Douglas Ribeiro Barboza a Crtica a Economia Vulgar e a Superao Da Democracia Vulgar

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  • A CRTICA ECONOMIA VULGAR E A SUPERAO DA DEMOCRACIA VULGAR NO ATUAL ESTGIO DE

    DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO: A SUPERAO DA ALIENAO DO TRABALHO E A RUPTURA COM A ALIENAO

    POLTICA

    Douglas Ribeiro BarbozaAssistente Social. Mestre em Servio Social PPGSS / CCS/ UERJ. Doutorando em Servio

    Social pelo Programa de Ps-Graduao da Faculdade de Servio Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro CCS / UERJ / Brasil. Bolsista Capes

    Introduo

    A atual fase de mundializao financeira impulsiona a penetrao da lgica do

    mercado em domnios cada vez mais amplos da vida humana, acarretando impactos

    macroeconmicos que acentuam a pobreza, a desigualdade social e a iniquidade

    econmica, provocando desemprego em massa e pauperizao tanto em escala nacional

    como internacional. Formas gritantes de segregao so significativamente ampliadas

    enquanto se assiste ao crescimento da precarizao das relaes de trabalho; e, neste

    processo, a continuidade de processos de explorao e dominao com ampliao

    crescente da barbarizao da vida social tem sido comumente justificada em nome da

    democracia. Neste quadro, julgo importante se pautar na premissa de que a sustentao do

    carter fundamentalmente democrtico no pensamento marxiano pode se realizar a partir

    da compreenso de que a relao de Marx com a questo da democracia se d no mesmo

    patamar que se realiza a sua relao com a economia poltica, ou seja, a partir de uma

    superao crtica dos fundamentos que baseiam esses conceitos na sociedade capitalista,

    principalmente no que diz respeito a uma similitude analtica contida na diviso marxiana

    entre economia poltica clssica/economia vulgar e entre democracia/democracia vulgar.

    Tal afirmao parte da convico de que a crtica marxiana se pauta pela sua capacidade

    em identificar as continuidades entre as esferas econmica e poltica (pois cada uma

    delas tratada por Marx como um conjunto de relaes sociais e no como uma rede de

    foras incorpreas), afastando-se do uso rgido e abusivo da metfora arquitetnica da

    base econmica e da superestrutura legal, poltica e ideolgica, a qual oculta um dos

    propsitos da crtica marxiana da economia poltica (revelar a face poltica da economia

    que havia sido obscurecida pelos economistas polticos clssicos). Conforme destaca

    Gramsci, "se os homens adquirem conscincia de sua posio social e de seus objetivos no

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  • terreno das superestruturas, isso significa que entre estrutura e superestrutura existe um

    nexo dialtico e vital", e a expresso dessa unidade dialtica, dessa inter-relao orgnica

    entre os momentos estrutural e superestrutural, foi enfatizada por Gramsci atravs do

    conceito de "bloco histrico", o qual revela a impossibilidade de estruturar um novo

    sistema de relaes sociais caso essa organicidade no seja alcanada; ou seja, a

    hegemonia da classe dominante s alcanada quando se consegue estabelecer a

    necessria imbricao e pressuposio entre os processos de produo material da vida e os

    processos sociais de produo espiritual. (GRAMSCI, 2002, 1, p. 250-251).

    Haja vista que a questo do trabalho abrange no somente a desigualdade e a

    diviso econmica das classes, como tambm a explorao e a dominao, e considerando

    este nexo dialtico e vital entre estrutura e superestrutura, podemos defender que, se por

    um lado Marx supera criticamente as questes no resolvidas pela economia clssica

    partindo do pressuposto de que o trabalho, na sociedade capitalista, trabalho alienado e

    que, de forma correspondente, a relao capitalista no uma relao eterna, mas sim

    historicamente determinada; por outro, a reivindicao democrtica no pensamento

    marxiano a concretizao, no mbito da poltica, da exigncia de ruptura com situaes

    de alienao, da criao de condies que propiciem o surgimento de autnticas

    personalidades, da verdadeira liberdade.

    1 - Economia vulgar e democracia vulgar: a consonncia de um modelo

    epistemolgico de construo expositiva e analtica.

    Ao caracterizar o subdesenvolvimento da teoria econmica na Alemanha, Marx

    periodiza a evoluo da economia poltica na Inglaterra em suas fases cientfica (clssica) e

    vulgar, ligando-a ao desenvolvimento da luta de classes, e afirmando que a passagem da

    primeira para a segunda fase corresponde, at certo grau, a dois processos combinados no

    desenvolvimento do capitalismo. O primeiro processo desta metamorfose corresponde ao

    fato de que a economia poltica clssica constituiu-se como a cincia do capitalismo em

    formao, e, em decorrncia disto, estava mais diretamente voltada para a compreenso

    das relaes, processos e estruturas que distinguiam o capitalismo de qualquer outro

    sistema, ou seja, estava interessada em pesquisar os nexos causais internos do regime

    capitalista de produo. Ao mesmo tempo, devido ao fato de que se inseria na prpria

    revoluo burguesa que acompanhava a formao da sociedade industrial, essa economia

    era globalizante e, muitas vezes, parecia uma teoria da sociedade capitalista. Nas palavras

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  • do prprio Marx, a Economia poltica clssica (que tem como seus melhores representantes

    Adam Smith e David Ricardo) compreendida como toda a economia desde W. Petty que

    investiga o nexo interno das condies de produo burguesas (MARX, 1996, I, p. 206,

    nota de rodap), e que, embora de forma incompleta, analisou o valor e a grandeza do valor

    e descobriu o contedo escondido nessas formas, isto , que o trabalho cria valor.

    Entretanto, no extrai dessa descoberta as suas conseqncias econmicas e polticas, pois

    no se questiona por qu esse contedo reveste essa forma, e, portanto, por qu tanto o

    trabalho se representa no valor, quanto a medida do trabalho, pela sua durao na

    grandeza, se representa do valor do produto do trabalho. (Ibidem, p.205)1.

    Para o fundador do socialismo cientfico, a cincia burguesa da economia havia

    chegado aos seus limites intransponveis com o ltimo grande representante da economia

    poltica clssica, David Ricardo, o qual toma deliberadamente como ponto de partida da

    sua investigao o antagonismo dos interesses de classe, da oposio entre salrio e lucro,

    lucro e renda da terra, considerando, ingenuamente, essa contradio uma lei natural da

    sociedade. (MARX, 1996, I, p. 135). Tal concepo marxiana parte da premissa de que a

    Economia Poltica, medida que burguesa - ou seja, desde o momento que compreende a

    ordem capitalista no como um estgio historicamente transitrio de evoluo, mas sim

    como a configurao ltima e absoluta da produo social s pode permanecer como

    cincia enquanto a luta de classes permanecer latente ou s se manifestar em episdios

    isolados. (Ibidem, I, p. 134)2. Ou seja, se a indstria moderna ainda se encontra na sua

    infncia, e a luta entre o capital e o trabalho se subordina a outras lutas (como a que se

    trava entre a burguesia e o feudalismo), ento a pesquisa cientfica ainda se mostra como

    uma possibilidade. Mas, na medida em que se desenvolvia o sistema capitalista burgus,

    desenvolviam-se, tambm, as suas relaes de antagonismo e alienao. No seio desse

    quadro pode ser relacionado o segundo processo na metamorfose da cincia econmica em

    ideologia. Com a conquista e a consolidao do poder poltico da burguesia na Inglaterra e

    na Frana, no mais se necessitaria da economia poltica como arma crtica em sua luta

    1 Quanto ao valor em geral, a economia poltica clssica, em lugar algum, distingui expressamente e com conscincia clara o trabalho, como ele se representa no valor, do mesmo trabalho, como ele se representa no valor de uso do seu produto. Naturalmente ela faz de fato esta distino, pois por um lado considera o trabalho sob o aspecto quantitativo, por outro sobre o aspecto qualitativo. No lhe ocorre, porm, que mera diferena quantitativa entre os trabalhos pressupe sua unidade ou igualdade qualitativa, portanto, sua reduo a trabalho humano abstrato. (Ibidem, I, p. 205, nota de rodap).2 Engels, em A Contribuio crtica da economia poltica de Karl Marx, de 1859, corrobora tal afirmao alegando: A economia poltica a anlise terica da moderna sociedade burguesa e pressupe, portanto, condies burguesas desenvolvidas, condies que depois das guerras da Reforma e das guerras camponesas e, sobretudo, depois da Guerra dos Trinta Anos, no podiam ocorrer na Alemanha antes de passarem vrios sculos. (MARX; ENGELS, 1961, I, p. 304).

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  • contra a velha ordem feudal; e, quanto mais se desenvolvem e se aprofundam as

    contradies de classe (traduzidas nas agitaes, greves, criao de associaes, sindicatos

    e emergncia de correntes polticas operrias), de forma mais intensa direciona-se o

    movimento da conscincia burguesa no caminho de adoo de frmulas ilusrias ou

    apologticas, abandonando o objetivo da investigao das contradies sociais. A

    passagem da economia poltica clssica para a sua fase vulgar corresponde a um passo

    decisivo nesse desenvolvimento das contradies de classes, no interior do sistema

    capitalista ingls, tendo em vista que a luta de classes assumia uma forma mais explcita e

    ameaadora, tanto na teoria quanto na prtica.

    Se a economia clssica se conformou como a cincia do capitalismo em formao,

    diret