de ser aplicado conhecimento cien-tfico que atenda s reais necessidades de um pas. No o caso de haverdois sistemas cincia e tecnologia de um lado e sociedade do outro unidos um ao outro por alguma frmula mgica. Ao contrrio, cinciae tecnologia existem em determinada sociedade como um sistema maisou menos capaz de osmose, de assimilao e de inovao ou de rejei-o conforme as realidades que so simultaneamente materiais, hist-ricas, culturais e polticas.

Tudo considerado, no h inevitabilidade na mudana tcnica:nem seu passo nem sua direo so predeterminados (mesmo quandono c possvel subestimar-se o poder de certos lobbies industriais ounacionais na imposio de suas fabricas ou produtos), e o sucesso deuma inovao nunca certo. A tecnologia influencia a economia e ahistria; por sua vez, o produto c a expresso da cultura. As mesmasinovaes podem, por conseguinte, produzir resultados diversos emdiferentes contextos, ou em diferentes perodos dentro de uma mesmasociedade. A inovao tcnica c a prpria tecnologia constituem assimum processo social, no qual indivduos e grupos sempre tomam as deci-ses determinantes na alocao de recursos escassos, a qual inevitavel-mente reflete o sistema de valores predominante (Rosenberg, in Buglia-rello & Doner, 1979). Ao mesmo tempo, cincia e tecnologia no socaixas pretas com princpios e efeitos, deixando intactas as estruturassociais das sociedades que as adotam. Elas no podem ser despachadascomo mercadorias: o processo jamais neutro, direto ou permanente;requer nveis de habilidade e, freqentemente, tambm de perseverana,sem os quais constituem ferramenta sem cabo ou caixinha de surpresassem chave.

E a partir deste angulo que as relaes entre cincia, tecnologia esociedade nos pases em desenvolvimento devem ser entendidas. Almde certo nvel de recursos, a acumulao de capital nunca por si sgarantia de crescimento. Ao contrrio, a organizao da sociedade aqual, por sua vez, determina a organizao da produo o fatorprincipal que torna possvel a um pas criar e explorar seus recursoscientficos e tecnolgicos. Esses fatores definem a extenso em que acincia e a tecnologia podem operar para iniciar e estimular o processode desenvolvimento, e no vice-versa. Se a cincia e a tecnologia noesto alienadas desse processo, porque elas mesmas no podem serdesenvolvidas ou utilizadas de outra maneira, a no ser em determinadocontexto econmico-social. O subdesenvolvimento extremo , nessesentido, o estgio de desenvolvimento que no pressiona a estruturasocial a envolver-se em pesquisa cientfica e tcnica. E, faltando estru-turas econmica e social favorveis, mesmo pases considerados acimade tal nvel podem achar-se incapazes de tirar vantagens da cincia e datecnologia. Se h uma lio a ser extrada da histria, especialmente dahistria da cincia, a de que os caminhos e instituies pelos quais oconhecimento se desenvolve e transmitido atravs da sociedade, bemcomo atravs das fronteiras culturais, jamais linear ou mecanicista.

Requisitos Institucionais e Polticos

Primeiramente, pretendemos destacar a importncia crucial dosrecursos cientficos e tcnicos para o desenvolvimento social e econ-mico; em segundo lugar, a variedade de situaes enfrentadas pelospases em desenvolvimento, especialmente no que se refere a seu dbitoem termos de cincia e tecnologia e, da, o fato de no haver um nicomodelo para definir e implementar estratgias; em terceiro, os resul-tados contraditrios, seno desanimadores, atingidos pela economia dodesenvolvimento, e o esforo indispensvel que deve ser feito para inte-grar a poltica de cincia e tecnologia em poltica mais abrangente parao desenvolvimento econmico e social. Qualquer tentativa de afirma-es genricas corre o risco de falhar na apreenso do que est aconte-cendo atualmente, por duas razes: as circunstncias nacionais so mui-to diferentes para que um nico modelo possa inclu-las todas, e cinciae tecnologia so hoje muito complexas para serem tratadas em termosgerais. Essas palavras de alerta aplicam-se igualmente discusso geraldo chamado Terceiro Mundo. E mais ainda no que se refere a inovaotcnica: "No possvel tratar das complexidades da tecnologia, suasinter-relaes com outros componentes do sistema social, e suas conse-qncias sociais e econmicas, sem uma disposio para mudar de ummodo de pensamento altamente agregado para um igualmente desagre-gado" (Rosenberg, 1976). Em outras palavras, qualquer anlise da inte-rao entre organizao social e mudana tcnica deve necessariamenteser refinada para levar em conta as caractersticas de cada pas, particu-larmente seu nvel relativo de disponibilidades cientficas e tecnolgicas,natureza e qualidade dessas disponibilidades (instituies de ensinosuperior e de treinamento, laboratrios etc.) e seu emprego no quadrodas condies econmicas, polticas e sociais especficas do pas.

Qualquer que seja o seu ritmo e o seu nvel, o desenvolvimento uma caminhada entre a tradio e a modernidade. Nesse processo din-mico, indicadores quantitativos so sempre relativos: o desenvolvi-mento nunca realizado e alcanado como um todo, nem o processo mensurvel apenas quantitativamente. A decolagem ou a crescente in-dustrializao jamais podero ser garantia confivel contra o retrocesso,como demonstra o exemplo do Leste Europeu. Alm disso, embora osdados disponveis forneam pontos de comparao, no estamos lidan-do com uma escala de valores derivada de nico, abrangente e incontes-tvel modelo terico. A empreitada leva tempo, provoca despesas, re-quer escolhas a serem feitas e, portanto, necessita de resoluta determi-nao coletiva; no se trata simplesmente de enfrentar os riscos deriva-

dos da mudana, mas de buscar urna perspectiva de longo prazo paraorientar a mudana em determinada direo.

Como enfatizou Gunnar Myrdal (1969), a terminologia utilizadapelas cincias sociais no neutra. Hoje falamos de pases em desenvol-vimento em vez de pases subdesenvolvidos por desejarmos amenizar asrealidades de desequilbrio estrutural e de tenso em vez das chances desuperao. A linguagem polida da diplomacia sugere existir curto espaode tempo separando os pases industrializados daqueles que ainda no oso: o necessrio para superar essa diferena adotar a poltica econ-mica correta. O termo pas em desenvolvimento ilgico, segundo Myr-dal, por denotar a idia de haver pases que no esto em desenvolvi-mento. Alm disso, no indica se um pas deseja desenvolver-se ou seesta adotando passos concretos para fomentar o seu desenvolvimento.Nesse sentido, a primeira exigncia no apenas em termos cronol-gicos, mas acima de tudo de princpios pode ser resumida nessa de-terminao de tentar o desenvolvimento, no tanto como viso derompimento com o passado (ou pelo menos no com todas as tradiesmais antigas) mas como aquisio dos meios de modernizao. Estesmeios so parcial, mas no totalmente econmicos; fatores institucio-nais, sociais, polticos e culturais tambm contam. O processo de desen-volvimento um pacote no qual o sucesso depende de muitos elementosdiferentes em combinaes que jamais podero ser determinadas apenaspor indicadores econmicos.

A lio mais geral a de que mudana tcnica no transformasociedades independentemente de outros fatores no relacionados coma tecnologia como tal. A Revoluo Industrial testemunhou o incio deum novo tipo de crescimento, ligado sucesso de inovaes tcnicas, oque acelerou o ritmo da mudana, embora suas origens e desenvol-vimento tenham dependido, em grande parte, de fatores no tcnicos.Na Europa, a competio capitalista incentivou o desenvolvimento tc-nico dirigido para o aumento da produtividade do trabalho. Essas altera-es ocorreram e tiveram possibilidade de expanso porque as circuns-tncias econmicas, institucionais e sociais eram favorveis. Essas cir-cunstncias, por sua vez, foram alteradas pelo progresso da cincia e datecnologia, passando ento a influenciar a taxa e a direo das inovaestcnicas. O processo foi extremamente complexo, como frisa Landes naconcluso de sua histria da Revoluo Industrial: "H uma amplagama de conexes, diretas e indiretas, apertadas e folgadas, exclusivas eparciais, e cada sociedade, ao se industrializar, desenvolve sua prpriacombinao de elementos para fazer face s suas tradies, possibili-

dades e circunstancias. O fato de haver esse jogo de estrutura no im-plica que no houvesse uma estrutura" (Landes, 1969).

Nesse delicado e incerto jogo de estrutura, que afetado pelo refe-renciai histrico e cultural de cada pas, os pr-requisitos institucionaise polticos para se fazer bom uso dos recursos cientficos e tcnicosdisponveis vinculam-se principalmente a esses fatores no econmicos.A crescente interdependncia entre as naes e a emergncia da econo-mia mundial no aboliram a individualidade das culturas e das socieda-des. O trajeto da tradio para a modernidade coloca a mesma questopara todos os pases em desenvolvimento, porm estes so os nicos emcondies de responder, de acordo com as decises tomadas por elesmesmos tanto a respeito da cincia e da tecnologia como de tudo o mais.Essa questo tem dois lados: como modernizar sem sacrificar a tradio?Como preservar a tradio sem comprometer a modernizao? Mais doque nunca, testemunhando poltica tumultuada medida que o final dosculo XX se aproxima, qualquer pas em desenvolvimento dever sersensvel s implicaes dessa dupla questo.

O Novo Contexto Internacional

A dcada dos anos 90 dever proporcionar tantas surpresas echoques quanto a dos anos 80. Uma nova ordem mundial e, como tal,fluida, est em gestao, medida que nos aproximamos da transiopara o sculo XXI; nesse contexto voltil a extrapolao das tendnciasdo passado para o futuro tarefa arriscada. Predies so menos efetivasque tentativas de mapear incertezas e identificar efeitos esperados, j queestes ltimos podero ser realizados por aes com propsitos espec-ficos de governos, instituies internacionais, empresas privadas, orga-nizaes no-governamentais, grupos religiosos, instituies acadmicase de pesquisa, e comunicao de massa, em nmero crescente de agentesno cenrio nacional e internacional.

O mundo de incertezas em que vivemos tem muitas dimenses:situao poltica rapidamente altervel, mudanas nos padres da inter-dependncia econmica mundial, crescimento e diversificao dasdemandas sociais, emergncia da preocupao com o meio-ambiente, eprofundas transformaes no panorama cultural.

O cenrio poltico

O fim da Guerra Fria solapou as bases ideolgicas, militares e

polticas da ordem internacional que prevaleceram durante os ltimoscinqenta anos. O mundo est em transio para uma ordem poltica eeconmica ps-bipolar, cuja natureza est ainda em processo de defini-o, mas ir requerer reexame profundo dos meios para garantir segu-rana nacional, regional e internacional como pr-condio para o de-senvolvimento. Alguns dos elementos dessa nova ordem incluem a vir-tual eliminao da ameaa de guerra nuclear total, aumento do numeroe da intensidade de conflitos regionais, probabilidade de abordagemmais cooperativa na soluo de conflitos entre as principais potnciaseconmicas e polticas, e emergente papel, cada vez maior, para insti-tuies internacionais, no fomento e manuteno da segurana interna-cional.

A gama de possveis conseqncias referente a esses diversos ele-mentos da nova ordem poltica ampla. O fim da rivalidade Leste-Oestetem implicaes complexas para a segurana nacional de pases emdesenvolvimento. Conflito e revoluo baseados na ideologia da GuerraFria, ento generosamente financiados pelas superpotncias, foramtotalmente eliminados, assim como a possibilidade de luta entre elas.Contudo, a desmobilizao americana e sovitica poderia incentivaroutros pases a criar e exercer poderio militar, com o entusistico apoiodos comerciantes de armas agressivas.

Em alguns pases, tenses tnicas e religiosas internas tm agra-vado tais tendncias, visto poderem atrair apoio de estados vizinhos.Assim, foi possvel a ocorrncia de recentes conflitos regionais porrecursos naturais tais como gua, petrleo ou florestas tropicais, e porproblemas ambientais. Essas tenses e conflitos podem ser postos emcheque por aes conjuntas das principais potncias militares, organi-zaes regionais e internacionais, ou uma combinao de ambas. Atagora, a despeito da reduo da rivalidade global entre as superpotn-cias, no h evidncia de declnio em disputas regionais, ou violnciaorganizada de grupos tnicos, movimentos separatistas, terroristas, outraficantes de drogas.

Ao mesmo tempo, os Estados esto se tornando menos impor-tantes como unidades polticas capazes de controlar quaisquer fen-menos econmicos, sociais, ambientais ou tecnolgicos que ocor-rem presentemente no mundo. Isso difcil de ser entendido, pois ossistemas polticos esto programados para apontar para os Estadoscomo o local do poder e da tomada de decises, e como a principalunidade de anlises poltica, social e econmica.

A preeminncia e soberania dos Estados esto sendo restritas em

muitos aspectos da poltica exterior c econmica, fato comprovado pelarenovada importncia das Naes Unidas na preveno e resoluo deconflitos, pela proliferao de acordos regionais de comrcio e econo-mia, por crescente poder econmico de corporaes internacionais e porcondies estabelecidas pelas instituies financeiras internacionais paraobteno e acesso a recursos sob seu controle. O movimento cm direo ao supranacional deve ser iniciado por ajustes com recuos tempo-rrios e renovados assomos de nacionalismo, mas provavelmente ir serconfirmado medida que o novo sculo se aproximar.

O pluralismo poltico, a participao popular e os movimentosdemocrticos esto se convertendo em fato comum, considerados Leste,Oeste, Norte e Sul. Hoje quase inadmissvel aceitar pelo menos semafronta, protesto veemente e sanes internacionais qualquer impo-sio governamental de um regime repressivo sobre seus cidados. Nosanos recentes, pases do Leste Europeu tiveram suas primeiras eleieslivres em meio sculo; quase todos os pases da Amrica Latina tiveramregimes democrticos; na Rssia um golpe militar falhou; os Estados dasia Central da antiga Unio Sovitica estiveram lutando para torna-rem-se naes modernas; as legislaes dos brancos estiveram decli-nando na frica do Sul e houve presses para ser abolido o partidonico em muitos pases da frica. No entanto, como demonstraram asguerras civis na antiga Iugoslvia e na Somlia, avanos em direo democracia e coexistncia pacfica no esto totalmente garantidos.

Como conseqncia dessas mudanas, o exerccio do poder e daautoridade na administrao dos recursos para o desenvolvimento usualmente referidos como governo tem se tornado legtimo motivode preocupaes, particularmente de organizaes internacionais e agn-cias de cooperao para o desenvolvimento. Alm disso, organizaesno-governamentais de todos os tipos (sindicatos, associaes profissio-nais, grupos de defesa do meio-ambiente e dos direitos humanos, movi-mentos institucionalizados, organizaes eclesiais) tambm comearama se tornar extremamente ativas, indicando que a sociedade civil estencontrando mltiplos caminhos para expressar-se nos planos local,nacional, regional e internacional.

A economia internacional

As principais transformaes que esto ocorrendo nos padres dainterdependncia econmica mundial e afetam a sua economia incluemrpido crescimento e globalizao dos mercados financeiros, alteraodos padres de comrcio e novas situaes cm pases-chave. Os merca-

dos financeiros internacionais compreendem agora uma malha fina detransaes, envolvendo comrcio global de aplices de seguro, arbitra-gem em mltiplos mercados e moedas, carteiras de investimentos atra-vs de um desconcertante complexo de fundos internacionais e movi-mentos macios de capital, que ultrapassam limites geogrficos. Transa-es financeiras tm adquirido vida prpria e esto se desligando daproduo e distribuio de bens e servios: em 1989, a mdia diriaconjunta dos negcios de aes nos mercados de cmbio estrangeiro deJapo, Estados Unidos e Reino Unido atingiu US$ 430 bilhes, seisvezes o nvel de 1979 e 50 vezes o volume mdio dirio do comrciointernacional de bens e servios (Fardoust & Dhareshawar, 1990).

Depois de uma dcada de rpido e substancial crescimento nosemprstimos dos bancos comerciais para regies em desenvolvimentodurante os anos 70, a crise da dvida iniciada no incio da dcada dos 80reduziu a circulao dos bancos privados a zero; no final da mesmadcada, dos aproximadamente US$ 60 bilhes de movimentos lquidosligados a dvidas de pases em desenvolvimento em 1980, US$ 32bilhes vieram dos bancos comerciais. Em contraste, por volta de 1990os movimentos totais lquidos caram para cerca de US$ 20 bilhes e aquantia obtida dos bancos comerciais, para quase zero. Em conseqnciadisso, investimentos externos diretos adquiriram maior importnciacomo canal de transferncia de recursos para pases em desenvolvimento(Banco Mundial, 1992).

Entretanto, nem todos os pases em desenvolvimento puderam sebeneficiar da rpida expanso dos meios de circulao do investimentoexterno direto. No final dos anos 80, apenas cinco economias em desen-volvimento acumularam cerca de 80% do fluxo de investimentos exter-nos diretos: China (24%), Brasil (18%), Mxico (17%), e Egito e Mal-sia (10% cada um). As razes por que a maioria dos pases pobres dafrica, sia, Amrica Latina e Oriente Mdio no foram capazes deatrair investimentos externos diretos so muitas e variadas, incluindoremota localizao geogrfica com relao aos principais mercadosexportadores, tamanho relativamente pequeno de seus mercados inter-nos, deficincias em infra-estruturas fsica e institucional, falta de forade trabalho treinado e regimes inadequados de incentivo ao investi-mento. Como resultado indireto, tem havido incapacidade de benefi-ciarem-se com a transferncia de capacitao tecnolgica, administrativae de marketing, associada aos investimentos externos diretos.

Ocorreram mudanas tambm na direo e na essncia do mer-cado internacional, tais como emergncia do Pacfico Norte como a

maior rea de comrcio mundial (com o Atlntico Norte assumindo osegundo lugar), movimento paredista em prol da liberalizao do mer-cado no mundo inteiro (bem exemplificado pelas negociaes vigo-ra/no vigora/vigora novamente do GATT), aumento dos blocos regio-nais de comrcio (a Europa aps 1992 e o Acordo Norte-Americano deLivre Comrcio), e presso, no contedo do comrcio internacional,contra as commodities primrias (exportadas basicamente por pases cmdesenvolvimento) e a favor dos servios de alta tecnologia e produtosmanufaturados (tipicamente exportaes das naes industrializadas).Nova malha de conexes comerciais entre corporaes transnacionais cobrindo produo, finanas, comrcio e servios surgiu agora, cujomelhor exemplo so as alianas estratgicas em pesquisa e desenvolvi-mento pr-competitivas.

Alm disso, temos encontrado situaes inditas em vrios pasese regies-chave, as quais afetam a economia mundial profundamente.Durante os anos 80, pela primeira vez na histria recente, os EstadosUnidos tornaram-se um devedor lquido; o Japo converteu-se em agen-te econmico e financeiro dominante no cenrio internacional; a Europaest se dirigindo rapidamente para uma unidade econmica e talvezalguma forma de unidade poltica; a URSS dissolveu-se e suas rep-blicas esto sofrendo dolorosa transio em direo economia de mer-cado, caminho seguido anteriormente pelos pases da Europa Central eOriental; a Amrica Latina contemporizou a crise da dvida dos anos 80,iniciou reformas polticas, e aparece estabilizada para renovado cresci-mento econmico aps uma dcada de estagnao; a decadente situaona frica conseguiu reverter os ganhos precrios das trs dcadas prece-dentes; a contnua instabilidade e a contenda flagelam os pases doOriente Mdio; e na sia, poucas economias recm-industrializadascontinuam a crescer rapidamente, a ndia e a China esto experimen-tando a reforma e a liberalizao da poltica econmica, enquanto outrospases da regio iniciam difcil processo de reconstruo aps dcadas deguerra.

A amplitude e a diversidade dos efeitos possveis em praticamentetodos os aspectos da economia internacional surgem com maior intensi-dade durante os anos 90 do que em qualquer outra ocasio nas ltimastrs dcadas. A crescente interdependncia criou um ambiente econ-mico internacional que gera distrbios e amplia rupturas. Avanos tec-nolgicos nas telecomunicaes e nas cincias da informao contribu-ram para isso (como prova o impacto do comrcio de computadores nosmercados de aes), enquanto que a ausncia de efetivas regras interna-cionais e de instituies para regular a circulao financeira e comercial

alem de limitaes quanto da coordenao da poltica econmica entreas principais economias do mundo, tm contribudo para aumentar essaincerteza.

Exigncias Sociais

O crescimento explosivo das exigncias nas regies em desenvol-vimento tem sido pressionado intensamente pelo crescimento popula-cional durante os ltimos 30 anos; atrelado a significativo declnio docrescimento populacional das naes industrializadas, levou enormedistoro na ocorrncia mundial de necessidades sociais e capacidadepara atend-las.

A dinmica do crescimento populacional tem condicionado signi-ficativamente a procura por alimentos, educao, emprego, habitao eoutros benefcios sociais (Gowariker, 1992). A necessidade de alimentoe nutrio multiplicou-se muitas vezes, especialmente nos pases maispobres e, embora o total da produo mundial seja suficiente para suprirtodo e cada ser humano com a alimentao adequada, os sistemas pol-tico, social e institucional existentes tanto em nvel nacional comointernacional mostram-se incapazes satisfaz-la. Conflitos armados,secas e catstrofes naturais tm conspirado para tornar cada vez maisdifcil assegurar o acesso ao alimento em muitos pases em desenvolvi-mento.

A busca por tratamento bsico da sade e educao elementarexpandiu-se em ritmo acelerado nas ltimas trs dcadas, porque ospases em desenvolvimento realizaram esforos para melhorar a disponi-bilidade desses servios s populaes em crescimento. A migrao e aurbanizao aceleradas geraram enorme procura por habitao, sanea-mento bsico, transporte e fornecimento de energia situao queacrescenta necessidades urbanas no satisfeitas e pobreza urbana disse-minada, causando privaes caractersticas de populaes rurais emtodos os pases em desenvolvimento.

O desemprego surgiu, provavelmente, como o mais desagradvele persistente problema nos pases em desenvolvimento. Problema tam-bm crescente em pases industrializados, nos quais as modificaes tc-nicas parecem hoje depender do capital to fortemente, que o desem-prego aparenta ser uma das novas caractersticas do crescimento econ-mico do futuro que se pode antever, se no para sempre. Se existemrazes para estarmos ansiosos quanto perspectiva de desemprego nospases industrializados, h pouco espao para otimismo no que se refere

aos em desenvolvimento. Nestes ltimos, as funes criadas pelo novosistema tcnico tm surgido com o desemprego como pano-de-fundo; apossibilidade de um sistema produtivo cada vez mais baseado em robse fbricas totalmente automatizadas podem criar maiores conflitos faces tendncias demogrficas, com a expectativa de gerao de empregosnos pases em desenvolvimento. A expanso de novas tecnologias j estmodificando a prpria natureza do trabalho e do lazer, criando funesque se distanciam cada vez mais das tarefas tradicionais, embora sejamprecisamente estas que ainda oferecem maior nmero de oportunidadesde emprego nos pases em desenvolvimento. A inaptido dos setoresmais modernos de suas economias para absorver novas geraes na forade trabalho tem levado a uma srie de arranjos informais para os traba-lhadores conseguirem seus meios de subsistncia. Os pases em desen-volvimento enfrentam o difcil desafio de aumentar sua produtividade,e, ao mesmo tempo, absorver o crescente nmero de ingressantes nafora de trabalho.

Queda significativa na taxa de crescimento populacional dos pasesindustrializados est sendo observada durante a presente dcada: de umamdia de 0,5% ao ano, nos anos 80, para apenas 0,3% na dcada de 90,implicando rpido crescimento da populao mais idosa (particular-mente no Japo e na Alemanha), aumento significativo na percentagemde dependentes (crianas e velhos) por trabalhador; e alterao no equi-lbrio da populao mundial. O envelhecimento nas naes industriali-zadas provocar maior impacto na procura por servios sociais, bemcomo importantes conseqncias para padres de consumo, emprego,poupana e para o direcionamento do progresso tcnico.

Nos pases em desenvolvimento, por outro lado, deve persistir, orpido ritmo de crescimento populacional durante os anos 90, emborade forma mais lenta que na dcada de 80 da atual mdia de 2% para1,8% ao ano durante a prxima dcada. Em conseqncia, a juventudecontinuar sendo, destacadamente, o maior segmento da populao namaioria desses pases, cujas economias devero crescer em proporosuperior ao crescimento populacional, para atender crescente procurapor trabalho.

O desequilbrio populacional poderia apresentar o problema damigrao descontrolada de massas dos pases em desenvolvimento emdireo aos industrializados, ameaando a coeso social e a solidariedadeinternacional. Em alguns pases do Ocidente europeu j existe precon-ceito contra os forasteiros, embora a ocorrncia de fluxos macios detrabalhadores oriundos do Leste no tenha at agora se realizado.Na sia, as presses migratrias provavelmente devero aumentar,

como conseqncia do crescente desequilbrio demogrfico entre oJapo e os pases pobres e superpopulosos da regio. Embora a partici-pao da mulher no mercado de trabalho tenha aumentado, os japonesesexperimentaro um declnio da fora de trabalho, depois do ano 2000,o que ocasionar movimentos para reduo do nmero de horas na jor-nada de trabalho (OECD, 1991).

O papel do capital humano e das capacidades tecnolgicas tornar-se- cada vez mais significativo como fator determinante do crescimentoa longo prazo nos pases em desenvolvimento, na atual dcada. O nvele a qualidade de investimentos nos recursos humanos devero crescersignificativamente durante os anos 90, de maneira a enfrentar o rpidocrescimento do nmero de jovens, e tambm para fazer com que suafora de trabalho utilize novas tecnologias objetivando aumentar a pro-dutividade.

Preocupaes ambientais

Durante as ltimas duas dcadas, as preocupaes com o meio-ambiente alcanaram o topo da agenda poltica pblica internacional.Atualmente h maior conscincia dos limites que a capacidade regene-rativa do ecossistema natural impe s atividades humanas, bem comodos perigos da explorao descontrolada dos recursos naturais (pesca,florestas, terra, rios), e da sobrecarga de capacidade da terra para absor-ver resduos (poluio do ar e da gua, chuva cida, dejetos txicos enucleares). Os anos 80 testemunharam o surgimento de problemasambientais realmente globais como a reduo da camada de oznio e oefeito estufa, subestimando a possibilidade de que instabilidades ecol-gicas imprevistas viessem a causar danos irreversveis ao meio ambiente.

Os problemas de preservao ambiental e do uso de recursos estointimamente vinculados ao crescimento populacional e pobreza nospases em desenvolvimento, e aos freqentes hbitos de desperdcio deconsumo das naes ricas. Mudanas mais profundas de estilo de vidasero fundamentais em ambos os grupos de pases, para que o problemada preservao ambiental na transio para o sculo XXI seja seriamenteconsiderado.

Segundo o Banco Mundial, "Os mais urgentes problemas am-bientais enfrentados pelos pases em desenvolvimento gua contami-nada, higiene sanitria inadequada, esgotamento do solo, fumaa dentrode casa resultante do fogo, e fora, gerada pela queima de carvo, sodiferentes e prejudicam a vida mais imediatamente que aqueles asso-

ciados abundncia dos pases ricos, tais como emisses de dixido decarbono, diminuio do oznio da estratosfera, neblina fotoqumica,chuva cida e resduos prejudiciais" (World Bank 1992, p. 2-3).

A ECO 92, realizada no Rio de Janeiro, endossou a Agenda, 21,um programa de ao mundial de amplo espectro para promover desen-volvimento sustentvel; as negociaes, porm, deixaram clara a diver-gncia de perspectivas entre as naes industrializadas e as em desenvol-vimento, nas abordagens referentes ao citado desenvolvimento susten-tvel (UNCED, 1992). Questes de estilos-de-vida, soberania nacional,barreiras comerciais e assistncia financeira, alm do acesso s tecno-logias menos poluentes, esto hoje no centro do debate sobre desenvol-vimento sustentvel (v. contribuio de Ignacy Sachs nesse relatrio).

Como conseqncia da maior importncia das preocupaesambientais, o acesso assistncia ao desenvolvimento durante os anos90 estar cada vez mais vinculado ao atendimento de objetivos ecol-gicos. Pases industrializados notadamente Japo c Alemanha es-to se posicionando para competir no que ser um dos mais dinmicosmercados do futuro: o das tecnologias ambientalmente sadias. Tornando-se aptos a fornecer tecnologias verdes, poderiam, em pouco tempo, trans-formarem-se em fonte de superioridade competitiva na busca global pornovos mercados.

Transformaes culturais

Trs poderosas foras culturais esto modelando o cenrio inter-nacional na transio para o sculo XXI: importncia crescente de valo-res religiosos e o surgimento do fundamentalismo como fora motrizdas aes econmicas e polticas em muitas partes do mundo; tensesentre presses de homogeneizao cultural produzidas pela penetranteinfluncia dos meios de comunicao de massa, e o desejo de preservara identidade cultural; e emergncia de temas morais e ticos na van-guarda de escolhas relativas a inter e intra-eqidade geracional, particu-larmente com relao ao meio-ambiente, distribuio da renda e reduoda pobreza, e s novas tecnologias biomdicas. No foi por acaso que,na maioria dos pases industrializados e em alguns pases em desenvol-vimento, houvessem sido criadas Comisses Especiais, freqentementeem nvel de um ramo do legislativo, mas tambm na estrutura de rgosconsultores independentes do executivo, de modo a antecipar e avaliaro impacto de mudanas tecnolgicas e, algumas vezes, at de descober-tas cientficas: Escritrios de Consultoria Tecnolgica, Comisses sobretica Biomdica, Liberdade e Cincias da Informao, Preveno de

Riscos Tecnolgicos entre outras. Nmero crescente de segmentosrequer mecanismos de regulamentao de modo a corrigir, limitar e, sepossvel, evitar efeitos negativos ou no previstos das atividades cient-ficas e tecnolgicas. Essas inovaes institucionais no cenrio polticorefletem mudana de valores nas reaes sociais para o progresso, emnvel nacional e internacional.

No surpreendente, tambm, que o reavivamento das preocu-paes religiosas e espirituais tenha caracterizado as duas ltimas dca-das do sculo XX, as quais testemunharam o renascimento de valoresislmicos na frica do Norte, no Oriente Mdio e na sia Central; oreavivamento da Igreja Ortodoxa na Europa Oriental e na antiga UnioSovitica; a expanso das igrejas evanglicas na Amrica Latina e emoutras regies em desenvolvimento; a onda de popularidade do Papa; aflorescente influncia do fundamentalismo cristo na vida poltica dosEstados Unidos; e o renovado interesse pelo misticismo e pelas religiesorientais, constantemente associado a movimentos de Nova Era quedesafiam a racionalidade. Tudo isso aponta para o fato de que, pelaconstante preocupao com o mximo bem-estar material e com ospadres de vida, as dimenses do desenvolvimento humano foramnegligenciadas durante o perodo que sucedeu Segunda Guerra Mun-dial.

Como conseqncia da globalizao e da penetrante influncia dosmeios de comunicao de massa resultado direto de avanos tecno-lgicos nas comunicaes durante as duas ltimas dcadas , duasforas culturais contraditrias podem atualmente ser percebidas: pres-ses em direo padronizao de aspiraes e foras culturais por todoo mundo; e o desejo de revalorizar a individualidade e de preservar aidentidade cultural. Essas duas foras contraditrias criam tenses cultu-rais e stresses emocionais, particularmente nos pases em desenvolvi-mento, nos quais as imagens de riqueza transmitidas pelos programas deteleviso das naes industrializadas contrastam vivamente com a durarealidade da pobreza das massas e com o fato de que aquele mundode riqueza simplesmente inatingvel para a vasta maioria da populao.

Questes ticas e morais, antigamente territrio de acadmicos ereligiosos ativistas, esto encontrando sua expresso em debates pbli-cos sobre os direitos das futuras geraes com relao ao desenvolvi-mento sustentvel, alm de temas como racismo, direito ao aborto, cor-rupo, preveno do crime e trfico de drogas. A preocupao reno-vada com os direitos humanos em todo o mundo levou ao questiona-mento do princpio de no-interveno nos assuntos internos de pasesnos quais os governos no os respeitam. Finalmente, revertendo a ten-

dncia prevalecente durante os anos 80, consideraes sobre a igualdadeesto encontrando seu lugar nas agendas polticas de muitos pases in-dustrializados e em desenvolvimento, ao mesmo tempo em que os as-pectos ticos e morais da mudana tecnolgica e do comportamentoeconmico comeam a receber maior ateno.

Contra esse ambiente de alteraes fundamentais no contextointernacional, a cooperao Norte/Sul permanecer como preocupaoperifrica nos pases industrializados, especialmente por concentrarem aateno em seus prprios problemas internos, coordenao de polticaseconmicas, aperfeioamento da competitividade e abrandamento datransio da antiga Unio Sovitica e da Europa Oriental para econo-mias de mercado.

Como a concretizao de maior fluxo de recursos para os pasesem desenvolvimento parece duvidosa, reforma poltica, ajuste estruturale mobilizao da cincia e da tecnologia para objetivos de desenvol-vimento tero lugar em ambiente de recursos limitados. Isso testar adeciso poltica dos governos para embarcar no empreendimento in-certo e de longo prazo de construo das capacidades da cincia e datecnologia, particularmente quando enfrentam multiplicidade de neces-sidades urgentes e de curto prazo.

Modernidade e a questo da busca incerta

H quase 30 anos, Snow (1963) escreveu um ensaio sobre as duasculturas, chamando a ateno para as diferenas existentes entre cien-tistas e intelectuais literrios, deplorando a falta de comunicao e decompreenso entre eles, e fazendo um forte apelo para o surgimento decultura mais integrada, na qual as humanidades e as cincias contribui-riam igualmente, e cresceriam atravs de mtua interao. Emboraimportantes, as diferenas e a falta de comunicao entre as duas culturasde Snow que certamente podem ter aumentado, em funo do cres-

cente impacto dos mtodos cientficos e das atividades em todos os tiposde sociedades foram ocultadas pela matria cada vez mais profunda eperturbadora e pelas diferenas entre as naes ricas e pobres do mundo.De fato, o autor fez referncia a essas desigualdades gritantes, e atribuiusua existncia em parte falta de habilidade do Ocidente, com sua cul-tura dividida, para entender sua magnitude e para compreender a neces-sidade de transformaes estruturais urgentes e profundas, de cartersocial, econmico, poltico e cultural.

E bvio que o final deste sculo e grande parte do prximo sero

dominados pelo crescente abismo entre os pases industrializados e osem desenvolvimento, de tal maneira que podemos falar em duas civili-zaes ao invs de vrios mundos. O conceito de Terceiro Mundo surgiutanto como um terceiro elemento que manipula dois blocos rivais comunismo e capitalismo confrontados aps a Segunda Guerra Mun-dial, e por eles manipulado. Agora que o comunismo jogou a toalha, anoo de Terceiro Mundo est to sem sentido que a maioria dos anti-gos pases comunistas criaram uma nova categoria, a dos pases indus-trializados, que se transformaram, por sua vez, em pases em desenvolvi-mento. Alm disso, os pases em desenvolvimento no constituem umacategoria homognea, e a necessidade de se distinguir vrios nveis dedesenvolvimento e mesmo de subdesenvolvimento mais pertinenteque nunca.

O mundo permanece dividido em duas civilizaes que interagemfortemente, embora essa interao se faa em um nico sentido: asegunda civilizao dependente e profundamente afetada pela primei-ra, faltando-lhe a capacidade de influenci-la na mesma medida. A pri-meira civilizao baseia-se no florescimento da cincia como principalatividade geradora de conhecimento, na rpida evoluo das tecnologiasligadas cincia, na incorporao dessas tecnologias nos processos pro-dutivo e social, e no aparecimento de novas formas de trabalho e de vidaprofundamente influenciados pela Weltanschauung da moderna cinciae das tecnologias ligadas cincia. A segunda, caracterizada pela faltade capacidade para gerar conhecimento cientfico em larga escala, e pelaaceitao passiva dos resultados cientficos gerados pela primeira; poruma base tecnolgica que compreende componente substantivo de tc-nicas tradicionais e aparncia atraente de tcnicas importadas; por umsistema produtivo, cujo segmento moderno dependente da expansoda produo das naes industrializadas do Ocidente e da absoro datecnologia importada, e cujo segmento tradicional vegeta, baseado eminfra-estrutura tecnolgica freqentemente estagnada; e pela coexistn-cia de culturas separadas ou mesmo contraditrias.

A primeira civilizao, correspondem os pases desenvolvidos ealtamente industrializados, que dispem de base cientfica e tecnolgicaendgena. Tal base, ainda est presente, apesar das atuais dificuldades erupturas vividas pelos antigos pases comunistas da Europa Oriental; eum dos mais importantes acordos firmados em 1992 entre EstadosUnidos, Comunidade Europia e Japo, pretendia auxiliar esses pases aconservarem-na ativa. Em outras palavras, limita-se a auxiliar algumpara que no afunde, quando esse indivduo j sabe nadar. A segundacivilizao no est nadando, mas lutando pela sobrevivncia, exceo

de alguns pases que recentemente obtiveram sucesso ao alcanar o nveldos melhores nadadores da primeira civilizao. A maioria dos pases dasegunda civilizao no est apenas atrasada mas, sobretudo, no dispeda maior parte dos ingredientes bsicos em termos de recursos, ins-tituies, mo-de-obra e retaguarda cultural indispensveis, se pre-tendem beneficiar-se das inovaes do conhecimento cientfico e dasnovas tecnologias. As razes histricas de tal situao nesses pases tam-bm merecem ser cuidadosamente analisadas por pesquisadores locaisDeveriam ainda fazer parte dos programas de pesquisas e estudos cien-tficos para conscientizar polticos e sociedade em geral quanto s con-dies internas e externas que prejudicaram e ainda prejudicam odesenvolvimento, ou o aparecimento, da capacitao cientfica e tecno-lgica. Se este trabalho pode ser de algum valor, o de contribuir paramaior compreenso e, portanto, maior domnio de todas essas condi-es.

O desenvolvimento uma busca incerta, em que os pesquisadoresdevem depender profundamente da cincia e da tecnologia. A busca incerta no apenas pela ausncia de garantia antecipada de sucesso (nemde que ele ser duradouro), mas, principalmente, porque levanta ques-tes sobre o custo da modernizao: as vantagens que um pas pode delaesperar em termos polticos, econmicos, sociais e culturais; tanto quan-to os sacrifcios que ele est em condies de fazer para alcan-la. Odesenvolvimento no um processo neutro, sem impacto nas estruturassociais envolvidas; a cincia e a tecnologia nem sempre trazem melhoriaspara as regies que afetam. Em suma, apesar do que foi prometido peloracionalismo do Iluminismo e mais ainda pelo Positivismo do sculoXIX, os progressos cientfico e tecnolgico no coincidem necessaria-mente com os social e moral.

Desde o incio da Revoluo Industrial, o progresso econmicotem significado revoluo. Schumpeter concordou com Marx, pelomenos quanto a isso, enfatizando o carter revolucionrio do capitalismoindustrial, que levou obsolescncia, destruio e renovao dasestruturas econmicas e sociais. Esses fatores esto envolvidos na inova-o e, agora que ela idolatrada como fora motriz da competitividadeinternacional, importante reconhecer sempre trazer consigo um preo:mudana tecnolgica vem acompanhada de mudana social. Como disseacertadamente Schumpeter: "No importa o tanto de diligncias quevoc possua; no quer dizer por causa disso que voc ir adquirir ferro-vias". Ele enfatizou ser o crescimento econmico um processo demudana que est sempre revolucionando internamente as instituieseconmicas, destruindo as partes superadas e criando outras em seulugar, ou seja, no acrescentar mais diligncias ao estoque existente, mas

substitu-las por estradas-de-ferro, em um processo de destruio criativa,(Schumpeter, 1950).

O desenvolvimento econmico tem florescido (isto , aumentogarantido na renda nacional) como um corolrio, mas o crescimento emtermos quantitativos no significa necessariamente desenvolvimento.Desde o incio da Revoluo Industrial e, especialmente quando o ritmoda renovao tecnolgica aumentou, graas crescente interfertilizaoda cincia e da tecnologia nos pases industrializados, as pessoas tmrefletido sobre a distncia entre a sabedoria e a fora. A questo de comosuperar essa distncia tem sido constantemente levantada pela moder-nidade, e as implicaes econmicas logicamente tm dimenses filos-ficas. H que se refletir, pelo menos, quanto importncia atribuda tradio, s suas estruturas, s hierarquias, aos cdigos e aos ritos, assimcomo relativamente racionalizao, com suas coaes, ordens e desor-dens, sua capacidade de transformar e destruir. Como apontou AlainTouraine (1992), o pensamento cientfico e o tcnico ameaam reduziro ser humano racionalidade puramente instrumental, enquanto atacama racionalidade do ponto de vista de credos particulares, tradies oucomunidades que ameaam bloquear ou mesmo impedir qualquermudana, procurando compensaes para o presente em um passadomtico. Agregar as vises econmica e cultural envolve as mesmas difi-culdades que tentar construir uma ponte entre o particular e o universal,entre fatos e valores.

O mundo em desenvolvimento tem forado os pases industriali-zados a reconhecerem no apenas que suas culturas so extremamentediversas, mas que tal diversidade perfeitamente legtima. Ambos oslados tambm aprenderam que o desenvolvimento no pode ser insta-lado sem o dilogo entre a herana cultural e a racionalidade instrumen-tal, mesmo se as duas no puderem ser inteiramente reconciliadas. Nasturbulncias que marcaram o fim do sculo XX, especialmente aps ocolapso de ideologias e regimes totalitrios, o mundo inteiro est embusca de novos caminhos e alternativas que levem a uma melhor ordemsocial. E, no momento em que os pases em desenvolvimento esto assu-mindo alguns dos aspectos da modernidade que costumavam criticar, ospases industrializados restauraram alguns aspectos da tradio quehabitualmente desafiavam. Nenhuma sociedade poder jamais importotalmente seus prprios valores ou modelos de desenvolvimento paraqualquer outra. Apesar de a cincia e a tecnologia poderem contribuirsignificativamente para o desenvolvimento, no podem concretiz-lo natotalidade e, mais que isso, no oferecem soluo pronta para o proble-ma de valores, decorrente da coliso entre a tradio e a modernidade.

Sociedades modernas do-se conta de que no podem mais depo-sitar sua confiana no progresso como as pessoas faziam no Iluminismo.Porm, enquanto ningum mais acredita que o crescimento traz necessa-riamente consigo mais democracia e maior felicidade, atualmente todossabem que desenvolvimento requer crescimento e certo grau de raciona-lidade: no mais confiana total apenas na eficincia tcnica ou adminis-trativa, mas percepo e domnio das conseqncias da renovao cien-tfica e tecnolgica.

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Este texto o primeiro captulo do livro "The Uncertain Quest (La qut inccr-taine Science, Technologic et Dveloppment)", que ser publicado em ingls(UNU, University Press, Tokyo), francs (Economica, Paris) e espanhol.

Traduo de Luiz Roberto Couto Pereira. O original em ingls "FromTradition to Modernity" encontra-se disposio do leitor no IEA paraeventual consulta.

Jem-Jacques Salomon diretor do Centro de Cincia, Tecnologia e Sociedadedo Conservatoire National des Arts et Mtiers de Paris e presidente do Collgede la Prevention des Risques Technologiques. Entre 1963 e 1983 liderou aDiviso de Poltica Cientfica e Tecnolgica da Organizao de CooperaoEconmica e Desenvolvimento (OECD) em Paris. Foi professor visitante devrias universidades e institutos de pesquisa, entre eles o Massachusetts Instituteof Technology (MIT) e Havard University, nos EUA, e Instituto de EstudosAvanados (IEA) da USP, onde permaneceu durante o ms de novembro de1991 realizando palestras e discutindo com os integrantes da rea de PolticaCientfica e Tecnolgica as principais idias expostas no texto Da tradio modernidade. Entre suas publicaes mais recentes, destacam-se os livros "Lesdestin technologique" (Paris, Balland, 1992), "L'crivain public et l'ordinateur Mirages du dveloppment", em co-autoria com Andr Lebeau (Paris, Eco-nomica, 1988) e "Science, War and Peace (Paris, Econmica, 1989).

Francisco Sagasti foi chefe de Planejamento Estratgico do Banco Mundial de1987 a 1991. Trabalhou nos ministrios das Relaes Exteriores e Planeja-mento e Indstria, do Peru. Professor da Universidade do Pacfico, em Lima.PhD em Cincias Sociais pela Universidade da Pensilvnia.

Cline Sachs-Jeantet responsvel pela coordenao do programa interminis-terial da "University and City" e pesquisadora da Foundation de la Maison desSciences d'Homme em Paris. Atuou como consultora do Banco Mundial,Unesco e do governo francs. Estudou na Universidade de Paris e no Massa-chusetts Institute of Technology (MIT), nos EUA e concluiu o doutorado emEstudos Urbanos na Universidade de Paris XII, em 1987. Publicou "So Paulo:Politiques publiques et habitat populaire" (Paris, Editions Maison des Sciencesde l'Homme, 1990) e "Exploring the Human Dimensions of Development A Review of the Literature" (Paris, Unesco).