Economia Internacional (Macroeconomia Aberta) .1 Economia Internacional (Macroeconomia Aberta) Parte

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Economia Internacional (Macroeconomia Aberta)

Parte I: Conceitos Bsicos e Balano de Pagamentos

Prof. Francisco Eduardo Pires de Souza

1. Introduo

Em maro de 2018, pouco mais de um ano aps sua posse, o presidente

americano Donald Trump cumpriu mais uma promessa de campanha,

adotando medidas protecionistas contra a China: taxou em 25% as

importaes de ao e em 10% as importaes de alumnio.

Em artigo publicado no Valor Econmico (07/03/2018), Martin Wolf, editor

do Financial Times, argumentou que a iniciativa de Trump deve ser o

comeo do fim da ordem multilateral de comrcio exterior, regulada por

normas, e criada pelos prprios Estados Unidos (substituda por uma ordem

baseada em barganhas bilateriais, guerras comerciais, etc. Segundo Trump,

as guerras comerciais so boas e fceis de vencer"). A tarifa de Trump tende

a levar a retaliaes e a um aumento da concorrncia pelos demais espaos

comerciais, o que pode levar a novas medidas protecionistas em outros

mercados, numa possvel guerra comercial. Isso tudo no contexto em que os

EUA abandonaram um amplo acordo plurilateral, chamado Parceria Trans-

Pacfica (TPP, na sigla em ingls), empenha-se em rever o NAFTA (o acordo

de livre comrcio da Amrica do Norte), e retirou ou reduziu apoio financeiro

a entidades e orguanismos internacionais (incluindo a ONU). Em lugar de uma

governaa internacional, o novo governo americano prope um jogo no

cooperativo, baseado em polticas nacionais, simbolizadas no slogan America

first.

Quais as razes invocadas para tais iniciativas? Foram fornecidas 3 tipos de

justificativas:

a) Segurana nacional, j que ao e alumnio so matrias primas bsicas para a produo de armamentos

b) Proteger os empregos e a produo das respectivas indstrias

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c) Reduzir os dficits comerciais americanos.

O primeiro argumento foi utilizado, provavelmente, apenas para que a medida seja enquadrada nas regras da OMC, e assim se precaver contra processos na instituio). Os dois outros, embora possam fazer sentido ao senso comum, no tem fundamento econmico. A idia de que o protecionismo aumento o nvel de emprego no sustentvel, pelo menos como uma afirmao de validade geral, to logo deixamos de analisar o que ocorre apenas nos setores protegidos e passamos a considerar os efeitos sobre a economia como um todo. Ao proteger a indstria do ao com tarifas elevadas, pode-se criar mais empregos neste setor, mas destri-se empregos em todos aqueles setores que utilizam o ao como insumo, j que estes passam a ser menos competitivos frente aos produtores externos, devido a elevao de seus custos.

Quanto ao segundo argumento, a idia de que proteger um determinado setor reduz o dficit comercial do pas, tem o mesmo vcio de raciocnio do argumento anterior, ou seja, de no considerar os efeitos sobre a economia como um todo. Veremos ao longo deste curso que um pas tem dficit em conta corrente quando tem um excesso de gastos em relao ao produto. Neste sentido, a reforma tributria aprovada por Trump, que foi considerada como sua maior vitria poltica desde o incio do governo, ao aumentar fortemente o dficit pblico, contribui para a elevao do dficit em transaes correntes (independentemente de qualquer poltica comercial). O que levou Martin Wolf a ironizar Trump, dizendo que sua mo esquerda no entende o que a mo direita est fazendo.

Enfim, este s um exemplo da importncia da teoria que estudamos na disciplina de economia internacional. H uma crtica frequente de que o curso de economia muito terico. A crtica vlida no sentido de que fundamental fazer a ligao entre a teoria e o mundo real. Porm, a teoria fundamental para que entendamos o mundo real para alm das aparncias, para alm do chamado senso comum. Esse um papel crucial da teoria.

Antes de finalizar esta introduo, cabe informar ao estudante que a disciplina de Economia Internacional normalmente decomposta em duas partes bem distintas, tanto no que se refere temtica quanto aos mtodos empregados: a teoria do comrcio e investimento internacionais e a macroeconomia aberta.

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A teoria do comrcio internacional tem como ponto de partida as seguintes questo: por que um pas exporta determinados bens e servios e no outros? Por que importa determinados bens e servios e no outros? O que determina o seu padro de comrcio (o perfil de suas exportaes e importaes)? decises privadas (eventualmente modificadas por polticas governamentais. Tais questes tem implicaes sobre as polticas de comrcio exterior, as regras do jogo do comrcio internacional, e assim por diante. Os efeitos de tais regras, e dos padres estabelecidos de insero internacional das diversas economias, para a produtividade, distribuio de renda e crescimento econmico so derivaes importantes da anlise econmica neste campo.

No presente curso estudaremos a outra parte da economia internacional, vale dizer, a macroeconomia aberta. Alguns de seus temas centrais, como em toda teoria macro so:

A determinao do nvel de produo e emprego (o grau de ocupao dos fatores de produo e como a poltica econmica pode ser empregada para que eles sejam usados plenamente) e a taxa de crescimento da capacidade produtiva e do produto (e portanto tambm da produtividade) ao longo do tempo; a especificidade agora que tais temas sero abordados no contexto de uma economia aberta do ponto de vista comercial, financeiro e do investimento produtivo;

os determinantes do saldo do balano de pagamentos (e de

alguns de seus componentes, como as transaes correntes);

a taxa de inflao.

Vejamos alguns exemplos de como a mudana do enfoque da macroeconomia fechada para a aberta pode alterar as concluses da teoria. O aumento da demanda agregada (por exemplo via expanso dos gastos pblicos) teria por efeito, numa economia fechada, um aumento da produo e do emprego (ou aumento dos preos caso a economia estivesse operando a pleno emprego). Numa economia aberta, no entanto, o efeito de uma expanso dos gastos domsticos pode no ser nem aumento da produo nem da inflao. Pode ser simplesmente aumento do dficit em conta corrente.

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Vocs devem ter aprendido tambm, em cursos de macroeconomia keynesiana, que um aumento do investimento leva a um aumento equivalente da poupana. Certo? Numa economia fechada, uma afirmao plausvel (em certas circunstncias), mas numa economia aberta, no. O aumento do investimento pode levar a um aumento do dficit em transaes correntes, caso em que est sendo financiado por poupana externa e no

por um aumento da poupana interna.

Vejamos um ltimo exemplo. O crescimento de uma economia depende do investimento e este depende, entre outras coisas, da taxa de juros. Mas como a taxa de juros determinada? Numa economia fechada basta pensar em fatores domsticos poltica monetria e demanda por moeda, por exemplo. Mas numa economia aberta os juros dependem de outros fatores como, destacando-se a mobilidade dos capitais entre os pases e a poltica monetria dos demais pases.

Portanto, numa economia aberta, as principais concluses dos modelos macroeconmicos quanto ao funcionamento da economia e aos efeitos das polticas econmicas so diferentes. E h uma varivel crtica que vai influenciar em grande medida como a economia se comporta e como reage choques externos e s polticas macroeconmicas. Esta varivel a taxa de cmbio.

Por isso, uma boa parte do curso dedicada explicao sobre os determinantes da taxa de cmbio (e os efeitos macroeconmicos das mudanas nas taxas de cmbio).

2. Taxa de cmbio: conceitos e medidas

A taxa de cmbio talvez o principal preo da economia, na medida em que regula todos os demais preos numa economia aberta. Em que sentido?

Primeiramente, no sentido em que os preos em moeda estrangeira, por exemplo, em dlares de todos os produtos nacionais so iguais aos preos em moeda domstica, traduzidos para dlares pela taxa de cmbio. Quanto custa, em dlares, um par de sapatos que vendido por R$ 180,00? Se a taxa de cmbio for R$ 3,00 por dlar, custa US$ 60,00. Mas se a taxa de cmbio cair para R$ 2,00 por dlar, custar US$ 90,00. O mesmo raciocnio

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pode ser feito para qualquer outro bem ou servio produzido no pas. E tambm, por adio, ao PIB do pas. Vejamos como.

O PIB brasileiro de pouco mais de R$ 6 trilhes. Se a taxa de cmbio for R$3,00 por dlar, o PIB valer US$ 2 trilhes (R$ 6 trilhes/3). Mas a taxa de cmbio baixar para R$ 2,00 por dlar o PIB subir para US$ 3 trilhes. Ento o conjunto dos preos da economia sobe ou desce quando a taxa de cmbio

varia.

Isso importa? Claro, e muito. Porque se todos os produtos do pas esto mais caros em dlar, os estrangeiros vo demandar menos bens e servios do pas, o contrrio ocorrendo se todos os produtos do pas estiverem baratos. E o mesmo vale para os consumidores do pas, que vo querer comprar mais bens e servios estrangeiros quando os produtos do pas ficarem relativamente mais caros em dlares.

Para ser mais preciso, uma mudana na taxa de cmbio no afeta igualmente os preos de todos os bens e servios. Se amanh a taxa de cmbio dobrar o efeito imediato seria, a princpio, uma reduo metade de todos os preos dos bens e servios nacionais, medidos em dlar. No entanto, dado o devido tempo (em alguns casos um tempo bem curto), a taxa de cmbio influenciar muitos dos preos em reais dos bens e servios. H produtos cujos preos em moeda nacional so mais sensveis taxa de cmbio do que outros. Tome-se, por exemplo, o preo da soja, que determinado nas bolsas internacionais de mercadorias, como a bolsa de Chicago. Ento o preo e transformado em reais pela taxa de cmbio. Neste caso, quando muda a tax