Edição 157

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Suicídio. Decida viver

Text of Edição 157

  • 330.nov.2012

  • 2Fotos: 3,14 e 17: Paulo Pasa/O Caxiense | 10: Maicon Damasceno, Arquivo/O Caxiense

    Um cardpio para perderpeso e ganhar sade

    Papai Noel no trabalha sozinho

    Acalmando a angstia para no acabar com a prpria vida

    30

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    Nova opode ensino adistncia

    A miss que rouba ateno dos mestres

    Os placares de uma jogadora de handebol

    Os 5 alimentos que levam mais veneno

    Nora e sogra casando no mesmo dia

    6.430 casas de caxienses em Arroio do Sal e um prefeito cassado

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  • 330.nov.2012

    decida viver

    por Daniela Bittencourt

  • 4de 2010, o jovem, que hoje tem 30 anos, j estava decidido a se suicidar. Era uma vontade de acabar com tudo, lembra. Saindo da empresa, caminhou pela Perimetral Bruno Segalla at che-gar ao bairro Cinquentenrio e sentou-se em uma praa, onde ficou quase at o meio-dia. Passei o dia caminhando, pensando. Estava predisposto a fazer aquilo, afirma. Se fosse realmente dar cabo da vida, como estava planejando, teria que procurar algum lugar isolado. Tomou um nibus at a Rota do Sol. Chegou at um bosque, avaliou o ta-manho das rvores, recebeu ligaes no celular que no foram atendidas.

    Era agonia o que Mateus sentia, e mais ainda uma vontade de acabar com a situao. Mas foi quando deci-diu terminar com a vida que ele des-cobriu que no queria morrer. Me dei conta de que aquela no era a soluo. Pensei muito no meu filho, no que ele iria pensar se acontecesse isso. Pensei nos meus irmos, meus tios, meus fa-miliares, em como eles iriam me ver depois disso, recorda.

    Assim como Mateus, a cada 100 pes-soas, 5 planejam suicdio ao longo da vida. Destas, 3 tentam o ato e uma che-ga a ser atendida em pronto-socorro, de acordo com informaes da Or-

    ganizao Mundial da Sade (OMS). Coordenador do Centro de Promoo da Vida e Preveno ao Suicdio no Hospital Me de Deus, o mdico psi-quiatra Ricardo Nogueira alerta que todos ns temos algum pensamento relacionado ao suicdio ao longo da vida. O cerne da questo que, assim como outros pensamentos, estes so passageiros. Pensar, todo mundo pen-sa em algum momento, mas nem todos planejam. Pensar a respeito comum, mas algo ser comum no significa que seja normal, ressalta. Nogueira aponta o suicdio como um problema de sade pblica. Em 2011, Caxias registrou 31 casos de bito por suicdio, de acordo com a Vigilncia Sade do munic-pio. Em 2012, o nmero de bitos j chegou a 32 at o ms de setembro, e foram registradas 227 tentativas at o ms de novembro.

    Definir as motivaes que levam ao ato um desafio tanto para profissio-nais da sade quanto para pesquisado-res do assunto. Mesmo j tendo sido apontado como terceira maior causa de morte de pessoas entre 15 e 35 anos pela OMS em 2001 a organizao es-tima que a cada 40 segundos uma pes-soaa cometa suicdio em todo o mundo

    , o assunto ainda tabu. Fora da rea da sade, e principalmente nos crcu-los sociais, pouco ou nada comen-tado. Mateus e ngela, personagens desta reportagem, so nomes fictcios para pessoas reais. Ambos preferiram no se identificar para preservar a si e famlia.

    Nogueira destaca 4 sentimentos como gatilhos para o suicdio: depres-so, desespero, desesperana e desam-paro. A boa notcia que alguns deles podem ser evitados, ou pelo menos trabalhados. Muitas vezes o pensa-mento vem em uma hora de desespe-ro: perdi o emprego, fui diagnosticado com alguma doena, terminei um rela-cionamento. Amanh, podem aconte-cer coisas melhores, mas at que estas coisas aconteam, a pessoa se desespe-ra, explica. Nesses momentos, falar a respeito pode contribuir para abortar a ideao suicida.

    Em Caxias, 23 voluntrios esto dis-ponveis no Centro de Valorizao da Vida (CVV) para ouvir, por telefone, qualquer tipo de desabafo. O apoio humanitrio pode ser acessado pelo telefone 3019-1141, das 8:00 s 22:00. O voluntrio do CVV busca ouvir o conflito, o sentimento, e estimula o de-sabafo. Ao desabafar, a pessoa acaba se

    A corda havia sido comprada h uma semana. Mateus acomodou-a sob a cami-seta, dentro de uma sacola plstica, e saiu. De nibus, foi at o bairro Esplanada, onde teria uma entrevista de emprego s 7:30. Mas, antes mesmo de ser chama-do pela psicloga para a conversa, pediu licena e deixou o local. O foco, naque-le momento, era outro. Quando saiu de casa, naquela manh nublada de maro

  • 530.nov.2012

    reconstruindo, entendendo que aquele um problema, mas um problema pontual que ela consegue transpor, diz Mirian Gemelli, coordenadora da ONG no municpio. Ela acredita que assim a pessoa se sente integrada, res-peitada, e consegue elaborar a dor: Ao falar, se coloca a dor para fora.

    O psiquiatra Nogueira lembra que a ansiedade pode estar presente em qua-se 90% dos casos de suicdio, e destaca que, na maioria dos atendimentos re-alizados aps uma tentativa, a vtima se mostra arrependida. Naquele mo-mento, deu um desespero e ela perdeu o controle, relata o mdico. Falar a respeito desse sentimento pode ajudar a diminuir a ansiedade e passar pelo momento sem danos vida.

    Para Mateus, o plano suicida foi in-terrompido quando ele pensou no fi-lho, que na poca tinha um ano e meio. Recm separado aps um relaciona-mento de 9 anos, Mateus havia voltado para Caxias depois de quase 15 anos morando em So Paulo. O filho con-

    tinuou na capital paulista com a me, onde os dois moram at hoje. Longe do filho e sem emprego em uma Caxias com a qual ele no tinha mais tantos vnculos, apesar de ter sido acolhido pelos tios e primos, Mateus perdeu as referncias. Sem elas, parecia no valer mais a pena continuar. Depois voc cai em si. Eu tenho um filho, e a voc fica pensando: mais l na frente, o que ele pode pensar?, analisa.

    Nogueira afirma que a pergunta que deve ser feita ao suicida por que ele vive, e no por que pensa em se ma-tar. Mesmo para os que garantem no ter motivao alguma para manter a vida, o mdico defende que possvel encontrar motivos pelos quais persis-tir: Quando um paciente me diz que quer se matar, sempre pergunto o que ele diria a um amigo que demonstrasse a mesma inteno. A resposta sempre : Eu aconselharia ele do contrrio. Bom, ento por a que a gente segue.

    Familiares, amigos e colegas de tra-balho podem ajudar a evitar o ato es-

    Em Caxias, a marca de 31 suicdios

    registrada no ano passado j foi

    ultrapassada em 2012. O Municpio planeja capacitar funcionrios para

    tratar da questo j nas UBSs

    Mateus, um sobrevivente |Paulo Pasa/O Caxiense

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    de 2010, o jovem, que hoje tem 30 anos, j estava decidido a se suicidar. Era uma vontade de acabar com tudo, lembra. Saindo da empresa, caminhou pela Perimetral Bruno Segalla at che-gar ao bairro Cinquentenrio e sentou-se em uma praa, onde ficou quase at o meio-dia. Passei o dia caminhando, pensando. Estava predisposto a fazer aquilo, afirma. Se fosse realmente dar cabo da vida, como estava planejando, teria que procurar algum lugar isolado. Tomou um nibus at a Rota do Sol. Chegou at um bosque, avaliou o ta-manho das rvores, recebeu ligaes no celular que no foram atendidas.

    Era agonia o que Mateus sentia, e mais ainda uma vontade de acabar com a situao. Mas foi quando deci-diu terminar com a vida que ele des-cobriu que no queria morrer. Me dei conta de que aquela no era a soluo. Pensei muito no meu filho, no que ele iria pensar se acontecesse isso. Pensei nos meus irmos, meus tios, meus fa-miliares, em como eles iriam me ver depois disso, recorda.

    Assim como Mateus, a cada 100 pes-soas, 5 planejam suicdio ao longo da vida. Destas, 3 tentam o ato e uma che-ga a ser atendida em pronto-socorro, de acordo com informaes da Or-

    ganizao Mundial da Sade (OMS). Coordenador do Centro de Promoo da Vida e Preveno ao Suicdio no Hospital Me de Deus, o mdico psi-quiatra Ricardo Nogueira alerta que todos ns temos algum pensamento relacionado ao suicdio ao longo da vida. O cerne da questo que, assim como outros pensamentos, estes so passageiros. Pensar, todo mundo pen-sa em algum momento, mas nem todos planejam. Pensar a respeito comum, mas algo ser comum no significa que seja normal, ressalta. Nogueira aponta o suicdio como um problema de sade pblica. Em 2011, Caxias registrou 31 casos de bito por suicdio, de acordo com a Vigilncia Sade do munic-pio. Em 2012, o nmero de bitos j chegou a 32 at o ms de setembro, e foram registradas 227 tentativas at o ms de novembro.

    Definir as motivaes que levam ao ato um desafio tanto para profissio-nais da sade quanto para pesquisado-res do assunto. Mesmo j tendo sido apontado como terceira maior causa de morte de pessoas entre 15 e 35 anos pela OMS em 2001 a organizao es-tima que a cada 40 segundos uma pes-soaa cometa suicdio em todo o mundo

    , o assunto ainda tabu. Fora da rea da sade, e principalmente nos crcu-los sociais, pouco ou nada comen-tado. Mateus e ngela, personagens desta reportagem, so nomes fictcios para pessoas reais. Ambos preferiram no se identificar para preservar a si e famlia.

    Nogueira destaca 4 sentimentos como gatilhos para o suicdio: depres-so, desespero, desesperana e desam-paro. A boa notcia que alguns deles podem ser evitados, ou pelo menos trabalhados. Muitas vezes o pensa-mento vem em uma hora de desespe-ro: perdi o emprego, fui diagnosticado com alguma doena, terminei um rela-cionamento. Amanh, podem aconte-cer coisas melhores, mas at que estas coisas aconteam, a pessoa se desespe-ra, explica. Nesses momentos, falar a respeito pode contribuir para abortar a ideao suicida.

    Em Caxias, 23 voluntrios esto dis-ponveis no Centro de Valorizao da Vida (CVV) para ouvir, por telefone, qualquer tipo de desabafo. O apoio humanitrio pode ser acessado pelo telefone 3019-1141, das 8:00 s 22:00. O voluntrio do CVV busca ouvir o conflito, o sentimento, e estimula o de-sabafo. Ao desabafar, a pessoa acaba se

    A corda havia sid