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ECOLOGIA DOS ECOSSISTEMAS COSTEIROS · teia aliMentaR MaRinha Os diferentes grupos marinhos (plâncton, nécton e bentos) relacionam-se através de cadeias alimentares. Este termo

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  • ECOLOGIA DOS ECOSSISTEMAS COSTEIROSGuia do Professor sobre a zona costeira de Viana do Castelo

  • ECOLOGIA DOS ECOSSISTEMAS COSTEIROSGuia do Professor sobre a zona costeira de Viana do Castelo

  • CONTEÚDO

    INTRODUÇÃO MÓDULO 1 MÓDULO 2 MÓDULO 3 MÓDULO 4 MÓDULO 5

    CONTEÚDO

    O AMBIENTE MARINHO

    FICHAS DE TRABALHO

    O AMBIENTE MARINHO

    FICHA DE ATIVIDADE

    O AMBIENTE MARINHO

    CONTEÚDO

    DEsAfIOs DA ZONA INTERTIDAl

    FICHAS DE TRABALHO

    O AMBIENTE MARINHO

    FICHA DE ATIVIDADE

    O AMBIENTE MARINHO

    CONTEÚDO

    PROTEÇÃO DAs DUNAs

    FICHAS DE TRABALHO

    O AMBIENTE MARINHO

    FICHA DE ATIVIDADE

    O AMBIENTE MARINHO

    CONTEÚDO

    EsTUÁRIOs E sAPAIs

    FICHAS DE TRABALHO

    O AMBIENTE MARINHO

    FICHA DE ATIVIDADE

    O AMBIENTE MARINHO

    CONTEÚDO

    IMPAcTOs DAs ATIvIDADEs

    HUMANAs

    FICHAS DE TRABALHO

    O AMBIENTE MARINHO

    FICHA DE ATIVIDADE

    O AMBIENTE MARINHO

  • ECOLOGIA DOS ECOSSISTEMAS COSTEIROS zOnA COSTEIRADE VIAnA DO CASTELO

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    INTRODUÇÃO O AMBIENTE MARINHO DEsAfIOs DA ZONA INTERTIDAl PROTEÇÃO DAs DUNAs EsTUÁRIOs E sAPAIs IMPAcTOs DAs ATIvIDADEs

    HUMANAs

    INTRODUÇÃO

    Os oceanos ocupam cerca de 71% da superfície da Terra. Neles, encontramos

    300 vezes mais espaço para a vida do que os ambientes terrestres e de água

    doce combinados, o que resulta numa diversidade espantosa de vida e de

    ambientes que serão explorados ao longo deste dossier.

    O município de Viana do Castelo tem um litoral com vasta importância,

    do ponto de vista natural, paisagístico e cultural. O município conta com

    24km de orla costeira, dos quais 16km são praias arenosas, e 8km são praias

    rochosas. No total, são cerca de 40 praias, das quais 11 estão classificadas

    como Sítio de Importância Comunitária da Região Biogeográfica Atlântica

    Rede Natura 2000.

    Temos as condições privilegiadas para aprender mais sobre a ecologia dos

    ecossistemas costeiros!

    Duna com passadiço (praia do Cabedelo). Crédito Susana Matos.

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    INTRODUÇÃO O AMBIENTE MARINHO DEsAfIOs DA ZONA INTERTIDAl PROTEÇÃO DAs DUNAs IMPAcTOs DAs ATIvIDADEs

    HUMANAs

    O AMbIENTE MARINhO

    Quando pensamos no oceano, no Norte de Portugal, não podemos deixar

    de pensar em águas frias e turvas. Isto deve-se aos ventos fortes e condições

    de mar muito variáveis específicas do litoral norte. São estas características

    que fazem com que o mar do litoral norte tenha tanta riqueza biológica,

    fazendo dele uma importante zona pesqueira.

    No norte de Portugal, a complexidade do relevo submarino – que pode

    originar situações de perigo para os veraneantes – é muito importante

    na criação de espaços com habitats variados, que suportam uma grande

    diversidade biológica, e tem grande influência nos fenómenos costeiros,

    como regime de correntes e fenómenos de erosão e deposição de

    sedimentos.

    Relevo SubMaRino

    Nas margens das massas continentais os oceanos são pouco profundos.

    A plataforma continental (a extensão submersa dos continentes) ocupa

    entre 7 a 8% da área total dos oceanos. A sua extensão varia muito (desde

    400km na costa do Canadá até apenas alguns quilómetros na costa Oeste

    dos Estados Unidos da América), e estende-se desde a superfície das

    águas até uma profundidade de cerca de 200m. No limite da plataforma

    continental existe uma descida abrupta dos fundos marinhos, o talude

    continental, que se estende até uma profundidade máxima de 3000m.

    Em profundidades superiores estende-se a planície abissal: uma vasta

    área plana e coberta de sedimentos de origem variada. Em certos locais, a

    planície abissal pode ter ravinas abissais (que podem atingir os 11000m de

    profundidade!) ou mesmo cordilheiras submarinas. Por vezes acontece que

    estas elevações oceânicas afloram à superfície, formando ilhas vulcânicas

    como é o caso do arquipélago dos Açores. Estas extensas cristas oceânicas

    são frequentemente locais de intensa atividade vulcânica.

    Curiosidade

    O local mais profundo dos

    oceanos é a Fossa das

    Marianas. Fica situada no

    Oceano Pacífico e tem uma

    profundidade de 11.034 metros!

    Mede mais de 2.500 km de

    comprimento e tem uma largura

    média de 69 km. Neste local

    tão profundo, a pressão é

    1.100 vezes superior à pressão

    atmosférica, não existe luz

    e a temperatura é tão baixa

    que se aproxima do ponto de

    congelação.

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    Zonação oceânica

    O meio marinho constitui o maior meio aquático do planeta e, como tal,

    pode ser dividido em diferentes zonas. Na coluna de água, a água que

    recobre a plataforma continental é conhecida como a zona nerítica,

    enquanto na zona acima das bacias do oceano profundo é conhecida como a

    zona oceânica. Estas duas zonas, em conjunto, são conhecidas como a zona

    pelágica. Os organismos pelágicos vivem no seio das massas de água sem

    dependerem do fundo para completar os seus ciclos vitais. Podem apresentar

    um de dois estilos de vida diferentes. O plâncton vai sendo arrastado pelas

    correntes enquanto os membros do nécton são nadadores ativos.

    Por sua vez, a zona bentónica, é a que se encontra mais próxima dos fundos

    oceânicos. Pode ser dividida em zona intertidal, a plataforma continental

    e a zona profunda. Organismos que vivem nesta zona podem ser parte da

    epifauna, que vivem agarrados às rochas ou se deslocam sobre os fundos

    oceânicos, ou infauna, organismos que vivem enterrados no lodo ou na areia.

    Mas a luz também influencia a zonação do oceano, embora na vertical. Assim,

    a zona pelágica pode ser subdividida em zonas diferentes, de acordo com a

    quantidade de luz que chega a cada zona. Temos então a zona eufótica (a

    zona que recebe luz solar suficiente para permitir a fotossíntese, que pode

    variar com fatores como a turbidez das águas, atinge uma profundidade

    média de 50m), a zona oligofótica (limitada acima pela zona eufótica e

    abaixo pela profundidade máxima à qual a visão humana tem perceção da

    luz, profundidade média de 500m) e a zona afótica (que se estende para

    baixo da zona oligofótica e corresponde à zona de escuridão total).

    INTRODUÇÃO O AMBIENTE MARINHO DEsAfIOs DA ZONA INTERTIDAl PROTEÇÃO DAs DUNAs IMPAcTOs DAs ATIvIDADEs

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    200 m

    4000 m

    6000 m

    zona afótica

    zona eufótica

    zona oceânicazona nerítica

    talude continental

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    INTRODUÇÃO O AMBIENTE MARINHO DEsAfIOs DA ZONA INTERTIDAl PROTEÇÃO DAs DUNAs IMPAcTOs DAs ATIvIDADEs

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    DiStRibuição De coMuniDaDeS MaRítiMaS

    As diferentes comunidades marinhas podem ser designadas segundo as

    regiões dos oceanos que habitam e de acordo com o seu estilo de vida.

    Assim, existem espécies oceânicas e espécies neríticas, dependendo se

    os organismos são encontrados em águas costeiras ou em oceano aberto

    respetivamente.

    • Plâncton organismos que flutuam na água e sem capacidade de

    propulsão ou mobilidade própria contra uma corrente. Dividem-se em

    fitoplâncton (plantas) ou zooplâncton (animais).

    • nécton são nadadores ativos que se podem mover contra as correntes.

    Inclui peixes, mamíferos, tartarugas, e outros.

    • bentos organismos que vivem junto ao fundo (epifauna) ou dentro dos

    sedimentos do fundo (infauna).

    Alguns organismos podem começar por ser pelágicos no início do seu

    ciclo de vida e tornar-se bentónicos mais tarde.

    teia aliMentaR MaRinha

    Os diferentes grupos marinhos (plâncton, nécton e bentos) relacionam-

    se através de cadeias alimentares. Este termo refere-se ao conjunto de

    relações tróficas que ocorrem entre os organismos vivos que compõem

    um ecossistema.

    De modo geral, pode-se dizer que o fitoplâncton alimenta o zooplâncton

    que, por sua vez, alimentam pequenos peixes e crustáceos, que serão,

    mais tarde, presa de peixes maiores. Estes cumprirão depois o papel de

    alimentarem peixes maiores, que, por sua vez, alimentarão predadores de

    topo – atuns, aves, baleias, ou tubarões.

    A base de uma cadeia alimentar são os organismos autotróficos ou

    produtores (por exemplo, o fitoplâncton, organismos unicelulares

    fotossintéticos que vivem à deriva e, através da fotossíntese, sintetizam

    compostos orgânicos). O zooplâncton, por sua vez (composto por

    copépodes, larvas de peixe e animais bentónicos) alimenta-se do

    fitoplâncton – pertencem já à categoria dos heterotróficos, ou

    consumidores - e os seres vivos que o constituem são habitualmente

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    designados por consumidores primários. A cadeia prossegue com os

    consumidores secundários (animais que se alimentam de consumidores

    primários), terciários (alimentam-se dos consumidores secundários), e

    assim por diante. Existem ainda omnívoros, que se alimentam tanto de

    produtores como de consumidores, e decompositores, que se alimentam

    de toda a matéria orgânica e a quebram em pequenas moléculas.

    Dá-se o nome de teia alimentar ao conjunto de cadeias alimentares

    interconectadas de uma comunidade.

    INTRODUÇÃO O AMBIENTE MARINHO DEsAfIOs DA ZONA INTERTIDAl PROTEÇÃO DAs DUNAs IMPAcTOs DAs ATIvIDADEs

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    PoRque é que a água DaS PRaiaS Do noRte é tão fRia?

    A turvação e as baixas temperaturas das águas do mar do Norte de

    Portugal devem-se à fina carga sedimentar e grande massa de água

    introduzida no mar pelos vários rios que a ele afloram.

    Uma curiosidade, porém, é o facto de durante o Inverno, as águas do mar

    serem menos frias e turvas que durante os períodos de Verão.

    Contrariamente ao que se pode pensar, isto não depende só da

    temperatura do ar mas sim de fenómenos denominados de afloramento

    costeiro ou upwelling.

    Durante o Verão, os ventos paralelos à costa que se fazem sentir em

    Portugal sopram do quadrante norte (as famosas nortadas). Durante o

    resto do ano, o vento sopra do quadrante sul. Os ventos do quadrante

    norte deslocam a massa de água que é arrastada no sentido do vento.

    Contudo, devido à rotação da Terra, o deslocamento da água faz-se

    em profundidade sendo que no caso de Portugal, este deslocamento

    Curiosidade

    O atum rabilho (Thunnus

    thynnus) é um peixe de sangue

    quente, algo que é invulgar.

    Essa característica faz com que

    possam nadar nas zonas de

    águas mais frias do Atlântico

    à procura de alimento. São

    também peixes muito rápidos

    – conseguem nadar a mais de

    60km/h.

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    INTRODUÇÃO O AMBIENTE MARINHO DEsAfIOs DA ZONA INTERTIDAl PROTEÇÃO DAs DUNAs IMPAcTOs DAs ATIvIDADEs

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    Curiosidade

    Estima-se que cerca de 50%

    da produção piscícola mundial

    se efetua nestas zonas de

    afloramentos costeiros!

    corresponde a um afastamento de água da costa. Assim, fica uma menor

    massa de água mais perto da costa e uma maior massa de água longe

    desta, sendo que para compensar a diferença de altura e pressão entre

    a zona costeira e o mar aberto, ocorre subida à superfície de águas mais

    profundas. Por seu lado, a água quente é arrastada para o interior do

    oceano.

    Quando os ventos sopram do quadrante oposto, este fenómeno dá-se de

    forma inversa, isto é, as águas costeiras tendem a deslocar-se para as zonas

    mais fundas, e são substituídas por águas mais quentes. Por ser profunda,

    esta massa de água recebe menor quantidade de energia solar e portanto

    tem uma temperatura mais baixa de onde resulta que a perceção térmica

    na zona costeira seja a de que água está fria.

    O fenómeno de upwelling é muito positivo no que diz respeito à

    diversidade biológica pois o movimento de ascensão de água fria dá

    origem às correntes de afloramento – ricas em nutrientes e que são

    responsáveis pela grande produtividade das águas costeiras com que

    têm 10 vezes mais fitoplâncton do que em períodos de não afloramento,

    estimulando o crescimento de toda a cadeia alimentar.

    Poça de maré (praia do Canto Marinho). Crédito Susana Matos.

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    INTRODUÇÃO O AMBIENTE MARINHO DEsAfIOs DA ZONA INTERTIDAl PROTEÇÃO DAs DUNAs IMPAcTOs DAs ATIvIDADEs

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    ECOLOGIA E bIODIVERSIDADE DA ZONA ENTRE-MARéS

    A Zona Entre-Marés é a área da costa que está sujeita à influência da maré

    alta e da maré baixa. Nesta zona, são as marés que condicionam a vida.

    As condições variáveis que se fazem sentir obrigam os seres vivos que

    habitam nesta zona a terem uma capacidade de adaptação especial às

    variações ambientais. Quando a maré está cheia, estes organismos são

    atingidos pelas ondas, e quando a maré está baixa, ficam expostos ao sol

    e à secura. Para sobreviver, têm de conseguir aguentar grandes variações

    da periodicidade e amplitude das marés, da intensidade luminosa, da

    temperatura, salinidade e outros fatores, consoante estão submersos ou

    fora de água.

    Cada ponto da zona intertidal tem um conjunto de condições específicas

    a que correspondem certas populações de animais e vegetais. Os

    organismos que vivem nesta zona agrupam-se assim de uma forma

    especial, influenciada tanto por fatores físico-químicos, como por fatores

    biológicos, uma divisão que se chama Zonação Intertidal e que faz

    com que o tipo de organismos presente na zona intertidal vá variando

    consoante esses fatores.

    A identificação das diferentes zonas é feita pela localização de

    povoamentos dos organismos típicos de cada um dos andares do

    Sistema litoral. Os limites superiores de distribuição destes organismos

    estabelecem-se de acordo com a sua tolerância às condições ambientais

    extremas (temperatura, salinidade, exposição à luz solar e ondulação),

    enquanto os limites inferiores são determinados por fatores bióticos, como

    a predação e competição entre espécies. Os organismos que habitam esta

    zona são muito especiais, pois têm de conseguir sobreviver em condições

    particularmente duras e mutáveis. A zona entre marés inclui o andar

    Supralitoral, o Mediolitoral e a parte superior do andar Infralitoral.

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    Limite superior da Praia-mar

    anDaR SuPRalitoRal

    Esta zona é a que se segue ao domínio terrestre. Só quando ocorrem

    marés vivas é que esta zona se encontra coberta pela água. Os organismos

    que vivem neste andar estão sujeitos aos salpicos das ondas. Nos

    substratos rochosos, este andar engloba vários organismos.

    Um dos pequenos animais que habita este andar é Littorina neritoides, que

    pertence ao grupo dos animais conhecidos como burriés. É um pequeno

    gastrópode que se costuma encontrar nas fissuras das rochas. Este

    pequeno animal tem de prevenir a perda de água por evaporação, manter

    a sua temperatura equilibrada, defender-se contra possíveis ondas mais

    fortes, e ainda tem de se alimentar! É a espécie mais pequena da familia

    Littorinidae, mede apenas entre 3 a 5 mm. Tem uma concha lisa, mais alta

    do que larga, que termina num vértice pontiagudo.

    Limite inferior da Baixa-mar

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    Para além destas duas espécies, pode também destacar-se Verrucaria

    maura, um líquen negro que à primeira vista parece alcatrão derramado

    sobre as rochas. Muitas pessoas ficam surpreendidas ao descobrirem que

    é um organismo vivo, porque parece apenas uma mancha preta sobre as

    rochas. É responsável por uma característica faixa preta horizontal que

    pode ser vista em muitas praias rochosas.

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    Ligia oceanic. Crédito innotata. Verrucaria maura.

    Está acompanhado no andar supralitoral por Ligia oceanica. Conhecido

    vulgarmente como barata-do-mar, este crustáceo achatado ocupa as

    fissuras e pequenas concavidades das rochas. Pode atingir até 30 mm de

    comprimento, e tem uma cor entre cinza e cor de azeitona. Alimenta-se

    essencialmente à noite, de algas e matéria orgânica morta.

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    anDaR MeDiolitoRal

    Este andar está sujeito ao efeito das marés duas vezes por dia. Nos

    substratos rochosos, as cracas são as primeiras a aparecer, particularmente

    as espécies Chthamalus montagui e Chthamalus stellatus. As cracas

    são crustáceos marinhos sésseis de vários géneros. Estes animais têm

    uma concha calcária bastante característica. Vivem normalmente fixas

    em substratos rochosos, mas podem fixar-se também a fundos de

    embarcações ou a outros animais (por exemplo, baleias).

    Outros organismos comuns neste andar pertencem a várias espécies

    do género Patella, que são popularmente conhecidas como lapas. As

    lapas são gastrópodes que vivem agarrados, normalmente, a rochas.

    A sua concha única também os ajuda a protegerem-se durante a maré

    baixa. Estes animais conseguem um isolamento completo ao aderirem

    fortemente à rocha. O seu pé musculoso, em conjunto com a concha,

    torna-as numa espécie de ventosas. As lapas conseguem movimentar-

    se fora de água - desde que a humidade seja elevada ou a temperatura

    baixa - e por isso conseguem-se alimentar, mesmo que estejam expostas.

    Alimentam-se de microalgas, que raspam da superfície das rochas.

    Chthamalus stellatus e Patella.

    Mais abaixo, é possível encontrar mexilhões da espécie Mytilus

    galloprovincialis. Os mexilhões são moluscos bivalves que vivem nas zonas

    intertidais, nas rochas costeiras. O mexilhão utiliza o bissus para se agarrar

    à rocha e a outros mexilhões, de forma a enfrentar a força das ondas e das

    correntes de fluxo e refluxo características deste andar. A sua concha é de

    uma cor negra azulada, e alimenta-se de fitoplâncton e de matéria orgânica

    ao filtrar a água do mar. Devido a esta filtração constante, a qualidade

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    da água é muito importante para o mexilhão! A concha bivalve é muito

    importante para defender o mexilhão das condições variáveis desta zona.

    Ao fechar as duas valvas da concha, o mexilhão consegue isolar-se do meio

    exterior, mantendo alguma água no seu interior e aguentando, assim, os

    períodos nos quais está exposto ao ar. No entanto, não pode permanecer

    assim muito tempo pois isto dificulta as suas trocas gasosas e impede que se

    alimente.

    Mytilus edulis. Fucus spiralis. Crédito ciar.

    No limite inferior deste andar, é possível encontrar a alga castanha,

    Fucus spiralis. É uma macroalga que pode formar frondes de dimensões

    consideráveis. Costumam estar fixas ao substrato através de um rizóide (um

    órgão semelhante a uma raiz). Estas algas são flexíveis mas têm uma fixação

    resistente. Assim, não oferecem demasiada resistência à força das ondas e

    deixam os talos flutuar com a corrente, evitando partir ou ficar danificadas.

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    Neste andar, surgem também as características “pocinhas”, espaço entre

    as rochas que estão permanentemente cheios de água - chamam-se

    poças de maré. São zonas importantes de refúgio para certos organismos

    marinhos que se abrigam nelas até que a maré suba. As poças de

    maré não estão sujeitas a tanta variação como outras zonas, mas são

    condicionadas pela sua posição na praia e pelas marés - as poças que

    estão mais próximas do mar têm menos variabilidade do que as que estão

    mais afastadas do mar. Todas as poças são diferentes umas das outras, o

    que faz com que cada uma tenha particularidades únicas para explorar.

    A temperatura é um dos fatores que mais afeta as poças de maré. Como

    têm, geralmente, pouca água, estão sujeitas a alterações muito rápidas de

    temperatura - num só dia, a temperatura pode variar dentro de uma gama

    de cerca de 15ºC. Esta variação pode ocorrer gradualmente ou de forma

    súbita: uma poça exposta vai aumentando lentamente de temperatura,

    mas quando a maré sobe e inunda as poças, a temperatura da poça desce

    de repente. A salinidade também é variável e depende da posição da

    poça em relação ao mar, da temperatura, da precipitação, entre outros.

    Em poças mais pequenas, quando está muito calor, a evaporação da água

    pode levar à precipitação de sais. As poças da praia baixa estão mais

    próximas do oceano ficam isoladas menos tempo e, por isso, costumam

    ter maior biodiversidade: algas fucóides, mexilhões, lapas, burriés,

    anémonas, ouriços, esponjas... Já as poças mais afastadas do oceano e que

    ficam isoladas por mais tempo são dominadas por algas verdes, camarões

    e caranguejos.

    Poça de maré.

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    Nestas poças de maré é possível encontrar animais que também existem

    no andar infralitoral, como por exemplo o ouriço-do-mar, Paracentrotus

    lividus. O ouriço-do-mar é um equinoderme, como as estrelas-do-mar e

    os pepinos-do-mar, mas o seu corpo é recoberto por espinhos rígidos.

    Alimenta-se de invertebrados e de algas que raspa das rochas com os

    seus dentes localizados na superfície inferior do corpo. Os ouriços-do-mar

    não são fixos: podem-se movimentar com o auxílio de pés ambulacrários.

    Os pés ambulacrários são apêndices exclusivos dos animais do filo dos

    equinodermes. Nos ouriços-do-mar e nas estrelas-do-mar, estes pés

    terminam em ventosas e assumem funções locomotoras.

    Também é possível, por vezes, encontrar estrelas-do-mar. Trata-se de um

    equinoderme que ganhou o seu nome popular por ter forma de estrela. A

    maior parte das estrelas-do-mar têm cinco braços, mas algumas espécies

    podem ter bastantes mais. Podem ser de cores muito diferentes: algumas

    são alaranjadas, outras vão do castanho ao vermelho ou à púrpura. Na

    parte de baixo dos braços, as estrelas-do-mar têm pequenas estruturas

    em forma de tubo, que terminam numa ventosa. São os já referenciados

    pés ambulacrários, que servem para as estrelas-do-mar se moverem e se

    agarrarem às rochas. Os pés são preenchidos por água do mar: quando a

    pressão do líquido é maior nos pés, ficam mais rígidos e quando a pressão

    diminui, eles ficam moles – essa diferença faz com que as estrelas-do-mar

    se possam movimentar. Alimentam-se principalmente de bivalves.

    Curiosidade

    As estrelas-do-mar conseguem

    ainda fazer outra coisa

    interessante: regenerar-se! Isto

    quer dizer que quando perdem

    um braço, ou uma porção de um

    braço, podem fazê-lo crescer

    de novo.

    Poça de maré com alga vermelha em destaque (Halarachnion ligulatum). Crédito Susana Matos.

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    anDaR infRalitoRal

    Este andar vai desde o mediolitoral até à profundidade máxima onde

    podem existir algas fotófilas (que precisam de muita luz solar), que na

    costa portuguesa situa-se entre os 20 e os 24 m de profundidade. Na

    maré baixa, uma pequena parte no limite superior deste andar pode

    ficar a descoberto, mas o resto permanece sempre submerso. Esta zona

    é bastante rica em algas, como Coralina elongata, Gelidium corneum,

    Chondracanthus acicularis e Asparagopsis armata. Também pode ser

    provável encontrar mexilhões.

    Relativamente a algas, nesta zona pode ser possível encontrar algas do

    género Laminaria, que podem constituir florestas de Kelp. Kelp é o termo

    utilizado para designar as algas castanhas gigantes, como as do género

    Laminaria. Estas algas crescem principalmente em águas frias e ricas em

    nutrientes, como as que existem na costa de Viana do Castelo. Estas algas

    podem formar florestas no fundo do mar, chegando a atingir 65 m de

    altura. Estas florestas formam ecossistemas fundamentais para o equilíbrio

    da vida marinha. As algas Laminaria, e não só, são importantes produtores

    primários, transformando energia solar em matéria orgânica. Captam

    dióxido de carbono e libertam oxigénio, contribuindo assim para regular o

    efeito de estufa da atmosfera. As florestas de Kelp são muito importantes

    para várias espécies, que as utilizam como zonas de alimentação e refúgio.

    São também relevantes do ponto de vista económico, pois atraem espécies

    de elevado valor comercial para a pesca, como os robalos e as corvinas. Das

    algas são ainda extraídos produtos utilizados na alimentação, cosmética e

    indústria, o que acentua a sua importância económica.

    Macrocystis pyrifera, uma macroalga comum em florestas de kelp.

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    Pollicipes pollicipes.

    Falando ainda de algas de grandes dimensões, em Viana é também

    possível encontrar espécies do género Saccorhiza. Saccorhiza polyschides,

    por exemplo, é uma espécie anual cujas lâminas, castanhas e largas,

    variam de comprimento de acordo com certos fatores (como a idade,

    a profundidade ou a localização). Podem atingir 3m de comprimento

    quando as condições são ideais.

    Órgão de fixação/rizóide de alga castanha (Saccorhiza polyschides). Crédito Susana Matos.

    Outros organismos que ocorrem neste andar (assim como nas poças de

    maré do andar mediolitoral) são os percebes (Pollicipes pollicipes). Os

    percebes são crustáceos que vivem fixos na rocha, e que têm um aspeto

    bastante particular. São compostos por duas partes: o capítulo (uma concha

    com placas calcárias que protege o percebe da desidratação) e o pedúnculo

    (a parte musculosa e flexível, que contém a glândula adesiva responsável

    por aderir o animal ao substrato de modo a resistir à ondulação).

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    Anemonia sulcata.

    Neste andar, vemos igualmente anémonas-do-mar (Anemonia sulcata). Estes

    animais do filo Cnidaria estão presos ao substrato por um pé adesivo e utilizam

    os seus tentáculos para capturar alimentos. Para minimizar as perdas de água

    durante a maré-baixa, podem reduzir a superfície corporal exposta. Para além

    disso, a mucilagem que recobre esta anémona, e que a torna escorregadia,

    contribui para que o animal se mantenha húmido, mesmo que esteja exposto

    ao ar algum tempo. Alimentam-se de pequenos peixes e crustáceos.

    Actinia equina. Crédito holger Krisp.

    É ainda possível encontrar tomate-do-mar (Actinia equina). Também

    conhecido como morango-do-mar, possui uma coroa com cerca de 200

    tentáculos. Quando a maré baixa e o animal fica exposto, retrai os tentáculos

    para dentro da cavidade central e fecha-se, ficando com o aspeto de uma

    bola gelatinosa. Podem permanecer assim por várias horas, preservando

    alguma água no interior e sobrevivendo até ao regresso da água.

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    Carcinus maenas.

    Esta zona também alberga o caranguejo verde (Carcinus maenas). Trata-se

    de um caranguejo típico desta zona. É omnívoro e predador, alimentando-

    se de uma grande variedade de presas, em particular moluscos, crustáceos

    e poliquetas. É mais ativo à noite e na maré alta. A sua dieta pode mudar

    se existirem variações sazonais na disponibilidade das suas presas. A sua

    carapaça pode atingir os 10 cm de largura.

    Palaemon serratus.

    Conta também com o camarão das poças, Palaemon serratus, um

    organismo de águas mediterrâneas e do Atlântico Norte temperado. Habita

    as regiões marinhas costeiras, especialmente em fissuras rochosas, até

    aos 40 metros de profundidade, e pode atingir um comprimento máximo

    de 110 mm. É omnívoro e alimenta-se principalmente durante a noite, de

    algas e pequenos crustáceos.

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    Lipophrys pholis.

    Aqui e nas poças-de-marés podemos ainda encontrar Lipophrys pholis, o

    peixe vulgarmente conhecido por “ranhosa”. É um peixe comum em poças

    rochosas e encontra-se, por vezes, entre as algas. O nome pelo qual este

    peixe é popularmente conhecido deve-se ao facto de terem a pele coberta

    por um muco abundante. Passam horas apoiados nas barbatanas pélvicas.

    Pode permanecer fora da água sob pedras ou algas. É mais ativo durante

    o dia, durante o período da maré alta. Alimenta-se especialmente de

    gastrópodes, cracas e algas.

    Em Viana do Castelo, as praias rochosas têm zonas entre-marés com muita

    diversidade, o que torna esta zona muito rica em termos de diversidade e

    divertida de explorar!

    Poça de maré (praia do Canto Marinho). Crédito Susana Matos.

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    DeSafioS Da Zona inteRtiDal

    A zona intertidal é uma das zonas mais complicadas para sobreviver.

    Os organismos ora estão submersos, ora estão expostos ao ar, e

    isto faz com que as condições a que estão expostos (a luz, o ar, o

    movimento das ondas...) variem regularmente. Quando os animais

    ficam expostos ao ar durante a maré baixa enfrentam vários desafios.

    Esta exposição ao ar significa que podem perder água por desidratação,

    e para sobreviverem os organismos têm de ser capazes de tolerar

    essas perdas de água ou têm de possuir mecanismos que os ajudem

    a reduzir as perdas. Já mencionamos previamente que os mexilhões e

    as lapas, por exemplo, se servem das suas conchas para conservarem

    água no seu interior, e outros animais, como as anémonas, defendem-

    se graças à mucilagem que as recobre. Por outro lado, as algas têm

    dificuldade em realizar a fotossíntese quando estão expostas ao ar.

    Os seus sistemas de trocas de gases são ineficazes fora de água, o que

    pode acarretar problemas relativos à respiração. Os animais que não

    possuem adaptações para lidar com a falta de água (como conchas ou

    mucilagem) podem passar a maré baixa escondidos em locais frescos e

    húmidos, como nas fendas das rochas, debaixo de pedras, em bancos

    de mexilhões, ou nas poças de marés.

    A força das ondas é outro desafio com o qual estes organismos têm de

    lidar. Principalmente para os animais que se movem com dificuldade

    (ou não se movem mesmo), como os mexilhões ou as cracas, é

    importante conseguirem aguentar a força das ondas e das correntes

    quando a maré sobe e desce. O facto de viverem em grupo ajuda a

    dissipar a força das marés, mas para além disso, estes animais são

    caracterizados pelas suas conchas e fixação forte. Os animais móveis

    podem evitar os locais mais críticos, mas ainda assim é comum terem

    características que lhes facilitem a vida nestes locais. Podem ainda

    abrigar-se em cavidades nas rochas ou em bancos de algas e mexilhões.

    Alguns animais adotam ainda outras estratégias, enterrando-se no

    sedimento que surge entre as rochas ou entre grupos de mexilhões, ou

    recorrendo a conchas vazias de búzios para se protegerem (como é o

    caso dos caranguejos-eremita). O efeito das ondas é forte e agressivo,

    mas é essencial para espécies que dependem das ondas para recursos

    vitais como alimento e oxigénio.

    Outro dos desafios que os organismos da zona intertidal enfrentam

    deve-se ao substrato onde vivem. Num substrato rochoso, mesmo

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    que existam mais ondas e mais agitação marítima, os organismos têm

    maior facilidade em se fixar e, assim, resolver o problema. No entanto,

    o subtrato arenoso, por ser mais móvel e mutável, não permite essa

    fixação. Isto faz com que, geralmente, as praias arenosas tenham uma

    menor biodiversidade e os seus organismos sejam mais difíceis de

    observar.

    Poça de maré (praia do Canto Marinho). Crédito Susana Matos.

    Curiosidade

    O filo Cnidaria é constituído por

    de animais aquáticos como as

    hidras, medusas, alforrecas,

    corais, e anémonas. É um grupo

    com mais de 9000 espécies!

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    IMPORTâNCIA DOS SISTEMAS DUNARES

    Apesar de não estarem diretamente relacionados com o mar, encontramos,

    quase sempre perto dele, dunas.

    As dunas são elevações de areia, sistemas temporários que fazem a transição

    entre o ambiente marinho e o ambiente terrestre.

    A importância destes sistemas é enorme sendo que nos dias de hoje,

    felizmente, o Homem se tem vindo a aperceber da relevância da proteção

    das dunas.

    O sistema dunar forma-se em consequência de fatores como:

    • Perfil do litoral;

    • Areia disponível na praia;

    • Vento;

    • Presença de obstáculos (como por exemplo, vegetação).

    De forma geral, o nascimento das dunas começa com a formação de Bancos

    de Areia, zonas de acumulação sedimentar que podem ser o resultado de

    fenómenos complexos entre a ação dos ventos e a ondulação marítima.

    Estes bancos de areia fornecem a areia que irá alimentar as praias e entrar no

    processo de formação das dunas. Assim, na área de areia permanentemente

    seca, a areia, depois de seca ao sol, é transportada para o interior pela

    ação do vento. Os grãos de areia vão rolando uns sobre os outros, e param

    quando encontram vegetação ou outros obstáculos que possibilitem a sua

    acumulação. Aí, vão formando um montinho e começam uma pendente

    suave para o lado do oceano (barlavento) e um declive mais acentuado no

    lado oposto (sotavento).

    Neste ponto, considera-se uma duna embrionária. Criam-se então condições

    para a colonização de plantas que promovem a acumulação de areias. Inicia-

    se assim um progressivo crescimento e maturação da duna, acompanhada

    por uma sucessão de comunidades vegetais.

    Apesar de partilharem o mesmo processo de formação, existem diferentes

    tipos de dunas. O tipo mais normal no litoral português é a duna transversal:

    dunas compridas e transversais ao sentido do vento e paralelas entre si.

    Existem outros tipos de dunas, como as dunas parabólicas (dunas com

    forma de crescente cuja concavidade fica voltada para o lado de onde vem

    o vento) ou as dunas barcanes (dunas com a mesma forma das parabólicas,

    mas concavidade fica do lado oposto àquele de onde vem o vento).

    Curiosidade

    As dunas podem ser móveis

    (são as mais comuns quando

    há uma influência contínua

    do vento), fixas (quando têm

    vegetação que as estabiliza)

    ou fósseis (consolidadas numa

    época geológica antiga).

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    duna embrionária

    Quando existem conjuntos de dunas organizados de acordo com as

    condições de vento de um dado local, diz-se que existe um sistema dunar.

    Estes constituem a forma mais comum de ocorrência das dunas.

    Estes sistemas começam com o aparecimento de uma acumulação de areia

    na zona mais próxima à água, embora afastada da zona de rebentação das

    ondas, até formar uma duna. Esta duna vai-se movimentando no sentido

    do vento, normalmente do litoral para o interior. O afastamento pode

    abrir espaço para que apareçam outras acumulações de areia nesse local.

    Estas novas acumulações criam obstáculos para o vento que empurra a

    duna inicial. A partir do momento em que o vento diminui, a duna inicial,

    já mais afastada do mar, pode começar a estabilizar e a ser recoberta com

    vegetação. Assim, dá-se a fixação da duna inicial. O processo pode-se ir

    repetindo até que o sistema dunar esteja todo fixo, o que pode acontecer

    por razões naturais ou por intervenção humana, através de plantações de

    espécies vegetais fixadoras.

    À medida que as dunas mais afastadas do mar se vão fixando, também a

    duna mais próxima do mar vai ficando mais equilibrada. Mantém-se mais ou

    menos constante num dado local e pode começar a ser fixada pelas plantas.

    duna frontal

    duna interior

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    Essa duna pode então ser chamada “duna frontal”, à duna seguinte “duna

    interior” e à zona entre elas “espaço inter-dunar”.

    Os sistemas dunares costeiros são sistemas muito dinâmicos e sensíveis.

    Vão mudando ao longo do tempo, de acordo com as pressões a que estão

    sujeitos. Formam barreiras naturais muito resistentes à ação dos ventos

    e das ondas, e são uma proteção importante, em especial durante as

    tempestades mais agressivas de inverno.

    Do ponto de vista da conservação, os sistemas dunares costeiros são

    considerados como habitats naturais muito importantes, especialmente

    relativamente à vegetação. A natureza dinâmica destes sistemas cria

    paisagens com uma topografia variável, fornecendo uma enorme

    variedade de habitats que apresentam uma riqueza florística e animal com

    características únicas.

    bioDiveRSiDaDe

    As dunas são admiráveis habitats naturais com muitas espécies de flora e

    fauna. Como meio ambiente, as dunas caracterizam-se pela mobilidade do

    sedimento, pela existência de um gradiente de salinidade entre as zonas

    mais perto e mais longe do mar e por diferenças entre a zona frontal,

    delimitada pelo topo da duna, e as regiões que esta protege.

    As características dos sistemas dunares (vento, salinidade, insolação,

    secura, escassez de água e nutrientes, mobilidade de areias) implicam

    que poucas espécies de plantas e animais consigam colonizar este

    meio. As que o fazem, porém, são espécies de elevado valor ecológico,

    exclusivas destes habitats e com um extraordinário grau de adaptação e

    especialização.

    As primeiras plantas começam-se a instalar quando as condições

    ambientais o permitem, geralmente a partir do momento em que a

    possibilidade de submersão começa a ser menor. Estas plantas vão

    impedir que as areias se movimentem para o interior, e podem permitir

    o crescimento das dunas em altura assim como favorecer a estabilização

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    da faixa costeira. As primeiras plantas a aparecer são muito simples, mas

    destacam-se por serem plantas resistentes à salinidade e a um substrato

    instável. São uma espécie chamada Elymus farctus, uma gramínea que é

    popularmente conhecida como feno-das-areias. Cresce muito depressa,

    para evitar ser soterrada pela areia, e conta com as longas raízes para fixar

    as areias da duna onde se desenvolve. Tem folhas lisas e brilhantes na face

    superior e enrugadas como um fole na face inferior. A superfície brilhante

    tem uma película que reflete a luz solar excessiva e protege as células da

    ação da água salgada que por vezes salpica. A face inferior, enrugada,

    cria um ambiente abrigado e húmido onde as trocas gasosas se dão,

    minimizando as perdas de água. Nas praias mais lotadas, esta planta tem

    muita dificuldade em sobreviver, pois a sua localização coincide com as

    zonas preferidas pelos veraneantes, que, por causa do pisoteio, danificam

    as comunidades vegetais e impedem que se desenvolvam.

    Junto do feno-das-areias, surgem outras plantas como a carqueja-mansa

    (Cakile maritima). A carqueja-mansa é uma planta que tolera grandes

    concentrações de sal, diz-se que é halófita. Tem órgãos suculentos, que lhe

    permitem diluir o sal acumulado, e as suas pequenas e rijas folhas limitam

    a sua exposição aos salpicos salgados das ondas. Podem surgir em grandes

    quantidades em zonas que tenham grandes concentrações temporárias

    de matéria orgânica. São plantas anuais, o que quer dizer que o seu

    efeito fixador só se faz notar durante o seu período de crescimento ativo.

    Quando desaparecem, a areia acumulada pode ser novamente arrastada

    pelo vento. Como é tão difícil viver nesta zona, por causa do substrato

    instável e da pontual submersão pelas águas (que pode acontecer durante

    tempestades, no Inverno), só o feno-das-areias, com o seu crescimento

    INTRODUÇÃO O AMBIENTE MARINHO DEsAfIOs DA ZONA INTERTIDAl PROTEÇÃO DAs DUNAs IMPAcTOs DAs ATIvIDADEs

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    Carqueja-mansa (Cakile maritima). Crédito Susana Matos.

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    rápido e as suas raízes longas, consegue permanecer aqui. O feno-das-

    areias vai então constituir um obstáculo ao vento, que vai começar ali a

    depositar areia e a formar uma elevação.

    Após alguns anos, o topo da duna começa a ver o aparecimento de

    pequenos povoamentos de cordeiro-das-dunas (Otanthus maritimus),

    que é recoberto por um tomento lanoso que protege a planta da intensa

    INTRODUÇÃO O AMBIENTE MARINHO DEsAfIOs DA ZONA INTERTIDAl PROTEÇÃO DAs DUNAs IMPAcTOs DAs ATIvIDADEs

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    Cordeiro-das-dunas (Otanthus maritimus). Crédito Susana Matos.

    luz solar, mantendo ao mesmo tempo uma fina camada de ar húmido

    perto do caule e das folhas. O sapinho-da-praia (Honkenia peploides) e

    morganheira-das-praias (Euphorbia paralias) também surgem, com o

    sapinho-da-praia a preferir locais com maior humidade. Com a ajuda

    destas plantas, a duna vai continuar a crescer em altura, formando uma

    duna embrionária. Mais atrás, aparece o estorno (Ammophila arenaria).

    O estorno também se caracteriza pelo seu crescimento rápido, que

    Morganheira-das-praias (Euphorbia paralis). Crédito Susana Matos.

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    Cordeiro-das-dunas (Otanthus maritimus). Crédito Susana Matos.

    impede que a planta fique soterrada na areia, e pelas suas raízes longas,

    que captam água e estabilizam a planta. Cresce em tufos densos, e

    graças a isso consegue resistir à força do vento. Ao abrigo dos pequenos

    montículos de areia que se vão acumulando em redor desta espécie

    vão surgindo outras espécies, como a leituga-dos-montes (Leontodon

    taraxacoides), ou a granza-das-praias (Crucianella marítima).

    Esta zona da duna é a mais sensível, e é a zona da duna em que os efeitos

    do homem mais se fazem sentir. Os veraneantes, muitas vezes, passam por

    cima das dunas, pisoteando as plantas que habitam nesta zona, e pode

    mesmo acontecer que o trânsito de veículos agrícolas e de lazer destruam

    vegetação. Ao fazer isto, contribuem para pôr as areias em movimento,

    eliminando assim o primeiro obstáculo que o mar encontra pela frente.

    Cordeiro-das-dunas (Otanthus maritimus). Crédito Susana Matos.

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    Lírio-das-areias (Pancratium maritimum).

    A duna embrionária torna-se, eventualmente, uma duna primária.

    A vegetação que aí se encontra é dominada por estorno, mas inclui

    mais espécies, como o cardo-marítimo (Eryngium maritimum), que se

    caracteriza por uma roseta basal de onde partem caules espinhosos,

    podendo atingir cerca de 50 cm de altura, o lírio-das-areias (Pancratium

    maritimum), com características flores brancas, e Silene littorea, uma

    pequena herbácea anual.

    Sillene litorea. Crédito Susana Matos.

    Para lá do topo da duna frontal, já existe um ambiente mais seco e abrigado

    do vento, que é dominado por madorneira (Artemisia crithmifolia) e

    perpétua-das-areias (Helichrysum picardii). Estas são acompanhadas por

    espécies como a vúlpia (Vulpia alopecurus), a gramínea erva-pinchoneira

    (Corynephorus canescens), e o morrião-azul (Anagallis monelli). Esta zona

    já tem um substrato mais estável, o que permite que exista uma maior

    diversidade de plantas, organizada em comunidades mais complexas.

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    Chegada a esta fase, a forma dunar está definida. O seu perfil suave

    corresponde à passagem gradual de um ambiente marinho para um

    ambiente terrestre. As zonas mais recuadas podem evoluir no sentido de

    ficarem mais estáveis, e podem depois ganhar mais diversidade caso esta

    evolução não seja perturbada por fatores como tempestades, subida do

    nível do mar, défice de areia na alimentação das praias, entre outros.

    Na duna secundária, mais afastada do mar e, geralmente, mais estável,

    podem surgir plantas arbustivas como a saboneteira (Polycarpon

    tetraphyllum), cujas elegantes flores brancas surgem entre abril e setembro,

    ou a perpétua-das-areias (Helichrisum picardii), uma planta aromática que

    floresce entre maio e setembro, e cujos caules podem ter entre 20 a 50 cm

    de altura.

    Morrião-azul (Anagallis monelli). Crédito Susana Matos. Saboneteira (Polycarpon tetraphyllum). Crédito Susana Matos.

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    Perpétua-das-areias (Helichrisum picardii).Crédito Susana Matos.

    A vegetação natural deve ser preservada, não só porque tem um papel

    importante no crescimento e estabilização das dunas, mas também porque

    constitui alimento e abrigo de muitos animais.

    Assim, a nível de fauna, a duna também contém alguns exemplares

    adaptados à vida neste espaço que, por vezes, pode ser hostil.

    Na porção mais próxima do mar, é possível encontrar pequenos crustáceos

    como as pulgas-da-areia, assim conhecidas por causa dos seus saltos súbitos

    e aspeto parecido ao das pulgas. Alimenta-se de detritos orgânicos em

    decomposição, especialmente de restos de macroalgas. São uma parte

    importante da alimentação de diversas espécies de peixes e aves. Passam

    bastante tempo enterradas na areia.

    Em zonas da duna com maior diversidade de plantas, existe também maior

    diversidade de animais, graças à maior variedade e disponibilidade de

    alimento.

    O sapo-de-unha-negra (Pelobates cultripes) é um anfíbio que se pode

    encontrar associado a este habitat. Pode atingir os 10 cm de comprimento.

    Alimenta-se de invertebrados que captura durante a noite. Durante o dia,

    mantém-se enterrado na areia, onde é mais fresco e húmido. Este sapo não

    vive só nas dunas, mas as dunas contêm importantes zonas de reprodução,

    pelo que a destruição destas zonas é uma ameaça à sua sobrevivência.

    Curiosidade

    O sapo-de-unha-negra é um

    anfíbio robusto, que ganhou

    o nome por possuir uma

    espora negra nos membros

    posteriores, que utiliza para

    escavar. É essencialmente

    noturno: passa o dia enterrado

    na areia, nos buracos que

    escava com as esporas negras.

    EsTUÁRIOs E sAPAIs

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    INTRODUÇÃO O AMBIENTE MARINHO DEsAfIOs DA ZONA INTERTIDAl PROTEÇÃO DAs DUNAs IMPAcTOs DAs ATIvIDADEs

    HUMANAs

    Empusa pennata. Crédito béotien lambda.

    Esta zona mais rica em espécies vegetais alberga aracnídeos e também

    insetos variados, como gafanhotos. Estes têm, geralmente, formas especiais

    e cores claras, que lhes permitem confundir-se com a areia e passar

    despercebidos aos numerosos insectívoros que por ali passam. Uma destas

    espécies é o louva-a-deus (Empusa pennata). A forma deste habitante dos

    sistemas dunares faz com que possa ser facilmente confundido com um

    galho seco, tanto em larva como em adulto.

    Também é possível observar gaivotas, embora estas não estejam restritas

    às dunas. Uma das espécies destas regiões é a gaivota-de-asa-escura (Larus

    fuscus). É uma espécie comum e fácil de reconhecer: os adultos são brancos,

    com as asas de cor cinzento-escuro, e com manchas pretas na cauda.

    Esta espécie pode existir em ambientes distintos, podendo mesmo ser

    encontrada a muitos quilómetros da costa. Pode existir nas proximidades

    da orla costeira e estuários, mas também de salinas, lagoas, cursos de água,

    Larus fuscus. Crédito andreas trepte.

    EsTUÁRIOs E sAPAIs

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    6 6 6 7

    barragens, estações de tratamento de águas residuais, lixeiras e zonas

    urbanas. Esta espécie de gaivotas alimenta-se de quase tudo: restos de

    animais mortos, crustáceos, material vegetal, aves jovens, ovos e insetos, e

    até mesmo resíduos resultantes da atividade humana.

    Assim, é fácil concluir que as dunas são um abrigo muito importante

    de várias espécies de fauna e flora: quer para reprodução, quer para

    alimentação, várias espécies estão dependentes das dunas.

    INTRODUÇÃO O AMBIENTE MARINHO DEsAfIOs DA ZONA INTERTIDAl PROTEÇÃO DAs DUNAs IMPAcTOs DAs ATIvIDADEs

    HUMANAs

    Charadrius alexandrinus. Crédito alnus.

    PRoteção DaS DunaS

    Mesmo quando estão estabilizadas pela vegetação, as dunas são instáveis

    e é muito fácil perturbar a sua estrutura. O pisoteio, por exemplo, destrói

    a vegetação e faz com que a areia fique novamente solta, podendo ser

    espalhada pelo vento. Isto inicia um chamado processo que em casos

    extremos pode por em risco todo o sistema dunar. A extração de espécies de

    plantas das dunas também pode resultar na destruição dos sistemas dunares.

    A construção de estruturas em cima das dunas pode transformar uma duna

    fixa numa duna móvel, sendo assim os processos dominados pela presença

    da areia e do vento e da relação entre eles e as estruturas ocorrentes na

    duna. Este processo resulta quase sempre na destruição da duna ou da

    estrutura artificial, o que pode fazer com que a linha de costa recue.

    As dunas constituem uma proteção muito importante para o homem.

    Funcionam como uma fronteira que protege os terrenos interiores dos

    avanços do mar. São a principal barreira contra a erosão e o avanço do mar

    que pode ocorrer durante tempestades ou eventos extremos. Quando as

    dunas são destruídas ou danificadas, isso facilita o avanço do mar em direção

    Curiosidade

    Os borrelhos-de-coleira-

    interrompida formam casais

    monogâmicos, de duração

    sazonal, mas o mesmo casal

    pode estar junto por vários

    anos. Ambos os progenitores

    cuidam das crias.

    EsTUÁRIOs E sAPAIs

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    INTRODUÇÃO O AMBIENTE MARINHO DEsAfIOs DA ZONA INTERTIDAl PROTEÇÃO DAs DUNAs IMPAcTOs DAs ATIvIDADEs

    HUMANAs

    ao interior. As dunas maiores e mais estáveis contribuem para estabilizar o

    litoral, limitando a influência do mar sobre o interior. Também servem como

    “armazém” de areias que compensam os fenómenos erosivos e os períodos

    mais críticos. Para além disso, contribuem para o equilíbrio dos sistemas

    litorais e preservam a paisagem em toda a sua diversidade de componentes.

    Em resumo, as dunas são essenciais para proteção da biodiversidade, das

    pessoas e das povoações. São boas razões para serem eficazmente protegidas.

    Duna com vegetação, incluindo Morganheira-das-praias (Euphorbia paralias). Crédito Susana Matos.Sistema dunar com passadiço. Crédito Susana Matos.

    EsTUÁRIOs E sAPAIs

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    INTRODUÇÃO O AMBIENTE MARINHO DEsAfIOs DA ZONA INTERTIDAl PROTEÇÃO DAs DUNAs IMPAcTOs DAs ATIvIDADEs

    HUMANAs

    OS ESTUáRIOS E SAPAIS

    Os estuários são o resultado da mistura de águas continentais e oceânicas e

    o canal por onde os rios penetram no mar.

    Estão sujeitos à influência das marés e são a fronteira entre os meios

    marinho e de água doce, sendo as suas características determinadas pela

    forma com as duas massas de água com diferentes origens se combinam.

    Os estuários localizam-se nas fozes dos grandes rios portugueses, em

    zonas costeiras de baixa energia, menos sujeitas à agitação e às correntes

    marítimas, porém muito expostas a correntes de maré.

    Apesar do senso comum nos indicar que o estuário é um local onde a água

    do rio entra na água do mar, o oposto também é verdade.

    A diferença de densidades entre as duas águas – salgada e doce – permite

    tal feito.

    A água salgada, por ter maior densidade, circula, genericamente mais

    próxima do fundo enquanto a água doce se mantém mais à superfície.

    Curso superior

    Curso médio

    Praia fluvial

    Planície fluvial

    Delta

    EsTUÁRIOs E sAPAIs

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    INTRODUÇÃO O AMBIENTE MARINHO DEsAfIOs DA ZONA INTERTIDAl PROTEÇÃO DAs DUNAs IMPAcTOs DAs ATIvIDADEs

    HUMANAs

    Esta diferença de densidades tem também consequências no que diz

    respeito ao transporte de sedimentos, nos fluxos de materiais no interior do

    estuário e nas características físico-químicas do ambiente estuarino.

    A carga sedimentar transportada até ao mar, também é diversificada

    conforme o percurso. Assim, a carga sedimentar grosseira é depositada

    no início do estuário – estuário alto, a zona de maior influência do rio.

    No estuário médio – a zona com a maior variação diária de salinidade e

    temperatura - verifica-se deposição de carga sedimentar fina, dando origem

    aos bancos lodos e limosos e portanto só mesmo as partículas mais finas,

    associadas à corrente principal do rio, chegam ao mar, dando origem à

    pluma estuarina.

    Como dito anteriormente, porém, nos estuários é também verificável a

    existente de circulação de água contrária ao habitual montante-jusante.

    A circulação com origem marinha acompanha o ritmo das marés e portanto,

    durante a subida da maré, o mar empurra o rio para montante. Isto provoca o

    deslocamento da água doce para as zonas laterais do canal de circulação – a

    nível do estuário baixo, uma zona de características principalmente marinhas.

    Já no estuário médio e alto, a influência desta entrada de água do mar no rio

    é notória no fundo, tendo como resultado a subida do nível da água.

    A vida num estuário nem sempre é fácil, mas para quem lá consegue viver

    pode ser um ambiente recompensador. As diferentes características das

    duas massas de água que se encontram num estuário influenciam de forma

    diferente os organismos que habitam o curso de água da nascente á foz,

    Estuário (veiga de S. Simão). Crédito Susana Matos.

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    INTRODUÇÃO O AMBIENTE MARINHO DEsAfIOs DA ZONA INTERTIDAl PROTEÇÃO DAs DUNAs IMPAcTOs DAs ATIvIDADEs

    HUMANAs

    detendo uma grande variabilidade de organismos.

    Por um lado, existem os organismos sésseis (fixos ao substrato ou de

    mobilidade reduzida) cuja flutuação diária do nível de água, salinidade,

    temperatura e concentração de oxigénio constituem um desafio. Por outro

    lado, os organismos capazes de suportar esta variação diária, apresenta-se-

    lhes uma grande disponibilidade de nutrientes e alimento – os estuários

    são dos ambientes com maior produtividade do planeta. Por imobilizarem

    materiais no sedimento e biomassa animal e vegetal, funcionam ainda

    como filtros naturais para poluentes.

    Já os organismos móveis, em particular os de origem marinha que residem

    no estuário, vêm a entrada de água salgada como uma possibilidade de

    aceder a um meio onde o alimento abunda, além de que este é um meio

    mais propício para depositar os seus ovos ou para o desenvolvimento larvar.

    Devido aos nutrientes que são transportados pelas águas de terra,

    um estuário apresenta elevada produtividade biológica, que suporta

    inclusivamente algumas atividades do Homem, como a pesca ou a

    recolha de bivalves. Os estuários também são notáveis por serem um

    local de abrigo contra predadores (uma vez que impede a entrada de

    predadores tanto marinhos como de água doce), permitindo que peixes

    juvenis e outros animais cresçam num local rico em alimento. Várias aves

    utilizam os estuários como local privilegiado de nidificação. São também

    um importante local de alimento e repouso para as aves migratórias.

    Os estuários prestam ainda vários outros serviços: armazenamento e

    reciclagem de nutrientes, retenção de sedimentos, transição entre o

    Curiosidade

    A veiga de S. Simão é uma

    zona húmida que se estende

    de Mazarefes a Subportela.

    Tem uma extensão de cerca

    de 150 hectares de terrenos

    alagados e 200 hectares de

    campos agrícolas e matas

    dispersas. O encharcamento

    quase permanente desta zona

    permitiu uma evolução da flora

    e da fauna mais diferenciada,

    uma vez que os terrenos

    alagados impunham condições

    adversas para algumas práticas

    agrícolas.Estuário do rio Lima. Crédito Susana Matos.

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    meio marinho e de água doce e filtro natural de poluentes. São muito

    importantes!

    Em Viana do Castelo, existe o estuário do rio Lima. É um dos maiores

    estuários do norte de Portugal, albergando no seu interior o importante

    porto de Viana do Castelo e desenvolve-se nas duas margens do rio Lima,

    assim como na foz do mesmo.

    Os lodaçais salgados, que cobrem e descobrem com as marés surgem

    associados às ínsuas, dando origem a uma paisagem dominada por

    vegetação tolerante ao sal. Na margem direita existem alguns sapais de

    pequenas dimensões. Na margem esquerda, o estuário contacta com os

    caniçais e juncais da veiga de S. Simão.

    O estuário do Lima alberga espécies de fauna bastante interessantes.

    A garça-real (Ardea cinerea), a maior garça que ocorre em Portugal,

    encontra no estuário do rio Lima um bom local de descanso. O corvo-

    marinho-de-faces-brancas (Phalacrocorax carbo) também usa o estuário

    para se alimentar e descansar. Esta ave de penas negras pode ser vista

    especialmente durante o período de setembro a abril. O pilrito-das-praias

    (Calidris alba), uma pequena ave de patas pretas e ventre branco, é um

    Curiosidade

    O corvo-marinho-de-faces-

    brancas pode ser encontrado

    em grandes bandos em zonas

    ricas em alimento. Depois de

    pescar, esta ave descansa com

    as asas abertas ao sol para

    conseguir secar as penas.

    Ardea cinerea.

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    HUMANAs

    outro visitante frequente do estuário. Pode ser visto mais frequentemente

    entre setembro e março. A petinha-dos-prados (Anthus pratensis) é uma

    ave de plumagem castanha e peito malhado que surge em grandes

    números no início do Outono. Alimenta-se de insetos e, entre outubro

    e março, é possível ver esta pequena ave em todo o tipo de terrenos

    agrícolas, pastagens, incultos ou campos encharcados, sendo uma

    presença regular no estuário do rio Lima.

    Phalacrocorax carbo. Crédito andreas trepte.

    O robusto lagarto-de-água (Lacerta schreiberi) ocorre nas proximidades

    do rio Lima, e mantém-se ativo entre os meses de Fevereiro e Outubro,

    quando entra em repouso invernal. É uma espécie que só ocorre na

    Península Ibérica e que, por isso, é muito importante. Em Portugal é uma

    espécie pouco preocupante, mas tem muito interesse do ponto de vista da

    conservação: faz parte da Convenção de Berna e da Diretiva Habitats.

    Lacerta schreiberi.

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    HUMANAs

    SaPaiS

    Nos estuários é frequente a presença de comunidades vegetais que se

    podem desenvolver em ambientes com muito sal, designadas por sapais.

    Estes desenvolvem-se sobre lodaçais onde as correntes não conseguem

    transportar todos os sedimentos que carregam. Existem plantas, como

    por exemplo as do género Spartina, que têm um papel muito importante

    na estabilização dos fundos dos sapais estuarinos, pois formam pequenas

    ilhotas de vegetação pioneira. As raízes destas plantas contribuem para

    tornar mais coesas as partículas do solo. Por outro lado, os caules fazem

    com que a água vá abrandando e favorecem a sedimentação. Spartina

    maritima, por exemplo, conhecida popularmente como morraça, é uma

    espécie do género Spartina presente nos sapais de Viana do Castelo, que

    suporta longos períodos de submersão. À medida que o solo do sapal

    se torna mais espesso, criam-se condições para a existência de outras

    plantas. Em Portugal, os sapais são os locais com maior diversidade de

    plantas que se desenvolvem em locais com estas concentrações de sal.

    Pode haver tipos de vegetação de sapal muito variáveis, mas em Portugal

    existem mais plantas herbáceas ou arbustivas.

    Nas zonas de sapal mais próximas da foz, banhadas por águas mais salinas

    e submetidas ao movimento da água do mar, situa-se o sapal externo.

    No sapal interno a influência da água doce é muito maior, as marés são

    menos evidentes e a vegetação vai sendo dominada por elementos menos

    tolerantes ao sal.

    No sapal externo, a zonação é definida principalmente pela probabilidade

    e a duração do encharcamento pela água da maré. Existem três zonas

    principais no sapal externo: alto, médio e baixo. O sapal baixo situa-se

    no extremo inferior do sapal, em solos de salinidade mais ou menos

    constante, sempre saturados de água salgada. Nas comunidades mais

    interiores do sapal baixo e no sapal médio há um ciclo de inundação e

    drenagem que ocorre duas vezes por dia. O sapal alto só é visitado pelas

    águas marinhas na maré cheia.

    No que diz respeito a espécies vegetais existentes nos sapais, há várias

    que merecem menção, como por exemplo, os juncos. O junco-marítimo,

    ou junco-das-esteiras, (Juncus maritimus), por exemplo, é uma planta

    herbácea perene, que pode atingir uma altura entre 60 a 150cm. Trata-se

    de uma planta halófita, ou seja, tolerante à salinidade. Durante muito

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    HUMANAs

    carnudos que podem atingir 30cm de altura. Ocorre em áreas de sapais,

    e nas arribas temporariamente encharcadas por água salgada ou salobra,

    bem como nas salinas, o que significa que tem tolerância à salinidade.

    A salicórnia está a ganhar alguma popularidade a nível gastronómico,

    especialmente como substituto do sal: há quem utilize esta planta

    para colocar em saladas, para saltear com legumes, ou para utilizar em

    omeletes.

    tempo, as populações usavam o junco-das-esteiras para produzir, como o

    próprio nome indica, esteiras. Estas eram utilizadas para cobrir habitações

    mais modestas, e também era utilizada para proteger os barracões onde

    do gado contra o frio e a chuva.

    A salicórnia é outro tipo de plantas que podem ser encontradas nos

    sapais. Salicornia ramosissima, por exemplo, é uma planta com caules

    Estuário do rio Lima. Crédito Susana Matos. Caniçal (Phagmites australis), estuário do rio Lima

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    HUMANAs

    IMPACTOS DAS ATIVIDADES hUMANAS NOS ECOSSISTEMAS COSTEIROS

    Segundo o Plano de Ação de Proteção e Valorização do litoral 2012-2015, o

    litoral português enfrenta hoje em dia uma ameaça significativa decorrente

    dos fenómenos de erosão costeira, inundação, instabilidade das arribas,

    entre outros. Cerca de 1/4 da sua extensão mostra tendência para erosão

    ou erosão confirmada. A perda de território e a destruição ou danificação

    das infraestruturas existentes (de proteção costeira ou edifícios) em alguns

    pontos da orla costeira, têm contribuído para aumentar as situações de

    risco nestas áreas, que podem ter implicações graves no que se refere à sua

    segurança.

    A costa norte de Portugal Continental tem estado exposta a diversas

    pressões humanas, as quais, em maior ou menor grau, contribuem para

    a sua degradação. As praias rochosas estão especialmente sujeitas à

    exploração humana, pois abrigam um grande número de espécies, algumas

    delas de elevado valor económico.

    No Verão, as zonas costeiras são ainda mais perturbadas pois é o período

    em que as pessoas vão à praia em grandes números. Os danos causados

    pelo pisoteio na zona intertidal das praias rochosas, durante este período,

    tornam-se ainda mais graves pelo facto de nesta época se dar a fixação

    larvar das principais espécies bentónicas.

    Nas proximidades de cidades, vemos outro dos principais problemas, que

    é a descarga de efluentes domésticos e industriais não tratados é uma

    situação comum no nosso país. Outra forma de poluição crónica é causada

    pelo intenso tráfego marítimo que se verifica em águas portuguesas (da

    qual fazem parte as descargas de águas de lavagem dos tanques dos

    petroleiros que passam pela costa portuguesa), principalmente junto às

    zonas portuárias.

    A recuperação de terras para agricultura leva por vezes à perda de habitats

    e áreas essenciais dos ambientes estuarinos e lagunares costeiros, e a

    invasão urbana, com cada vez mais habitações e equipamentos turísticos

    localizados perto das praias, contribuem para a degradação da paisagem

    litoral, chegando a destruir o cordão dunar. Pratica-se também a extração

    de areias de dunas primárias. Ao fazê-lo, permite-se que mais água salgada

    entre nos estuários, provocando o salgamento de solos cultivados e

    substituindo os lençóis de água doce por água salgada.

    Entre os fatores antrópicos que afetam a dinâmica das zonas costeiras

    EsTUÁRIOs E sAPAIs

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    8 6 8 7

    segundo o INAG (2010), destacam-se:

    • O efeito de estufa;

    • A ocupação da faixa litoral;

    • A diminuição de sedimentos que chegam ao litoral devido à construção de

    barragens nos grandes rios;

    • A destruição de defesas naturais, seja pela remoção de vegetação, pisoteio

    das dunas, etc.

    Devido à conjugação dos vários fatores inumerados anteriormente, pode-se

    verificar as seguintes consequências:

    • Erosão costeira;

    • Poluição da água do mar e das praias;

    • Fragmentação de habitats e perturbação dos ecossistemas;

    • Perda da biodiversidade;

    • Expansão de espécies invasoras;

    • Perda de atratividade da zona costeira.

    A gestão dos riscos relacionados com a evolução do litoral vai ser cada

    vez mais importante devido aos impactos das alterações climáticas. Estes

    podem ter várias consequências, como a subida do nível médio do mar, a

    modificação do regime de agitação marítima, alterações da precipitação...

    Neste cenário, segundo os dados constantes do Projeto SIAM II - Alterações

    Climáticas em Portugal. Cenários, Impactos e Medidas de Adaptação (2006),

    prevêem-se alterações no balanço sedimentar. Estas podem significar

    uma variação da intensidade da erosão, ou modificações da frequência e

    intensidade das inundações costeiras. Os impactos dessas alterações ao

    nível económico, social e ambiental serão variáveis e irão depender das

    características geológicas, morfológicas e padrões de ocupação existentes

    na faixa costeira nacional.

    INTRODUÇÃO O AMBIENTE MARINHO DEsAfIOs DA ZONA INTERTIDAl PROTEÇÃO DAs DUNAs IMPAcTOs DAs ATIvIDADEs

    HUMANAs

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  • zona costeirade Viana do castelo

    8 9

    fIChASfichas de trabalho

    fichas de atividade

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    9 0 9 1

    ficha De tRabalho • 1

    MóDulo 1 // o aMbiente MaRinho

    200 m

    4000 m

    6000 m

    1. O que é a plataforma continental?

    ________________________________________________________________________________________________

    ________________________________________________________________________________________________

    2. Como se chama a zona que se segue à plataforma continental?

    ________________________________________________________________________________________________

    ________________________________________________________________________________________________

    3. Legenda a seguinte imagem:

    4. Como achas que serão as condições de vida na Fossa das Marianas, o local mais profundo dos oceanos? Porquê?

    ________________________________________________________________________________________________

    ________________________________________________________________________________________________

    ficha De tRabalho • 2

    1. O que é um organismo pelágico?

    ________________________________________________________________________________________________

    ________________________________________________________________________________________________

    2. Legenda a seguinte imagem de acordo com a região do oceano que habitam:

    3. Pertencem ao nécton:

    a) todos os organismos marinhos que nadam ativamente;

    b) todos os organismos marinhos, fixos ou rastejantes do substrato abissal;

    c) todos os organismos marinhos, fixos ou rastejantes do substrato litorâneo;

    d) todos os organismos marinhos que vivem a flutuar no oceano.

    4. Dá um exemplo de um organismo que pertença ao nécton.

    ________________________________________________________________________________________________

    ________________________________________________________________________________________________

    MóDulo 1 // o aMbiente MaRinho

  • ECOLOGIA DOS ECOSSISTEMAS COSTEIROS zOnA COSTEIRADE VIAnA DO CASTELO

    9 2 9 3

    ficha De tRabalho • 3

    MóDulo 1 // o aMbiente MaRinho

    1. O que são organismos autotróficos? Dá um exemplo.

    ________________________________________________________________________________________________

    ________________________________________________________________________________________________

    2. O conceito de teia alimentar refere-se a quê?

    ________________________________________________________________________________________________

    ________________________________________________________________________________________________

    3. Define o fenómeno de upwelling.

    ________________________________________________________________________________________________

    ________________________________________________________________________________________________

    4. Porque é que o upwelling é um fenómeno benéfico?

    ________________________________________________________________________________________________

    ________________________________________________________________________________________________

    ficha De ativiDaDe

    Esta atividade simples vai ajudar a perceber as diferenças de pressão que existem no oceano e que variam de acordo

    com a profundidade.

    MóDulo 1 // o aMbiente MaRinho

    MateRial

    • 1 garrafa de plástico de água (pode ser de

    1,5L);

    • Régua;

    • Marcador;

    • Pionés ou semelhante;

    • Fita isoladora adesiva;

    • Água.

    PRoceDiMento

    • Coloca a garrafa pousada numa mesa.

    • Com o marcador e a régua, marca cinco pontos equidistantes a

    partir da base da garrafa.

    • Com a ajuda do pionés, faz furos do mesmo tamanho em cada

    um dos cinco pontos que marcaste.

    • Utiliza a fita isoladora adesiva para tapar os furos.

    • Enche a garrafa com água e coloca-se perto de um lavatório ou

    lava-loiças.

    • Tira a fita isoladora e observa o que acontece.

    Repara que quando a fita adesiva for retirada, a água vai começar a sair pelos furos. A distância alcançada pelos

    esguichos vai variar com a profundidade – quanto mais próximo da base da garrafa, maior será o esguicho. Isto

    acontece devido ao peso da coluna de água ser maior no fundo da garrafa do que na superfície. À medida que a garrafa

    vai ficando vazia e que a pressão diminui, a distância alcançada pelos esguichos também se vai tornando menor.

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    ficha De tRabalho • 1

    MóDulo 2 // DeSafioS Da Zona inteRtiDal

    1. O que se entende por Zona Intertidal?

    ________________________________________________________________________________________________

    ________________________________________________________________________________________________

    2. Os seres vivos da zona intertidal…

    a) Distribuem-se por diferentes andares da zona intertidal, condicionados por fatores físicos, químicos e

    biológicos;

    b) Distribuem-se por diferentes andares da zona intertidal, condicionados por fatores unicamente biológicos;

    c) Distribuem-se aleatoriamente por diferentes andares da zona intertidal, sem estarem condicionados por

    nenhum fator externo ou interno;

    d) Distribuem-se por diferentes andares da zona intertidal, condicionados por fatores unicamente físico-químicos.

    3. Os animais do andar supralitoral costumam estar submersos pela água do mar. Verdadeiro ou Falso? Justifica a tua

    resposta.

    ________________________________________________________________________________________________

    ________________________________________________________________________________________________

    4. Nas estrelas-do-mar, para que servem os pés ambulacrários?

    ________________________________________________________________________________________________

    ________________________________________________________________________________________________

    ficha De tRabalho • 2

    1. Que animais se podem encontrar nas rochas da Zona Mediolitoral?

    ________________________________________________________________________________________________

    ________________________________________________________________________________________________

    2. Que fatores condicionam as poças de maré?

    ________________________________________________________________________________________________

    ________________________________________________________________________________________________

    3. Se perderem um braço, as estrelas-do-mar podem regenerar-se, fazendo crescer um novo braço. Verdadeiro ou

    falso?

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    ________________________________________________________________________________________________

    4. Nas estrelas-do-mar, para que servem os pés ambulacrários?

    ________________________________________________________________________________________________

    ________________________________________________________________________________________________

    MóDulo 2 // DeSafioS Da Zona inteRtiDal

  • ECOLOGIA DOS ECOSSISTEMAS COSTEIROS zOnA COSTEIRADE VIAnA DO CASTELO

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    ficha De tRabalho • 3

    MóDulo 2 // DeSafioS Da Zona inteRtiDal

    1. O que é uma floresta de Kelp?

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    ________________________________________________________________________________________________

    2. Qual é a importância das florestas de Kelp?

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    ________________________________________________________________________________________________

    3. Quando a maré baixa, o tomate-do-mar…

    a) Desliza até um local mais baixo, onde fique submerso;

    b) Fica no mesmo local, sem mudar nada;

    c) Enrola os tentáculos para dentro da cavidade central e espera até a maré subir;

    d) Aproveita para se alimentar mais.

    4. Porque é que a zona intertidal pode ser um local complicado para viver?

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    ficha De ativiDaDe

    Uma saída de campo a uma praia rochosa de Viana do Castelo é uma boa maneira de levar os alunos a testemunhar,

    em primeira mão, a diversidade e a estrutura destas praias. Assim, sugere-se esta atividade. Pode inclusivamente

    ser estabelecida uma pequena competição de fotografia, com os melhores trabalhos a terem a oportunidade de ser

    expostos na escola.

    Nota: As visitas deverão ser programadas de modo a serem realizadas na maré baixa, o que permitirá visualizar uma maior

    diversidade de habitats (consultar a Tabela de Marés do Instituto Hidrográfico: www.hidrografico.pt/previsao-mares.php).

    MateRial

    • Lápis e borracha;

    • Caderno de registo;

    • Máquina fotográfica;

    • Pionés ou semelhante;

    • Ficha de campo.

    MóDulo 2 // DeSafioS Da Zona inteRtiDal

    PRoceDiMento

    • Observar a morfologia da praia.

    • Observar e registar: poças cobertas por água na baixa-mar (infralitoral), rochas a descoberto durante a maré-

    baixa (médiolitoral), rochas sempre descobertas (supralitoral); flora e fauna (forma e dimensões, habitats, modo de

    fixação, modo de locomoção, atividade);

    • Zonas de areia molhada e seca;

    • Observar e registar vestígios de influência da atividade humana no ecossistema.

    obJetivoS

    • Identificar a diversidade de seres vivos no litoral;

    • Reconhecer as diferentes zonas do litoral e os organismos que nelas

    habitam;

    • Observar e caracterizar as relações entre os diferentes seres vivos.

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    ficha De ativiDaDe

    MóDulo 2 // DeSafioS Da Zona inteRtiDal

    FICHA DE CAMPO

    1. Local _______________________________________________________________________________________

    2. Data _______________________________________________________________________________________

    3. Hora _______________________________________________________________________________________

    4. Condições atmosféricas _______________________________________________________________________

    5. Tipo de substrato ____________________________________________________________________________

    6. Outras informações __________________________________________________________________________

    7. Espécie detetadas

    noMe científico noMe vulgaRnÚMeRo De inDivíDuoS

    ficha De tRabalho • 1

    1. Que fatores influenciam a formação dos sistemas dunares?

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    2. Os sistemas dunares podem ser considerados dinâmicos? Porquê?

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