Edgar Morin Ciencia Com Con Ciencia

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O sculo 20 tem sido um sculo fecundo para a cincia, no qual desafios novos so colocados competncia explicativa das teorias, hipteses, premissas e leis fundadoras do pensamento cientfico moderno. A relatividade de Einstein, a microfsica, a termodinmica, a microbiologia tm ampliado o universo das indagaes dos cientistas, que cada vez mais se vem confrontados com novas verdades e com incertezas sobre algumas verdades h muito estabelecidas. Alm disso, novos campos de aplicao e novos usurios dos conhecimentos gerados nos laboratrios do to restrito universo da academia suscitam, felizmente, uma necessria reflexo tica no meio acadmico e fora dele. Cincia com conscincia enfrenta o duplo desafio: apontar problemas ticos e morais da cincia contempornea, cujos mltiplos e prodigiosos poderes de manipulao, nascidos das tecnocincias, tm imposto ao cientista, ao cidado e humanidade inteira o problema do controle poltico das descobertas cientficas, e a necessidade epistemolgica de um novo paradigma que rompa os limites do determinismo e da simplificao, e incorpore o acaso, a probabilidade e a incerteza como parmetros necessrios compreenso da realidade. Retomando a discusso sobre a cincia moderna, Edgar Morin critica o paradigma clssico que se fundava na suposio de que a complexidade do mundo dos fenmenos podia e devia resolver-se a partir de princpios simples e leis gerais. Estes princpios, que se revelaram fecundos para o progresso tanto da fsica newtoniana como da relatividade einsteiniana e da natureza fsico-qumica de todo organismo, no so mais suficientes para considerar a complexidade da partcula subatmica, da realidade csmica e dos progressos da microbiologia. Assim, enquanto a cincia clssica dissolvia a complexidade aparente dos fenmenos para revelar a simplicidade oculta das leis imutveis da natureza, hoje a complexidade co-

mea a aparecer, no como inimigo a eliminar, mas como um desafio a ser superado. Para o autor, enfrentar a complexidade do real significa: confrontar-se com os paradoxos da ordem/desordem, da parte/todo, do singular/geral; incorporar o acaso e o particular como componentes da anlise cientfica e colocar-se diante do tempo e do fenmeno, integrando a natureza singular e evolutiva do mundo sua natureza acidental e factual. Muitos desses problemas, tratados inicialmente na primeira edio de 1982, foram considerados impertinentes, sendo hoje admitidos pela maior parte da academia, como a idia do caos organizador, o problema paradigmtico da ordem, da desordem e da organizao, da complexidade, da auto-organizao. A contribuio de Morin tambm particularmente importante para as cincias sociais, vistas por muito tempo como impossibilitadas de desembaraar-se da complexidade dos fenmenos humanos para elevar-se dignidade das cincias naturais, com suas leis e princpios concebidos na ordem do determinismo; o que era visto como resduos no-cientficos das cincias humanas: a incerteza, a desordem, a contradio, a pluralidade e a complicao fazem parte hoje de uma problemtica geral do conhecimento. Como resposta a todos esses desafios, Morin, objetivamente, nos oferece, em oposio ao paradigma clssico da simplificao, os fundamentos do novo paradigma complexo, capaz de ampliar os horizontes da explicao cientfica, tanto nas cincias fsicas e biolgicas como nas sociais. Cincia com conscincia , portanto, uma referncia obrigatria para todos aqueles que tm se empenhado em participar da aventura da construo do novo esprito cientfico proposto por Bachelard, desde o incio do sculo. In Elias de Castro

Edgar Morin

Cincia com ConscinciaEdio revista e modificada pelo AutorTraduoMaria D. Alexandre e

Maria Alice Sampaio Dria

82 EDIO

BERTRAND BRASIL

B

Copyright Librairie Arthme Fayard, 1982, para os captulos 1.1,1.3,1.' 1-5,1.7,1.8,1.9, II.2, II.4, ILS, Il., II.7, II.8, II.9,11.10,11.11.

Copyright Editions du Seuil. 1990, prefacio e captulos 1.2,1.6, II. 1 e II.3.Ttulo original: Science avec Conscience

Capa: projeto grfico de Simone Villas Boas 2005 Impresso no BrasilPrinted in Brazil

CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. Morin, Edgar, 1921Cincia com conscincia / Edgar Morin; traduo de Maria D. Alexandre e Maria Alice Sampaio Dria. - Ed. revista e modificada pelo autor - 8" ed. - Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005. 350p. Traduo de: Science avec conscience Inclui bibliografia ISBN 85-286-0579-5 1. Cincia- Filosofia. 2. Teoria do conhecimento. 3. Cincia. I. Ttulo. CDD - 501 CDU - 50:1

M85c 8' ed.1

96-1238

Todos os direitos reservados pela: E D I T O R A B E R T R A N D BRASIL L T D A . Rua Argentina, 1 7 1 - 1 " andar - So Cristvo 20921-380 - R i o de Janeiro - RJ T e L ( 0 X X 2 1 ) 2585-2070 - Fax: ( 0 X X 2 1 ) 2585-2087 N o permitida a reproduo total ou parcial desta obra, por quaisquer meios, sem a prvia autorizao por escrito da Editora.

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SumrioPrefcioPRIMEIRA PAET

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Cincia com Conscincia 1. Para a cincia 2. O conhecimento do conhecimento cientfico 3. A idia de progresso do conhecimento 4. Epistemologia da tecnologia 5. A responsabidade do pesquisador perante a sociedade e o homem 6. Teses sobre a cincia e a tica 7. A antiga e a nova transdisciplinaridade 8. O erro de subestimar o erro 9. Para uma razo abertaSEGUNDA PARTE

15 37 95 107 117 125 135 141 157

Para o Pensamento Complexo 1. O desafio da complexidade 2. Ordem, desordem, complexidade 3. A inseparabilidade da ordem e da desordem 4. O retorno do acontecimento 5. O sistema: paradigma ou/e teoria? 6. Pode-se conceber uma cincia da autonomia? 7. A complexidade biolgica ou auto-organizao 8. Si e autos 9. Computo ergo sum (a noo de sujeito) 10. Os mandamentos da complexidade 11. Teoria e mtodo Referncias 175 195 207 233 257 277 291 311 323 329 335 343

Prefcio

Para esta nova edio, o plano do livro foi modificado, passando a comportar duas partes, a primeira denominada Cincia com Conscincia, e a segunda, Para o Pensamento Complexo. Alguns textos foram suprimidos e substituidos por outros, mais recentes, sobre os mesmos temas e dentro do mesmo esprito. Os textos novos so, na primeira parte, O conhecimento do conhecimento cientfico e Teses sobre a ciencia e a tica; na segunda parte, O desafio da complexidade e A inseparabilidade da ordem e da desordem. Suprimi o prefacio primeira edio, em que fiz questo de mostrar, com suporte de citaes, que j havia enunciado, entre 1958 e 1968, a maior parte de minhas idias sobre a cincia e a complexidade. Ser contestado, incompreendido, marginalizado causou-me mgoa profunda que, se no foi consolada, adormeceu com o tempo. Algumas idias lanadas neste livro, que foram consideradas impertinentes, so atualmente admitidas por um grande nmero de cientistas, como a do caos organizador. Se a reforma do pensamento cientfico no chegou ainda ao ncleo paradigmtico em que Ordem, Desordem e Organizao constituem as noes diretrizes que deixam de se excluir e se tornam dialogi-

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Cincia com Gonscimcia

camente inseparveis (permanecendo, entretanto, antagnicas), se a noo de caos ainda no concebida como fonte indistinta de ordem, de desordem e de organizao, se a identidade complexa de caos e cosmo, que indiquei no termo caosmo, ainda no foi concebida, s nos resta comear a nos engajar, aqui e ali, no caminho que conduz reforma do pensamento. Da mesma forma, o termo complexidade j no mais perseguido na conscincia cientfica. A cincia clssica dissolvia a complexidade aparente dos fenmenos para revelar a simplicidade oculta das imutveis Leis da Natureza Atualmente, a complexidade comea a aparecer no como inimigo a ser elirninado, mas como desafio a ser enfatizado. A complexidade permanece ainda, com certeza, uma noo ampla, leve, que guarda a incapacidade de definir e de determinar. por isso que se trata agora de reconhecer os traos constitutivos do complexo, que no contm apenas diversidade, desordem, aleatoriedade, mas comporta, evidentemente tambm, suas leis, sua ordem, sua organizao. Trata-se, enfim e sobretudo, de transformar o conhecimento da complexidade em pensamento da complexidade. No entrarei aqui nesse difcil reconhecimento e definio da complexidade, a que se consagra a segunda parte deste livro. S quero indicar que, mesmo quando tinha por objetivo nico revelar as leis simples que governam o universo e a matria de que ele constitudo, a cincia apresentava constituio complexa. Ela s vivia em e por uma dialgica de complementaridade e de antagonismo entre empirismo e racionalismo, imaginao e verificao. Desenvolveu-se apenas em e pelo conflito das idias e das teorias no meio de uma comunidade/sociedade (comunidade porque unida em seus ideais comuns e com a regra verificadora do jogo aceita por seus membros; sociedade porque dividida por antagonismos de todas as ordens, a compreendidas pessoas e vaidades). A cincia igualmente complexa porque inseparvel de seu contexto histrico e social. A cincia moderna s pde

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emergir na efervescncia cultural da Renascena, na efervescncia econmica, poltica e social do Ocidente europeu dos sculos 16 e 17. Desde ento, ela se associou progressivamente tcnica, tornando-se tecnocincia, e progressivamente se introduziu no corao das universidades, das sociedades, das empresas, dos Estados, transformando-os e se deixando transformar, por sua vez, pelo que ela transformava. A cincia no cientfica Sua realidade multidimensional. Os efeitos da cincia no so simples nem para o melhor, nem para o pior. Eles so profundamente ambivalentes. Assim, a cincia , intrnseca, histrica, sociolgica e eticamente, complexa essa complexidade especfica que preciso reconhecer. A cincia tem necessidade no apenas de um pensamento apto a considerar a complexidade do real, mas desse mesmo pensamento para consider